Cântico de Judite (Cf. Jd 16,1-17)

JuditeAo som de tamborins exaltai o Senhor,

ao som da cítara um hino Lhe cantai,

num cântico novo cantai o seu louvor,

em tudo e sempre o Seu santo Nome invocai!

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À guerra, o Senhor, quando quer, põe o fim,

pois de tudo e todos é o Senhor poderoso,

novo hino Lhe cantai ao som do tamborim:

“Senhor, Vós sois grande, invencível e glorioso”.

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Ao Seu acampamento Ele me reconduziu,

às mãos dos meus perseguidores me arrancou,

o assírio das montanhas do norte surgiu,

com milhares de guerreiros lá acampou.

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A sua grande multidão os vales cobria,

os seus cavalos pelas montanhas se espalhavam,

que queimava o meu território garantia

e matava à espada os jovens que apanhavam.

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Minhas crianças de peito ao chão atiraria,

as minhas crianças seriam sua possessão,

das minhas virgens nenhuma ele deixaria,

Betúlia ficaria de ruínas um montão.

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Mas o Senhor, Deus poderoso, fez-lhe frente

pelas mãos de uma humilde e indefesa mulher;

o seu Chefe, que era homem muito valente,

não morreu às mãos de um inimigo qualquer.

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Não foi um nosso valente e jovem guerreiro,

nem foi o filho de um Titã que o matou,

nem foi um gigante com um tiro certeiro,

mas foi Judite que a cabeça lhe cortou.

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Com a beleza do seu rosto ela o atraiu,

após o seu vestido de viúva despir;

ela, com perfume, o seu rosto ungiu,

depois, um vestido de linho foi vestir.

.

Os cabelos com uma tiara segurou,

pelo vestido de linho ela o seduziu,

na bela sandália os seus olhos fixou,

à sua beleza a sua mente não resistiu.

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Golpes da sua espada o pescoço lhe cortaram

os da Pérsia, pela sua audácia tremeram,

os da Média muito perturbados ficaram,

a sua coragem nunca mais esqueceram.

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Os humildes seus gritos de guerra soltaram,

o meu povo, em uníssono, lhes gritou,

os inimigos tremeram, desesperaram,

e o seu acampamento deserto ficou.

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Os inimigos, desorientados, perdidos,

sem dó, os filhos das servas, os trespassaram;

como fugitivos muitos foram feridos,

e outros, já mortos, ali, por terra, ficaram.

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Ao meu Deus  um cântico novo cantarei:

“Senhor, tu és grande, omnipotente, glorioso,

Vosso poder invencível exaltarei!

As criaturas vos sirvam, Deus maravilhoso”!

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A Vossa palavra as fez do nada sair

o Vosso Espírito as trouxe a esta vida,

nada nem ninguém pode à Tua voz resistir,

pois a Tua voz é poderosa sem medida.

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Águas revoltas os montes sacudirão,

os seus alicerces perdem a sua firmeza,

os rochedos como cera se fundirão,

diante de Ti tudo revela a sua fraqueza.

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Mas Tua misericórdia ainda mostrarás

àqueles que revelam Teu santo Temor,

pois é pouco o sacrifício que aceitarás

como oferta de puro e agradável odor.

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Quem teme o Senhor para sempre grande será!

Ai daquelas nações que o meu povo atacaram!

O Senhor, no dia do Juízo, as julgará,

porque elas contra o meu povo se levantaram.

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Nesse dia, se vingará delas o Senhor,

fogo e vermes sobre elas lhes enviará,

para sempre irão experimentar a dor

que, para sempre, delas se alimentará.

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Ezequiel Miguel

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- MAGNIFICAT…

Jesus na sinagoga de Nazaré

(Confira: Lucas 4, 16-30)

(Realidade & ficção)

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Sinagoga21É um sábado, o dia de os Nazarenos acorrerem à sinagoga de Nazaré para o habitual encontro catequético, presidido e orientado pelo rabino Chefe da Sinagoga.

O grande salão está a abarrotar de gente disposta a ouvir as leituras da Torá (Lei), dos Profetas e dos Salmos. Entre a multidão, perdido nela como qualquer um dos ouvintes, tal como alguns dos Seus discípulos, está Jesus, ouvindo atentamente o que as leituras proclamam sobre o Messias. Após as leituras e os comentários do rabi, é costume este perguntar se alguém quer ler e/ou comentar algum texto. Jesus não perde a ocasião e apresenta-se para o efeito. É-lhe entregue o rolo do profeta Isaías, que Ele vai desenrolando até surgir a passagem escolhida do profeta Isaías, que Ele lê pausadamente, majestosamente, com autoridade:

“ O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me consagrou. Ele enviou-me para levar a Boa-Nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar o ano da graça do Senhor, o dia em que o nosso Deus fará justiça; para consolar os tristes, para coroar os filhos de Sião; para mudar a sua cinza em coroa, o seu semblante triste em perfume de festa, e o seu abatimento em cânticos de alegria”( Is 61,1-3).

Enrola novamente o rolo, entrega-o ao Chefe da Sinagoga, faz silêncio, percorre, com o olhar, a assembleia e senta-se:

Jesus – Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem do profeta Isaías, pois é a Mim que ela se refere.

Segue-se um burburinho, surgindo comentários de protesto em vários pontos do salão.

Sinagogo - O que é que estás para aí a dizer? Mas quem é que tu te julgas? Bebeste demais ou estás sob o efeito de um ataque de loucura? Se tu és o Messias, eu sou o imperador romano! Acaso não te conhecemos desde que vieste para Nazaré há uns 26 anos? Não conhecemos também os teus pais e o resto da tua família? Não te vimos brincar com os meninos de Nazaré? E agora viras profeta ou, pior ainda, elevas-te a Messias, mais um dos muitos que têm surgido por todo o lado! Acautela-te, para que não tenhas a mesma sorte dos outros! Antes de dizeres que és o Messias, tens de demonstrá-lo!

Jesus – Agora que já puseste em público as tuas dúvidas e as tuas certezas, vou explicar-vos o que sou, quem sou, o que faço e aquilo que vos proponho. Não me julgueis nem me condeneis antes de me ouvir, o princípio básico de justiça. É certo que me conheceis desde criança, mas deveis saber que Eu nasci em Belém de Judá, como anunciado pelo profeta Miqueias, e o meu nascimento foi manifestado ao mundo por uma estrela nova que surgiu sobre Belém. À vossa frente está o Messias, Aquele que o Povo espera há tantos séculos. Eu demonstrarei que sou o Messias profetizado, se acreditardes em Mim.

Sinagogo – Mas, espera aí! Se nasceste em Belém, porque vieste parar a Nazaré? Como é que escapaste à espada de Herodes, que mandou matar todos os meninos até à idade de dois anos?

Jesus – Não lestes o profeta, que diz: “ Uma voz se ouviu em Ramá. É Raque, que chora e não quer ser consolada, porque os seus filhos já não existem” (Jer 31, 15)? Como escapei a Herodes? O Meu verdadeiro Pai, que também é o vosso Pai do Céu, enviou o Anjo Gabriel a José com a ordem de fugir com o Menino e Sua mãe para o Egipto e por lá ficar até que Herodes morresse. Quando ele morreu, o Anjo deu ordenou a José que regressasse e viesse viver em Nazaré. A partir daí, já conheceis a Minha história passada, como menino e homem adulto, mas há uma parte da Minha História que só agora começa a ser revelada, porque chegou a hora que o Pai do Céu Me marcou para Eu a iniciar. E ela já começou. Sois todos convidados a fazer Comigo essa Nova História, que será a História de um novo Israel.

Sinagogo – Mas então, se tu és o Messias e dizes que Yahweh é o teu verdadeiro pai, qual é o papel de José, o esposo de Maria, tua mãe?

Jesus – O Messias é o Filho de Deus feito Homem, sem deixar de ser Deus, por isso, ele não poderia ter um homem por pai. Eu sou o Messias, Deus e Homem, pois a Deus nada é impossível. José foi o verdadeiro esposo de Maria, mas não foi meu pai segundo a carne. Ele cumpriu a sua missão de guarda, de protector de Minha Mãe e de Mim, para que Eu, segundo a Lei, tivesse legalmente um pai e minha mãe tivesse legalmente um esposo.

Secretário – Queres então dizer que és mais que um profeta, pois todos eles foram simplesmente homens, filhos de um homem e de uma mulher!

Jesus – Dizes bem! Sou mais que um profeta e fui Eu que vos enviei todos os santos profetas de que ouvistes falar.

1º Nazareno – Então, o João Baptista é aquele que vai à tua frente a preparar os teus caminhos, como diz o profeta Isaías! É isso?

Jesus – É isso mesmo! Ele vai à minha frente para dar testemunho de Mim e ele é o último profeta da Velha Aliança. Eu venho convidar o meu povo para estabelecer comigo uma Nova Aliança, que será eterna.

2º Nazareno – E o que se passará com as vítimas? Continuaremos a sacrificar cordeiros e outros animais? Da Velha Aliança, que é a nossa, não se aproveitará nada?

Jesus – Os sacrifícios com animais vítimas serão abolidos, pois já não farão sentido, porque haverá uma única Vítima que tornará inúteis todas as outras vítimas. A Lei e os profetas não serão abolidos, mas serão aperfeiçoados, para que um novo povo nasça e dê glória a Deus. Quem quiser entrar neste Novo Povo terá de ser meu discípulo, discípulo do Messias, o Cristo profetizado e agora já entre vós.

3º Nazareno –E quem será essa única vítima?

Jesus – Serei Eu! E só posso ser Eu, porque somente Eu, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, poderei remir a Humanidade e abrir as portas do Céu aos Justos que esperam no Seio de Abraão e a vós, quando chegar a vossa hora.

Sinagogo - Isso que dizes é blasfémia! Tu deves estar a delirar ou estar possesso de Belzebú!

Jesus –Não estou a delirar e nem Belzebú nem qualquer outro demónio tem poder sobre Mim. Eu domino nos Céus, na Terra e nos Infernos, por isso, todos os poderes Me estão submetidos. Eu vim a este mundo para destruir as obras de Satanás, que é o rei deste mundo. Ele, o príncipe do Mal, reina sobre as almas em pecado e Eu vim para as libertar dessa escravidão. É a esta realeza e a esta libertação que os profetas se referem quando falam de Mim. Eu sou o Libertador, o Salvador que veio ao mundo para que todos os homens se libertem das garras de Satanás e alcancem a Vida Eterna em Deus.

Secretário – Mas os profetas dizem que o Messias será Rei de Israel! Queres então dizer que não vais restaurar a Monarquia e expulsar os Romanos?

Jesus – Eu vim à Terra para instaurar o Reino de Deus, um Reino Espiritual, um Reino das Almas, por isso, esses assuntos são políticos e compete aos homens lidar com eles. A Deus somente interessam as almas, porque foi Dele que elas vieram e é para Ele que elas devem voltar. É isso que se chama a salvação.

3º Nazareno – Então… e o que tencionas fazer da Lei de Moisés? Vais destruí-la, pô-la de lado, modificá-la?

Jesus – Moisés recebeu a Lei e deu-a a conhecer, vigorando até hoje. Fui Eu que a dei a Moisés, logo, essa lei é de Yahweh. As vossas autoridades cometeram abusos introduzindo nela abusos que a tornaram um tremendo fardo. A Nova Lei vai ser mais simples, mais eficaz e mais fácil de cumprir. Quem a aceitar e a cumprir ficará filho adoptivo de Deus, com direito à Sua Herança, a Vida Eterna no paraíso.

4º Nazareno – Como caracterizas a Nova Aliança, que dizes querer fundar?

Jesus – A Nova Aliança será fundada no Meu Corpo e no Meu Sangue, pois Eu sou a Única Vítima que agrada a Yahweh. O Meu Corpo será sacrificado e o Meu Sangue será derramado, em expiação pelos pecados dos homens: os do passado, os do presente e os do futuro. O Decálogo continuará, os Profetas também e a Lei será depurada do que for inútil e purificada. O Decálogo será resumido a “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. A lei do Amor exigirá que ameis os vossos inimigos. A vossa lei de Talião (olho por olho, dente por dente) será abolida e perdoareis as ofensas que vos fizerem, sem nenhum tipo de vingança. Perdoareis sempre; não haverá distinção entre homens e mulheres, entre escravos e livres, entre patrões e servos, entre súbditos e reis,…isto é, para Deus serão todos iguais e serão tratados do mesmo modo. Isto já é uma parte da Boa Nova que ando a divulgar e que vos convido a aceitar.

Segue-se um movimento de aplauso da multidão, pois todos acham que será um novo mundo que está a ser anunciado:

5º Nazareno – Bravo! Nunca no mundo se ouviu quem falasse assim, tão certo, seguro e convincente. Acredito que és mesmo o Messias de Deus!

Sinagogo – Parece tudo muito bonito, mas a tua imaginação é um poço sem fundo. Talvez seja melhor ires pregar as tuas teorias entre os romanos ou entre os outros povos pagãos, mas nós continuaremos com a Lei de Moisés, como até aqui. Nós não acreditamos em nada do que dizes, porque te conhecemos bem desde criança e nunca deste sinais de ser o que agora dizes ser. Mas estamos dispostos a dar-te o benefício da dúvida. Já nos chegou aos ouvidos que em Cafarnaúm fizeste por lá umas magias e convenceste alguns, que acreditaram em teus milagres. Faz isso também aqui! Combina connosco um dia e uma hora e farás uso dos teus poderes divinos curando todos os doentes, paralíticos, leprosos, surdos, mudos, doentes mentais e físicos que te apresentarmos. Cura-os todos e nós acreditaremos em ti. Temos de ver para crer!

Jesus – Se vós não acreditais que Eu posso fazer o que dizes, não poderei fazer nada por vós! O Reino dos Céus chegou até vós, mas ficareis à porta, porque não entrareis nele. Aquilo que vós recusais será oferecido aos pagãos; a vinha que o Senhor vos entregou será oferecida a outros povos que darão fruto. O Messias, o Cristo de Deus, passou por vós, mas vós O rechaçais como embusteiro, visionário, mágico, mentiroso,…Morrereis no vosso pecado, porque a Graça, que sou Eu, foi pisada como se fosse erva daninha e venenosa. É bem certo que nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Eu quisera deixar-vos uma lembrança da Minha passagem entre vós, curando todos os doentes do corpo e da alma, mas falta-vos algo importante: fé em Mim e boa vontade. Sem isto, não Me dais condições para vos mostrar o Meu poder. Acontecerá convosco o que aconteceu com os profetas Elias e Eliseu, os quais realizaram milagres fora de Israel. Elias, no tempo de uma tremenda fome em Israel, foi enviado a uma viúva de Sarepta para lhe multiplicar o alimento; Eliseu curou apenas a lepra do sírio Naaman, excluindo todos os leprosos de Israel.

Sinagogo – Ouvistes tudo isto? Nós não queremos nada com Ele! Vamos expulsá-lo de Nazaré e deitá-lo abaixo do monte. Vamos cercá-lo, para que não se escape. Teremos o prazer de o fazer voar do monte abaixo, pois, se tem tantos poderes, se é o Messias, o Filho de Yahweh, irá voar como os passarinhos e aterrar suavemente lá em baixo. Até porque está escrito: “Yahweh enviará os seus anjos para que te protejam e não te magoes nas pedras do caminho” (Salmo 90). Vamos a ele! Os que puderem deitem-lhe a mão e segurem-no bem. Vamos ver em que dão os seus poderes!

E Jesus, cercado logo por um grupo de nazarenos corpulentos, foi expulso da sinagoga. A multidão acompanhou-O até ao alto do monte, sem que Maria e alguns apóstolos pudessem fazer fosse o que fosse em favor de Jesus. Quando chegaram ao ponto mais alto, Jesus deixou-se aproximar do precipício, ficou a mirar a paisagem por uns momentos, virou-se para a multidão, olhou-a de um lado ao outro em sua pose imponente, séria, majestática, e, de repente, encetou o caminho do regresso, passando pelo meio deles sem que alguém levantasse uma mão contra Ele. Ficaram todos paralisados! Tudo, porque ainda não tinha chegado a Sua hora, a hora que o Pai Lhe marcara.

Do Evangelho: “Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-nO fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho” (Lc 4,30).

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Ezequiel Miguel

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Salmo 77(78) – Lições da História de Israel

travessia

Escutai, povo meu, que vos quero instruir!

Das minhas palavras sede atentos amigos,

que em forma de provérbios as vou proferir,

para revelar mistérios dos tempos antigos.

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Aquilo que temos de nossos pais ouvido,

o que eles, dia após dia,nos têm contado,

não deve ficar de seus filhos esquecido,

mas pelas gerações deve o Senhor ser louvado.

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Pois Ele grandes maravilhas operou,

tendo promulgado uma lei divina em Jacob.

Então, a todos os nossos pais ordenou

que a dessem aos filhos, por não ser deles só.

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Para que o soubessem as gerações seguintes

e os filhos que delas viessem a nascer;

para que estes, dos preceitos de Deus ouvintes,

os ensinassem aos seus que viessem a ter.

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Ergam-se e a seus filhos dêem a conhecer

que a sua esperança em Deus devem colocar,

que as maravilhas de Deus não são para esquecer

e que os Seus mandamentos devem observar!

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Para que não se comportem como os seus pais,

geração contumaz, de cerviz arrogante,

sem coração recto, obstinado demais,

de espírito infiel, insubmisso e provocante.

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Os filhos de Efraim, na linha dos archeiros,

no dia do combate todos debandaram,

calcaram a Aliança como uns desordeiros,

quando à Lei de Deus fidelidade negaram.

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Esqueceram-se das Suas façanhas gloriosas,

daqueles prodígios que outrora lhes mostrou;

perante os seus pais fez obras maravilhosas

nas planícies do Egipto, de onde Ele os tirou.

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Dividiu o mar e o povo em seco passou,

conteve as águas, divertidas em tal jogo,

através de branca nuvem de dia o guiou

e de noite, por meio de um clarão de fogo.

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Abriu fendas nas duras rochas do deserto,

dando-lhes a beber das águas daí correntes,

fez brotar rios das pedras ali por perto,

fez correr águas em caudalosas torrentes.

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Eles, porém, continuaram sempre a pecar

e a revoltarem-se contra Deus no deserto;

os seus corações insistiam em Deus tentar,

exigindo o alimento que julgavam certo.

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Contra o Senhor entraram em murmuração:

“Acaso poderá Deus pôr aqui a mesa?

Poderá Ele também dar-nos carne e pão?”

E água veio da rocha, qual aberta represa.

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Ao ouvir tudo isto, a ira de Deus se ateou,

contra Jacob irrompeu Sua indignação,

a Sua cólera contra Israel disparou,

por não terem confiado na Sua protecção.

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Apesar disso, às nuvens do alto imperou

para que as portas do céu deixassem abrir,

o pão do Céu como alimento então lhes doou,

mandando o Maná sobre o deserto cair.

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Então,o pão dos fortes lhes deu a comer,

comida abundante para a todos saciar,

ao vento leste deu ordens para aparecer

e ao vento sul deu vigor para forte soprar.

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Foi então que decidiu carne lhes enviar,

abundante, como se fossem grãos de poeira,

aves numerosas como as areias do mar

caíram entre eles como o grão cai na eira.

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Caíram as aves no meio do acampamento,

ali mesmo ao redor deles e das suas tendas;

eles comeram, sem que houvesse enfartamento,

indo o Senhor ao encontro de suas contendas.

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Eles comeram, fartando-se à saciedade

e assim o Senhor satisfez o seu desejo;

ainda o seu apetite era de tenra idade,

quando à ira do Senhor deram novo ensejo.

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Ainda a comida em suas bocas se desfazia,

quando o Senhor Deus contra eles se virava,

então, a morte entre os mais fortes fez razia

e aos jovens de Israel as suas vidas tirava.

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Apesar disso, continuaram a pecar,

ousando não acreditar em Seus prodígios;

com sopro de terror fez os seus dias finar,

como os seus anos, sem deles deixar vestígios.

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Quando os castigava, eles O procuravam

e regressavam de novo ao seu Protector;

então, de Sua protecção se lembravam

e também de que Deus era o seu Redentor.

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Mas eles, com suas bocas, a Deus enganavam

e com suas línguas a verdade não diziam;

em seus corações a mentira proclamavam

e da fidelidade à Aliança fugiam.

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Ele da face da Terra não os varria

e, compadecido, os pecados lhes perdoava,

a Sua cólera muitas vezes reprimia

e a Sua ira apenas em parte executava.

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Da carne de que eram tecidos se lembrava,

assim lhes perdoando a atrevida rebelião,

um sopro fugidio que não mais regressava.

Como O contristavam naquela vastidão!

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De novo ofendiam o Deus misericordioso,

o que o Santo de Israel muito amargurou;

esqueceram-se do Seu braço poderoso

quando da opressão do Egipto os libertou.

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Quando os Seus milagres no Egipto realizou,

seus prodígios nos campos de Suão ostentando,

rios e regatos em sangue transformou,

imprópria para beber a água deixando.

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Enxames de moscas, exércitos de rãs

em casas e campos os atormentaram,

os gafanhotos tornaram as culturas vãs,

das colheitas eles se apropriaram.

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Com granizadas as suas vinhas flagelou

e também os seus sicómoros, com a geada;

febres e pestes aos seus animais enviou,

deixando os rebanhos reduzidos a nada.

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A Sua cólera sobre eles descarregou

em calamidades, penas, desolação;

uma legião de anjos da desgraça chamou,

abrindo assim caminho à Sua indignação.

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A Sua ira entregou-os de presente à morte,

contra a peste tiveram que lutar suas vidas,

seus primogénitos feriu de mortal sorte,

as primícias da sua raça em Cam colhidas.

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Guiou-os pelo deserto como uma manada,

como um rebanho fez o Seu povo sair,

seguros os conduziu, sem medo de nada,

vendo o mar os seus inimigos submergir.

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Na Sua Terra Santa Ele os introduziu,

na montanha que para eles conquistou;

diante deles nações inimigas baniu

e o seu espólio em suas mãos lhes depositou.

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Mas eles de novo o Altíssimo ofenderam

e Seus mandamentos repudiaram;

tal como seus pais, o amor ao seu Deus perderam,

como setas de arco frouxo, assim se desviaram.

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Ofenderam-No mesmo lá no alto dos montes,

onde os seus ídolos O provocaram;

Deus ouviu, abriram-se da Sua ira as fontes

e abandonou a Tenda que Lhe levantaram.

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Para o cativeiro deixou ir a Arca da Aliança,

deixando ao inimigo o Seu Poder e Glória,

justamente se enfureceu contra a Sua herança

e lhe negou a não merecida vitória.

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Viram seus jovens pelo fogo devorados

e as suas virgens sem hipóteses de casar,

os seus sacerdotes pela espada passados

e suas viúvas sem lágrimas para chorar.

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Mas o Senhor despertou como de um sono

e como de embriaguez o Seu poder surgiu:

Derrubou os inimigos, por trás, de seus tronos

e uma humilhação eterna lhes infligiu.

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As tendas de José para sempre rejeitou

e a tribo de Efraim também não escolheu,

mas a tribo de Judá seleccionou,

o santuário de Silo para Sião deslocou.

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Alto como o céu o Seu santuário ergueu,

como terra firme para sempre o elevou,

Seu servo David, jovem pastor, escolheu

e sobre o trono de Judá o colocou.

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Das tarefas pastoris o quis libertar,

tirando-o do cuidado das ovelhas e crias,

para o povo de Jacob recto apascentar,

guiar, prudente, o povo de Israel por novas vias.

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Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – V

13 de Setembro de 1917

O número de crentes nas Aparições aumentara substancialmente, pelo que, na manhã do dia 13 de Setembro, as casas dos Pastorinhos foram literalmente invadidas por peregrinos que queriam ver as crianças, falar com elas e apresentar os seus pedidos, no sentido de alcançarem curas ou solução para outros problemas, esperando que chegasse a hora de acompanhá-las à Cova da Iria.

Os caminhos que conduziam à Cova da Iria estavam apinhados de gente que queria simplesmente estar lá para conhecer as crianças e para, possivelmente, se aperceberem de qualquer sinal visível da presença da Mãe de Deus. Naquelas mentes e naqueles corações iria também a manifestação pública da fé, a devoção filial e a oportunidade de estarem mais perto daquela que é a Consoladora dos Aflitos, o Refúgio dos Pecadores, a Intercessora para todos os problemas… Desta vez já não eram somente as pessoas das aldeias próximas, mas já lá havia gente de Lisboa, jornalistas, seminaristas, sacerdotes…, uns, já crentes nas Aparições, outros, ainda desconfiados e aventando ainda a hipótese de se tratar tudo de um embuste demoníaco, o que os levava a um comportamento cauteloso e expectante, preferindo não se aproximarem muito do centro do fenómeno, não fosse advir daí alguma coisa infernal…

Mas estes acalmaram suas dúvidas quando viram, “claramente visto”, como diria Camões, um globo de luz, vindo de Nascente para Poente, e percorrendo, lenta e majestosamente, o espaço aéreo na direcção da Cova da Iria, pousando de seguida sobre a pequena azinheira, o que levou os peregrinos a ajoelharem silenciosamente, enquanto a Conversa com a Senhora durou. Fala-se ainda de um súbito refrescar da atmosfera, do sol que empalideceu, de estrelas que se viam na semi-escuridão, de uma chuva de algo parecido com pétalas, que se desvaneciam ao tocar o solo, fenómenos não vistos por todos, mas apenas por alguns, que não escondiam a sua tristeza pelo facto.

Das Memórias da Ir. Lúcia:

“Ao aproximar-se a hora, lá fui, com a Jacinta e o Francisco, entre numerosas pessoas que a custo nos deixavam andar. As estradas estavam apinhadas de gente. Todos nos queriam ver e falar. Ali não havia respeito humano. Numerosas pessoas, e até senhoras e cavalheiros, conseguindo romper por entre e multidão que à nossa volta se apinhava, vinham prostrar-se de joelhos, diante de nós, pedindo que apresentássemos a Nossa Senhora as suas necessidades. Outros, não conseguindo chegar junto de nós, chamavam de longe:

- Pelo amor de Deus, peçam a Nossa Senhora que me cure o meu filho, que é aleijadinho!

Outro:

-Que me cure o meu, que é cego!

Outro:

- O meu, que é surdo!

- Que me traga o meu marido!…

-…meu filho, que anda na guerra!

- Que me converta um pecador!

- Que me dê saúde, que estou tuberculoso!

Etc., etc.

Ali apareciam todas (as) misérias da pobre humanidade. E alguns gritavam até do cimo das árvores, para onde subiam, com o fim de nos verem passar. Dizendo a uns que sim, dando a mão a outros para os ajudar a levantar do pó da terra, lá fomos andando, graças a alguns cavalheiros que nos iam abrindo passagem por entre a multidão. Quando agora leio no Novo Testamento essas cenas tão encantadoras da passagem de Nosso Senhor pela Palestina, recordo estas que tão criança ainda Nosso Senhor me fez presenciar nesses pobres caminhos e estradas de Aljustrel a Fátima e à Cova da Iria e dou graças a Deus, oferecendo-Lhe a fé do nosso bom povo português, e penso se esta gente se abate assim diante de três pobres crianças, só porque a elas é concedida misericordiosamente a graça de falar com a Mãe de Deus, que não faria se visse diante de si o próprio Jesus Cristo?…Chegámos, por fim, à Cova da Iria, junto da carrasqueira, e começámos a rezar o Terço com o povo. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, a seguir, Nossa Senhora sobre a azinheira.” (1)

Aparição

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

Virgem Maria (V.M.) – Continuem a rezar o Terço, para alcançarem o fim da guerra! Em Outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo e S. José, com o Menino Jesus, para abençoarem o mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda; trazei-a só durante o dia!

Lúcia – Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas: Esta pequena é surda-muda. Não a quer curar?

V.M. – Durante o ano experimentará algumas melhoras.

Lúcia – Tenho muitos pedidos de conversões e de curas…

V.M. – Sim, alguns, curarei; outros, não, porque Nosso Senhor não se fia neles.

Lúcia – O povo gostava muito de ter aqui uma Capela!

V.M. – Empreguem metade do dinheiro, que até aqui têm recebido, nos andores, e sobre eles ponham Nossa Senhora do Rosário; a outra parte será destinada a ajudar a construção duma Capela.

Lúcia – Há muitos que dizem que eu sou uma intrujona, que merecia ser enforcada ou queimada. Faça um milagre para que todos creiam!

V.M. – Sim, em Outubro farei um milagre para que todos acreditem.

Lúcia – Umas pessoas deram-me duas cartas para Vossemecê e um frasco de água de Colónia.

V.M. – Isso de nada serve para o Céu!

E, começando a elevar-se, desapareceu, como de costume.”

Depois destas palavras, a branca Visão despede-se e eleva-se no ar…A Lúcia grita então para o povo:

Lúcia – Se querem vê-La, olhem para ali! – e indica o Nascente… (2)

(1)– Memórias da Ir. Lúcia

(2) P. João M. de Marchi – Era uma Senhora mais brilhante que o sol – 8ª Edição, pgs.165-171

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Ezequiel Miguel

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. Aparições da Virgem Maria em Fátima – III

. Aparições da Virgem Maria em Fátima – IV

. Aparições da Virgem Maria em Fátima – VI

. A mãe de Lúcia e as aparições de Fátima

. A mãe de Lúcia – crer ou não crer

. Lúcia e o sr. Prior

. 1ª Aparição do Anjo em Fátima – I

. 1ª Aparição do Anjo em Fátima – II

. 1ª Aparição do Anjo em Fátima – III

. 1ª Aparição do Anjo em Fátima – IV

. 1ª Aparição do Anjo em Fátima – V

Salmo 94 (95) – Oxalá escutásseis hoje a voz do Senhor!

Vinde de alegria no Senhor exultar,

aclamemos a Deus, que é o nosso Salvador,

vamos à Sua presença para graças Lhe dar,

ao som dos hinos aclamemos o Senhor!

.

Admirável é o Senhor pelas Suas grandezas,

por Seus atributos e virtudes tamanhas,

em Sua mão descansam da Terra as profundezas

e a Ele pertencem os cumes das montanhas.

.

Por ter sido Ele Quem os fez, são Seus o mar

e a terra firme, que pelo seu poder formou;

vinde, vamos ante o Senhor nos ajoelhar,

adoremos o nosso Deus,  que nos criou!

.

Porque Ele é o nosso Senhor e o nosso Deus

e nós somos o rebanho do Seu redil;

nós somos as ovelhas e os cordeiros Seus,

que Ele apascenta em pastos com cuidados mil.

.

Oxalá ouvísseis hoje a voz do Senhor:

“Cuidado! Os corações não endureçais,

como em Meribá, incitando o Meu furor,

quando fui provocado pelos vossos pais.

.

Mesmo observando Minhas obras, Me tentaram

e Eu disse: São sempre estes corações errantes

que nunca por Meus rectos caminhos entraram!…

Geração transviada, do seu Deus provocantes!

.

Geração que não conheceu os Meus caminhos!…

Então, magoado, na Minha ira jurei:

Vou abandoná-los no deserto, sozinhos,

e de entrar no Meu repouso os impedirei.”

.

Ezequiel Miguel

A rebelião de Coré (Cf. Números 16 )

(Realidade e Ficção)

 .

Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –   Meribá (= Disputa)  e Massá  (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan),  Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

 .

“ Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” ( na Terra Prometida)(Salmo 95/96)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida,  onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel, ocupada entretanto por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números,  do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico e registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido  e meditado sob diversos ângulos por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento dele nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente nos filmes “os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra  prometida , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura , era, e ainda é,  o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo.  Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus  erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida  em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem,  Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé  e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas  de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá  (disputa)e Massá  (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”:

Coré – Olha lá, Moisés!  Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yhaweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés –  “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para  vos honrar perante a comunidade,  entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós  e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio .  Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh  fará conhecer quem é dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante  de Yahweh. Aquele que ele escolher, esse é o homem que lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora,  chamo  aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

Abiram – Eu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne,  sem vinho, sem uvas,  com  água potável só de vez em quando!  De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e  um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste com um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos idiotas, tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui!  Se tu, lá no Egipto foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teu truques, de morrermos  à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram –  Temos saudades das refrescantes  cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados!  Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para  a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda) da Reunião  com Moisés e Aarão”.

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão, afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés  e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH –“ Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui  morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

Lições a tirar:

1. A História de um povo faz-se com Deus ou contra Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar com tantos pormenores e milagres  a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem  pertenceriam,  por direito, esses territórios, onde a paz é árvore que não deita raízes.

Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe-nos muitas vezes à prova, a nossa fé Nele,com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, muitas vezes para nos levar a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.(…)

2. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, sem perguntar a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Ele bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e lá foi, baseado na promessa da protecção de  Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”!  Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!

3.  Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas  que exercem autoridade sobre nós, quer  definitivamente  quer  temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo  S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra  as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.

4. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube,  no quartel, na paróquia, no Movimento da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver um murmurador, seja ele quem for, …afaste-se dele quanto antes,  seja quem for  e seja onde for. Encare-o como um virus mortal e evite-o, se não puder exercer nele a correcção fraterna!

5.  Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz,  para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!

6. Quem despreza um profeta de Deus, despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive, outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo quase todos de perseguições, maus trato, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de quem tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição mensagens proféticas teve enormes custos para  Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo o mundo.

7. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências  trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo”. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

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SALMO 62 (63) –Vós sois o meu Deus… por Vós suspiro

Senhor, Vós sois o meu Deus e por Vós suspiro!

É por Vós que desde a aurora a minha alma anseia

em ânsias que das minhas profundezas tiro,

como terra seca a chorar por fértil veia.

.

Para ver a Vossa glória e Vosso poder

quero no Vosso santuário Vos contemplar!

Vale menos a vida do que em graça viver

e com meus lábios Vos hei-de sempre louvar!

.

Assim, eu por toda a vida Vos bendirei,

em Vosso louvor minhas mãos se erguerão,

com saborosos manjares me saciarei,

hinos de louvor da minha alma sairão!

.

Quando, em meu leito, para Vós voa meu pensamento,

ele me acompanha nas horas que a noite dura;

porque sois o meu refúgio no sofrimento,

sob Vossas asas é a noite menos escura.

.

A Vós, Senhor, quero permanecer unido!

Com a Vossa mão protectora me amparai!

Os que pela morte já me julgam colhido…,

esses…nas profundezas da terra os deixai!

.

Eles não serão poupados pelo fio da espada,

serão para os chacais presas apetecidas,

quando a boca dos ímpios for desactivada.

Receba Deus dos fiéis e do rei honras merecidas!

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Ezequiel Miguel

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