A Ressurreição de Jesus (Jo 28, 1-10)

Jesus20Despontava o primeiro dia

quando a cidade estremeceu.

Jesus do sepulcro saía,

depois que Ele a morte venceu.

.

Descendo lá do alto Céu,

um anjo a pedra removeu

e, vestido de branco véu,

para seu assento a escolheu.

.

Chegou a Maria Madalena

e com ela outra Maria,

ficando intrigadas na cena:

no sepulcro ninguém se via.

.

A Terra acordou e tremeu,

os guardas se encheram de medo

e nenhum deles compreendeu

o que se passava tão cedo.

.

O anjo as mulheres acalmou:

Não busqueis o Crucificado,

pois Ele já ressuscitou

e entre os mortos não é contado

.

De acordo com o que anunciara,

já hoje Ele ressuscitou.

Eis o túmulo que ocupara…

que vazio para sempre deixou.

.

Ide aos discípulos contar

que Jesus já ressuscitou,

na Galileia vai esperar.

Foi o recado que deixou”.

.

Ezequiel Miguel

O Sinédrio e a Ressurreição de Cristo

(Realidade & ficção)

 .

templo jerusalem“Jesus disse-lhes (às mulheres): Não temais! Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão.

Enquanto elas iam a caminho, alguns dos guardas foram à cidade participar aos sumos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. Eles reuniram-se com os anciãos; e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: “ Dizei isto: “De noite, enquanto dormíamos, os seus discípulos vieram e roubaram-no”. E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que vos deixe tranquilos”. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinha sido ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os judeus até ao dia de hoje”( Mt 28, 10-15).

Personagens: Anás, Caifás, Gamaliel, Sadoc, Doras, Shammai, Alexandre, Jónatas

O Sinédrio era um conselh de 72 personagens que geria os assuntos religiosos dos Judeus e também tinha poderes militares e judiciais. Incluía fariseus, saduceus, sacerdotes, anciãos e pessoas ricas e/ou influentes na sociedade daquele tempo. O tráfico de influências e a corrupção, no sentido em que nós hoje os entendemos, não eram excepções.

A notícia correu rápida. O corpo de Jesus desaparecera do sepulcro, apesar de guardado noite e dia por soldados judeus.. Era o terceiro dia após a sua execução no Calvário, um acontecimento que abalou tudo e todos, em Jerusalém, a que ninguém ficara indiferente, embora por motivos diferentes. A faísca incendiária partiu de Maria Madalena, que se deslocara cedo ao sepulcro, certamente movida em seu interior pelo próprio Deus, para ser a 2ª testemunha da Ressurreição, pois a primeira fora a Mãe de Jesus, em cuja alma nunca penetrara a dúvida sobre a Ressurreição do Filho, embora não tivesse ficado imune à tentação contra a Fé, pois, tal como o Filho, também ela se sentiu abandonada pelo Pai naqueles dias de trevas espirituais.

Também, como era inevitável, a notícia chegou rapidamente àqueles que teceram os acontecimentos daquela sexta feira passada, véspera da solenidade da Páscoa Judaica, mas os soldados romanos também não tardaram a contar tudo o que se passara naquela madrugada, em que um meteoro, investindo contra a entrada do túmulo de Cristo, provocou um estrondo tal que os soldados não deram por mais nada, estando ainda desmaiados quando Maria Madalena se deslocou ao túmulo e o encontrou vazio e em perfeita ordem. É lícito supor que os soldados, uma vez capazes de abandonar aquele espaço, foram directos a contar o que se passara.

Finalmente, pensavam as autoridades do Templo ter acabado de vez com o pesadelo de apanhar, julgar, condenar e executar Aquele que se apresentava como o Messias de Israel e pregava uma doutrina nova, mas que, para eles não passava de um impostor, um agitador e outras coisas. Embora perseguidos por fantasmas, todos os membros do Sinédrio que tinham votado a favor da condenação de Cristo à morte estavam convencidos de que poderiam descansar e continuar a viver as suas vidas de “santos de Israel”, apesar de Jesus os ter desmascarado com os epítetos que constam ainda hoje dos evangelhos: hipócritas, sepulcros caiados, assassinos de profetas, profanadores do Templo, violadores da Lei, arrogantes e blasfemos, que tinham tornado a Lei impossível de se cumprir, pelos muitos e desnecessários acrescentos saídos de suas cabeças. Tudo isto estava ainda fresco na memória deles, facto que lá continuaria até ao fim de suas vidas.

A notícia caiu bombasticamente sobre eles. Que fazer agora? O sumo sacerdote Caifás convocou apressadamente os mesmos da reunião anterior, deixando de fora José de Arimateia, Nicodemos, Eleazar, Menaem, Cusa,… por suspeitas de eles serem discípulos ou simpatizantes de Jesus. Particularmente intrigado, mas por outros motivos, estava o sacerdote Gamaliel, que vira concretizado o sinal que pedira a Yahweh sobre o Messias. E a reunião fez-se ainda no dia da Ressurreição, o primeiro dia da semana, o Domingo.

Caifás – Veneráveis e santos membros deste Conselho, já deveis saber a causa desta convocação urgente do santo Sinédrio. É que o corpo daquele impostor e agitador desapareceu do túmulo. Eu e o meu sogro Anás já lá fomos ver. O sepulcro está vazio e a grande pedra que tapava a sua entrada foi removida. Como isso aconteceu, nós não sabemos ainda explicar.

Anás – Nós suspeitamos que os discípulos dele foram lá de noite e roubaram o corpo. E quem sabe se não foi mesmo o José de Arimateia, o Nicodemos , o Eleazar, o Cusa, o Menaem,… ou os cinco juntos! Eu julgo-os capazes disso, tanto mais que o sepulcro pertence ao José!

Gamaliel – Más como foi isso possível, se o sepulcro estava guardado noite e dia pelos soldados romanos, a quem não se perdoa nenhum desleixo no cumprimento de missões militares?

Doras – Isso é perfeitamente possível! Podiam eles estar a dormir ou terem bebido vinho demais e estarem a curtir a bebedeira com um sono pesado. Então, os discípulos poderiam ter aproveitado a situação para roubar o corpo sem ninguém dar por isso. E agora, para esconder o roubo, eles propalam que ele ressuscitou. Isto é o que eu penso!

Gamaliel – Achais isso possível? Se os Seus discípulos fugiram todos com medo e continuam escondidos, quem teria coragem para aparecer lá em cima, sabendo que o túmulo estava guardado por soldados romanos? Isso seria a vergonha deles e do exército romano! Não vos lembrais que Ele garantira que ressuscitaria ao terceiro dia? Não vos lembrais que Ele disse que se destruísseis o Templo, Ele o reconstruiria em três dias? Ora, eu agora vejo qual era esse Templo a que Ele se referia: era o Seu próprio corpo, Templo de Deus, porque Ele é Deus, o Filho de Deus!

Caifás – Tu estás a delirar, ó Gamaliel! Se fosse assim, porque é que ele não foi mais claro? Se ele disse isso aqui no Templo, devia ter explicado que não se tratava deste templo de pedra, mas que se referia ao seu próprio corpo.

Gamaliel – Mas vós também deveríeis saber que Ele profetizou a ruína deste grandioso Templo de pedra, a honra e a glória da nossa nação, dizendo que, quando chegasse o dia, não ficaria dele pedra sobre pedra. Portanto, Ele falou de dois templos: este e o Seu próprio corpo. Vós destruístes o Seu corpo, mas Ele irá destruir este Templo em que nos encontramos. Consta-me que Ele anunciou isso poucos dias antes de ser preso. Só não disse quando seria. E também disse que Deus iria abandonar este Templo de pedra, por causa das muitas profanações e baixezas que nele se cometem, e porque, segundo Ele disse, Ele viera para aperfeiçoar a Lei e os Profetas, inaugurando uma nova era no relacionamento com Yahweh.

Na minha opinião, o rasgão do enorme cortinado do “Santo dos Santos” significa mesmo que Yahweh, já o abandonou, irritado, num gesto semelhante àquele em que tu, ó Caifás, rasgaste as tuas vestes quando o acusaste de blasfemar, por ele dizer que era o Filho de Deus. Tu rasgaste as vestes contra Yahweh, mas Yahweh também rasgou as Suas contra vós todos, querendo com isso dizer que a Aliança entre Ele e Israel caducou, por culpa vossa! A partir de agora, Yahweh já cá não tem a Sua Morada Santa. Todo este Templo passou a ser um local profano. Agora, eu penso que uma nova era já começou ou vai começar. Assim, no meu entender, aquilo que vós julgáveis ser o fim de um pesadelo acabará por ser o princípio de algo novo, sublime, que suplantará tudo aquilo que possais imaginar. O que é obra de Deus ninguém o pode destruir. Foi isso que eu vos disse antes de o condenardes à morte! Mas vós não me ouvistes!

Anás – Será que tu estás em teu perfeito juízo ? Dormiste mal? Tiveste algum sonho agitado? Estarás bêbado? O estado de embriaguez faz delirar e ter ideias esquisitas! Ou será que passas a ser seu discípulo? Vê lá! Isso pode dar-nos razões para te expulsarmos do Sinédrio e …algo mais!

Caifás – Bem, deixemo-nos de disputas! Nós precisamos de encontrar ideias, soluções e planos para este novo problema, que pensámos nunca vir a surgir, mas temos de enfrentar a realidade. Alguém tem alguma sugestão, ideia ou plano sobre o que fazer?

Shammai - Eu tenho uma sugestão, uma ideia e um plano! Temos de convocar os soldados romanos que constituíam o piquete que guardava o túmulo desse impostor! Se eles puserem obstáculos quanto a contarem-nos uma verdade do nosso interesse, recorremos ao tesouro do Templo para os convencermos. Já fizemos isso, pagando aos habitantes do bairro de Ofel para gritarem pela sua morte em frente de Pilatos. Não há nada que não se consiga com dinheiro vivo. Eles espalharão a nossa verdade e assim se destruirá qualquer atoarda espalhada pelos seus discípulos. Se, mesmo assim, eles recusarem a nossa oferta,, ameaçá-los-emos com a acusação, a Pilato, de falta grave no cumprimento dos seus deveres militares, o que se traduziria em julgamento , punição ou sentença de morte. Eles, aí, vão ter medo e contarão a nossa verdade.

Caifás – Parece um bom plano, ó Shammai, digno da tua inteligente cabeça! Alguém tem algo a dizer a este respeito?

Gamaliel – Antes que estas medidas sejam discutidas e aprovadas, peço licença para dizer ainda algo que preciso dizer, para que ajamos com prudência e sabedoria. Faço um apelo à memória daqueles de nós que estávamos presentes no exame de maturidade de um Jovem de 12 anos que, há cerca de vinte anos, passou pelo Templo. Deveis lembrar-vos que Ele nos espantou por Sua sabedoria e que nenhum de nós foi capaz de explicar de onde Lhe vinha. Nem sequer o nosso santo e sábio mestre Hillel! Se bem vos lembrais, Ele mostrou saber, já com aquela idade, coisas que nós, após tantos anos de estudo, não conseguíamos saber, sendo inclusivamente capaz de recitar de cor grandes passagens da Torá, fosse de que rolo fosse. Então, sobre Isaías… um espanto ! Sabia tudo o que ele diz sobre o Messias. Isto não vos diz nada? Eu fiquei perplexo, pensativo,…sobre se não seria Ele mesmo o Messias, pois Ele disse nessa ocasião que o Messias já estava entre nós, porque o tempo da profecia de Daniel a Seu respeito já se tinha cumprido.

Passados 20 anos, aparece por aqui já como adulto e a fazer o que todos nós sabemos e nós a fazer o que também nós todos sabemos. Quando Ele, há três anos, apareceu por aqui, eu reconheci Nele aquele menino de 12 anos e pedi então a Yahweh um sinal de que Ele seria o Messias verdadeiro e anunciado pelos profetas.

Anás – E que sinal foi esse? Já te foi dado? Quando e como?

Gamaliel – Esse sinal, por mim pedido, era este: Que um dia, comigo ainda vivo, o véu do Templo se rasgasse de alto abaixo sem intervenção de mãos humanas. Sabemos todos que este sinal se cumpriu na hora da sua morte… Como explicais que o varão que suportava aquele enorme e pesado cortinado tenha ficado em sua posição, sem sofrer danos, e o cortinado de púrpura se tenha inexplicavelmente rasgado de alto a baixo e assim continue? A partir de então, as coisas, para mim, mudaram, e oxalá levem mais alguém a mudar… Eu não preciso de mais provas! …Ah! Já me esquecia de um pormenor! A última vez que Ele passou por aqui, Ele disse-me: “ Dentro em breve vais ter o sinal que pediste!”. Ora, como é que ele sabia que eu tinha pedido aquele sinal, se eu nunca o revelara a ninguém? Agora, sou eu que aguardo a vossa explicação!…E calo-me para vos ouvir!

Sadoc – (Quebrando um longo, perturbante, silêncio e olhares cruzados em todas as direcções) Tudo isso são meras coincidências e, se não forem, são coisas só explicáveis por meio de Belzebú, de quem ele era um aliado. Até os doentes que ele curava e os mortos que ressuscitava era pelo poder de Belzebú.

Gamaliel – E Elias, que ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, também actuava por obra de Belzebú? Ora, Elias rezou pedindo a Yahweh que ressuscitasse o menino, o que aconteceu. Ora, hoje sei, ou sabemos, que há poucos dias ele ressuscitou Lázaro por sua própria autoridade, dizendo:” Lázaro, eu te ordeno, sai cá para fora!” E os demónios que ele expulsava? Também era por meio de Belzebú, como vós dizíeis? Que eu saiba, os demónios não se expulsam uns aos outros nem dão poder a ninguém para ser usado contra eles! Onde há sabedoria não há opiniões destas! Além de Lázaro e do filho da viúva de Sarepta, também ressuscitou o filho da viúva de Naím e ainda a filha de Jairo, o sinagogo de Cafarnaúm. Vós achais que Belzebú tem poder para ressuscitar mortos ?

Jónatas – Eu penso que não!

Alexandre – Eu também penso que não!

Gamaliel – Alguém pensa que sim?…..( Silêncio)……Então, ninguém diz nada? Esse silêncio significa que todos pensais que ele não tem esse poder. Agora, respondei-me: Se Belzebú não tem esse poder, como é que ele o vai dar a alguém para que o use contra si?

Ainda quanto ao plano apresentado por Shammai, tenho uma sugestão a fazer! Quando fordes conversar com os soldados romanos que estiveram de sentinela, fazei -lhes estas duas perguntas aos soldados que fizeram o primeiro turno: 1ª Quem ficou com as vestes daquele condenado? 2ª – Quem ficou com a túnica? Aos soldados do último turno, isto é, do que esteve lá durante a noite passada, perguntai como explicam eles que o túmulo tenha aparecido aberto estando eles de vigia? Pelas informações que tenho, Ele ressuscitou após aquele tremor de terra que sentimos esta madrugada, completando assim o cíclo da morte e da ressurreição: terramoto e trevas na morte, terramoto e luz na ressurreição. Quereis mais sinais?

Caifás – Penso que atribuis demasiada importância a esses factos. São puras coincidências!

Gamaliel – Sabeis tão bem como eu o que as Escrituras dizem a respeito do Messias. Peço-vos licença para vos recitar algumas passagens de um salmo (21/22) da Escritura. Vereis como tudo se aplica a Ele. Se me disserdes que são coincidências, digo-vos que são coincidências a mais para serem apenas coincidências. Leio-vos: “…todos os meus ossos se desconjuntaram,…a minha garganta secou-se como barro cozido e a minha língua pegou-se me ao céu da boca; reduziste-me ao pó da sepultura,….trespassaram as minhas mãos e os meus pés; posso contar todos os meus ossos,…olham para mim cheios de espanto. Repartem entre si as minhas vestes e sorteiam a minha túnica”. Ide confirmar, com recta intenção, se foi assim ou não e tirai as conclusões!

Anás – Tem paciência, ó Gamaliel! Estás um pouco excitado e nervoso, e, se te deixamos falar, ainda acabas por nos converter a todos e saímos daqui feitos seus discípulos. Por isso, proponho que te seja retirada a palavra até à votação final!

Gamaliel – Então, aqui vai a minha última palavra! Falastes há pouco na minha possível expulsão do Sinédrio. Vou facilitar-vos a vida, expulsando-me a mim próprio. Abandono de vez este Sinédrio, que insiste em se manter cego contra toda a evidência. As minhas dúvidas acabaram e quem tiver as suas, sirva-se da humildade, do seu conhecimento das Escrituras, compare-as com a vida, a morte e ressurreição deste Messias, fale com os Seus discípulos e descobrirá a Verdade. Quanto ao resto, se eu pedi um sinal e Yahweh mo concedeu, tenho de ser coerente e honesto! Por isso, o meu lugar já não é aqui e as minhas funções de sacerdote da Velha Aliança caducaram, pois um novo Sacerdócio irá surgir numa Nova Aliança. Vou juntar-me a Nicodemos, a José de Arimateia , a Menaem, a Eleazar, a Cusa, membros ilustres e rectos deste Sinédrio, que vós deixastes de convocar para que as votações decorram segundo os vossos interesses. Assim, esta será a minha última presença entre vós.

Caifás – Tem calma! Nós respeitamos-te como o maior mestre e doutor da Lei em Israel. Não te precipites, deixa correr algum tempo até ver em que pára tudo isto. Mas nós temos de agir depressa e bem, para que esta embrulhada não venha a ser pior que a primeira, por isso, proponho que seja posto à votação o plano sugerido por Shammai!

Gamaliel – Eu quero estar presente nas entrevistas com os soldados que guardavam o sepulcro! Eu próprio os quero interrogar na vossa presença!

Caifás – Lamento, mas eu, como sumo sacerdote e autoridade máxima deste santo Sinédrio, é que escolho a delegação que se encarregará desta tarefa! Por isso, aconselho-te a ficar de fora deste assunto! Depois, serás informado, tal como os outros!

A votação fez-se e o plano de Shammai foi aprovado, com o voto contra de Gamaliel, que logo ali se despediu de vez do Sinédrio, acabando por se entregar à causa de Cristo, apesar de ser já idoso e ter problemas de visão. Mas, como trabalhador da última hora, teve o mesmo prémio dos da primeira .

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 Ezequiel Miguel

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Salmo 115(116) – Erguerei o cálice da salvação

calice16Eu confiava no Senhor quando exclamava:

“É muito grande a minha perturbação!”

Então, deveras confuso, eu afiançava:

“Todo o homem tem à mentira devoção!”

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Como vou eu ao Senhor agradecer

tudo o que de bom me deu por Seu Amor?

O cálice da Salvação vou erguer,

invocando o Nome santo do Senhor.

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Cumprirei minhas promessas ao Senhor,

renovando-as na presença do Seu povo.

À morte dos Seus fiéis dá todo o valor,

pois conduz a um eterno louvor novo.

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Sou Vosso servo, filho da Vossa serva,

desataste-me das cadeias da morte,

o meu louvor permanente se conserva,

o Vosso Nome invoco pela minha sorte.

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Dentro das tuas muralhas, Jerusalém,

cumprirei minhas promessas ao Senhor

perante todo o povo, como convém,

em tudo Lhe dando honra, glória e louvor.

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Ezequiel Miguel

A Ceia da Despedida

(Mc 14, 17-31 ; Mt 26, 20-35; Lc 22, 14-38 ; Jo 13, 1-38)

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(Realidade & Ficção)

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O Cenáculo estava pronto para a última Ceia, após a azáfama dos Apóstolos para adquirirem tudo o que era necessário para se cumprir o ritual prescrito pela Lei de Moisés, a propósito da comemoração da Páscoa que, por sua vez, comemorava aquela passagem dos Hebreus da escravidão do Egipto à Liberdade. O Livro do Êxodo descreve essa passagem e como foi a última ceia em terras do Egipto.

Chegara para Cristo a hora de se despedir, pois iria ainda naquela 5ª feira dar início, no Getsémani, à  Sua Paixão e, como um pai de Família, tomou todas as previdências para que tudo corresse como estava previsto na Lei, da qual, Ele,  o Senhor da Lei, não se quis dispensar. E assim, Ele próprio indicou a cada um dos doze Apóstolos o seu lugar em volta da mesa, semi-deitados em cadeiras-cama, como era normal naquele tempo. Estamos habituados a ver a figura de Judas numa das pontas da mesa, feio, mal-humorado e com a bolsa à vista…, mas Cristo escolheu para ele o lugar à Sua frente, um lugar estratégico, para poder encará-lo olhos nos olhos, na esperança de que ele viesse ainda a reconsiderar quanto ao plano já estabelecido com os inimigos de Jesus. O passar todo o tempo da Ceia a encarar Judas de frente já era para Cristo um tormento que lhe revoltava as entranhas, que lhe tirava o apetite e Lhe cobria o rosto de uma profunda tristeza, o que os outros apóstolos não deixavam de notar, mas cuja causa eles estavam longe de adivinhar. Mas eles próprios também estavam dominados por um ar melancólico, apreensivo…, que se acentuava à medida que o Mestre ia orientando o decorrer da Ceia e ouviam Dele os últimos recados.

Jesus – Judas, tu ficas aqui à minha frente!

Judas – Mestre, Tu manténs-me sempre perto de Ti! Será que me amas mais do que aos outros?

Jesus – Eu amo-te tanto como aos outros, mas os outros não precisam tanto de ver o Meu Amor como tu, nesta hora…E tu até sabes porquê!… Além disso, o facto de nós estarmos aqui hoje deve-se a ti…, mais do que a nenhum outro…

Judas – Obrigado, Mestre, por me enalteceres aqui à frente de todos. Eu bem preciso disso, porque às vezes tenho a impressão de que ninguém, a não ser Tu, gosta de mim, o que eu acho profundamente injusto, porque eu nunca lhes fiz mal nenhum…

Jesus – E tens a certeza de que tu não lhes dás motivos para isso?…

Judas fez uma careta, esboçou um sorriso  sardónico e baixou os olhos. Começa a Ceia. Na mesa está um grande cálice, que Jesus enche de vinho e reza sobre ele. Cada apóstolo tem à sua frente um copo  individual, de pé alto. Segue-se o canto de salmos e a recitação das palavras do Ritual apropriadas. Jesus reza sobre o pão, parte-o e distribui-o, juntamente com as ervas amargas banhadas no molho. Chega depois o cordeiro assado, seguindo-se mais cânticos. Jesus parte o cordeiro, dando a cada apóstolo um bom pedaço, de modo a que ninguém fique com fome. Os apóstolos ouvem-No então proclamar:

Jesus –  Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa. Foi sempre o Meu desejo, desde que aceitei a missão de Redentor do género humano.

Simão – Mestre, a propósito da distribuição dos lugares, como é que poderemos saber quem é o maior de entre nós?

Jesus -  Se alguém quer ser o primeiro, seja o último e o servo de todos. O maior seja como o menor, o chefe, como aquele que serve os outros. Eu sou o que presido à mesa e, no entanto, estou a servir-vos. Ficai comigo nas horas que se aproximam e noutras que vos surgirão pela frente e com isso é que provareis a vossa grandeza aos olhos do Pai. Quem na dor Me acompanhar e for fiel até ao fim, esse é que terá o prémio. Está próxima a hora de Eu vos poder preparar um lugar junto do Pai, no Meu Reino, onde há moradas para todos os que acreditarem em Mim e Me acompanharem na minha Paixão, da qual deixo uma parte para todos passarem por ela.

Pedro – Mestre, nós seremos fiéis até ao fim ?

Jesus -  Pedro, vais passar por uma prova! Eu rezo por ti para que a tua fé não desfaleça e tu, quando te arrependeres, confirma na Fé os teus irmãos.

Pedro – Senhor, eu sou um pecador, mas serei fiel até à morte. Seguir-Te-ei para todo o lado e estou disposto a morrer contigo.

Jesus – Pedro, estás a ser vítima de um ataque de soberba! Dentro de pouco tempo muita coisa vai mudar. Vamos ser todos abandonados  pelo Pai e pelos Anjos e cada um de nós ficará entregue a si próprio, porque esta hora é a hora dos demónios. Até os Anjos vão sofrer e tapar os olhos para não verem aquilo que vão ver. Bem quereriam ajudar, mas…Aquilo que Eu vos disse sobre a Bondade e Providência do Pai, que Ele cuida de vós e dos passarinhos, que os Seus Anjos vos protegem, que calcareis aos pés escorpiões e serpentes, que não sereis tentados acima das vossas forças, que Ele sabe o que vós precisais…agora, esquecei tudo isso, porque é a hora em que seremos todos abandonados. Em toda a Terra não haverá Anjos nas horas que se seguem, porque o Pai os mandou recolher ao Céu. É a hora de se cumprirem todas as profecias sobre Mim e uma delas diz :“Ele foi contado entre os malfeitores”. E tu, Pedro, ora e vigia, porque Satanás anda à tua volta rugindo como um leão para te devorar.

Pedro – Mestre, eu morrerei Contigo ou, se quiseres, em vez de Ti!

Jesus – Ainda esta noite, antes de o galo cantar, três vezes me negarás!

Pedro – Mestre! Essa é demais! Eu tenho acreditado em Ti, em toda a Tua Palavra, mas nessa…desculpa lá, eu não acredito! Eu nunca Te negarei e todos estes vão ser minhas testemunhas!

Jesus – Oxalá que assim seja, meu Pedro, mas Satanás pediu-me para te joeirar.

E Pedro calou-se, deixando transparecer no rosto uma repentina angústia de incerteza…Se o Mestre tal dizia… Ele que sabia tudo antes de as coisas acontecerem!…

Simão – (Depois de ter ido a um baú buscar duas espadas) Mestre, o Pedro e eu temos espadas e os outros têm cada um o seu punhal curto. Quando for preciso, nós cá estaremos!

Jesus – Pensais que tereis ocasião para as usar? Mas agora vou ensinar-vos algo que tereis de usar. Acabei de vos servir o alimento corporal, mas agora quero prestar-vos um outro tipo de serviço, um alimento de um ritual novo de uma Aliança Nova, ainda não inaugurado por ninguém. Vamos suspender esta refeição.

E levantando-se da mesa, vai a um baú, despe a sua veste vermelha, cinge-se com uma toalha, enche uma bacia com água e coloca-a perto da mesa, tudo isto em silêncio e sob os olhares intrigados e espantados dos Apóstolos.

Jesus – Será que ninguém tem nada a perguntar-Me?

Pedro – Nós não sabemos o que queres fazer. Nós já nos lavámos antes da refeição!

Jesus – A minha purificação destina-se a quem já está puro, para ficar ainda mais puro.

Jesus ajoelha-se, descalça as sandálias a Judas Iscariotes e lava-lhe os pés, beijando-os em seguida. Um por um, faz o mesmo a todos. Judas não se comoveu, mas os outros…uns sentiram vergonha, outros comoveram-se e choraram.  Como era possível uma coisa destas? Mas Pedro…

Pedro – Tu lavares-me os pés? Era o que faltava! Eu não to permito! Tu és Deus e eu sou um pecador, um Zé ninguém, um verme. Tu és Tu e eu sou eu! Eu não deixo que me laves os pés!

Jesus – O que Eu te faço, tu não o compreendes agora, só mais tarde.

Pedro – Como queiras, Mestre, mas lavares-me os pés, nunca!. Deixa-me antes lavar os Teus!

Jesus – Olha, Simão de Jonas! Se Eu não te lavar os pés, não irás para o meu Reino. É preciso que te lave os pés, pois eles terão um longo caminho a percorrer e a tua alma precisa de pés fortes…Lembra-te que está escrito: “São belos os pés daqueles que anunciam boas novas.”

Pedro – Ó Senhor! Então lava-me os pés, a cabeça, os braços, as mãos…

Jesus – Vós já estais puros. Os pés precisam de ser purificados, porque são eles que levam o homem pelos maus caminhos que as más intenções abrem…

E, no meio de um choro convulsivo, Pedro deixa que Jesus lhe lave os pés e lhos beije. Finalmente, Jesus tira a toalha da cintura, lava as mãos, volta a vestir-se e a ocupar o Seu lugar,  olhando para Judas e dizendo:

Jesus – Agora estais puros, mas não todos. Somente aqueles que tiverem a vontade de permanecer puros.

Jesus enche novamente de vinho o grande cálice comum e todos bebem, seguindo-se o canto de vários salmos de louvor (114, 115). Quando algum versículo se aplica a Judas, Jesus fixa nele o Seu olhar, por exemplo :” Todo o homem é mentiroso”; “É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos justos”; “Eu não morrerei, mas viverei para cantar as obras do Senhor”; “Celebrai o Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”; “É melhor confiar no Senhor do que no homem”; “Maldito o homem que confia noutro homem”; “Eu cambaleava e ia a cair, mas o Senhor me amparou”; “A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular”; “Bendito o que vem em nome do Senhor”; “Eu me alegro, porque o Senhor ouviu a minha oração, porque volta os seus ouvidos para mim. Eu O invocarei por toda a minha vida, pois me haviam cercado as angústias da morte”; “O Senhor é clemente e compassivo, lento para a ira e pronto para o perdão”, etc.  Estas  sentenças dos Salmos atingem-no profundamente e perturbam-no, ao ponto de se desconcentrar, não acertando nem com a letra nem com a música nem com o tom. Tomé, um dos seus vizinhos do lado, sente a necessidade de lhe chamar a atenção para a desafinação com que canta… Após o canto, Jesus distribui nova dose do cordeiro assado e repesca o tema do lava-pés:

Jesus-  Eu quero que compreendais o meu gesto de vos lavar os pés. Trata-se de um gesto de humildade, um gesto de Deus a lavar os pés às suas criaturas, de o Senhor a lavar os pés ao seus servos, fazendo-se Ele próprio o servo dos servos. Será na humildade e no Amor a Deus e ao próximo que vós sereis grandes no Reino de Deus. Como Eu fiz, fazei vós também .  Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei, pois este é o mandamento novo que vos deixo. É por isto que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. Aquele que Me ama cumprirá as minhas palavras. Se alguém Me amar, o Pai o amará e  Nós viremos a ele e faremos nele a Nossa morada. Quem não Me tem amor não guardará as minhas palavras. Fazendo isto sereis felizes, mas não sereis todos felizes, porque se cumprirá o que foi escrito a Meu respeito: “Aquele que come comigo à mesa levantou o seu calcanhar contra Mim” (Sl 40, 10)

Após cantarem o longo salmo 118, Jesus senta-se e proclama:

Jesus – O velho rito terminou e vai ser inaugurado um novo. A Velha Aliança chegou ao fim e vai ser substituída pela Nova. A vítima dos sacrifícios não mais será o vitelo, a pomba, o cordeiro. A Nova Aliança vai ser alicerçada sobre Mim,  a Nova Vítima, a Vítima Eterna, a Vítima sem mácula, o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do Mundo, Aquele que se oferece ao Pai para remissão de todos os pecados dos homens. Será um ritual perpétuo de Amor, um memorial perpétuo a renovar-se a cada hora por toda a Terra. Este será o grande milagre do Amor, que agora vou realizar, não havendo na Terra nada superior a ele nem nada que se lhe compare. Será um milagre de união e comunhão entre Mim e vós e vós entre uns e outros. Eu vou partir mas não vos deixarei órfãos, porque ficarei convosco até à consumação dos séculos.

Jesus pega num pão inteiro, coloca-o sobre o cálice cheio de vinho, abençoa-os, oferece-os ao Pai, parte o pão em treze bocadinhos, coloca-os na mão esquerda, dá um bocadinho a cada um e diz:

Jesus – “Tomai e comei. Isto é o Meu Corpo, que vai ser entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.”

Faz o mesmo com o cálice, dizendo:

Jesus –  “Tomai e bebei. Isto é o meu sangue, que vai ser derramado por vós para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de Mim”.

Pega também no último pedacinho e no cálice, sai da sala e vai levar a Comunhão à Mãe. Regressa com o cálice vazio. Toma a palavra:

Jesus – Vistes o que eu fiz. Dei-me a Mim próprio. As minhas desculpas, se não posso fazer mais por vós. Agora compreendeis o que Eu queria dizer quando anunciei (Jo, 6) que Eu sou o Pão Vivo descido dos Céus, o Novo Maná , a Minha Carne e o Meu Sangue como alimentos de Vida Eterna. Quem Me come e quem Me bebe não mais terá fome nem sede e quem Me come e bebe terá cada vez mais fome e mais sede de Mim, um mistério que compreendereis mais tarde. Por este milagre de Amor Eu estarei em vós e vós em Mim, mas ai daquele (olhando para Judas) que se alimentar de Mim sem estar puro…Um de vós aqui não está puro! Um de vós Me vai trair! É por isso que Eu estou de espírito perturbado e numa tristeza de morte. A mão daquele que Me vai trair está comigo sobre esta mesa e nem o Meu amor, nem o Meu Corpo, nem o meu Sangue, nem a minha Palavra foram suficientes para o levar ao arrependimento…Eu lhe concederia o perdão e morreria também por ele, se…(lágrimas nos olhos e voz embargada). Na verdade, Eu vou ser traído, mas ai daquele por quem o Filho do Homem vais ser entregue! Melhor lhe fora não ter nascido! (1)

Os apóstolos entram em pânico e, cada um  por sua vez, perguntam a Cristo:

Todos – Serei eu?…Serei eu?…Serei eu?…

Judas –  (Sorrindo frio e tranquilo) Por acaso serei eu, Mestre?

Jesus – Tu mesmo o disseste. Tu mesmo te acusas, sem que Eu te tenha acusado…A  tua consciência te diz se és tu ou não. Não vale a pena enganá-la…, porque ela não se deixa enganar!

Todos suspeitam de Judas, mas Pedro é o que suspeita mais, pois Judas Iscariotes nunca lhe caiu no goto! João recebe um recado de Pedro para que pergunte directamente a Jesus, sobre Cujo peito apoia a cabeça, conseguindo falar com Jesus sem que ninguém mais ouça o que quer que seja.

João – Quem é, Senhor?

Jesus – Aquele a quem Eu der um bocado de pão (não consagrado) passado neste molho!…. (Cortando um pedaço de um pão inteiro, Jesus  banha-o no molho). Toma, Judas! Tu aprecias muito isto!

Judas – Obrigado, Mestre, pela Tua simpatia para comigo. Sim, gosto muito!

Enquanto ele come o pão avidamente, João sente-se horrorizado, tapa os olhos e soluça, em contraste com o satânico sorriso de Judas Iscariotes…

Jesus – Judas, agora que Eu já fiz por ti tudo o que podia…vai tu fazer o que ainda tens a fazer lá fora…E o que tens a fazer fá-lo depressa!

Judas – Está bem, Mestre! Eu cumpro as Tuas ordens! Depois nos encontraremos no Getsémani, porque Tu vais para lá, como sempre, não é verdade?

Jesus – Sim,… vou para lá,… como sempre…

Enquanto Judas se levanta, põe o manto e se prepara para sair:

Pedro – Mas onde é que ele vai sozinho? E a fazer o quê? Um de nós não pode ir com ele?

Judas -  Ouve lá! Eu já não sou criança e sei governar-me sozinho!

Jesus – Pedro, deixa-o! Ele e Eu sabemos o que vai fazer.

Pedro – (Vítima de uma terrível suspeita, sente remorsos…E se julgou mal?…) Está bem, Mestre, mas…

Jesus – (Em segredo a João, apoiado no Seu peito) Não digas nada a Pedro, por agora. Ele poderia armar aqui um escândalo desnecessário.

Judas – Adeus, Mestre! Adeus, amigos!

Jesus – (Triste) Adeus, Judas!

Judas saiu dali e dirigiu-se directamente ao Templo para informar os seus amigos sobre a possibilidade de apanharem Jesus no Getsémani naquela noite e receber os trinta dinheiros contratados pela traição, a qual se consumou com o tristemente famoso beijo ao seu Mestre, umas horas mais tarde, no Jardim das Oliveiras. Para sempre lá ficou a ecoar o lânguido suspiro do nosso Redentor: “Amigo, com um beijo entregas o Filho do Homem!?”. Assim foi!

(1)   – Esta foi a primeira Comunhão mal feita, o primeiro sacrilégio dos muitos que passaram a ser feitos até aos dias de hoje. S. Paulo diz-nos quais são as consequências de uma Comunhão em pecado mortal: “ Todo aquele que comer o Pão (consagrado) ou beber o cálice (com o Vinho consagrado) do Senhor, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste Pão e beba deste Vinho, pois aquele que o come e bebe sem distinguir o Corpo e o Sangue do Senhor, come e bebe a sua própria condenação (eterna).  Por causa disto há entre vós doentes e muitos morrem” (1 Cor 11, 27 – 30).

Era a esta trágica realidade que o Anjo de Portugal se referia quando convidou os Pastorinhos a consolar o nosso Deus pelos sacrilégios e ultrajes…com que Ele é ofendido.

Convém saber (ou lembrar) que não deve ir à Comunhão todo o baptizado que estiver em pecado grave, também chamado mortal. O arrependimento sincero, a promessa firme de emenda e a Confissão sacramental anulam o impedimento. Em casos de católicos em situações de adultério, divorciados vivendo com outros que não sejam  os seus cônjuges, uniões de facto, uniões homossexuais, situações de pedofilia, casamentos apenas pelo civil,  negação de verdades da Fé (seitas), actividades espíritas, bruxarias, ocultismo, maçonaria, defesa e propagação de ideologias ou doutrinas  condenadas pela Igreja ou em outras situações de pecado contínuo…a Comunhão está proibida a quem estiver nestas situações e a Confissão também, se a pessoa não estiver disposta a romper radical e definitivamente com a situação de pecado. Os que vivem nestas situações costumam consolar-se acusando a Igreja de ser demasiado severa…mas a Doutrina é de Cristo e tudo isto entronca no cumprimento dos Dez Mandamentos ou no seu desprezo. Na categoria de ultrajes entram os pecados que têm a ver com o desvio de Hóstias consagradas por pessoas que se apresentam à Comunhão e depois…enfiam a Hóstia num lenço ou num bolso e levam-Na para fora, para a vender ou para a utilizar em bruxarias ou em rituais satânicos.

Assunto para pensar!

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Ezequiel Miguel

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Salmo 21 (22) – Meu Deus, porque me abandonaste?

 

OLiveiras13 Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?

Com os meus gritos não me vou salvar,

neles ainda Tu não reparaste,

apesar de eu não poder descansar .

.

Quanto a mim, sou mais um verme que um homem,

vítima do desprezo popular;

os transeuntes caçoam e se somem

com boca aberta e cabeça a menear.

.

Eles me vêm como um inimigo:

” Confiou no Senhor, Ele que o liberte,

que O salve, se ele passa por Seu amigo

ou então que a angústia a sua alma aperte”.

.

No ventre materno Tu me teceste,

aos peitos de minha mãe me confiaste,

quando nasci, logo me recebeste,

Tu és meu Deus, ao nada me arrancaste.

.

Não te mantenhas de mim afastado,

pois dor e angústia me rondam por perto,

faz com que o perigo me passe ao lado,

só Contigo tenho o auxílio por certo.

.

Matilhas de cães me circundaram,

vejo-me rodeado de malfeitores,

os meus pés e as minhas mãos trespassaram,

meus ossos posso contar entre as dores.

.

Com desdém olham para mim e param,

as minhas vestes entre si repartem,

a minha túnica à sorte deitaram,

caçoando de mim até que se fartem.

.

Vós, porém, não estejais arredado,

vinde e socorrei-me já, sem demora,

livrai-me de ser pela espada tocado,

de Vós espero auxílio em cada hora!

.

O Vosso Nome eu quero enaltecer,

no meio da assembleia Vos hei-de louvar.

Louve o Senhor aquele que O temer,

venha Israel seu Deus glorificar!

.

O Senhor o pobre não desprezou,

pela sua miséria não o repeliu,

a Sua Face dele não ocultou

quando os seus gritos de aflição ouviu .

.

Para Vós se dirige o meu louvor,

os meus votos vou na assembleia cumprir,

toda a Terra vos chamará “Senhor”,

todas as nações Vos hão-de servir.

.

Ezequiel Miguel

Exulta, filha de Sião! Eis que o teu Rei vem a ti!

(Realidade & ficção)

 .

Ramos13Exulta, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti! Ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumentinho, filho da jumenta (Zac 9,9).

Aproximava-se a Páscoa dos Judeus, aquela escolhida nos planos divinos para nela chegar ao fim a pregação do Reino de Deus e consumar a redenção do mundo por Jesus Cristo.

Os apóstolos andavam a ficar nervosos com a intenção que Jesus manifestava de deixar a Galileia e ir meter-se na toca dos lobos, em Jerusalém, já com a cabeça a prémio, em virtude de decisão do Sinédrio, que mandara publicar que quem soubesse por onde Ele andava, deveria comunicá-lo, para que fosse preso. Entretanto, Judas Iscariotes ia avisando o Sinédrio a respeito das intenções do Mestre de ir para aqui ou para ali, por isso, fazia frequentes perguntas, aparentemente inocentes e ingénuas, mas que claramente tinham a intenção de captar informação de interesse para os inimigos de Jesus.

Com a argumentação de que Lázaro tinha morrido, Jesus fez por convencer os Apóstolos da absoluta necessidade de irem para Betânia, a três quilómetros de Jerusalém, com o objectivo de ressuscitar Lázaro. Os apóstolos deixaram-se aparentemente convencer que tinha de ser assim, embora questionando-se se o Mestre não poderia ressuscitar Lázaro mesmo à distância. Perante a insistência de Jesus, eles convenceram-se mesmo que Jesus iria entregar-se à morte, o que levou Tomé a opinar: “Vamos e morramos com Ele” (Jo 11,16)!

Em Betânia, Jesus ressuscitou Lázaro à vista de amigos e inimigos, convertendo à Sua causa muitos Judeus, como os evangelhos afirmam. Mas outros não acreditaram, apesar de terem mesmo visto Lázaro a sair do túmulo enfaixado, de pés atados e cabeça coberta, após taparem o nariz por causa do mau cheiro, apesar de disfarçado pelos unguentos e perfumes. Pouco tempo depois, o Sinédrio não demorou a enviar espiões a casa de Lázaro, para saberem se Cristo estava realmente hospedado em sua casa e também para puxarem pela língua de Lázaro sobre o fenómeno da sua própria ressurreição, que alguns hoje alcunham de reanimação, quer dizer, trazer novamente a alma ao corpo.

Era uns dias antes do nosso Domingo de Ramos. Jesus escolhera refugiar-se em casa de Lázaro, para preparar a Sua última semana na Terra e tomar as últimas disposições que se impunham perante o grande acontecimento da Sua iminente Paixão, Morte e Ressurreição. Durante esses dias, Jesus e Lázaro tiveram longas conversas a sós. Eis uma delas:

Lázaro – Senhor, porque me fizeste voltar a esta vida?

Jesus – Por vários motivos, que passo a explicar-te:

1. Eu seria ingrato para contigo e tuas irmãs, se recusasse fazer por vós o que fiz, pois a Mim não Me custa nada fazer isso, porque sou o Senhor da vida e da morte. As tuas casas foram o meu principal apoio no Meu apostolado e em vós Eu tive amigos sinceros, discípulos convictos e sempre prontos a gastar Comigo e com os Meus discípulos tudo o que fosse necessário nestes três anos da Minha pregação. Esta tua casa foi sempre um refúgio seguro contra os Meus inimigos, tal como agora é. Foi uma maneira de vos recompensar e de algum modo retribuir-vos a alegria que sempre Me destes quando aqui ou em outros lugares Me recebíeis.

2. Chamei-te de novo à vida porque nestas horas amargas, nestas horas de trevas e abandono que vão passar por Mim, Eu preciso de vós como verdadeiros amigos, em cuja casa posso alimentar-Me, descansar e preparar-Me para o que se aproxima. Vai chegar a Minha hora, a hora que o Pai Me marcou para consumar a maior obra da Criação, a redenção do Homem.

Lázaro – Mas, Senhor, Tu tens mesmo de Te entregar nas mãos dos Teu inimigos? Não haverá outro modo de terminares essa Tua grande missão?

Jesus – Não, Lázaro! Tem de ser assim como te digo! Quando o Pai perguntou: “Quem enviarei…” (Is 6,8)? Eu ofereci-Me, em nome do infinito Amor que circula entre Nós e o Homem, a criatura saída do nada à nossa imagem e semelhança, e cujo fim último é o regresso à casa do Pai. Em breve se cumprirão todas as profecias saídas dos profetas e dos salmistas.

Lázaro – Mas, Senhor, Tu sabes que eu tenho influência junto dos Romanos e a uma palavra minha, ninguém Te tocará, porque eles serão capazes de Te proteger contra todos os teu inimigos!

Jesus – Bateste no ponto crucial e agora menciono-te mais um motivo por que te ressuscitei:

3. Exactamente para impedires as tuas irmãs de intercederem por Mim junto das autoridades romanas. Quero que uses a tua influência sobre elas para que não façam nada que possa estorvar o que tem de ser feito, pois eu vim à Terra para isso e essa é a vontade do Pai e a Minha.

Lázaro – Mas eu…

Jesus – Também de ti Eu exijo que fiques quieto, que não saias de casa nesses dias, a não ser por motivos pessoais, que não recebas nenhum dos meus discípulos, pois sei que eles depositarão em ti a esperança de um resgate e até pensarão em Me raptar, quando concluírem que será a última medida para Me livrarem dos Meus inimigos. Nessa hora, eles sentir-se-ão perdidos, tal como diz o profeta: “Ferirei o Pastor e as ovelhas dispersar-se-ão” (Mt 26,31)

Lázaro – (Chorando) Senhor, Tu exiges-me isso?! Que amigo serei eu, se não posso ajudar o Meu Amigo quando Ele está num perigo mortal? Senhor, uma ida minha a Pilatos e…

Jesus – Nem penses, Lázaro! Se és Meu amigo, não apoies os intentos de Satanás, pois ele, por um lado, quer impedir-Me, mas, por outro, tentará tirar proveito do Meu sofrimento e reforçá-lo, como vingança. Mas peço-te uma coisa, para te compensar por esta proibição: Naquelas horas, une-te espiritualmente às orações da Minha Mãe, para que alguma força chegue até Mim, nessas horas em que o Pai Me vai abandonar. Também a Minha Mãe vai sofrer os ataques de todo o inferno contra a sua fé na Minha ressurreição, pois, como co-redentora, também o Pai e os anjos que a guardam a irão abandonar, deixando-a em atroz sofrimento. O inferno Lhe dirá que estará tudo pedido, que nada valeu a pena, que foi tudo um engano e que não tenha ilusões, por que ele não ressuscitará.

Lázaro – Mas isso vai ser horrível!

Jesus – Vai mesmo, Meu amigo! Mas o Pai também A escolheu para ter a Sua parte na Redenção. Vai cumprir-se Nela a profecia de Simeão, quando Ela Me apresentou no Templo: “…Uma espada de dor vai trespassar-te o coração…” (…) A espada vai começar a enterrar-se no Seu Coração e lá ficará enterrada até que Eu ressuscite, ao 3º dia.

Lázaro – Senhor, eu vejo em Ti uma profunda tristeza, como nunca vi! É só por causa do que se aproxima?

Jesus – Não, Lázaro! (Chora…) Se tu soubesses , Lázaro!…

Lázaro – Tu, Senhor, a chorar?

Jesus – Sim, meu amigo! E não é por causa daquilo que Me espera! É por causa de um dos Meus, um daqueles, como diz o profeta, que come comigo à mesa (Lc 22,21)

Lázaro – Atrevo-me a dizer que é Judas Iscariotes!

JesusEsse mesmo! Quantas lágrimas Eu não derramei já por sua causa!

Lázaro – (Chorando e ajoelhando-se aos pés de Jesus) Ó Senhor!…O meu Deus a chorar! Como posso segurar as minhas lágrimas quando vejo as Tuas! Ó mistério insondável!

Jesus – Eu vim para redimir todos os homens, mas não consigo que Judas aproveite do Meu Sangue! Até já Me ajoelhei a seus pés,…tudo para que aceite os Meus argumentos em seu favor, mas…nada! Não consigo demovê-lo de cumprir aquilo que já prometeu ao Sinédrio. Por seu intermédio vai cumprir-se a profecias de Isaías de vender o Servo de Yahweh por trinta dinheiros. O contrato está feito! Eu só precisava que ele dissesse: “Sim, quero libertar-me das garras de Satanás!” Mas não consegui e ele vai perder-se. E logo um dos Meus (chora)!

Lázaro – Mas, Senhor, Tu podes tudo! Não poderás mudar-lhe a vontade, como mudaste à minha irmã Maria?

Jesus – Não, meu amigo! Ele entregou a sua vontade a Satanás, que já incarnou nele e agora é Satanás que fala por ele. Já são dois em um!

Lázaro – Mas Tu não tens poder sobre os possessos e sobre os demónios?

Jesus – Tenho, mas Judas não está possesso! Ele não quer mesmo o que Eu lhe proponho. Já lhe propus que recuse voltar a encontrar-se com o Sinédrio, refugiando-se mesmo em tua casa, mas ele recusou e continua a recusar. Aguentar Judas durante estes três anos custou-me mais do que me vai custar o que se aproxima de Mim. Já imaginaste, Eu, a pureza e santidade absolutas, a ter de conviver com alguém entregue à hipocrisia, à mentira, à imoralidade, ao espiritismo, à prostituição, à traição,… ao ponto de ir cometer o delito dos delitos: trair o seu Deus! Eu te digo: Se o inferno não tivesse sido criado para os anjos caídos, teria sido criado para ele! Não imaginas o Meu sofrimento, que abre as comportas das minhas lágrimas. Para ele não valerá de nada Eu ter vindo !

Lázaro – Senhor, ocorreu-me a ideia: Se, naquelas horas, os teus discípulos vierem pressionar-me para dar algum passo em Teu favor, que deverei fazer?

Jesus – Na próxima vez que fores a Jerusalém, tu irás encontrar o João, que vai mesmo pressionar-te para ires falar com Pilatos. Tu vai dizendo: “Não posso!” Por fim, se ele não te largar, diz-lhe simplesmente: “ O Mestre proibiu-me de interferir”! Nessa altura, ele compreenderá porquê e fará tudo para conter os outros, sobretudo o impetuoso Simão Pedro. Agora, chegou o momento de te dizer mais alguma coisa: Eu vou fazer uma entrada solene, triunfal, em Jerusalém, para cumprir mais uma profecia, que diz: “Alegra-te, Jerusalém, porque o teu Rei vem a ti, montado num jumentinho”(Zac 9,9) ! E sou Eu que te faço mais um pedido: avisa os Meus discípulos, aqueles que encontrares, e diz-lhes que dentro de três dias, espero por eles aqui, com ramos de palmeira, para entrarem comigo em Jerusalém. E que avisem também os de Jerusalém e arredores, para que façam o mesmo! …Estás a questionar-te: “Porquê isso, se tudo já está acertado quanto ao que O espera”? Vou dizer-te: Para cumprir a profecia, para dar a Jerusalém e ao Sinédrio uma última prova de que Eu sou o Messias esperado, o seu Rei, para fortalecer na fé todos aqueles que Me seguem, para convencer os da última hora, os indecisos, os que ainda têm dúvidas,…Quero dar-lhes a oportunidade de glorificarem o Messias, o verdadeiro Rei de Israel, antes que as trevas caiam sobre Ele.

Lázaro – No fim, Senhor?… (Chora)

Jesus – No fim, Lázaro, como está escrito, serei preso, maltratado, sofrerei, morrerei crucificado e ressuscitarei ao 3º dia, pois Eu sou a Ressurreição e a Vida, tal como disse às tuas irmãs.

Lázaro – E depois,…que serviço esperas de mim e das minhas irmãs?

Jesus –Tu serás ordenado sacerdote e bispo e a Gália espera por ti. As tuas irmãs irão contigo e Eu estarei sempre convosco!

.

Ezequiel Miguel

 .

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Salmo 139 (140) – Senhor, salva-me do homem violento!

discussao06Senhor, protege-me contra o homem malvado,

mantém-me afastado de todo o homem violento!

Em seu coração está o mal sempre planeado

e é na discórdia que tem seu contentamento.

 .

Afiam a língua como a afiam as serpentes,

sob os seus lábios há veneno viperino.

Guarda-me das suas mãos, para o mal sempre quentes,

armam-me emboscadas como faz um felino.

 .

Os soberbos suas armadilhas esconderam,

para me prender. De rede eram os seus laços.

As suas redes em meu caminho estenderam,

assim preparando um tropeço aos meus passos.

 .

Digo ao Senhor:” Vós sois o meu Deus e Senhor,

escutai-me! Meu pedido não recuseis!

Senhor, meu Deus, meu poderoso Salvador,

no combate a minha cabeça protegeis.

.

Senhor, rejeitai os desejos dos arrogantes

,não favoreçais os seus malévolos planos,

não levantem a cabeça os meus sitiantes,

sobre eles recaiam sua malícia e enganos!”

 .

Caia sobre eles dilúvio de carvões ardentes,

caiam em abismos, persiga-os a má sorte!

De caluniadores acabem-se as sementes,

que o mal acompanhe o violento até à morte!

 .

Deus fará para os pobres a justiça vingar

e defenderá o direito dos indigentes,

os justos irão o Vosso Nome celebrar,

ante Vós estarão os rectos sempre presentes.

.

Ezequiel Miguel

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