E Pedro chorou amargamente (Lc 22,61-62)

(Realidade & Ficção)

 .

É na noite de Sábado, dia seguinte à morte de Cristo. A Ressurreição de Cristo está por horas. Entretanto:

Maria de Alfeu, mãe de Judas Tadeu e Tiago, conversa com a Mãe de Jesus, da qual era cunhada, sobre o comportamento dos filhos, que não tiveram coragem para acompanhar Jesus na sua prisão.

Maria de Alfeu – Eu não lhes perdoo. Eles fugiram como uns fracos, uns cobardes, uns medricas. E logo eles  que me envergonharam a cara e a tua também, pois eles são teus sobrinhos.

Maria – Não os censures. Eles fizeram o que todos fizeram, pois está escrito :”Ferirei o Pastor e as ovelhas dispersar-se-ão” (Zc 13, 7)). Além disso, aquela hora era a hora dos demónios…

M.Alfeu – Pois é! Mas eles tinham sido avisados e fora-lhes pedido que se mantivessem em oração e vigília. Eu não  perdoo àqueles cobardes!

Maria – Deves perdoar, porque a falta de fé leva qualquer um a cair, nas horas da perseguição. Todos os seres humanos são fracos de espírito. Até eu fui muito tentada contra a Fé na Ressurreição do Meu Filho, pois Satanás me insinuava que estava tudo perdido. Foi para mim um combate terrível…Só a oração e a confiança absoluta no Pai me deram forças!

M. Alfeu – Mas eles tinham a obrigação de…porque eram primos e conheciam-se desde a infância. Eles foram uns miseráveis! Que os outros fugissem…paciência! Mas eles!? Eles sabiam que Jesus ia ser preso, por isso deviam estar preparados e deviam ter pensado nisso a tempo. Quando os vir vou passar-lhes uma sarabanda que…olha, nem sei o que lhes vou dizer. Mas não lhes perdoo!

Maria – Perdoa, porque o Meu Filho também lhes perdoa, a eles e a todos os outros e também perdoaria ao Judas Iscariotes se ele se tivesse arrependido e pedisse perdão…Além disso, lá bem no fundo…será que tu tens fé absoluta na Sua ressurreição ou também lá tens escrito: “É impossível!”

M. Alfeu – Bem…Mas nós estivemos lá no Calvário…e somos mulheres!…

Maria – Mas não foi por nossa própria coragem. Foi o Pai que nos concedeu essa graça, de contrário também teríamos fugido. Até o centurião Longinus disse que aquilo era uma coisa horrível de se ver. Não te gabes, pois, dessa coragem!

M. Alfeu – E porque não lhes foi concedida a eles essa graça?

Maria – Porque eles estão destinados  a ser os futuros sacerdotes e será bom para eles saberem como é fácil pecar, para que não tenham a veleidade de se julgarem mais fortes do que os outros pecadores que recorrerem a eles e também para que não andem a pregar aos outros aquilo que eles não fazem. O meu Filho não quer sacerdotes como os do Templo, que foram os Seus principais inimigos. O meu Filho quer sacerdotes mansos, pacientes, bondosos, compreensivos…que não desatem a ralhar e a  condenar  pelos pecados cometidos, pois eles também não estarão livres de os cometerem…, tanto mais que Satanás fará tudo para os fazer cair. Quando eles pregarem sobre o pecado e sobre a misericórdia divina, eles saberão de que estão a falar, pois falarão da sua própria experiência.

M. Alfeu – Tu falas como se o Teu Filho já estivesse de novo entre nós!…

Maria – Vês como a tua fé é tão fraca? E insistes em condenar os teus filhos? Ele disse que ressuscitaria e vai ressuscitar e depois disso inaugura-se um novo mundo, começa a funcionar a Nova Aliança, que vai perdurar até ao fim do mundo. Escuta! Estão a bater ao portão!

Maria de Alfeu vai abrir.

Maria de Alfeu – João! És tu? Alguma coisa de novo?

João – Sim, deixa-me entrar! (Dirigindo-se a Maria) Mãe! Olha para isto, que tu conheces bem…É o manto do Senhor. Foi encontrado por Simão Pedro no Getsémani. Mas… está  rasgado, manchado de sangue e há cá sinais de mãos finas e longas. Judas Iscariotes tinha as mãos assim…Ele deve ter voltado ao Getsémani, àquele sítio onde Jesus costumava orar e, num acesso de raiva, deve ter pegado no manto e à dentada rasgou o que pôde. Tem marcas de dentes humanos. Ele deve ter feito isso antes de se suicidar. Além disso, Simão Pedro encontrou perto um bocado da veste amarela de Judas. Tudo indica que ele voltou àquele lugar depois de ter recebido e devolvido, em desespero, os trinta dinheiros…

Maria pegou no manto de Jesus, acariciou-o junto ao rosto, beijou-o e extasiou-se na contemplação… , deixando escapar doces lágrimas que, também elas, foram beijar o sagrado manto vermelho, de pano forte, preparado para o frio. Ela abre-o e contempla os rasgões e a grande quantidade de sangue que o ensopa.

João – Mãe, a terra onde Ele esteve a orar também assim está, como o manto, coberta de sangue ainda fresco a colorir a erva e as folhas por lá caídas. De onde viria este sangue? Eu, durante a Ceia,  não vi Nele nenhum sinal de feridas!…

Maria – Do Seu Corpo. Na tremenda angústia por que passou, os Seus sagrados poros abriram-se e o Seu Sangue regou a terra. E vós, o que fazíeis por lá, enquanto Ele se desfazia em sangue?

João – Mãe,…eu… eu envergonho-me de dizer, mas…nós estávamos a dormir! ( e chora copiosamente)

Maria – E Simão Pedro, que é feito dele?

João – Eu voltei ao Getsémani à procura do manto…e foi lá que encontrei o Simão Pedro, escondido, irreconhecível de tanto chorar. Parecia um louco e não me queria ouvir, procurando até fugir de mim. Mas eu segurei-o e acalmei-o um pouco. Ele não se aguentava de pé, cambaleava desnorteado. Foi então que ele me disse:

……………………………………………………………………………………………………….

Pedro – Deixa-me, afasta-te de mim, que sou um demónio. Ele bem me avisou que o galo cantaria antes de eu O renegar. Eu envergonho-me e não sou capaz de ver ninguém, pois eu mereço que todos me apedrejem. Imagina o que foi Ele olhar para mim quando passou perto! Aquele olhar fulminou-me e era um olhar de Amor!…Ainda se fosse de ódio…eu estaria como mereço…mas aquele olhar de Amor deixou-me destroçado, derretido… Depois eu fugi sem saber para onde e andei por aí perdido, até que vim parar aqui  e não tenho feito mais nada senão chorar. Eu o traí, depois de tantas vezes Lhe jurar fidelidade! Sou um monstro, um miserável, não mereço viver! Foi então que Iahweh me levou a encontrar o Seu manto e todo aquele sangue que cobre o chão, ainda fresco. Eu vejo este manto e este sangue acusarem-me. Não sei como foi possível eu renegar o meu Mestre, o meu Senhor, o meu Deus… perante duas criadas…tanto mais que ninguém me ameaçou, ninguém tentou prender-me, não estive em risco de vida, ninguém ameaçou matar-me…e neguei-O de um modo infantil! Com que cara vou aparecer na frente dos outros…e na frente da Mãe…(aqui Pedro sufoca de choro convulsivo, inconsolável). Eu fico aqui a honrar o Manto e o Seu Sangue. Não tenho coragem para ir à Mãe…

João – Todos nós O abandonámos e eu também fugi, embora o tenha acompanhado ao Calvário, porque tenho conhecimentos entre os grandes do Templo. Mas Ele nos ama e nos perdoa, assim como a Mãe, que é a Mãe do Amor. Iahweh diz que Ele perdoa aos corações arrependidos que recorram a Ele. Anda daí, vamos ter com Ela, que também sofreu muito e está a sofrer. Ela, que nos ama a todos, nos preparará para enfrentarmos o Mestre quando Ele surgir à nossa frente, depois de ressuscitado. Vais ver que Ela não te censura, não te ralha, porque Ela é toda doçura, amor, compreensão, intercessora solícita, Mãe de todos os homens, conforme o Mestre declarou antes de morrer.

………………………………………………………………………………………………………..

Maria – Afinal… Onde é que deixaste o Pedro? Ficou lá no Getsémani?

João – Não! Depois de muito esforço e muitos argumentos…consegui que viesse até aqui…

Maria – E onde está ele agora?

João – Está ali, atrás de uma porta, escondido. Eu vou chamá-lo. (Sai e volta logo) . Ele não quer vir. Envergonha-se de aparecer à tua frente. Chama-o Tu!

Depois de o chamar várias vezes sem resultado, Maria vai até ele e lá o encontra abatido, agachado, lavado em lágrimas que não param. Finalmente, consegue puxá-lo para dentro. Pedro ajoelha-se a seus pés e continua a chorar.

Maria –(Acariciando os cabelos húmidos de Pedro, ajoelhado a seus pés ) Pobre Pedro, não chores mais. O meu Filho e eu continuamos a amar-te como sempre e o teu arrependimento faz esquecer o que aconteceu. Quem me dera a mim poder acariciar os cabelos de Judas Iscariotes como acaricio os teus. Que triunfo para o meu Filho ter-vos podido salvar a todos!… Acalma-te, eu te perdoo e o meu Filho também. O teu arrependimento é superior ao teu pecado e a misericórdia do meu Filho apagará todos os traços e manchas que ficaram em ti. Logo terás ocasião para mostrares ao teu Mestre que o teu amor a Ele é mais poderoso que a tua negação. Lembra-te de outros pecadores que o teu Mestre reabilitou, porque muito amaram e tu até conheces uma das que andam connosco (Maria Madalena). Passastes todos por aquela hora medonha, sinistra, em que tudo e todos estavam sob o poder de Satanás. O meu Filho bem vos avisou…Agora esquece…porque esta noite não chegará ao fim sem ver o teu Mestre sair vitorioso do ventre da Terra, para reinar pelos séculos dos séculos, como Rei, Juiz e Deus soberano, depois de reabrir as portas do paraíso, fechadas desde a Queda de Adão e Eva. Alegra-te, anima-te, porque a tua verdadeira missão vai começar em breve e todos vós disporeis de uma Força que irá sacudir o mundo dos homens.

Pedro – (Já um pouco mais calmo) – Eu sei que Tu e o Teu Filho me perdoais, mas eu é que não sou capaz de me perdoar a mim próprio. Não sei como foi possível o que aconteceu…eu que estava disposto a morrer por Ele e em vez Dele. Todos foram testemunhas destas minhas intenções e depois…(desata novamente em pranto).

Maria – Vamos, acalma-te! Vais desfazer a tua tríplice negação do teu Mestre com uma tríplice confissão de Amor ao Teu Mestre  (Vai buscar a toalha da Verónica onde Cristo deixou impressa a imagem do Seu Rosto e desdobra-a).

Maria – Aqui tens, Pedro, a imagem do santo Rosto do Teu Mestre. Vê os Seus olhos abertos e fitando-te com o Seu olhar misericordioso, sem te censurar, sem te castigar, sem te ameaçar, sem te envergonhar perante os outros, sem te humilhar, lidando contigo como se não se tivesse passado nada. Lembra-te que Ele é Amor e só Amor,…que ao mínimo sinal de arrependimento e boa vontade fica pronto para recolher o pecador em Seus Braços. Quanto à missão que Ele já te confiou, ela continua…e não te esquecerás que a Igreja que vai ser fundada é constituída por pecadores, a começar por ti…e isso se gravará no teu coração, para que não percas de vista que a salvação das almas é a  sua tarefa única. A Igreja vai ser santa, porque fundada por Deus e alimentada por Deus com todos os meios santos para a Salvação. Foi para isso que o Meu Filho veio ao Mundo e vos escolheu para a fundar, apoiada nos doze pilares que sois vós.

Enquanto Maria falava, Pedro, ajoelhado em frente do Rosto de Jesus, ainda incapaz de conter os soluços, ia depositando amorosamente os seus beijos sobre ela, acabando por se acalmar, sem que os seus olhos vermelhos deixassem transparecer qualquer sinal de alegria. E na imagem do Rosto de Cristo lá ficaram os últimos três beijos  de Pedro, selados com três profundos gritos de “amo-te, meu Mestre, meu Senhor e meu Deus”.

Maria (Mãe de Jesus), Maria de Alfeu, Marta, Maria Madalena, João, Pedro,…chegaram ao limite das suas resistências e acabaram por deitar-se onde puderam, extenuados, tristes e abatidos, à excepção da Mãe de Jesus, que continuou em oração o resto da noite, esperando a cada momento que Ele lhe aparecesse ressuscitado. Pela aurora, um meteoro, traçando um rasto de fogo e luz, desce do céu, ilumina a noite, sacode Jerusalém, remove a pedra que tapava o túmulo de Cristo. Maria sente,…estremece de alegria,… vê Jesus à Sua frente!…Cristo ressuscitou! Aleluia!

 .

Ezequiel Miguel

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4 Comentários (+add yours?)

  1. Trackback: Ressuscitou, como disse (Mt 28,6) « Deus, Bíblia e Poesia
  2. Sylvio Roberto
    Out 11, 2012 @ 15:54:21

    Gostaria de saber qual a fonte das informações acima, creio que esses diálogos devem ser encontrado em algum livros histórico escrito por algum estoriador da época, contundo esse diálogo entre os personagens aqui descritos não constam na Biblia sagrada. Se possível me respondam informando onde encontro isso, ou então no caso de não haver uma base sólida, creio que deveria ser retirado esse post.
    Graça e Paz a todos

  3. Ezequiel Miguel
    Out 14, 2012 @ 18:29:06

    Estes diálogos estão catalogados em Dramatizações de realidade e ficção. Logo, são cenas de teatro e como tal devem ser lidos e entendidos, extraindo deles a mensagem que lhes está subjacente e com probabilidades de ser de algum modo possível. Não é difícil imaginar como se sentiram os personagens naqueles dias da Paixão de Cristo, conhecendo um pouco a personalidade dos diversos intervenientes nos diálogos. Quanto a retirá-los,…aconselho antes que não tire conclusões apressadas deste diálogo e dos outros. Estes diálogos são propositadamente catequéticos e tanto quanto possível…possíveis! O meu conhecimento da Bíblia, algumas leituras de místicos católicos e a minha imaginação permitem-me construir tais diálogos sem que ninguém tenha o direito de os questionar, pois não contêm erros doutrinais sob o ponto de vista católico.Paz e bênção na Verdade!

  4. Trackback: Exulta, filha de Sião! Eis que o teu Rei vem a ti! | Deus, Bíblia e Poesia

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