Silêncio de ouro

- Se pudésseis guardar silêncio passaríeis por sábios ( Job 13, 5)

- Maçãs douradas em bandeja de prata, assim são as palavras oportunas (Prov 25, 11)

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Todos conhecem e citam o ditado: A palavra é de prata, mas o silêncio vale ouro (ou é de ouro).

Será mesmo assim e em todas as circunstâncias? Não poderá acontecer que a palavra possa  ser de ouro e o silêncio valer menos que um bocado de cartão? Tudo precisa de ser explicado, porque cada um pode valer ouro, ambos podem ter o valor da prata ou o valor de um ferro velho. No plano moral até podem ambos ser pecado, quando há obrigação de falar e não se fala ou obrigação de calar e não se cala.

Falar em louvor do silêncio, nestes tempos tão barulhentos, até pode parecer uma heresia, mas ele surge por contraste com este mundo afogado em barulheira de todos os tipos e feitios e a todas as horas do dia e da noite, em todos os locais habitados pelo homem. Quem se der conta desta enxurrada ruidosa, poderá estar já afectado por uma necessidade de silêncio. Onde e como procurá-lo, quando se sentir a cabeça a martelar, o pensamento a diluir-se por incapacidade de concentração, um certo protesto a subir-nos até cá acima e duplamente protesto por não sabermos como remediar e contra quem protestar? Mas teremos mesmo que ser vítimas fatais deste martelar constante que nos entra pelos ouvidos e nos vai ferir até às profundezas?

Quem vive em cidades dotadas de universidades passa por vezes por calvários para suportar o ruído provocado por estudantes nos prédios em que eles habitam, num total desrespeito, falta de civismo e de muitas outras coisas, obrigando frequentemente os moradores a fugirem do prédio, se quiserem gozar do descanso nocturno a que têm direito. Nem vale a pena apresentar queixas às autoridades. É aguentar ou fugir do inferno do barulho selvagem a que ninguém põe cobro.

Nós não podemos (não somos capazes) de obrigar os outros a satisfazer a nossa  necessidade de silêncio, quando realmente atingimos o estado em que se pode saboreá-lo, ouvi-lo, deixar-se envolver por ele. Ao falar assim já estou a referir-me ao silêncio que nós próprios criamos para nosso íntimo e espiritual proveito. É aqui que o silêncio começa a ser de ouro, porque nos permite elevar a alma, o coração, o pensamento, a mente, para Deus, em oração contínua ou frequentemente repetida. O nosso corpo pode envolver-se numa actividade visível a todos, mas o nosso espírito pode saborear simultâneamente o silêncio interior que é causa e fruto da união com Deus. A oração precisa de silêncio para que o seu perfume suba nos ares até Deus, daí se concluindo que o ruído criado por nós ou pelos outros constitui uma carapaça, umas nuvens de cinza que bloqueiam ou destroem esse perfume. Já Jesus Cristo nos disse que, quando quisermos rezar ao Pai, devemos isolar-nos num quarto, isto é, precisamos de concentração, afastamento, isolamento e silêncio.

Há pessoas que se dão bem com o ruído, porque o silêncio, para elas, torna-se pesado, sombrio, ameaçador, difícil de aguentar, chegando-se ao ponto de ter medo dele…E porquê? Porque o silêncio anda associado à solidão, ao retiro, ao isolamento, à fantasia, ao pensamento, à meditação, à contemplação, à oração mental. Eu preciso de silêncio para admirar uma flor, um céu estrelado, uma noite de luar, uma paisagem montanhosa, um rio por entre margens frondosas, uma beleza natural, um mar que se espraia infinito ante os meus olhos. Preciso de silêncio para ouvir as aves a cantar, os riachos de água a saltitar pelas pedras,  apreciar a beleza de um jardim, a grandeza de uma cadeia de montanhas…e preciso de silêncio para rezar a qualquer hora do dia ou da noite, porque Deus não dorme e está sempre atento, seja à minha voz ou aos meus pensamentos e aos impulsos da  alma, quando se eleva na Sua direcção, com uma vantagem: as linhas de comunicação com Ele nunca estão entupidas por motivo de sobrecarga, mas o ruído, a agitação, o frenesim, as preocupações do dia a dia, a televisão, o computador, as telenovelas e muito mais…impedem que Deus comunique comigo, porque sem silêncio interior e exterior não ouvirei a sua voz. Preciso ainda de silêncio para saborear uma boa leitura espiritual, para ler a Bíblia ou a vida de um Santo, para estudar o Catecismo da Igreja Católica, etc.

O caminhar na presença de Deus exige que eu me lembre Dele muitas vezes ao dia, entre em comunicação com Ele, por meio de curtas orações mentais de louvor, acção de graças ou pedidos de ajuda de qualquer ordem ou de intercessão. Jesus Cristo, durante a pregação do Reino, refugiava-se frequentemente no deserto ou afastava-se dos apóstolos para, na solidão e no silêncio, orar ao Pai. Durante as Suas caminhadas, sempre à frente, ia em silêncio, recolhido e concentrado na oração, apenas interrompendo quando necessário. Nunca dizia palavras inúteis, uma lição que não costuma ser referida quando se fala de Cristo, o Mestre da Palavra, mas também do Silêncio. Lição semelhante se tira da vida de Maria de Nazaré, que “conservava todas estas coisas no seu coração”.

Cultivar o silêncio é uma devoção, mas para os que vivem em Conventos será uma obrigação, mais ou menos rigorosa conforme as respectivas Regras ou Constituições. Nos Religiosos ou Religiosas de Clausura (Carmelitas, Cartuxos, Trapistas e outros) o silêncio é mais rigoroso, sobretudo em certos períodos e locais e aqueles ou aquelas que não o levarem muito a sério poderão incorrer em pecado grave e morrer nele, porque não se julga necessário arrepender-se, confessar-se e emendar-se. Julgar que o desrespeito pelo silêncio é uma pequena falta é um engano que sairá caro. Isto se pode depreender da vida de Santa Faustina, onde consta que uma sua Irmã do convento, falecida pouco antes, lhe aparecera e lhe revelara que fora condenada ao inferno por se ter viciado no desrespeito pelo silêncio conventual. É caso para perguntar: só por isto? Será possível? Digo-lhe que é! Não é difícil imaginar que prejuízos terá causado a si e às outras Irmãs ao tornar-se um sino  sempre a badalar…Ao badalar em horas de silêncio deve ter, não só quebrado o silêncio obrigatório, mas também criticado, julgado, acusado, censurado, murmurado, feito juízos arriscados, condenado, contado coisas à sua maneira, distorcido a realidade, difamado, caluniado, contado falsidades ou inexactidões, intrigado, acusado falsamente, lançado veneno sobre as Superioras ou outras Irmãs, etc., tendo acabado por ser vítima de todos os pecados que se cometem com a língua. Essa tal Irmã deve ter sido vítima da Sabedoria divina, que disse: “Aquele que é imponderado no falar busca a sua ruína ( Prov. 13, 3). Pode-se aprender daqui que são graves certas faltas a que não ligamos importância, por isso o Temor de Deus obriga-nos a evitar qualquer falta, por mínima que seja ou pareça ser. Nós não vemos as nossas faltas com lupa, mas Deus vê. Há, porém,  um silêncio que está acima de todos os silêncios e é o silêncio de Confissão que os sacerdotes são obrigados a guardar, sob pena de pecado grave e sanções, sendo obrigados a aceitar o martírio, se for caso disso, havendo já vários que o aceitaram. É mesmo um silêncio sacramental, mais pesado do que o silêncio de um segredo profissional.  Um segredo de Confissão não pode ser revelado em caso nenhum, por ser inviolável. Caso o revele, o sacerdote fica excomungado automaticamente. É um silêncio de túmulo, desde que haja confissão com absolvição. Se não houver absolvição, não houve confissão, havendo apenas uma conversa, e nesse caso o sacerdote poderá ser obrigado a testemunhar um crime em tribunal.

O rigor com que a tal Religiosa condenada foi julgada também deve ser pensado por aqueles que não são Religiosos ou Religiosas conventuais, isto é, os leigos que vivem no mundo. O silêncio, além de uma atitude de concentração interior, pode também ser uma resposta aconselhável, plena de sabedoria,  a certas circunstâncias que exigem uma boa dose de auto-domínio, para não se pecar contra a caridade, pagando o mal com o mal, a ofensa com a ofensa, a cólera com a cólera, a violência verbal com outra violência verbal. O silêncio exige que se guardem para si as queixas, os desabafos, as difamações, as calúnias, as murmurações que se ouvem a respeito de alguém. Ouvir (quando não se pode fugir) e calar, silenciar…e não ir retransmitir a ninguém, a não ser a quem possa interferir para corrigir algo ou alguém, é a obrigação grave que se impõe, não ficando ninguém excluído desta obrigação. Quem ouve para contar não está livre de ser punido com o rigor de que se vem falando, pois não é falta leve, devido às consequências que pode trazer. Toda a gente conhece casos de inimizades, desunião ou destruição de famílias, crimes…por não se guardar o silêncio sobre certas coisas que alguém contou ou viu. O silêncio é ainda de ouro quando nos criticam ou acusam injustamente, quando cai sobre nós uma enxurrada de palavreado agressivo, quando nos difamam ou caluniam, quando temos de lidar com temperamentos agressivos, coléricos, neuróticos, mal humorados, rabugentos, sejam eles no seio do lar ou no âmbito da profissão. Em alguns destes casos o silêncio exige heroísmo, tornando-se então de ouro maciço, se oferecido a Deus.

E nas nossas igrejas, como é isso do silêncio na Casa de Deus? Não teremos  muitos de nós culpas por atitudes profanas e desrespeitosas na Casa de Deus? Será a igreja o local ideal para as pessoas se cumprimentarem, se beijarem, darem apertos de mão, ficar ali a palrar após a missa, após um Casamento, um Baptizado, um Crisma, uma primeira Comunhão,…todos a perguntarem como vai a saúde, como correu a operação,…para pôr a conversa em dia desde a última vez que conversaram, às vezes desde o dia ou domingo anterior? Serão estas coisas inocentes ou estarão no rol de infracções graves a que não costumamos prestar grande atenção? O caso acima referido por Santa Faustina no seu Diário poderá ser para nós a resposta que precisamos de ouvir, meditar e guardar durante toda a vida.

Falta dizer quando é que a palavra é de ouro e não o silêncio:

. Quando falamos para repor a verdade, dar testemunho da verdade, por exemplo como testemunha de defesa de um inocente.

. Quando damos testemunho da Doutrina de Cristo, pregando, expondo, explicando, aconselhando, esclarecendo oportunamente.

. Quando tentamos corrigir alguém (por ex. os filhos) por atitudes e comportamentos censuráveis.

. Quando damos conselhos oportunos para bem de alguém.

. Quando, em oração colectiva, acompanhamos os outros  em voz alta, cantando ou rezando.

. Quando nos envolvemos em qualquer tipo de apostolado que requeira o uso da palavra.

Termino com o conselho de S. Bento a um dos seus confrades: “ Faça silêncio, a não ser que tenha algo a dizer mais importante que o silêncio”.

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Ezequiel Miguel

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