Jesus em casa do fariseu Josias

(Realidade & ficção)

Personagens: Jesus/ Josias / fariseus/ doutores da Lei/ escribas

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Jesus12Jesus pregava no Templo perante uma boa audiência, da qual faziam parte fariseus, saduceus, escribas, sacerdotes, doutores da Lei e membros do Sinédrio, que aproveitavam todas as ocasiões para ouvirem Jesus, não porque estivessem interessados em tornarem-se Seus discípulos, mas porque precisavam de O apanhar em falso, para depois o acusarem e O levarem a julgamento, por subversão da Lei de Moisés e dos costumes judeus.

Por onde Jesus andava, andava, sempre que antecipadamente o soubessem, um ou mais espiões a soldo do Sinédrio, na esperança de O apanharem em qualquer coisa, palavras ou atitudes, que pudesse ser catalogada no pecado. Jesus já os tinha desafiado, num dos frequentes debates que eles provocavam, a conseguirem descobrir nele um pecado que pudesse ser transmitido às autoridades do Templo: “Quem de vós poderá acusar-me de pecado”? Mas o terreno que Jesus pisava tinha muitas ratoeiras. É que, com o passar dos anos, a Lei que fora dada a Moisés, após a passagem do Mar Vermelho, fora largamente acrescentada com prescrições saídas abusivamente de cabeças humanas. No tempo de Jesus, já eram 613 prescrições, carregadas com a força de lei, que as autoridades do Templo faziam questão de (fingir) cumprir e fazer cumprir, sob pena de penalizações severas.

Jesus, em suas pregações onde havia fariseus e doutores da Lei, não raro se insurgia contra eles. Esta foi mais uma dessas ocasiões em que Jesus respondeu às questões que eles lhe punham, pretendendo normalmente contradizer, rebater, negar, sofismar os argumentos de Jesus e ficar bem vistos perante o povo simples que ouvia Jesus com agrado e Ele também com agrado os via à Sua volta.

Um dos fariseus que deu a entender apreciar os argumentos de Jesus era Josias, membro do Sinédrio, que comandava um pequeno e selecto grupo de fariseus, doutores da Lei e colegas do Sinédrio. Após a pregação, ele aproximou-se de Jesus com uma finalidade previamente definida e uma estratégia já preparada:

Josias ( 1º fariseu)–Mestre, falaste bem! Será que posso convidar-te para um banquete em minha casa, pois penso que me honras com a tua ilustre presença na minha humilde casa, que fica mesmo aqui a poucos passos do Templo?

Jesus – Estou-te grato pelo convite, mas eu prefiro ficar com os meus discípulos (apóstolos).

Josias – Não há problema. Trá-los contigo, pois cabemos lá todos!

Jesus – Se é como dizes, então iremos! Mas desde já aviso que, pelo facto de ser teu hóspede, não mudo a minha linguagem! Eu vim para dar testemunho da Verdade e não me calarei quando ela tem de ser pregada, doa a quem doer! Sobre este assunto eu não pactuo com ninguém, mesmo que me convide para sua casa. Manténs o convite, mesmo com estas condições?

Josias – Pronto, seja como dizes! Vamos então caminhando para a minha casa, onde já está tudo preparado. É uma casa simples, de paredes nuas, sem flores, sem estátuas, sem pinturas, sem quadros pendurados nas paredes…sem nada, tal como está escrito na Lei. Em minha casa exijo que não entre nada daquilo que pode ser encarado como elemento de paganismo. Sou puro de alma, de mente, de corpo, de opiniões e pontos de vista e isso exijo também aos que vivem ou trabalham comigo. Tudo simplesmente simples e próprio de um santo do Sinédrio!

Jesus – A Lei proíbe isso tudo? Cita-me as passagens que a isso se referem!

Josias – Então, aqui vai: “Não farás para ti imagem esculpida nem representação alguma do que está em cima, nos céus, do que está em baixo, na terra, e do que está debaixo da terra, nas águas” ( Êxodo 20,4) / Dt.5,8

Jesus – Terminaste?

Josias – Sim!

Jesus – Porque não citas o que vem a seguir?

Josias – Não me lembro do que vem a seguir! O que eu citei é que é importante , pois é o Mandamento de Yahweh transmitido ao povo por meio de Moisés!

Jesus – Então, Eu digo-te o que vem a seguir a esse texto que citaste: “ Não te prostrarás diante delas e não as adorarás, porque Eu, o Senhor, sou um Deus ciumento…” (Dt 5,9) Que conclusão tiras daqui? Achas que os teus pontos de vista estão correctos e achas justo interpretar como interpretas? Porque omitis o que não vos interessa e que vai contra vós? Está lá bem claro que Yahweh apenas proíbe aquelas coisas se alguém lhes prestar culto de adoração, o que passa a ser idolatria. É assim que sois mestres em Israel, truncando, deformando, acrescentando, omitindo, a palavra do Senhor? Digo-te mais: Judite e Ester, inspiradas pelo Senhor, vestiram-se garridamente e ostentavam flores em seus vestidos, tudo para levarem a cabo a missão que Deus lhes confiara! Também Salomão se serviu de várias imagens para decorar ambientes e até de figuras de animais. Sereis vós mais sábios que Salomão?

Também te pergunto: Quem mandou construir as duas estátuas de querubins que, com suas asas, cobriam a Arca da Aliança? Quem mandou bordar dois querubins no cortinado/ véu do santuário, por trás da Arca da Aliança? Porque foram mandados bordar por Yahweh? Não é isso que vedes ainda no Templo? Tens presente a serpente de bronze que Moisés mandou fabricar e erguer no deserto, a uma ordem de Yahweh? Serás tu mais puro, mais santo e mais amigo de Yahweh? Serve-te da tua inteligência e torna-te capaz de discernir o que está dentro da Palavra de Yahweh e não metas tudo no mesmo saco!

Josias – Então, eu sei que todas essas coisas foram da iniciativa de Yahweh e executadas a mando de Moisés! É claro que não eram ídolos, por isso não caíam na proibição de que fala a citação!

Jesus – Se uma pintura, uma flor, uma paisagem, uma imagem,…não se destinam a serem adoradas, como é que vós as rejeitais? Acaso as flores, as paisagens, os monumentos, uma pintura da travessia do Mar Vermelho, de um acampamento no deserto, de Moisés com as Tábuas da Lei, de Israelitas a recolher o Maná do deserto, etc., serão proibições de Yahweh? Dizes que a tua casa está totalmente despida de decoração. Não achas que isso provoca um ambiente frio, nada acolhedor, alheio aos sentimentos da beleza que há nas flores, nos rebanhos, nas montanhas, nas árvores, nos vales, nos rios, nas fontes, nos mares… ? Foi Deus que criou isso tudo e Ele gostou do que fez. Toda a beleza que vos cerca vem de Deus, que é a Beleza Absoluta. Porque não aproveitar para Lhe agradecer e para O louvar perante uma pintura bonita nas paredes vazias da tua casa?

Josias – Mas há sempre o perigo de vermos essas coisas como manifestações pagãs. Por isso, eu acho que é melhor e mais seguro ser absolutamente puro nessa matéria.

Jesus – Será que te ofendo se te perguntar se também te preocupas com ter uma alma pura, limpa, despida de maldade, de corrupção, de baixezas morais, de pecados contra a castidade,…? Procurais, vós todos, ser puros aos olhos de Deus, que conhece o vosso íntimo e que vos julgará severamente?

Josias – Bem, Mestre, chegámos à minha casa! Antes de entrarmos, Tu e os teus discípulos aguardai aqui, pois eu tenho de me encontrar primeiramente com uns amigos que me esperam lá em casa…Não demoro!

Josias deixou os seus convidados na rua, em frente da casa, e, pouco tempo depois, voltou apressadamente:

Josias– Mestre, vamos entrar e vamos já para as mesas, pois não posso perder tempo, uma vez que terei de me ausentar por motivos de uma reunião com os meus colegas do Sinédrio.

Já todos à mesa, o silêncio demorava a ser interrompido, até que um dos colegas convidados de Josias, um doutor da Lei, quebrou o gelo:

1º Doutor da Lei – Mestre, temos muita honra em ter-te aqui connosco. Dando continuação ao que estávamos a tratar no Templo, diz-me: Tu podes demonstrar-nos que és mesmo o verdadeiro Messias de Israel, aquele de que falam os profetas? É que nós não estamos assim tão seguros que o sejas! Como deves saber, já houve vários que disseram ser o Messias e o resultado foi…serem todos mortos, por se ter concluído que eram impostores.

Jesus – Essa eventualidade não está descartada de Mim!…Mas, se confrontardes os profetas e as Minhas obras, facilmente concluireis que eles falam de Mim e acerca de Mim. Estais a pensar: Que obras é que Ele faz? Pois Eu digo-vos que as Minhas obras são públicas e delas há muitas testemunhas, umas honestas e outras…desonestas, algumas delas enviadas por vós! Também deveis saber que a profecia do profeta Daniel sobre o aparecimento do Messias já se cumpriu, o que quer dizer que Ele já está entre vós e sou Eu, que neste momento vos falo. O meu anjo, profetizado como anunciador do Messias, é João Baptista. Também já deveis ter ouvido dizer que Yahweh Me anunciou publicamente como o Seu Filho muito amado, quando Me apresentei ao João para ser baptizado no Jordão. Interrogai aqueles que ouviram e viram. Sede rectos de coração e aceitai-Me como o Messias prometido de Israel! Não espereis por outro, que nunca virá!

Josias – Mas tu não podes ser o Messias! Se o fosses, não terias infringido a Lei, aqui mesmo à frente de todos nós, que manda purificar-se antes de se sentar à mesa. Nem Tu nem os teus discípulos lavastes as mãos e os pés quando entrastes na minha casa. Fostes logo para as mesas sem vos importardes com o cumprimento da Lei!

Apóstolo João – (Sentado ao lado de Jesus e em voz baixa) – Mestre, tudo isto me cheira a esturro!!!

Jesus – (Em voz baixa) – Cheira mesmo, João! (Respondendo a Josias): Conheces porventura a maldição que consta na Lei: “ Maldito aquele que fere de morte o seu próximo numa cilada”? (Deut 19,11) .“Mas se alguém, por ódio ao seu próximo, o espreitar e se lançar sobre ele, ferindo-o mortalmente…, os anciãos da sua cidade entreguem-no ao vingador do sangue, para ser morto” (Deut 19, 11-12) . O teu convite para virmos a tua casa faz parte de uma cilada previamente planeada para poderes apanhar-Me em pecado e informares o Sinédrio. Propositadamente procedeste para esse fim. Além disso, sabias que nós nos tínhamos purificado quando entrámos no Templo, por isso, não precisávamos de purificação quando entrámos na tua casa. Mas tu fizeste-nos esperar e depois pediste que fossemos apressadamente para as mesas! Procedeste com duplicidade, traiçoeiramente, servindo-te da mentira, do embuste, do dolo, pois, enquanto nós esperávamos lá fora, vós procedíeis às vossas purificações. Acusas-nos agora de não cumprirmos a Lei? Que moral é a tua, ó Josias? É essa a vossa santidade? Quem tentais vós enganar? Será que não vos lembrais que Yahweh conhece todos os vossos planos, por mais secretos e bem engendrados pelas vossas cabeças? Não vos ocorre que sereis severamente julgados? E sois vós aqueles que conduzem e exigem o cumprimento da Lei?

Josias – O problema é que nós temos de informar o Sinédrio sobre a tua infracção. Porque não pediste água para lavardes as mãos e os pés antes de comer? É isso que vamos transmitir ao Sinédrio. E isto prova que tu não és o Messias, pois não cumpres a Lei!

Jesus – Quem vos deu autoridade para inserir esse costume na Lei? Apenas o sumo sacerdote, quando entra no santuário, é obrigado a purificar-se, lavando as mãos e os pés. Logo, o que nós fizemos não foi pecado nenhum, mas sois vós que pecais quando decretais leis abusivas e as atribuís a Moisés. Ora, Moisés só vos transmitiu aquilo que Yahweh transmitiu a ele. E vós já vos julgais superiores a Yahweh, ao ponto de, em vossa soberba, já entremeardes sementes de Satanás na Lei do Senhor. Mais: tornais a Lei insuportável para o povo e vós dais-vos ao luxo de a infringir quando vos apetece ou quando vos convém, desde que ninguém veja!… Ai de vós, fariseus hipócritas! Ai de vós, doutores da Lei, falsos sábios e embusteiros! Não são o pó, a sujidade de mãos, pés, braços, exterior dos copos e dos pratos que mancham as almas! O que as mancha não é o que entra pela boca, mas o que sai dela, vindo coração: ”más intenções, maus pensamentos, ambições, perversidade, má fé, devassidão, inveja, maledicência, orgulho, desvarios, assassínios, adultérios, prostituições, roubos, falsos testemunhos, blasfémias. Comer com as mãos por lavar não torna o homem impuro” (Mt 15,18-20) // Mc 7. Isso são meros costumes e tradições vossos, pecaminosamente transformados em Leis. Porque não tendes o mesmo cuidado em limpar a sujeira do vosso interior, cuja obrigação está na Lei e que é a única coisa que interessa para a vossa salvação? Abri os vossos ouvidos, ouvi bem e fixai para toda a vossa vida! Eu não vim para destruir a Lei e os Profetas, mas para aperfeiçoá-la, eliminando dela tudo aquilo que vós abusivamente lá metestes. Acabai com a vossa hipocrisia e cingi-vos ao que é essencial: o cumprimento dos Mandamentos!

1º Escriba – Tu estás a ofender-nos, ó galileu! Como é que queres convencer-nos da tua doutrina, falando-nos assim?

Jesus – Ai de vós, se não entrardes no Reino de Deus, que já chegou até vós, por Meu intermédio! Se Eu não vos convenço, olhai para as Minhas obras, que vós conheceis directamente ou indirectamente: ressurreição de mortos, curas de cegos, paralíticos, leprosos, libertação de possessos dos demónios, multiplicação de pães e peixes, domínio sobre ventos, tempestades e mares…Que mais quereis?

Josias– Nós temos realmente conhecimento desses factos, mas, mesmo assim, não nos convences! Nós acreditamos que tu tens poderes mágicos porque estás feito com Belzebú, que te dá esses poderes. Sendo assim, também quebras a Lei, porque é proibido praticar a magia!

Jesus – É Belzebú que Me dá poderes para eu o expulsar dos possessos? É Belzebú que Me dá poderes para eu lhe conquistar as almas? É Belzebú que me dá poderes para Eu destruir o seu reino? Em verdade te digo que pecas contra o Espírito Santo e o teu pecado não terá perdão, nem neste mundo nem no outro! Perante a tua malícia e a cilada que hipocritamente levaste a cabo, levantamo-nos da mesa e vamos embora!

E, sem acabar a refeição, Jesus e os seus discípulos levantaram-se e abandonaram a casa .

Josias – (Para os colegas) Vedes? Mais um plano que falhou! Não conseguimos apanhá-lo! Mas temos de o apanhar! Alguém tem alguma ideia que se possa pôr em prática?

2º Escriba – Ora, todos sabemos que as prostitutas que lhe enviámos ou se converteram a ele ou fugiram dele como se tivessem visto o Belzebú, ficando com o nosso dinheiro sem conseguirem nada! Já tentámos com o tributo a César – sim ou não – e o que fez ele? Fez vir um peixe à margem e tirou-lhe da boca uma moeda para pagar o tributo. Apanhámos a mulher adúltera em flagrante, perguntámos-lhe se devíamos cumprir a Lei, apedrejando-a, ou não! Ele não respondeu nem sim nem não, mas convidou-nos, a quem não estivesse em pecado, a lançar contra ela a primeira pedra.

2º Doutor da Lei – E levou o seu descaramento ao máximo, começando a escrever no chão os pecados, a começar pelos mais velhos… Ora, ele não cumpriu a Lei, porque devia ter dito: ”Apedrejai-a, como manda a Lei”!

2º Fariseu – Mas há mais! Ele, ao tornar públicos os pecados secretos, faltou à caridade e pôs-nos a ridículo!

Josias – Eu só vejo uma solução para o apanharmos de vez. Temos de recorreu ao Judas Iscariotes, encher-lhe os bolsos de dinheiro e pôr em execução o plano que nós lhe apresentarmos. O Judas tem a vantagem de saber sempre por onde ele anda, por isso, temos de o pôr do nosso lado, no sentido de nos fornecer as informações necessárias.

3º Fariseu – E não há o perigo de Judas se tornar agente duplo, isto é, espião dos dois lados?

3º Doutor da Lei – Eu penso que não! Judas é ambicioso e sabemos que ele não está contente com o galileu, porque as coisas não lhe correm como ele esperava. Também sabemos que os outros discípulos do galileu não gostam do Judas e ele sente-se humilhado, desgostoso e revoltado. Penso que ele colaborará connosco, desde que veja a cor do dinheiro. Por isso, sugiro que façamos uma reunião do Sinédrio para gizarmos um plano.

Josias – Estou de acordo! E vós?

Todos – Também!

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Ezequiel Miguel

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Jesus em casa de Zaqueu

(Realidade e ficção)

( Cf. Lc 19, 1-10)

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Do evangelho:

zaqueu1“Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de baixa estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómero para o ver, porque devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: “ Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa!”. Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador.

Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “ Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais”! Jesus disse-lhe: “Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão, pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”! ( Lc 19, 1-10)

Zaqueu, publicano (= chefe de cobradores de impostos), contratado e pago pelos romanos, era odiado, como todos os publicanos e cobradores de impostos, os quais tinham de comum o facto de se aproveitarem abusivamente de uma parte dos impostos para proveito pessoal. Assim, na língua do dia a dia, eram tidos por ladrões, sem que alguém visse o meio de modificar as coisas, uma vez que a força e a autoridade dos romanos eram inquestionáveis. Eram considerados pecadores públicos e Cristo refere-se a eles com alguma frequência. Uma das acusações que os fariseus faziam a Cristo era o de comer com prostitutas e publicanos, que eles consideravam a ralé do povo judeu. Tal como o apóstolo Mateus, ex-cobrador de impostos, também Zaqueu vivia em desassossego com a sua vida, pois os fantasmas da desonestidade e da riqueza, adquirida pela extorsão de impostos, não lhe davam o sono dos justos, apesar de o seu nome significar “ justo”, “puro”.

Zaqueu tinha consciência de que não era nem uma coisa nem outra, antes se sentia ladrão e muito mais. Já ouvira falar de Jesus, que curava todo o tipo de doenças, desde cegos a paralíticos e leprosos, expulsava demónios, pregava uma doutrina nova, convertia, perdoava, ressuscitava. Mas ele não só ouvira falar Dele, mas também já O vira de longe, pois esteve presente em uma das pregações do chamado Sermão da Montanha, onde Jesus falara das riquezas, bem ou mal adquiridas, e verberou todos aqueles que se deixavam dominar por elas, ao ponto de não se importarem com os pobres, doentes e miseráveis que viviam ao lado. Nunca mais esquecera as Palavras de Jesus. “Bem aventurados serão os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus”. Estas palavras não lhe saíam da cabeça, davam-lhe insónias, faziam-no rebolar na cama, perdera boa dose do apetite, do sono, da alegria e da paz de espirito e já se convencera que a sua riqueza mal adquirida seria a palha que alimentaria as chamas do fogo da geena (inferno). A consciência começara acusá-lo e ele desejava ardentemente encontrar-se cara a cara com Jesus, mas não sabia como. Também já ouvira dizer que Ele tinha convidado um colega publicano e cobrador de impostos para o grupo de discípulos que O acompanhava por todo o lado. Ocorreu-lhe a ideia: E se Jesus também o convidasse, tal como convidara Mateus?

Certo dia, estando Zaqueu na sua banca de cobrança de impostos, um ex-leproso, recentemente curado por Jesus, meteu conversa com ele.

Malaquias – Olá, Zaqueu! Já te conheci mais alegre do que estás hoje! Até parece que o mundo vaio acabar por tua causa! Porque estás tão macambúzio?

Zaqueu – Olha, estou chateado, mas não é por causa de ninguém!

Malaquias – Será que a tua fortuna está a ir abaixo?

Zaqueu – Não! Não está a ir, por enquanto, mas irá!…

Malaquias – Estás doente ?

Zaqueu – Sim e não!

Malaquias – Dormiste mal?

Zaqueu – Dormi! Durmo mal todas as noites!

Malaquias – Bem! Não faço mais perguntas, mas parece-me que algo se passa contigo!

Zaqueu – E tu, que fazes por aqui? Tu não eras leproso, assim como a tua mulher e os teus filhos?

Malaquias – Sim, é verdade, mas morreram todos e só fiquei eu! Eu estava já mais morto do que vivo, mas Jesus de Nazaré curou-me e deu-me nova vida! Bendito seja Ele!

Zaqueu – Jesus de Nazaré? Como é que isso aconteceu?

Malaquias – Foi assim: Eu sabia que um dia Ele passaria no caminho perto do túmulo onde eu vivia, isto é, onde eu definhava, lá perto de Jerusalém. Certo dia, vi uma multidão no caminho, com um homem alto à frente, que sobressaía dos outros, e disse para mim: ” É Ele”! Então, aproximei-me do caminho e comecei a gritar com toda a força.” Jesus, filho de David, tem piedade de mim !” – Sabes o que Ele fez? Ele desviou-se do caminho, foi até junto de mim, sorriu para mim, olhou-me olhos nos olhos e perguntou-me: “O que queres de Mim?“. Eu respondi: “ Senhor, cura-me, pois sou um desgraçado”! Então, Ele perguntou-me: “ E tu acreditas que Eu posso curar-te”? Eu respondi que sim, que acreditava. Então, Ele disse-me: “Eu quero! Fica curado! Vai mostrar-te ao sacerdote”! Naquele momento, senti um calor a percorrer-me o corpo e, pronto! Desapareceram todas as minhas chagas e fiquei como novo.

Zaqueu – Tu, que O viste de perto, diz-me: Como é Ele? Eu já uma vez O vi, mas foi de longe. Conta-me! Como é Ele?

Malaquias – Ó Zaqueu, eu nunca vi ninguém assim! Ainda me parece um sonho! Passei do inferno ao paraíso, graças a Ele! Ó Zaqueu, nem sonhas como Ele é, visto de perto como eu O vi! É alto, de porte majestoso, loiro, de olhos azuis muito doces, de um sorriso divino que ilumina a alma, com uma voz suave, melodiosa, meiga,…e até me pareceu que vi uma auréola de luz em volta da Sua cabeça e toda a Sua face irradiando luz. Nunca vi ninguém assim! Quem me dera voltar a encontrá-Lo! Se voltar a vê-Lo, peço-Lhe que me admita como Seu discípulo, para andar sempre com Ele. Então, a minha felicidade seria completa. Mas olha! Dou-te uma alegre notícia: Está previsto que Ele hoje venha a Jericó e é por causa disso que eu vim até aqui. Penso que uma grande multidão já O espera às portas da cidade.

Zaqueu – O quê? Não me digas que Ele vem cá hoje! Tenho umas ânsias de me encontrar também com Ele! Eu tenho muito interesse em vê-Lo e aproximar-me Dele, mas eu sou de pequena estatura e como é que eu posso chegar até Ele, se anda sempre rodeado e acompanhado de imensa gente? Outra coisa: Tu nunca te revoltaste com as tuas desgraças? Como estás de ânimo?

Malaquias – Oh, agora estou calmo, feliz, …já esqueci tudo o que passei e agradeço todos os dias a Yahweh e ao Seu Messias. Digo-te uma coisa: Se tu tens muita necessidade de te encontrar com Ele, Ele virá de certeza ao teu encontro, porque Ele disse uma vez que quem O procura, encontra-O. Isso aconteceu comigo e vai acontecer contigo. Ele é o Messias, o Filho de Deus, e sabe quem O procura e onde está! Por onde passa, Ele cura todos os doentes que acreditam Nele! Espera e verás!

Zaqueu – Sê bendito pelas notícias e pela esperança que me dás. Bem aventurados os pés do mensageiro que trás boas notícias. É o que diz o profeta Isaías ou outro qualquer!

Malaquias – Escuta! Ouço gritos de hossana! Queres tu ver que Ele vem aí? Olha, lá ao fundo da rua! É Ele, com muita gente com ramos de palmeira e oliveira. Prepara-te!

Zaqueu, ( arrumando a bancada apressadamente e olhando para todo o lado) Se vem muita gente….Já sei! Vou subir rapidamente a uma árvore! Vem comigo e ajuda-me a subir àquela, além, que é a mais baixa! De lá poderei vê-Lo e acenar-Lhe. Oxalá Ele olhe para mim!

Malaquias – Ele vai olhar para ti! É garantido!

Jesus – (Ao passar) Zaqueu, desce daí depressa, porque hoje quero ficar em tua casa!

E Zaqueu deixou-se escorregar pela árvore abaixo, acompanhou Jesus, lado a lado, até chegar a sua casa, mais propriamente à enorme vivenda e ao enorme jardim que a não menos enorme riqueza lhe permitiu construir.

Zaqueu – Chegámos! É esta a minha casa, para a qual Te convido, assim como aos Teus discípulos. Cabemos lá todos e há comida e dormida para todos.

Jesus – Bonita construção, Zaqueu!…O Senhor ajudou-te!…

Zaqueu – Bem, isso tem muito que se lhe diga!… Tu, que conheces a vida de cada um, sabes como a consegui construir. Eu passei a vida dominado pela ganância, roubei sempre que me foi possível, nunca respeitei os pobres e…muito mais! Além de ser ladrão, desonesto,…ainda tenho outros vícios, contando com a Tua ajuda para me ver livre deles. Mas chegou a hora de me redimir e endireitar os meus caminhos, que são tudo menos planos e rectos.” Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais”! A Ti vou dar em dinheiro o equivalente a metade da minha riqueza e aos outros… facilmente os encontro, pois sei quem são e o que lhes tirei indevidamente. Eu vivia inquieto e queria encontrar-me Contigo, para me curares desta minha doença da alma e de outras que também me incomodam…e que me fazem viver com medo. Como eu Te agradeço, Senhor! Sei que Tu disseste um dia: “Quem Me procura, encontra-Me”! Eu já Te procuro desde aquele dia em que estive entre os Teus ouvintes, quando pregavas as bem-aventuranças. O que disseste sobre os pobres em espirito, sobre as riquezas bem ou mal adquiridas e também sobre os puros de coração, porque verão a Deus…deixou-me inquieto. Aquilo atingiu-me em cheio e deixou-me meio atordoado, tal como se tivesse sido atingido por pedras lançadas por uma catapulta. Cada uma das Tuas palavras atingiam-me no peito com estrondo. A partir daí, tornou-se para mim urgente encontrar-me Contigo. Isso caiu-me hoje em sorte e quero tirar o máximo proveito.

Jesus – Eu sei disso tudo, Zaqueu! Eu vi-te lá no monte! Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida e a Luz do mundo. Eu vim ao mundo para que todos se arrependam e endireitem os caminhos tortuosos de suas vidas. Era isso que o João (Baptista) pregava: “Endireitai os caminhos do Senhor, enchei os vales e arrasai os montes…”! E ele também disse: “ Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo”! Pergunto-te, Zaqueu: “A quem se referia o João Baptista”?

Zaqueu – Referia-se a Ti, Senhor! Mestre, a partir de hoje quero começar uma nova vida! O velho Zaqueu vai morrer e ressuscitar, com a Tua ajuda!

JesusHoje veio a salvação a esta casa, pois tu também és filho de Abraão e o Filho do Homem veio a ti para te salvar, porque, como tu reconheces, estavas perdido. Que a paz fique contigo e com os que moram na tua casa! Agora, Zaqueu, enquanto procedeis à preparação da refeição, permite-me que Eu vá ao encontro de outros que vieram também até aqui, com cânticos e gritos de hossana ao Messias de Israel. Eles esperam por Mim lá fora.

Zaqueu – Sim, Mestre, mas para a minha alegria ser completa, exponho-Te já um desejo, pois posso não ter ocasião para To expor. É este: Admites-me no grupo dos teus discípulos?

Jesus – Admito! Depois de convertido e teres feito o que prometeste, continua na tua profissão, mas agora como um verdadeiro discípulo Meu: honesto, justo, fiel, sincero, puro em tua vida particular e pública,…e dá testemunho de Mim em Jericó, levando os habitantes a perguntarem-se como é que Zaqueu está diferente. Fala de Mim como Meu verdadeiro discípulo!

“É mais fácil a uma corda passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus…mas a Deus tudo é possível e nada é impossível” Mt 19,24-26)

Considerações sobre as lições de Zaqueu

1. Zaqueu é o exemplo daqueles que, sendo ricos, se poderão salvar. É um daqueles casos em que o camelo (=corda) passou pelo buraco da agulha.

2.Felizes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a cumprem.

A Palavra de Deus tem força, mas não é automaticamente que produz efeito nas almas. Tal como a chuva, ela molha, mas é preciso que a pessoa se deixe molhar, não se servindo de tapa-chuvas, guarda-chuvas e outras protecções contra…, nomeadamente opiniões e pontos de vista antecipadamente arreigados na alma e qua actuam como carapaças imunes à Palavra de Deus.

3.Exemplo de decisão radical e corajosa.

Uma decisão como a de Zaqueu, de subir a uma árvore para ver Jesus é mesmo de coragem, não se importando com o ridículo da situação nem no presente nem no futuro.

4. Indemnizar pelos prejuízos causados/ devolução de bens roubados

É de elementar justiça elementar devolver o que é roubado, acrescentando os juros e a paga pelos prejuízos morais. Se neste mundo, aquele que roubou não restitui nem indemniza, no outro mundo terá, minimamente, longos anos de purgatório, se não vier a ser condenado por infracção grave do 7º Mandamento:” Não roubarás!”

5. Exemplo de humildade e reconhecimento dos defeitos/pecados/limitações.

É necessária humildade e autoconhecimento para reconhecer os próprios defeitos, vícios, pecados, limitações, o que não é nada fácil. Para um médico tratar um doente, é preciso que este se aceite como tal. O mesmo se passa com Deus em relação a nós, que também gosta de ouvir, confessado com sinceridade e humildade: “Tende piedade de mim, que sou pecador”! Cristo contou aquela parábola do fariseu que rezava(?) de pé, orgulhoso, santo, perfeito, caridoso, cumpridor perfeito da Lei, em contraste com o publicano, ajoelhado lá ao fundo do Templo, suplicando humildemente, batendo no peito:” Perdoa-me, ó Deus, que sou pecador”! Cristo também disse: “Todo aquele que se humilhar será exaltado e todo aquele que se exaltar será humilhado”. E: “ Aquele que quiser ser o maior faça-se o mais pequeno”! Daqui se infere que há grandeza na humildade, ingrediente essencial de toda a santidade.

6. Exemplo de se virar para Deus na busca intensa de ajuda

Zaqueu reconheceu a sua incapacidade para vencer, por si só, as suas fraquezas. E o que todos nós temos de fazer, mas primeiro temos fazer uma introspecção séria, honesta, sincera, profunda, se possível com a ajuda de um psicólogo, de um sacerdote em direcção espiritual, ou com a ajuda daqueles que vivem mais próximo de nós, pois eles, podem ignorar os seus próprios defeitos, mas conhecem os nossos… e nós, os deles! É a realidade de vermos o argueiro no olho do outro e não vermos a trave/ o barrote no nosso.

 7. Exemplo do poder da Palavra divina

A Palavra de Cristo deixou Zaqueu a fermentar, a incomodar, a causar reacções que depois levaram a massa a levedar, até finalmente sair um produto acabado – a conversão. Em seu íntimo, as decisões de mudar de vida já tinham sido trabalhadas e acabadas, mesmo antes do seu encontro com Cristo, que se limitou a confirmá-lo e a dar-lhe a força necessária para se firmar no novo caminho que iria percorrer até à sua morte. Zaqueu terá sido, a princípio, uma boa terra onde caiu boa semente, mas, com o tempo e com as teorias e práticas dos fariseus, acabou por se deixar apanhar por silvas e ervas selvagens, de que Cristo veio libertá-lo.

8. Exemplo de arrependimento e propósito firme de emenda

É evidente que o reconhecimento dos erros, dos vícios, da desonestidade, etc., leva ao arrependimento, absolutamente necessário para a conversão, da qual também não se pode excluir um propósito firme de emenda, o que não quer dizer que o pecador fique com a certeza de que não volta a cair /pecar. Mas, todas as vezes que cair em pecado, terá de repetir o arrependimento, o propósito firme de não repetir e…apresentar-se à Confissão Sacramental, se for baptizado. Uma conversão séria não pode excluir a prática da oração e dos Sacramentos deixados por Cristo, em particular a Confissão e a Missa com Comunhão Eucarística.

9. Modelo para aqueles que vivem em pecado

Zaqueu, habituado a fazer contas, não precisou de as fazer na sua conversão. Modelo para quem vive em pecado privado ou público, em que se requere uma decisão radical, sem considerar os prós e os contras.

Em decisões radicais importantes, como foi a de Zaqueu, ele não se importou com o que diriam os outros ao converter-se e tornar-se discípulo de Cristo, disposto a dar testemunho público, tal como Cristo exige a todos nós: “Quem se envergonhar de Mim, também Eu me envergonharei dele”! Só que dar testemunho de Cristo significa cumprir os Mandamentos, aceitar toda a Sua doutrina, sem excepção, e viver segundo as suas exigências. É evidente que nenhuma confissão protestante ou espírita aceita toda a doutrina de Cristo, fazendo eles a selecção daquilo em que querem acreditar. Que testemunho de Cristo poderá dar um protestante ou um espírita, se não aceitam a Igreja fundada pelo próprio Cristo: “Esta é a Minha Igreja…”! Algo difícil ou impossível de compreender!

10. Agarrar a ocasião em que Deus passa

Zaqueu tomou a iniciativa de aproveitar o momento, a ocasião, em que Cristo passava por ele. Também Cristo passa muitas vezes por nós, num retiro, numa leitura, numa conversa, num encontro casual com alguém, numa liturgia, numa homilia da Missa, na leitura da vida de um santo, numas revelações de Cristo ou da Virgem Maria, numa peregrinação a um santuário Mariano, na presença de um milagre, etc.

Dou alguns exemplos destes! S. Agostinho converteu-se ao ouvir um sermão de Santo Ambrósio, Bispo de Milão; S. João de Deus (João Cidade) converteu-se depois de ouvir um sermão de S. João de Ávila; Santa Edith Stein, professora de Filosofia na Universidade de Berlim, no tempo de Hitler, converteu-se do judaísmo ao Cristianismo, ao terminar a leitura das Obras completas de Santa Teresa de Ávila; Alexis Carrel, médico francês ateu, converteu-se depois de ver uma sua doente curada de um cancro em Lourdes; numerosos são também os casos de verdadeiras conversões em peregrinações a santuários marianos; Lurdes, Fátima, Medjugorje são notáveis por isso, na Europa; em peregrinações da imagem de N.S. de Fátima pelo mundo há conversões e milagres em abundância. Se lhe surgir a ocasião, veja o filme “Fátima no mundo”, promovido pelo Santuário de Fátima. É Deus/ Cristo/ a Virgem/ que passam e deixam rastos de graças que levam à conversão.

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Ezequiel Miguel

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Jesus na sinagoga de Nazaré

(Confira: Lucas 4, 16-30)

(Realidade & ficção)

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Sinagoga21É um sábado, o dia de os Nazarenos acorrerem à sinagoga de Nazaré para o habitual encontro catequético, presidido e orientado pelo rabino Chefe da Sinagoga.

O grande salão está a abarrotar de gente disposta a ouvir as leituras da Torá (Lei), dos Profetas e dos Salmos. Entre a multidão, perdido nela como qualquer um dos ouvintes, tal como alguns dos Seus discípulos, está Jesus, ouvindo atentamente o que as leituras proclamam sobre o Messias. Após as leituras e os comentários do rabi, é costume este perguntar se alguém quer ler e/ou comentar algum texto. Jesus não perde a ocasião e apresenta-se para o efeito. É-lhe entregue o rolo do profeta Isaías, que Ele vai desenrolando até surgir a passagem escolhida do profeta Isaías, que Ele lê pausadamente, majestosamente, com autoridade:

“ O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me consagrou. Ele enviou-me para levar a Boa-Nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar o ano da graça do Senhor, o dia em que o nosso Deus fará justiça; para consolar os tristes, para coroar os filhos de Sião; para mudar a sua cinza em coroa, o seu semblante triste em perfume de festa, e o seu abatimento em cânticos de alegria”( Is 61,1-3).

Enrola novamente o rolo, entrega-o ao Chefe da Sinagoga, faz silêncio, percorre, com o olhar, a assembleia e senta-se:

Jesus – Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem do profeta Isaías, pois é a Mim que ela se refere.

Segue-se um burburinho, surgindo comentários de protesto em vários pontos do salão.

Sinagogo - O que é que estás para aí a dizer? Mas quem é que tu te julgas? Bebeste demais ou estás sob o efeito de um ataque de loucura? Se tu és o Messias, eu sou o imperador romano! Acaso não te conhecemos desde que vieste para Nazaré há uns 26 anos? Não conhecemos também os teus pais e o resto da tua família? Não te vimos brincar com os meninos de Nazaré? E agora viras profeta ou, pior ainda, elevas-te a Messias, mais um dos muitos que têm surgido por todo o lado! Acautela-te, para que não tenhas a mesma sorte dos outros! Antes de dizeres que és o Messias, tens de demonstrá-lo!

Jesus – Agora que já puseste em público as tuas dúvidas e as tuas certezas, vou explicar-vos o que sou, quem sou, o que faço e aquilo que vos proponho. Não me julgueis nem me condeneis antes de me ouvir, o princípio básico de justiça. É certo que me conheceis desde criança, mas deveis saber que Eu nasci em Belém de Judá, como anunciado pelo profeta Miqueias, e o meu nascimento foi manifestado ao mundo por uma estrela nova que surgiu sobre Belém. À vossa frente está o Messias, Aquele que o Povo espera há tantos séculos. Eu demonstrarei que sou o Messias profetizado, se acreditardes em Mim.

Sinagogo – Mas, espera aí! Se nasceste em Belém, porque vieste parar a Nazaré? Como é que escapaste à espada de Herodes, que mandou matar todos os meninos até à idade de dois anos?

Jesus – Não lestes o profeta, que diz: “ Uma voz se ouviu em Ramá. É Raque, que chora e não quer ser consolada, porque os seus filhos já não existem” (Jer 31, 15)? Como escapei a Herodes? O Meu verdadeiro Pai, que também é o vosso Pai do Céu, enviou o Anjo Gabriel a José com a ordem de fugir com o Menino e Sua mãe para o Egipto e por lá ficar até que Herodes morresse. Quando ele morreu, o Anjo deu ordenou a José que regressasse e viesse viver em Nazaré. A partir daí, já conheceis a Minha história passada, como menino e homem adulto, mas há uma parte da Minha História que só agora começa a ser revelada, porque chegou a hora que o Pai do Céu Me marcou para Eu a iniciar. E ela já começou. Sois todos convidados a fazer Comigo essa Nova História, que será a História de um novo Israel.

Sinagogo – Mas então, se tu és o Messias e dizes que Yahweh é o teu verdadeiro pai, qual é o papel de José, o esposo de Maria, tua mãe?

Jesus – O Messias é o Filho de Deus feito Homem, sem deixar de ser Deus, por isso, ele não poderia ter um homem por pai. Eu sou o Messias, Deus e Homem, pois a Deus nada é impossível. José foi o verdadeiro esposo de Maria, mas não foi meu pai segundo a carne. Ele cumpriu a sua missão de guarda, de protector de Minha Mãe e de Mim, para que Eu, segundo a Lei, tivesse legalmente um pai e minha mãe tivesse legalmente um esposo.

Secretário – Queres então dizer que és mais que um profeta, pois todos eles foram simplesmente homens, filhos de um homem e de uma mulher!

Jesus – Dizes bem! Sou mais que um profeta e fui Eu que vos enviei todos os santos profetas de que ouvistes falar.

1º Nazareno – Então, o João Baptista é aquele que vai à tua frente a preparar os teus caminhos, como diz o profeta Isaías! É isso?

Jesus – É isso mesmo! Ele vai à minha frente para dar testemunho de Mim e ele é o último profeta da Velha Aliança. Eu venho convidar o meu povo para estabelecer comigo uma Nova Aliança, que será eterna.

2º Nazareno – E o que se passará com as vítimas? Continuaremos a sacrificar cordeiros e outros animais? Da Velha Aliança, que é a nossa, não se aproveitará nada?

Jesus – Os sacrifícios com animais vítimas serão abolidos, pois já não farão sentido, porque haverá uma única Vítima que tornará inúteis todas as outras vítimas. A Lei e os profetas não serão abolidos, mas serão aperfeiçoados, para que um novo povo nasça e dê glória a Deus. Quem quiser entrar neste Novo Povo terá de ser meu discípulo, discípulo do Messias, o Cristo profetizado e agora já entre vós.

3º Nazareno –E quem será essa única vítima?

Jesus – Serei Eu! E só posso ser Eu, porque somente Eu, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, poderei remir a Humanidade e abrir as portas do Céu aos Justos que esperam no Seio de Abraão e a vós, quando chegar a vossa hora.

Sinagogo - Isso que dizes é blasfémia! Tu deves estar a delirar ou estar possesso de Belzebú!

Jesus –Não estou a delirar e nem Belzebú nem qualquer outro demónio tem poder sobre Mim. Eu domino nos Céus, na Terra e nos Infernos, por isso, todos os poderes Me estão submetidos. Eu vim a este mundo para destruir as obras de Satanás, que é o rei deste mundo. Ele, o príncipe do Mal, reina sobre as almas em pecado e Eu vim para as libertar dessa escravidão. É a esta realeza e a esta libertação que os profetas se referem quando falam de Mim. Eu sou o Libertador, o Salvador que veio ao mundo para que todos os homens se libertem das garras de Satanás e alcancem a Vida Eterna em Deus.

Secretário – Mas os profetas dizem que o Messias será Rei de Israel! Queres então dizer que não vais restaurar a Monarquia e expulsar os Romanos?

Jesus – Eu vim à Terra para instaurar o Reino de Deus, um Reino Espiritual, um Reino das Almas, por isso, esses assuntos são políticos e compete aos homens lidar com eles. A Deus somente interessam as almas, porque foi Dele que elas vieram e é para Ele que elas devem voltar. É isso que se chama a salvação.

3º Nazareno – Então… e o que tencionas fazer da Lei de Moisés? Vais destruí-la, pô-la de lado, modificá-la?

Jesus – Moisés recebeu a Lei e deu-a a conhecer, vigorando até hoje. Fui Eu que a dei a Moisés, logo, essa lei é de Yahweh. As vossas autoridades cometeram abusos introduzindo nela abusos que a tornaram um tremendo fardo. A Nova Lei vai ser mais simples, mais eficaz e mais fácil de cumprir. Quem a aceitar e a cumprir ficará filho adoptivo de Deus, com direito à Sua Herança, a Vida Eterna no paraíso.

4º Nazareno – Como caracterizas a Nova Aliança, que dizes querer fundar?

Jesus – A Nova Aliança será fundada no Meu Corpo e no Meu Sangue, pois Eu sou a Única Vítima que agrada a Yahweh. O Meu Corpo será sacrificado e o Meu Sangue será derramado, em expiação pelos pecados dos homens: os do passado, os do presente e os do futuro. O Decálogo continuará, os Profetas também e a Lei será depurada do que for inútil e purificada. O Decálogo será resumido a “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. A lei do Amor exigirá que ameis os vossos inimigos. A vossa lei de Talião (olho por olho, dente por dente) será abolida e perdoareis as ofensas que vos fizerem, sem nenhum tipo de vingança. Perdoareis sempre; não haverá distinção entre homens e mulheres, entre escravos e livres, entre patrões e servos, entre súbditos e reis,…isto é, para Deus serão todos iguais e serão tratados do mesmo modo. Isto já é uma parte da Boa Nova que ando a divulgar e que vos convido a aceitar.

Segue-se um movimento de aplauso da multidão, pois todos acham que será um novo mundo que está a ser anunciado:

5º Nazareno – Bravo! Nunca no mundo se ouviu quem falasse assim, tão certo, seguro e convincente. Acredito que és mesmo o Messias de Deus!

Sinagogo – Parece tudo muito bonito, mas a tua imaginação é um poço sem fundo. Talvez seja melhor ires pregar as tuas teorias entre os romanos ou entre os outros povos pagãos, mas nós continuaremos com a Lei de Moisés, como até aqui. Nós não acreditamos em nada do que dizes, porque te conhecemos bem desde criança e nunca deste sinais de ser o que agora dizes ser. Mas estamos dispostos a dar-te o benefício da dúvida. Já nos chegou aos ouvidos que em Cafarnaúm fizeste por lá umas magias e convenceste alguns, que acreditaram em teus milagres. Faz isso também aqui! Combina connosco um dia e uma hora e farás uso dos teus poderes divinos curando todos os doentes, paralíticos, leprosos, surdos, mudos, doentes mentais e físicos que te apresentarmos. Cura-os todos e nós acreditaremos em ti. Temos de ver para crer!

Jesus – Se vós não acreditais que Eu posso fazer o que dizes, não poderei fazer nada por vós! O Reino dos Céus chegou até vós, mas ficareis à porta, porque não entrareis nele. Aquilo que vós recusais será oferecido aos pagãos; a vinha que o Senhor vos entregou será oferecida a outros povos que darão fruto. O Messias, o Cristo de Deus, passou por vós, mas vós O rechaçais como embusteiro, visionário, mágico, mentiroso,…Morrereis no vosso pecado, porque a Graça, que sou Eu, foi pisada como se fosse erva daninha e venenosa. É bem certo que nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Eu quisera deixar-vos uma lembrança da Minha passagem entre vós, curando todos os doentes do corpo e da alma, mas falta-vos algo importante: fé em Mim e boa vontade. Sem isto, não Me dais condições para vos mostrar o Meu poder. Acontecerá convosco o que aconteceu com os profetas Elias e Eliseu, os quais realizaram milagres fora de Israel. Elias, no tempo de uma tremenda fome em Israel, foi enviado a uma viúva de Sarepta para lhe multiplicar o alimento; Eliseu curou apenas a lepra do sírio Naaman, excluindo todos os leprosos de Israel.

Sinagogo – Ouvistes tudo isto? Nós não queremos nada com Ele! Vamos expulsá-lo de Nazaré e deitá-lo abaixo do monte. Vamos cercá-lo, para que não se escape. Teremos o prazer de o fazer voar do monte abaixo, pois, se tem tantos poderes, se é o Messias, o Filho de Yahweh, irá voar como os passarinhos e aterrar suavemente lá em baixo. Até porque está escrito: “Yahweh enviará os seus anjos para que te protejam e não te magoes nas pedras do caminho” (Salmo 90). Vamos a ele! Os que puderem deitem-lhe a mão e segurem-no bem. Vamos ver em que dão os seus poderes!

E Jesus, cercado logo por um grupo de nazarenos corpulentos, foi expulso da sinagoga. A multidão acompanhou-O até ao alto do monte, sem que Maria e alguns apóstolos pudessem fazer fosse o que fosse em favor de Jesus. Quando chegaram ao ponto mais alto, Jesus deixou-se aproximar do precipício, ficou a mirar a paisagem por uns momentos, virou-se para a multidão, olhou-a de um lado ao outro em sua pose imponente, séria, majestática, e, de repente, encetou o caminho do regresso, passando pelo meio deles sem que alguém levantasse uma mão contra Ele. Ficaram todos paralisados! Tudo, porque ainda não tinha chegado a Sua hora, a hora que o Pai Lhe marcara.

Do Evangelho: “Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-nO fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho” (Lc 4,30).

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Ezequiel Miguel

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A rebelião de Coré (Cf. Números 16 )

(Realidade e Ficção)

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Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –   Meribá (= Disputa)  e Massá  (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan),  Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

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“ Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” ( na Terra Prometida)(Salmo 95/96)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida,  onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel, ocupada entretanto por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números,  do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico e registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido  e meditado sob diversos ângulos por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento dele nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente nos filmes “os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra  prometida , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura , era, e ainda é,  o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo.  Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus  erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida  em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem,  Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé  e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas  de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá  (disputa)e Massá  (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”:

Coré – Olha lá, Moisés!  Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yhaweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés –  “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para  vos honrar perante a comunidade,  entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós  e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio .  Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh  fará conhecer quem é dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante  de Yahweh. Aquele que ele escolher, esse é o homem que lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora,  chamo  aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

Abiram – Eu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne,  sem vinho, sem uvas,  com  água potável só de vez em quando!  De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e  um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste com um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos idiotas, tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui!  Se tu, lá no Egipto foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teu truques, de morrermos  à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram -  Temos saudades das refrescantes  cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados!  Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para  a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda) da Reunião  com Moisés e Aarão”.

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão, afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés  e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH –“ Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui  morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

Lições a tirar:

1. A História de um povo faz-se com Deus ou contra Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar com tantos pormenores e milagres  a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem  pertenceriam,  por direito, esses territórios, onde a paz é árvore que não deita raízes.

Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe-nos muitas vezes à prova, a nossa fé Nele,com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, muitas vezes para nos levar a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.(…)

2. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, sem perguntar a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Ele bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e lá foi, baseado na promessa da protecção de  Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”!  Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!

3.  Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas  que exercem autoridade sobre nós, quer  definitivamente  quer  temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo  S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra  as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.

4. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube,  no quartel, na paróquia, no Movimento da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver um murmurador, seja ele quem for, …afaste-se dele quanto antes,  seja quem for  e seja onde for. Encare-o como um virus mortal e evite-o, se não puder exercer nele a correcção fraterna!

5.  Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz,  para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!

6. Quem despreza um profeta de Deus, despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive, outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo quase todos de perseguições, maus trato, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de quem tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição mensagens proféticas teve enormes custos para  Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo o mundo.

7. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências  trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo”. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

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Ezequiel Miguel

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A BARCA DA VIDA

(Realidade & ficção)

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barcoO enorme navio aguardava que mais passageiros entrassem.

Cheio de curiosidade, entrei também para melhor investigar sobre o tipo de passageiros que iam entrando e para onde estaria previsto iniciar a viagem, pois ele exibia uma grande placa onde se lia: “DESTINO INCÓGNITO” . Além disso, também chamou a minha atenção pela sua grandiosidade e pelas cores estranhamente indefinidas. Entrei, disposto a obter informações sobre aquele estranho monstro, que continuava a receber passageiros estranhamente macambúzios e alinhados em filas a perder de vista. À entrada, um personagem fardado, de olhar vítreo e cara de múmia, vigiava os passageiros, que, sem lugares previamente marcados, se iam instalando onde podiam ou queriam. Abordei o primeiro passageiro já instalado que encontrei, no sentido de conseguir alguma informação.

D.B.P. – Desculpe incomodá-lo, mas não se importaria de responder a umas perguntas?

Passageiro –Ora essa! Pergunte!

D.B.P. – Obrigado pela disponibilidade! Para onde vai este monstruoso navio?

Passageiro – Não sei!

D.B.P. – Não sabe? Então, enfia-se num navio sem saber para ele vai?

Passageiro – É verdade! Não sei mesmo para onde vai! Sei que vai para qualquer lado ou para lado nenhum e é tudo o que sei sobre ele.

D.B.P. – Mas sabe, com certeza, porque está cá dentro?

Passageiro – Também não sei! Dei por mim cá dentro, tal e qual como se tivesse caído aqui de pára-quedas…e é tudo o que sei!

D.B.P. – Estranho! Mas sabe o que faz cá dentro?

Passageiro – Sei! Viajo, como fazem todos os outros que aqui entram.

D.B.P. – Mas Você, ao entrar aqui, deve ter um objectivo em vista!

Passageiro – Ora essa! Então, o meu objectivo é chegar ao fim da viagem! Depois, logo se vê!

D.B.P. –Mas sabe onde é o fim da viagem? Imagine que caem todos num sugadouro e se enfiam a pique pelo mar abaixo! Não o preocupa essa eventualidade?

Passageiro – Ignoro o que está no fim da viagem, mas também não me preocupo com o que vem depois! O que vier… vem, porque tem de vir e, se tem de vir, que venha!

D.B.P. – Mas sabe, ao menos, qual é o destino final do navio?

Passageiro – Também não sei! Quando ele parar, por velhice, por avaria ou por afundamento, aí sei qual é o meu destino final. Entretanto, desfrutei da viagem, apreciei a companhia, as festas e…tudo o mais que a vida pode oferecer. Então, posso dizer que vivi! Entretanto, já ouvi dizer que, no fim da viagem surge qualquer coisa desconhecida . Para quê preocupar-me? O que tiver de ser será!

D.B.P. – Poderá, ao menos, explicar qual a causa, ou as causas, de vocês estarem aqui, todos tão confiantes?

Passageiro – Estamos aqui porque queremos viver. Ou não é este o barco da nossa vida?

D.B.P. – Queira desculpar a minha pergunta idiota: Você considera-se normal?

Passageiro – Ora essa! Não ofende! Sou tão normal como todos os outros passageiros que Você aí vê! Se houver aqui algum anormal, deverá ser Você, que pensa saber o que nós todos, aqui, não sabemos. E nenhuma cabeça por si própria é mais inteligente que nós todos!

D.B.P. – Calma, aí! Eu nunca entraria num navio sem saber por onde passa e qual é o seu destino final! Só se estivesse louco ou sob um ataque de sonambulismo!

Passageiro –Pois, pois! Mas isso só prova que você não sabe nada da vida! A vida é…viver sem nenhum tipo de preocupação! Se não nos preocupámos com o nosso nascimento, também não vale a pena a preocupação com a vida e com a morte. O que for soará!

D.B.P. – Mas tudo isso é muito estranho e não dá para entender! Então, Vocês todos vão às cegas, ignorando tudo a vosso respeito? Até parece que vão para um suicídio colectivo!

Passageiro – Estranho, estranho… é Você querer saber coisas que ninguém sabe e fingir compreender coisas que ninguém compreende e que não adianta nada compreender!

D.B.P. – Ninguém compreende? Como assim? Ninguém compreende ou não quer compreender? Você e os seus colegas de viagem estudaram, conhecem algumas leis da física, da química, da matemática, do comportamento das ondas, dos mares, das nuvens, da chuva, dos relâmpagos e dos trovões, da genética, da psicologia humana e dos animais, da meteorologia, dos alimentos, da medicina, da astrofísica, da energia atómica,… Vocês sabem tanto a respeito de causas e consequências e ignoram que para lá desta há outra vida que é eterna? E vocês não se prepararam nem se preparam? Vão mesmo confiantes num destino que vai ser fatal para todos vós?

Passageiro – Destino fatal? Então, fatal já foi o nosso nascimento, a nossa vida!…Viemos do nada,… para nada… e regressamos ao nada! Seremos felizes no Reino do Nada!

D.B.P. – Que nihilista e pessimista Você me saiu! Então, Você não acredita que a nossa existência, assim como a de todo o universo, é obra de Deus? Conhece alguém ou alguma coisa que crie coisas ou seres vivos a partir do nada? Ou acredita que tudo o que existe nasceu por sua própria virtude e engenho? Você, que estudou em universidades, não ouviu falar do grande cientista Einstein, que disse que em seus estudos e investigações só queria descobrir como é que Deus fez o universo? Se você acha que já cumpriu a sua missão na Terra, engana-se! Saia deste navio e passe o resto da vida a descobrir como é que o mais perfeito dos relógios suíços se fez por si próprio, sem auxílio de nada nem de ninguém! Talvez haja um Prémio Nobel à sua espera!

Passageiro – Você está a caçoar de mim! Julga-me assim tão idiota? Mas é claro que um relógio não se fez nem se faz por si!

D.B.P. – E o relógio do Universo fez-se por si? Qual o número de probabilidades num número infinito de improbabilidades?

Passageiro – Nenhuma!

D.B.P. – Então, agora é Você que está a caçoar de mim! Quer que eu acredite que o universo não existe? Não será melhor Você pensar nestas coisas e descobrir quem é, de onde vem, para onde vai, como, porquê e para quê está neste navio? Há explicações convincentes para responder a todas estas e outras perguntas. Você, eu e todos os seres humanos viemos de Deus e caminhamos para Deus. Passe o resto da vida a pensar nisso e verá que valeu a pena!

Passageiro – Bem!… Bem vistas as coisas, Você deve ter alguma razão! Estou a sentir-me algo perturbado, um pouco idiota, pois faltam-me resposta para muitas perguntas. Desisto mesmo de viajar aqui! Sou mesmo um cego e, ainda por cima, um tolo! Passei a minha vida a tirar cursos e parece-me que ignoro o principal.

D.B.P – Ouça lá! Não quer entrar para o meu navio, a que eu chamo a minha Barca da Vida? Desça e veja se descobre qual destes muitos aqui ancorados é o meu!

Passageiro – ( Descendo e observando) Mas há tantos! E todos eles escondem o destino dos passageiros! Mas, aquele ali, enorme, brilhante, colorido, com um comandante todo vestido de vestes brancas … Eu diria que o seu navio é aquele!

D.B.P. – É esse mesmo! Acertou!

Passageiro – E o que fazem tantas pessoas a meter conversa com aqueles que já estão na fila para entrar?

D.B.P. – Esses? Oh! Esses são angariadores que tentam convencê-los a escolherem outros navios, dizendo maravilhas dos outros e dizendo o pior do “Catholica Ecclesia”. É mais ou menos a mesma coisa que encontramos nas praias, onde cada hotel ou restaurante tenta captar clientes. Depois, recebem um prémio por cada cliente que apanham.

Passageiro – E para onde é que vai o seu Navio? …Vamos para mais perto, para ver se consigo ler o letreiro do destino!…Mas diz lá: “Paraíso”. E o nome do seu Navio é, como acaba de dizer: ”Catholica Ecclesia”!…Mas quem planeou e construiu esta enorme Arca de Noé?

D.B.P. – Ainda bem que Você o compara à barca de Noé, pois a sua missão é igual à da barca de Noé: salvar os passageiros do dilúvio. Naquele tempo o dilúvio era de água, mas o actual é do Mal, que invadiu tudo e todos. Mas há outra comparação possível. Ambas as Barcas foram construídas por iniciativa do próprio Deus, que escolheu os construtores, a tripulação, os instrumentos de marear, os materiais, fez os desenhos, o design, a decoração,…e garantiu a segurança. O “Catholica Ecclesia” é mesmo a 2ª Barca de Noé, mas agora chama-se também “Barca de Pedro”, ao qual passou o certificado de garantia eterna contra naufrágios, sendo, por isso, a Única Barca que navega com garantia e seguro de chegar ao destino, apesar de passar por muitas tormentas no Mar sempre agitado da Iniquidade.

Passageiro – Como foi essa garantia?

D.B.P. – Jesus Cristo disse: “Esta é a minha Ecclesia e as portas do inferno nunca a vencerão” O Arquitecto que a projectou e a construiu foi …Deus! Não há nada no mundo tão belo e tão perfeito!

Passageiro – E essa gente que vai entrando sabe todas aquelas coisas que Você me perguntou?

D.B.P. – Mais ou menos, todos sabem.

Passageiro – E a lotação?

D.B.P.- A lotação não tem limites. Há lugares para todos os que já lá estão e para todos os que quiserem entrar.

Passageiro – E tem paragens para permitir que uns saiam e que outros entrem?

D.B.P. – Tem! Os passageiros entram quando querem, no número que querem e saem quando querem e no número que querem. Aos que saem ninguém pede contas. Aos que entram há o cuidado de os instruir segundo os Estatutos que regem o “Catholica Ecclesia”.

Passageiro – Então, não compreendo uma coisa! Se o destino do navio é o paraíso, porque é que há passageiros que desistem para entrarem noutros navios, uma vez que só este leva a esse destino?

D.B.P. – Meu amigo, você não compreende e eu…também não! Mas o meu Navio viaja com as portas abertas! A liberdade individual é algo sagrado que se respeita. Cada um escolhe o seu próprio destino final e o navio da vida que mais lhe convém ou que mais lhe interessa.

Passageiro – Mas tem de haver razões fortes para haver passageiros do seu Navio que saem e entram noutros! Qual a sua opinião?

D.B.P. – A minha explicação é esta: Esta minha Barca da Vida em que eu viajo, e espero que Você viaje comigo, leva ao destino que Você ali vê – o Paraíso – mas há algo que eu, para ser franco, tenho de lhe dizer: Ela oferece uma viagem pouco cómoda, com camas, cadeiras e beliches que não se adaptam bem a nós, mas somos nós que temos de nos adaptar a eles, mesmo à custa de dores de costas e outros incómodos, ao passo que todos os outros navios oferecem comodidades, estabilidade, mares e oceanos com águas mais calmas…Além disso, dispõem de cinemas, televisões, Internet, festas e tudo o mais que se pode desejar na vida. Cada um pode ter os comportamentos, as atitudes e as ideologias que quiser, acreditar no que quiser, sem ter de dar contas a ninguém. Até pode praticar ou defender as ideias e as práticas mais aberrantes que se possam imaginar sem que alguém se importe com isso.

O “ Catholica Ecclesia”, além de oferecer viagens pouco cómodas, também impõe ordem, disciplina, dogmas e verdades em que todos os passageiros têm de acreditar, segundo os Estatutos que Deus lhe deixou, tudo para viverem de acordo com aquilo em que devem acreditar. Além disso, enquanto os outros navios navegam sempre em águas calmas, o “Catholica Ecclesia” avança sobre águas agitadas, por vezes tumultuosas, sujeito a ataques e violência de inimigos e piratas, que, em muitos casos, agridem ou matam os seus passageiros. Para estes que morrem no seio da Barca, a viagem termina mais cedo, porque mais cedo chegam ao Paraíso. Mas, mesmo assim, o Navio levou-os ao destino certo, cumprindo a missão que o seu Construtor lhe marcou.

Passageiro – É então esse o Navio em que Você me convida a entrar e nele permanecer até ao fim da viagem, custe o que custar? E no Paraíso, o que é que lá se faz?

D.B.P. – Sim! É esse o Navio! No Paraíso goza-se a Vida Eterna em Deus!

Passageiro – Só isso!

D.B.P. – E Você acha que precisa de mais? Isso… é TUDO!

Passageiro – O seu Navio tem garantias de nos levar ao destino? Não se afundará?

D.B.P. – Disse-lhe há pouco que nunca afundará, porque Deus, o seu Construtor, garantiu isso. Navegará em dificuldades, mas leva sempre os passageiros até ao destino final, aqueles que seguirem rigorosamente os Estatutos por Ele deixados. Para aqueles que se revoltarem ou abandonarem não haverá garantias, uma vez que se tornaram rebeldes, não aceitando a disciplina imposta pelo Construtor, indo até ao soberbo limite de falsificarem os Estatutos, para que eles coincidam com os seus interesses e com a sua maneira de os interpretar.

Passageiro – E quanto à alimentação? Como é na sua Barca?

D.B.P. – Há lá dois tipos de alimento: um para o corpo e outro para a alma, que é aquela parte de nós que é espirito e que, por isso mesmo, nunca morre, mas precisa de ser alimentada. Do alimento para o corpo não preciso de lhe falar, mas daquele para alma…você vai ficar surpreendido com a maravilha deste alimento, perante o qual tenho de me curvar, à semelhança dos mais altos anjos que povoam a corte celeste….Este alimento não se compra, não se vende, não se troca, não se cozinha, não se guarda no frigorífico, não apodrece, não oxida, não cria bolor, não vira vinagre…

Passageiro – Não compreendo! Então, onde se adquire, para se comer? Fabrica cada um o seu?

D.B.P. – Não! Ele já existe feito e prontinho a comer e a beber. Só é preciso saber em que condições Ele estará disponível.

Passageiro – Mas come-se e bebe-se ? Como é isso?

D.B.P. – Não é fácil explicar, mas é mesmo assim: come-se e bebe-se e, embora Um seja alimento sólido, e o Outro seja liquido, Ambos se comem e se bebem. É um mistério que envolve o nosso Deus, para nós incompreensível, como todos os mistérios. Você já ouviu falar da Bíblia, de Jesus Cristo, da Virgem Maria, dos profetas antigos de Israel?

Passageiro – Claro! Tudo isso faz parte da cultura mínima de quem estudou a história dos povos.

D.B.P. – Então, saberá que os Católicos acreditam que Jesus Cristo é a 2ª Pessoa da Santíssima Trindade, o Qual se fez homem para remir os homens. Ora, Ele disse isto, algo incompreensível para nós, mas em que nós acreditamos, pois Ele demonstrou com milagres que era, é e será Deus. Foi isto: “Eu sou o Pão vivo que desceu do Céu. Quem Me comer e beber terá a vida eterna, porque o Meu Corpo é verdadeira Comida e o Meu Sangue é verdadeira Bebida. Quem comer a Minha Carne e beber o Meu Sangue nunca mais terá fome nem sede”! E outras passagens semelhantes sobre a vida da Alma humana, parte de nós que não morrerá. Depois, aprenderá mais!

Passageiro – Então, o que tenho eu de fazer para o acompanhar no seu Navio, que passará também a ser o meu?

D.B.P. – Você chegou a ser baptizado?

Passageiro – Eu fui baptizado, mas …depois…Você sabe como é! Como diria Camões: “Erros meus, má Fortuna, Amor ardente, para minha perdição se conjugaram…”. Más companhias, pressões, ambições, vida desvairada,…tudo se conjugou para dar no que deu!

D.B.P. – Então, se Você foi baptizado, o seu Navio da Vida é este. Pode entrar já comigo! Será um prazer viajarmos juntos no nosso CATHOLICA ECCLESIA e dizer, parafraseando Camões, novamente:

 .

Esta é a ditosa Barca, minha amada,

na qual quero toda a vida viajar!

Rogo a Deus que eu não a troque por nada,

pois ao Paraíso me há-de levar.

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Nota: O passageiro entrou e… ainda cá vamos, graças a Deus!

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Ezequiel Miguel

 

 

Lúcia e o Sr. Prior de Fátima

(Realidade & Ficção)

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Lucia_JacintaAno de 1917. O Sr. Prior de Fátima já enviara recados aos pais da Lúcia, do Francisco e da Jacinta para trazerem as crianças até ele, a fim de serem interrogadas a propósito do que se dizia sobre a Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria. Os pais do Francisco e da Jacinta não ligaram importância ao pedido do Pároco, mas a mãe da Lúcia, D. Maria Rosa dos Santos, viu nesse pedido o remédio santo, no qual depositou grandes esperanças, para acabar de vez com a agitação que fervilhava lá em casa e no lugarejo de Aljustrel. Se a Lúcia dissesse que tinha mentido, recuperava-se a paz…

Chegou o dia em que D. Maria Rosa e a filha percorreram a distância que vai de Aljustrel até à residência paroquial de Fátima. Não sabemos se a Lúcia disse alguma coisa durante a viagem, mas ela diz nas suas Memórias que a mãe foi todo o tempo silenciosa…Logo, ambas se portaram como duas pessoas literalmente amuadas e apreensivas quanto ao resultado final… É de supor que ambas iam apreensivas, por motivos diferentes. Lúcia caminhava na convicção de que nada adiantaria, pois a sua mãe, que sempre a ensinara a não mentir, agora insistia para que dissesse a verdade que lhe convinha, isto é, a mentira de dizer que tinha mentido com aquela história da aparição de Nossa Senhora. Tratava-se realmente de um dilema, e, como em todos os dilemas, nenhuma opção seria agradável de tomar. D. Maria Rosa depositava toda a sua confiança na intervenção do sr. Prior de Fátima, pois a sua autoridade de sacerdote e pároco de Fátima era inquestionável, sendo, para mais, o confessor da mãe e da filha. E ambas, com o coração atribulado, chegaram finalmente à residência do sr. Prior:

Maria Rosa (M.R.) – Cá estamos, finalmente! (Depois de bater à porta):

Bom dia, sr. Prior! Aqui tem a minha filha! Interrogue-a, puxe por ela, arranque-lhe toda a verdade e castigue-a, se mentir. Faça com ela o que quiser, para tirar isto tudo a limpo, que eu não consigo!

Sr Prior – Está bem! Vamos tentar! Não ande nervosa, acalme-se, aceite os desígnios de Deus, que são insondáveis…o que quer dizer que nós nem sempre lá penetramos e quando pensamos que penetramos…podemos enganar-nos. Pode ir em paz para sua casa, que a Lúcia já é crescidinha e não terá problema em regressar a casa sozinha. E a propósito, porque não vieram os filhos da sua comadre, a senhora Olímpia?

M.R. – Não sei! Eu passei lá por casa, mas ninguém se mostrou interessado nisso. Então, se o sr. Prior não precisa de mim, saio. Com licença! (e sai)

Prior – Então, minha filha, o que tens para me dizer?

Lúcia – O sr. Prior é que me mandou chamar!…

Prior – Pois foi! Já sabes porquê e para quê! É um assunto muito sério, esse de que se fala por vossa causa. Gostaria que me contasses tudo, para ver se conseguimos ver claro, o que, por vezes, não é nada fácil. Mas tu vais ajudar, contando tudo, mesmo aquelas coisas que ainda ninguém sabe.

Lúcia – No dia 13 de Maio Nossa Senhora apareceu-nos sobre uma pequena carrasqueira, disse-nos que rezássemos o Terço todos os dias, que a guerra ia a acabar, que os soldados regressariam em breve…e ainda nos pediu que fossemos lá mais cinco vezes, nos dias 13 de cada mês. Pediu também que rezássemos pelos pecadores.

Prior – Mais nada?

Lúcia –( Silêncio)

Prior – Como é que tu sabes que era Nossa Senhora?

Lúcia – Era uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, toda vestida de branco e trazia um rosário…Só podia ser Nossa Senhora!

Prior – Mas Ela disse quem era e o que queria de vós?

Lúcia – Não disse quem era, mas nós sabemos que era Ela, porque estava toda rodeada de luz e essa luz também nos cobria.

Prior – E não vos deu um recado para mim? Não vos disse que devíeis falar disso ao vosso Pároco?

Lúcia – Não!

Prior – É estranho! Muito estranho! Em casos semelhantes é costume mandar ir ter com os Superiores ou com os Confessores. Neste caso, tudo isso foi ignorado, o que é tudo muito suspeito! Muito suspeito mesmo! É caso para se desconfiar!

Prior – E vós não tivestes medo, não tremestes, não vos sentistes mal dispostos, com suores frios, inquietos por dentro, nervosos, com desejos de que tudo acabasse depressa?

Lúcia – Não! A nós pareceu-nos pouco tempo.

Prior – E Ela não vos ameaçou, se não cumprísseis o que vos pedia?

Lúcia – Não! Ela era muito meiga e falava-nos suavemente, com uma voz linda e doce.

Prior – Não há elementos que provem que era Nossa Senhora! Sabe-se lá? Podia ser o demónio!

Lúcia – Mas, sr. Prior, o demónio nunca manda rezar e só lhe interessa levar as almas para o inferno!

Prior – Menina, o demónio é muito esperto e é capaz de fazer o Bem para daí levar ao Mal! Em muitos casos, aparece disfarçado de anjo e também pode fingir que é Nossa Senhora, para enganar qualquer um. E ele nunca diz quem é, para melhor ludibriar as suas vítimas. Conheço uma santa que, uma vez, ao ir confessar-se, era o demónio que lá estava sentado no lugar do Confessor. Foi S. Gema Galgani, por isso, não está excluída a hipótese de ser mesmo o demónio que vos apareceu! É melhor não voltardes à Cova da Iria! E eu, tal como a tua mãe, também estou convencido que mentes quando dizes que Nossa Senhora vos apareceu, uma mentira talvez de boa fé, mas que não deixa de ser uma mentira. Queres que eu diga ao povo, na missa, que tu pedes desculpa por teres mentido sem querer, porque pensavas que era Nossa Senhora? Não te queres confessar já dessa falta?

Lúcia – Não! Eu não minto e os meus primos também não! E não me confesso de pecados que não cometi! Se eu dissesse que mentia…, então é que mentia! E mentir é pecado! É isso que a minha mãe nos anda sempre a dizer! O sr. Prior quer pecar obrigando-me a mentir?

Prior – Mas, menina, não vês em que estado anda a tua mãe? Ela anda tão inquieta, revoltada e nervosa por tua causa, que, sabe-se lá, pode perder o sono, o apetite, o juízo…e morrer louca! Queres ficar toda a vida com as culpas da morte da tua mãe?

Lúcia – Seja o que Deus quiser! Se ela morrer a dizer que não…eu não me importo de morrer a dizer que sim! A verdade é a verdade e ela sempre nos ensinou a ter horror à mentira. Agora, quer que eu minta e o sr. Prior também! (Limpa as lágrimas) Eu não minto,…nem que me matem!

Prior – E a Senhora disse o que viria cá a fazer nas outras vezes?

Lúcia – Não! Só disse que nos queria lá nos dias 13 durante mais cinco meses e depois diria quem é. Disse ainda que faria um milagre para que todos acreditassem!

Prior – Cinco meses seguidos!…Então, será em Outubro! Também pode ser o demónio a tentar enganar-vos a vós e ao povo, com promessas falsas! E depois,… ele fica-se a rir! E sabe-se lá o que vos poderá acontecer! Se não houver milagre, o povo pode revoltar-se, matar-vos e matar também os vossos pais, pensando que foram eles que vos treinaram para esta trapalhada!

Lúcia – Não é nenhuma trapalhada! É tudo claro como água e não vai acontecer nada disso, porque a Senhora não tem cara de mentirosa e nós sentimo-nos felizes e confiantes nela! E nós ficamos sempre com pena quando Ela se vai embora, pois gostaríamos que Ela ficasse mais tempo! Se fosse o diabo, ficaríamos cheios de medo, a suar e a tremer de frio!

Prior – Ó menina, tu falas do diabo como se já o tivesses visto! Já o viste?

Lúcia –Não! E espero nunca o ver! Ela pediu-nos que rezzássemos o Terço pela paz e disse que a guerra ia acabar. O diabo não nos mandava rezar nem pela paz nem pela guerra. O diabo só quer o mal, por isso não pede coisas boas nem quer que a gente faça o Bem!

Prior – Ó rapariga, já sabes mais do que eu! Já ensinas o Pai-Nosso ao Vigário! Diz-me lá: o Terço que Ela mandou rezar é igual ao que nós rezamos?

Lúcia – É, mas Ela pediu que disséssemos, no fim de cada mistério. esta oração: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno! Levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem!”

Prior – As que mais precisarem? Não disse:” As mais abandonadas”?

Lúcia – Não!

Prior – Estranho, muito estranho! Há aí uma pirueta teológica!

Lúcia – Não sei o que isso é!

Prior – Isso é um assunto para nós, os sacerdotes!   As que mais precisarem! Mas precisam todas! Ela disse quais eram as que mais precisam?

Lúcia – Não! Mas Ela disse que iam muitas almas para o inferno por não haver quem reze e se sacrifique por elas!

Prior – Ah! Estou a ver! Então essas almas pecadoras precisam urgentemente de quem faça alguma coisa para que elas não se condenem ao inferno. Estou a ver! É uma questão urgente de fazer reparação por elas, isto é, alguém tem de comprar essas almas com oração e sacrifício. Se é assim, bate tudo certo, porque, Deus lá sabe, já terão pouco tempo de vida, estando, por isso, prestes a cair no Poço…

Lúcia – Eu penso que é assim!

Prior – Apesar de eu já começar a ver a lógica das coisas e a interligá-las, parece-me que não se pode concluir que tenha sido Nossa Senhora! Ela não disse quem era e não vos mandou vir ter comigo. O demónio é muito astuto, muito inteligente, muito matreiro, muito mentiroso e um artista na arte de enganar, disfarçar, parecer o que não é, para depois confundir as suas vítimas. Aconselho-te, a ti e aos teus primos, a não voltar lá, nesses dias treze, à Cova da Iria. Se for Ela, irá ter convosco onde vós estiverdes! E depois, é preciso dar tempo ao tempo, para vermos se isso vem de Deus ou do Demónio.

Lúcia – Mas Ela trazia numa mão o Rosário, logo era Nossa Senhora do Rosário. Nós não temos dúvidas! O demónio não mandava rezar e fazer sacrifícios pelos pecadores! Ele só quer todas as almas lá no inferno, logo, não pede para se rezar por elas! Eu podia pedir à Senhora que dê um sinal ao sr. Prior, para que o sr. Prior acredite que era Ela e não o diabo! Basta o sr. Prior dizer que sinal quer!

Prior – Isso não, filha! Deus me livre! Isso seria tentar a Deus! Não posso fazer isso! Tenho de me contentar com as luzes que Ele me enviar! O que for soará, como diz o povo! E pronto, filha! Eu não te proíbo de ires à Cova da Iria! Somente te aconselho a não ir, porque as coisas, para mim, não estão bem claras. Confio em Deus! Vai em paz e procura não desgostar a tua mãe!

Sentada no último degrau da escadaria está D. Maria Rosa, aguardando, com ansiedade e angústia, o resultado da conversa de Lúcia com o sr. Prior. Caiu-lhe o coração aos pés quando Lúcia lhe contou o resultado, mas que não se tinha confessado de mentir, porque não mentia! D. Maria Rosa perdeu as ilusões. Se o sr. Prior não conseguia, como conseguiria ela? O seu pesadelo continuou durante todo o resto da sua vida, num sofrimento angustiante de que nada nem ninguém conseguiu livrá-la. Aquilo que para muitas mulheres seria uma bênção bem-vinda, para ela foi uma pesada Cruz. Quem penetra os desígnios de Deus? Mas a sua dúvida serviu para dar credibilidade às Aparições de Fátima, ficando provado que ela não dera um passo para facilitar a sua aceitação e divulgação. Como hoje se diz, ela foi o contraditório!

Do Evangelho: (…Não vos preocupeis com o que haveis de falar nem com o que haveis de dizer! Nessa altura vos será inspirado o que tiverdes de dizer. Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós”! ( Mt 10, 19)

 .

Ezequiel Miguel

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A mãe de Lúcia e as Aparições de Fátima

(Realidade & Ficção)

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A  D. Maria Rosa entrou em pânico. A Jacinta, contrariamente ao que tinham combinado, foi dizer à mãe que tinham visto Nossa Senhora. É evidente que a mãe encarou isso como uma história de crianças, fruto da imaginação ou de brincadeira. Mas a Jacinta insistiu e o Francisco, instado pela mãe, confirmou. Foi o princípio de um incêndio que nunca mais se apagaria…Mas se a mãe do Francisco e da Jacinta encarou isso de ânimo leve, sem lhe atribuir grande importância, já o mesmo não se passou com a mãe da Lúcia, que entrou em ebulição perante o que considerava uma redonda mentira a Lúcia confirmar o que a Jacinta revelara. Daí para a frente não mais houve paz e concórdia lá em casa, resultando daí grande sofrimento para a Lúcia e para a sua mãe, D. Maria Rosa que, vencida a frontal rejeição das Aparições, viveu e morreu na dúvida, por se julgar indigna de que uma sua filha fosse contemplada com tamanha bênção do Céu. Ficou famosa a sua sentença antes de morrer :”Ai filha, levo-te atravessada no coração!”.

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D. Maria Rosa saíra à rua…

1ª Aldeã – Ó Maria Rosa, então andam para aí a dizer que a tua filha viu Nossa Senhora na Cova da Iria? Então e o que é que Nossa Senhora lhe disse?

Maria Rosa – Não sei, mulher! Isso são brincadeiras de crianças. Se calhar viram algum fantasma e fizeram confusões. Não devem ser levadas a sério.

2ª Aldeã – Mas também é verdade que os filhos  mais novos da Olímpia também viram?

Maria Rosa – Ó mulheres, esquecei isso! Isso foram brincadeiras combinadas entre eles para se divertirem. Não façam caso!

3ª Aldeã – Pois é!  É fácil de dizer! Mas eles deviam ser castigados por andarem para aí com mentiras e a fazer troça de nós, a fazer de nós anjinhos prontas a acreditar em histórias de crianças. Tudo isso é fruto da falta de educação que os pais não lhes dão. Se fosse cá comigo, obrigava-os a dizer a todo o povo que tinham mentido e depois cortava-lhes a língua, para não mentirem mais!

1ª Aldeã – Credo, mulher! Então uma coisa dessas diz-se? Sempre são nossos filhos, mesmo que se portem mal! E tu sabes que todas as crianças mentem. Até ouvi um doutor dizer que isso é sinal de que as crianças estão a crescer e a ficar cada vez mais espertas!

Maria Rosa – Se é assim, então a minha já é doutora em sabedoria!

2ª Aldeã – Cá para mim, se elas mentem é porque os pais não lhes dão educação e agora pagam as favas. Eles deviam obrigá-las a cumprir o que se lhes ensina na Catequese. Lá se ensina que mentir é pecado contra um dos Mandamentos que, penso eu, é o sétimo.

Maria Rosa – Ó mulher, não é o sétimo, é o oitavo.

3ª Aldeã – Seja o sétimo ou o oitavo, é tudo a mesma coisa e se eles não lhes ensinam o oitavo também não lhes ensinam o sétimo. Cá para mim, os pais é que deviam ser castigados!

Maria Rosa- Ó mulher, não me diga isso! Castigada já eu sou. Só o ter que aturar as línguas do povo já me chega! Mas tenho mais lá em casa. Eu bem quero que a Lúcia diga que mentiu, mas ela diz que não mentiu nem mente. Ó santas, eu andar nas bocas do mundo por causa de uma mentira de uma filha minha…isso é de eu morrer! Mas se ela mente, vai ter que dizer que mentiu…ou a bem ou a mal! Pode lá ser! Na minha casa sempre se ensinou que a mentira é pecado e eu já insisti com a minha filha para se ir confessar ao sr. Prior, mas ela continua a dizer que não mentiu nem mente e aguenta as estaladas que lhe dou e também as vassouradas naquele rabo.

1ª Aldeã – E ela mesmo assim não diz que mentiu? Isso é que é teimosia! Pois claro, tudo isso é porque os pais não os ensinaram a ser obedientes. Não lhes aplicaram o pau nas costas a tempo e horas, desde pequeninos. Lá diz o ditado:”De pequenino é que se torce o pepino”. Mas os tempos agora são outros! Já diziam os antigos: “Adeus mundo, cada vez pior!”.

Maria Rosa – Ó mulher, não me venha cá com essa conversa, que me está a ralar a alma. Então eu não eduquei os meus filhos todos por igual? Porque é que esta me havia de sair mentirosa? Só a mim é que Deus envia este castigo, esta constante ralação que me tira o sono e o apetite!

2ª Aldeã – Deixa lá, mulher! Deus é que escolhe para nós e daquilo que Ele escolhe ninguém nos livra. É aceitar e sofrer. Mas eu tenho cá uma ideia: e se fosses ao sr. Prior para ele convencer a tua filha a dizer a verdade, isto é, a dizer que mentiu? Acabava-se logo tudo e tudo voltava a ser como dantes.

3ª Aldeã – Olha lá! E se for verdade o que eles dizem? Já viste que sorte tens em ter uma filha que viu Nossa Senhora?

Maria Rosa – Cale-se, mulher! Não me diga uma coisa dessas! Eu sou lá digna de que Nossa Senhora escolha uma filha minha para vir cá abaixo e deixar-se ver e falar com ela e também com os primos? Isso era sorte a mais!

1ª Aldeã – Eu também acho estranho que Nossa Senhora lhes tenha aparecido. Porque é que ela não apareceu ao Sr. Prior, se tinha alguma coisa importante a dizer?

2ª Aldeã – Mas afinal, o que é que a Senhora lhes disse?

Maria Rosa – Eles os três dizem que Nossa Senhora lhes disse que fossem à Cova da Iria seis meses seguidos nos dias treze e que depois diria quem é e o que quer. Ah! Também dizem que ela disse para rezarem o Terço todos os dias.

3ª Aldeã – Mas ela disse que só eles é que deviam rezá-lo todos os dias? Então o recado foi só para eles? Mas eles já o rezavam!

1ª Aldeã – Eles rezavam-no, mas não o rezavam como nós. Só diziam Pai-Nosso, Ave-Maria em todos os mistérios, ficando assim com mais tempo para brincar!

2ª Aldeã – Não me diga! Que grandes batoteiros! E logo Nossa Senhora foi aparecer a eles! Eu cá não acredito. Se Nossa Senhora fosse aparecer a todos os batoteiros e mentirosos…nunca mais de cá saía. Há cá tantos desses que é um louvar a Deus!

3ª Aldeã – Ora, aí está! Se são batoteiros, Nossa Senhora não lhes aparecia. Por isso, eu tenho cá para mim que foi o diabo que lhes apareceu e eles agora envergonham-se e dizem que foi Nossa Senhora.

Maria Rosa – Essa agora ainda é pior! Só me faltava que o diabo fosse escolher uma filha minha para as suas jogadas. Vossemecê tem cada uma! Isso nem parece seu! Então  o diabo vinha-lhes dizer que rezassem o Terço todos os dias? Só faltava que viesse também encomendar umas missas pela sua alma!

1ª Aldeã – (Benzendo-se) Credo, cruzes, canhoto! O mafarrico a encomendar missas! Isso nem lembra ao diabo!

2ª Aldeã -  Eu já ouvi dizer que uma bruxa não sei de onde encomendou não sei quantas missas para fazer um bruxedo não sei a quem e que essa bruxa fez um pacto com o diabo e que o diabo depois lhe pediu que queria ser aspergido com água benta e ela então foi à igreja roubar água benta para deitar ao diabo. E também ouvi dizer que as bruxas morrem todas sem se confessarem e sem se arrependerem e que por isso o diabo as leva para o inferno, porque o diabo lhes cose a língua para elas não falarem. E outras morrem de repente, porque o diabo tem pressa em as apanhar, por causa do contrato que elas fizeram com ele.

3ª Aldeã –  Mas como é que vossemecê sabe tanto  sobre o diabo?

2ª Aldeã – Ó mulher, é o que dizem para aí! E até dizem que as bruxas fazem o pacto com o diabo à meia noite, num cemitério!

3ª Aldeã -Há muitos que dizem que o diabo não existe, mas já a minha avó (que no Céu esteja) dizia que com o diabo não se brinca e que ele se vinga quando as bruxas não lhe lançam água benta, porque ele quer ser tratado como Deus. Mas também dizem que o diabo só aceita água benta se lhe for oferecida por uma pessoa em pecado. Ouvi dizer que Santa Teresa de Ávila espantava o diabo lançando-lhe água benta em cima. Então ele fugia, mas se for uma bruxa a fazê-lo, ele não foge. Vá lá o diabo entender estas coisas! E também ouvi um sr. Padre dizer que é obrigatório acreditar que o diabo existe. Quem nega que ele existe, está em pecado. Ele até disse que era um não sei quê de fé, assim uma coisa parecida com um dracma! E que quem não acreditava era um epiléptico!

1ª Aldeã – Quer vossemecê dizer que era um dogma e quem o negava era um herético? E também dizem que as bruxas curam doenças e adivinham coisas porque o diabo lhes diz ao ouvido o que elas precisam de saber. Eu cá tenho muito medo dessas coisas! E também ouvi dizer que um mau olhado e uma maldição lançados entre a Hóstia e o Cálice, na missa, pegam mesmo. Eu nem quero pensar nisso, mas a mim já me têm acontecido coisas que até parece serem maus olhados! Um sr. Padre disse uma vez que era pecado ir à bruxa, porque as bruxas só fazem coisas que agradam ao diabo. E disse que isso até está na Bíblia, que é esse livro grande por onde eles estudam.

Maria Rosa – Pronto! Deixem lá essa conversa! Se foi Nossa Senhora ou o diabo, logo se verá, mas eu vou tirar isso a limpo! Adeus, tenho que fazer em casa!

4ª Aldeã ( acabada de chegar)- Ó Maria Rosa, espera aí! Quero-te dizer umas coisas. Sei que andas muito consumida por causa da  tua filha Lúcia, mas eu acho que  tu não tens motivos para isso. Ó mulher, és uma mulher feliz, porque Nossa Senhora te escolheu para mãe de uma menina com quem Ela fala. Eu cá, se fosse comigo, até dava graças a Deus por uma bênção assim. E é o que tu deves fazer. Tomara eu que Ela me escolhesse a mim para mãe de uma filha assim!

Maria Rosa – Isso é o que vossemecê diz, mas as coisas não são assim tão bonitas. Em minha casa só há ralhos, amuos, lágrimas, gritaria, acusações, rabugice, discussões, silêncios, rostos sombrios, sentenças para todos os gostos…e aquela mentirosa…ninguém lhe arranca a verdade, sim porque só pode ser mentira o que ela conta. Nossa Senhora não me ia escolher a mim para mãe dela, se fosse verdade!

4ª Aldeã – Ó Maria Rosa, como é que tu falas assim! Olha que pode ser verdade e se calhar até é. Observa bem a tua filha e os teus sobrinhos! Vê se são mais obedientes, mais calmos, se rezam o terço como deve ser, se deixaram de dançar, se andam mais concentrados, mais pensativos, se não se defendem quando os acusam ou ralham com eles, se andam menos faladores…eu sei lá, mulher! Lembras-te daquilo que Santa Isabel disse à Virgem quando se encontraram: (… feliz és tu porque acreditaste…”?( Lucas 1, 45)

Maria Rosa – Pois é, mas uma delas é santa e a outra é santíssima, e eu nem sou uma coisa nem outra. Eu sou uma pecadora que não sou digna de tais favores, por isso é que eu me convenço que ela anda para aí a enganar meio mundo e me traz descoroçoada! Eu… só me apetece chorar (limpa as lágrimas)!. Bem, vou indo, que tenho que fazer em casa. Até logo!

(e afasta-se. )

Todas – Até logo! Vai com Deus! (Depois de alguns segundos de silêncio, para que Maria Rosa não ouvisse):

2ª Aldeã – Coitada da Maria Rosa! O que havia de lhe acontecer! Ela anda toda apoquentada e consumida por causa do falatório e porque a acusam de não ter educado a filha como devia. Mas é assim mesmo, cada um tem o que merece! Eu cá, se apanho a cachopa, nem sei o que lhe faço, mas vou dizer-lhe das boas: Se não tem vergonha de causar à mãe tanto sofrimento! E vou chamar-lhe mentirosa, intrujona, beata falsa, santinha de pau carunchoso, fingida, hipócrita, trapaceira e sei lá que mais! Olha, é o que me vier à cabeça!

4ª Aldeã – Vossemecê faça cuidado! Não faça isso, porque, se for verdade, Deus pode castigá-la,… e depois não se queixe! Com as coisas do Céu não se brinca. E se Nossa Senhora já apareceu em tanto lado, também pode aparecer aqui. E Deus lá sabe! E se vossemecê anda para aí a dar ao badalo e a dizer coisas feias das crianças, terá de se confessar disso, porque anda a pecar! Veja lá o que é que vossemecê arranja! Eu, cá por mim, ficava caladinha e esperava, porque se lá houver alguma coisa…há-de vir cá para fora. Onde há fogo, há fumo!

3ª Aldeã – Não é assim que se diz! O ditado diz: Onde há fumo, há fogo!

4ª Aldeã – É a mesma coisa! Que mais dá?

1ª Aldeã – Então,… fumo já temos. Esperemos pelo fogo! Bem, vizinhas, gostei muito da conversa e vou andar caladinha até ver em que param as modas, mas agora tenho de ir andando. Até logo e fiquem com Deus!

E todas dispersam.

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Obsv. Com a sua renitente dúvida sobre a veracidade das Aparições, D. Maria Rosa, actuando como S. Tomé a propósito da Ressurreição de Cristo, prestou um valiosíssimo contributo para a veracidade dos acontecimentos de Fátima. Sendo opositora, não deu ocasião a ninguém para dizer que aquilo era tudo inventado ou encenado pelos pais das crianças. O excesso de humildade ou um conceito de humildade algo controverso e distorcido levou-a a alguns exageros em atitudes, gestos e comportamentos sobre a pessoa da Lúcia. Mas Deus tem os Seus caminhos, que raramente coincidem com os nossos.

Ezequiel Miguel

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