A BARCA DA VIDA

(Realidade & ficção)

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barcoO enorme navio aguardava que mais passageiros entrassem.

Cheio de curiosidade, entrei também para melhor investigar sobre o tipo de passageiros que iam entrando e para onde estaria previsto iniciar a viagem, pois ele exibia uma grande placa onde se lia: “DESTINO INCÓGNITO” . Além disso, também chamou a minha atenção pela sua grandiosidade e pelas cores estranhamente indefinidas. Entrei, disposto a obter informações sobre aquele estranho monstro, que continuava a receber passageiros estranhamente macambúzios e alinhados em filas a perder de vista. À entrada, um personagem fardado, de olhar vítreo e cara de múmia, vigiava os passageiros, que, sem lugares previamente marcados, se iam instalando onde podiam ou queriam. Abordei o primeiro passageiro já instalado que encontrei, no sentido de conseguir alguma informação.

D.B.P. – Desculpe incomodá-lo, mas não se importaria de responder a umas perguntas?

Passageiro –Ora essa! Pergunte!

D.B.P. – Obrigado pela disponibilidade! Para onde vai este monstruoso navio?

Passageiro – Não sei!

D.B.P. – Não sabe? Então, enfia-se num navio sem saber para ele vai?

Passageiro – É verdade! Não sei mesmo para onde vai! Sei que vai para qualquer lado ou para lado nenhum e é tudo o que sei sobre ele.

D.B.P. – Mas sabe, com certeza, porque está cá dentro?

Passageiro – Também não sei! Dei por mim cá dentro, tal e qual como se tivesse caído aqui de pára-quedas…e é tudo o que sei!

D.B.P. – Estranho! Mas sabe o que faz cá dentro?

Passageiro – Sei! Viajo, como fazem todos os outros que aqui entram.

D.B.P. – Mas Você, ao entrar aqui, deve ter um objectivo em vista!

Passageiro – Ora essa! Então, o meu objectivo é chegar ao fim da viagem! Depois, logo se vê!

D.B.P. –Mas sabe onde é o fim da viagem? Imagine que caem todos num sugadouro e se enfiam a pique pelo mar abaixo! Não o preocupa essa eventualidade?

Passageiro – Ignoro o que está no fim da viagem, mas também não me preocupo com o que vem depois! O que vier… vem, porque tem de vir e, se tem de vir, que venha!

D.B.P. – Mas sabe, ao menos, qual é o destino final do navio?

Passageiro – Também não sei! Quando ele parar, por velhice, por avaria ou por afundamento, aí sei qual é o meu destino final. Entretanto, desfrutei da viagem, apreciei a companhia, as festas e…tudo o mais que a vida pode oferecer. Então, posso dizer que vivi! Entretanto, já ouvi dizer que, no fim da viagem surge qualquer coisa desconhecida . Para quê preocupar-me? O que tiver de ser será!

D.B.P. – Poderá, ao menos, explicar qual a causa, ou as causas, de vocês estarem aqui, todos tão confiantes?

Passageiro – Estamos aqui porque queremos viver. Ou não é este o barco da nossa vida?

D.B.P. – Queira desculpar a minha pergunta idiota: Você considera-se normal?

Passageiro – Ora essa! Não ofende! Sou tão normal como todos os outros passageiros que Você aí vê! Se houver aqui algum anormal, deverá ser Você, que pensa saber o que nós todos, aqui, não sabemos. E nenhuma cabeça por si própria é mais inteligente que nós todos!

D.B.P. – Calma, aí! Eu nunca entraria num navio sem saber por onde passa e qual é o seu destino final! Só se estivesse louco ou sob um ataque de sonambulismo!

Passageiro –Pois, pois! Mas isso só prova que você não sabe nada da vida! A vida é…viver sem nenhum tipo de preocupação! Se não nos preocupámos com o nosso nascimento, também não vale a pena a preocupação com a vida e com a morte. O que for soará!

D.B.P. – Mas tudo isso é muito estranho e não dá para entender! Então, Vocês todos vão às cegas, ignorando tudo a vosso respeito? Até parece que vão para um suicídio colectivo!

Passageiro – Estranho, estranho… é Você querer saber coisas que ninguém sabe e fingir compreender coisas que ninguém compreende e que não adianta nada compreender!

D.B.P. – Ninguém compreende? Como assim? Ninguém compreende ou não quer compreender? Você e os seus colegas de viagem estudaram, conhecem algumas leis da física, da química, da matemática, do comportamento das ondas, dos mares, das nuvens, da chuva, dos relâmpagos e dos trovões, da genética, da psicologia humana e dos animais, da meteorologia, dos alimentos, da medicina, da astrofísica, da energia atómica,… Vocês sabem tanto a respeito de causas e consequências e ignoram que para lá desta há outra vida que é eterna? E vocês não se prepararam nem se preparam? Vão mesmo confiantes num destino que vai ser fatal para todos vós?

Passageiro – Destino fatal? Então, fatal já foi o nosso nascimento, a nossa vida!…Viemos do nada,… para nada… e regressamos ao nada! Seremos felizes no Reino do Nada!

D.B.P. – Que nihilista e pessimista Você me saiu! Então, Você não acredita que a nossa existência, assim como a de todo o universo, é obra de Deus? Conhece alguém ou alguma coisa que crie coisas ou seres vivos a partir do nada? Ou acredita que tudo o que existe nasceu por sua própria virtude e engenho? Você, que estudou em universidades, não ouviu falar do grande cientista Einstein, que disse que em seus estudos e investigações só queria descobrir como é que Deus fez o universo? Se você acha que já cumpriu a sua missão na Terra, engana-se! Saia deste navio e passe o resto da vida a descobrir como é que o mais perfeito dos relógios suíços se fez por si próprio, sem auxílio de nada nem de ninguém! Talvez haja um Prémio Nobel à sua espera!

Passageiro – Você está a caçoar de mim! Julga-me assim tão idiota? Mas é claro que um relógio não se fez nem se faz por si!

D.B.P. – E o relógio do Universo fez-se por si? Qual o número de probabilidades num número infinito de improbabilidades?

Passageiro – Nenhuma!

D.B.P. – Então, agora é Você que está a caçoar de mim! Quer que eu acredite que o universo não existe? Não será melhor Você pensar nestas coisas e descobrir quem é, de onde vem, para onde vai, como, porquê e para quê está neste navio? Há explicações convincentes para responder a todas estas e outras perguntas. Você, eu e todos os seres humanos viemos de Deus e caminhamos para Deus. Passe o resto da vida a pensar nisso e verá que valeu a pena!

Passageiro – Bem!… Bem vistas as coisas, Você deve ter alguma razão! Estou a sentir-me algo perturbado, um pouco idiota, pois faltam-me resposta para muitas perguntas. Desisto mesmo de viajar aqui! Sou mesmo um cego e, ainda por cima, um tolo! Passei a minha vida a tirar cursos e parece-me que ignoro o principal.

D.B.P – Ouça lá! Não quer entrar para o meu navio, a que eu chamo a minha Barca da Vida? Desça e veja se descobre qual destes muitos aqui ancorados é o meu!

Passageiro – ( Descendo e observando) Mas há tantos! E todos eles escondem o destino dos passageiros! Mas, aquele ali, enorme, brilhante, colorido, com um comandante todo vestido de vestes brancas … Eu diria que o seu navio é aquele!

D.B.P. – É esse mesmo! Acertou!

Passageiro – E o que fazem tantas pessoas a meter conversa com aqueles que já estão na fila para entrar?

D.B.P. – Esses? Oh! Esses são angariadores que tentam convencê-los a escolherem outros navios, dizendo maravilhas dos outros e dizendo o pior do “Catholica Ecclesia”. É mais ou menos a mesma coisa que encontramos nas praias, onde cada hotel ou restaurante tenta captar clientes. Depois, recebem um prémio por cada cliente que apanham.

Passageiro – E para onde é que vai o seu Navio? …Vamos para mais perto, para ver se consigo ler o letreiro do destino!…Mas diz lá: “Paraíso”. E o nome do seu Navio é, como acaba de dizer: ”Catholica Ecclesia”!…Mas quem planeou e construiu esta enorme Arca de Noé?

D.B.P. – Ainda bem que Você o compara à barca de Noé, pois a sua missão é igual à da barca de Noé: salvar os passageiros do dilúvio. Naquele tempo o dilúvio era de água, mas o actual é do Mal, que invadiu tudo e todos. Mas há outra comparação possível. Ambas as Barcas foram construídas por iniciativa do próprio Deus, que escolheu os construtores, a tripulação, os instrumentos de marear, os materiais, fez os desenhos, o design, a decoração,…e garantiu a segurança. O “Catholica Ecclesia” é mesmo a 2ª Barca de Noé, mas agora chama-se também “Barca de Pedro”, ao qual passou o certificado de garantia eterna contra naufrágios, sendo, por isso, a Única Barca que navega com garantia e seguro de chegar ao destino, apesar de passar por muitas tormentas no Mar sempre agitado da Iniquidade.

Passageiro – Como foi essa garantia?

D.B.P. – Jesus Cristo disse: “Esta é a minha Ecclesia e as portas do inferno nunca a vencerão” O Arquitecto que a projectou e a construiu foi …Deus! Não há nada no mundo tão belo e tão perfeito!

Passageiro – E essa gente que vai entrando sabe todas aquelas coisas que Você me perguntou?

D.B.P. – Mais ou menos, todos sabem.

Passageiro – E a lotação?

D.B.P.- A lotação não tem limites. Há lugares para todos os que já lá estão e para todos os que quiserem entrar.

Passageiro – E tem paragens para permitir que uns saiam e que outros entrem?

D.B.P. – Tem! Os passageiros entram quando querem, no número que querem e saem quando querem e no número que querem. Aos que saem ninguém pede contas. Aos que entram há o cuidado de os instruir segundo os Estatutos que regem o “Catholica Ecclesia”.

Passageiro – Então, não compreendo uma coisa! Se o destino do navio é o paraíso, porque é que há passageiros que desistem para entrarem noutros navios, uma vez que só este leva a esse destino?

D.B.P. – Meu amigo, você não compreende e eu…também não! Mas o meu Navio viaja com as portas abertas! A liberdade individual é algo sagrado que se respeita. Cada um escolhe o seu próprio destino final e o navio da vida que mais lhe convém ou que mais lhe interessa.

Passageiro – Mas tem de haver razões fortes para haver passageiros do seu Navio que saem e entram noutros! Qual a sua opinião?

D.B.P. – A minha explicação é esta: Esta minha Barca da Vida em que eu viajo, e espero que Você viaje comigo, leva ao destino que Você ali vê – o Paraíso – mas há algo que eu, para ser franco, tenho de lhe dizer: Ela oferece uma viagem pouco cómoda, com camas, cadeiras e beliches que não se adaptam bem a nós, mas somos nós que temos de nos adaptar a eles, mesmo à custa de dores de costas e outros incómodos, ao passo que todos os outros navios oferecem comodidades, estabilidade, mares e oceanos com águas mais calmas…Além disso, dispõem de cinemas, televisões, Internet, festas e tudo o mais que se pode desejar na vida. Cada um pode ter os comportamentos, as atitudes e as ideologias que quiser, acreditar no que quiser, sem ter de dar contas a ninguém. Até pode praticar ou defender as ideias e as práticas mais aberrantes que se possam imaginar sem que alguém se importe com isso.

O “ Catholica Ecclesia”, além de oferecer viagens pouco cómodas, também impõe ordem, disciplina, dogmas e verdades em que todos os passageiros têm de acreditar, segundo os Estatutos que Deus lhe deixou, tudo para viverem de acordo com aquilo em que devem acreditar. Além disso, enquanto os outros navios navegam sempre em águas calmas, o “Catholica Ecclesia” avança sobre águas agitadas, por vezes tumultuosas, sujeito a ataques e violência de inimigos e piratas, que, em muitos casos, agridem ou matam os seus passageiros. Para estes que morrem no seio da Barca, a viagem termina mais cedo, porque mais cedo chegam ao Paraíso. Mas, mesmo assim, o Navio levou-os ao destino certo, cumprindo a missão que o seu Construtor lhe marcou.

Passageiro – É então esse o Navio em que Você me convida a entrar e nele permanecer até ao fim da viagem, custe o que custar? E no Paraíso, o que é que lá se faz?

D.B.P. – Sim! É esse o Navio! No Paraíso goza-se a Vida Eterna em Deus!

Passageiro – Só isso!

D.B.P. – E Você acha que precisa de mais? Isso… é TUDO!

Passageiro – O seu Navio tem garantias de nos levar ao destino? Não se afundará?

D.B.P. – Disse-lhe há pouco que nunca afundará, porque Deus, o seu Construtor, garantiu isso. Navegará em dificuldades, mas leva sempre os passageiros até ao destino final, aqueles que seguirem rigorosamente os Estatutos por Ele deixados. Para aqueles que se revoltarem ou abandonarem não haverá garantias, uma vez que se tornaram rebeldes, não aceitando a disciplina imposta pelo Construtor, indo até ao soberbo limite de falsificarem os Estatutos, para que eles coincidam com os seus interesses e com a sua maneira de os interpretar.

Passageiro – E quanto à alimentação? Como é na sua Barca?

D.B.P. – Há lá dois tipos de alimento: um para o corpo e outro para a alma, que é aquela parte de nós que é espirito e que, por isso mesmo, nunca morre, mas precisa de ser alimentada. Do alimento para o corpo não preciso de lhe falar, mas daquele para alma…você vai ficar surpreendido com a maravilha deste alimento, perante o qual tenho de me curvar, à semelhança dos mais altos anjos que povoam a corte celeste….Este alimento não se compra, não se vende, não se troca, não se cozinha, não se guarda no frigorífico, não apodrece, não oxida, não cria bolor, não vira vinagre…

Passageiro – Não compreendo! Então, onde se adquire, para se comer? Fabrica cada um o seu?

D.B.P. – Não! Ele já existe feito e prontinho a comer e a beber. Só é preciso saber em que condições Ele estará disponível.

Passageiro – Mas come-se e bebe-se ? Como é isso?

D.B.P. – Não é fácil explicar, mas é mesmo assim: come-se e bebe-se e, embora Um seja alimento sólido, e o Outro seja liquido, Ambos se comem e se bebem. É um mistério que envolve o nosso Deus, para nós incompreensível, como todos os mistérios. Você já ouviu falar da Bíblia, de Jesus Cristo, da Virgem Maria, dos profetas antigos de Israel?

Passageiro – Claro! Tudo isso faz parte da cultura mínima de quem estudou a história dos povos.

D.B.P. – Então, saberá que os Católicos acreditam que Jesus Cristo é a 2ª Pessoa da Santíssima Trindade, o Qual se fez homem para remir os homens. Ora, Ele disse isto, algo incompreensível para nós, mas em que nós acreditamos, pois Ele demonstrou com milagres que era, é e será Deus. Foi isto: “Eu sou o Pão vivo que desceu do Céu. Quem Me comer e beber terá a vida eterna, porque o Meu Corpo é verdadeira Comida e o Meu Sangue é verdadeira Bebida. Quem comer a Minha Carne e beber o Meu Sangue nunca mais terá fome nem sede”! E outras passagens semelhantes sobre a vida da Alma humana, parte de nós que não morrerá. Depois, aprenderá mais!

Passageiro – Então, o que tenho eu de fazer para o acompanhar no seu Navio, que passará também a ser o meu?

D.B.P. – Você chegou a ser baptizado?

Passageiro – Eu fui baptizado, mas …depois…Você sabe como é! Como diria Camões: “Erros meus, má Fortuna, Amor ardente, para minha perdição se conjugaram…”. Más companhias, pressões, ambições, vida desvairada,…tudo se conjugou para dar no que deu!

D.B.P. – Então, se Você foi baptizado, o seu Navio da Vida é este. Pode entrar já comigo! Será um prazer viajarmos juntos no nosso CATHOLICA ECCLESIA e dizer, parafraseando Camões, novamente:

 .

Esta é a ditosa Barca, minha amada,

na qual quero toda a vida viajar!

Rogo a Deus que eu não a troque por nada,

pois ao Paraíso me há-de levar.

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Nota: O passageiro entrou e… ainda cá vamos, graças a Deus!

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Ezequiel Miguel

 

 

Lúcia e o Sr. Prior de Fátima

(Realidade & Ficção)

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Lucia_JacintaAno de 1917. O Sr. Prior de Fátima já enviara recados aos pais da Lúcia, do Francisco e da Jacinta para trazerem as crianças até ele, a fim de serem interrogadas a propósito do que se dizia sobre a Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria. Os pais do Francisco e da Jacinta não ligaram importância ao pedido do Pároco, mas a mãe da Lúcia, D. Maria Rosa dos Santos, viu nesse pedido o remédio santo, no qual depositou grandes esperanças, para acabar de vez com a agitação que fervilhava lá em casa e no lugarejo de Aljustrel. Se a Lúcia dissesse que tinha mentido, recuperava-se a paz…

Chegou o dia em que D. Maria Rosa e a filha percorreram a distância que vai de Aljustrel até à residência paroquial de Fátima. Não sabemos se a Lúcia disse alguma coisa durante a viagem, mas ela diz nas suas Memórias que a mãe foi todo o tempo silenciosa…Logo, ambas se portaram como duas pessoas literalmente amuadas e apreensivas quanto ao resultado final… É de supor que ambas iam apreensivas, por motivos diferentes. Lúcia caminhava na convicção de que nada adiantaria, pois a sua mãe, que sempre a ensinara a não mentir, agora insistia para que dissesse a verdade que lhe convinha, isto é, a mentira de dizer que tinha mentido com aquela história da aparição de Nossa Senhora. Tratava-se realmente de um dilema, e, como em todos os dilemas, nenhuma opção seria agradável de tomar. D. Maria Rosa depositava toda a sua confiança na intervenção do sr. Prior de Fátima, pois a sua autoridade de sacerdote e pároco de Fátima era inquestionável, sendo, para mais, o confessor da mãe e da filha. E ambas, com o coração atribulado, chegaram finalmente à residência do sr. Prior:

Maria Rosa (M.R.) – Cá estamos, finalmente! (Depois de bater à porta):

Bom dia, sr. Prior! Aqui tem a minha filha! Interrogue-a, puxe por ela, arranque-lhe toda a verdade e castigue-a, se mentir. Faça com ela o que quiser, para tirar isto tudo a limpo, que eu não consigo!

Sr Prior – Está bem! Vamos tentar! Não ande nervosa, acalme-se, aceite os desígnios de Deus, que são insondáveis…o que quer dizer que nós nem sempre lá penetramos e quando pensamos que penetramos…podemos enganar-nos. Pode ir em paz para sua casa, que a Lúcia já é crescidinha e não terá problema em regressar a casa sozinha. E a propósito, porque não vieram os filhos da sua comadre, a senhora Olímpia?

M.R. – Não sei! Eu passei lá por casa, mas ninguém se mostrou interessado nisso. Então, se o sr. Prior não precisa de mim, saio. Com licença! (e sai)

Prior – Então, minha filha, o que tens para me dizer?

Lúcia – O sr. Prior é que me mandou chamar!…

Prior – Pois foi! Já sabes porquê e para quê! É um assunto muito sério, esse de que se fala por vossa causa. Gostaria que me contasses tudo, para ver se conseguimos ver claro, o que, por vezes, não é nada fácil. Mas tu vais ajudar, contando tudo, mesmo aquelas coisas que ainda ninguém sabe.

Lúcia – No dia 13 de Maio Nossa Senhora apareceu-nos sobre uma pequena carrasqueira, disse-nos que rezássemos o Terço todos os dias, que a guerra ia a acabar, que os soldados regressariam em breve…e ainda nos pediu que fossemos lá mais cinco vezes, nos dias 13 de cada mês. Pediu também que rezássemos pelos pecadores.

Prior – Mais nada?

Lúcia –( Silêncio)

Prior – Como é que tu sabes que era Nossa Senhora?

Lúcia – Era uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, toda vestida de branco e trazia um rosário…Só podia ser Nossa Senhora!

Prior – Mas Ela disse quem era e o que queria de vós?

Lúcia – Não disse quem era, mas nós sabemos que era Ela, porque estava toda rodeada de luz e essa luz também nos cobria.

Prior – E não vos deu um recado para mim? Não vos disse que devíeis falar disso ao vosso Pároco?

Lúcia – Não!

Prior – É estranho! Muito estranho! Em casos semelhantes é costume mandar ir ter com os Superiores ou com os Confessores. Neste caso, tudo isso foi ignorado, o que é tudo muito suspeito! Muito suspeito mesmo! É caso para se desconfiar!

Prior – E vós não tivestes medo, não tremestes, não vos sentistes mal dispostos, com suores frios, inquietos por dentro, nervosos, com desejos de que tudo acabasse depressa?

Lúcia – Não! A nós pareceu-nos pouco tempo.

Prior – E Ela não vos ameaçou, se não cumprísseis o que vos pedia?

Lúcia – Não! Ela era muito meiga e falava-nos suavemente, com uma voz linda e doce.

Prior – Não há elementos que provem que era Nossa Senhora! Sabe-se lá? Podia ser o demónio!

Lúcia – Mas, sr. Prior, o demónio nunca manda rezar e só lhe interessa levar as almas para o inferno!

Prior – Menina, o demónio é muito esperto e é capaz de fazer o Bem para daí levar ao Mal! Em muitos casos, aparece disfarçado de anjo e também pode fingir que é Nossa Senhora, para enganar qualquer um. E ele nunca diz quem é, para melhor ludibriar as suas vítimas. Conheço uma santa que, uma vez, ao ir confessar-se, era o demónio que lá estava sentado no lugar do Confessor. Foi S. Gema Galgani, por isso, não está excluída a hipótese de ser mesmo o demónio que vos apareceu! É melhor não voltardes à Cova da Iria! E eu, tal como a tua mãe, também estou convencido que mentes quando dizes que Nossa Senhora vos apareceu, uma mentira talvez de boa fé, mas que não deixa de ser uma mentira. Queres que eu diga ao povo, na missa, que tu pedes desculpa por teres mentido sem querer, porque pensavas que era Nossa Senhora? Não te queres confessar já dessa falta?

Lúcia – Não! Eu não minto e os meus primos também não! E não me confesso de pecados que não cometi! Se eu dissesse que mentia…, então é que mentia! E mentir é pecado! É isso que a minha mãe nos anda sempre a dizer! O sr. Prior quer pecar obrigando-me a mentir?

Prior – Mas, menina, não vês em que estado anda a tua mãe? Ela anda tão inquieta, revoltada e nervosa por tua causa, que, sabe-se lá, pode perder o sono, o apetite, o juízo…e morrer louca! Queres ficar toda a vida com as culpas da morte da tua mãe?

Lúcia – Seja o que Deus quiser! Se ela morrer a dizer que não…eu não me importo de morrer a dizer que sim! A verdade é a verdade e ela sempre nos ensinou a ter horror à mentira. Agora, quer que eu minta e o sr. Prior também! (Limpa as lágrimas) Eu não minto,…nem que me matem!

Prior – E a Senhora disse o que viria cá a fazer nas outras vezes?

Lúcia – Não! Só disse que nos queria lá nos dias 13 durante mais cinco meses e depois diria quem é. Disse ainda que faria um milagre para que todos acreditassem!

Prior – Cinco meses seguidos!…Então, será em Outubro! Também pode ser o demónio a tentar enganar-vos a vós e ao povo, com promessas falsas! E depois,… ele fica-se a rir! E sabe-se lá o que vos poderá acontecer! Se não houver milagre, o povo pode revoltar-se, matar-vos e matar também os vossos pais, pensando que foram eles que vos treinaram para esta trapalhada!

Lúcia – Não é nenhuma trapalhada! É tudo claro como água e não vai acontecer nada disso, porque a Senhora não tem cara de mentirosa e nós sentimo-nos felizes e confiantes nela! E nós ficamos sempre com pena quando Ela se vai embora, pois gostaríamos que Ela ficasse mais tempo! Se fosse o diabo, ficaríamos cheios de medo, a suar e a tremer de frio!

Prior – Ó menina, tu falas do diabo como se já o tivesses visto! Já o viste?

Lúcia –Não! E espero nunca o ver! Ela pediu-nos que rezzássemos o Terço pela paz e disse que a guerra ia acabar. O diabo não nos mandava rezar nem pela paz nem pela guerra. O diabo só quer o mal, por isso não pede coisas boas nem quer que a gente faça o Bem!

Prior – Ó rapariga, já sabes mais do que eu! Já ensinas o Pai-Nosso ao Vigário! Diz-me lá: o Terço que Ela mandou rezar é igual ao que nós rezamos?

Lúcia – É, mas Ela pediu que disséssemos, no fim de cada mistério. esta oração: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno! Levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem!”

Prior – As que mais precisarem? Não disse:” As mais abandonadas”?

Lúcia – Não!

Prior – Estranho, muito estranho! Há aí uma pirueta teológica!

Lúcia – Não sei o que isso é!

Prior – Isso é um assunto para nós, os sacerdotes!   As que mais precisarem! Mas precisam todas! Ela disse quais eram as que mais precisam?

Lúcia – Não! Mas Ela disse que iam muitas almas para o inferno por não haver quem reze e se sacrifique por elas!

Prior – Ah! Estou a ver! Então essas almas pecadoras precisam urgentemente de quem faça alguma coisa para que elas não se condenem ao inferno. Estou a ver! É uma questão urgente de fazer reparação por elas, isto é, alguém tem de comprar essas almas com oração e sacrifício. Se é assim, bate tudo certo, porque, Deus lá sabe, já terão pouco tempo de vida, estando, por isso, prestes a cair no Poço…

Lúcia – Eu penso que é assim!

Prior – Apesar de eu já começar a ver a lógica das coisas e a interligá-las, parece-me que não se pode concluir que tenha sido Nossa Senhora! Ela não disse quem era e não vos mandou vir ter comigo. O demónio é muito astuto, muito inteligente, muito matreiro, muito mentiroso e um artista na arte de enganar, disfarçar, parecer o que não é, para depois confundir as suas vítimas. Aconselho-te, a ti e aos teus primos, a não voltar lá, nesses dias treze, à Cova da Iria. Se for Ela, irá ter convosco onde vós estiverdes! E depois, é preciso dar tempo ao tempo, para vermos se isso vem de Deus ou do Demónio.

Lúcia – Mas Ela trazia numa mão o Rosário, logo era Nossa Senhora do Rosário. Nós não temos dúvidas! O demónio não mandava rezar e fazer sacrifícios pelos pecadores! Ele só quer todas as almas lá no inferno, logo, não pede para se rezar por elas! Eu podia pedir à Senhora que dê um sinal ao sr. Prior, para que o sr. Prior acredite que era Ela e não o diabo! Basta o sr. Prior dizer que sinal quer!

Prior – Isso não, filha! Deus me livre! Isso seria tentar a Deus! Não posso fazer isso! Tenho de me contentar com as luzes que Ele me enviar! O que for soará, como diz o povo! E pronto, filha! Eu não te proíbo de ires à Cova da Iria! Somente te aconselho a não ir, porque as coisas, para mim, não estão bem claras. Confio em Deus! Vai em paz e procura não desgostar a tua mãe!

Sentada no último degrau da escadaria está D. Maria Rosa, aguardando, com ansiedade e angústia, o resultado da conversa de Lúcia com o sr. Prior. Caiu-lhe o coração aos pés quando Lúcia lhe contou o resultado, mas que não se tinha confessado de mentir, porque não mentia! D. Maria Rosa perdeu as ilusões. Se o sr. Prior não conseguia, como conseguiria ela? O seu pesadelo continuou durante todo o resto da sua vida, num sofrimento angustiante de que nada nem ninguém conseguiu livrá-la. Aquilo que para muitas mulheres seria uma bênção bem-vinda, para ela foi uma pesada Cruz. Quem penetra os desígnios de Deus? Mas a sua dúvida serviu para dar credibilidade às Aparições de Fátima, ficando provado que ela não dera um passo para facilitar a sua aceitação e divulgação. Como hoje se diz, ela foi o contraditório!

Do Evangelho: (…Não vos preocupeis com o que haveis de falar nem com o que haveis de dizer! Nessa altura vos será inspirado o que tiverdes de dizer. Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós”! ( Mt 10, 19)

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Ezequiel Miguel

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A mãe de Lúcia e as Aparições de Fátima

(Realidade & Ficção)

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A  D. Maria Rosa entrou em pânico. A Jacinta, contrariamente ao que tinham combinado, foi dizer à mãe que tinham visto Nossa Senhora. É evidente que a mãe encarou isso como uma história de crianças, fruto da imaginação ou de brincadeira. Mas a Jacinta insistiu e o Francisco, instado pela mãe, confirmou. Foi o princípio de um incêndio que nunca mais se apagaria…Mas se a mãe do Francisco e da Jacinta encarou isso de ânimo leve, sem lhe atribuir grande importância, já o mesmo não se passou com a mãe da Lúcia, que entrou em ebulição perante o que considerava uma redonda mentira a Lúcia confirmar o que a Jacinta revelara. Daí para a frente não mais houve paz e concórdia lá em casa, resultando daí grande sofrimento para a Lúcia e para a sua mãe, D. Maria Rosa que, vencida a frontal rejeição das Aparições, viveu e morreu na dúvida, por se julgar indigna de que uma sua filha fosse contemplada com tamanha bênção do Céu. Ficou famosa a sua sentença antes de morrer :”Ai filha, levo-te atravessada no coração!”.

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D. Maria Rosa saíra à rua…

1ª Aldeã – Ó Maria Rosa, então andam para aí a dizer que a tua filha viu Nossa Senhora na Cova da Iria? Então e o que é que Nossa Senhora lhe disse?

Maria Rosa – Não sei, mulher! Isso são brincadeiras de crianças. Se calhar viram algum fantasma e fizeram confusões. Não devem ser levadas a sério.

2ª Aldeã – Mas também é verdade que os filhos  mais novos da Olímpia também viram?

Maria Rosa – Ó mulheres, esquecei isso! Isso foram brincadeiras combinadas entre eles para se divertirem. Não façam caso!

3ª Aldeã – Pois é!  É fácil de dizer! Mas eles deviam ser castigados por andarem para aí com mentiras e a fazer troça de nós, a fazer de nós anjinhos prontas a acreditar em histórias de crianças. Tudo isso é fruto da falta de educação que os pais não lhes dão. Se fosse cá comigo, obrigava-os a dizer a todo o povo que tinham mentido e depois cortava-lhes a língua, para não mentirem mais!

1ª Aldeã – Credo, mulher! Então uma coisa dessas diz-se? Sempre são nossos filhos, mesmo que se portem mal! E tu sabes que todas as crianças mentem. Até ouvi um doutor dizer que isso é sinal de que as crianças estão a crescer e a ficar cada vez mais espertas!

Maria Rosa – Se é assim, então a minha já é doutora em sabedoria!

2ª Aldeã – Cá para mim, se elas mentem é porque os pais não lhes dão educação e agora pagam as favas. Eles deviam obrigá-las a cumprir o que se lhes ensina na Catequese. Lá se ensina que mentir é pecado contra um dos Mandamentos que, penso eu, é o sétimo.

Maria Rosa – Ó mulher, não é o sétimo, é o oitavo.

3ª Aldeã – Seja o sétimo ou o oitavo, é tudo a mesma coisa e se eles não lhes ensinam o oitavo também não lhes ensinam o sétimo. Cá para mim, os pais é que deviam ser castigados!

Maria Rosa- Ó mulher, não me diga isso! Castigada já eu sou. Só o ter que aturar as línguas do povo já me chega! Mas tenho mais lá em casa. Eu bem quero que a Lúcia diga que mentiu, mas ela diz que não mentiu nem mente. Ó santas, eu andar nas bocas do mundo por causa de uma mentira de uma filha minha…isso é de eu morrer! Mas se ela mente, vai ter que dizer que mentiu…ou a bem ou a mal! Pode lá ser! Na minha casa sempre se ensinou que a mentira é pecado e eu já insisti com a minha filha para se ir confessar ao sr. Prior, mas ela continua a dizer que não mentiu nem mente e aguenta as estaladas que lhe dou e também as vassouradas naquele rabo.

1ª Aldeã – E ela mesmo assim não diz que mentiu? Isso é que é teimosia! Pois claro, tudo isso é porque os pais não os ensinaram a ser obedientes. Não lhes aplicaram o pau nas costas a tempo e horas, desde pequeninos. Lá diz o ditado:”De pequenino é que se torce o pepino”. Mas os tempos agora são outros! Já diziam os antigos: “Adeus mundo, cada vez pior!”.

Maria Rosa – Ó mulher, não me venha cá com essa conversa, que me está a ralar a alma. Então eu não eduquei os meus filhos todos por igual? Porque é que esta me havia de sair mentirosa? Só a mim é que Deus envia este castigo, esta constante ralação que me tira o sono e o apetite!

2ª Aldeã – Deixa lá, mulher! Deus é que escolhe para nós e daquilo que Ele escolhe ninguém nos livra. É aceitar e sofrer. Mas eu tenho cá uma ideia: e se fosses ao sr. Prior para ele convencer a tua filha a dizer a verdade, isto é, a dizer que mentiu? Acabava-se logo tudo e tudo voltava a ser como dantes.

3ª Aldeã – Olha lá! E se for verdade o que eles dizem? Já viste que sorte tens em ter uma filha que viu Nossa Senhora?

Maria Rosa – Cale-se, mulher! Não me diga uma coisa dessas! Eu sou lá digna de que Nossa Senhora escolha uma filha minha para vir cá abaixo e deixar-se ver e falar com ela e também com os primos? Isso era sorte a mais!

1ª Aldeã – Eu também acho estranho que Nossa Senhora lhes tenha aparecido. Porque é que ela não apareceu ao Sr. Prior, se tinha alguma coisa importante a dizer?

2ª Aldeã – Mas afinal, o que é que a Senhora lhes disse?

Maria Rosa – Eles os três dizem que Nossa Senhora lhes disse que fossem à Cova da Iria seis meses seguidos nos dias treze e que depois diria quem é e o que quer. Ah! Também dizem que ela disse para rezarem o Terço todos os dias.

3ª Aldeã – Mas ela disse que só eles é que deviam rezá-lo todos os dias? Então o recado foi só para eles? Mas eles já o rezavam!

1ª Aldeã – Eles rezavam-no, mas não o rezavam como nós. Só diziam Pai-Nosso, Ave-Maria em todos os mistérios, ficando assim com mais tempo para brincar!

2ª Aldeã – Não me diga! Que grandes batoteiros! E logo Nossa Senhora foi aparecer a eles! Eu cá não acredito. Se Nossa Senhora fosse aparecer a todos os batoteiros e mentirosos…nunca mais de cá saía. Há cá tantos desses que é um louvar a Deus!

3ª Aldeã – Ora, aí está! Se são batoteiros, Nossa Senhora não lhes aparecia. Por isso, eu tenho cá para mim que foi o diabo que lhes apareceu e eles agora envergonham-se e dizem que foi Nossa Senhora.

Maria Rosa – Essa agora ainda é pior! Só me faltava que o diabo fosse escolher uma filha minha para as suas jogadas. Vossemecê tem cada uma! Isso nem parece seu! Então  o diabo vinha-lhes dizer que rezassem o Terço todos os dias? Só faltava que viesse também encomendar umas missas pela sua alma!

1ª Aldeã – (Benzendo-se) Credo, cruzes, canhoto! O mafarrico a encomendar missas! Isso nem lembra ao diabo!

2ª Aldeã -  Eu já ouvi dizer que uma bruxa não sei de onde encomendou não sei quantas missas para fazer um bruxedo não sei a quem e que essa bruxa fez um pacto com o diabo e que o diabo depois lhe pediu que queria ser aspergido com água benta e ela então foi à igreja roubar água benta para deitar ao diabo. E também ouvi dizer que as bruxas morrem todas sem se confessarem e sem se arrependerem e que por isso o diabo as leva para o inferno, porque o diabo lhes cose a língua para elas não falarem. E outras morrem de repente, porque o diabo tem pressa em as apanhar, por causa do contrato que elas fizeram com ele.

3ª Aldeã –  Mas como é que vossemecê sabe tanto  sobre o diabo?

2ª Aldeã – Ó mulher, é o que dizem para aí! E até dizem que as bruxas fazem o pacto com o diabo à meia noite, num cemitério!

3ª Aldeã -Há muitos que dizem que o diabo não existe, mas já a minha avó (que no Céu esteja) dizia que com o diabo não se brinca e que ele se vinga quando as bruxas não lhe lançam água benta, porque ele quer ser tratado como Deus. Mas também dizem que o diabo só aceita água benta se lhe for oferecida por uma pessoa em pecado. Ouvi dizer que Santa Teresa de Ávila espantava o diabo lançando-lhe água benta em cima. Então ele fugia, mas se for uma bruxa a fazê-lo, ele não foge. Vá lá o diabo entender estas coisas! E também ouvi um sr. Padre dizer que é obrigatório acreditar que o diabo existe. Quem nega que ele existe, está em pecado. Ele até disse que era um não sei quê de fé, assim uma coisa parecida com um dracma! E que quem não acreditava era um epiléptico!

1ª Aldeã – Quer vossemecê dizer que era um dogma e quem o negava era um herético? E também dizem que as bruxas curam doenças e adivinham coisas porque o diabo lhes diz ao ouvido o que elas precisam de saber. Eu cá tenho muito medo dessas coisas! E também ouvi dizer que um mau olhado e uma maldição lançados entre a Hóstia e o Cálice, na missa, pegam mesmo. Eu nem quero pensar nisso, mas a mim já me têm acontecido coisas que até parece serem maus olhados! Um sr. Padre disse uma vez que era pecado ir à bruxa, porque as bruxas só fazem coisas que agradam ao diabo. E disse que isso até está na Bíblia, que é esse livro grande por onde eles estudam.

Maria Rosa – Pronto! Deixem lá essa conversa! Se foi Nossa Senhora ou o diabo, logo se verá, mas eu vou tirar isso a limpo! Adeus, tenho que fazer em casa!

4ª Aldeã ( acabada de chegar)- Ó Maria Rosa, espera aí! Quero-te dizer umas coisas. Sei que andas muito consumida por causa da  tua filha Lúcia, mas eu acho que  tu não tens motivos para isso. Ó mulher, és uma mulher feliz, porque Nossa Senhora te escolheu para mãe de uma menina com quem Ela fala. Eu cá, se fosse comigo, até dava graças a Deus por uma bênção assim. E é o que tu deves fazer. Tomara eu que Ela me escolhesse a mim para mãe de uma filha assim!

Maria Rosa – Isso é o que vossemecê diz, mas as coisas não são assim tão bonitas. Em minha casa só há ralhos, amuos, lágrimas, gritaria, acusações, rabugice, discussões, silêncios, rostos sombrios, sentenças para todos os gostos…e aquela mentirosa…ninguém lhe arranca a verdade, sim porque só pode ser mentira o que ela conta. Nossa Senhora não me ia escolher a mim para mãe dela, se fosse verdade!

4ª Aldeã – Ó Maria Rosa, como é que tu falas assim! Olha que pode ser verdade e se calhar até é. Observa bem a tua filha e os teus sobrinhos! Vê se são mais obedientes, mais calmos, se rezam o terço como deve ser, se deixaram de dançar, se andam mais concentrados, mais pensativos, se não se defendem quando os acusam ou ralham com eles, se andam menos faladores…eu sei lá, mulher! Lembras-te daquilo que Santa Isabel disse à Virgem quando se encontraram: (… feliz és tu porque acreditaste…”?( Lucas 1, 45)

Maria Rosa – Pois é, mas uma delas é santa e a outra é santíssima, e eu nem sou uma coisa nem outra. Eu sou uma pecadora que não sou digna de tais favores, por isso é que eu me convenço que ela anda para aí a enganar meio mundo e me traz descoroçoada! Eu… só me apetece chorar (limpa as lágrimas)!. Bem, vou indo, que tenho que fazer em casa. Até logo!

(e afasta-se. )

Todas – Até logo! Vai com Deus! (Depois de alguns segundos de silêncio, para que Maria Rosa não ouvisse):

2ª Aldeã – Coitada da Maria Rosa! O que havia de lhe acontecer! Ela anda toda apoquentada e consumida por causa do falatório e porque a acusam de não ter educado a filha como devia. Mas é assim mesmo, cada um tem o que merece! Eu cá, se apanho a cachopa, nem sei o que lhe faço, mas vou dizer-lhe das boas: Se não tem vergonha de causar à mãe tanto sofrimento! E vou chamar-lhe mentirosa, intrujona, beata falsa, santinha de pau carunchoso, fingida, hipócrita, trapaceira e sei lá que mais! Olha, é o que me vier à cabeça!

4ª Aldeã – Vossemecê faça cuidado! Não faça isso, porque, se for verdade, Deus pode castigá-la,… e depois não se queixe! Com as coisas do Céu não se brinca. E se Nossa Senhora já apareceu em tanto lado, também pode aparecer aqui. E Deus lá sabe! E se vossemecê anda para aí a dar ao badalo e a dizer coisas feias das crianças, terá de se confessar disso, porque anda a pecar! Veja lá o que é que vossemecê arranja! Eu, cá por mim, ficava caladinha e esperava, porque se lá houver alguma coisa…há-de vir cá para fora. Onde há fogo, há fumo!

3ª Aldeã – Não é assim que se diz! O ditado diz: Onde há fumo, há fogo!

4ª Aldeã – É a mesma coisa! Que mais dá?

1ª Aldeã – Então,… fumo já temos. Esperemos pelo fogo! Bem, vizinhas, gostei muito da conversa e vou andar caladinha até ver em que param as modas, mas agora tenho de ir andando. Até logo e fiquem com Deus!

E todas dispersam.

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Obsv. Com a sua renitente dúvida sobre a veracidade das Aparições, D. Maria Rosa, actuando como S. Tomé a propósito da Ressurreição de Cristo, prestou um valiosíssimo contributo para a veracidade dos acontecimentos de Fátima. Sendo opositora, não deu ocasião a ninguém para dizer que aquilo era tudo inventado ou encenado pelos pais das crianças. O excesso de humildade ou um conceito de humildade algo controverso e distorcido levou-a a alguns exageros em atitudes, gestos e comportamentos sobre a pessoa da Lúcia. Mas Deus tem os Seus caminhos, que raramente coincidem com os nossos.

Ezequiel Miguel

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O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo

(Realidade & ficção)

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Personagens:

. Cassius (centurião romano)

. Guardas do Templo

. Anás e Caifás (sumos sacerdotes do Templo e presidentes do Sinédrio judaico)

guardas04Terminado o sábado, ao romper da aurora do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro. Nisto, houve um grande terramoto. O anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela….Os guardas, com medo dele, puseram-se a tremer e ficaram como mortos. (Mt 28,1-4)

A Ressurreição de Cristo foi precedida de fenómenos que continuarão para sempre registados pelos evangelistas, que se referem a um verdadeiro anjo, que produziu uma onda de luz, um enorme terror nos guardas e um estrondo de rebentar os ouvidos, logo seguidos da remoção da pedra da entrada do sepulcro, momento da Ressurreição gloriosa de Cristo.

Os soldados, porém, que eram guardas judeus do Templo, viram a luz e ouviram o estrondo, mas devem também ter visto o anjo, perante o qual foram apanhados pelo terror e por ali ficaram desmaiados, tal como Maria Madalena e as outras companheiras os viram. Quando eles vieram a si:

1º guarda: Eh rapazes! O que foi que nos aconteceu? O fogo que ardia aqui com tanta força apagou-se! Isto quer dizer que alguma coisa se passou há já umas horas!

2º guarda –Mas é claro que se passou alguma coisa! Olhai para o sepulcro! Ele está aberto! É melhor irmos lá a ver!… O quê? O corpo não está cá! Nem sequer o lençol em que ele estava envolvido! Raios! Estamos tramados! Como é que vamos justificar isto perante Anás e Caifás?Será que poderemos escapar à prisão?

3º guarda – Calma! O Centurião Cassius deve saber! A propósito: onde é que ele está? Ele não estava aqui estendido como nós! Deve andar por aí! Vamos dar uma volta! Ele deve saber mais do que nós sabemos sobre tudo o que se passou. Mas ele só deve contar o que viu e o que sabe ao governador, pois foi para isso que Pilatos lhe mandou estar por perto.

4º guarda – Olhai! Ele vem aí!

Cassius – Então rapazes? Dormistes bem? Então, é assim que cumpris as ordens dos vossos chefes? Eles não vão gostar nada daquilo que lhes ides contar!…

5º guarda – Se dormimos bem? Nós não sabemos explicar este sono. Só sabemos que alguma coisa estranha passou por nós! Sentimos um terramoto, um grande estrondo e uma luz que nos envolveu. Então, vimos um anjo do Senhor a olhar-nos com cara de poucos amigos, tivemos medo e depois, …não sabemos mais o que nos aconteceu!

Cassius – Eu sei o que vos aconteceu, mas não vou explicar-vos agora. Mais tarde! Eu não tenho aqui mais nada que fazer, por isso, vou transmitir a Pilatos o que se passou. Eu contarei o que vi e vós fareis o mesmo, quando chegar a vossa vez. Não vos ponhais a inventar!

6º guarda – E achas que nós também devemos contar ao governador, uma vez que foi ele que deu a autorização para esta missão?

Cassius –Eu penso que sim! Poderemos fazer assim: Eu e alguns de vós iremos ao governador. Primeiro, conto eu a minha versão. Mais tarde, quando eu vos indicar, ireis, alguns de vós, expor-lhe a vossa verdade. Os outros irão ao Templo e contarão o que sabem. Nada de inventar. Todos vós vistes e sentistes a mesma coisa, por isso, tem de haver unanimidade nos depoimentos, pois eles podem receber-vos um de cada vez, para verificar se há contradições ou versões diferentes. Se eles vos ameaçarem, dizei-lhes que se dirijam a mim ou que me convidem para dar o meu testemunho. Mas, antes de abandonarmos este local, vamos dar uma volta pelas redondezas, para vermos os resultados do terramoto, que toda a cidade sentiu. Vamos! Cada um deve fixar bem os pormenores que achar de interesse. Eu já andei por aí, enquanto vós jazíeis aqui como árvores tombadas, e já vi tudo o que me interessava ver. Para começar: Observai bem aquele enorme rochedo partido ao meio!

7º guarda – Para já, há por aqui muitas pedras que não estavam cá.

1º guarda – Está aqui uma enorme fenda no terreno.

2º guarda -Também está ali um poço, que não existia cá!

3º guarda – E ali está uma árvore tombada!

4º guarda – O buraco onde a cruz foi erguida está muito mais largo e mais profundo e o sangue do rei dos Judeus ainda parece estar fresco.

Cassius – Eu vou experimentar!…Está mesmo! .… Quem quiser, molhe nele um dedo e toque na sua fronte! Depois, leve aos lábios, tal como eu vou fazer!….Já ninguém mais quer?… Então, vamos até ao sepulcro! Os três que fizeram como eu fiz irão comigo ao governador. Os outros quatro irão a Anás e Caifás!… Cá estamos em frente do sepulcro!….Alguém nota alguma coisa especial?…Nada? Então, eu digo: A pedra foi removida para o lado contrário de onde foi rebolada, mas, se virdes bem, não há nenhum rasto dela, dando a impressão que está ali como caída directamente do céu ou transportada por alguém. Algum de vós alvitra uma explicação?

5º guarda – Tudo muito estranho!

6º guarda – Eu tenho uma explicação possível! Talvez tenha sido aquele anjo que nos meteu tanto medo!

Cassius –Eu acredito que foi isso. Lembrais-vos do motivo pelo qual nós todos estamos aqui? Este, que nós crucificámos, é o Filho de Deus, tal como disse o centurião Longinus, aquele que lhe espetou a lança no peito. O Rei dos Judeus prometera que ressuscitaria ao terceiro dia e hoje é o 3º dia! Isto não vos diz nada? Os vossos chefes enviaram-vos para aqui exactamente para impedirdes que o seu corpo fosse roubado, pois não acreditam que ele possa fazer isso. E agora? Ele ressuscitou mesmo. Eu tenho provas disso e bem convincentes! Agora, vamos entrar!…Que notais?

7º guarda – Ambiente perfumado,…de perfumes que não conheço! Mas, …e o lençol e as outras peças de roupa?

Cassius – Já foram levados pelas mulheres e dois discípulos dele, que vieram cá após ele ter ressuscitado. Vós não os vistes, mas eu vi-os! Eu vi ainda outras coisas que vós não vistes, mas que em altura própria vos contarei e que podem mudar as nossas vidas. E agora, vamos embora! Como combinado, uns para dar testemunho perante o governador e os outros a caminho de Anás e Caifás.

Logo que os dois grupos se separaram, os quatro, cuja tarefa era informar Anás e Caifás do que se passara, começaram a preparar o terreno para o encontro, combinando as medidas a tomar perante imprevistas eventualidades: O que fariam se Anás e Caifás fossem vítimas de um ataque de fúria; se não fossem levados a sério; se eles os ameaçassem de julgamento e prisão, por supostamente terem falhado na guarda ao sepulcro, etc.

O outro grupo, três soldados mais o centurião Cassius, foram direitos ao palácio de Pilatos, que os recebeu algo mal humorado, abatido, sonolento, após mais uma noite mal dormida, por interferência dos fantasmas ameaçadores que lhe invadiam a consciência. Aquela sentença de morte a um prisioneiro depois de publicamente o declarar inocente, continuava, e continuaria até ao fim da sua vida, a fazê-lo rebolar na cama, a levantar-se com frequência devido aos dentes aguçados dos remorsos.

Às explicações de Cassius, Pilatos não deu importância, atribuindo tudo à acção de um dos deuses dos Judeus, tendo , porém, o cuidado de o aconselhar a não contar nada ao Sinédrio dos Judeus, para que não viesse a ter problemas. O mesmo conselho deu aos três guardas, não deixando de os censurar por não terem sabido resistir àqueles fenómenos que contavam, mas aos quais não dava crédito. Tanto Cassius, como os três guardas, fingiram aceitar as recomendações de Pilatos, mas a verdade é que já todos tinham começado a divulgar os fenómenos, pelo que o anúncio da Ressurreição de Cristo já andava no ar, mesmo entre os romanos.

Não longe dali, Anás, Caifás e outros membros do Sinédrio ouviam os relatos dos quatro gurdas, um de cada vez. Como todos contaram a mesma coisa, eles entraram em pânico furioso e agressivo, tudo traduzido em cólera incontrolável. Por um lado, por os guardas terem falhado na missão de guardar o sepulcro; por outro, por se verem derrotados e humilhados, após tanto trabalho, tanto esforço, tanta espionagem, tanto dinheiro gasto para pagar aos habitantes do bairro de Ofel pelo êxito do “Crucifica-o, crucifica-o!”. Agora, eles sentiam que tudo tinha sido em vão, sendo a presente situação pior do que a anterior, tal como temiam. Acalmando um pouco, perante uma opinião mais calma e sensata, depressa surgiu uma ideia salvadora. Recuperados do choque inicial, com ar mais calmo, eles surgiram com três trunfos para uma saída airosa:

1. Recurso a promessas de não sofrerem consequências pelas mentiras que dissessem.

2. Recurso a ameaças de serem acusados, julgados e metidos na prisão, por desleixo na missão que lhes fora confiada.

3. Recurso ao inesgotável tesouro do Templo para subornar os guardas, na condição de dizerem e propagarem o que lhes convinha: “Que, enquanto dormiam, os discípulos tinham vindo roubar o corpo”.

É evidente que os guardas passaram   a actuar em conformidade com o que lhes foi imposto.

Entretanto, os guardas que informaram Pilatos vieram também informar Anás e Caifás:

Caifás – Vós sois então os outros guardas que fostes ter com Pilatos e contar-lhe a vossa aventura. Quem vos autorizou a prestar contas a esse pagão?

Guarda 1 – Ninguém! Foi o centurião Cassius que nos aconselhou!

Anás – Nós já sabemos o que se passou convosco. Os outros já contaram e afirmaram, os quatro, que tínheis caído sob o efeito de um ataque de sono e também ficado atordoados pelo tremor de terra. Entretanto, os discípulos desse impostor vieram e roubaram o corpo. Vós concordais com o que eles dizem?

Guarda 2 – Nós não sabemos os que se passou enquanto ficamos atordoados e desmaiados. E também vimos um anjo à entrada do sepulcro, que nos aterrorizou e caímos todos uns em cima dos outros. Não sabemos quanto tempo ficámos assim. Nós não podemos dizer que alguém abriu o sepulcro e roubou o corpo, porque, se dissermos isso, mentimos!

Caifás – (Furioso) Mas os outros disseram, logo, vós estais a mentir! Além disso, mereceis punição por não terdes cumprido a vossa missão! Outra coisa: o que estava lá o centurião Cassius a fazer? Ele viu alguma coisa que vós não tenhais visto?

Guarda 3 – Ele lembrou que se cumpriu aquela profecia de ressuscitar ao terceiro dia e foi isso mesmo que ele foi dizer a Pilatos. E nós também dissemos, porque não acreditamos que alguém tenha roubado o corpo e também não acreditamos que os nossos colegas tenham dito outra coisa diferente de nós e do Cassius. E vós vedes que houve um terramoto quando Ele morreu e outro terramoto quando ele ressuscitou. Tendes provas disso nos diversos escombros que há no Templo e na cidade, inclusive lá no Gólgota.

Anás – (Altamente irritado) Pois vós ides ter de escolher: Ou passais a dizer que os discípulos dele roubaram o corpo enquanto dormíeis, ou sereis metidos na prisão! Tendes ainda um alternativa: aceitais o dinheiro que vos propomos em troca do vosso compromisso e guardais absoluto segredo daquilo que vistes, ouvistes e sabeis! Então, que dizeis?

Guarda 1 – Eu não aceito. Contarei sempre a verdade.

Guarda 2 – Recuso. A verdade é só uma, sempre e em todo o lado.

guarda 3 – Não mentirás. Yahweh abomina a mentira. Por isso, não aceito as vossas propostas.

Caifás – Então, ides directos para a prisão, onde ficareis não se sabe até quando!

Estes três guardas recusaram a proposta e foram mesmo encarcerados. Tanto eles como os centuriões Cassius e Longinus converteram-se e tornaram-se cristão, após receberem o Baptismo.

Como já tinha acontecido naqueles dias anteriores, a Anás e Caifás não interessava a verdade objectiva, mas a sua verdade, isto é, a sua mentira, e esta nascia no imenso tesouro do Templo. Como hoje ainda dizemos: “Tudo se compra e tudo se vende”. Termino, remetendo o leitor para o texto evangélico:

Alguns dos guardas foram à cidade participar aos sumos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. Eles reuniram-se com os anciãos e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: “Dizei isto: “De noite, enquanto dormíamos, os seus discípulos vieram e roubaram-no. “ E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que vos deixe tranquilos”. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinham ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os Judeus até ao dia de hoje. (Mt 28, 11-15).

Em breve o Sinédrio decretava a perseguição aos membros mais influentes do Cristianismo nascente e Estêvão inaugurava o volumoso livro dos mártires da Fé em Cristo, onde ainda hoje há imenso espaço para novos nomes…

“Quem poderá, Senhor, habitar no teu santuário?… Aquele que tem o coração puro…, que diz a verdade que tem em seu coração,…e não se deixa subornar para prejudicar o inocente!” (Salmo 14/15).

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 Ezequiel Miguel

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O Sinédrio e a Ressurreição de Cristo

(Realidade & ficção)

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templo jerusalem“Jesus disse-lhes (às mulheres): Não temais! Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão.

Enquanto elas iam a caminho, alguns dos guardas foram à cidade participar aos sumos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. Eles reuniram-se com os anciãos; e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: “ Dizei isto: “De noite, enquanto dormíamos, os seus discípulos vieram e roubaram-no”. E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que vos deixe tranquilos”. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinha sido ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os judeus até ao dia de hoje”( Mt 28, 10-15).

Personagens: Anás, Caifás, Gamaliel, Sadoc, Doras, Shammai, Alexandre, Jónatas

O Sinédrio era um conselh de 72 personagens que geria os assuntos religiosos dos Judeus e também tinha poderes militares e judiciais. Incluía fariseus, saduceus, sacerdotes, anciãos e pessoas ricas e/ou influentes na sociedade daquele tempo. O tráfico de influências e a corrupção, no sentido em que nós hoje os entendemos, não eram excepções.

A notícia correu rápida. O corpo de Jesus desaparecera do sepulcro, apesar de guardado noite e dia por soldados judeus.. Era o terceiro dia após a sua execução no Calvário, um acontecimento que abalou tudo e todos, em Jerusalém, a que ninguém ficara indiferente, embora por motivos diferentes. A faísca incendiária partiu de Maria Madalena, que se deslocara cedo ao sepulcro, certamente movida em seu interior pelo próprio Deus, para ser a 2ª testemunha da Ressurreição, pois a primeira fora a Mãe de Jesus, em cuja alma nunca penetrara a dúvida sobre a Ressurreição do Filho, embora não tivesse ficado imune à tentação contra a Fé, pois, tal como o Filho, também ela se sentiu abandonada pelo Pai naqueles dias de trevas espirituais.

Também, como era inevitável, a notícia chegou rapidamente àqueles que teceram os acontecimentos daquela sexta feira passada, véspera da solenidade da Páscoa Judaica, mas os soldados romanos também não tardaram a contar tudo o que se passara naquela madrugada, em que um meteoro, investindo contra a entrada do túmulo de Cristo, provocou um estrondo tal que os soldados não deram por mais nada, estando ainda desmaiados quando Maria Madalena se deslocou ao túmulo e o encontrou vazio e em perfeita ordem. É lícito supor que os soldados, uma vez capazes de abandonar aquele espaço, foram directos a contar o que se passara.

Finalmente, pensavam as autoridades do Templo ter acabado de vez com o pesadelo de apanhar, julgar, condenar e executar Aquele que se apresentava como o Messias de Israel e pregava uma doutrina nova, mas que, para eles não passava de um impostor, um agitador e outras coisas. Embora perseguidos por fantasmas, todos os membros do Sinédrio que tinham votado a favor da condenação de Cristo à morte estavam convencidos de que poderiam descansar e continuar a viver as suas vidas de “santos de Israel”, apesar de Jesus os ter desmascarado com os epítetos que constam ainda hoje dos evangelhos: hipócritas, sepulcros caiados, assassinos de profetas, profanadores do Templo, violadores da Lei, arrogantes e blasfemos, que tinham tornado a Lei impossível de se cumprir, pelos muitos e desnecessários acrescentos saídos de suas cabeças. Tudo isto estava ainda fresco na memória deles, facto que lá continuaria até ao fim de suas vidas.

A notícia caiu bombasticamente sobre eles. Que fazer agora? O sumo sacerdote Caifás convocou apressadamente os mesmos da reunião anterior, deixando de fora José de Arimateia, Nicodemos, Eleazar, Menaem, Cusa,… por suspeitas de eles serem discípulos ou simpatizantes de Jesus. Particularmente intrigado, mas por outros motivos, estava o sacerdote Gamaliel, que vira concretizado o sinal que pedira a Yahweh sobre o Messias. E a reunião fez-se ainda no dia da Ressurreição, o primeiro dia da semana, o Domingo.

Caifás – Veneráveis e santos membros deste Conselho, já deveis saber a causa desta convocação urgente do santo Sinédrio. É que o corpo daquele impostor e agitador desapareceu do túmulo. Eu e o meu sogro Anás já lá fomos ver. O sepulcro está vazio e a grande pedra que tapava a sua entrada foi removida. Como isso aconteceu, nós não sabemos ainda explicar.

Anás – Nós suspeitamos que os discípulos dele foram lá de noite e roubaram o corpo. E quem sabe se não foi mesmo o José de Arimateia, o Nicodemos , o Eleazar, o Cusa, o Menaem,… ou os cinco juntos! Eu julgo-os capazes disso, tanto mais que o sepulcro pertence ao José!

Gamaliel – Más como foi isso possível, se o sepulcro estava guardado noite e dia pelos soldados romanos, a quem não se perdoa nenhum desleixo no cumprimento de missões militares?

Doras – Isso é perfeitamente possível! Podiam eles estar a dormir ou terem bebido vinho demais e estarem a curtir a bebedeira com um sono pesado. Então, os discípulos poderiam ter aproveitado a situação para roubar o corpo sem ninguém dar por isso. E agora, para esconder o roubo, eles propalam que ele ressuscitou. Isto é o que eu penso!

Gamaliel – Achais isso possível? Se os Seus discípulos fugiram todos com medo e continuam escondidos, quem teria coragem para aparecer lá em cima, sabendo que o túmulo estava guardado por soldados romanos? Isso seria a vergonha deles e do exército romano! Não vos lembrais que Ele garantira que ressuscitaria ao terceiro dia? Não vos lembrais que Ele disse que se destruísseis o Templo, Ele o reconstruiria em três dias? Ora, eu agora vejo qual era esse Templo a que Ele se referia: era o Seu próprio corpo, Templo de Deus, porque Ele é Deus, o Filho de Deus!

Caifás – Tu estás a delirar, ó Gamaliel! Se fosse assim, porque é que ele não foi mais claro? Se ele disse isso aqui no Templo, devia ter explicado que não se tratava deste templo de pedra, mas que se referia ao seu próprio corpo.

Gamaliel – Mas vós também deveríeis saber que Ele profetizou a ruína deste grandioso Templo de pedra, a honra e a glória da nossa nação, dizendo que, quando chegasse o dia, não ficaria dele pedra sobre pedra. Portanto, Ele falou de dois templos: este e o Seu próprio corpo. Vós destruístes o Seu corpo, mas Ele irá destruir este Templo em que nos encontramos. Consta-me que Ele anunciou isso poucos dias antes de ser preso. Só não disse quando seria. E também disse que Deus iria abandonar este Templo de pedra, por causa das muitas profanações e baixezas que nele se cometem, e porque, segundo Ele disse, Ele viera para aperfeiçoar a Lei e os Profetas, inaugurando uma nova era no relacionamento com Yahweh.

Na minha opinião, o rasgão do enorme cortinado do “Santo dos Santos” significa mesmo que Yahweh, já o abandonou, irritado, num gesto semelhante àquele em que tu, ó Caifás, rasgaste as tuas vestes quando o acusaste de blasfemar, por ele dizer que era o Filho de Deus. Tu rasgaste as vestes contra Yahweh, mas Yahweh também rasgou as Suas contra vós todos, querendo com isso dizer que a Aliança entre Ele e Israel caducou, por culpa vossa! A partir de agora, Yahweh já cá não tem a Sua Morada Santa. Todo este Templo passou a ser um local profano. Agora, eu penso que uma nova era já começou ou vai começar. Assim, no meu entender, aquilo que vós julgáveis ser o fim de um pesadelo acabará por ser o princípio de algo novo, sublime, que suplantará tudo aquilo que possais imaginar. O que é obra de Deus ninguém o pode destruir. Foi isso que eu vos disse antes de o condenardes à morte! Mas vós não me ouvistes!

Anás – Será que tu estás em teu perfeito juízo ? Dormiste mal? Tiveste algum sonho agitado? Estarás bêbado? O estado de embriaguez faz delirar e ter ideias esquisitas! Ou será que passas a ser seu discípulo? Vê lá! Isso pode dar-nos razões para te expulsarmos do Sinédrio e …algo mais!

Caifás – Bem, deixemo-nos de disputas! Nós precisamos de encontrar ideias, soluções e planos para este novo problema, que pensámos nunca vir a surgir, mas temos de enfrentar a realidade. Alguém tem alguma sugestão, ideia ou plano sobre o que fazer?

Shammai - Eu tenho uma sugestão, uma ideia e um plano! Temos de convocar os soldados romanos que constituíam o piquete que guardava o túmulo desse impostor! Se eles puserem obstáculos quanto a contarem-nos uma verdade do nosso interesse, recorremos ao tesouro do Templo para os convencermos. Já fizemos isso, pagando aos habitantes do bairro de Ofel para gritarem pela sua morte em frente de Pilatos. Não há nada que não se consiga com dinheiro vivo. Eles espalharão a nossa verdade e assim se destruirá qualquer atoarda espalhada pelos seus discípulos. Se, mesmo assim, eles recusarem a nossa oferta,, ameaçá-los-emos com a acusação, a Pilato, de falta grave no cumprimento dos seus deveres militares, o que se traduziria em julgamento , punição ou sentença de morte. Eles, aí, vão ter medo e contarão a nossa verdade.

Caifás – Parece um bom plano, ó Shammai, digno da tua inteligente cabeça! Alguém tem algo a dizer a este respeito?

Gamaliel – Antes que estas medidas sejam discutidas e aprovadas, peço licença para dizer ainda algo que preciso dizer, para que ajamos com prudência e sabedoria. Faço um apelo à memória daqueles de nós que estávamos presentes no exame de maturidade de um Jovem de 12 anos que, há cerca de vinte anos, passou pelo Templo. Deveis lembrar-vos que Ele nos espantou por Sua sabedoria e que nenhum de nós foi capaz de explicar de onde Lhe vinha. Nem sequer o nosso santo e sábio mestre Hillel! Se bem vos lembrais, Ele mostrou saber, já com aquela idade, coisas que nós, após tantos anos de estudo, não conseguíamos saber, sendo inclusivamente capaz de recitar de cor grandes passagens da Torá, fosse de que rolo fosse. Então, sobre Isaías… um espanto ! Sabia tudo o que ele diz sobre o Messias. Isto não vos diz nada? Eu fiquei perplexo, pensativo,…sobre se não seria Ele mesmo o Messias, pois Ele disse nessa ocasião que o Messias já estava entre nós, porque o tempo da profecia de Daniel a Seu respeito já se tinha cumprido.

Passados 20 anos, aparece por aqui já como adulto e a fazer o que todos nós sabemos e nós a fazer o que também nós todos sabemos. Quando Ele, há três anos, apareceu por aqui, eu reconheci Nele aquele menino de 12 anos e pedi então a Yahweh um sinal de que Ele seria o Messias verdadeiro e anunciado pelos profetas.

Anás – E que sinal foi esse? Já te foi dado? Quando e como?

Gamaliel – Esse sinal, por mim pedido, era este: Que um dia, comigo ainda vivo, o véu do Templo se rasgasse de alto abaixo sem intervenção de mãos humanas. Sabemos todos que este sinal se cumpriu na hora da sua morte… Como explicais que o varão que suportava aquele enorme e pesado cortinado tenha ficado em sua posição, sem sofrer danos, e o cortinado de púrpura se tenha inexplicavelmente rasgado de alto a baixo e assim continue? A partir de então, as coisas, para mim, mudaram, e oxalá levem mais alguém a mudar… Eu não preciso de mais provas! …Ah! Já me esquecia de um pormenor! A última vez que Ele passou por aqui, Ele disse-me: “ Dentro em breve vais ter o sinal que pediste!”. Ora, como é que ele sabia que eu tinha pedido aquele sinal, se eu nunca o revelara a ninguém? Agora, sou eu que aguardo a vossa explicação!…E calo-me para vos ouvir!

Sadoc – (Quebrando um longo, perturbante, silêncio e olhares cruzados em todas as direcções) Tudo isso são meras coincidências e, se não forem, são coisas só explicáveis por meio de Belzebú, de quem ele era um aliado. Até os doentes que ele curava e os mortos que ressuscitava era pelo poder de Belzebú.

Gamaliel – E Elias, que ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, também actuava por obra de Belzebú? Ora, Elias rezou pedindo a Yahweh que ressuscitasse o menino, o que aconteceu. Ora, hoje sei, ou sabemos, que há poucos dias ele ressuscitou Lázaro por sua própria autoridade, dizendo:” Lázaro, eu te ordeno, sai cá para fora!” E os demónios que ele expulsava? Também era por meio de Belzebú, como vós dizíeis? Que eu saiba, os demónios não se expulsam uns aos outros nem dão poder a ninguém para ser usado contra eles! Onde há sabedoria não há opiniões destas! Além de Lázaro e do filho da viúva de Sarepta, também ressuscitou o filho da viúva de Naím e ainda a filha de Jairo, o sinagogo de Cafarnaúm. Vós achais que Belzebú tem poder para ressuscitar mortos ?

Jónatas – Eu penso que não!

Alexandre – Eu também penso que não!

Gamaliel – Alguém pensa que sim?…..( Silêncio)……Então, ninguém diz nada? Esse silêncio significa que todos pensais que ele não tem esse poder. Agora, respondei-me: Se Belzebú não tem esse poder, como é que ele o vai dar a alguém para que o use contra si?

Ainda quanto ao plano apresentado por Shammai, tenho uma sugestão a fazer! Quando fordes conversar com os soldados romanos que estiveram de sentinela, fazei -lhes estas duas perguntas aos soldados que fizeram o primeiro turno: 1ª Quem ficou com as vestes daquele condenado? 2ª – Quem ficou com a túnica? Aos soldados do último turno, isto é, do que esteve lá durante a noite passada, perguntai como explicam eles que o túmulo tenha aparecido aberto estando eles de vigia? Pelas informações que tenho, Ele ressuscitou após aquele tremor de terra que sentimos esta madrugada, completando assim o cíclo da morte e da ressurreição: terramoto e trevas na morte, terramoto e luz na ressurreição. Quereis mais sinais?

Caifás – Penso que atribuis demasiada importância a esses factos. São puras coincidências!

Gamaliel – Sabeis tão bem como eu o que as Escrituras dizem a respeito do Messias. Peço-vos licença para vos recitar algumas passagens de um salmo (21/22) da Escritura. Vereis como tudo se aplica a Ele. Se me disserdes que são coincidências, digo-vos que são coincidências a mais para serem apenas coincidências. Leio-vos: “…todos os meus ossos se desconjuntaram,…a minha garganta secou-se como barro cozido e a minha língua pegou-se me ao céu da boca; reduziste-me ao pó da sepultura,….trespassaram as minhas mãos e os meus pés; posso contar todos os meus ossos,…olham para mim cheios de espanto. Repartem entre si as minhas vestes e sorteiam a minha túnica”. Ide confirmar, com recta intenção, se foi assim ou não e tirai as conclusões!

Anás – Tem paciência, ó Gamaliel! Estás um pouco excitado e nervoso, e, se te deixamos falar, ainda acabas por nos converter a todos e saímos daqui feitos seus discípulos. Por isso, proponho que te seja retirada a palavra até à votação final!

Gamaliel – Então, aqui vai a minha última palavra! Falastes há pouco na minha possível expulsão do Sinédrio. Vou facilitar-vos a vida, expulsando-me a mim próprio. Abandono de vez este Sinédrio, que insiste em se manter cego contra toda a evidência. As minhas dúvidas acabaram e quem tiver as suas, sirva-se da humildade, do seu conhecimento das Escrituras, compare-as com a vida, a morte e ressurreição deste Messias, fale com os Seus discípulos e descobrirá a Verdade. Quanto ao resto, se eu pedi um sinal e Yahweh mo concedeu, tenho de ser coerente e honesto! Por isso, o meu lugar já não é aqui e as minhas funções de sacerdote da Velha Aliança caducaram, pois um novo Sacerdócio irá surgir numa Nova Aliança. Vou juntar-me a Nicodemos, a José de Arimateia , a Menaem, a Eleazar, a Cusa, membros ilustres e rectos deste Sinédrio, que vós deixastes de convocar para que as votações decorram segundo os vossos interesses. Assim, esta será a minha última presença entre vós.

Caifás – Tem calma! Nós respeitamos-te como o maior mestre e doutor da Lei em Israel. Não te precipites, deixa correr algum tempo até ver em que pára tudo isto. Mas nós temos de agir depressa e bem, para que esta embrulhada não venha a ser pior que a primeira, por isso, proponho que seja posto à votação o plano sugerido por Shammai!

Gamaliel – Eu quero estar presente nas entrevistas com os soldados que guardavam o sepulcro! Eu próprio os quero interrogar na vossa presença!

Caifás – Lamento, mas eu, como sumo sacerdote e autoridade máxima deste santo Sinédrio, é que escolho a delegação que se encarregará desta tarefa! Por isso, aconselho-te a ficar de fora deste assunto! Depois, serás informado, tal como os outros!

A votação fez-se e o plano de Shammai foi aprovado, com o voto contra de Gamaliel, que logo ali se despediu de vez do Sinédrio, acabando por se entregar à causa de Cristo, apesar de ser já idoso e ter problemas de visão. Mas, como trabalhador da última hora, teve o mesmo prémio dos da primeira .

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 Ezequiel Miguel

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A Ceia da Despedida

(Mc 14, 17-31 ; Mt 26, 20-35; Lc 22, 14-38 ; Jo 13, 1-38)

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(Realidade & Ficção)

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O Cenáculo estava pronto para a última Ceia, após a azáfama dos Apóstolos para adquirirem tudo o que era necessário para se cumprir o ritual prescrito pela Lei de Moisés, a propósito da comemoração da Páscoa que, por sua vez, comemorava aquela passagem dos Hebreus da escravidão do Egipto à Liberdade. O Livro do Êxodo descreve essa passagem e como foi a última ceia em terras do Egipto.

Chegara para Cristo a hora de se despedir, pois iria ainda naquela 5ª feira dar início, no Getsémani, à  Sua Paixão e, como um pai de Família, tomou todas as previdências para que tudo corresse como estava previsto na Lei, da qual, Ele,  o Senhor da Lei, não se quis dispensar. E assim, Ele próprio indicou a cada um dos doze Apóstolos o seu lugar em volta da mesa, semi-deitados em cadeiras-cama, como era normal naquele tempo. Estamos habituados a ver a figura de Judas numa das pontas da mesa, feio, mal-humorado e com a bolsa à vista…, mas Cristo escolheu para ele o lugar à Sua frente, um lugar estratégico, para poder encará-lo olhos nos olhos, na esperança de que ele viesse ainda a reconsiderar quanto ao plano já estabelecido com os inimigos de Jesus. O passar todo o tempo da Ceia a encarar Judas de frente já era para Cristo um tormento que lhe revoltava as entranhas, que lhe tirava o apetite e Lhe cobria o rosto de uma profunda tristeza, o que os outros apóstolos não deixavam de notar, mas cuja causa eles estavam longe de adivinhar. Mas eles próprios também estavam dominados por um ar melancólico, apreensivo…, que se acentuava à medida que o Mestre ia orientando o decorrer da Ceia e ouviam Dele os últimos recados.

Jesus – Judas, tu ficas aqui à minha frente!

Judas – Mestre, Tu manténs-me sempre perto de Ti! Será que me amas mais do que aos outros?

Jesus – Eu amo-te tanto como aos outros, mas os outros não precisam tanto de ver o Meu Amor como tu, nesta hora…E tu até sabes porquê!… Além disso, o facto de nós estarmos aqui hoje deve-se a ti…, mais do que a nenhum outro…

Judas – Obrigado, Mestre, por me enalteceres aqui à frente de todos. Eu bem preciso disso, porque às vezes tenho a impressão de que ninguém, a não ser Tu, gosta de mim, o que eu acho profundamente injusto, porque eu nunca lhes fiz mal nenhum…

Jesus – E tens a certeza de que tu não lhes dás motivos para isso?…

Judas fez uma careta, esboçou um sorriso  sardónico e baixou os olhos. Começa a Ceia. Na mesa está um grande cálice, que Jesus enche de vinho e reza sobre ele. Cada apóstolo tem à sua frente um copo  individual, de pé alto. Segue-se o canto de salmos e a recitação das palavras do Ritual apropriadas. Jesus reza sobre o pão, parte-o e distribui-o, juntamente com as ervas amargas banhadas no molho. Chega depois o cordeiro assado, seguindo-se mais cânticos. Jesus parte o cordeiro, dando a cada apóstolo um bom pedaço, de modo a que ninguém fique com fome. Os apóstolos ouvem-No então proclamar:

Jesus –  Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa. Foi sempre o Meu desejo, desde que aceitei a missão de Redentor do género humano.

Simão – Mestre, a propósito da distribuição dos lugares, como é que poderemos saber quem é o maior de entre nós?

Jesus -  Se alguém quer ser o primeiro, seja o último e o servo de todos. O maior seja como o menor, o chefe, como aquele que serve os outros. Eu sou o que presido à mesa e, no entanto, estou a servir-vos. Ficai comigo nas horas que se aproximam e noutras que vos surgirão pela frente e com isso é que provareis a vossa grandeza aos olhos do Pai. Quem na dor Me acompanhar e for fiel até ao fim, esse é que terá o prémio. Está próxima a hora de Eu vos poder preparar um lugar junto do Pai, no Meu Reino, onde há moradas para todos os que acreditarem em Mim e Me acompanharem na minha Paixão, da qual deixo uma parte para todos passarem por ela.

Pedro – Mestre, nós seremos fiéis até ao fim ?

Jesus -  Pedro, vais passar por uma prova! Eu rezo por ti para que a tua fé não desfaleça e tu, quando te arrependeres, confirma na Fé os teus irmãos.

Pedro – Senhor, eu sou um pecador, mas serei fiel até à morte. Seguir-Te-ei para todo o lado e estou disposto a morrer contigo.

Jesus – Pedro, estás a ser vítima de um ataque de soberba! Dentro de pouco tempo muita coisa vai mudar. Vamos ser todos abandonados  pelo Pai e pelos Anjos e cada um de nós ficará entregue a si próprio, porque esta hora é a hora dos demónios. Até os Anjos vão sofrer e tapar os olhos para não verem aquilo que vão ver. Bem quereriam ajudar, mas…Aquilo que Eu vos disse sobre a Bondade e Providência do Pai, que Ele cuida de vós e dos passarinhos, que os Seus Anjos vos protegem, que calcareis aos pés escorpiões e serpentes, que não sereis tentados acima das vossas forças, que Ele sabe o que vós precisais…agora, esquecei tudo isso, porque é a hora em que seremos todos abandonados. Em toda a Terra não haverá Anjos nas horas que se seguem, porque o Pai os mandou recolher ao Céu. É a hora de se cumprirem todas as profecias sobre Mim e uma delas diz :“Ele foi contado entre os malfeitores”. E tu, Pedro, ora e vigia, porque Satanás anda à tua volta rugindo como um leão para te devorar.

Pedro – Mestre, eu morrerei Contigo ou, se quiseres, em vez de Ti!

Jesus – Ainda esta noite, antes de o galo cantar, três vezes me negarás!

Pedro – Mestre! Essa é demais! Eu tenho acreditado em Ti, em toda a Tua Palavra, mas nessa…desculpa lá, eu não acredito! Eu nunca Te negarei e todos estes vão ser minhas testemunhas!

Jesus – Oxalá que assim seja, meu Pedro, mas Satanás pediu-me para te joeirar.

E Pedro calou-se, deixando transparecer no rosto uma repentina angústia de incerteza…Se o Mestre tal dizia… Ele que sabia tudo antes de as coisas acontecerem!…

Simão – (Depois de ter ido a um baú buscar duas espadas) Mestre, o Pedro e eu temos espadas e os outros têm cada um o seu punhal curto. Quando for preciso, nós cá estaremos!

Jesus – Pensais que tereis ocasião para as usar? Mas agora vou ensinar-vos algo que tereis de usar. Acabei de vos servir o alimento corporal, mas agora quero prestar-vos um outro tipo de serviço, um alimento de um ritual novo de uma Aliança Nova, ainda não inaugurado por ninguém. Vamos suspender esta refeição.

E levantando-se da mesa, vai a um baú, despe a sua veste vermelha, cinge-se com uma toalha, enche uma bacia com água e coloca-a perto da mesa, tudo isto em silêncio e sob os olhares intrigados e espantados dos Apóstolos.

Jesus – Será que ninguém tem nada a perguntar-Me?

Pedro – Nós não sabemos o que queres fazer. Nós já nos lavámos antes da refeição!

Jesus – A minha purificação destina-se a quem já está puro, para ficar ainda mais puro.

Jesus ajoelha-se, descalça as sandálias a Judas Iscariotes e lava-lhe os pés, beijando-os em seguida. Um por um, faz o mesmo a todos. Judas não se comoveu, mas os outros…uns sentiram vergonha, outros comoveram-se e choraram.  Como era possível uma coisa destas? Mas Pedro…

Pedro – Tu lavares-me os pés? Era o que faltava! Eu não to permito! Tu és Deus e eu sou um pecador, um Zé ninguém, um verme. Tu és Tu e eu sou eu! Eu não deixo que me laves os pés!

Jesus – O que Eu te faço, tu não o compreendes agora, só mais tarde.

Pedro – Como queiras, Mestre, mas lavares-me os pés, nunca!. Deixa-me antes lavar os Teus!

Jesus – Olha, Simão de Jonas! Se Eu não te lavar os pés, não irás para o meu Reino. É preciso que te lave os pés, pois eles terão um longo caminho a percorrer e a tua alma precisa de pés fortes…Lembra-te que está escrito: “São belos os pés daqueles que anunciam boas novas.”

Pedro – Ó Senhor! Então lava-me os pés, a cabeça, os braços, as mãos…

Jesus – Vós já estais puros. Os pés precisam de ser purificados, porque são eles que levam o homem pelos maus caminhos que as más intenções abrem…

E, no meio de um choro convulsivo, Pedro deixa que Jesus lhe lave os pés e lhos beije. Finalmente, Jesus tira a toalha da cintura, lava as mãos, volta a vestir-se e a ocupar o Seu lugar,  olhando para Judas e dizendo:

Jesus – Agora estais puros, mas não todos. Somente aqueles que tiverem a vontade de permanecer puros.

Jesus enche novamente de vinho o grande cálice comum e todos bebem, seguindo-se o canto de vários salmos de louvor (114, 115). Quando algum versículo se aplica a Judas, Jesus fixa nele o Seu olhar, por exemplo :” Todo o homem é mentiroso”; “É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos justos”; “Eu não morrerei, mas viverei para cantar as obras do Senhor”; “Celebrai o Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”; “É melhor confiar no Senhor do que no homem”; “Maldito o homem que confia noutro homem”; “Eu cambaleava e ia a cair, mas o Senhor me amparou”; “A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular”; “Bendito o que vem em nome do Senhor”; “Eu me alegro, porque o Senhor ouviu a minha oração, porque volta os seus ouvidos para mim. Eu O invocarei por toda a minha vida, pois me haviam cercado as angústias da morte”; “O Senhor é clemente e compassivo, lento para a ira e pronto para o perdão”, etc.  Estas  sentenças dos Salmos atingem-no profundamente e perturbam-no, ao ponto de se desconcentrar, não acertando nem com a letra nem com a música nem com o tom. Tomé, um dos seus vizinhos do lado, sente a necessidade de lhe chamar a atenção para a desafinação com que canta… Após o canto, Jesus distribui nova dose do cordeiro assado e repesca o tema do lava-pés:

Jesus-  Eu quero que compreendais o meu gesto de vos lavar os pés. Trata-se de um gesto de humildade, um gesto de Deus a lavar os pés às suas criaturas, de o Senhor a lavar os pés ao seus servos, fazendo-se Ele próprio o servo dos servos. Será na humildade e no Amor a Deus e ao próximo que vós sereis grandes no Reino de Deus. Como Eu fiz, fazei vós também .  Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei, pois este é o mandamento novo que vos deixo. É por isto que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. Aquele que Me ama cumprirá as minhas palavras. Se alguém Me amar, o Pai o amará e  Nós viremos a ele e faremos nele a Nossa morada. Quem não Me tem amor não guardará as minhas palavras. Fazendo isto sereis felizes, mas não sereis todos felizes, porque se cumprirá o que foi escrito a Meu respeito: “Aquele que come comigo à mesa levantou o seu calcanhar contra Mim” (Sl 40, 10)

Após cantarem o longo salmo 118, Jesus senta-se e proclama:

Jesus – O velho rito terminou e vai ser inaugurado um novo. A Velha Aliança chegou ao fim e vai ser substituída pela Nova. A vítima dos sacrifícios não mais será o vitelo, a pomba, o cordeiro. A Nova Aliança vai ser alicerçada sobre Mim,  a Nova Vítima, a Vítima Eterna, a Vítima sem mácula, o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do Mundo, Aquele que se oferece ao Pai para remissão de todos os pecados dos homens. Será um ritual perpétuo de Amor, um memorial perpétuo a renovar-se a cada hora por toda a Terra. Este será o grande milagre do Amor, que agora vou realizar, não havendo na Terra nada superior a ele nem nada que se lhe compare. Será um milagre de união e comunhão entre Mim e vós e vós entre uns e outros. Eu vou partir mas não vos deixarei órfãos, porque ficarei convosco até à consumação dos séculos.

Jesus pega num pão inteiro, coloca-o sobre o cálice cheio de vinho, abençoa-os, oferece-os ao Pai, parte o pão em treze bocadinhos, coloca-os na mão esquerda, dá um bocadinho a cada um e diz:

Jesus – “Tomai e comei. Isto é o Meu Corpo, que vai ser entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.”

Faz o mesmo com o cálice, dizendo:

Jesus –  “Tomai e bebei. Isto é o meu sangue, que vai ser derramado por vós para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de Mim”.

Pega também no último pedacinho e no cálice, sai da sala e vai levar a Comunhão à Mãe. Regressa com o cálice vazio. Toma a palavra:

Jesus – Vistes o que eu fiz. Dei-me a Mim próprio. As minhas desculpas, se não posso fazer mais por vós. Agora compreendeis o que Eu queria dizer quando anunciei (Jo, 6) que Eu sou o Pão Vivo descido dos Céus, o Novo Maná , a Minha Carne e o Meu Sangue como alimentos de Vida Eterna. Quem Me come e quem Me bebe não mais terá fome nem sede e quem Me come e bebe terá cada vez mais fome e mais sede de Mim, um mistério que compreendereis mais tarde. Por este milagre de Amor Eu estarei em vós e vós em Mim, mas ai daquele (olhando para Judas) que se alimentar de Mim sem estar puro…Um de vós aqui não está puro! Um de vós Me vai trair! É por isso que Eu estou de espírito perturbado e numa tristeza de morte. A mão daquele que Me vai trair está comigo sobre esta mesa e nem o Meu amor, nem o Meu Corpo, nem o meu Sangue, nem a minha Palavra foram suficientes para o levar ao arrependimento…Eu lhe concederia o perdão e morreria também por ele, se…(lágrimas nos olhos e voz embargada). Na verdade, Eu vou ser traído, mas ai daquele por quem o Filho do Homem vais ser entregue! Melhor lhe fora não ter nascido! (1)

Os apóstolos entram em pânico e, cada um  por sua vez, perguntam a Cristo:

Todos – Serei eu?…Serei eu?…Serei eu?…

Judas –  (Sorrindo frio e tranquilo) Por acaso serei eu, Mestre?

Jesus – Tu mesmo o disseste. Tu mesmo te acusas, sem que Eu te tenha acusado…A  tua consciência te diz se és tu ou não. Não vale a pena enganá-la…, porque ela não se deixa enganar!

Todos suspeitam de Judas, mas Pedro é o que suspeita mais, pois Judas Iscariotes nunca lhe caiu no goto! João recebe um recado de Pedro para que pergunte directamente a Jesus, sobre Cujo peito apoia a cabeça, conseguindo falar com Jesus sem que ninguém mais ouça o que quer que seja.

João – Quem é, Senhor?

Jesus – Aquele a quem Eu der um bocado de pão (não consagrado) passado neste molho!…. (Cortando um pedaço de um pão inteiro, Jesus  banha-o no molho). Toma, Judas! Tu aprecias muito isto!

Judas – Obrigado, Mestre, pela Tua simpatia para comigo. Sim, gosto muito!

Enquanto ele come o pão avidamente, João sente-se horrorizado, tapa os olhos e soluça, em contraste com o satânico sorriso de Judas Iscariotes…

Jesus – Judas, agora que Eu já fiz por ti tudo o que podia…vai tu fazer o que ainda tens a fazer lá fora…E o que tens a fazer fá-lo depressa!

Judas – Está bem, Mestre! Eu cumpro as Tuas ordens! Depois nos encontraremos no Getsémani, porque Tu vais para lá, como sempre, não é verdade?

Jesus – Sim,… vou para lá,… como sempre…

Enquanto Judas se levanta, põe o manto e se prepara para sair:

Pedro – Mas onde é que ele vai sozinho? E a fazer o quê? Um de nós não pode ir com ele?

Judas -  Ouve lá! Eu já não sou criança e sei governar-me sozinho!

Jesus – Pedro, deixa-o! Ele e Eu sabemos o que vai fazer.

Pedro – (Vítima de uma terrível suspeita, sente remorsos…E se julgou mal?…) Está bem, Mestre, mas…

Jesus – (Em segredo a João, apoiado no Seu peito) Não digas nada a Pedro, por agora. Ele poderia armar aqui um escândalo desnecessário.

Judas – Adeus, Mestre! Adeus, amigos!

Jesus – (Triste) Adeus, Judas!

Judas saiu dali e dirigiu-se directamente ao Templo para informar os seus amigos sobre a possibilidade de apanharem Jesus no Getsémani naquela noite e receber os trinta dinheiros contratados pela traição, a qual se consumou com o tristemente famoso beijo ao seu Mestre, umas horas mais tarde, no Jardim das Oliveiras. Para sempre lá ficou a ecoar o lânguido suspiro do nosso Redentor: “Amigo, com um beijo entregas o Filho do Homem!?”. Assim foi!

(1)   – Esta foi a primeira Comunhão mal feita, o primeiro sacrilégio dos muitos que passaram a ser feitos até aos dias de hoje. S. Paulo diz-nos quais são as consequências de uma Comunhão em pecado mortal: “ Todo aquele que comer o Pão (consagrado) ou beber o cálice (com o Vinho consagrado) do Senhor, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste Pão e beba deste Vinho, pois aquele que o come e bebe sem distinguir o Corpo e o Sangue do Senhor, come e bebe a sua própria condenação (eterna).  Por causa disto há entre vós doentes e muitos morrem” (1 Cor 11, 27 – 30).

Era a esta trágica realidade que o Anjo de Portugal se referia quando convidou os Pastorinhos a consolar o nosso Deus pelos sacrilégios e ultrajes…com que Ele é ofendido.

Convém saber (ou lembrar) que não deve ir à Comunhão todo o baptizado que estiver em pecado grave, também chamado mortal. O arrependimento sincero, a promessa firme de emenda e a Confissão sacramental anulam o impedimento. Em casos de católicos em situações de adultério, divorciados vivendo com outros que não sejam  os seus cônjuges, uniões de facto, uniões homossexuais, situações de pedofilia, casamentos apenas pelo civil,  negação de verdades da Fé (seitas), actividades espíritas, bruxarias, ocultismo, maçonaria, defesa e propagação de ideologias ou doutrinas  condenadas pela Igreja ou em outras situações de pecado contínuo…a Comunhão está proibida a quem estiver nestas situações e a Confissão também, se a pessoa não estiver disposta a romper radical e definitivamente com a situação de pecado. Os que vivem nestas situações costumam consolar-se acusando a Igreja de ser demasiado severa…mas a Doutrina é de Cristo e tudo isto entronca no cumprimento dos Dez Mandamentos ou no seu desprezo. Na categoria de ultrajes entram os pecados que têm a ver com o desvio de Hóstias consagradas por pessoas que se apresentam à Comunhão e depois…enfiam a Hóstia num lenço ou num bolso e levam-Na para fora, para a vender ou para a utilizar em bruxarias ou em rituais satânicos.

Assunto para pensar!

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Ezequiel Miguel

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Exulta, filha de Sião! Eis que o teu Rei vem a ti!

(Realidade & ficção)

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Ramos13Exulta, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti! Ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumentinho, filho da jumenta (Zac 9,9).

Aproximava-se a Páscoa dos Judeus, aquela escolhida nos planos divinos para nela chegar ao fim a pregação do Reino de Deus e consumar a redenção do mundo por Jesus Cristo.

Os apóstolos andavam a ficar nervosos com a intenção que Jesus manifestava de deixar a Galileia e ir meter-se na toca dos lobos, em Jerusalém, já com a cabeça a prémio, em virtude de decisão do Sinédrio, que mandara publicar que quem soubesse por onde Ele andava, deveria comunicá-lo, para que fosse preso. Entretanto, Judas Iscariotes ia avisando o Sinédrio a respeito das intenções do Mestre de ir para aqui ou para ali, por isso, fazia frequentes perguntas, aparentemente inocentes e ingénuas, mas que claramente tinham a intenção de captar informação de interesse para os inimigos de Jesus.

Com a argumentação de que Lázaro tinha morrido, Jesus fez por convencer os Apóstolos da absoluta necessidade de irem para Betânia, a três quilómetros de Jerusalém, com o objectivo de ressuscitar Lázaro. Os apóstolos deixaram-se aparentemente convencer que tinha de ser assim, embora questionando-se se o Mestre não poderia ressuscitar Lázaro mesmo à distância. Perante a insistência de Jesus, eles convenceram-se mesmo que Jesus iria entregar-se à morte, o que levou Tomé a opinar: “Vamos e morramos com Ele” (Jo 11,16)!

Em Betânia, Jesus ressuscitou Lázaro à vista de amigos e inimigos, convertendo à Sua causa muitos Judeus, como os evangelhos afirmam. Mas outros não acreditaram, apesar de terem mesmo visto Lázaro a sair do túmulo enfaixado, de pés atados e cabeça coberta, após taparem o nariz por causa do mau cheiro, apesar de disfarçado pelos unguentos e perfumes. Pouco tempo depois, o Sinédrio não demorou a enviar espiões a casa de Lázaro, para saberem se Cristo estava realmente hospedado em sua casa e também para puxarem pela língua de Lázaro sobre o fenómeno da sua própria ressurreição, que alguns hoje alcunham de reanimação, quer dizer, trazer novamente a alma ao corpo.

Era uns dias antes do nosso Domingo de Ramos. Jesus escolhera refugiar-se em casa de Lázaro, para preparar a Sua última semana na Terra e tomar as últimas disposições que se impunham perante o grande acontecimento da Sua iminente Paixão, Morte e Ressurreição. Durante esses dias, Jesus e Lázaro tiveram longas conversas a sós. Eis uma delas:

Lázaro – Senhor, porque me fizeste voltar a esta vida?

Jesus – Por vários motivos, que passo a explicar-te:

1. Eu seria ingrato para contigo e tuas irmãs, se recusasse fazer por vós o que fiz, pois a Mim não Me custa nada fazer isso, porque sou o Senhor da vida e da morte. As tuas casas foram o meu principal apoio no Meu apostolado e em vós Eu tive amigos sinceros, discípulos convictos e sempre prontos a gastar Comigo e com os Meus discípulos tudo o que fosse necessário nestes três anos da Minha pregação. Esta tua casa foi sempre um refúgio seguro contra os Meus inimigos, tal como agora é. Foi uma maneira de vos recompensar e de algum modo retribuir-vos a alegria que sempre Me destes quando aqui ou em outros lugares Me recebíeis.

2. Chamei-te de novo à vida porque nestas horas amargas, nestas horas de trevas e abandono que vão passar por Mim, Eu preciso de vós como verdadeiros amigos, em cuja casa posso alimentar-Me, descansar e preparar-Me para o que se aproxima. Vai chegar a Minha hora, a hora que o Pai Me marcou para consumar a maior obra da Criação, a redenção do Homem.

Lázaro – Mas, Senhor, Tu tens mesmo de Te entregar nas mãos dos Teu inimigos? Não haverá outro modo de terminares essa Tua grande missão?

Jesus – Não, Lázaro! Tem de ser assim como te digo! Quando o Pai perguntou: “Quem enviarei…” (Is 6,8)? Eu ofereci-Me, em nome do infinito Amor que circula entre Nós e o Homem, a criatura saída do nada à nossa imagem e semelhança, e cujo fim último é o regresso à casa do Pai. Em breve se cumprirão todas as profecias saídas dos profetas e dos salmistas.

Lázaro – Mas, Senhor, Tu sabes que eu tenho influência junto dos Romanos e a uma palavra minha, ninguém Te tocará, porque eles serão capazes de Te proteger contra todos os teu inimigos!

Jesus – Bateste no ponto crucial e agora menciono-te mais um motivo por que te ressuscitei:

3. Exactamente para impedires as tuas irmãs de intercederem por Mim junto das autoridades romanas. Quero que uses a tua influência sobre elas para que não façam nada que possa estorvar o que tem de ser feito, pois eu vim à Terra para isso e essa é a vontade do Pai e a Minha.

Lázaro – Mas eu…

Jesus – Também de ti Eu exijo que fiques quieto, que não saias de casa nesses dias, a não ser por motivos pessoais, que não recebas nenhum dos meus discípulos, pois sei que eles depositarão em ti a esperança de um resgate e até pensarão em Me raptar, quando concluírem que será a última medida para Me livrarem dos Meus inimigos. Nessa hora, eles sentir-se-ão perdidos, tal como diz o profeta: “Ferirei o Pastor e as ovelhas dispersar-se-ão” (Mt 26,31)

Lázaro – (Chorando) Senhor, Tu exiges-me isso?! Que amigo serei eu, se não posso ajudar o Meu Amigo quando Ele está num perigo mortal? Senhor, uma ida minha a Pilatos e…

Jesus – Nem penses, Lázaro! Se és Meu amigo, não apoies os intentos de Satanás, pois ele, por um lado, quer impedir-Me, mas, por outro, tentará tirar proveito do Meu sofrimento e reforçá-lo, como vingança. Mas peço-te uma coisa, para te compensar por esta proibição: Naquelas horas, une-te espiritualmente às orações da Minha Mãe, para que alguma força chegue até Mim, nessas horas em que o Pai Me vai abandonar. Também a Minha Mãe vai sofrer os ataques de todo o inferno contra a sua fé na Minha ressurreição, pois, como co-redentora, também o Pai e os anjos que a guardam a irão abandonar, deixando-a em atroz sofrimento. O inferno Lhe dirá que estará tudo pedido, que nada valeu a pena, que foi tudo um engano e que não tenha ilusões, por que ele não ressuscitará.

Lázaro – Mas isso vai ser horrível!

Jesus – Vai mesmo, Meu amigo! Mas o Pai também A escolheu para ter a Sua parte na Redenção. Vai cumprir-se Nela a profecia de Simeão, quando Ela Me apresentou no Templo: “…Uma espada de dor vai trespassar-te o coração…” (…) A espada vai começar a enterrar-se no Seu Coração e lá ficará enterrada até que Eu ressuscite, ao 3º dia.

Lázaro – Senhor, eu vejo em Ti uma profunda tristeza, como nunca vi! É só por causa do que se aproxima?

Jesus – Não, Lázaro! (Chora…) Se tu soubesses , Lázaro!…

Lázaro – Tu, Senhor, a chorar?

Jesus – Sim, meu amigo! E não é por causa daquilo que Me espera! É por causa de um dos Meus, um daqueles, como diz o profeta, que come comigo à mesa (Lc 22,21)

Lázaro – Atrevo-me a dizer que é Judas Iscariotes!

JesusEsse mesmo! Quantas lágrimas Eu não derramei já por sua causa!

Lázaro – (Chorando e ajoelhando-se aos pés de Jesus) Ó Senhor!…O meu Deus a chorar! Como posso segurar as minhas lágrimas quando vejo as Tuas! Ó mistério insondável!

Jesus – Eu vim para redimir todos os homens, mas não consigo que Judas aproveite do Meu Sangue! Até já Me ajoelhei a seus pés,…tudo para que aceite os Meus argumentos em seu favor, mas…nada! Não consigo demovê-lo de cumprir aquilo que já prometeu ao Sinédrio. Por seu intermédio vai cumprir-se a profecias de Isaías de vender o Servo de Yahweh por trinta dinheiros. O contrato está feito! Eu só precisava que ele dissesse: “Sim, quero libertar-me das garras de Satanás!” Mas não consegui e ele vai perder-se. E logo um dos Meus (chora)!

Lázaro – Mas, Senhor, Tu podes tudo! Não poderás mudar-lhe a vontade, como mudaste à minha irmã Maria?

Jesus – Não, meu amigo! Ele entregou a sua vontade a Satanás, que já incarnou nele e agora é Satanás que fala por ele. Já são dois em um!

Lázaro – Mas Tu não tens poder sobre os possessos e sobre os demónios?

Jesus – Tenho, mas Judas não está possesso! Ele não quer mesmo o que Eu lhe proponho. Já lhe propus que recuse voltar a encontrar-se com o Sinédrio, refugiando-se mesmo em tua casa, mas ele recusou e continua a recusar. Aguentar Judas durante estes três anos custou-me mais do que me vai custar o que se aproxima de Mim. Já imaginaste, Eu, a pureza e santidade absolutas, a ter de conviver com alguém entregue à hipocrisia, à mentira, à imoralidade, ao espiritismo, à prostituição, à traição,… ao ponto de ir cometer o delito dos delitos: trair o seu Deus! Eu te digo: Se o inferno não tivesse sido criado para os anjos caídos, teria sido criado para ele! Não imaginas o Meu sofrimento, que abre as comportas das minhas lágrimas. Para ele não valerá de nada Eu ter vindo !

Lázaro – Senhor, ocorreu-me a ideia: Se, naquelas horas, os teus discípulos vierem pressionar-me para dar algum passo em Teu favor, que deverei fazer?

Jesus – Na próxima vez que fores a Jerusalém, tu irás encontrar o João, que vai mesmo pressionar-te para ires falar com Pilatos. Tu vai dizendo: “Não posso!” Por fim, se ele não te largar, diz-lhe simplesmente: “ O Mestre proibiu-me de interferir”! Nessa altura, ele compreenderá porquê e fará tudo para conter os outros, sobretudo o impetuoso Simão Pedro. Agora, chegou o momento de te dizer mais alguma coisa: Eu vou fazer uma entrada solene, triunfal, em Jerusalém, para cumprir mais uma profecia, que diz: “Alegra-te, Jerusalém, porque o teu Rei vem a ti, montado num jumentinho”(Zac 9,9) ! E sou Eu que te faço mais um pedido: avisa os Meus discípulos, aqueles que encontrares, e diz-lhes que dentro de três dias, espero por eles aqui, com ramos de palmeira, para entrarem comigo em Jerusalém. E que avisem também os de Jerusalém e arredores, para que façam o mesmo! …Estás a questionar-te: “Porquê isso, se tudo já está acertado quanto ao que O espera”? Vou dizer-te: Para cumprir a profecia, para dar a Jerusalém e ao Sinédrio uma última prova de que Eu sou o Messias esperado, o seu Rei, para fortalecer na fé todos aqueles que Me seguem, para convencer os da última hora, os indecisos, os que ainda têm dúvidas,…Quero dar-lhes a oportunidade de glorificarem o Messias, o verdadeiro Rei de Israel, antes que as trevas caiam sobre Ele.

Lázaro – No fim, Senhor?… (Chora)

Jesus – No fim, Lázaro, como está escrito, serei preso, maltratado, sofrerei, morrerei crucificado e ressuscitarei ao 3º dia, pois Eu sou a Ressurreição e a Vida, tal como disse às tuas irmãs.

Lázaro – E depois,…que serviço esperas de mim e das minhas irmãs?

Jesus –Tu serás ordenado sacerdote e bispo e a Gália espera por ti. As tuas irmãs irão contigo e Eu estarei sempre convosco!

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Ezequiel Miguel

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Jesus ressuscita Lázaro

(Confira: Jo 11, 1-57)

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Lazaro30I – Morte e ressurreição de Lázaro

  Estava doente um homem chamado Lázaro, de Betânia, terra de Maria e de Marta, sua irmã. Maria cujo irmão, Lázaro, tinha caído doente, era aquela que tinha ungido os pés do Senhor com perfume e lhos tinha enxugado com os seus cabelos. Então, as irmãs enviaram a Jesus este recado:

Mensageiro – Senhor, aquele que amas está doente!

Jesus – Esta doença não é de morte, mas sim para a glória de Deus, manifestando-se por ela a glória do Filho de Deus.

Pedro – Mestre, vamos já para Betânia, em socorro dos nossos amigos Lázaro, Marta e Maria?

Jesus – Não, não vamos já! A seu tempo iremos. Já ouvistes que a sua doença não é de morte, por isso, continuaremos a cumprir a nossa missão aqui.  Ficaremos aqui mais dois dias!

Passados dois dias:

Jesus -  Vamos outra vez para a Judeia!

João – Mestre, há pouco os Judeus tentavam apedrejar-te e Tu agora queres ir outra vez para lá?

Jesus – Não tem o dia doze horas? Se alguém anda de dia, não tropeça, porque tem a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz com ele. O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo.

André – Mestre, se ele dorme, vai curar-se!

Jesus – Lázaro morreu! E Eu, por amor de vós, estou contente por não ter estado lá, para assim poderdes crer. Mas vamos ter com ele!

Tomé – Vamos nós também, para morrermos com Ele!

Em Betânia (a três quilómetros de Jerusalém):

Ao chegar, Jesus encontrou-o sepultado havia quatro dias.

Marta – Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido! Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedirdes a Deus, Ele to concederá.

Jesus – O teu irmão ressuscitará!

Marta – Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia!

Jesus – Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá!

E todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá para sempre. Crês nisto?

Marta – Sim, ó Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.

Jesus – Então, vai chamar a tua irmã!

Ainda antes de entrar na aldeia de Betânia:

Maria – (Ajoelhada aos pés de Jesus)  Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido!

Jesus (Comovido por ver tantas lágrimas à Sua volta) – Onde o pusestes?

Marta – Senhor, vem e verás!

Então, Jesus começou a chorar.

1º Judeu – Vede como era seu amigo!

2º Judeu – Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?

Jesus – (Suspirando) Vamos até ao túmulo de Lázaro!….Tirai a pedra!

 Marta – Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia!

Jesus – Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?   (Após a abertura do sepulcro e erguendo os olhos ao céu): Pai, dou-Te graças por Me teres atendido. Eu já sabia que sempre Me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu Me enviaste!…(Bradando com voz forte): Lázaro, vem cá para fora!

“O que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário.

Jesus – Desamarrai-o e deixai-o ir!”

II – Alarme no Sinédrio

“ Então, muitos dos Judeus que tinham vindo a casa de Maria, ao verem o que Jesus fez, creram nele. Alguns deles,  porém, foram ter com os fariseus e contaram-lhes o que Jesus tinha feito. Os sumos sacerdotes e os fariseus convocaram então o conselho.

Anás– Que havemos nós de fazer, dado que este homem realiza  muitos sinais miraculosos? Se o deixarmos assim, todos irão crer nele e virão os romanos e destruirão o nosso Lugar santo e a nossa nação?

Caifás – Vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira!

E a partir desse dia, resolveram dar-Lhe a morte. Por isso, Jesus já não andava em público, mas retirou-se dali para uma região vizinha do deserto, para um cidade, chamada Efraim, e lá ficou com os discípulos.

Estava próxima a Páscoa dos Judeus…Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no Templo: Que vos parece? Ele virá à Festa? Entretanto, os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem de que se alguém soubesse onde Ele estava, o indicasse, para O prenderem.”

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Considerações:

1. Vem ao caso perguntar: Onde estariam as almas  dos Justos antes de Jesus  morrer e  ressuscitar? Não estavam certamente no paraíso, uma vez que ele não fora aberto antes da  morte de Jesus. É o que quer dizer o Credo, quando dizemos: ” Desceu aos infernos e subiu ao Céu, onde está sentado à direita de Deus Pai, de onde há-de vir para julgar os vivos e os mortos”. Os infernos é o lugar inferior, o reino dos mortos, o Hades. A Igreja ensinava que os que morriam sem pecado iam para o Limbo. Recentemente, eliminou essa palavra do Catecismo. Cristo dizia que os justos iam para o “Seio de Abraão”. Com a morte e a ressurreição de Cristo os Justos do Limbo subiram ao Paraíso, reaberto por Cristo, o Primogénito dos mortos e dos ressuscitados.

2. Neste episódio, além da ressurreição de Lázaro, que estaria necessariamente no “Seio de Abraão”, porque era um Justo, confirma-se a Ressurreição Final de todos os humanos falecidos, seguida do Juízo Final, em que, após a sentença definitiva, os corpos ressuscitados irão acompanhar as almas a que estiveram associados. Esta Verdade é Dogma de Fé e consta do Credo, ficando herético quem a negar. S. Paulo diz que os que estiverem vivos nessa ocasião serão transformados e aguardarão a sentença final, tal como os ressuscitados. Assim voltarão a unir-se: a alma, ao seu único corpo e o corpo, à sua única alma.  Se é adepto da crença na reencarnação, deite essa ideia da cabeça para fora e não a divulgue, pois é um disparate monstruoso, divulgado pelo Espiritismo. Além disso, a Igreja, assim como a Bíblia, condena todas as formas de espiritismo e excomunga quem se mete nele, quem o divulga e quem o apoia, seja de que maneira for. Espero que não seja o seu caso!… Se for, enterre essa ideia e fuja quanto antes!

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Ezequiel Miguel

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Vai lavar-te à piscina de Siloé

(Confira: Jo 9, 1-40)

Personagens: Jesus, discípulos, Cego, vizinhos, fariseus

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Siloe30Ao passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe:
Discípulos- Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?
Jesus – Nem pecou ele nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras Daquele que Me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo.
Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e disse-lhe:
Jesus – Vai lavar-te na piscina de Siloé!
Ele foi, lavou-se e regressou a ver. Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam:
1º vizinho – Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?
2º vizinho – É ele mesmo!
3º vizinho – De modo nenhum! É outro parecido com ele!
Cego – Sou eu mesmo!
4º vizinho – Como foi que os teus olhos se abriram?
Cego – Esse homem que se chama Jesus fez lama, ungiu-me os olhos com ela e disse-me: “Vai à piscina de Siloé e lava-te!” Então, eu fui, lavei-me e comecei a ver!
5º vizinho – Onde está Ele?
Cego – Não sei!
Levaram o cego aos fariseus. O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado:
1º fariseu – Como é que tu começaste a ver?
Cego – Ele pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver!
2º fariseu – Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado!
1º vizinho – Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?
3º fariseu – E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?
Cego –É um profeta!
4º fariseu – Nós não acreditamos que tu tivesses nascido cego e agora vês! Vamos chamar os teus pais e tirar as coisas a limpo….Vós, aí, sois realmente os pais dele? É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então, como é que ele agora vê?
Pais – Nós sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego! Mas não sabemos como é que ele agora vê, nem quem foi que o pôs a ver! Perguntai-lhe a ele! Já tem idade para falar de si!
5º fariseu – Dai glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!
Cego – Se é um pecador, não sei! Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo!
1º fariseu –O que é que ele te fez? Como é que ele te pôs a ver?
Cego – Eu já vo-lo disse! Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?
Fariseus – Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés, mas, quanto a esse, nós não sabemos de onde é!
Cego – Ora, isso é que é de espantar: que vós não saibais de onde ele é e me tenha dado a vista! Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada!
Fariseus – Tu nasceste coberto de pecado e dás-nos lições? Põe-te já fora daqui e vai pregar para outro lado, pois não acreditamos em nada do que dizes! És um farsante, um mentiroso, um intrujão, um ignorante a armar-se em doutor da lei!
E puseram-no fora. Pouco tempo depois:
Jesus – Sei que te expulsaram. Diz-me: Tu crês no Filho do Homem?
Cego – E quem é, Senhor, para que eu creia Nele?
Jesus – Tu já O viste! É Aquele que está a falar contigo!
Cego – (Ajoelhando-se) Eu creio, Senhor!
Jesus – Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.
Fariseus – Porventura nós também somos cegos?
Jesus – Se fosseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.

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Observações–
1 . Como se entende esta última frase de Jesus? No sentido em que Ele fala, quem são os cegos e quem são os que vêem? Dito de outro modo: Quem são os que, vendo, são cegos e os que, não vendo, passam a ver?
Tem que se entender, necessariamente, no plano espiritual e doutrinal. Aqui, fala-se de dois tipos de cegos e dois tipos de não cegos. Partindo da cura de um cego físico, porque os seus olhos corporais não viam, Jesus salta para outro plano, outra realidade, referindo-se àquela em que se moviam os fariseus e a outras autoridades religiosas dos Judeus, dando a entender que a cegueira espiritual deles era voluntária, em oposição à cegueira corporal, involuntária, do cego, que não fizera nada para o ser.
2 . A cegueira voluntária dos fariseus consistia em serem espiritualmente tão cegos que recusavam ver, aceitar, reconhecer as obras de Cristo, nomeadamente os seus estrondosos e públicos milagres, pois, se os aceitassem, teriam de ser coerentes e intelectualmente honestos para verem em Cristo o Messias, o que alteraria por completo as suas vidas de “fariseus hipócritas”, como Cristo os chamou. Mas eles e outros preferiam continuar cegos, buscando para isso os necessários argumentos para se autoconvencerem e continuarem na sua cegueira, mesmo à custa de pecado, ao atribuírem os poderes miraculosos de Cristo aos demónios, nomeadamente a Belzebú, caindo assim num pecado contra o Espírito Santo, que, como Cristo também disse, não teria perdão durante a vida nem depois da morte.
3 . Estas atitudes têm implicações medonhas também no nosso tempo! Todos aqueles que abandonaram a Igreja Católica, ou que se recusam a entrar nela, atiram-se /atiraram-se para a multidão dos cegos a que Cristo se referia, porque, em seu orgulho, pensam que vêem, …e dali não passam, mesmo que a Verdade lhes entre pelos olhos dentro. Consolam-se atirando para o caixote do simbolismo tudo o que lhes custa a crer. Pairam na corda bamba, fingindo não acreditar nos precipício à esquerda e à direita. Vejam-se na Bíblia passagens claras, límpidas, irrefutáveis, imutáveis, eternas,…que a soberba e a cegueira humanas se atrevem a pôr em dúvida, a distorcer ou a negar em absoluto, modificando-as a gosto para se tragarem melhor:
. Esta é a Minha Igreja e as portas do Inferno não levarão a melhor sobre ela! ( Igreja única )
. Aquele sobre quem a minha Igreja cair ficará esmagado (Poder de excomunhão)
. Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja – (Instituição do primado de Pedro e seus sucessores como chefias da igreja Única de Cristo)
.Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja… Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu (a Igreja); o que atares na terra será atado no céu e o que desatares na Terra será desatado no Céu (Mt 16,18-19) – (Dogma da infalibilidade pontifícia em matéria de Fé, sacramentos, costumes, indulgências, culto, devoções, imagens, bênçãos etc.)
. Ide…perdoai os pecados! Aqueles a quem os perdoardes ficarão perdoados; aqueles a quem os não perdoardes não ficarão perdoados (Jo 20, 23) – (Sacramento da Penitência ou Confissão sacramental individual, meio ordinário para o perdão dos pecados).
. Isto é o Meu Corpo… que vai ser entregue por vós. …Isto é o Meu Sangue…que vai ser derramado por vós! Fazei isto em memória de Mim!…(Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio da Nova Aliança). Ver, entre outras passagens bíblicas: 1 Cor 11,23-29.
Se quem lê é destes cegos voluntários, aqui lhe fica o exemplo deste cego (não voluntário) de nascença. Entre ou reentre na Igreja Católica, pois ela é a verdadeira piscina de Siloé para todo o tipo de cegueira doutrinal e espiritual. Peça a Deus a cura da cegueira espiritual e doutrinal e, depois, diga como o cego de que se fala: “Eu creio, Senhor”! E a sua vida mudará, passando a ver o que hoje não vê. Não seja daqueles que busca argumentos falsos, como os fariseus deste episódio bíblico, para não acreditar naquilo que entra pelos olhos dentro!

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Ezequiel Miguel

 

 

Nota

A rebelião de Coré (Cf. Números 16 )

(Realidade e Ficção)

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Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –   Meribá (= Disputa)  e Massá  (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan),  Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

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“ Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” ( na Terra Prometida)(Salmo 95/96)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida,  onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel, ocupada entretanto por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números,  do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico e registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido  e meditado sob diversos ângulos por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento dele nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente nos filmes “os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra  prometida , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura , era, e ainda é,  o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo.  Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus  erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida  em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem,  Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé  e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas  de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá  (disputa)e Massá  (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”:

Coré – Olha lá, Moisés!  Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yhaweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés –  “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para  vos honrar perante a comunidade,  entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós  e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio .  Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh  fará conhecer quem é dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante  de Yahweh. Aquele que ele escolher, esse é o homem que lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora,  chamo  aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

Abiram – Eu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne,  sem vinho, sem uvas,  com  água potável só de vez em quando!  De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e  um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste com um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos idiotas, tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui!  Se tu, lá no Egipto foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teu truques, de morrermos  à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram -  Temos saudades das refrescantes  cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados!  Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para  a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda) da Reunião  com Moisés e Aarão”.

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão, afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés  e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH –“ Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui  morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

Lições a tirar:

1. A História de um povo faz-se com Deus ou contra Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar com tantos pormenores e milagres  a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem  pertenceriam,  por direito, esses territórios, onde a paz é árvore que não deita raízes.

Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe-nos muitas vezes à prova, a nossa fé Nele,com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, muitas vezes para nos levar a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.(…)

2. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, sem perguntar a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Ele bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e lá foi, baseado na promessa da protecção de  Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”!  Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!

3.  Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas  que exercem autoridade sobre nós, quer  definitivamente  quer  temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo  S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra  as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.

4. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube,  no quartel, na paróquia, no Movimento da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver um murmurador, seja ele quem for, …afaste-se dele quanto antes,  seja quem for  e seja onde for. Encare-o como um virus mortal e evite-o, se não puder exercer nele a correcção fraterna!

5.  Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz,  para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!

6. Quem despreza um profeta de Deus, despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive, outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo quase todos de perseguições, maus trato, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de que tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição mensagens proféticas teve enormes custos para  Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo o mundo.

7. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências  trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo”. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

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Ezequiel Miguel

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Jesus e a Samaritana (Jo 4, 4-38)

(Realidade & Ficção)

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“Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, que se chama Sicar, junto da herdade que Jacob deu a seu filho José. Ora, havia ali um poço, chamado a fonte de Jacob. Fatigado do caminho, estava Jesus sentado sobre a borda do poço. Era quase a hora sexta” (Jo 4, 5-6)

Cristo : – Vamos parar aqui. Vós ide à cidade e comprai o que é preciso para o almoço.

João – Vamos todos?

Cristo – Sim, João. É bom andardes em grupo.

João –  (Receoso pela segurança do Mestre…)E Tu ficas aqui sozinho? Vê lá! Eles são Samaritanos, inimigos dos Judeus!

Cristo – Não serão piores que os meus inimigos judeus. Ide, fico aqui a rezar por vós e por eles.

Os discípulos saem, um tanto contrariados, hesitantes, olhando para trás, para o Mestre, alimentando alguns receios secretos…Cristo tira o manto da cabeça, senta-se junto ao poço, num muro baixo, coloca o manto sobre o regaço, apoia os cotovelos sobre os joelhos, mãos juntas para a frente e cabeça curvada para o chão. Entretanto, surge uma mulher, de nome Dina, de 30-35 anos, que vem ao poço, trazendo uma ânfora vazia, segurando uma asa com mão esquerda, e com a direita afasta o véu, num gesto de surpresa, para ver o Homem que ali está sentado. Jesus sorri para ela e saúda-a:

CristoA paz esteja contigo, mulher! Podes dar-me de beber? Caminhei muito, estou cansado e com sede.

Dina – Oh! Tu não és Judeu? E pedes-me de beber a mim, que sou Samaritana? Que terá acontecido? Será que já foram feitas as pazes entre nós? Algo de grande aconteceu, se um Judeu fala educadamente com uma Samaritana. Mas eu devia dizer-Te (arrogante e irritada…): Não Te dou água, para castigar em Ti todas as patifarias que os Judeus nos têm feito ao longo  dos séculos! E até teria muito prazer em ver-Te aqui morrer à sede! E não só a Ti, mas a todos os Judeus!

Cristo – Disseste bem! Aconteceu realmente algo de grande, que muitas coisas já mudou e outras vai mudar. Deus ofereceu um grande dom ao mundo. Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz:”Dá-me de beber!”, talvez tu mesma Lhe pedisses de beber e Ele te daria água viva. Então, tu própria te tornarias uma fonte de água viva a jorrar para a vida eterna.

Dina – A água viva está nos lençóis subterrâneos que alimentam este poço, que é nosso (dito em tom zombeteiro, orgulhoso e levando a palma da mão direita ao peito…)! Mas esta água está funda e Tu nem sequer tens com que a tirar. Como é que Tu me podes dar dessa água de que falas? Será que  vais fazer um milagre para a transformar e fazê-la vir cá acima por si mesma? Este poço foi mandado construir por nosso Pai Jacob e não há por aqui outra água como esta. Como é que Tu me vais dar de outra água? Não compreendo!

Cristo – A água é de Deus! É Ele que a dá a todos os Seus Filhos, assim como lhes dá a vida, os alimentos, as árvores, os frutos, a chuva, o sol, o dia, a noite,…Tudo é de um único Deus, mulher, e todos os homens vêm de um único Deus, tanto os Samaritanos como os Judeus. Este poço é de Jacob, como dizes. E Jacob não é a cabeça dos nossos povos? Portanto, temos uma origem comum, apesar de alguém nos ter levado à separação.

Dina –  (Em tom agressivo e irónico). Queres então dizer que a culpa é nossa, não é? Tinha que ser! Nós é que somos os culpados, claro, e vós, os Judeus, os inocentes, os anjinhos puros!…

Cristo – Mulher, Eu não te ofendo nem ofendo a tua raça. Porque és agressiva para Comigo?

Dina – Tu és o primeiro Judeu que ouço falar assim. Os outros…(faz um gesto de repulsa) só valorizam a nossa água e a nossa fonte de Jacob, de água pura, fresca, cristalina. Parece que é a única coisa boa que encontram em nós!

Cristo – Quanto à vossa água maravilhosa, é mesmo como dizes. Mas quem bebe desta água ficará ainda com sede. Eu, porém, tenho uma água viva que, quem a beber não sentirá mais sede. Mas é só minha e sou Eu que a dou a quem ma pedir. E em verdade te digo que quem beber da água que Eu lhe der ficará para sempre coberto de orvalho e não terá mais sede, porque a minha água se tornará nele nascente certa, permanente, constante,  eterna.

Dina – Como é isso? Não entendo nada! És porventura um mago? Como pode um homem transformar-se num poço? Estás a gozar comigo! O camelo bebe e faz a sua reserva de água no seu ventre. Mas depois, consome-a e não lhe dura a vida inteira. E Tu dizes que a Tua água dura para toda a vida?

Cristo – Ainda te digo mais: ela jorrará até à vida eterna e dará frutos de vida eterna, porque é uma fonte de salvação.

Dina –Que bom! Se não estás a brincar comigo ou a sonhar, dá-me dessa água, se é verdade que a possuis. Eu canso-me para vir até aqui buscá-la. Se ma deres, não preciso mais de vir aqui, não terei mais sede e não ficarei doente…nem velha…nem morrerei, uma vez que dá vida eterna! Onde a tens e quanto é que eu preciso de pagar por ela?

Cristo – Não pagarás nada por ela, bebas dela a quantidade que beberes!  Mas…diz-me uma coisa: Só de vir aqui a buscar a água é que te cansas? Não andarás também cansada de outras coisas? Só pensas na água para o teu pobre corpo? Existe algo que é mais importante do que o corpo. Tu já viste que canseiras te custam essas pinturas, essas tranças que o teu fino véu deixa ver, esse vestido listrado e multicolor, apertado na cintura, no peito e nas ancas, tudo para realçar a tua sensualidade provocante e pecaminosa? Pecas tu e fazes outros pecar! Já pensaste que serás responsável pelos teus pecados e por todos aqueles que fizeres cometer a outros? Não te preocupa isso? Já tomaste o peso a essa enorme quantidade de anéis, pulseiras, colares, medalhões de várias formas, brincos que agora mesmo brilham à luz do sol? Pareces uma montra ambulante de pesada joalharia e uma feira ambulante de vaidades! Já viste tantos cuidados que dispensas ao teu corpo, que o Pai do Céu te deu tão bem feito,  alto,  moreno, belo,…para com ele O louvares, Lhe agradecer  e pôr ao  serviço da tua alma? É a tua alma, mulher, que tens de tornar bela! Jacob não deu a si mesmo e aos seus somente a água deste poço, mas preocupou-se em dar a si mesmo e aos outros a santidade, que é a água de Deus.

Dina – ( Deixou de ser petulante e irónica. Apresenta-se submissa, confusa e muda o tom de voz e o assunto da conversa) – Vós dizeis que nós somos pagãos…Se isso for verdade, nós não podemos ser santos…porque só o pecado mora connosco!

Cristo – Um pagão também pode ser virtuoso e Deus, que é justo, o premiará pelo bem que tiver feito. Não será um prémio completo, mas  entre um fiel com culpa grave e um pagão sem culpa, Deus será menos rigoroso para com o pagão. Sabendo vós que sois pagãos, porque não vindes ao Deus verdadeiro? (Cristo olha-a nos olhos, enquanto  espera por uma resposta, que não vem… ) Como te chamas?

Dina – Dina!

Cristo – Pois bem, responde-me, Dina! Tu sentes não poder aspirar à santidade porque és pagã, porque andas nas névoas de um antigo erro, como Eu digo?

Dina – Sim, eu sinto que é mesmo assim como dizes!

Cristo  – Então,… porque não vives como uma pagã virtuosa?

Dina – (Confusa, atrapalhada,  olhos no chão, sem palavras para se desculpar…) Senhor!…

Cristo – Não tens nada a dizer?… Vai chamar o teu marido…e volta aqui com ele!

Dina  – ( A sua confusão aumenta) Eu não tenho marido!…

Cristo  – Disseste bem! Não tens marido! Tiveste já cinco maridos e agora tens um contigo que não é teu marido. A tua religião também não aconselha isso!… Vós também tendes os Mandamentos (Decálogo) dados por Deus a Moisés! Porque, então, Dina, vives assim, mergulhada no pecado? Não te sentes cansada dessa canseira de seres carne prostituída para tantos e não a mulher honesta de um só? Não ficas com medo da tua velhice, quando te encontrares sozinha com as lembranças dos teus pecados, as tuas saudades, os teus medos, os teus pesadelos, os teus remorsos, os teus terrores, os teus fantasmas, a incerteza da justiça divina? Como sabes se acordarás viva cada manhã, cá na Terra? O pensamento, a eventualidade da tua condenação eterna não te dá ânimo para levares uma vida honesta, segundo os Mandamentos?

Dina – Senhor, vejo que és  um Profeta!

Cristo – Mulher, Eu sou mais que Profeta!… Onde estão os teus filhos?

Dina – (Baixa a cabeça, olha para o chão …) Não tenho filhos!

Cristo – Não tens, mas já tiveste!…Não os tens nesta Terra, mas as suas pequenas almas, que tu impediste de verem a luz do dia, acusam-te… (Pausado, mas incisivo…) Sempre jóias,…belos e provocantes vestidos,…casa rica,…mesa farta,…festas,…brincos,…colares,…cintos de ouro e prata,…pulseiras vistosas,… mas tu és uma miserável! Sim, há em ti um enorme vazio, lágrimas e muita miséria interior. És uma desorientada, uma perdida, uma barca à deriva,…apesar do teu falso ar de felicidade! Somente com um arrependimento sincero, através do perdão de Deus e do perdão dos teus filhos, poderás vir a ser rica!

Dina –(Sentindo-se incomodada, semblante atingido pela tristeza, lágrimas a aflorar…)Senhor, eu tenho vergonha! É mesmo como dizes!…(tapa o rosto com as mãos para disfarçar o choro…)

Cristo – E do Pai que está nos Céus, tu não tinhas vergonha quando praticavas o mal? Não chores pela vergonha diante do Homem…Vem aqui, Dina, para mais perto de mim (ela senta-se perto de Cristo). Eu vou falar-te de Deus, que talvez não conheças bem e, por isso, tens feito tanta asneira…Se tivesses conhecido bem o verdadeiro Deus, não terias descido tão baixo, pois Ele te teria falado e amparado.

Dina –(Tentando desviar a conversa) Senhor, os nossos pais adoravam Deus neste monte (Garizim). Vós dizeis que só em Jerusalém é que se deve adorar. Mas Tu dizes: Deus é um só. Ajuda-me a ver onde e como devo fazer!

Cristo – Mulher, crê em Mim! Vai chegar a hora, que já começou, em que nem no monte Garizim, da Samaria, nem no monte Sião, de Jerusalém,  o Pai será adorado. Nós adoramos Aquele que conhecemos, porque a Salvação vem dos Judeus, como vieram também os profetas. Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, não mais com o rito antigo, mas com o novo rito, no qual não haverá sacrifícios e ofertas de animais consumidos pelo fogo, mas Sacrifício eterno da Hóstia Imaculada, queimada pelo Fogo do Amor. Será um culto espiritual do Reino espiritual. Deus é Espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em Espírito e Verdade.

Dina – Tu tens palavras santas, nunca ouvidas por aqui!… Eu sei que está para chegar Aquele que  também é chamado o Cristo. Quando vier, Ele nos ensinará todas as coisas. Também por aqui perto anda aquele que dizem ser o seu Precursor. Muitos vão ouvi-lo, mas ele é tão severo!…Diz coisas terríveis! Só falta que mande cair fogo do céu! …Tu és bondoso,…calmo,…compassivo,…tolerante,…não ameaças, não insultas, não metes medo, dizes palavras que que vão direitas como setas, ao nosso coração. Penso que o Cristo também será assim, como Tu!. Dão-lhe o nome de Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz …( Is 9,5) Ainda falta muito para  Ele vir?

Cristo – Eu já te disse que o tempo Dele já chegou e que Ele já está entre vós.

Dina – Como é que o sabes? És porventura um dos seus discípulos? O Precursor tem muitos discípulos, que depois vão ser discípulos do Cristo.  Quem me dera vê-LO!

Cristo – O que farias, se O visses e te encontrasses em frente Dele?

Dina – Isso seria sonhar! Há tantos anos que foi profetizado e calhar-me a mim essa bênção…nem quero crer! Acho que me ajoelharia a Seus pés e lhos beijaria! Depois, pedia-lhe que me limpasse a alma e me aceitasse ao Seu serviço como a mais ínfima das suas servas! …Mas isso…é sonhar demasiado alto! Como eu seria feliz,… feliz,… feliz!… (Olhando para o céu com ar sonhador…)

Cristo – E como achas que será o Cristo, o Messias?

Dina – Penso que será um Homem alto, bonito, de cabelos louros até aos ombros, de olhos azuis, com uma barba dividida a meio, com uma testa grande e saliente, com um porte real, majestoso, com um olhar vivo, límpido e perscrutador, capaz de ver através do opaco, meigo, bondoso, manso, atraente, de sorriso divinal e fazendo covinhas nas faces quando sorri,…tudo assim como Tu!

Cristo – Dina, olha bem para Mim! … Eu, que estou a falar contigo, sou o Cristo Jesus, o Messias!

Dina –(Levanta-se de repente, em grande confusão, com gestos descontrolados, com cara de medo… e mostrando sinais de querer fugir…) Tu!?…Oh!…

Cristo – Espera aí, mulher! Porque foges de Mim?

Dina – Porque tenho nojo de ficar perto de Ti. Tu és santo!…E eu…Eu também fujo de mim!

Cristo –Confia em Mim! Eu sou o Salvador, Aquele que tira o pecado do Mundo. Eu Vim até aqui porque sabia que a tua alma andava cansada e errante e tu andas enjoada do teu alimento venenoso …Eu vim para dar-te um alimento novo que te tirará as náuseas e o cansaço…Olha, lá vêm os meus discípulos de volta, com pão! Mas Eu já estou alimentado por te ter dado as migalhas iniciais para a tua redenção.

Dina – Senhor, Tu não vieste aqui por acaso!…Ajuda-me! Hoje mesmo vou mudar de vida! Não quererás aceitar-me como uma humilde serva ao Teu serviço?

Cristo – A tua hora chegará! Acompanharás outras mulheres na difusão da mensagem que eu venho trazer ao mundo. Há muitas outras ovelhas como tu que precisam dos nossos cuidados.  Aguarda e a seu tempo chegará a tua oportunidade. Por agora, sê apóstola na tua cidade!

Os discípulos chegam, olham intrigados, de soslaio, meio disfarçadamente, para a mulher, mas nenhum diz nada ou pergunta o que quer que seja ao Mestre. Apenas cochicham entre si e se interrogam mutuamente. Dina afasta-se, deixando no local a ânfora vazia, sem mais pensar na água. Pedro interrompe aquele silêncio embaraçoso:

Pedro – Aqui está, Mestre! Eles (habitantes de Sicar) trataram-nos bem. Eis o queijo, o pão fresco, as azeitonas e as maçãs! Serve-te! Aquela mulher fez bem em deixar a ânfora. Assim guardaremos melhor a água e não precisaremos de pedir mais nada aos Samaritanos… Não comes? Eu quis trazer-te peixe, mas não encontrei. Talvez preferisses o peixe. Mas…tens ares de  cansado e  estás pálido!…

Cristo – Eu tenho um alimento que vós não conheceis. Comerei dele e ficarei bem alimentado.

Os discípulos trocam olhares intrigados e interrogadores, cada um fazendo as suas perguntas mudas e olhando à volta para tentar descobrir algo parecido com alimento… Cristo esclarece:

Cristo – O Meu alimento é fazer a vontade Daquele que Me enviou e levar a bom termo a obra que Me entregou. Eu venho fazer a sementeira do Reino. O semeador sempre se alegra com o fruto da sua sementeira. Assim Eu me alegrarei com a colheita que vós ides fazer quando ceifardes e, pelo vosso trabalho, Eu vos compensarei com o devido salário no Meu Reino eterno. Vós só ceifareis, porque o trabalho mais duro Eu já o terei feito. Quando todo o trigo que Eu tiver semeado for por vós ceifado, então se cumprirá a vontade de Deus e Eu me sentarei para o banquete na Jerusalém celeste. Mas… vamos almoçar, pois não tarda muito que os Samaritanos de Sicar apareçam por aí com a Dina. Sede simpáticos e caridosos para com eles! São almas que vêm à procura de Deus, ovelhas tresmalhadas à procura do Pastor.

E. Miguel

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Jesus no Deserto (Cf. Lc 4, 1-13)

(Realidade e ficção)

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Jesus17Os Evangelhos narram que, ao iniciar a sua vida pública, Jesus foi para o deserto e lá permaneceu em jejum e oração durante 40 dias, no fim dos quais teve fome ( Mt 4, 1-2). No deserto havia concavidades e grutas, umas provocadas pela erosão dos ventos agrestes e outras aumentadas e aperfeiçoadas por pessoas que fugiam à justiça que os perseguia pelos seus crimes ou ainda por quem se aventurava a atravessá-lo. Foi numa dessas grutas que Jesus se estabeleceu para o Seu retiro de 40 dias, que o demónio aproveitou para O tentar, de acordo com a narração evangélica.

Todo o deserto atingiu uma alta temperatura e Jesus, pela hora do meio-dia, está sentado à entrada da gruta, sobre uma pedra que também Lhe serve de travesseira durante as poucas horas de repouso.  A Sua atitude é de quem está em oração, com os braços apoiados sobre os joelhos e o rosto apoiado nas mãos, com os dedos entrelaçados. É nesta posição que um viajante beduíno surge em frente Dele e tenta estabelecer a conversa, depois de ter observado a palidez e a magreza do Senhor:

Viajante – Estás sozinho?… (Silêncio)  Como vieste parar aqui ?… Andas perdido? …(Silêncio) Pareces estar a arder em sede. É pena, porque eu já não tenho água no odre. O meu cavalo morreu e eu vou até ao Jordão, onde poderei beber à vontade e encontrarei alguém que me dê um bocado de pão. Vem comigo até lá! Eu sei o caminho, por isso posso ser o teu guia!

Jesus ouve todas aquelas perguntas, sugestões e convites, mas continua em oração e nem sequer levanta o olhar para o forasteiro, sentado em frente Dele. É este comportamento que leva o forasteiro a dar sinais de que é Satanás, passando a agir como tal:

Satanás – Ah! Afinal és Tu! Há que tempos que ando à Tua procura e agora descobri-Te. Já desde o teu Baptismo que tento observar todos os Teus passos. Agora estás para aí em oração ao Eterno? Ele está longe e Tu estás  abandonado, com fome, sede, calor de dia e frio de noite, pálido, fraco, sem forças para Te aguentares nas pernas…Abandonaste o Céu para vires instalar-Te na Terra, entre os homens, perdido no meio deles. Mas fica sabendo que eu é que reino entre eles e são minhas as leis que regem as suas vidas.

 Eu tenho muita pena de Ti, porque vieste sacrificar-Te em vão, pois eles não irão aproveitar nada do que Tu lhes ensinares. Deixa-os comigo, fala-lhes de dinheiro, de comida, de sexo. Essa é a linguagem que eles entendem. Sacrifício, penitência, arrependimento, dor, obediência às Tuas Leis…isso são tudo palavras sem sentido que para eles não significam nada. Eles são ainda mais estéreis que este deserto e que as suas areias e poeiras. Tu, que és a pura Bondade, o perfeito Amor, não merecias isto! Falo-Te assim, porque eu conheço-os melhor do que Tu. Larga-os da mão e deixa que no fim tenham o que merecem! …Fazes mal em não me dares ouvidos…É a minha sabedoria que governa a Terra, por isso conheço todos os truques e trapaças para singrar na vida. Até posso dar-Te umas lições. Tu és jovem e belo, por isso, deves aproveitar o que todos aproveitam e começar por onde todos começam: a mulher! Tu és o Novo Adão e precisas de uma nova Eva. Precisas de saber o que é a sensualidade, para ficares em condições de curar todo o cortejo de miséria moral de que ela (a sensualidade) é a mãe. Basta que as atraias com ouro e poder e terás quantas quiseres! Só assim saberás o que é a vida e só assim poderás curar as doenças da humanidade. Não viste como eu à Eva prometi Poder, Grandeza, Conhecimento, Endeusamento, Glória, …ser igual a Deus? Viste como ela caiu sem pestanejar? O melhor que podes fazer é casar, pois não foi essa a ordem que destes ao primeiro casal: crescei e multiplicai-vos! Mas…deixemos a mulher, que parece não te atrair, talvez porque as privações de alimento te dêem uma visão ofuscada da realidade!

Olha para estas pedras redondas, lisas, luzidias e douradas à luz do sol. Parecem mesmo pães. Basta que digas, como Filho de Deus, “Faça-se!” e elas convertem-se em pães acabadinhos de sair do forno, perfumados e apetitosos. Se quiseres, também destas acácias esturradas podes colher belas maçãs ou tâmaras com sabor a mel. Tu és o Senhor do Universo e podes tudo, se quiseres. Mas Tu não queres. Estás tão fraco que já nem um milagre a Teu favor és capaz de fazer. Pobre Jesus! Mas se Tu não queres, ajuda-me, dá-me o poder e eu farei um milagre por Ti, para Te servir, porque Tu és o meu Deus, com Quem em tempos eu vivi,…tempos de que tenho imensas saudades! Como eu transmitia luz!…Agora sou um carvão negro!…

Jesus – Cala-te! Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

Satanás – Está bem! Recusas os meus serviços. Mas vem ver o que acontece na Casa de Deus! Vê como todos aceitam aquilo que Tu recusas, até os mais altos…, o que prova que são homens e não anjos. É a eles que me dá prazer fazê-los cair do pedestal…E eles não se fazem muito rogados! Tu sabes isso tão bem como eu e serão eles os Teus maiores inimigos, aqueles que condenarão o Justo…Para esses terás vindo em vão, porque eu os cegarei, de modo a que não vejam em Ti mais que um arruaceiro, um rebelde, um inimigo da Tua própria Casa, um blasfemador, um inimigo de Israel. Tu irás desmascará-los, os santos de Israel, como eles se intitulam (e solta uma estrondosa gargalhada, após a qual os seus olhos deixaram transparecer  um  ódio de morte…), mas Tu vais pagar por isso um alto preço. Ainda por cima, vens lá de Nazaré…e isso é mais uma pedrada de descrédito a Teu desfavor. Até um daqueles que vais escolher dirá de Ti:” De Nazaré poderá vir alguma coisa boa?”. (Jo 1,46). Tenho pena de Ti! Ainda estás a tempo de desistir e evitar o que Te espera.

A Tua Casa, o Templo, que é a glória de Israel, está transformado numa toca de víboras que tentarão morder-Te sempre que lá puseres os pés, porque serás tido por incómodo…Chegaram ao ponto de fazer da Casa de Teu Pai um local de feira, de vendilhões, de ladrões e sabe-se lá que mais! Até mesmo aqueles com o título de mestres, de doutores,…não tirarão partido dos seus estudos, dos seus cálculos, da análise das profecias…e não chegarão a reconhecer-Te como o Messias, porque eles esperam um Messias que os liberte do domínio dos Romanos…Eles já deturparam tudo a respeito do Messias e já calcaram aos pés o Servo de Iahweh (Isaías 9, 1-6), que lhes diz que o Messias profetizado é um Rei Espiritual, Conselheiro-Admirável, Deus-Forte, Pai-Eterno, Príncipe-da-Paz. Eles não verão em Ti mais que um pobre homem pregando uma doutrina subversiva. Por isso, eles Te matarão e da Tua morte muito poucos aproveitarão ao longo dos séculos e dos milénios.

Jesus – Aproveitarão os que estiverem inscritos no Livro da Vida.

Satanás – Mas o meu Livro da Morte terá muitas mais páginas que o Teu Livro da Vida. Se queres mesmo iniciar a Tua vida pública, entra em grande e manifesta logo Quem realmente Tu és, o Filho de Deus, o Executor da vontade do Pai, o Alfa e o Ómega, o Deus omnipotente perante o Qual tudo e todos se vergam, no Céu, na Terra e nos Infernos! Não entres como um pobre, um solitário, um desconhecido, um fraco, um pelintra que não tem sequer onde dormir! Vem comigo até ao pináculo do Templo e lá daquelas alturas mostra a todos o Teu poder, a tua divindade omnipotente, atrai aqueles milhares de visitantes e perante eles faz um milagre, para que todos vejam, ao deitares-Te dali abaixo, que os teus anjos virão proteger-te, para que os teus pés não se magoem lá em baixo, como está escrito num dos Salmos (Sl 90). Logo ali mostrarás que és Deus e todos te seguirão com entusiasmo. Um  acto destes pode valer mais, para a Tua Causa, do que percorrer muitos quilómetros pelas estradas e caminhos da Palestina.

Jesus – Também está escrito: “Não tentarás o Senhor, teu Deus!”.

Satanás – Compreendo que não queiras fazer um milagre para dares nas vistas. Bem vistas as coisas, não converterias ninguém e muito menos os corruptos do Templo, que só uma força vinda de espadas humanas poderá dominar. Tu irás ver, como apesar de fazeres tantos milagres em Israel, curar cegos, coxos, surdos, mudos, paralíticos, ressuscitares mortos,…eles, duros de coração, cegos, surdos, …não aproveitarão nada e Tu vais perder tempo com eles. Até os milagres que vais fazer serão atribuídos a mim…ou dirão que sou eu que Te dou esse poder (larga sonora gargalhada)…Sou eu que os faço descer até essa baixeza. Mas eu queria de Ti algo que me elevaria dos infernos até ao mais alto do trono do Altíssimo: Concede-me, por momentos que seja, todo o poder que tens e adora-me como deus, ajoelhando-Te perante mim! Tu verias aquilo de que eu seria capaz!

Jesus – E que farias com todo esse poder?

Satanás – Nem imaginas! Apagar-se-ia de uma vez por todas esta infinita ânsia de ser igual a Deus, de rivalizar com Ele, de ser adorado, como sempre quis e quererei, porque estes desejos imperiosos me consomem, me derretem, me provocam um sofrimento pior que todos os do inferno juntos. Estas ânsias já me vêm daqueles tempos em que eu me revoltei e quis destronar o Altíssimo ou, pelo menos, ser igual a Ele. Nesses momentos eu me sentiria calmo, glorificado, honrado, divinizado, adorado. Ó momento supremo, pelo qual teria valido lutar durante uma eternidade! Esse momento nunca esteve tão perto, ao alcance da mão. Basta que digas uma palavra e dobres os joelhos perante mim e…já está! Em troca dou-Te todos estes reinos que nos circundam, dos quais eu sou o rei!

Jesus – Está escrito: “ O senhor, teu Deus, adorarás, e somente a Ele prestarás culto”. Mas ainda não me disseste o que farias com esse poder!

Satanás – Porque perguntas? Tu sabes o que eu faria e é por isso que recusas! Ó potências infernais, como seria belo incendiar todas as florestas da Terra, cozer os peixes nos mares em ebulição, assar todos os seres vivos dos continentes, provocar o caos entre os astros e soltá-los das suas órbitas, injectar fogo em todo o universo, subverter as suas leis!… E quanto aos homens que Tu criaste,…caberiam todos no inferno pela eternidade. Mas Tu és Amor e o Amor obriga-te a salvá-los! Que glória a minha em convidar todo o inferno para assistir a esta destruição total e completa, a este festival único, a este fogo de artifício universal, a este regresso à suprema beleza do Caos…e Tu e o Altíssimo a assistirem!…No fim,…Vós tirastes a Criação a partir do Nada e eu voltaria a enterrá-la no Nada. Deste Acto supremo me ficaria a eterna memória de um momento de felicidade! Deixa-me delirar! Sei que não me vais conceder nada do que Te peço, mas entrega-me ao menos, já, as Taças da Ira que um Teu discípulo descreverá no Apocalipse (Ap 16) e eu as verterei sobre a Terra. Porquê adiar o derramamento do seu conteúdo? Entrega-mas e dar-Te-ei a oportunidade de encetares uma Nova Criação, porque esta está por minha conta!

Tu verás as abominações a que estes seres humanos chegarão!…Quantas Sodomas e Gomorras terás à disposição para afundar e queimar pela cólera do Altíssimo! Eles farão a Tua Doutrina em farrapos, virarão os Teus Mandamentos de patas para o ar, decretarão aconselhável e legal qualquer aberração em nome da liberdade, da democracia, da modernidade, dos valores universais, dos direitos humanos, do direito à igualdade, do progresso…Eles  chegarão ao ponto de se casarem eles com eles e elas com elas, desafiando a Tua santa Lei e a Tua Autoridade e  atraindo sorte semelhante à de Sodoma e Gomorra. Eles matar-se-ão em guerras sujas como sempre tem havido e encherão o Limbo de crianças por nascer. Os Teus direitos como Deus e Senhor serão ignorados, calcados aos pés, invertidos e chamar-Te-ão um monstruoso trapalhão por lhes teres dado os incómodos Dez Mandamentos e sobretudo por teres inventado essa coisa abominável de unir um homem e uma mulher para continuarem  a Tua Criação…e vão criticar-Te por não teres logo casado uma Eva com outra Eva e um Adão com outro Adão!…

É por estes seres humanos dotados de inteligência superior e alma imortal, pouco inferiores aos anjos,…mas com comportamentos irracionais,…que vais entregar-Te à morte? O que Te espera é algo ciclópico, de uma grandeza sem limites, de sofrimento indescritível e morte vergonhosa às mãos dos Teus inimigos do Templo, os da Tua Casa, cujos direitos de pisar Te serão negados e da qual Te expulsarão como um anarquista blasfemo!…Tu, o Senhor dos Céus e de todo o Universo!…Ajoelho-me a Teus pés! Concede-me o que Te peço, nem que seja por breves momentos e serei para sempre um Teu fiel servo!…

Jesus – Afasta-te de mim, Satanás!

E Satanás teve que obedecer, deixando no local a sua fumarada negra, a pestilência do cheiro a ódio nos ares e um urro de fazer tremer os rochedos.  Depois, vieram os anjos e serviram Jesus, lançando sobre Ele uma aragem refrescante que fez evaporar o suor que lhe caía da fronte.

Considerações:

1. Daqui se pode concluir que foram o silêncio e a oração as armas com que Jesus jogou neste confronto com Satanás, aliadas à Palavra de Deus, cuja força Satanás não suporta. Satanás apresenta-se sempre com aparência benévola, caritativa, defensora dos interesses da pessoa tentada…tal como no caso de Eva, a quem ele só mostrou vantagens pessoais na desobediência à ordem divina. Este é o seu truque para levar alguém a cair na tentação. Mas os dois caminhos mais usados por Satanás para chegar às almas são os pecados da carne, a sensualidade (pecados contra a castidade) e a gula. Depois de ele dominar o pensamento e o espírito do homem, todo o temor de Deus (receio de ofender a Deus) desaparece e Satanás toma conta da alma, que dificilmente se liberta das suas garras.

2. Outra lição que se tira é aquela que nos permite concluir que com Satanás não se discute, porque pela discussão apenas Deus o vence. No Apocalipse, ele (o Dragão) é descrito como: grande, vermelho, da cor do fogo, com sete cabeças, cada uma com seu diadema ( peça metálica usada pelos reis sobre a fronte, como símbolo da realeza) e dez chifres, símbolo da sua inteligência superior e da sua tremenda força (Ap 12, 1-17).

Satanás é então apresentado também como rei dos sete reinos do Mal, simbolizados pelos sete pecados capitais: soberba, avareza, luxúria, gula, ira, inveja e preguiça. Quanto a ser da cor do fogo…bem se pode dizer que ele vive no fogo, do fogo, para o fogo e o fogo faz sofrer (inferno) e destrói tudo o que puder (nas almas e no resto da Criação). Também é vermelho, da cor do sangue, porque ele é homicida (assassino), por matar a vida divina nas almas e arrastar também os corpos para a eterna condenação.

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Ezequiel Miguel

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Jesus e os Apóstolos visitam Nazaré

(Realidade & ficção)

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Jesus26É primavera. Campos, quintais, árvores, ervas e flores acordam da letargia invernal e sorriem para o sol que ilumina aquela manhã.

Cristo e os Apóstolos dirigem-se para Nazaré com o específico objectivo de visitar a Mãe. Jesus   suspira de ansiedade à medida que os quilómetros da estrada poeirenta vão ficando para trás. Inevitavelmente, Ela torna-se assunto de conversa:

João – Mestre, sabes o que me lembram estas rosas à beira das casas e nestes jardins por onde vamos passando? Lembram-me a Tua Mãe!

Jesus -  Boa lembrança, João! A Minha Mãe é realmente a Rosa das rosas, a Flor das flores, o Jardim dos jardins, a Beleza das belezas, o Perfume dos perfumes,…a Amada do Cântico dos Cânticos.

Pedro – Ela sabe que nós vamos a caminho de Nazaré?

Jesus – Não! Vamos fazer-lhe uma agradável  e dupla surpresa: por vós e por Mim!

Tiago  de Zebedeu– Mestre, às vezes parece-me que, quando Te sentes mais triste, Te vejo lançar suspiros e fico a pensar qual será a verdadeiracausa. São saudades da Tua Mãe?

Jesus – Sim, Tiago! De vez em quando preciso mesmo de apoiar a minha cabeça nos ombros da Minha Mãe. Nesses momentos esqueço as canseiras e outras dificuldades e sinto-Me como se estivesse no Céu, rodeado de anjos a consolarem-Me!  Também sou Homem como vós e preciso da Minha doce Mãe! Oh! Se soubésseis tudo a respeito dela!

Tomé – Há coisas sobre Ela que ninguém conhece?

Jesus – Há e muitas!

Nataniel– Podes dizer-nos qualquer coisa que nós não saibamos?

Jesus – Posso! Desde toda a eternidade Ela foi pensada e preparada para ser a Minha Mãe. Ela é a Nova Eva e Eu sou o Novo Adão. Ambos e em conjunto vamos reparar o que Eva e Adão estragaram. Eles fecharam as portas do paraíso aos homens e nós vamos reabri-las através da maior obra de Deus: a Redenção do género humano.

Judas Iscariotes – Mas, Mestre, como vai ser isso?  Será por meio de milagres?

Jesus – Será por meio do sofrimento que o vosso Mestre e a Minha Mãe levarão a cabo essa tarefa tremenda, num mistério que permanecerá mistério para sempre, porque o homem  não tem capacidade para atingir as suas profundezas.

Judas Tadeu – Nós já vimos que Tu sofres e às vezes até choras, sinal de que sofres com as perseguições, as calúnias, a rejeição da Tua mensagem, etc., mas a Tua Mãe,… Ela também está destinada a sofrer? Como e porquê, se Ela nunca fez mal a ninguém nem faz.

Jesus – Não faz nem fará, porque ela é a “Cheia de Graça”, conforme o anjo Gabriel A saudou. Se é cheia de Graça, Ela não pode pecar. Satanás não se aproximará Dela, pois uma escolta de mil anjos A  honra e A defende de todos os perigos.

Filipe – Mas porque é que Ela é Cheia de Graça? Porque  é Ela diferente de todos os outros homens, que nascem no pecado e estão toda a vida sujeitos ao pecado?

Jesus – Porque, nos planos de Deus, tinha de ser assim. Deus não convive com a mínima sombra do pecado, por isso, Ela foi isenta, por graça especial, das consequências do pecado de Adão e Eva. Ela é a Mulher referida no Génesis, a Mãe que fugiu com o Filho para o deserto, a Mulher que esmaga a cabeça do Dragão, Satanás, exactamente porque o pecado não teve, não tem, nem terá poder sobre Ela.

Tiago de Alfeu – Quer dizer então que Ela não está sujeita às tentações de Satanás! Que mistérios aí vão! Mistérios no Filho, mistérios na Mãe! Mistérios no Céu, Mistérios na Terra!

Jesus – Tens razão, Tiago! Ambos estamos  profetizados nas Escrituras, ambos cumprimos as profecias, ambos nascemos sem pecado, ambos realizamos a redenção pelo sofrimento, ambos amamos os homens ao ponto de aceitarmos o martírio para os salvar.

Simão  – Mas onde está o sofrimento da Tua Mãe? Quem é toda paz, doçura, bondade, sorriso, alegria,…não parece sofrer! E também uma coisa: Se ela não está sujeita ao pecado, também não devia estar sujeita ao sofrimento e à morte, que é o preço do pecado. Aqui está mais um mistério!

Jesus – Parece uma contradição, mas não é!  Lembrais-vos daquilo que o velho Simeão lhe disse quando tinha nos braços aquele Menino que agora é o vosso Mestre?

João – Eu sei o que ele lhe disse: “ Uma espada de dor trespassará o teu coração, porque este Menino está posto para salvação e condenação de muitos em Israel”.

Jesus – Então, aí tendes! Em que consistia, consiste e consistirá essa espada de dor  a atravessar-lhe o coração?

André – Para já, a Tua condenação à morte  pelo Herodes, quando eras Menino. A Tua fuga para o exílio do Egipto,  a sua gravidez miraculosa sem o esposo saber, a pobreza do Teu nascimento em Belém,…

Tiago de Alfeu – E agora, após a morte do meu tio José, seu esposo, a Tua vida pública com tudo o que Te afecta: as dificuldades, a perseguição, os teus inimigos e…qualquer coisa mais que eu agora não digo!…

Judas Iscariotes – Eu sei o que é! Como israelita que é, Ela sofre ao ver o Filho desleixar-se e atrasar-se na restauração do Reino de Israel, pois as Escrituras dizem que o Messias será Rei de Israel.

Jesus – Judas, os teus sonhos virarão pesadelos. Ela sabe que tipo de Rei Eu vou ser, um Rei que, diante Dele se tapa o rosto, como disse o profeta Isaías. É aí que a  espada da dor lhe perfurará o coração ao ver outro Coração perfurado… A seu tempo sabereis mais!  Apesar das prerrogativas que a sua condição de Mãe do Filho do Homem lhe conferem, Ela aceita voluntariamente tudo aquilo que o seu Filho aceita e sofre com tudo o que faz sofrer o Filho, numa união perfeita, completa, permanente, indissolúvel. Agora, vós vedes o seu sorriso, a sua alegria,…mas chegará o tempo em que vereis o seu rosto pálido, lacrimosos, com sulcos de sofrimento que lhe vêm do mais profundo da alma. Nesses dias, apesar de andar permanentemente guardada por uma multidão de anjos invisíveis, Ela sentirá também o abandono do Pai e sofrerá a sua agonia dolorosa em união com o Seu Filho. A espada da dor enterrar-se-á cada vez mais em seu coração até que a profecia de Simeão se cumpra na totalidade. E tudo isto em união com o Filho e pela redenção de todo o género humano. Ela é a mártir voluntária e  vai-lhe ser dado um coração maternal tão grande que nele caberão todos os homens presentes e futuros. Por agora, não digo mais sobre este assunto.

Nataniel – Mas então, Ela é uma mulher única, criada de encomenda para ser Tua Mãe e Tua Co-redentora!

Jesus – É isso, Nataniel! Disseste bem! É mesmo Única, a criatura mais bela, mais pura, mais preciosa criada por Deus, a jóia mais valiosa no anel de Sua Mão.

Tomé – Ehhh! Tudo isso? Então Ela é quase uma deusa!

Jesus- Tomé, não há deuses nem deusas! Isso são invenções humanas para adorar Satanás em suas múltiplas formas. Ela é apenas uma mulher, mas acima de todas as outras mulheres e bendita entre todas elas, as de todas as gerações, como Lhe profetizou Isabel, a mãe do João Baptista.

Filipe – Mas, se Ela é toda pura, concebida sem pecado, não pode pecar,…então Ela é mais um anjo do que uma criatura humana!

Jesus – Em verdade vos digo que a Minha Mãe está acima dos anjos, sejam eles quais forem, em Sua dignidade e santidade. Ela própria será chamada a Rainha dos Anjos, dos Justos, dos Profetas e o Seu trono estará instalado ao lado do trono do Filho. Digo-vos mais: Já toda a corte celeste a conhecia muito tempo antes de Ela ser conhecida, porque Deus A apresentou aos anjos e lhes disse qual seria a Sua missão futura, porque para Deus não há passado. É tudo presente.

Tiago de Alfeu -  Mais outro mistério! Eu cá não tenho cabeça para compreender isso!

Pedro – Não tens tu nem tem ninguém! Mas eu não tenho ciúmes Dela! Nosso é o Filho e nossa será também a Mãe!… Até pareço o Isaías a profetizar (ri).

Jesus – E profetizas bem, Simão de Jonas! Foi o Espírito Santo que te inspirou!

Simão – Então, se Ela nasceu sem pecado, também estará livre da morte, penso eu!

Jesus – E pensas bem, Simão! Ela está realmente livre da morte e da corrupção corporal, mas Ela escolherá passar pela morte,  para em tudo imitar o Filho, que também morrerá às mãos dos seus inimigos…Quanto ao Seu corpo, não terá de esperar pela Ressurreição final. Será levada ao Céu em corpo e alma, pois é ao Céu que ela pertence.

Mateus – Mestre, Tu já deste a entender, mais ou menos, a sorte e a missão de cada um no futuro. Ela também, no futuro, terá uma missão a cumprir, além daquela de ser a Tua Mãe?

Jesus – Ela vai ter uma grande missão. Chegará o tempo em que Ela vos apoiará, aconselhará, orientará, ainda mais do que faz agora. Nos séculos futuros será intercessora entre Mim e os homens. Como Mãe de todos os homens, Ela os atrairá a Mim e Eu A nomearei a Minha principal missionária. Ela terá direitos adquiridos sobre a humanidade, porque também Ela sofreu pela sua redenção. Quando os homens forem esquecendo a Minha mensagem, Ela será a Minha mensageira até eles, para os recuperar e trazê-los a Mim. Como Mãe universal, todos os homens deverão reconhecê-La como tal.

André – E quando é que Tu A nomeias solenemente Mãe de todos os homens?

Jesus – Já não falta muito tempo. Aguardai e vereis!…

Tiago de Zebedeu – Eu tenho uma pergunta atrevida a fazer! Se Tu és o Filho do Pai, Tu és Deus; se Ela é Tua Mãe, Ela é Mãe de Deus; mas Ela também é filha de Deus, porque foi Deus que A criou. Então, Ela é filha e Mãe de Deus: Mas Tu, o João e eu somos também  segundos irmãos (primos)  logo, nós somos segundos irmãos  de Deus; mas como Tu  também és Homem e dizes que todos os homens são filhos de Deus, logo, nós somos todos Teus irmãos; se somos todos Teus irmãos, também teremos todos a mesma Mãe, que será a Tua Mãe. Será isso?

Jesus – Foste brilhante, Tiag! Em curvas e contracurvas foste direito até ao fim! Vedes como todos os homens constituem a família de Deus? Mas, infelizmente, o Meu Inimigo trabalha para a dividir. Quanto a ser da Minha família, todo aquele que cumprir as Minhas palavras e levar outros a cumpri-las, como vós já fazeis e fareis no futuro, será Meu pai, Minha mãe, Meu irmão, Minha irmã, Meu segundo irmão, Minha segunda irmã (prima), Meu tio, Minha tia,…não pela carne, mas pelo Espírito. Estes são os novos parentes que Me tornarão conhecido pelo  Mundo.

Mateus -  Mas eu também tenho uma observação a fazer!  Tu dizes que Ela foi concebida sem pecado. Mas os filhos dos homens não nascem todos em pecado? Como é que Ela foi isenta? Já nasceu de pais isentos ou…como é que Deus a isentou a Ela e não isentou todas as pessoas que já nasceram e nascerão até ao fim do mundo? Isto, para mim, é muito confuso!

Jesus – A Minha santíssima Mãe está envolta em mistério, no qual não podereis penetrar. Pergunto-vos: que tipo de Messias seria Eu, se tivesse nascido de uma mulher comum, isto é, concebida em pecado?

João – Não serias o Messias anunciado pelos profetas, o Filho de Deus. Serias apenas um homem como nós, sujeito ao pecado, às doenças, à morte e  ao regresso ao pó da terra. Não serias Homem-Deus.

Jesus – Falaste bem, João! Já vedes que o Messias tinha de abrir uma excepção no curso normal do nascimento dos homens. Deus é pureza absoluta, por isso, o Seu Filho não podia nascer como nasce o resto dos homens. Por agora, contentai-vos com o pouco que vos digo, porque os desígnios de Deus não estão abertos às mentes humanas.

Judas Tadeu –Eu já sinto a cabeça às voltas, só de tentar compreender o que não consigo compreender. Agora, pergunto eu: O que estará a Tua Mãe a fazer neste momento? Não estará com certeza a preparar o almoço para todos nós, uma vez que não foi avisada!

Jesus – Anda no jardim como abelha de flor em flor, tratando das rosas e louvando a Deus pela beleza multicolor que A rodeia, o que também serve de exemplo para vós. Em tudo e por tudo deveis louvar a Deu, por vos oferecer tantas coisas maravilhosas! É assim o Seu Amor pelos Homens.

Simão – Mestre, eu tenho ainda uma pergunta a fazer!

Jesus – Diz, Simão!

Simão- Está nos Teus planos falar na sinagoga de Nazaré?

Jesus – É claro que está! Não posso perder uma só ocasião na difusão do Reino de Deus.

Simão – E eles vão aceitar a Boa Nova? Eles sempre se habituaram a ver-Te como uma pessoa normal, ignorando a Tua divindade de Messias profetizado! Tenho receio que Te maltratem!

Jesus -  Se Eu te responder, não ficarás muito satisfeito com a resposta!…Mas, para eles recusarem a Boa Nova, eles terão que a ouvir de Mim. Não conheces o provérbio que diz: “Ninguém é profeta na sua terra”?  Sendo assim, metade do que tu queres saber está aí! Será que Eu serei excepção?

 Estamos a chegar. Eu anuncio-Me primeiro, de surpresa, e, pouco depois, a um sinal Meu, apareceis todos e fareis as vossas saudações. Ela ficará agradavelmente surpreendida, dará graças e louvores a Deus e nós com Ela.

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Nota – Aqueles que nós consideramos “primos” eram chamados irmãos, por não haver a palavra apropriada.

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Ezequiel Miguel

Nasceu-vos hoje o Salvador (Lc 2,11)

(Realidade & Ficção)

Personagens:

. Pastores: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaac, Tobias, Jónatas, Daniel, Simeão, João, José, Benjamim.

 . Anjos

. S. José

. Virgem Maria

estrelaNa mesma região (Belém) encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. (Lc 2, 8-12)

Nos arredores de Belém, exactamente no lado oposto da cidade onde se situa a gruta, pernoitam os pastores, com seus rebanhos, que não são todos seus, mas pertencem aos seus patrões, uns dali, outros, de localidades vizinhas. Todas as noites eles se revezavam para que um deles ficasse de vigia. Ficava um sempre de sentinela, não  por medo de fuga das ovelhas, mas por temerem os ladrões de gado.

Não é bem verdade dizer que aquela noite era igual a todas as outras noites, porque ela, por ser mais clara que as outras, por ter um luar mais luminoso que as outras, porque a lua naquela noite requisitara ao sol uma dose extra de luz que tornava os campos não só visíveis, mas até com uma claridade estranha. Esta era a noite…a princesa de todas as noites, a rainha de todas as noites, a mãe de todas as noites, a noite das noites…a noite única, a noite santa, a noite profetizada séculos antes, esperada durante milénios, a noite em que o Plano de Deus iria dar o passo principal para a Redenção da Humanidade caída sob as garras de Satanás. Era a noite cuja memória perdurará pelo tempo até ao fim do Tempo.

A estranha luminosidade da lua, movendo-se entre as nuvens de um céu estrelado, não deixou de chamar a atenção dos pastores que, um após outro, saíram do cabanal que os protegia do frio da noite e todos achavam muito estranho não se poder olhar para a lua sem colocar  uma mão à frente dos olhos, tal como se faz para mirar o sol. Uma lua assim nunca se vira. Enquanto todos olhavam a lua, viram aproximar-se algo luminoso que, ao longe, através dos ares, vinha em sua direcção, até que finalmente chegou perto deles:

Anjo“Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias -Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura”(Lc 2, 10-12).

Coro dos Anjos  (Cantando) – “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens por Ele amados” (Lc 2, 14)

Samuel – Nasceu o Messias!

Todos – Louvado seja para sempre o Deus de Israel, que  já  nos enviou o Desejado das Nações!

Jonas – Prestai atenção! Olhai para as ovelhas!

David – Estão todas agitadas e a balir!

Benjamim – E os cães estão a ladrar e às correrias! Parecem doidos!

Simeão – Escutai! A passarada também perdeu o sono e desatou num estrondoso concerto!

Elias – Olhai o céu! Está além uma estrela nova com um brilho fora do vulgar!

Levi – E parece estar do outro lado de Belém, aqui tão perto, quase sobre as nossas cabeças!

Jónatas – É isso! Toda a natureza se alegra com o nascimento do Messias!  Despachemo-nos e ponhamo-nos a caminho!

Simeão – Quem sabe onde é esse local indicado pelo anjo?

Levi – Eu sei onde é e quem é a Mãe do Messias!

Elias – Ah sim? Conta lá!

Levi – Há poucos dias chegou um casal a casa dos meus patrões a pedir hospedagem, mas os  meus patrões não tinham nenhum espaço disponível para lá ficarem a dormir. A minha patroa  lá arranjou um quartinho para Ela descansar um pouco. Se vós a vísseis! Ela parecia um anjo!

José – Porquê?

Levi -  Porque Ela é ainda muito nova, pouco mais velha que eu, mas estava grávida e não parecia nada preocupada. Toda Ela respirava paz e no seu rosto não havia sinais de ansiedade ou angústia alguma. Ela parecia uma princesa, é muito bonita, de olhar muito meigo, com um sorriso que nunca se esquece e desfazia-se em agradecimentos por qualquer pequeno serviço que se lhe prestasse. Não imaginais como Ela me agradeceu quando eu lhe trouxe uma tigela de leite quente! Lembro-me que o senhor que vinha com ela estava um pouco nervoso e muito preocupado com a falta de condições dignas para o Menino nascer. Ela acalmava-o e dizia-lhe que o Senhor forneceria o necessário e que não seria preciso ninguém para ajudar no parto e que também não teria dores.

Tobias – O quê? Ela disse isso? Mas como é que Ela sabia essas coisas? E como é que Ela sabia que era um Menino e que teria um parto sem dores? Sendo assim, não esperemos encontrá-la  de cama! Mas as mulheres, quando nascem os bebés, ficam de cama dois ou três dias e alguém tem de as ajudar nas lides domésticas!

Samuel – Então, Ela é diferente das outras mulheres, ou não fosse Ela a Mãe do Messias. Tenho cá para mim que não haverá maior dignidade na Terra do que ser a Mãe do Messias. Superior a Ela, só Deus!

Daniel – E se nos deixássemos de conversa, ó teólogos da meia-noite !Vamos embora! Conversamos pelo caminho!

Simeão – Calma aí! E aparecemos lá de mãos vazias? O Menino não é um qualquer! Ouvistes bem que Ele é o Messias, o Cristo, o Senhor! Israel anda há 600 anos a falar Dele e os profetas sabiam bem de Quem falavam.

João – O Simeão diz bem. Que podemos levar-Lhe como presentes?

José – Podemos levar queijo…

Benjamim –  Leite…

Daniel -  Pão, fruta, azeitonas…

Samuel –  Figos secos, tâmaras secas…

Jonas – Eu levo uma pele de ovelha, que vale tanto como  o melhor dos cobertores.

Elias – Eu cá levo uma ovelha!

Todos – Uma ovelha?

Elias – Sim, uma ovelha! Imaginai que a Mãe não tem leite! Como é que o Menino vai sobreviver se a Mãe não tem leite?

Samuel – Não tem leite? Todas as mães dão leite!

Elias – Pois, mas eu  já ouvi dizer que há mães que não têm leite quando os filhos nascem! Ou se o têm, demora a vir! Assim, é fácil levar uma tigela e tirar leite da ovelha. Ela até se sentirá muito honrada com isso. Já vistes que poderá ser a única ovelha a alimentar o Messias? (Ri com gosto ante esta ideia…)

José – Ó rapazinho, isso é uma ideia brilhante! De onde te vem tanta sabedoria, sendo ainda tão jovem?

Jonas – E quem sabe exactamente onde eles estão?

Levi – Eu sei! Aquela estrela deve estar sobre uma gruta que há lá no outro lado da cidade. Eu lembro-me que o senhor (penso que será o seu esposo) disse que iam para uma gruta que ele conhecia bem. Depois, quando pudessem, procurariam uma casa.

Isaac – Eu até já ouvi dizer que essa gruta já existia nos tempos de Abraão.

Tobias – Então, é hora de ir! Estou a ficar impaciente!  Eu levo um cordeirinho branco. Tome cada um o seu presente e vamos! Levemos umas lanternas para o caso de Eles lá não terem luz!

Simeão – Bem pensado!

Todos – Lá vamos a caminho de Belém adorar o Deus-Menino!

Chegados à porta da gruta, surgiu um problema. Como se anunciariam, como entrariam, quem entraria primeiro, quem falaria por todos?

Simeão – Levi, espreita aí, a ver se descobres alguém ou sinais de presença humana.

Levi – (espreitando) Cheira-me a fumo! Deixai-me entrar um pouco, pode ser que… (Arranca umas tossidelas ruidosas…)

Jonas – Vai mais para dentro e vê se descobres alguma luz! Vês alguma coisa ou alguém?

Levi – Espera aí! Há lá dentro muita luz. Parece o sol ao meio dia! E vejo…É Ela!…É Ela!…É Aquela que esteve em casa dos meus patrões…E também o homem que vinha com ela. São eles! Estão ambos curvados sobre uma manjedoura onde um Menino está deitado, tal e qual como disse o anjo. Estão ambos a contemplar o Menino. Ele parece chorar! Se calhar é com fome e com frio! Ele não está a mamar! A Mãe está-lhe a dizer palavrinhas meigas, como só as mães sabem dizer!

Benjamim – O que está Ela a dizer ao Menino?

Levi – Fazei silêncio, de contrário não posso ouvir!…

Maria – Aqui estás Tu, finalmente, ó Filho de Deus feito Homem! Tanto tempo que esperámos por Ti! Agora…quem diria? O Senhor omnipotente aqui a choramingar com frio e fome! Meu Menino, Meu Filho, Meu Amorzinho, Meu Principezinho, meu Reizinho, Meu Senhor, Meu Criador, meu Deus!… Não encontrámos instalações melhores para nasceres! Tu, o Rei do Universo, aqui tão pobrezinho! Mas tens o amor da Tua Mamã e do Teu adoptivo pai para Te compensar. É o melhor que podemos dar-Te!

Daniel – Basta de espiar! Chama em voz alta para que te ouçam ou nunca mais saímos daqui! Além disso, é feio espiar o que os outros fazem ou dizem. Quem tem cara limpa não se esconde!

Levi – Calai-vos! Se soubésseis o que ouvi! Foram as palavras mais doces que um ser humano pode proferir!… Mas eu vou chamar, para ver se aparece alguém!…Quem está aí?… Ó da casa! …Podemos entrar?…

S. José  – (Virando-se, levantando-se e indo até à entrada)  Quem sois vós?

Todos – Somos pastores e viemos adorar o Menino. Trazemos também alguns presentes: alimentos e lã.

S. José – Entrai!

Maria –(Virando-se e sorrindo) Sede bem-vindos! Como soubestes que o Messias já tinha nascido?

Simeão– Foi um anjo que nos disse e nos convidou a vir adorar o Menino. Depois, ouvimos um coro de anjos a cantar: “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na Terra aos homens…”Agora, aqui estamos! E temos presentes para o Menino: pão, queijo, figos secos, tâmaras secas, leite, um cordeirinho, uma pele de ovelha… (Olhando em volta) Falta qualquer coisa! Falta o Elias com a sua ovelha! Ide chamá-lo e que tire já leite quente para dar ao Menino, pois o leite que aí trazeis já está frio!

Maria – Muito obrigado pelos vossos presentes. O Meu Filho vos compensará e um dia Ele voltará aqui para vos agradecer pessoalmente e ainda muito mais, que a seu tempo se revelará.

João – Podemos pedir-vos um grande favor?

S. José – Dizei!

João – Deixais-nos beijar a veste do Menino?

Maria –(Destapando um pé do Menino) Podeis, mas em vez da veste podeis beijar o Seu pèzinho!

E todos, um por um, concretizaram a primeira adoração popular do Menino, que correspondia agitando os pèzinhos. Concentração, lágrimas, sensação de felicidade interior, desejo que aqueles momentos se prolongassem indefinidamente, … Mas tudo termina! Ali nasceu neles o entusiasmo e o veemente desejo de darem a conhecer ao mundo o nascimento do Messias. Cristo acabara de fazer os Seus primeiros discípulos. Mais tarde, trinta anos depois, Cristo procurá-los-ia para lhes agradecer e confirmá-los em sua fé no Messias. Todos eles, aqueles ainda vivos, engrossariam o número dos Seus discípulos fiéis que estariam dispostos a dar a vida por Ele, após terem presenciado a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Nessa altura compreenderiam qual a sorte final do Cordeiro de Deus e a visão profética da Jovem Virgem Maria.

Elias – Eu vou a Hebron dar a notícia aos meus patrões!

Maria – Olha, conheces lá o sacerdote Zacarias, a sua esposa Isabel e o seu menino João?

Elias – Zacarias é aquele que ficou mudo até o menino nascer?

Maria – (Sorrindo ante  a sentença  de Elias)  Então fazes-me um favor? Eles são meus parentes!  Diz-lhes que eu lhes peço para virem até aqui.

Elias – Isso farei com muito gosto! Podes ficar  descansada!

Maria – O Senhor te pague! Sê sempre bonzinho e o Meu Menino te recompensará!

No regresso:

E a visita terminou. Cheios de alegria, encetaram o caminho do regresso, animados, falando pelos cotovelos, comentando, fazendo cálculos, especulando, falando sobre o que sabiam do Messias referido pelos profetas, interrogando-se sobre muita coisa que nós também ainda hoje nos interrogamos, assim como se interrogarão as gerações futuras: se tinha que ser assim, ali, logo de noite, logo num tempo em que não havia lugar nas estalagens, logo naquela pobreza, porque não no palácio de Herodes, porque não na casa deles próprios ou dos seus patrões, etc., etc.

Elias – Vistes para que serviu a minha ovelha?

Jonas – E vistes o que a Mãe fez com a pele de ovelha? Agarrou no Menino,  embrulhou-O nela e Ele logo se calou.

Tobias – E vistes para que serviu o meu cordeirinho branco?

Todos – Para que foi? Não vimos nada de especial!

Tobias – Ah não? Não vistes as carícias que a Mãe fez ao meu cordeirinho? Quando lho ofereci, Ela  desatou a fazer-lhe festinhas e ele olhava para Ela de tal modo que até parecia querer dizer qualquer coisa! Ela olhava ora para o Seu Menino ora para o meu cordeirinho! Agradeceu sorrindo, e, de repente, ficou muito séria, com olhar fixo em alguma coisa invisível…imóvel, sem pestanejar… como se visse alguma coisa má que eu não via e…imaginai lá: eu vi-a a limpar as lágrimas!(Limpando as suas próprias lágrimas)

Todos – Estás a chorar!?…

Tobias- Estou! Ela chorou, enquanto vós estáveis lá entretidos em volta do Menino na manjedoura. Choro também porque tenho muita pena Dela e não posso esquecer aquelas lágrimas que lhe caíram silenciosas pela face abaixo. Ela tentou disfarçar, mas eu vi! Depois, continuando a fazer festinhas ao meu cordeirinho, Ela dizia: O que tu me fazes lembrar, meu lindo cordeirinho!… Depois, enxugou as lágrimas, tentou sorrir e fingiu que estava feliz.

Samuel – Mas então só tu é que viste isso? Porque é que Ela terá chorado? Alguém é capaz de ter uma ideia? Não foi, de certeza, por nossa causa!

Aqui, cada um foi lançando a sua hipótese, que podia ser rejeitada, semi-aceite ou unanimemente aceite como possível.  Uns diziam que era por causa do frio, outros, por falta de uma casa, outros, porque não tinham alimentos nem roupa suficiente, outros, porque tinha muita pena do Menino, o nosso Messias ali tão pobrezinho, quando não faltam palácios em Jerusalém e em Belém. Falou, por fim, Simeão:

Simeão – Cá para mim, Ela relacionou o teu cordeirinho com o Cordeirinho Dela, quer dizer, o Seu Menino. Por isso, Ela olhava ora para um ora para outro, lembrando-se de qualquer coisa relacionada com cordeiros, porque Ela disse que o Seu Menino também era um Cordeirinho. São ambos puros e Ela deve ter-se lembrado do que acontece aos cordeirinhos brancos por altura da Páscoa… Será que Ela não viu o Seu Cordeirinho a verter o Seu Sangue  pelo nosso Povo e por todos os Povos?

Jónatas  – E um profeta não diz que o Servo do Senhor, que é o Messias,  foi levado ao matadouro e que como uma ovelha não abriu a boca (Is 33,5)? Já me lembro: foi Isaías que disse isso! Ela, ao ver a ovelha e o cordeirinho, associou-os à sorte final do Menino. Ela deve saber mais do que nós pensamos, ou não esteja Ela dentro dos segredos que envolvem a vinda do Messias! É o que eu penso!

João – O quê! O Messias ainda agora nasceu e já estais a falar da Sua morte? Calai-vos lá com isso! Hoje é dia de alegria para todo o mundo!

David – Mas o Messias não vem para libertar o nosso povo da pata dos Romanos? Não se diz que Ele é o Libertador e o Salvador que vai restaurar o Reino de Israel? Não percebo! Então…e é preciso morrer para cumprir essa missão? Mas Ele morre ou matam-nO? E se O matam, quem o mata e porquê?

Samuel – Eu já ouvi dizer que Ele será traído por um que se fará passar por Seu amigo. Quanto ao porquê, não sei responder! Se alguém sabe, diga! De qualquer modo, como eu gostaria de pertencer ao seu exército!

David – Eu já me contentava com servir no Palácio Real!

Levi – Eu gostaria de ser general do seu exército!

Elias – E eu gostaria de ser o pajem da Sua Mãe, o servo para todo o serviço!

Isaac – Eu não acredito que o Messias tenha vindo para isso! Ele é chamado o Príncipe da Paz, por isso não pode ser um guerreiro, um general, um conquistador de cidades e reinos.

Tobias – Mas então, se Ele é o Libertador, o Salvador,  de que é que nos liberta e nos salva, afinal?

José – Mas Ele também é chamado Deus Eterno,  Deus Forte, Deus Imortal, Deus Santo, Príncipe Adorável, Conselheiro Admirável, Deus Poderoso, Pai Eterno… (Is 9,6)e outras coisas assim. Ora, se é Deus, só Lhe deve interessar a santidade dos homens e isso tem a ver com o pecado.

Benjamim – A propósito de pecado: Uma vez o Chefe da Sinagoga disse que o Messias viria para abrir as portas do paraíso aos Justos e para estabelecer na Terra um Reino de Paz e  Amor.

David – Se calhar, é isso, porque o profeta Isaías diz que um dia os animais selvagens e os domésticos conviverão sem se comerem e que até uma criança poderá meter a mão na toca da víbora e que os filhotes do leão brincarão com os filhotes das ovelhas e das vaquinhas,…(Is 11, 6-9), mas os animais aqui podem ser os homens. Ora, para os homens se amarem é preciso que eles se sintam todos irmãos e que não se guerreiem uns aos outros. E só num Reino de Amor é que isso é possível. Esse Reino do Amor será o Reino do Messias, pois o profeta Isaías até diz que será mesmo assim, porque as espadas enferrujarão por falta de uso.

Simeão – Eu curvo-me perante tanta sabedoria, ó David! …O David diz que tudo isso tem a ver com o pecado. Eu também assim penso, porque esse profeta, ou outro, também diz que ainda que os nossos pecados sejam vermelhos como o escarlate, eles ficarão mais brancos do que a neve (Is 1,18)). Sendo assim, Ele vem salvar-nos e libertar-nos das consequências do pecado.

Elias – E depois, já se pode pecar à vontade?

Simeão – Não! Era o que faltava! O pecado é inevitável, porque todos os homens são pecadores, mas o Reino do Messias será espiritual e Ele assumirá sobre si todos os pecados da Humanidade e pagará o preço pelas ofensas feitas a Yahweh. Só depois de pagar esse preço é que os Justos do Limbo subirão ao paraíso. Só depois disso os Justos que morrem no Senhor irão também ao paraíso, que, como sabeis, ficou fechado depois do pecado de Adão e Eva.

Isaac – Mas onde é que tu aprendeste essas coisas?

Simeão – Eu tenho um tio que é sacerdote e ele fala-me muito destas coisas e de outras sobre o Messias.

Daniel – Lá em minha casa fala-se muito naquela passagem da Torá onde é dito ao rei Acaz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho que será chamado Emanuel”( Is 7,14),  que quer dizer,…quer dizer…Já não me lembro!”

Jónatas – Deus- connosco, Deus- entre-nós!

Daniel – É isso! Então a tal Virgem é esta donzela! Que sorte nós tivemos em vê-la a Ela e ao Messias, seu Filho! Isto quer dizer que aquele homem não é o pai do Menino, mas finge ser! Nesse caso, quem é o pai do Menino?

Levi – Não é ninguém!

Todos – O quê!!! Como pode ser isso?

Levi – Se o Menino é o Messias, o Messias é Filho de Deus; se é o Filho de Deus, também é Deus e ninguém pode ser o pai de Deus. Neste caso, o Pai do Filho de Deus é o próprio Deus! Porque ninguém que seja filho de um homem pode ser Deus. Isto quer dizer que o Messias foi gerado pelo próprio Deus no seio daquela Virgem e nesse caso….

Tobias – Ah! Agora percebo porque é que Ela disse que não teria dores de parto e também agora percebo porque é que Ela, após o Menino nascer, não ficou de cama como as outras mulheres e anda por ali como se não tivesse havido parto nenhum! Pois é! Agora percebo! Isto foi e é tudo obra do próprio Yahweh!

 Quer então dizer que o Seu marido,…isto é, o seu esposo, porque Ela tratou-o por “esposo”…Sendo assim,…ainda tem de haver mais! Se Ela é Virgem, o seu esposo também é! Sei lá, devem ter feito ambos voto de virgindade para toda a vida. Assim, têm de ser verdadeiros esposos, porque…senão …Ela era condenada à morte. E o Seu esposo deve ser apenas o guarda do Messias e o Seu pai adoptivo, tudo para não levantar suspeitas. Não pode ser de outra maneira. Quem penetra nos mistérios do Deus Altíssimo?

Samuel – Ó rapaz, pareces um profeta! Em que trapalhadas filosóficas e teológicas nos meteste! Um dia Ele e Sua Mãe vão-nos explicar tudo isso. Por agora, alegremo-nos e louvemos o Senhor! Mas antes, tenho que vos colocar uma questão: Qual foi o profeta que anunciou que o Messias nasceria em Belém de Judá? Aguardo a resposta certa!… Então, ninguém arrisca?…Então eu digo: Foi o profeta Miqueias.

Simeão – O que é que ele disse exactamente?

Samuel – Disse: “Mas tu, (Belém) Éfrata, embora a menor das cidades de Judá, de ti sairá para mim Aquele que dominará em Israel” (Miq 5, 1)

Levi – Mas eu ainda tenho uma coisa a dizer, uma coisa que se passou comigo quando estava a beijar o pèzinho do Menino.

Todos – O que foi? O que foi?

Levi– Não sei se diga! Ides dizer que estou maluco! Posso enganar-me, porque não sei se foi real ou se foi apenas uma impressão estranha. Pareceu-me ter uma visão diferente do Menino. É que, enquanto Ele chorava, eu vi-O sorrir para mim!… Pronto, já disse! Já podeis chamar-me maluco!

Todos (um por um): Olha, comigo aconteceu a mesma coisa!

Jonas – Eu só não falei porque,…mas então aconteceu o mesmo convosco! Que maravilha!

Daniel – Foi isso mesmo! Somos todos malucos! Ele sorriu para nós! Nós somos os seus primeiros amigos! Glória a Deus e ao nosso Messias pelos séculos dos séculos!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

João – Eu tenho ainda uma coisa a perguntar ao Elias. Tu disseste que ias a Hebron dar a notícia àquela  Sua parente, de nome Isabel?

Elias – Disse e vou cumprir o mais rápido possível. Aliás, há aqui qualquer coisa que se me escapa. Parece haver coincidências a mais! Essa Isabel…faz-me cá confusão!

Todos – Conta! Conta!

Elias – É assim! Há lá em Hebron um casal já muito idoso que conseguiu ter um filho, que tem agora uns quinze meses, por aí,  e lá todos comentam que não sabem como é que isso aconteceu, pois naquela idade, a tal Isabel já não podia engravidar. Para mais, ela sempre foi considerada estéril. O marido é o sacerdote Zacarias e também já é muito velho. Mas dizem por lá que um anjo lhes anunciou um filho, e que ele, por ter duvidado do anjo, ficou mudo até o menino nascer. Esse menino chama-se João.

José – É tudo muito estranho! O Messias foi concebido milagrosamente por Yahweh no seio de uma Virgem,  o Joãozinho foi profetizado também e também milagrosamente foi concebido por um casal estéril. Para mais, da mesma família!

Daniel – Será que ambos os nascimentos não estarão intimamente relacionados? E porque é que o Joãozinho nasceu primeiro que o Messias?

Jónatas – Porque tinha de ser!

João – Explica-te!

Jónatas – Eu sei lá explicar isso! Mas um dia ouvi um Chefe de Sinagoga dizer que um mensageiro iria à frente do Messias a preparar o seu caminho (Malaquias 3,1). Só não sei como é que ele explicou o resto. Já não me lembro! Ele disse que isso tinha sido escrito por um profeta, que também já não sei qual foi!

David – Então, se assim é, isso deve demorar para aí uns 20 ou trinta anos! Será que ainda estaremos todos vivos nessa altura? Assim, já sabemos! Quando ouvirmos  o  mensageiro João, saberemos que o Messias vai também entrar em acção! Quem me dera viver até lá!

Jonas–  Egoísta! Diz antes: Quem nos dera a todos viver até lá! A Mãe disse que um dia Ele nos retribuiria a visita!

Todos – Assim o esperamos! Louvado seja o Senhor, Deus de Israel! (1)

Elias – Mas eu ainda tenho uma coisa para dizer! Vós vistes lá alguma candeia ou lanterna a dar luz?

Todos – Não!

Elias – Então, de onde vinha toda aquela luz, se não havia nenhuma fonte de luz?

Todos – Bem visto! Quem sabe, diga!

Simeão – Era a própria Luz do Menino, uma vez que Ele é Deus! E agora pergunto eu: O Levi disse, quando estava lá a espreitar, que cheirava a fumo. Alguém cheirou o fumo lá dentro?

Todos – Não!

Simeão – Então, foram os presentes que o Menino nos ofereceu em troca dos nossos! Glória a Deus nos Céus e paz na Terra aos homens!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

E a conversa continuou animada até ao telheiro onde se protegiam do frio e mantinham vigilância sobre os rebanhos.

“E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito” (Lc 2, 20)

(1) Uma das primeiras preocupações de Jesus, quando começou a sua vida pública, foi mesmo ir até Belém e contactar os pastores ainda vivos. Todos eles viveram na expectativa de voltar a encontrá-Lo, mas para alguns (poucos)isso já não foi possível. Os outros tiveram a felicidade de O reencontrar e de se tornarem Seus discípulos.

 .

Ezequiel Miguel

As razões do filho pródigo – I

(Confira: Lucas 15,11-32)

 .

 ( Realidade & ficção)

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“Como é infame aquele que abandona o seu pai e como é amaldiçoado por Deus o que irrita a sua mãe” (Eclesiástico 3, 18)

Personagens: Pai e filho mais novo

paiefilho“Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde”.  E o pai repartiu entre os dois os seus bens…Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua …” (Lc 15, 11-13)

Não lhe faltava nada, tudo lhe corria bem. Tinha um pai rico, bondoso, compreensivo, tolerante, e um irmão trabalhador e honesto que não lhe causava qualquer complicação. Tinha tudo para uma vida calma numa casa e numa família sem problemas.

Mas há sempre um mas. Um dia,  surgiram, neste ambiente monotonamente feliz, umas  ideias que começaram a engrossar na cabeça deste filho pródigo e tanto engrossaram que, qual árvore já com raízes bem fixadas na terra, começaram a lançar ramagens e frutos, enquanto cresciam, cresciam…Finalmente, o filho mais novo deste pai, chamando-o de parte ,  expôs-lhe o que precisava de lhe  expor:

Filho  – Pai, tenho uma coisa a propor-te! Há já muito tempo que tenho na cabeça uma ideia que sempre receei expor-te, porque não vais, certamente, gostar dela. Não sei bem como começar! Não queria magoar-te, mas…

Pai – Filho, eu sempre vos estimulei a serdes francos, leais e sinceros para comigo e sempre estive disposto a ajudar-vos a resolver qualquer problema que vos afecte, pois os vossos problemas são os meus problemas e a vossa felicidade é também a minha felicidade. Por isso,…aguardo que me contes o motivo das tuas preocupações.

Filho – Custa-me dizer, mas tem que ser! Desde já peço perdão para o meu atrevimento. É que…não sei bem por onde começar! Eu… não é que me sinta mal na tua casa, mas eu queria experimentar uma nova maneira de viver, menos monótona, menos rotineira, mais independente, mais livre,  mais adulta, mais capaz de me fazer crescer como jovem e como homem,  gerindo a minha liberdade mais responsavelmente…

Pai – Mas, filho, tu sentes-te um escravo na minha casa? Eu nunca te obriguei a nada! Apenas vos tenho dito que a vida, em qualquer circunstância, está sujeita a regras que o bom senso e a educação dos filhos exigem. Eu só  quero preparar-vos para a vida e ensinar-vos aquilo que deveis aprender para serdes homens justos, trabalhadores, respeitadores, conscientes, responsáveis… Vê como o teu irmão trabalha! Eu não preciso de lhe dar ordens para ele fazer o que deve fazer. Apenas  me limito a dar-lhe conselhos quando ele mos pede!

Filho  – Pois é, pai, mas eu sempre tenho de te pedir dinheiro para satisfazer algum capricho ou comprar aquilo de que preciso. Além disso, também preciso de me divertir com os meus amigos e amigas e eu já me envergonho de te pedir dinheiro tantas vezes!

Pai – Filho, mas eu alguma vez de neguei o dinheiro que me vais pedindo? Até é a maneira de irmos conversando um com o outro e permutar confidências entre nós, pois filhos e pais precisam de conversar, para quebrar a possível frieza que se vai instalando e alimentar o amor filial e paternal.

Filho  – Pois é!…Mas , se  eu tivesse dinheiro suficiente, eu não andava sempre a pedir-te cada vez que preciso dele.

Pai – Diz-me, filho, quanto achas que precisas por mês? Eu posso conceder-te uma mesada fixa para os teus gastos, mesada essa que tu poderás gerir a teu gosto e assim já não terás que te humilhar a pedir-me, se essa é a causa do teu problema. A minha riqueza é suficientemente grande para eu não precisar de andar a fazer contas contigo. Diz só: Quanto queres mensalmente?

Filho  – Pois!…Mas, assim, criava-se outro problema. Se me desses uma mesada a mim, terias de dar outra mesada ao meu irmão, para seres justo!

Pai – Para mim isso não é problema. Vai ter com o teu irmão e discute com ele esse assunto!

Filho  – Para quê? Para que é que ele precisa de dinheiro?  Ele nem o sabe gastar!  Ele só quer trabalho, não se diverte, não reivindica nada, é um paz de alma enervante!…Nem sequer  consegue enervar-se quando eu discordo dele e ele discorda de mim! Para ele está tudo sempre bem! Ele não tem ambições e, quando morrer, vai morrer podre de rico. Eu sou diferente, tenho sangue na guelra e preciso de mudar de ambientes. Esta pacatez  enjoa-me! Por isso, tenho uma ideia a propor-te:  Dá-me a parte da herança que me pertence e eu sei o que fazer com ela!

Pai – Estás a falar a sério, filho? Nunca pensei ouvir isto de um filho meu, ao qual eu tenho dispensado, com alegria e entusiasmo, tudo o que ele precisa! Quanto ao teu irmão, a experiência mostra-me que ele é sério, trabalhador, amoroso, obediente…embora o seu feitio calmo não seja de molde a preocupar-se  com muitas coisas. Sois diferentes, mas, bem vistas as coisas, todos os homens são diferentes uns dos outros.

Filho – Sim, pai!… É isso mesmo que eu te peço! Vende a parte da minha herança e entrega-ma em dinheiro vivo! Se me amas de verdade, não poderás recusar o que te peço!

Pai – E depois, o que farás com esse dinheiro? Ficas por cá, continuas a viver na minha casa ou…?

Filho – Logo que me dês o dinheiro, partirei para longe! Quero viver a vida e satisfazer a minha ambição de liberdade e felicidade. Trabalhar já não será comigo, pois esse dinheiro será suficiente para viver desafogado sem a humilhação de pedir aquilo a que tenho direito…

Pai (limpando as lágrimas) – Ó filho, filho, o que vais fazer! Tu magoas-me, ofendes-me, entristeces-me…porque prevejo que vais ser um infeliz, um pedinte, um miserável, um órfão, um rejeitado pela sociedade, um…Pensas que é humilhante pedir-me o que precisas, mas vais ter que te humilhar para esmolar o teu sustento diário a outros, que to negarão. Passarás fome e miséria quando na casa de teu pai até os servos têm tudo em abundância…

Filho – Não será bem assim! Eu já tenho idade para gerir a minha vida como me apetecer, sem que ninguém exerça qualquer autoridade sobre mim. Os tempos agora são outros! Os pais são como os outros progenitores. Cumprem a sua missão e depois  chega o tempo de os filhos saírem do ninho e voarem  livremente no espaço infindo da vida. É esse o meu caso!

Pai – Se não posso demover-te de um passo errado, respeitarei a tua liberdade e o modo como vais servir-te dela.  Aguarda que eu possa satisfazer as tuas pretensões. Preciso de fazer contas e vender a tua herança. Depois, …recebê-la-ás em dinheiro! De qualquer modo, se  entretanto mudares de ideias, comunica-me!

Avaliada a herança, contas feitas, dinheiro no bolso, o pai chamou o filho mais novo:

Pai – Aqui está o dinheiro correspondente à tua herança!  Continuas firme na tua decisão de abandonar a casa do teu pai?

Filho – Sim, pai! Já decidi e está decidido. Não volto atrás!

Pai – Então, aqui tens esta bolsa com o dinheiro que te pertence!  Aproveito para te perguntar: E depois, quando o dinheiro acabar?

Filho – Eu sei geri-lo de modo a nunca acabar. Vou comprar e vender, aumentando assim o meu capital. Não quero mais saber desta estúpida vida  de vigiar os servos, transmitir-lhes os teus recados,  transmitir-te os deles, …e nem sequer tenho um salário para gastar a meu gosto!…Vais ver que ainda me vou tornar mais rico e tu não te envergonharás de mim!

Pai – Oxalá seja assim!…Então, filho,  não te vou dizer que espero que sejas feliz, porque… não vais ser! Em qualquer dos casos, se a vida te correr mal,…eu ficarei à tua espera todos os dias e, se decidires voltar para casa, eu cá estarei para te receber com o mesmo amor de sempre e até com mais, porque tu irás precisar de uma dose maior. Um pai é sempre pai e um filho é sempre filho!  Despede-te do teu irmão e depois…vem despedir-te de mim!

Filho – Despedir-me do meu irmão? Para quê? Ele nunca simpatizou comigo!

Pai – Filho, tu também sempre foste agressivo para com ele e também nunca apreciaste as suas qualidades. Sabes que o mal que se faz aos outros recai sobre quem o pratica. Mas agora, pelo que vejo, ficas contente por te veres livre dele!… E dos meus fiéis servos, não te despedes?

Filho – Não! Não vão eles tentar demover-me dos meus propósitos e desatar para ali a choramingar como se me vissem partir num caixão! Assim, quando o souberem, já estarei longe. Despeço-me de ti  e lamento magoar-te, mas o que tem de ser tem de ser! Adeus, pai!

Pai – Adeus, filho!

A partida foi selada pelo pai  com um efusivo ósculo e um apertado e lacrimoso abraço…

E o filho lá se foi, garbosamente montado no seu fogoso cavalo, enquanto o pai subia ao ponto mais alto da sua casa para o seguir com o olhar. Ele o foi seguindo, seguindo… até que uma curva do caminho o escondeu a seus olhos. O coração apertado pelo alicate da mágoa e da angústia era o memorial de uma tragédia não merecida, por parte de um filho a quem só prodigalizara favores e puro amor paternal. Uma planta ficara plantada no âmago do seu coração: a planta da saudade, que iria crescer até não se sabia quando…

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(Continua)

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Ezequiel Miguel

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Quem será o maior no Reino dos Céus ?

“Se não voltardes a ser como as criancinhas, não podereis entrar no Reino do Céu. …Quem se fizer como este menino, será o maior no Reino do Céu” (Mt 18, 3-4)

. “Todo aquele que se humilhar será exaltado e todo aquele que se exaltar será humilhado” (Lc  14, 11)

(Realidade & ficção)

Personagens :

. Jesus Cristo

. Apóstolos

Local da cena: No caminho para Cafarnaúm

A pouco e pouco, a conversa entre os Apóstolos tomou um rumo interessante para todos. A questão surgiu quando  Judas lançou para o ar a pergunta: “Quem de nós será o maior no reino do Mestre, quando Ele restaurar o reino de Israel”? Um após outro, à medida que iam caminhando  para Cafarnaúm, iam ficando para trás,  a uma  distância de segurança do Mestre, para que Ele não se apercebesse da conversa. Jesus acabou por ficar isolado e caminhar em silêncio à frente de todos.

Judas Iscariotes – Há uma questão que me preocupa e que  eu queria agora pôr: “ Quem de nós será o maior no reino do Mestre?”

Mateus -  Eu cá não sei! Se tu perguntasses como se podem cobrar impostos e meter algum no bolso, sem ninguém dar por isso, nem sequer os romanos…, eu dizia-te quem era o maior. Eu não tenho motivos para ambicionar uma glória dessas. Já me contento com seguir o Mestre e agradecer-Lhe humildemente o que Ele tem feito por mim. No Seu reino eu  não me importo de ser o guarda de um portão.

Simão de Jonas (Pedro )– O maior eu não serei, de certeza! Se no reino do Mestre Ele me encarregar de ter sempre peixe fresco em casa e de cuidar das redes rotas, eu cá sou capaz de valer alguma coisa. Quanto ao resto, não tenho jeito para mais nada. Nem sequer sou capaz de fazer um discurso, pois o que Ele nos ensina num dia, no dia seguinte eu já não me lembro de nada! Vede lá vós como o Mestre ficava mal com um ministro como eu! Podia talvez nomear-me comandante de uma esquadra de navios de pesca…Não dou para mais!

Tomé – Eu,…se Ele constituísse umas oficinas para trabalhar o ouro, ainda poderia servir para alguma coisa, mas,  mais do que isso…Não tenho cultura profana nem religiosa para ir mais além do que isto. Por isso, nem sentado com Ele à direita ou à esquerda. Eu só fico bem cá no fundo,  no lugar próprio de um Zé-Ninguém! E quanto a eu ser o maior, não acredito que o venha a ser!   Só vendo! Eu cá sou assim: ver para crer! Talvez o Tiago e o João  venham a ser os maiores, uma vez que são primos do Mestre. Além disso, a mãe deles já tentou meter uma cunha ao Mestre a favor deles,  solicitando o especial  favor de um se sentar à direita e o outro à esquerda, no reino do Mestre! As cunhas são um instrumento muito importante, mas não funcionam com o Mestre, que não se deixa corromper…

Simão (Zelote)– As mães são assim! Querem o melhor para os filhos, mas, neste caso, ninguém tem nada garantido. Eu fui leproso,  o Mestre curou-me e convidou-me para andar com Ele. Essa coisa de ser o maior ou o mais pequeno não me diz nada. Eu sempre fui  um zero à esquerda na sociedade, por isso, estou habituado ao último lugar e fico bem contente se me for concedido o último lugar, nem que seja a varrer o palácio real. Cá para mim, penso que o primeiro lugar vai ser concedido ao João, pois o Mestre tem por ele um carinho especial.

Judas Tadeu -  Eu também me contento com ser o último. Mas eu penso que o Mestre vai pregar a todos uma partida, porque nós nunca adivinhamos o que Lhe vai na cabeça e  que vem a seguir. Quando pensamos que Ele vai por aqui, Ele vai por ali. Quando pensamos que vai por um caminho, vai por outro; quando pensamos que vai mandar fogo do céu para castigar aqueles que nos apedrejam,…Ele diz que temos de perdoar,  etc.  Sendo assim, o maior vai ser quem nós menos pensamos! Mas é melhor perguntardes ao meu irmão Tiago.

Tiago (de Alfeu)–  (Um tanto exaltado e pensando em Judas Iscariotes) Quem nós menos pensamos?  Nem pensar! Só faltava essa! … Eu acho que isto que estamos a discutir não tem sentido, porque no reino do Mestre serão grandes  todos aqueles que cumprirem as Suas palavras. Por isso, esta conversa é um disparate.

Judas de Simão ( Iscariotes) – Fala mais baixo, que o Mestre pode ouvir!

Bartolomeu  (Nataniel) – O Mestre pode ouvir? O Mestre não precisa de ouvir! Ele sabe tudo o que cada um diz e até mesmo antes de o dizer! Por isso, é melhor acabarmos com este  palavreado. Cá para mim, Ele vai passar-nos uma saribanda por nos entretermos com coisas tão banais, próprias de pagãos.

Filipe  – Por essas e por outras, eu cá não serei o maior. Contento-me com ser o mais pequeno. Candidato-me a cozinheiro do palácio real ou ao cargo de grelhador de peixe para o almoço e para o jantar.

Tiago (de Zebedeu)– Bem, não sendo eu o maior, digo que o maior vai ser o Pedro. Lembrais-vos que o Mestre, quando o escolheu, lhe disse que iria ser pescador de homens?  Ora, somente a ele é que o Mestre disse tal coisa! Além disso, o Mestre escolhe-o sempre para ocasiões especiais, juntamente comigo e com o meu irmão João. E não esqueçais que o Mestre já lhe disse que ele seria a Pedra sobre a qual Ele fundaria a Sua Igreja. Logo, eu penso que ele será o maior! Que pensas tu, André, que és irmão do Simão Pedro?

André – Não sei! Não penso nada! O meu irmão é uma pessoa humilde, sincera, recta,  alegre, não finge, tem o coração ao pé da boca, é leal, tolerante, paciente, excepto com o Judas, cheio de humor, embora um pouco impetuoso,  mas…não posso dizer nada! Será melhor perguntardes ao Mestre quem  de entre nós será o maior. Eu não serei, com certeza, mas, se ele for o maior, eu não  terei inveja dele!  Que dizes tu, João?

João – O Mestre já nos disse muitas vezes que os esquemas humanos quase nunca coincidem com os esquemas de Deus, porque, segundo está escrito, Deus diz que os nossos pensamentos não são os seus pensamentos e que o homem nunca penetra nos Seus santos desígnios.  Daí, nós não compreendermos os critérios de Deus quando queremos julgá-Lo pela Sua maneira de agir entre os homens. Mas, quanto a ser o maior, eu só terei resposta se me perguntardes qual de entre nós será o menor. Esse seria eu, porque sou o mais novo, o mais inexperiente, o menos santo de todos. Mas eu tenho cá para mim que o Mestre nos dará a resposta que merecemos com esta discussão idiota,  pouco digna de discípulos Seus. Quem  for escolhido para o Seu Reino terá necessariamente de ser grande, …mas em coisas pequenas!  A resposta final deve ser dada pelo Judas de Simão (Iscariotes), que lançou a pergunta para o ar. Judas, aguardamos a tua resposta!

Judas Iscariotes – (Desapontado…)  Afinal, falastes, falastes, mas não dissestes nada de concreto! Quando o Mestre restaurar o Reino de Israel, Ele vai precisar de ministros e altos funcionários para governar. Pelo que vejo, não será convosco que Ele vai poder contar, porque nenhum de vós se revelou capaz de ocupar um cargo importante no governo e na administração. Com essa falta de ambição, não sereis mais que uns obstáculos!  Eu espero que Ele me convide para Seu ministro ou, em alternativa, para comandante do exército de Israel que irá expulsar estes malditos romanos que ocupam a nossa terra. Perguntareis: Porquê eu? É por demais óbvio! Porque sou o mais nacionalista, o mais culto,  o que tenho o sangue mais quente nas veias, porque odeio os romanos, porque estudei no Templo e tenho lá amigos influentes, com os quais posso contar e que estão dispostos a dar o seu contributo para acabar com esta ocupação humilhante.

Afinal, nenhum de vós serve para nada! Não será convosco que o reino de Israel será  restaurado. Se o Mestre é o Messias, o Príncipe, o Rei, o Libertador,…como está escrito e Ele confirma, Ele tem uma missão a cumprir, como está também escrito. Só que, quando lhe falamos neste assunto, Ele finta-nos e vem sempre com aquela de Ele ser um Rei espiritual, sem território, sem armas, sem exército, sem nada! Será com os cegos, os coxos, os  surdos, os mudos, os paralíticos, os leprosos, os cobradores de impostos, as prostitutas e outros…que Ele tenciona restaurar o reino de Israel? Não há quem lhe tire essa mania. Já expliquei isto  aos Seus familiares, mas eles dizem que não podem fazer nada, porque Ele não os ouve.

Simão Pedro – Basta aí, ó profeta de Belzebú! Já vimos onde queres chegar. E se não tivéssemos visto agora, já teríamos visto há muito tempo. O que dizes no presente confirma o que fizeste no passado. E agora, silêncio, que o Mestre abrandou o passo e  está a ficar perto de nós.

De repente, a discussão acabou, caminhando, uns, em silêncio, e outros, apenas cochichando, na convicção de que o Mestre não ouviria…Finalmente, chegaram a Cafarnaúm. Quando entraram em casa, Jesus perguntou:

Jesus – O que vínheis a discutir pelo caminho?

Enquanto esperava por uma resposta, uma justificação, um argumento válido, convincente ou não, Jesus percorreu-os a todos com  o Seu olhar penetrante, esperando a resposta que não veio da boca de nenhum dos Apóstolo, os quais, de cabeça baixa e olhando de soslaio uns para os outros, iam admitindo a sua culpa silenciosa. Jesus quebrou o silêncio com esta solene advertência:

Jesus “Sabeis que os chefes das nações as governam como seus senhores e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário, quem, entre vós, quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão” ( Mt 20,25-28).

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Ezequiel Miguel

Jesus, alvo de tentativa de rapto

(Realidade & ficção

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Personagens – Jesus e os Seus Apóstolos

Local da cena: O caminho de Jerusalém ao Jardim das Oliveiras

Situação no tempo : entre as 22.00 e as 23.00 horas de 5ª Feira Santa

conspiraçãoA Ceia da despedida já ficara para trás, juntamente com os episódios  lá ocorridos: o convívio, as últimas recomendações de Jesus, a instituição da Eucaristia, a Comunhão sacrílega de Judas, o lava-pés aos apóstolos, a ordenação sacerdotal e episcopal de Pedro e João por Jesus , que por sua vez ordenaram os outros apóstolos, incluindo Judas.

Agora, aproximava-se uma nova etapa, a mais difícil e dolorosa da Redenção. Chegara a hora tantas vezes anunciada por Jesus, mas nunca compreendida e aceite pelos Apóstolos.  Agora, em total silêncio,  Jesus e os onze Apóstolos já caminhavam em direcção ao Jardim das Oliveiras, mas na cabeça de todos estava ainda fresca a saída misteriosa de Judas, que já tinha sido diagnosticada como um passo mais para a traição ao Mestre e a eles.

Mas o silêncio total foi pouco a pouco interrompido por cochichos, murmúrios, movimentações cautelosas entre os Apóstolos, tal como se faz quando se prepara uma conspiração ou uma emboscada. A ideia de que se encontravam ali como se fossem para um funeral de Alguém que ainda não morrera começou a cruzar as mentes e a despertá-las para tentar travar aquele processo de uma comitiva a prestar honras a um Condenado à morte que ia ser executado.

Jesus caminhava à frente, em absoluto silêncio, pois o que tinha para dizer já o dissera. Em termos modernos e desportivos diríamos que Ele se ia mentalizando para aguentar o embate que estava próximo: a Sua Agonia. Cá atrás, a alguma distância, para que o Mestre não desse conta, uma ideia surgiu e começou a crescer na cabeça de Pedro, ideia não trabalhada nem polida, como era seu apanágio:

Pedro – Ouvi lá! Então, nós vamos tolerar que aquele bandido do Judas não esteja aqui? O Mestre disse que um de nós O iria entregar. Já vimos que é ele! Vamos deixar o Mestre ir para a morte sem fazermos nada, como se fossemos uns mansos cordeirinhos que nada podem fazer pelo seu Pastor?

Tiago de Zebedeu – O que achas que poderemos fazer? Ele já disse que se entrega porque quer e porque chegou a Sua hora, a hora que o Pai marcou. Quem poderá contrariar a Sua vontade soberana?

Pedro – (Indo de um a outro, passando o recado) Eh, vós aí, ficai um pouco mais para trás e falai baixinho, para que o Mestre não ouça! Tenho um plano!  Eu tenho uma espada e vós tendes punhais. Na perspectiva de sermos poucos, podíamos cercar o Mestre e raptá-Lo, pois não adianta nada negociar com Ele. Meteu-se-Lhe em cabeça que tem de se entregar  aos inimigos como um cordeirinho e…

Tomé – Raptá-LO? Eu não sei como!

João – Mas que ideia! Nem todo o exército romano seria capaz de fazer isso contra Sua vontade. Vistes o que aconteceu em Nazaré, quando quiseram deitá-Lo do monte abaixo? Ele paralisou os inimigos e eles nem foram capazes de Lhe tocar. Ele faria o mesmo connosco e, depois, sabe-se lá o que Ele nos diria! Mas, ó Pedro, não estarás a sonhar? Já te esqueceste que Ele impera sobre a morte, sobre a doença, sobre os demónios, sobre os ventos, as tempestades, os mares…E ambicionas tu raptar Deus? Estás louco e o teu plano é louco. Não tem viabilidade!

Pedro – Mas tu esqueces-te de uma coisa! Não te lembras que Ele nos disse há pouco que ia chegar a hora de Satanás e que Ele e nós iríamos ser abandonados pelo Pai? Ora, se Ele é abandonado pelo Pai, Ele fica um homem  fraco como nós.  Olha só como Ele caminha cada vez com mais dificuldade! Eu até penso que a visão Dele está a ficar cada vez mais fraca. Vê como Ele, de vez em quando, se baixa para ver melhor as pedras do caminho! Aquela profecia que diz “enviará os seus anjos para que Ele não tropece nas pedras do caminho” (Salmo 90) está suspensa. Sendo assim, Ele não teria força para se opor a nós todos. Podíamos raptá-LO  e escondê-LO!

Mateus – (Irónico) Seria uma glória para todos nós conseguir raptar Deus!…Todo o universo se inclinaria perante nós, tal como os feixes do centeio perante o José de Jacob!… E onde o esconderíamos?

Pedro – Talvez em Betânia, no palácio da irmã mais nova de Lázaro,  a Maria! Por estes dias eles estão cá os três, mas podíamos ir para lá sem ninguém saber. Os servos conhecem-nos e aceitar-nos-iam sem fazerem perguntas.

Filipe – E que faríamos com Maria, a Mãe do Mestre?

Pedro –  Ela está ainda no Cenáculo e podíamos convencê-LA a ir connosco para Betânia e assim ficavam a Mãe e o Filho juntos. Sempre se animavam um ao outro. Depois, quando Eles estivessem em segurança, iríamos ajustar as contas com o Judas Iscariotes. Eu sempre desconfiei daquele hipócrita e se o Mestre me tivesse deixado eu já há muito tempo lhe teria tratado da saúde!…

Tiago de Zebedeu – E quem vai lá para A convencer?

Pedro – Vais tu,  ou o João, que sois da família (sobrinhos ) Dela! Eu fico aqui, porque tenho uma espada e espero que ela fique romba à custa de cortar cabeças!…Além disso, eu disse ao Mestre que estava disposto a morrer com Ele ou na vez Dele, se Ele preferir!

Tomé – Eu também tenho uma espada, mas…tenho cá as minhas dúvidas se poderei usá-la! Além disso, Pedro, lembras-te daquilo que o Mestre disse a teu respeito: “Antes de o galo cantar duas vezes, três vezes me negarás?”

Pedro – Também tu acreditas nisso? Aquilo foi um exagero que não quero levar a sério. Eu vou defendê-Lo até à morte! Mas preciso de vós todos! Sozinho, o que posso fazer?

João – Mas, se é a vontade do Pai e a Sua, que sofra o que tem a sofrer, não há no mundo nenhuma força que a isso se possa opor. É aceitar e…mais nada!

Nataniel -  Talvez estejas a ser um pouco pessimista!  Eu tenho um plano alternativo!

Pedro – Espera aí!…  Se não gostais deste plano, tenho outro, em alternativa. Tenho outra ideia e tenho de a contar, antes que rebente ou me esqueça! Este plano passa por Lázaro. Sabemos que Lázaro foi ressuscitado. Podia ir algum de nós a casa dele e pedir-lhe que interceda pelo Mestre junto de Pilatos. Ele pode impedir os Judeus de fazerem qualquer coisa contra Ele. Lázaro tem muita influência junto dos Romanos, porque o seu pai foi governador romano da Síria! Assim, Ele falaria ainda hoje com Pilatos, que enviaria um destacamento militar até ao Getsémani e, quando os esbirros do Templo lá chegassem, eles teriam uma desagradável surpresa, primeiro, e depois deixariam lá as cabeças a rolar pelo monte abaixo…E se há uma cabeça que eu gostaria de ver a rolar por ali abaixo seria a do Judas…

Simão – Mas que genial, essa do Lázaro!… Mas iríamos a Betânia a estas horas da noite?

Judas Tadeu – Não! O Lázaro tem um palácio em Jerusalém, não longe do Templo,  e é lá que ele está a estas horas. Seria fácil ir até lá. Bastaria um ou dois de nós, para o Mestre não dar pela falta.

João – Pois é! Pensais que sois muito espertos. Mas sabeis porque é que o Mestre ressuscitou o Lázaro?

Todos – Conta!

João – Pode haver vários motivos: para recompensar aquela família, que pôs toda a sua riqueza ao serviço do Mestre e de  nós; porque precisava de um amigo forte que o compensasse pelos muitos inimigos;  porque precisava de um refúgio em casa de Lázaro, onde pudesse descansar sem ser perseguido; para, através de um milagre estrondoso que ecoasse por todo o Israel e sobretudo por toda a Jerusalém, ele tentar ainda convencer os do Templo de que Ele é realmente o verdadeiro Messias;  e também por um outro motivo, mais secreto, que vós desconheceis em absoluto.

Todos – Motivo secreto? Essa agora! E só tu é que sabes? Nós também temos o direito de saber! Conta!

João – Falai mais baixo e com calma! Se o Mestre olha para trás!…Eu digo-vos, então, mas não ides gostar, já vos digo! O Mestre sabe que Lázaro tem influência suficiente nesta cidade para impedir que algo de mau Lhe aconteça. Sendo assim, um simples pedido a Pilatos, e ele nomeava logo uma  guarda pessoal para o Mestre. Quem Lhe tocaria, nesse caso? Ninguém! Mas, então, os Seus planos de redenção da Humanidade ficariam eternamente adiados, porque nos planos de Yahweh está escrito que Ele tem de morrer às mãos dos seus inimigos, traído e abandonado por todos, inclusive pelo Pai e por nós! E depois, como é que as profecias se cumpririam? Já imaginastes Yahweh a ser mentiroso, prometendo coisas que depois não cumpre? Ora, o Mestre já nos disse que Ele veio para cumprir as Escrituras. E as Escrituras, sobretudo Isaías, dizem tudo a Seu respeito. Por isso, meus amigos, não há nada a fazer! Nós somos impotentes para impedir aquilo que já começou. Ele deve ter ainda algumas recomendações finais a fazer. Rezemos e façamos o que Ele nos disser. Ele ainda não  nos disse a última palavra, penso eu!

André – Tu disseste: “abandonado por nós”?

João  - Disse! E isso está nas Escrituras, onde se diz: “ Ferirei o Pastor e as ovelhas dispersar-se-ão”. Agora, dizei-me : Quem é o Pastor e quem são as ovelhas?  Psiu! Calai-vos!  O Mestre abrandou o passo e talvez queira dizer-nos alguma coisa!

Filipe – Mas ainda não disseste o que leva Lázaro a ficar inerte, sem fazer nada nesta hora e nesta situação. Porque é que ele não se mexe a favor do Mestre? Uma palavra sua ao Pilatos, que está na cidade, e resolvia-se tudo!

João – Também sei o que o paralisa! O motivo é estrondoso e ultrapassa a   nossa   humana compreensão. É que o Mestre já nos trocou todas as voltas e antecipou-se a nós nos passos que deu para levar por diante a Sua obra. Ele nunca proibiu nada ao Judas, apesar de andar sempre por maus caminhos, tolerou-lhe tudo, repreendeu-o várias vezes, mas nunca foi grosseiro ou violento para com ele; mas  proibiu o Lázaro de utilizar a sua influência para O impedir de prosseguir até ao fim. Por causa desta proibição e para resistir às tentações, Lázaro vem à cidade discretamente e evita conversas, com medo que lhe puxem pela língua. O Mestre sabe que o Lázaro abre todas as portas romanas.  Quando o encontrei, eu sugeri-lhe que fizesse alguma coisa, mas ele recusou liminarmente qualquer ajuda, o que me deixou altamente irritado. Ele só dizia: não posso,… não posso, …não posso!” E não passava dali! Ainda lhe disse: “ Mas que amigo és tu? Ele fez-te voltar à vida e tu é assim que Lhe pagas? Isto é que são amigos! Se os amigos não servem para quando precisamos, para que servem?  Mas ele acabou por dizer: “O Mestre proibiu-me de dar um passo a Seu favor. Também me obrigou a controlar as minhas irmãs, não fossem elas, nas minhas costas, andar por aí a choramingar protecção para Ele. Disse que o Mestre tinha de cumprir a vontade do Pai.” Pediu-me desculpas e afastou-se a toda a pressa, deixando-me ali embasbacado!

Simão – Vós sabeis que eu também nunca gramei o Judas de Simão (Iscariotes). E pensei muitas vezes: “Porque é que este cavalheiro anda connosco? O que levou o Mestre, sabendo o que sabe, a admiti-lo? Foi de livre vontade ou ele impôs-se de maneira a não poder ser rejeitado? Isto sempre me fez confusão! Quem me dá luz sobre este assunto? Tiago, tu deves saber alguma coisa!…

Tiago de Zebedeu -  Eu sei, mas isso, agora, não interessa. E agora pergunto eu: Seria preciso um traidor para o Mestre sofrer o que já sofreu e vai sofrer? Em minha opinião, não seria preciso, porque o Sinédrio iria apanhá-Lo de qualquer modo. Judas só lhes facilitou a tarefa. E porque é que as Escrituras anunciam um traidor do Messias? Para mim, é mistério!

Pedro – Mas o Filipe disse que tinha um plano e ainda não disse nada sobre ele. Queres contar, ó Filipe?

Filipe – Eu conto, mas talvez não gosteis e talvez nem seja possível, porque é assim uma ideia louca.

Tiago de Alfeu – O quê? Então, se não é possível, não é plano nenhum! É apenas uma sugestão. Bem, então, diz lá!

Filipe – É assim: Já vários de nós dissemos que estávamos dispostos a morrer com Ele ou por Ele. Então, chegou a hora de um de nós, ou  aqueles que Ele quiser,  morrermos na vez Dele, se é que isso satisfaz o Sinédrio. Podíamos deitar sortes e aquele a quem calhasse ia ter com o Sinédrio, a oferecer-se!…

Todos – (Longo silêncio)…

André – Eu também gostaria de apresentar uma ideia! Iríamos ter com o sacerdote Gamaliel, que tem muito prestígio em Israel, e pedir a sua intercessão junto do Sinédrio e do Governador!

João – Pois é! Mas tu ignoras que Gamaliel ainda não se decidiu a seguir o Mestre e a largar a Lei de Moisés, porque anda cheio de dúvidas, perplexidades, incertezas,…Ele pediu um sinal a Yahweh sobre o Mestre. Só depois desse sinal é que se decidirá de vez. Isto sei eu, porque tenho amigos lá no Templo. Quanto ao sinal, não me pergunteis, porque ele nunca me disse!

Quanto à ideia do André, isso não adianta nada e não serve de nada, porque as Escrituras dizem que é Ele que tem de pagar pelos pecados dos homens. Podiam morrer, na vez Dele, todos os homens que já existiram, existem e existirão, mas isso não seria suficiente para alcançar a redenção do homem. Alegra-te, ó Filipe, e nós contigo,  porque não é por esta causa que nós morreremos para salvar o Mestre. Ele veio para isso e pronto!… Eh! Silêncio, que o Mestre parece que parou!

Jesus – O João falou bem e Lázaro também!   É, com certeza, o vosso amor por Mim que põe a vossa imaginação a funcionar. Eu vos agradeço o  interesse em  Me livrardes desta hora, mas…não vale a pena pensardes mais no assunto. Nem todo o inferno pode impedir-Me de fazer o que vou fazer. Sei que Me amais, mas o vosso amor é uma pérola ainda em bruto, que precisa de ser lapidada para se lhe apreciar a beleza . Será obra do Espírito Santo, Aquele  que já vos prometi … Chegámos ao fim do nosso caminho. Aquele de vós que encontrar o sacerdote Gamaliel, transmita-lhe da Minha parte, que falta pouco para ele receber o sinal que pediu! Agora,  Pedro, Tiago e João irão Comigo até ao Horto, onde vamos orar.  Vós, os outros,  não passareis daqui, até que a Lua surja sobre aquela oliveira maior. Esse é o momento de nos reunirmos todos de novo e partir ao encontro de Judas, que vem à frente de um grupo, armado com espadas, punhais, lanças, varapaus e cordas. Lembrai-vos que, segundo as Escrituras, o Pastor vai ser ferido, que as ovelhas se dispersarão e que ficarão por sua conta!  Onde quer que estiverdes, orai Comigo ao Pai para que não Me abandone totalmente nestas  longas horas que se aproximam. Na próxima hora, Eu ficarei por perto, naquele canto que todos conheceis e onde orei muitas vezes ao Pai. A paz fique convosco!

Os outros apóstolos ali ficam, totalmente desanimados, inconsoláveis e incapazes de compreender aquele final dos três anos que tinham passado com Cristo. O nome de Judas andava de boca em boca e perguntavam-se:” Se  o Mestre sabia que o Judas o faria sofrer tanto, que O desiludiria tão tragicamente, etc, por que carga de água Ele o deixou entrar no grupo? E porque que é que eles, sendo tantos, não o tinham liquidado a tempo de evitar esta tragédia, por, além de ser o que era, ser ainda ladrão, por roubar as esmola para seu próprio proveito. Eles iam evocando as lágrimas que o traidor tinha feito derramar ao Mestre, chegando Nataniel a dizer que suportar Judas durante três anos fora  o maior sacrifício que o Mestre tinha feito.

O mistério  que envolve Judas e Cristo continua sendo mistério, por mais voltas que se lhe dê.

 .

Ezequiel Miguel

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O rei David e Betsabé – II

( Confira:  2 Samuel, 12)

O texto bíblico vai a negrito

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BetsabeResumo do episódio anterior:  Depois de ter engendrado eficazmente  um plano para matar Urias, marido de Betsabé,  a fim de esconder o seu adultério e consequências, David fez dela sua esposa.

O Senhor enviou então o profeta Natan a David. Logo que entrou no palácio e se encontrou perante o rei:

Natan – Dois homens viviam na mesma cidade, um rico e outro pobre. O rico tinha ovelhas e bois em grande quantidade; o pobre, porém, tinha apenas uma ovelha pequenina, que comprara. Criara-a e ela crescera junto dele e dos seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do seu copo e dormindo no seu seio; era para ele como uma filha. Certo dia, chegou um hóspede a casa do homem rico, o qual não quis tocar nas suas ovelhas nem nos seus bois para preparar o banquete e dar de comer ao hóspede que chegara; mas foi apoderar-se da ovelhinha do pobre e preparou-a para o seu hóspede.

David (irritado) – Pelo Deus vivo! O homem que fez isso merece a morte! Pagará quatro vezes o valor da ovelha, por ter feito essa maldade e não ter tido compaixão!

Natan – “ Esse homem és tu! E isto diz o Senhor, Deus de Israel:” Ungi-te rei de Israel, salvei-te das mãos de Saúl, dei-te a casa do teu senhor e pus as suas mulheres nos teu braços. Confiei-te os reinos de Israel e de Judá e, se isto te parecer pouco, ajuntarei outros favores. Porque desprezaste a Palavra do Senhor, fazendo o que Lhe desagrada?…Foste tu quem matou Urias, o hitita, por meio da espada dos amonitas! Por isso, jamais se afastará a espada da tua casa…” Eis, pois, o que diz o Senhor:… “Vou fazer sair da tua própria casa males contra ti, pois  tu pecaste  contra Mim, desprezando a Minha Palavra…”

David – Pequei contra o Senhor!

Natan –“ O Senhor perdoou o teu pecado. Não morrerás (por causa disso)).Todavia, como ofendeste gravemente o Senhor com a acção que fizeste, morrerá certamente o filho que te nasceu.…O Senhor feriu o menino que a mulher de Urias havia dado a David com uma doença grave. David orou a Deus pelo menino, jejuou, passou a noite prostrado por terra…Ao sétimo dia morreu o menino…”

Dentro de pouco tempo começou a profecia de Samuel a ser cumprida. Começou pela morte de Amnon, filho de David, por Absalão, filho também de David, mas não da mesma mulher. Em consequência desta morte, David perseguiu Absalão e estabeleceu-se inimizade entre ambos. Absalão manda deitar fogo a uma seara de Joab, seu irmão. Pouco tempo depois, uma vez goradas as ocasiões de conciliação entre David e Absalão, este comprou um carro, cavalos,  e arregimentou uma escolta pessoal de cinquenta homens. Tendo já em mente preparar uma revolta militar contra o rei David e usurpar-lhe a coroa, Absalão começou a denegrir o rei e a maneira como administrava a justiça, pretendendo assim ganhar adeptos para a sua causa. “Absalão  estendia a mão, amparava e beijava todos os que passassem pela porta da cidade para procurar o rei por motivos de justiça.”

Após quatro anos preparando a intentona e aumentando o número dos seus sequazes, David achou melhor abandonar a cidade, em direcção ao deserto, antes que surgisse Absalão e o depusesse pela força. Absalão ocupou mesmo o palácio de David e autoproclamou-se o legítimo rei. Na fuga, um homem insultou David, lembrando-lhe que merecia o que lhe estava a acontecer, por ser um homem sanguinário:” O Senhor fez cair sobre ti todo o sangue da casa de Saúl, cujo trono usurpaste, e entregou o reino a teu filho Absalão. Vês-te, agora, oprimido de males, por teres sido um homem sanguinário” (2 Sam 17, 8). O homem continuou, por largo tempo, a amaldiçoá-lo e a insultá-lo, sem que David desse ordens para o matarem, pois aceitou tais atitudes como um dos castigos merecidos que Deus lhe enviava.

 Finalmente, os dois exércitos defrontaram-se, primeiro em escaramuças, e depois mais a sério. O resultado final foi a morte de Absalão, que acabou por, na fuga  sobre uma mula, ficar preso e suspenso, pela bela e farta cabeleira, num ramo de frondoso carvalho, o que facilitou a vida a um comandante do exército de David, que facilmente o atravessou com a lança, matando-o, o que se verificou contra as ordens de David, que proibira que alguém o matasse. Assim morreu o terceiro filho de David, Absalão, o homem com o rosto e a cabeleira mais belos em todo o Israel, segundo a Bíblia. Após a profecia de Samuel, David passou o resto dos seus dias em amargura, aceitando tudo em expiação pelos seus pecados de adultério e de assassino  mandante do general Urias, marido de Betsabé. O salmo 50 dá conta do seu arrependimento e, através dele, a Igreja convida-nos a recitá-lo com a mesma compunção de que David deu provas.

 No fim de contas, David foi grande na arte da música, na literatura, na política, na realeza, no pecado, na penitência, no sofrimento, na expiação, na santidade, e foi da sua descendência que nasceram S. José, a Virgem Maria e Jesus Cristo. Salmos e Hinos, que a Bíblia regista, reflectem a sua sensibilidade poética. Hoje, que se perdeu a noção do pecado, coisa que para muitos já não existe ou nunca existiu, a vida de David dá que pensar e mostra como o pecado de um só homem teve tamanhas consequências para ele, para os filhos e para a sociedade, tudo traduzido em guerras, revoltas, mortes de civis e de  militares que nada tinham a ver com as asneiras de David. A Igreja ensina que as consequências do pecado podem ser individuais, sociais e colectivas, equivalendo a dizer que o pecado vai contra quem o pratica, contra o próximo e contra Deus, com consequências imprevisíveis. Assim o demonstra a Bíblia, que, em cada página nos dá uma mensagem para cada homem e para todos os tempos. Isto, claro, para quem a souber ler!

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Ezequiel Miguel

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O rei David e Betsabé – I

(Confira: 2 Samuel 11, 1-26)

Realidade & ficção

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Personagens:  David – rei de Israel e de Judá

 Betsabé, – esposa de Urias

 Joab- General do exército de David

Urias –  marido de Betsabé e general do exército de David

O texto bíblico vai a negrito

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David17Resumo do episódio:

Andava David em guerra com os Amonitas, contra os quais lançou o seu exército e os cercou em Rabá, tudo sob o comando do general Joab, apoiado pelo general Urias. David, porém, ficou em Jerusalém, de onde acompanhava, através de emissários, os acontecimentos.

Entretanto:

“E aconteceu que uma tarde David levantou-se da cama, pôs-se a passear no terraço do seu palácio e avistou dali uma mulher que tomava banho e que era muito formosa…”

Então:

David (a um servo) – Vem comigo ali ao terraço! …Vês além aquela mulher a tomar banho? Quando ela se vestir e recolher ao interior da casa, vais lá, bates à porta e procura saber quem ela é, o que faz, se é casada ou solteira,…mas antes disso, dizes que foste ali enviado por mim, para que ela não tenha receio de te responder a perguntas indiscretas.

Servo – E que provas apresentarei eu para a convencer de que foi V. Majestade que me enviou lá?

David – Entregar-lhe-ás este documento com a minha chancela e ela, lendo-o, saberá ao que deve responder. Tens aqui, mas, primeiro, vais lê-lo tu já aqui, na minha presença. Em seguida selá-lo-ei e é assim que deverás entregar-lho em mão. Só lhe farás as perguntas depois de ela o abrir e o ler!…Apanha-lhe todos os dados que puderes!

Servo – (lendo): “Responde às  perguntas que o meu servo te fizer – Rei David”. Lido! Vou cumprir a missão o melhor que puder. Espero que ela aceite colaborar.

Pouco tempo depois:

Servo -  O rei viu-te lá do alto do terraço do palácio e quer saber coisas a teu respeito. Abre e lê!… Aceitas responder ao que eu te perguntar?

Betsabé – Aceito!

Servo – Então, diz quem és, o que fazes, que idade tens, se és casada, solteira ou viúva, …sendo casada, quem é o teu marido, o teu pai, se tens filhos ou filhas, se tens meios dignos de subsistência, etc.

Betsabé – Chamo-me Betsabé, nasci em Jerusalém, sou filha de Eliam e mulher de Urias, general do exército de David. Presentemente, o meu marido está na guerra contra os Amonitas e o seu comandante é o general Joab. Tenho 30 anos, não tenho filhos e quando o meu marido está na guerra eu vivo sozinha.

Servo – Em nome do nosso senhor agradeço a tua colaboração.

De volta ao palácio real:

Servo – Aqui tendes, meu senhor, as informações que colhi sobre a tal mulher. Vou dizer:…….

David – Agora, voltas lá e dizes-lhe que o rei a convida a vir ao seu palácio, pois quer conhecê-la e manifestar-lhe o seu reconhecimento por o seu marido ser general do exército real… Entrega-lhe este documento para ela abrir e ler. Espera até que ela se prepare e acompanha-a até ao palácio. Depois, manda avisar-me da vossa chegada!

E assim foi feito. Ela veio e David dormiu com ela depois de purificar-se do seu período menstrual. Depois, voltou para sua casa. E, vendo que concebera, mandou dizer a David: ”Estou grávida”.

Então, David mandou esta mensagem a Joab: “Manda-me Urias, o hitita!” E Joab enviou Urias a David. Quando Urias chegou:

David – Então, sê bem vindo, meu caro general. Tenho informações sobre o teu trabalho e a tua dedicação à causa do Rei. Que notícias me trazes do general Joab? Está tudo bem por lá?

Urias – Saiba Vossa majestade que Joab é um bom comandante e o exército do rei confia nele. A guerra contra os Amonitas terminará em breve com a vitória do rei.

David – A propósito, fui informado por Joab que tens cumprido bem o teu dever, por isso eu lhe propus que te concedesse uns dias de folga. Por isso, “desce à tua casa e lava os teus pés!” Quando lá chegares já eu te terei enviado comida da minha mesa real, para que possas gozar um pouco do ambiente pacífico da tua casa. Tu e a tua mulher tereis certamente saudades um do outro!…

“Mas Urias saiu do palácio do rei …e não foi dormir a sua casa, dormindo à porta do palácio com os outros servos do seu senhor…Contaram isso a David…

David – Não voltaste, porventura de uma viagem? Porque não foste a tua casa?

Urias – A arca de Deus habita numa tenda, assim como Israel e Judá. Joab, meu chefe, e seus servos, dormem ao relento e eu teria coragem de entrar na minha casa para comer e beber e dormir com aminha mulher? Pela tua vida,…não farei tal coisa!

David – Fica aqui também hoje e amanhã te enviarei!

E Urias ficou em Jerusalém naquele dia. No dia seguinte, David convidou-o a comer e beber com ele e embriagou-o. Mas, à noite, Urias não foi a sua casa; saiu e deitou-se com os outros servos do seu senhor. No dia seguinte, de manhã, David escreveu uma carta a Joab:

Carta de David a Joab:

“Meu caro comandante- chefe:  Quando Urias te entregar esta mensagem, põe em prática o plano seguinte, que executarás em absoluto segredo e selarás a tua língua para que ninguém venha a saber nada do que aqui se diz. A tua cabeça rolará se  alguém tomar conhecimento dele. Logo que termines a leitura, agradece-lhe o serviço e a fidelidade ao rei e, posteriormente, destrói tudo. A ordem que te dou para executares é esta: Quando planeares um combate decisivo para conquistar uma posição estratégica, põe Urias na frente, de modo a ser dos primeiros a cair mortalmente ferido e não o socorras, para que ele morra. Depois, chorá-lo-ás e farás o seu elogio fúnebre, apontando-o como um exemplo de coragem e de fidelidade ao seu rei, lembrando que ele terá o seu nome inscrito  nos anais da história de Israel e Judá.

 Dado em Jerusalém, com assinatura e selo de David, Rei de Israel”

David – Urias, agora que estás de regresso à frente de batalha, entrego-te esta carta para a entregares em mão ao teu comandante. Dá-lhe saudações minhas, na expectativa de uma vitória próxima sobre os Amonitas!

Urias – Sim, meu senhor! Assim farei!

David –Então, vai em paz e o Senhor te acompanhe!

“Joab, que sitiava a cidade, pôs Urias no lugar onde sabia que estavam os mais valentes guerreiros do inimigo. Os assediados fizeram uma surtida contra Joab e morreram alguns homens de David, entre os quais Urias. Joab mandou imediatamente informar David de todas as peripécias do combate…” e da morte de Urias…

Ao saber da morte do seu marido, a mulher de Urias chorou-o. Terminados os dias de luto, David mandou-a buscar e recolheu-a em sua casa. Tomou-a por esposa e ela deu-lhe um filho. Mas o procedimento de David desagradou ao Senhor.

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(Continua)

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Ezequiel Miguel

JESUS É PRESO ( Cf. Jo 18,1-10)

Verdadeiramente Ele tomou sobre si as nossas enfermidades e suportou as nossas dores (Is 53,4-5)

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(Realidade e ficção)

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JesuspresoNa última Ceia de Jesus com os seus apóstolos, Judas, a certa altura, levantou-se e preparou-se para abandonar o Cenáculo, deixando os outros intrigados, cada qual perguntando o que ele iria fazer sozinho àquela hora da noite.

Somente Jesus sabia o que ele ia fazer, por isso lhe disse. “O que tens a fazer, fá-lo depressa”(Jo 13, 27). Jesus terá dito isto na tentativa de relembrar a Judas que Ele sabia tudo e na esperança de que Judas não desse o passo que ia dar. Mas Judas já tinha assinado compromissos que de modo algum podia quebrar, até porque estava em jogo, além do mais, receber o pagamento de trinta dinheiros, contratado entre ele e o Sinédrio. Chegara a hora, há muito esperada pelos membros do Sinédrio, para prender Jesus nas condições ideais, isto é, de noite, como sempre quiseram, e longe das vistas das multidões, garantindo assim a ausência de qualquer rebelião pelo povo ou pelos discípulos de Jesus, espalhados por todo o lado.

Com passo apressado, manto na cabeça, olhos faiscando ódio, raiva, vingança,… Judas atravessou a cidade até ao Templo, onde estava reunido o Sinédrio, à espera que ele chegasse com a informação que precisavam. A expectativa era grande e os preparativos também. E Judas chegou, finalmente.

Judas – Finalmente! … Cá estou! Falta pouco para o podermos apanhar. Eu sei para onde Ele vai depois da Ceia, que ainda decorre.  Eles vão para o Horto das Oliveiras. Eu ouvi-lhe dizer que ia para lá orar. Eu conheço esse sítio, um lugar isolado, protegido por oliveiras e rochedos, convidativo à oração, onde outras vezes Ele parava para orar naquela solidão. Por isso, daqui a duas horas…é a hora ideal. Preparai 50 soldados e outros, todos armados com espadas, lanças, lanternas e varapaus! Levai também cordas, para o amarrardes!

Caifás -  Para quê tanta gente? Não chegam uns vinte? Ele e os discípulos são uns treze e não me parece que tenham instrução militar ou armas de combate!

Judas – É melhor levar mais gente. É certo que Ele disse um dia que era Ele que dava a Sua vida quando quisesse e que ninguém lha tirava sem Ele o querer, mas…nunca se sabe! Bem vistas as coisas, Ele, se quiser, tanto se livra de um como de mil…Mas, se chegou a sua hora, Ele entrega-se voluntariamente.

Anás – Sendo assim, repetimos a pergunta: Para quê tanta gente?

Judas – É mais por prudência humana, para acautelar qualquer reacção imprevista dos outros que estão com Ele. Agora, pergunto eu? Já me podeis pagar pelo serviço?

Caifás – Ainda não! Não é por desconfiarmos de ti, mas combinámos que seria depois de todo o serviço feito. Ora, ainda não está tudo feito. Falta até o principal: prendê-lo e trazê-lo aqui.

Judas – Bem! Então, combinamos assim: Eu irei à frente dos 50 soldados e de todos os outros que se incorporarem. Precisamos de archotes, lanternas, cordas, espadas e lanças, além de simples varapaus. Nunca se sabe!… Irão todos atrás de mim e aqueles que tiverem mantos devem cobrir-se com eles, deixando apenas os olhos visíveis. Caminharemos em silêncio, para não levantar suspeitas e, a um sinal meu, todos devem parar sem perguntar porquê! O êxito da operação assim o exige.

Capitão – Como saberemos que é Ele? Como o distinguiremos dos outros?

Judas – Não te preocupes com isso! Ele é o único que é mais alto do que eu e, mesmo coberto com o manto, eu sei distingui-lo. Quando me virdes aproximar Dele, eu dar-lhe-ei um beijo na face direita.

Capitão – E Ele vai deixar, sem reagir?

Judas – Vai, porque esta é a hora que ele escolheu e para a qual se preparou a si e aos outros. Bate tudo certo com os meus planos.

Capitão – E se os discípulos reagirem com armas?

Judas – Não tenhas receio! Ele não os deixará usá-las, porque Ele nunca exerceu violência contra ninguém, nem sequer contra aqueles que o maltrataram. Ele é um rei de paz. Eu muitas vezes me irritei contra Ele por se deixar agredir e recusar defender-se. Uma vez até lhe pedimos que mandasse vir fogo do Céu quando nos apedrejaram. Ele só disse:  “Não sabeis o que pedis”! Atenção ao que vou dizer! Quando chegarmos, vós parai todos a certa distância e só eu é que avanço, desarmado, para não provocar nenhuma reacção dos outros. Vós só reagireis se eu der sinal para isso. Eu conheço-os todos, um por um, e Ele ensinou-os a serem pacíficos como Ele. Por isso, tudo vai correr bem!

Capitão – E só o prendemos a Ele? Que fazemos com os outros que estiverem com Ele?

Judas – O meu contrato só diz respeito a Ele. Com  os outros, é lá convosco! Lavo daí as minhas mãos!

Tudo bem combinado, a tropa fandanga põe-se a caminho, orientada por Judas. Entretanto, quando o bando armado já ia  perto do Horto:

Jesus – Pedro, Tiago, João, acordai! Não fostes capazes de vigiar uma hora comigo! Agora, já não é possível. Chegou a hora! Já vem perto o Judas com uma escolta para Me prender. Levantai-vos e vamos!

Pedro – O quê, Mestre? É mesmo a sério? Nós vamos defender-Te, custe o que custar. Desse traidor do Judas encarrego-me eu! Deixai-o por minha conta!

Jesus – Pedro, Eu nunca usei armas e não vão ser as armas a impedir-Me de cumprir a vontade do Pai. Essa espada que trazes aí escondida não servirá para me defenderes e os punhais que os vossos mantos escondem também não irão ser usados. Esta é a hora das Trevas Infernais e elas agirão sobre Mim e sobre vós! Vós não tenhais receio, mas não conteis comigo! Cada um agirá por si e ficará sem saber bem o que fazer!

 Pedro -  Mestre, afinal o Judas saiu do Cenáculo para preparar o que vai seguir-se! E Tu sabias, mas não o impediste nem nos disseste nada!

Jesus – Não, Simão de Jonas! Eu respeito a liberdade dele, assim como respeito a vossa de Me abandonardes ou de vos manterdes fiéis a todo o custo. Mas são apenas três dias! Depois, será como Eu já vos anunciei. Lembrais-vos de Eu ter falado no profeta Jonas, que esteve três dias no ventre da baleia? Comigo vai passar-se algo semelhante. O vosso Mestre passará três dias no ventre da terra. Depois, ressuscitará e ficará vivo para sempre.

João – Pois é, Mestre! Mas isto vai custar muito a passar, não só a Ti, mas também a nós!

Jesus – Lembrais-vos do que dizem as Escrituras: “Ferirei o Pastor e as ovelhas se dispersarão”? (Mt 26, 31). Depois, o Pastor e as ovelhas voltarão a reunir-se. Escutai!…Já vêm perto. Vamos nós ao encontro deles! Recebê-los-emos em silêncio…Vós arredai-vos aí a esse canto. É a Mim que eles procuram!

Judas – (Aproximando-se de Jesus) – Salve, Mestre! Eu Te saúdo em nome de todos estes que vêm comigo. Tu sabes para o que vimos!  (Beija-O na face direita)

Jesus –  (Olhando Judas nos olhos) Amigo, a que vieste? Com um beijo Me trais?

Judas – Mestre, tem de ser, para se cumprirem outras escrituras a Teu respeito, as escrituras escritas pelos teus inimigos do Templo! (Risada de Judas e da horda que o acompanha). Vais ter oportunidade de os converter à Tua doutrina. Mostra-lhes o que vales! (Risada geral).

Jesus – E vós, a quem procurais?

Capitão – Procuramos Jesus de Nazaré!

Jesus – Sou eu! ( E todos eles recuam e caem por terra, mantendo-se caídos até que Cristo lhes permite levantarem-se). Já podeis levantar-vos! Pergunto novamente: A quem procurais?

Capitão – A Jesus de Nazaré!

Jesus – Já vos disse que sou Eu! Se é a Mim que procurais, levai-me a Mim, mas deixai ir estes em paz! Deixai as espadas e os varapaus! Eu não sou nenhum ladrão nem nenhum criminoso. Estive sempre entre vós e não Me prendestes. Porque Me prendeis agora? É que esta é a vossa hora e a hora de Satanás…

Pedro – (Puxando pela espada) Alto aí! Tu, que estás aí a preparar as cordas, toma lá!..E ficas a saber o que valemos!

A sorte do servo de Caifás, de nome Malco,  foi a falta de agilidade e destreza de Pedro em manejar a espada, de contrário, em vez da orelha seria a cabeça a ficar pendurada  por um fio.

Jesus – Simão de Jonas (Pedro), mete a espada na bainha, porque quem com ferro mata, com ferro morre! Julgais vós que, se Eu quisesse, o Pai não Me enviaria cinco legiões de anjos para Me defenderem?  Acaso deixarei Eu de beber o cálice que o Pai Me deu? Por isso, guardai as vossas armas, porque não são necessárias! (E cola a orelha do servo Malco). E vós, que viestes para prender-Me, aqui Me tendes à vossa disposição! (Estende as mãos, enquanto um soldado começa a enrolar-lhe uma corda). Segue-se uma gritaria desesperada e desordenada e muito choro  e protestos por parte dos Apóstolos:

1º Apóstolo – O quê? Tu estás doido! Porque Te deixas prender?

2º Apóstolo – Tu traíste-nos! O que vai ser de nós?

Apóstolo – Quem é que pode acreditar em Ti?

4º Apóstolo -  Estragaste as nossas vidas!

5º Apóstolo – Convidaste-nos para isto!

6º Apóstolo – Não há outro modo de cumprir as Escrituras?

7º Apóstolo – Mandas aos ventos e aos mares e deixas-Te prender por esses farrapeiros!

8º Apóstolo – E nem nos deixas combater a Teu favor?

9º Apóstolo – Fulmina-os a todos com fogo do céu! Não Te entregues assim!

Pedro – Reduz a cinzas esse Satanás do Judas! Amigos, vamos liquidar esse traidor!… Todos a ele!…

E correm todos atrás do Judas, que, conhecendo bem o terreno e tirando proveito do luar da noite, se esgueira pelo monte abaixo, atravessa a torrente do Cedron e encontra alguma segurança nas ruelas escuras de Jerusalém, conseguindo escapar às pedradas e pauladas que lhe estavam reservadas. Entretanto, Jesus era manietado e conduzido da maneira mais humilhante até aos palácios de Anás e Caifás. Pelo caminho, Jesus aguentou insultos, pedradas, quedas, tropeções, empurrões, puxões… Depois de passar por Anás e Caifás, onde foi condenado à morte, foi levado sucessivamente ao  pretório de Pilatos, ao palácio de Herodes, regressando  novamente a Pilatos, sob cujas ordens foi flagelado, condenado à morte e executado. Os apóstolos que não foram em perseguição de Judas foram tomados de pânico  e fugiram quando alguém gritou: “Prendam também esses galileus!” Um deles, envolto num lençol, escapou de ser preso graças ao lençol em que se embrulhava, que deixou nas mãos do perseguidor, ficando nu (Mc 14, 51-52) Pensa-se que terá sido João.

 Foi a última vez que os apóstolos, no seu conjunto, viram Judas, pois, como se sabe, ele enforcou-se, após a crucifixão de Jesus. Disfarçado e coberto com o manto, conseguiu passar anónimo, chegando mesmo a ver, de longe, Cristo crucificado entre os dois ladrões. Foi após esta visão que resolveu suicidar-se. Mas antes, conseguiu entrar em contacto com o Sinédrio, que lhe pagou os trinta dinheiros do contrato. Depois, vagueou de um lado para o outro no sentido de se inteirar dos acontecimentos em que o Mestre se via envolvido. Sem dar nas vistas, foi sabendo o que ia acontecendo e à medida que as coisas se agravavam para o Mestre, também os remorsos iam tomando conta dele e aumentando de intensidade. Já meio desvairado e roído pelo remorso e pelo arrependimento, dirigiu-se ao Templo, para acertar as contas com os príncipes dos sacerdotes, com os quais tinha feito o contrato de lhes entregar Jesus.

Judas – Olhai lá, vós, ó malditos! Aqui tendes o vosso maldito dinheiro! É um dinheiro de traição, de vileza, de assassínio, de crime, de sangue. Pagastes-me para isto e eu deixei-me levar. (Atirando com as moedas ao chão, que se espalharam e retiniram aos ouvidos dos presentes). Não quero este dinheiro! Que ele vos queime o corpo e a alma pelos séculos dos séculos. Entreguei à morte o sangue inocente do Justo! Agora, já tendes o que queríeis e quase de graça! Desgraçados de vós e de mim, servos todos de Satanás! Estudastes tanto as Escrituras e não fostes capazes de reconhecer Nele o Messias há tantos séculos profetizado. Sois uns cegos, de uma cultura balofa, de uma vida corrupta. Bem fez Ele ao chamar-vos hipócritas, sepulcros caiados, ladrões da glória do Altíssimo, filhos de assassinos e assassinos como eu! (Chora)

Anás -  Já acabaste? Tu é que és o ladrão, o traidor, o assassino, o hipócrita, o espião …que te deixaste vender por uns míseros trinta dinheiros que mal dão para esfolar um coelho! A tua ganância levou-te a isso e fez-te submeter ao mais humilhante serviço que se pode pedir a um homem decente! Apanha o teu dinheiro, se o quiseres, e desaparece da nossa vista! Já te pagámos e agora não queremos mais nada contigo. Desaparece e não nos chateies mais!

Judas – Mas vós prometestes-me emprego no Templo e a glória de ter salvo Israel de uma ameaça que pairava sobre o nosso povo. Onde estão as vossas promessas?

Caifás – Aos tolos promete-se tudo aquilo em que eles acreditam. E eles aceitam precisamente porque são tolos e cegos. A ambição subiu-te à cabeça, elevou-te nos ares e agora caíste de cabeça para baixo. Quanto a esse dinheiro da tua  miserável traição, ele é um dinheiro maldito que nem sequer pode dar entrada nos cofres do Templo. Servirá para comprar o campo do oleiro que tu conheces. Lá enterraremos os estrangeiros e os criminosos  como tu, aqueles que derramaram o sangue de outros. Será o Campo de Sangue. E agora, vai-te! Ele não disse que ressuscitaria ao 3º dia? Espera por Ele, vai ter com Ele!…Depois, vem contar-nos como foi o teu encontro com ele! (Risadas)

Humilhado, magoado, ofendido na sua dignidade, frustrado, sem comer nem dormir, tremendo com o medo de dar de frente com os outros discípulos, sobretudo o Pedro, Judas percorria as ruelas mais recônditas de Jerusalém e andava de um lado para o outro sem decidir bem para onde queria ir. Até da própria sombra já tinha medo, porque o turbilhão dos pensamentos e as memórias ainda vivas, e cada vez mais vivas, não lhe permitiam discernir com calma e segurança o que queria ou deveria fazer. De repente, passou a ver inimigos em cada um que passava por si e até os cães já lhe pareciam ser incarnações de Satanás, porque todos eles se tornavam agressivos para com ele, chegando um, por sinal grande e negro, a rasgar-lhe o manto e a ferrar-lhe uma dentada na face direita, exactamente no local que correspondia ao do seu beijo a Jesus.

Observações:

1. Estava Judas realmente arrependido do que tinha feito? É claro que estava! Tinha remorsos do que tinha feito? Também isso é certo. O que lhe faltava? Aquilo que sempre lhe faltou: Um arrependimento sincero, uma promessa firme de emenda, um amor verdadeiro ao Mestre e um pedido humilde de perdão a Jesus. Até lá,  ele deveria ter pedido perdão à Mãe de Jesus, cujo convite para dialogar ele recusou, e aos outros apóstolos, que lho dariam, tal como o deram a Pedro, que negou o Mestre.

2. Isso evitaria que caísse no desespero e alimentasse a ideia de que o Mestre não lhe perdoaria o seu pecado, o que está na origem do seu suicídio. Judas caiu num dos pecados contra o Espírito Santo: a desesperação de Salvação, por julgar Deus incapaz de lhe  perdoar  o que fizera. Ora, sabemos que Deus perdoa qualquer pecado, desde que o pecador reúna as necessárias condições: arrependimento, confissão do pecado e firme promessa de emenda. Este pecado de Judas foi maior e mais grave do que a sua traição ao Mestre. Convém referir que Cristo disse que os pecados contra o Espírito Santo não têm perdão. Explica-se isso, porque o pecador não reconhece esses pecados e, por isso, não se arrepende deles nem pede perdão.

3. Qual dos dois, Pedro e Judas, cometeu  o pecado mais grave? Pedro negou o Mestre e Judas traíu-O. O pecado de Pedro foi menos grave, porque não foi premeditado nem preparado, mas foi repentino, fruto de uma situação inesperada, imprevista. Judas, ao contrário, premeditou, preparou, espiou, trapaceou, fingiu, recebeu dinheiro, contratou com os inimigos de Jesus… Em condições semelhantes até a justiça humana  seria mais severa para Judas do que para Pedro. Se o inferno não existisse naquele tempo, teria sido criado para Judas!

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Ezequiel Miguel

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