A rebelião de Coré (Cf. Números 16 )

(Realidade e Ficção)

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Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –   Meribá (= Disputa)  e Massá  (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan),  Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

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“ Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” ( na Terra Prometida)(Salmo 95/96)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida,  onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel, ocupada entretanto por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números,  do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico e registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido  e meditado sob diversos ângulos por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento dele nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente nos filmes “os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra  prometida , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura , era, e ainda é,  o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo.  Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus  erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida  em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem,  Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé  e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas  de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá  (disputa)e Massá  (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”:

Coré – Olha lá, Moisés!  Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yhaweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés –  “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para  vos honrar perante a comunidade,  entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós  e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio .  Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh  fará conhecer quem é dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante  de Yahweh. Aquele que ele escolher, esse é o homem que lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora,  chamo  aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

Abiram – Eu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne,  sem vinho, sem uvas,  com  água potável só de vez em quando!  De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e  um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste com um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos idiotas, tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui!  Se tu, lá no Egipto foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teu truques, de morrermos  à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram –  Temos saudades das refrescantes  cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados!  Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para  a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda) da Reunião  com Moisés e Aarão”.

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão, afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés  e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH –“ Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui  morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

Lições a tirar:

1. A História de um povo faz-se com Deus ou contra Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar com tantos pormenores e milagres  a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem  pertenceriam,  por direito, esses territórios, onde a paz é árvore que não deita raízes.

Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe-nos muitas vezes à prova, a nossa fé Nele,com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, muitas vezes para nos levar a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.(…)

2. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, sem perguntar a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Ele bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e lá foi, baseado na promessa da protecção de  Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”!  Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!

3.  Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas  que exercem autoridade sobre nós, quer  definitivamente  quer  temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo  S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra  as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.

4. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube,  no quartel, na paróquia, no Movimento da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver um murmurador, seja ele quem for, …afaste-se dele quanto antes,  seja quem for  e seja onde for. Encare-o como um virus mortal e evite-o, se não puder exercer nele a correcção fraterna!

5.  Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz,  para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!

6. Quem despreza um profeta de Deus, despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive, outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo quase todos de perseguições, maus trato, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de quem tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição mensagens proféticas teve enormes custos para  Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo o mundo.

7. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências  trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo”. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

. Salmo  77 (78)

. Salmo 95/96

A BARCA DA VIDA

(Realidade & ficção)

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barcoO enorme navio aguardava que mais passageiros entrassem.

Cheio de curiosidade, entrei também para melhor investigar sobre o tipo de passageiros que iam entrando e para onde estaria previsto iniciar a viagem, pois ele exibia uma grande placa onde se lia: “DESTINO INCÓGNITO” . Além disso, também chamou a minha atenção pela sua grandiosidade e pelas cores estranhamente indefinidas. Entrei, disposto a obter informações sobre aquele estranho monstro, que continuava a receber passageiros estranhamente macambúzios e alinhados em filas a perder de vista. À entrada, um personagem fardado, de olhar vítreo e cara de múmia, vigiava os passageiros, que, sem lugares previamente marcados, se iam instalando onde podiam ou queriam. Abordei o primeiro passageiro já instalado que encontrei, no sentido de conseguir alguma informação.

D.B.P. – Desculpe incomodá-lo, mas não se importaria de responder a umas perguntas?

Passageiro –Ora essa! Pergunte!

D.B.P. – Obrigado pela disponibilidade! Para onde vai este monstruoso navio?

Passageiro – Não sei!

D.B.P. – Não sabe? Então, enfia-se num navio sem saber para ele vai?

Passageiro – É verdade! Não sei mesmo para onde vai! Sei que vai para qualquer lado ou para lado nenhum e é tudo o que sei sobre ele.

D.B.P. – Mas sabe, com certeza, porque está cá dentro?

Passageiro – Também não sei! Dei por mim cá dentro, tal e qual como se tivesse caído aqui de pára-quedas…e é tudo o que sei!

D.B.P. – Estranho! Mas sabe o que faz cá dentro?

Passageiro – Sei! Viajo, como fazem todos os outros que aqui entram.

D.B.P. – Mas Você, ao entrar aqui, deve ter um objectivo em vista!

Passageiro – Ora essa! Então, o meu objectivo é chegar ao fim da viagem! Depois, logo se vê!

D.B.P. –Mas sabe onde é o fim da viagem? Imagine que caem todos num sugadouro e se enfiam a pique pelo mar abaixo! Não o preocupa essa eventualidade?

Passageiro – Ignoro o que está no fim da viagem, mas também não me preocupo com o que vem depois! O que vier… vem, porque tem de vir e, se tem de vir, que venha!

D.B.P. – Mas sabe, ao menos, qual é o destino final do navio?

Passageiro – Também não sei! Quando ele parar, por velhice, por avaria ou por afundamento, aí sei qual é o meu destino final. Entretanto, desfrutei da viagem, apreciei a companhia, as festas e…tudo o mais que a vida pode oferecer. Então, posso dizer que vivi! Entretanto, já ouvi dizer que, no fim da viagem surge qualquer coisa desconhecida . Para quê preocupar-me? O que tiver de ser será!

D.B.P. – Poderá, ao menos, explicar qual a causa, ou as causas, de vocês estarem aqui, todos tão confiantes?

Passageiro – Estamos aqui porque queremos viver. Ou não é este o barco da nossa vida?

D.B.P. – Queira desculpar a minha pergunta idiota: Você considera-se normal?

Passageiro – Ora essa! Não ofende! Sou tão normal como todos os outros passageiros que Você aí vê! Se houver aqui algum anormal, deverá ser Você, que pensa saber o que nós todos, aqui, não sabemos. E nenhuma cabeça por si própria é mais inteligente que nós todos!

D.B.P. – Calma, aí! Eu nunca entraria num navio sem saber por onde passa e qual é o seu destino final! Só se estivesse louco ou sob um ataque de sonambulismo!

Passageiro –Pois, pois! Mas isso só prova que você não sabe nada da vida! A vida é…viver sem nenhum tipo de preocupação! Se não nos preocupámos com o nosso nascimento, também não vale a pena a preocupação com a vida e com a morte. O que for soará!

D.B.P. – Mas tudo isso é muito estranho e não dá para entender! Então, Vocês todos vão às cegas, ignorando tudo a vosso respeito? Até parece que vão para um suicídio colectivo!

Passageiro – Estranho, estranho… é Você querer saber coisas que ninguém sabe e fingir compreender coisas que ninguém compreende e que não adianta nada compreender!

D.B.P. – Ninguém compreende? Como assim? Ninguém compreende ou não quer compreender? Você e os seus colegas de viagem estudaram, conhecem algumas leis da física, da química, da matemática, do comportamento das ondas, dos mares, das nuvens, da chuva, dos relâmpagos e dos trovões, da genética, da psicologia humana e dos animais, da meteorologia, dos alimentos, da medicina, da astrofísica, da energia atómica,… Vocês sabem tanto a respeito de causas e consequências e ignoram que para lá desta há outra vida que é eterna? E vocês não se prepararam nem se preparam? Vão mesmo confiantes num destino que vai ser fatal para todos vós?

Passageiro – Destino fatal? Então, fatal já foi o nosso nascimento, a nossa vida!…Viemos do nada,… para nada… e regressamos ao nada! Seremos felizes no Reino do Nada!

D.B.P. – Que nihilista e pessimista Você me saiu! Então, Você não acredita que a nossa existência, assim como a de todo o universo, é obra de Deus? Conhece alguém ou alguma coisa que crie coisas ou seres vivos a partir do nada? Ou acredita que tudo o que existe nasceu por sua própria virtude e engenho? Você, que estudou em universidades, não ouviu falar do grande cientista Einstein, que disse que em seus estudos e investigações só queria descobrir como é que Deus fez o universo? Se você acha que já cumpriu a sua missão na Terra, engana-se! Saia deste navio e passe o resto da vida a descobrir como é que o mais perfeito dos relógios suíços se fez por si próprio, sem auxílio de nada nem de ninguém! Talvez haja um Prémio Nobel à sua espera!

Passageiro – Você está a caçoar de mim! Julga-me assim tão idiota? Mas é claro que um relógio não se fez nem se faz por si!

D.B.P. – E o relógio do Universo fez-se por si? Qual o número de probabilidades num número infinito de improbabilidades?

Passageiro – Nenhuma!

D.B.P. – Então, agora é Você que está a caçoar de mim! Quer que eu acredite que o universo não existe? Não será melhor Você pensar nestas coisas e descobrir quem é, de onde vem, para onde vai, como, porquê e para quê está neste navio? Há explicações convincentes para responder a todas estas e outras perguntas. Você, eu e todos os seres humanos viemos de Deus e caminhamos para Deus. Passe o resto da vida a pensar nisso e verá que valeu a pena!

Passageiro – Bem!… Bem vistas as coisas, Você deve ter alguma razão! Estou a sentir-me algo perturbado, um pouco idiota, pois faltam-me resposta para muitas perguntas. Desisto mesmo de viajar aqui! Sou mesmo um cego e, ainda por cima, um tolo! Passei a minha vida a tirar cursos e parece-me que ignoro o principal.

D.B.P – Ouça lá! Não quer entrar para o meu navio, a que eu chamo a minha Barca da Vida? Desça e veja se descobre qual destes muitos aqui ancorados é o meu!

Passageiro – ( Descendo e observando) Mas há tantos! E todos eles escondem o destino dos passageiros! Mas, aquele ali, enorme, brilhante, colorido, com um comandante todo vestido de vestes brancas … Eu diria que o seu navio é aquele!

D.B.P. – É esse mesmo! Acertou!

Passageiro – E o que fazem tantas pessoas a meter conversa com aqueles que já estão na fila para entrar?

D.B.P. – Esses? Oh! Esses são angariadores que tentam convencê-los a escolherem outros navios, dizendo maravilhas dos outros e dizendo o pior do “Catholica Ecclesia”. É mais ou menos a mesma coisa que encontramos nas praias, onde cada hotel ou restaurante tenta captar clientes. Depois, recebem um prémio por cada cliente que apanham.

Passageiro – E para onde é que vai o seu Navio? …Vamos para mais perto, para ver se consigo ler o letreiro do destino!…Mas diz lá: “Paraíso”. E o nome do seu Navio é, como acaba de dizer: ”Catholica Ecclesia”!…Mas quem planeou e construiu esta enorme Arca de Noé?

D.B.P. – Ainda bem que Você o compara à barca de Noé, pois a sua missão é igual à da barca de Noé: salvar os passageiros do dilúvio. Naquele tempo o dilúvio era de água, mas o actual é do Mal, que invadiu tudo e todos. Mas há outra comparação possível. Ambas as Barcas foram construídas por iniciativa do próprio Deus, que escolheu os construtores, a tripulação, os instrumentos de marear, os materiais, fez os desenhos, o design, a decoração,…e garantiu a segurança. O “Catholica Ecclesia” é mesmo a 2ª Barca de Noé, mas agora chama-se também “Barca de Pedro”, ao qual passou o certificado de garantia eterna contra naufrágios, sendo, por isso, a Única Barca que navega com garantia e seguro de chegar ao destino, apesar de passar por muitas tormentas no Mar sempre agitado da Iniquidade.

Passageiro – Como foi essa garantia?

D.B.P. – Jesus Cristo disse: “Esta é a minha Ecclesia e as portas do inferno nunca a vencerão” O Arquitecto que a projectou e a construiu foi …Deus! Não há nada no mundo tão belo e tão perfeito!

Passageiro – E essa gente que vai entrando sabe todas aquelas coisas que Você me perguntou?

D.B.P. – Mais ou menos, todos sabem.

Passageiro – E a lotação?

D.B.P.- A lotação não tem limites. Há lugares para todos os que já lá estão e para todos os que quiserem entrar.

Passageiro – E tem paragens para permitir que uns saiam e que outros entrem?

D.B.P. – Tem! Os passageiros entram quando querem, no número que querem e saem quando querem e no número que querem. Aos que saem ninguém pede contas. Aos que entram há o cuidado de os instruir segundo os Estatutos que regem o “Catholica Ecclesia”.

Passageiro – Então, não compreendo uma coisa! Se o destino do navio é o paraíso, porque é que há passageiros que desistem para entrarem noutros navios, uma vez que só este leva a esse destino?

D.B.P. – Meu amigo, você não compreende e eu…também não! Mas o meu Navio viaja com as portas abertas! A liberdade individual é algo sagrado que se respeita. Cada um escolhe o seu próprio destino final e o navio da vida que mais lhe convém ou que mais lhe interessa.

Passageiro – Mas tem de haver razões fortes para haver passageiros do seu Navio que saem e entram noutros! Qual a sua opinião?

D.B.P. – A minha explicação é esta: Esta minha Barca da Vida em que eu viajo, e espero que Você viaje comigo, leva ao destino que Você ali vê – o Paraíso – mas há algo que eu, para ser franco, tenho de lhe dizer: Ela oferece uma viagem pouco cómoda, com camas, cadeiras e beliches que não se adaptam bem a nós, mas somos nós que temos de nos adaptar a eles, mesmo à custa de dores de costas e outros incómodos, ao passo que todos os outros navios oferecem comodidades, estabilidade, mares e oceanos com águas mais calmas…Além disso, dispõem de cinemas, televisões, Internet, festas e tudo o mais que se pode desejar na vida. Cada um pode ter os comportamentos, as atitudes e as ideologias que quiser, acreditar no que quiser, sem ter de dar contas a ninguém. Até pode praticar ou defender as ideias e as práticas mais aberrantes que se possam imaginar sem que alguém se importe com isso.

O “ Catholica Ecclesia”, além de oferecer viagens pouco cómodas, também impõe ordem, disciplina, dogmas e verdades em que todos os passageiros têm de acreditar, segundo os Estatutos que Deus lhe deixou, tudo para viverem de acordo com aquilo em que devem acreditar. Além disso, enquanto os outros navios navegam sempre em águas calmas, o “Catholica Ecclesia” avança sobre águas agitadas, por vezes tumultuosas, sujeito a ataques e violência de inimigos e piratas, que, em muitos casos, agridem ou matam os seus passageiros. Para estes que morrem no seio da Barca, a viagem termina mais cedo, porque mais cedo chegam ao Paraíso. Mas, mesmo assim, o Navio levou-os ao destino certo, cumprindo a missão que o seu Construtor lhe marcou.

Passageiro – É então esse o Navio em que Você me convida a entrar e nele permanecer até ao fim da viagem, custe o que custar? E no Paraíso, o que é que lá se faz?

D.B.P. – Sim! É esse o Navio! No Paraíso goza-se a Vida Eterna em Deus!

Passageiro – Só isso!

D.B.P. – E Você acha que precisa de mais? Isso… é TUDO!

Passageiro – O seu Navio tem garantias de nos levar ao destino? Não se afundará?

D.B.P. – Disse-lhe há pouco que nunca afundará, porque Deus, o seu Construtor, garantiu isso. Navegará em dificuldades, mas leva sempre os passageiros até ao destino final, aqueles que seguirem rigorosamente os Estatutos por Ele deixados. Para aqueles que se revoltarem ou abandonarem não haverá garantias, uma vez que se tornaram rebeldes, não aceitando a disciplina imposta pelo Construtor, indo até ao soberbo limite de falsificarem os Estatutos, para que eles coincidam com os seus interesses e com a sua maneira de os interpretar.

Passageiro – E quanto à alimentação? Como é na sua Barca?

D.B.P. – Há lá dois tipos de alimento: um para o corpo e outro para a alma, que é aquela parte de nós que é espirito e que, por isso mesmo, nunca morre, mas precisa de ser alimentada. Do alimento para o corpo não preciso de lhe falar, mas daquele para alma…você vai ficar surpreendido com a maravilha deste alimento, perante o qual tenho de me curvar, à semelhança dos mais altos anjos que povoam a corte celeste….Este alimento não se compra, não se vende, não se troca, não se cozinha, não se guarda no frigorífico, não apodrece, não oxida, não cria bolor, não vira vinagre…

Passageiro – Não compreendo! Então, onde se adquire, para se comer? Fabrica cada um o seu?

D.B.P. – Não! Ele já existe feito e prontinho a comer e a beber. Só é preciso saber em que condições Ele estará disponível.

Passageiro – Mas come-se e bebe-se ? Como é isso?

D.B.P. – Não é fácil explicar, mas é mesmo assim: come-se e bebe-se e, embora Um seja alimento sólido, e o Outro seja liquido, Ambos se comem e se bebem. É um mistério que envolve o nosso Deus, para nós incompreensível, como todos os mistérios. Você já ouviu falar da Bíblia, de Jesus Cristo, da Virgem Maria, dos profetas antigos de Israel?

Passageiro – Claro! Tudo isso faz parte da cultura mínima de quem estudou a história dos povos.

D.B.P. – Então, saberá que os Católicos acreditam que Jesus Cristo é a 2ª Pessoa da Santíssima Trindade, o Qual se fez homem para remir os homens. Ora, Ele disse isto, algo incompreensível para nós, mas em que nós acreditamos, pois Ele demonstrou com milagres que era, é e será Deus. Foi isto: “Eu sou o Pão vivo que desceu do Céu. Quem Me comer e beber terá a vida eterna, porque o Meu Corpo é verdadeira Comida e o Meu Sangue é verdadeira Bebida. Quem comer a Minha Carne e beber o Meu Sangue nunca mais terá fome nem sede”! E outras passagens semelhantes sobre a vida da Alma humana, parte de nós que não morrerá. Depois, aprenderá mais!

Passageiro – Então, o que tenho eu de fazer para o acompanhar no seu Navio, que passará também a ser o meu?

D.B.P. – Você chegou a ser baptizado?

Passageiro – Eu fui baptizado, mas …depois…Você sabe como é! Como diria Camões: “Erros meus, má Fortuna, Amor ardente, para minha perdição se conjugaram…”. Más companhias, pressões, ambições, vida desvairada,…tudo se conjugou para dar no que deu!

D.B.P. – Então, se Você foi baptizado, o seu Navio da Vida é este. Pode entrar já comigo! Será um prazer viajarmos juntos no nosso CATHOLICA ECCLESIA e dizer, parafraseando Camões, novamente:

 .

Esta é a ditosa Barca, minha amada,

na qual quero toda a vida viajar!

Rogo a Deus que eu não a troque por nada,

pois ao Paraíso me há-de levar.

.

Nota: O passageiro entrou e… ainda cá vamos, graças a Deus!

 .

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.

Ezequiel Miguel

 

 

Lúcia e o Sr. Prior de Fátima

(Realidade & Ficção)

 .

Lucia_JacintaAno de 1917. O Sr. Prior de Fátima já enviara recados aos pais da Lúcia, do Francisco e da Jacinta para trazerem as crianças até ele, a fim de serem interrogadas a propósito do que se dizia sobre a Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria. Os pais do Francisco e da Jacinta não ligaram importância ao pedido do Pároco, mas a mãe da Lúcia, D. Maria Rosa dos Santos, viu nesse pedido o remédio santo, no qual depositou grandes esperanças, para acabar de vez com a agitação que fervilhava lá em casa e no lugarejo de Aljustrel. Se a Lúcia dissesse que tinha mentido, recuperava-se a paz…

Chegou o dia em que D. Maria Rosa e a filha percorreram a distância que vai de Aljustrel até à residência paroquial de Fátima. Não sabemos se a Lúcia disse alguma coisa durante a viagem, mas ela diz nas suas Memórias que a mãe foi todo o tempo silenciosa…Logo, ambas se portaram como duas pessoas literalmente amuadas e apreensivas quanto ao resultado final… É de supor que ambas iam apreensivas, por motivos diferentes. Lúcia caminhava na convicção de que nada adiantaria, pois a sua mãe, que sempre a ensinara a não mentir, agora insistia para que dissesse a verdade que lhe convinha, isto é, a mentira de dizer que tinha mentido com aquela história da aparição de Nossa Senhora. Tratava-se realmente de um dilema, e, como em todos os dilemas, nenhuma opção seria agradável de tomar. D. Maria Rosa depositava toda a sua confiança na intervenção do sr. Prior de Fátima, pois a sua autoridade de sacerdote e pároco de Fátima era inquestionável, sendo, para mais, o confessor da mãe e da filha. E ambas, com o coração atribulado, chegaram finalmente à residência do sr. Prior:

Maria Rosa (M.R.) – Cá estamos, finalmente! (Depois de bater à porta):

Bom dia, sr. Prior! Aqui tem a minha filha! Interrogue-a, puxe por ela, arranque-lhe toda a verdade e castigue-a, se mentir. Faça com ela o que quiser, para tirar isto tudo a limpo, que eu não consigo!

Sr Prior – Está bem! Vamos tentar! Não ande nervosa, acalme-se, aceite os desígnios de Deus, que são insondáveis…o que quer dizer que nós nem sempre lá penetramos e quando pensamos que penetramos…podemos enganar-nos. Pode ir em paz para sua casa, que a Lúcia já é crescidinha e não terá problema em regressar a casa sozinha. E a propósito, porque não vieram os filhos da sua comadre, a senhora Olímpia?

M.R. – Não sei! Eu passei lá por casa, mas ninguém se mostrou interessado nisso. Então, se o sr. Prior não precisa de mim, saio. Com licença! (e sai)

Prior – Então, minha filha, o que tens para me dizer?

Lúcia – O sr. Prior é que me mandou chamar!…

Prior – Pois foi! Já sabes porquê e para quê! É um assunto muito sério, esse de que se fala por vossa causa. Gostaria que me contasses tudo, para ver se conseguimos ver claro, o que, por vezes, não é nada fácil. Mas tu vais ajudar, contando tudo, mesmo aquelas coisas que ainda ninguém sabe.

Lúcia – No dia 13 de Maio Nossa Senhora apareceu-nos sobre uma pequena carrasqueira, disse-nos que rezássemos o Terço todos os dias, que a guerra ia a acabar, que os soldados regressariam em breve…e ainda nos pediu que fossemos lá mais cinco vezes, nos dias 13 de cada mês. Pediu também que rezássemos pelos pecadores.

Prior – Mais nada?

Lúcia –( Silêncio)

Prior – Como é que tu sabes que era Nossa Senhora?

Lúcia – Era uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, toda vestida de branco e trazia um rosário…Só podia ser Nossa Senhora!

Prior – Mas Ela disse quem era e o que queria de vós?

Lúcia – Não disse quem era, mas nós sabemos que era Ela, porque estava toda rodeada de luz e essa luz também nos cobria.

Prior – E não vos deu um recado para mim? Não vos disse que devíeis falar disso ao vosso Pároco?

Lúcia – Não!

Prior – É estranho! Muito estranho! Em casos semelhantes é costume mandar ir ter com os Superiores ou com os Confessores. Neste caso, tudo isso foi ignorado, o que é tudo muito suspeito! Muito suspeito mesmo! É caso para se desconfiar!

Prior – E vós não tivestes medo, não tremestes, não vos sentistes mal dispostos, com suores frios, inquietos por dentro, nervosos, com desejos de que tudo acabasse depressa?

Lúcia – Não! A nós pareceu-nos pouco tempo.

Prior – E Ela não vos ameaçou, se não cumprísseis o que vos pedia?

Lúcia – Não! Ela era muito meiga e falava-nos suavemente, com uma voz linda e doce.

Prior – Não há elementos que provem que era Nossa Senhora! Sabe-se lá? Podia ser o demónio!

Lúcia – Mas, sr. Prior, o demónio nunca manda rezar e só lhe interessa levar as almas para o inferno!

Prior – Menina, o demónio é muito esperto e é capaz de fazer o Bem para daí levar ao Mal! Em muitos casos, aparece disfarçado de anjo e também pode fingir que é Nossa Senhora, para enganar qualquer um. E ele nunca diz quem é, para melhor ludibriar as suas vítimas. Conheço uma santa que, uma vez, ao ir confessar-se, era o demónio que lá estava sentado no lugar do Confessor. Foi S. Gema Galgani, por isso, não está excluída a hipótese de ser mesmo o demónio que vos apareceu! É melhor não voltardes à Cova da Iria! E eu, tal como a tua mãe, também estou convencido que mentes quando dizes que Nossa Senhora vos apareceu, uma mentira talvez de boa fé, mas que não deixa de ser uma mentira. Queres que eu diga ao povo, na missa, que tu pedes desculpa por teres mentido sem querer, porque pensavas que era Nossa Senhora? Não te queres confessar já dessa falta?

Lúcia – Não! Eu não minto e os meus primos também não! E não me confesso de pecados que não cometi! Se eu dissesse que mentia…, então é que mentia! E mentir é pecado! É isso que a minha mãe nos anda sempre a dizer! O sr. Prior quer pecar obrigando-me a mentir?

Prior – Mas, menina, não vês em que estado anda a tua mãe? Ela anda tão inquieta, revoltada e nervosa por tua causa, que, sabe-se lá, pode perder o sono, o apetite, o juízo…e morrer louca! Queres ficar toda a vida com as culpas da morte da tua mãe?

Lúcia – Seja o que Deus quiser! Se ela morrer a dizer que não…eu não me importo de morrer a dizer que sim! A verdade é a verdade e ela sempre nos ensinou a ter horror à mentira. Agora, quer que eu minta e o sr. Prior também! (Limpa as lágrimas) Eu não minto,…nem que me matem!

Prior – E a Senhora disse o que viria cá a fazer nas outras vezes?

Lúcia – Não! Só disse que nos queria lá nos dias 13 durante mais cinco meses e depois diria quem é. Disse ainda que faria um milagre para que todos acreditassem!

Prior – Cinco meses seguidos!…Então, será em Outubro! Também pode ser o demónio a tentar enganar-vos a vós e ao povo, com promessas falsas! E depois,… ele fica-se a rir! E sabe-se lá o que vos poderá acontecer! Se não houver milagre, o povo pode revoltar-se, matar-vos e matar também os vossos pais, pensando que foram eles que vos treinaram para esta trapalhada!

Lúcia – Não é nenhuma trapalhada! É tudo claro como água e não vai acontecer nada disso, porque a Senhora não tem cara de mentirosa e nós sentimo-nos felizes e confiantes nela! E nós ficamos sempre com pena quando Ela se vai embora, pois gostaríamos que Ela ficasse mais tempo! Se fosse o diabo, ficaríamos cheios de medo, a suar e a tremer de frio!

Prior – Ó menina, tu falas do diabo como se já o tivesses visto! Já o viste?

Lúcia –Não! E espero nunca o ver! Ela pediu-nos que rezzássemos o Terço pela paz e disse que a guerra ia acabar. O diabo não nos mandava rezar nem pela paz nem pela guerra. O diabo só quer o mal, por isso não pede coisas boas nem quer que a gente faça o Bem!

Prior – Ó rapariga, já sabes mais do que eu! Já ensinas o Pai-Nosso ao Vigário! Diz-me lá: o Terço que Ela mandou rezar é igual ao que nós rezamos?

Lúcia – É, mas Ela pediu que disséssemos, no fim de cada mistério. esta oração: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno! Levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem!”

Prior – As que mais precisarem? Não disse:” As mais abandonadas”?

Lúcia – Não!

Prior – Estranho, muito estranho! Há aí uma pirueta teológica!

Lúcia – Não sei o que isso é!

Prior – Isso é um assunto para nós, os sacerdotes!   As que mais precisarem! Mas precisam todas! Ela disse quais eram as que mais precisam?

Lúcia – Não! Mas Ela disse que iam muitas almas para o inferno por não haver quem reze e se sacrifique por elas!

Prior – Ah! Estou a ver! Então essas almas pecadoras precisam urgentemente de quem faça alguma coisa para que elas não se condenem ao inferno. Estou a ver! É uma questão urgente de fazer reparação por elas, isto é, alguém tem de comprar essas almas com oração e sacrifício. Se é assim, bate tudo certo, porque, Deus lá sabe, já terão pouco tempo de vida, estando, por isso, prestes a cair no Poço…

Lúcia – Eu penso que é assim!

Prior – Apesar de eu já começar a ver a lógica das coisas e a interligá-las, parece-me que não se pode concluir que tenha sido Nossa Senhora! Ela não disse quem era e não vos mandou vir ter comigo. O demónio é muito astuto, muito inteligente, muito matreiro, muito mentiroso e um artista na arte de enganar, disfarçar, parecer o que não é, para depois confundir as suas vítimas. Aconselho-te, a ti e aos teus primos, a não voltar lá, nesses dias treze, à Cova da Iria. Se for Ela, irá ter convosco onde vós estiverdes! E depois, é preciso dar tempo ao tempo, para vermos se isso vem de Deus ou do Demónio.

Lúcia – Mas Ela trazia numa mão o Rosário, logo era Nossa Senhora do Rosário. Nós não temos dúvidas! O demónio não mandava rezar e fazer sacrifícios pelos pecadores! Ele só quer todas as almas lá no inferno, logo, não pede para se rezar por elas! Eu podia pedir à Senhora que dê um sinal ao sr. Prior, para que o sr. Prior acredite que era Ela e não o diabo! Basta o sr. Prior dizer que sinal quer!

Prior – Isso não, filha! Deus me livre! Isso seria tentar a Deus! Não posso fazer isso! Tenho de me contentar com as luzes que Ele me enviar! O que for soará, como diz o povo! E pronto, filha! Eu não te proíbo de ires à Cova da Iria! Somente te aconselho a não ir, porque as coisas, para mim, não estão bem claras. Confio em Deus! Vai em paz e procura não desgostar a tua mãe!

Sentada no último degrau da escadaria está D. Maria Rosa, aguardando, com ansiedade e angústia, o resultado da conversa de Lúcia com o sr. Prior. Caiu-lhe o coração aos pés quando Lúcia lhe contou o resultado, mas que não se tinha confessado de mentir, porque não mentia! D. Maria Rosa perdeu as ilusões. Se o sr. Prior não conseguia, como conseguiria ela? O seu pesadelo continuou durante todo o resto da sua vida, num sofrimento angustiante de que nada nem ninguém conseguiu livrá-la. Aquilo que para muitas mulheres seria uma bênção bem-vinda, para ela foi uma pesada Cruz. Quem penetra os desígnios de Deus? Mas a sua dúvida serviu para dar credibilidade às Aparições de Fátima, ficando provado que ela não dera um passo para facilitar a sua aceitação e divulgação. Como hoje se diz, ela foi o contraditório!

Do Evangelho: (…Não vos preocupeis com o que haveis de falar nem com o que haveis de dizer! Nessa altura vos será inspirado o que tiverdes de dizer. Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós”! ( Mt 10, 19)

 .

Ezequiel Miguel

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A mãe de Lúcia e as Aparições de Fátima

(Realidade & Ficção)

.

A  D. Maria Rosa entrou em pânico. A Jacinta, contrariamente ao que tinham combinado, foi dizer à mãe que tinham visto Nossa Senhora. É evidente que a mãe encarou isso como uma história de crianças, fruto da imaginação ou de brincadeira. Mas a Jacinta insistiu e o Francisco, instado pela mãe, confirmou. Foi o princípio de um incêndio que nunca mais se apagaria…Mas se a mãe do Francisco e da Jacinta encarou isso de ânimo leve, sem lhe atribuir grande importância, já o mesmo não se passou com a mãe da Lúcia, que entrou em ebulição perante o que considerava uma redonda mentira a Lúcia confirmar o que a Jacinta revelara. Daí para a frente não mais houve paz e concórdia lá em casa, resultando daí grande sofrimento para a Lúcia e para a sua mãe, D. Maria Rosa que, vencida a frontal rejeição das Aparições, viveu e morreu na dúvida, por se julgar indigna de que uma sua filha fosse contemplada com tamanha bênção do Céu. Ficou famosa a sua sentença antes de morrer :”Ai filha, levo-te atravessada no coração!”.

.

D. Maria Rosa saíra à rua…

1ª Aldeã – Ó Maria Rosa, então andam para aí a dizer que a tua filha viu Nossa Senhora na Cova da Iria? Então e o que é que Nossa Senhora lhe disse?

Maria Rosa – Não sei, mulher! Isso são brincadeiras de crianças. Se calhar viram algum fantasma e fizeram confusões. Não devem ser levadas a sério.

2ª Aldeã – Mas também é verdade que os filhos  mais novos da Olímpia também viram?

Maria Rosa – Ó mulheres, esquecei isso! Isso foram brincadeiras combinadas entre eles para se divertirem. Não façam caso!

3ª Aldeã – Pois é!  É fácil de dizer! Mas eles deviam ser castigados por andarem para aí com mentiras e a fazer troça de nós, a fazer de nós anjinhos prontas a acreditar em histórias de crianças. Tudo isso é fruto da falta de educação que os pais não lhes dão. Se fosse cá comigo, obrigava-os a dizer a todo o povo que tinham mentido e depois cortava-lhes a língua, para não mentirem mais!

1ª Aldeã – Credo, mulher! Então uma coisa dessas diz-se? Sempre são nossos filhos, mesmo que se portem mal! E tu sabes que todas as crianças mentem. Até ouvi um doutor dizer que isso é sinal de que as crianças estão a crescer e a ficar cada vez mais espertas!

Maria Rosa – Se é assim, então a minha já é doutora em sabedoria!

2ª Aldeã – Cá para mim, se elas mentem é porque os pais não lhes dão educação e agora pagam as favas. Eles deviam obrigá-las a cumprir o que se lhes ensina na Catequese. Lá se ensina que mentir é pecado contra um dos Mandamentos que, penso eu, é o sétimo.

Maria Rosa – Ó mulher, não é o sétimo, é o oitavo.

3ª Aldeã – Seja o sétimo ou o oitavo, é tudo a mesma coisa e se eles não lhes ensinam o oitavo também não lhes ensinam o sétimo. Cá para mim, os pais é que deviam ser castigados!

Maria Rosa- Ó mulher, não me diga isso! Castigada já eu sou. Só o ter que aturar as línguas do povo já me chega! Mas tenho mais lá em casa. Eu bem quero que a Lúcia diga que mentiu, mas ela diz que não mentiu nem mente. Ó santas, eu andar nas bocas do mundo por causa de uma mentira de uma filha minha…isso é de eu morrer! Mas se ela mente, vai ter que dizer que mentiu…ou a bem ou a mal! Pode lá ser! Na minha casa sempre se ensinou que a mentira é pecado e eu já insisti com a minha filha para se ir confessar ao sr. Prior, mas ela continua a dizer que não mentiu nem mente e aguenta as estaladas que lhe dou e também as vassouradas naquele rabo.

1ª Aldeã – E ela mesmo assim não diz que mentiu? Isso é que é teimosia! Pois claro, tudo isso é porque os pais não os ensinaram a ser obedientes. Não lhes aplicaram o pau nas costas a tempo e horas, desde pequeninos. Lá diz o ditado:”De pequenino é que se torce o pepino”. Mas os tempos agora são outros! Já diziam os antigos: “Adeus mundo, cada vez pior!”.

Maria Rosa – Ó mulher, não me venha cá com essa conversa, que me está a ralar a alma. Então eu não eduquei os meus filhos todos por igual? Porque é que esta me havia de sair mentirosa? Só a mim é que Deus envia este castigo, esta constante ralação que me tira o sono e o apetite!

2ª Aldeã – Deixa lá, mulher! Deus é que escolhe para nós e daquilo que Ele escolhe ninguém nos livra. É aceitar e sofrer. Mas eu tenho cá uma ideia: e se fosses ao sr. Prior para ele convencer a tua filha a dizer a verdade, isto é, a dizer que mentiu? Acabava-se logo tudo e tudo voltava a ser como dantes.

3ª Aldeã – Olha lá! E se for verdade o que eles dizem? Já viste que sorte tens em ter uma filha que viu Nossa Senhora?

Maria Rosa – Cale-se, mulher! Não me diga uma coisa dessas! Eu sou lá digna de que Nossa Senhora escolha uma filha minha para vir cá abaixo e deixar-se ver e falar com ela e também com os primos? Isso era sorte a mais!

1ª Aldeã – Eu também acho estranho que Nossa Senhora lhes tenha aparecido. Porque é que ela não apareceu ao Sr. Prior, se tinha alguma coisa importante a dizer?

2ª Aldeã – Mas afinal, o que é que a Senhora lhes disse?

Maria Rosa – Eles os três dizem que Nossa Senhora lhes disse que fossem à Cova da Iria seis meses seguidos nos dias treze e que depois diria quem é e o que quer. Ah! Também dizem que ela disse para rezarem o Terço todos os dias.

3ª Aldeã – Mas ela disse que só eles é que deviam rezá-lo todos os dias? Então o recado foi só para eles? Mas eles já o rezavam!

1ª Aldeã – Eles rezavam-no, mas não o rezavam como nós. Só diziam Pai-Nosso, Ave-Maria em todos os mistérios, ficando assim com mais tempo para brincar!

2ª Aldeã – Não me diga! Que grandes batoteiros! E logo Nossa Senhora foi aparecer a eles! Eu cá não acredito. Se Nossa Senhora fosse aparecer a todos os batoteiros e mentirosos…nunca mais de cá saía. Há cá tantos desses que é um louvar a Deus!

3ª Aldeã – Ora, aí está! Se são batoteiros, Nossa Senhora não lhes aparecia. Por isso, eu tenho cá para mim que foi o diabo que lhes apareceu e eles agora envergonham-se e dizem que foi Nossa Senhora.

Maria Rosa – Essa agora ainda é pior! Só me faltava que o diabo fosse escolher uma filha minha para as suas jogadas. Vossemecê tem cada uma! Isso nem parece seu! Então  o diabo vinha-lhes dizer que rezassem o Terço todos os dias? Só faltava que viesse também encomendar umas missas pela sua alma!

1ª Aldeã – (Benzendo-se) Credo, cruzes, canhoto! O mafarrico a encomendar missas! Isso nem lembra ao diabo!

2ª Aldeã –  Eu já ouvi dizer que uma bruxa não sei de onde encomendou não sei quantas missas para fazer um bruxedo não sei a quem e que essa bruxa fez um pacto com o diabo e que o diabo depois lhe pediu que queria ser aspergido com água benta e ela então foi à igreja roubar água benta para deitar ao diabo. E também ouvi dizer que as bruxas morrem todas sem se confessarem e sem se arrependerem e que por isso o diabo as leva para o inferno, porque o diabo lhes cose a língua para elas não falarem. E outras morrem de repente, porque o diabo tem pressa em as apanhar, por causa do contrato que elas fizeram com ele.

3ª Aldeã –  Mas como é que vossemecê sabe tanto  sobre o diabo?

2ª Aldeã – Ó mulher, é o que dizem para aí! E até dizem que as bruxas fazem o pacto com o diabo à meia noite, num cemitério!

3ª Aldeã -Há muitos que dizem que o diabo não existe, mas já a minha avó (que no Céu esteja) dizia que com o diabo não se brinca e que ele se vinga quando as bruxas não lhe lançam água benta, porque ele quer ser tratado como Deus. Mas também dizem que o diabo só aceita água benta se lhe for oferecida por uma pessoa em pecado. Ouvi dizer que Santa Teresa de Ávila espantava o diabo lançando-lhe água benta em cima. Então ele fugia, mas se for uma bruxa a fazê-lo, ele não foge. Vá lá o diabo entender estas coisas! E também ouvi um sr. Padre dizer que é obrigatório acreditar que o diabo existe. Quem nega que ele existe, está em pecado. Ele até disse que era um não sei quê de fé, assim uma coisa parecida com um dracma! E que quem não acreditava era um epiléptico!

1ª Aldeã – Quer vossemecê dizer que era um dogma e quem o negava era um herético? E também dizem que as bruxas curam doenças e adivinham coisas porque o diabo lhes diz ao ouvido o que elas precisam de saber. Eu cá tenho muito medo dessas coisas! E também ouvi dizer que um mau olhado e uma maldição lançados entre a Hóstia e o Cálice, na missa, pegam mesmo. Eu nem quero pensar nisso, mas a mim já me têm acontecido coisas que até parece serem maus olhados! Um sr. Padre disse uma vez que era pecado ir à bruxa, porque as bruxas só fazem coisas que agradam ao diabo. E disse que isso até está na Bíblia, que é esse livro grande por onde eles estudam.

Maria Rosa – Pronto! Deixem lá essa conversa! Se foi Nossa Senhora ou o diabo, logo se verá, mas eu vou tirar isso a limpo! Adeus, tenho que fazer em casa!

4ª Aldeã ( acabada de chegar)- Ó Maria Rosa, espera aí! Quero-te dizer umas coisas. Sei que andas muito consumida por causa da  tua filha Lúcia, mas eu acho que  tu não tens motivos para isso. Ó mulher, és uma mulher feliz, porque Nossa Senhora te escolheu para mãe de uma menina com quem Ela fala. Eu cá, se fosse comigo, até dava graças a Deus por uma bênção assim. E é o que tu deves fazer. Tomara eu que Ela me escolhesse a mim para mãe de uma filha assim!

Maria Rosa – Isso é o que vossemecê diz, mas as coisas não são assim tão bonitas. Em minha casa só há ralhos, amuos, lágrimas, gritaria, acusações, rabugice, discussões, silêncios, rostos sombrios, sentenças para todos os gostos…e aquela mentirosa…ninguém lhe arranca a verdade, sim porque só pode ser mentira o que ela conta. Nossa Senhora não me ia escolher a mim para mãe dela, se fosse verdade!

4ª Aldeã – Ó Maria Rosa, como é que tu falas assim! Olha que pode ser verdade e se calhar até é. Observa bem a tua filha e os teus sobrinhos! Vê se são mais obedientes, mais calmos, se rezam o terço como deve ser, se deixaram de dançar, se andam mais concentrados, mais pensativos, se não se defendem quando os acusam ou ralham com eles, se andam menos faladores…eu sei lá, mulher! Lembras-te daquilo que Santa Isabel disse à Virgem quando se encontraram: (… feliz és tu porque acreditaste…”?( Lucas 1, 45)

Maria Rosa – Pois é, mas uma delas é santa e a outra é santíssima, e eu nem sou uma coisa nem outra. Eu sou uma pecadora que não sou digna de tais favores, por isso é que eu me convenço que ela anda para aí a enganar meio mundo e me traz descoroçoada! Eu… só me apetece chorar (limpa as lágrimas)!. Bem, vou indo, que tenho que fazer em casa. Até logo!

(e afasta-se. )

Todas – Até logo! Vai com Deus! (Depois de alguns segundos de silêncio, para que Maria Rosa não ouvisse):

2ª Aldeã – Coitada da Maria Rosa! O que havia de lhe acontecer! Ela anda toda apoquentada e consumida por causa do falatório e porque a acusam de não ter educado a filha como devia. Mas é assim mesmo, cada um tem o que merece! Eu cá, se apanho a cachopa, nem sei o que lhe faço, mas vou dizer-lhe das boas: Se não tem vergonha de causar à mãe tanto sofrimento! E vou chamar-lhe mentirosa, intrujona, beata falsa, santinha de pau carunchoso, fingida, hipócrita, trapaceira e sei lá que mais! Olha, é o que me vier à cabeça!

4ª Aldeã – Vossemecê faça cuidado! Não faça isso, porque, se for verdade, Deus pode castigá-la,… e depois não se queixe! Com as coisas do Céu não se brinca. E se Nossa Senhora já apareceu em tanto lado, também pode aparecer aqui. E Deus lá sabe! E se vossemecê anda para aí a dar ao badalo e a dizer coisas feias das crianças, terá de se confessar disso, porque anda a pecar! Veja lá o que é que vossemecê arranja! Eu, cá por mim, ficava caladinha e esperava, porque se lá houver alguma coisa…há-de vir cá para fora. Onde há fogo, há fumo!

3ª Aldeã – Não é assim que se diz! O ditado diz: Onde há fumo, há fogo!

4ª Aldeã – É a mesma coisa! Que mais dá?

1ª Aldeã – Então,… fumo já temos. Esperemos pelo fogo! Bem, vizinhas, gostei muito da conversa e vou andar caladinha até ver em que param as modas, mas agora tenho de ir andando. Até logo e fiquem com Deus!

E todas dispersam.

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Obsv. Com a sua renitente dúvida sobre a veracidade das Aparições, D. Maria Rosa, actuando como S. Tomé a propósito da Ressurreição de Cristo, prestou um valiosíssimo contributo para a veracidade dos acontecimentos de Fátima. Sendo opositora, não deu ocasião a ninguém para dizer que aquilo era tudo inventado ou encenado pelos pais das crianças. O excesso de humildade ou um conceito de humildade algo controverso e distorcido levou-a a alguns exageros em atitudes, gestos e comportamentos sobre a pessoa da Lúcia. Mas Deus tem os Seus caminhos, que raramente coincidem com os nossos.

Ezequiel Miguel

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O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo

(Realidade & ficção)

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Personagens:

. Cassius (centurião romano)

. Guardas do Templo

. Anás e Caifás (sumos sacerdotes do Templo e presidentes do Sinédrio judaico)

guardas04Terminado o sábado, ao romper da aurora do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro. Nisto, houve um grande terramoto. O anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela….Os guardas, com medo dele, puseram-se a tremer e ficaram como mortos. (Mt 28,1-4)

A Ressurreição de Cristo foi precedida de fenómenos que continuarão para sempre registados pelos evangelistas, que se referem a um verdadeiro anjo, que produziu uma onda de luz, um enorme terror nos guardas e um estrondo de rebentar os ouvidos, logo seguidos da remoção da pedra da entrada do sepulcro, momento da Ressurreição gloriosa de Cristo.

Os soldados, porém, que eram guardas judeus do Templo, viram a luz e ouviram o estrondo, mas devem também ter visto o anjo, perante o qual foram apanhados pelo terror e por ali ficaram desmaiados, tal como Maria Madalena e as outras companheiras os viram. Quando eles vieram a si:

1º guarda: Eh rapazes! O que foi que nos aconteceu? O fogo que ardia aqui com tanta força apagou-se! Isto quer dizer que alguma coisa se passou há já umas horas!

2º guarda –Mas é claro que se passou alguma coisa! Olhai para o sepulcro! Ele está aberto! É melhor irmos lá a ver!… O quê? O corpo não está cá! Nem sequer o lençol em que ele estava envolvido! Raios! Estamos tramados! Como é que vamos justificar isto perante Anás e Caifás?Será que poderemos escapar à prisão?

3º guarda – Calma! O Centurião Cassius deve saber! A propósito: onde é que ele está? Ele não estava aqui estendido como nós! Deve andar por aí! Vamos dar uma volta! Ele deve saber mais do que nós sabemos sobre tudo o que se passou. Mas ele só deve contar o que viu e o que sabe ao governador, pois foi para isso que Pilatos lhe mandou estar por perto.

4º guarda – Olhai! Ele vem aí!

Cassius – Então rapazes? Dormistes bem? Então, é assim que cumpris as ordens dos vossos chefes? Eles não vão gostar nada daquilo que lhes ides contar!…

5º guarda – Se dormimos bem? Nós não sabemos explicar este sono. Só sabemos que alguma coisa estranha passou por nós! Sentimos um terramoto, um grande estrondo e uma luz que nos envolveu. Então, vimos um anjo do Senhor a olhar-nos com cara de poucos amigos, tivemos medo e depois, …não sabemos mais o que nos aconteceu!

Cassius – Eu sei o que vos aconteceu, mas não vou explicar-vos agora. Mais tarde! Eu não tenho aqui mais nada que fazer, por isso, vou transmitir a Pilatos o que se passou. Eu contarei o que vi e vós fareis o mesmo, quando chegar a vossa vez. Não vos ponhais a inventar!

6º guarda – E achas que nós também devemos contar ao governador, uma vez que foi ele que deu a autorização para esta missão?

Cassius –Eu penso que sim! Poderemos fazer assim: Eu e alguns de vós iremos ao governador. Primeiro, conto eu a minha versão. Mais tarde, quando eu vos indicar, ireis, alguns de vós, expor-lhe a vossa verdade. Os outros irão ao Templo e contarão o que sabem. Nada de inventar. Todos vós vistes e sentistes a mesma coisa, por isso, tem de haver unanimidade nos depoimentos, pois eles podem receber-vos um de cada vez, para verificar se há contradições ou versões diferentes. Se eles vos ameaçarem, dizei-lhes que se dirijam a mim ou que me convidem para dar o meu testemunho. Mas, antes de abandonarmos este local, vamos dar uma volta pelas redondezas, para vermos os resultados do terramoto, que toda a cidade sentiu. Vamos! Cada um deve fixar bem os pormenores que achar de interesse. Eu já andei por aí, enquanto vós jazíeis aqui como árvores tombadas, e já vi tudo o que me interessava ver. Para começar: Observai bem aquele enorme rochedo partido ao meio!

7º guarda – Para já, há por aqui muitas pedras que não estavam cá.

1º guarda – Está aqui uma enorme fenda no terreno.

2º guarda -Também está ali um poço, que não existia cá!

3º guarda – E ali está uma árvore tombada!

4º guarda – O buraco onde a cruz foi erguida está muito mais largo e mais profundo e o sangue do rei dos Judeus ainda parece estar fresco.

Cassius – Eu vou experimentar!…Está mesmo! .… Quem quiser, molhe nele um dedo e toque na sua fronte! Depois, leve aos lábios, tal como eu vou fazer!….Já ninguém mais quer?… Então, vamos até ao sepulcro! Os três que fizeram como eu fiz irão comigo ao governador. Os outros quatro irão a Anás e Caifás!… Cá estamos em frente do sepulcro!….Alguém nota alguma coisa especial?…Nada? Então, eu digo: A pedra foi removida para o lado contrário de onde foi rebolada, mas, se virdes bem, não há nenhum rasto dela, dando a impressão que está ali como caída directamente do céu ou transportada por alguém. Algum de vós alvitra uma explicação?

5º guarda – Tudo muito estranho!

6º guarda – Eu tenho uma explicação possível! Talvez tenha sido aquele anjo que nos meteu tanto medo!

Cassius –Eu acredito que foi isso. Lembrais-vos do motivo pelo qual nós todos estamos aqui? Este, que nós crucificámos, é o Filho de Deus, tal como disse o centurião Longinus, aquele que lhe espetou a lança no peito. O Rei dos Judeus prometera que ressuscitaria ao terceiro dia e hoje é o 3º dia! Isto não vos diz nada? Os vossos chefes enviaram-vos para aqui exactamente para impedirdes que o seu corpo fosse roubado, pois não acreditam que ele possa fazer isso. E agora? Ele ressuscitou mesmo. Eu tenho provas disso e bem convincentes! Agora, vamos entrar!…Que notais?

7º guarda – Ambiente perfumado,…de perfumes que não conheço! Mas, …e o lençol e as outras peças de roupa?

Cassius – Já foram levados pelas mulheres e dois discípulos dele, que vieram cá após ele ter ressuscitado. Vós não os vistes, mas eu vi-os! Eu vi ainda outras coisas que vós não vistes, mas que em altura própria vos contarei e que podem mudar as nossas vidas. E agora, vamos embora! Como combinado, uns para dar testemunho perante o governador e os outros a caminho de Anás e Caifás.

Logo que os dois grupos se separaram, os quatro, cuja tarefa era informar Anás e Caifás do que se passara, começaram a preparar o terreno para o encontro, combinando as medidas a tomar perante imprevistas eventualidades: O que fariam se Anás e Caifás fossem vítimas de um ataque de fúria; se não fossem levados a sério; se eles os ameaçassem de julgamento e prisão, por supostamente terem falhado na guarda ao sepulcro, etc.

O outro grupo, três soldados mais o centurião Cassius, foram direitos ao palácio de Pilatos, que os recebeu algo mal humorado, abatido, sonolento, após mais uma noite mal dormida, por interferência dos fantasmas ameaçadores que lhe invadiam a consciência. Aquela sentença de morte a um prisioneiro depois de publicamente o declarar inocente, continuava, e continuaria até ao fim da sua vida, a fazê-lo rebolar na cama, a levantar-se com frequência devido aos dentes aguçados dos remorsos.

Às explicações de Cassius, Pilatos não deu importância, atribuindo tudo à acção de um dos deuses dos Judeus, tendo , porém, o cuidado de o aconselhar a não contar nada ao Sinédrio dos Judeus, para que não viesse a ter problemas. O mesmo conselho deu aos três guardas, não deixando de os censurar por não terem sabido resistir àqueles fenómenos que contavam, mas aos quais não dava crédito. Tanto Cassius, como os três guardas, fingiram aceitar as recomendações de Pilatos, mas a verdade é que já todos tinham começado a divulgar os fenómenos, pelo que o anúncio da Ressurreição de Cristo já andava no ar, mesmo entre os romanos.

Não longe dali, Anás, Caifás e outros membros do Sinédrio ouviam os relatos dos quatro gurdas, um de cada vez. Como todos contaram a mesma coisa, eles entraram em pânico furioso e agressivo, tudo traduzido em cólera incontrolável. Por um lado, por os guardas terem falhado na missão de guardar o sepulcro; por outro, por se verem derrotados e humilhados, após tanto trabalho, tanto esforço, tanta espionagem, tanto dinheiro gasto para pagar aos habitantes do bairro de Ofel pelo êxito do “Crucifica-o, crucifica-o!”. Agora, eles sentiam que tudo tinha sido em vão, sendo a presente situação pior do que a anterior, tal como temiam. Acalmando um pouco, perante uma opinião mais calma e sensata, depressa surgiu uma ideia salvadora. Recuperados do choque inicial, com ar mais calmo, eles surgiram com três trunfos para uma saída airosa:

1. Recurso a promessas de não sofrerem consequências pelas mentiras que dissessem.

2. Recurso a ameaças de serem acusados, julgados e metidos na prisão, por desleixo na missão que lhes fora confiada.

3. Recurso ao inesgotável tesouro do Templo para subornar os guardas, na condição de dizerem e propagarem o que lhes convinha: “Que, enquanto dormiam, os discípulos tinham vindo roubar o corpo”.

É evidente que os guardas passaram   a actuar em conformidade com o que lhes foi imposto.

Entretanto, os guardas que informaram Pilatos vieram também informar Anás e Caifás:

Caifás – Vós sois então os outros guardas que fostes ter com Pilatos e contar-lhe a vossa aventura. Quem vos autorizou a prestar contas a esse pagão?

Guarda 1 – Ninguém! Foi o centurião Cassius que nos aconselhou!

Anás – Nós já sabemos o que se passou convosco. Os outros já contaram e afirmaram, os quatro, que tínheis caído sob o efeito de um ataque de sono e também ficado atordoados pelo tremor de terra. Entretanto, os discípulos desse impostor vieram e roubaram o corpo. Vós concordais com o que eles dizem?

Guarda 2 – Nós não sabemos os que se passou enquanto ficamos atordoados e desmaiados. E também vimos um anjo à entrada do sepulcro, que nos aterrorizou e caímos todos uns em cima dos outros. Não sabemos quanto tempo ficámos assim. Nós não podemos dizer que alguém abriu o sepulcro e roubou o corpo, porque, se dissermos isso, mentimos!

Caifás – (Furioso) Mas os outros disseram, logo, vós estais a mentir! Além disso, mereceis punição por não terdes cumprido a vossa missão! Outra coisa: o que estava lá o centurião Cassius a fazer? Ele viu alguma coisa que vós não tenhais visto?

Guarda 3 – Ele lembrou que se cumpriu aquela profecia de ressuscitar ao terceiro dia e foi isso mesmo que ele foi dizer a Pilatos. E nós também dissemos, porque não acreditamos que alguém tenha roubado o corpo e também não acreditamos que os nossos colegas tenham dito outra coisa diferente de nós e do Cassius. E vós vedes que houve um terramoto quando Ele morreu e outro terramoto quando ele ressuscitou. Tendes provas disso nos diversos escombros que há no Templo e na cidade, inclusive lá no Gólgota.

Anás – (Altamente irritado) Pois vós ides ter de escolher: Ou passais a dizer que os discípulos dele roubaram o corpo enquanto dormíeis, ou sereis metidos na prisão! Tendes ainda um alternativa: aceitais o dinheiro que vos propomos em troca do vosso compromisso e guardais absoluto segredo daquilo que vistes, ouvistes e sabeis! Então, que dizeis?

Guarda 1 – Eu não aceito. Contarei sempre a verdade.

Guarda 2 – Recuso. A verdade é só uma, sempre e em todo o lado.

guarda 3 – Não mentirás. Yahweh abomina a mentira. Por isso, não aceito as vossas propostas.

Caifás – Então, ides directos para a prisão, onde ficareis não se sabe até quando!

Estes três guardas recusaram a proposta e foram mesmo encarcerados. Tanto eles como os centuriões Cassius e Longinus converteram-se e tornaram-se cristão, após receberem o Baptismo.

Como já tinha acontecido naqueles dias anteriores, a Anás e Caifás não interessava a verdade objectiva, mas a sua verdade, isto é, a sua mentira, e esta nascia no imenso tesouro do Templo. Como hoje ainda dizemos: “Tudo se compra e tudo se vende”. Termino, remetendo o leitor para o texto evangélico:

Alguns dos guardas foram à cidade participar aos sumos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. Eles reuniram-se com os anciãos e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: “Dizei isto: “De noite, enquanto dormíamos, os seus discípulos vieram e roubaram-no. “ E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que vos deixe tranquilos”. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinham ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os Judeus até ao dia de hoje. (Mt 28, 11-15).

Em breve o Sinédrio decretava a perseguição aos membros mais influentes do Cristianismo nascente e Estêvão inaugurava o volumoso livro dos mártires da Fé em Cristo, onde ainda hoje há imenso espaço para novos nomes…

“Quem poderá, Senhor, habitar no teu santuário?… Aquele que tem o coração puro…, que diz a verdade que tem em seu coração,…e não se deixa subornar para prejudicar o inocente!” (Salmo 14/15).

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 Ezequiel Miguel

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.No caminho de Emaús

.Ressuscitou, como disse.

 

O Sinédrio e a Ressurreição de Cristo

(Realidade & ficção)

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templo jerusalem“Jesus disse-lhes (às mulheres): Não temais! Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão.

Enquanto elas iam a caminho, alguns dos guardas foram à cidade participar aos sumos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. Eles reuniram-se com os anciãos; e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: “ Dizei isto: “De noite, enquanto dormíamos, os seus discípulos vieram e roubaram-no”. E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que vos deixe tranquilos”. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinha sido ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os judeus até ao dia de hoje”( Mt 28, 10-15).

Personagens: Anás, Caifás, Gamaliel, Sadoc, Doras, Shammai, Alexandre, Jónatas

O Sinédrio era um conselh de 72 personagens que geria os assuntos religiosos dos Judeus e também tinha poderes militares e judiciais. Incluía fariseus, saduceus, sacerdotes, anciãos e pessoas ricas e/ou influentes na sociedade daquele tempo. O tráfico de influências e a corrupção, no sentido em que nós hoje os entendemos, não eram excepções.

A notícia correu rápida. O corpo de Jesus desaparecera do sepulcro, apesar de guardado noite e dia por soldados judeus.. Era o terceiro dia após a sua execução no Calvário, um acontecimento que abalou tudo e todos, em Jerusalém, a que ninguém ficara indiferente, embora por motivos diferentes. A faísca incendiária partiu de Maria Madalena, que se deslocara cedo ao sepulcro, certamente movida em seu interior pelo próprio Deus, para ser a 2ª testemunha da Ressurreição, pois a primeira fora a Mãe de Jesus, em cuja alma nunca penetrara a dúvida sobre a Ressurreição do Filho, embora não tivesse ficado imune à tentação contra a Fé, pois, tal como o Filho, também ela se sentiu abandonada pelo Pai naqueles dias de trevas espirituais.

Também, como era inevitável, a notícia chegou rapidamente àqueles que teceram os acontecimentos daquela sexta feira passada, véspera da solenidade da Páscoa Judaica, mas os soldados romanos também não tardaram a contar tudo o que se passara naquela madrugada, em que um meteoro, investindo contra a entrada do túmulo de Cristo, provocou um estrondo tal que os soldados não deram por mais nada, estando ainda desmaiados quando Maria Madalena se deslocou ao túmulo e o encontrou vazio e em perfeita ordem. É lícito supor que os soldados, uma vez capazes de abandonar aquele espaço, foram directos a contar o que se passara.

Finalmente, pensavam as autoridades do Templo ter acabado de vez com o pesadelo de apanhar, julgar, condenar e executar Aquele que se apresentava como o Messias de Israel e pregava uma doutrina nova, mas que, para eles não passava de um impostor, um agitador e outras coisas. Embora perseguidos por fantasmas, todos os membros do Sinédrio que tinham votado a favor da condenação de Cristo à morte estavam convencidos de que poderiam descansar e continuar a viver as suas vidas de “santos de Israel”, apesar de Jesus os ter desmascarado com os epítetos que constam ainda hoje dos evangelhos: hipócritas, sepulcros caiados, assassinos de profetas, profanadores do Templo, violadores da Lei, arrogantes e blasfemos, que tinham tornado a Lei impossível de se cumprir, pelos muitos e desnecessários acrescentos saídos de suas cabeças. Tudo isto estava ainda fresco na memória deles, facto que lá continuaria até ao fim de suas vidas.

A notícia caiu bombasticamente sobre eles. Que fazer agora? O sumo sacerdote Caifás convocou apressadamente os mesmos da reunião anterior, deixando de fora José de Arimateia, Nicodemos, Eleazar, Menaem, Cusa,… por suspeitas de eles serem discípulos ou simpatizantes de Jesus. Particularmente intrigado, mas por outros motivos, estava o sacerdote Gamaliel, que vira concretizado o sinal que pedira a Yahweh sobre o Messias. E a reunião fez-se ainda no dia da Ressurreição, o primeiro dia da semana, o Domingo.

Caifás – Veneráveis e santos membros deste Conselho, já deveis saber a causa desta convocação urgente do santo Sinédrio. É que o corpo daquele impostor e agitador desapareceu do túmulo. Eu e o meu sogro Anás já lá fomos ver. O sepulcro está vazio e a grande pedra que tapava a sua entrada foi removida. Como isso aconteceu, nós não sabemos ainda explicar.

Anás – Nós suspeitamos que os discípulos dele foram lá de noite e roubaram o corpo. E quem sabe se não foi mesmo o José de Arimateia, o Nicodemos , o Eleazar, o Cusa, o Menaem,… ou os cinco juntos! Eu julgo-os capazes disso, tanto mais que o sepulcro pertence ao José!

Gamaliel – Más como foi isso possível, se o sepulcro estava guardado noite e dia pelos soldados romanos, a quem não se perdoa nenhum desleixo no cumprimento de missões militares?

Doras – Isso é perfeitamente possível! Podiam eles estar a dormir ou terem bebido vinho demais e estarem a curtir a bebedeira com um sono pesado. Então, os discípulos poderiam ter aproveitado a situação para roubar o corpo sem ninguém dar por isso. E agora, para esconder o roubo, eles propalam que ele ressuscitou. Isto é o que eu penso!

Gamaliel – Achais isso possível? Se os Seus discípulos fugiram todos com medo e continuam escondidos, quem teria coragem para aparecer lá em cima, sabendo que o túmulo estava guardado por soldados romanos? Isso seria a vergonha deles e do exército romano! Não vos lembrais que Ele garantira que ressuscitaria ao terceiro dia? Não vos lembrais que Ele disse que se destruísseis o Templo, Ele o reconstruiria em três dias? Ora, eu agora vejo qual era esse Templo a que Ele se referia: era o Seu próprio corpo, Templo de Deus, porque Ele é Deus, o Filho de Deus!

Caifás – Tu estás a delirar, ó Gamaliel! Se fosse assim, porque é que ele não foi mais claro? Se ele disse isso aqui no Templo, devia ter explicado que não se tratava deste templo de pedra, mas que se referia ao seu próprio corpo.

Gamaliel – Mas vós também deveríeis saber que Ele profetizou a ruína deste grandioso Templo de pedra, a honra e a glória da nossa nação, dizendo que, quando chegasse o dia, não ficaria dele pedra sobre pedra. Portanto, Ele falou de dois templos: este e o Seu próprio corpo. Vós destruístes o Seu corpo, mas Ele irá destruir este Templo em que nos encontramos. Consta-me que Ele anunciou isso poucos dias antes de ser preso. Só não disse quando seria. E também disse que Deus iria abandonar este Templo de pedra, por causa das muitas profanações e baixezas que nele se cometem, e porque, segundo Ele disse, Ele viera para aperfeiçoar a Lei e os Profetas, inaugurando uma nova era no relacionamento com Yahweh.

Na minha opinião, o rasgão do enorme cortinado do “Santo dos Santos” significa mesmo que Yahweh, já o abandonou, irritado, num gesto semelhante àquele em que tu, ó Caifás, rasgaste as tuas vestes quando o acusaste de blasfemar, por ele dizer que era o Filho de Deus. Tu rasgaste as vestes contra Yahweh, mas Yahweh também rasgou as Suas contra vós todos, querendo com isso dizer que a Aliança entre Ele e Israel caducou, por culpa vossa! A partir de agora, Yahweh já cá não tem a Sua Morada Santa. Todo este Templo passou a ser um local profano. Agora, eu penso que uma nova era já começou ou vai começar. Assim, no meu entender, aquilo que vós julgáveis ser o fim de um pesadelo acabará por ser o princípio de algo novo, sublime, que suplantará tudo aquilo que possais imaginar. O que é obra de Deus ninguém o pode destruir. Foi isso que eu vos disse antes de o condenardes à morte! Mas vós não me ouvistes!

Anás – Será que tu estás em teu perfeito juízo ? Dormiste mal? Tiveste algum sonho agitado? Estarás bêbado? O estado de embriaguez faz delirar e ter ideias esquisitas! Ou será que passas a ser seu discípulo? Vê lá! Isso pode dar-nos razões para te expulsarmos do Sinédrio e …algo mais!

Caifás – Bem, deixemo-nos de disputas! Nós precisamos de encontrar ideias, soluções e planos para este novo problema, que pensámos nunca vir a surgir, mas temos de enfrentar a realidade. Alguém tem alguma sugestão, ideia ou plano sobre o que fazer?

Shammai - Eu tenho uma sugestão, uma ideia e um plano! Temos de convocar os soldados romanos que constituíam o piquete que guardava o túmulo desse impostor! Se eles puserem obstáculos quanto a contarem-nos uma verdade do nosso interesse, recorremos ao tesouro do Templo para os convencermos. Já fizemos isso, pagando aos habitantes do bairro de Ofel para gritarem pela sua morte em frente de Pilatos. Não há nada que não se consiga com dinheiro vivo. Eles espalharão a nossa verdade e assim se destruirá qualquer atoarda espalhada pelos seus discípulos. Se, mesmo assim, eles recusarem a nossa oferta,, ameaçá-los-emos com a acusação, a Pilato, de falta grave no cumprimento dos seus deveres militares, o que se traduziria em julgamento , punição ou sentença de morte. Eles, aí, vão ter medo e contarão a nossa verdade.

Caifás – Parece um bom plano, ó Shammai, digno da tua inteligente cabeça! Alguém tem algo a dizer a este respeito?

Gamaliel – Antes que estas medidas sejam discutidas e aprovadas, peço licença para dizer ainda algo que preciso dizer, para que ajamos com prudência e sabedoria. Faço um apelo à memória daqueles de nós que estávamos presentes no exame de maturidade de um Jovem de 12 anos que, há cerca de vinte anos, passou pelo Templo. Deveis lembrar-vos que Ele nos espantou por Sua sabedoria e que nenhum de nós foi capaz de explicar de onde Lhe vinha. Nem sequer o nosso santo e sábio mestre Hillel! Se bem vos lembrais, Ele mostrou saber, já com aquela idade, coisas que nós, após tantos anos de estudo, não conseguíamos saber, sendo inclusivamente capaz de recitar de cor grandes passagens da Torá, fosse de que rolo fosse. Então, sobre Isaías… um espanto ! Sabia tudo o que ele diz sobre o Messias. Isto não vos diz nada? Eu fiquei perplexo, pensativo,…sobre se não seria Ele mesmo o Messias, pois Ele disse nessa ocasião que o Messias já estava entre nós, porque o tempo da profecia de Daniel a Seu respeito já se tinha cumprido.

Passados 20 anos, aparece por aqui já como adulto e a fazer o que todos nós sabemos e nós a fazer o que também nós todos sabemos. Quando Ele, há três anos, apareceu por aqui, eu reconheci Nele aquele menino de 12 anos e pedi então a Yahweh um sinal de que Ele seria o Messias verdadeiro e anunciado pelos profetas.

Anás – E que sinal foi esse? Já te foi dado? Quando e como?

Gamaliel – Esse sinal, por mim pedido, era este: Que um dia, comigo ainda vivo, o véu do Templo se rasgasse de alto abaixo sem intervenção de mãos humanas. Sabemos todos que este sinal se cumpriu na hora da sua morte… Como explicais que o varão que suportava aquele enorme e pesado cortinado tenha ficado em sua posição, sem sofrer danos, e o cortinado de púrpura se tenha inexplicavelmente rasgado de alto a baixo e assim continue? A partir de então, as coisas, para mim, mudaram, e oxalá levem mais alguém a mudar… Eu não preciso de mais provas! …Ah! Já me esquecia de um pormenor! A última vez que Ele passou por aqui, Ele disse-me: “ Dentro em breve vais ter o sinal que pediste!”. Ora, como é que ele sabia que eu tinha pedido aquele sinal, se eu nunca o revelara a ninguém? Agora, sou eu que aguardo a vossa explicação!…E calo-me para vos ouvir!

Sadoc – (Quebrando um longo, perturbante, silêncio e olhares cruzados em todas as direcções) Tudo isso são meras coincidências e, se não forem, são coisas só explicáveis por meio de Belzebú, de quem ele era um aliado. Até os doentes que ele curava e os mortos que ressuscitava era pelo poder de Belzebú.

Gamaliel – E Elias, que ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, também actuava por obra de Belzebú? Ora, Elias rezou pedindo a Yahweh que ressuscitasse o menino, o que aconteceu. Ora, hoje sei, ou sabemos, que há poucos dias ele ressuscitou Lázaro por sua própria autoridade, dizendo:” Lázaro, eu te ordeno, sai cá para fora!” E os demónios que ele expulsava? Também era por meio de Belzebú, como vós dizíeis? Que eu saiba, os demónios não se expulsam uns aos outros nem dão poder a ninguém para ser usado contra eles! Onde há sabedoria não há opiniões destas! Além de Lázaro e do filho da viúva de Sarepta, também ressuscitou o filho da viúva de Naím e ainda a filha de Jairo, o sinagogo de Cafarnaúm. Vós achais que Belzebú tem poder para ressuscitar mortos ?

Jónatas – Eu penso que não!

Alexandre – Eu também penso que não!

Gamaliel – Alguém pensa que sim?…..( Silêncio)……Então, ninguém diz nada? Esse silêncio significa que todos pensais que ele não tem esse poder. Agora, respondei-me: Se Belzebú não tem esse poder, como é que ele o vai dar a alguém para que o use contra si?

Ainda quanto ao plano apresentado por Shammai, tenho uma sugestão a fazer! Quando fordes conversar com os soldados romanos que estiveram de sentinela, fazei -lhes estas duas perguntas aos soldados que fizeram o primeiro turno: 1ª Quem ficou com as vestes daquele condenado? 2ª – Quem ficou com a túnica? Aos soldados do último turno, isto é, do que esteve lá durante a noite passada, perguntai como explicam eles que o túmulo tenha aparecido aberto estando eles de vigia? Pelas informações que tenho, Ele ressuscitou após aquele tremor de terra que sentimos esta madrugada, completando assim o cíclo da morte e da ressurreição: terramoto e trevas na morte, terramoto e luz na ressurreição. Quereis mais sinais?

Caifás – Penso que atribuis demasiada importância a esses factos. São puras coincidências!

Gamaliel – Sabeis tão bem como eu o que as Escrituras dizem a respeito do Messias. Peço-vos licença para vos recitar algumas passagens de um salmo (21/22) da Escritura. Vereis como tudo se aplica a Ele. Se me disserdes que são coincidências, digo-vos que são coincidências a mais para serem apenas coincidências. Leio-vos: “…todos os meus ossos se desconjuntaram,…a minha garganta secou-se como barro cozido e a minha língua pegou-se me ao céu da boca; reduziste-me ao pó da sepultura,….trespassaram as minhas mãos e os meus pés; posso contar todos os meus ossos,…olham para mim cheios de espanto. Repartem entre si as minhas vestes e sorteiam a minha túnica”. Ide confirmar, com recta intenção, se foi assim ou não e tirai as conclusões!

Anás – Tem paciência, ó Gamaliel! Estás um pouco excitado e nervoso, e, se te deixamos falar, ainda acabas por nos converter a todos e saímos daqui feitos seus discípulos. Por isso, proponho que te seja retirada a palavra até à votação final!

Gamaliel – Então, aqui vai a minha última palavra! Falastes há pouco na minha possível expulsão do Sinédrio. Vou facilitar-vos a vida, expulsando-me a mim próprio. Abandono de vez este Sinédrio, que insiste em se manter cego contra toda a evidência. As minhas dúvidas acabaram e quem tiver as suas, sirva-se da humildade, do seu conhecimento das Escrituras, compare-as com a vida, a morte e ressurreição deste Messias, fale com os Seus discípulos e descobrirá a Verdade. Quanto ao resto, se eu pedi um sinal e Yahweh mo concedeu, tenho de ser coerente e honesto! Por isso, o meu lugar já não é aqui e as minhas funções de sacerdote da Velha Aliança caducaram, pois um novo Sacerdócio irá surgir numa Nova Aliança. Vou juntar-me a Nicodemos, a José de Arimateia , a Menaem, a Eleazar, a Cusa, membros ilustres e rectos deste Sinédrio, que vós deixastes de convocar para que as votações decorram segundo os vossos interesses. Assim, esta será a minha última presença entre vós.

Caifás – Tem calma! Nós respeitamos-te como o maior mestre e doutor da Lei em Israel. Não te precipites, deixa correr algum tempo até ver em que pára tudo isto. Mas nós temos de agir depressa e bem, para que esta embrulhada não venha a ser pior que a primeira, por isso, proponho que seja posto à votação o plano sugerido por Shammai!

Gamaliel – Eu quero estar presente nas entrevistas com os soldados que guardavam o sepulcro! Eu próprio os quero interrogar na vossa presença!

Caifás – Lamento, mas eu, como sumo sacerdote e autoridade máxima deste santo Sinédrio, é que escolho a delegação que se encarregará desta tarefa! Por isso, aconselho-te a ficar de fora deste assunto! Depois, serás informado, tal como os outros!

A votação fez-se e o plano de Shammai foi aprovado, com o voto contra de Gamaliel, que logo ali se despediu de vez do Sinédrio, acabando por se entregar à causa de Cristo, apesar de ser já idoso e ter problemas de visão. Mas, como trabalhador da última hora, teve o mesmo prémio dos da primeira .

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 Ezequiel Miguel

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A Ceia da Despedida

(Mc 14, 17-31 ; Mt 26, 20-35; Lc 22, 14-38 ; Jo 13, 1-38)

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(Realidade & Ficção)

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O Cenáculo estava pronto para a última Ceia, após a azáfama dos Apóstolos para adquirirem tudo o que era necessário para se cumprir o ritual prescrito pela Lei de Moisés, a propósito da comemoração da Páscoa que, por sua vez, comemorava aquela passagem dos Hebreus da escravidão do Egipto à Liberdade. O Livro do Êxodo descreve essa passagem e como foi a última ceia em terras do Egipto.

Chegara para Cristo a hora de se despedir, pois iria ainda naquela 5ª feira dar início, no Getsémani, à  Sua Paixão e, como um pai de Família, tomou todas as previdências para que tudo corresse como estava previsto na Lei, da qual, Ele,  o Senhor da Lei, não se quis dispensar. E assim, Ele próprio indicou a cada um dos doze Apóstolos o seu lugar em volta da mesa, semi-deitados em cadeiras-cama, como era normal naquele tempo. Estamos habituados a ver a figura de Judas numa das pontas da mesa, feio, mal-humorado e com a bolsa à vista…, mas Cristo escolheu para ele o lugar à Sua frente, um lugar estratégico, para poder encará-lo olhos nos olhos, na esperança de que ele viesse ainda a reconsiderar quanto ao plano já estabelecido com os inimigos de Jesus. O passar todo o tempo da Ceia a encarar Judas de frente já era para Cristo um tormento que lhe revoltava as entranhas, que lhe tirava o apetite e Lhe cobria o rosto de uma profunda tristeza, o que os outros apóstolos não deixavam de notar, mas cuja causa eles estavam longe de adivinhar. Mas eles próprios também estavam dominados por um ar melancólico, apreensivo…, que se acentuava à medida que o Mestre ia orientando o decorrer da Ceia e ouviam Dele os últimos recados.

Jesus – Judas, tu ficas aqui à minha frente!

Judas – Mestre, Tu manténs-me sempre perto de Ti! Será que me amas mais do que aos outros?

Jesus – Eu amo-te tanto como aos outros, mas os outros não precisam tanto de ver o Meu Amor como tu, nesta hora…E tu até sabes porquê!… Além disso, o facto de nós estarmos aqui hoje deve-se a ti…, mais do que a nenhum outro…

Judas – Obrigado, Mestre, por me enalteceres aqui à frente de todos. Eu bem preciso disso, porque às vezes tenho a impressão de que ninguém, a não ser Tu, gosta de mim, o que eu acho profundamente injusto, porque eu nunca lhes fiz mal nenhum…

Jesus – E tens a certeza de que tu não lhes dás motivos para isso?…

Judas fez uma careta, esboçou um sorriso  sardónico e baixou os olhos. Começa a Ceia. Na mesa está um grande cálice, que Jesus enche de vinho e reza sobre ele. Cada apóstolo tem à sua frente um copo  individual, de pé alto. Segue-se o canto de salmos e a recitação das palavras do Ritual apropriadas. Jesus reza sobre o pão, parte-o e distribui-o, juntamente com as ervas amargas banhadas no molho. Chega depois o cordeiro assado, seguindo-se mais cânticos. Jesus parte o cordeiro, dando a cada apóstolo um bom pedaço, de modo a que ninguém fique com fome. Os apóstolos ouvem-No então proclamar:

Jesus –  Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa. Foi sempre o Meu desejo, desde que aceitei a missão de Redentor do género humano.

Simão – Mestre, a propósito da distribuição dos lugares, como é que poderemos saber quem é o maior de entre nós?

Jesus -  Se alguém quer ser o primeiro, seja o último e o servo de todos. O maior seja como o menor, o chefe, como aquele que serve os outros. Eu sou o que presido à mesa e, no entanto, estou a servir-vos. Ficai comigo nas horas que se aproximam e noutras que vos surgirão pela frente e com isso é que provareis a vossa grandeza aos olhos do Pai. Quem na dor Me acompanhar e for fiel até ao fim, esse é que terá o prémio. Está próxima a hora de Eu vos poder preparar um lugar junto do Pai, no Meu Reino, onde há moradas para todos os que acreditarem em Mim e Me acompanharem na minha Paixão, da qual deixo uma parte para todos passarem por ela.

Pedro – Mestre, nós seremos fiéis até ao fim ?

Jesus –  Pedro, vais passar por uma prova! Eu rezo por ti para que a tua fé não desfaleça e tu, quando te arrependeres, confirma na Fé os teus irmãos.

Pedro – Senhor, eu sou um pecador, mas serei fiel até à morte. Seguir-Te-ei para todo o lado e estou disposto a morrer contigo.

Jesus – Pedro, estás a ser vítima de um ataque de soberba! Dentro de pouco tempo muita coisa vai mudar. Vamos ser todos abandonados  pelo Pai e pelos Anjos e cada um de nós ficará entregue a si próprio, porque esta hora é a hora dos demónios. Até os Anjos vão sofrer e tapar os olhos para não verem aquilo que vão ver. Bem quereriam ajudar, mas…Aquilo que Eu vos disse sobre a Bondade e Providência do Pai, que Ele cuida de vós e dos passarinhos, que os Seus Anjos vos protegem, que calcareis aos pés escorpiões e serpentes, que não sereis tentados acima das vossas forças, que Ele sabe o que vós precisais…agora, esquecei tudo isso, porque é a hora em que seremos todos abandonados. Em toda a Terra não haverá Anjos nas horas que se seguem, porque o Pai os mandou recolher ao Céu. É a hora de se cumprirem todas as profecias sobre Mim e uma delas diz :“Ele foi contado entre os malfeitores”. E tu, Pedro, ora e vigia, porque Satanás anda à tua volta rugindo como um leão para te devorar.

Pedro – Mestre, eu morrerei Contigo ou, se quiseres, em vez de Ti!

Jesus – Ainda esta noite, antes de o galo cantar, três vezes me negarás!

Pedro – Mestre! Essa é demais! Eu tenho acreditado em Ti, em toda a Tua Palavra, mas nessa…desculpa lá, eu não acredito! Eu nunca Te negarei e todos estes vão ser minhas testemunhas!

Jesus – Oxalá que assim seja, meu Pedro, mas Satanás pediu-me para te joeirar.

E Pedro calou-se, deixando transparecer no rosto uma repentina angústia de incerteza…Se o Mestre tal dizia… Ele que sabia tudo antes de as coisas acontecerem!…

Simão – (Depois de ter ido a um baú buscar duas espadas) Mestre, o Pedro e eu temos espadas e os outros têm cada um o seu punhal curto. Quando for preciso, nós cá estaremos!

Jesus – Pensais que tereis ocasião para as usar? Mas agora vou ensinar-vos algo que tereis de usar. Acabei de vos servir o alimento corporal, mas agora quero prestar-vos um outro tipo de serviço, um alimento de um ritual novo de uma Aliança Nova, ainda não inaugurado por ninguém. Vamos suspender esta refeição.

E levantando-se da mesa, vai a um baú, despe a sua veste vermelha, cinge-se com uma toalha, enche uma bacia com água e coloca-a perto da mesa, tudo isto em silêncio e sob os olhares intrigados e espantados dos Apóstolos.

Jesus – Será que ninguém tem nada a perguntar-Me?

Pedro – Nós não sabemos o que queres fazer. Nós já nos lavámos antes da refeição!

Jesus – A minha purificação destina-se a quem já está puro, para ficar ainda mais puro.

Jesus ajoelha-se, descalça as sandálias a Judas Iscariotes e lava-lhe os pés, beijando-os em seguida. Um por um, faz o mesmo a todos. Judas não se comoveu, mas os outros…uns sentiram vergonha, outros comoveram-se e choraram.  Como era possível uma coisa destas? Mas Pedro…

Pedro – Tu lavares-me os pés? Era o que faltava! Eu não to permito! Tu és Deus e eu sou um pecador, um Zé ninguém, um verme. Tu és Tu e eu sou eu! Eu não deixo que me laves os pés!

Jesus – O que Eu te faço, tu não o compreendes agora, só mais tarde.

Pedro – Como queiras, Mestre, mas lavares-me os pés, nunca!. Deixa-me antes lavar os Teus!

Jesus – Olha, Simão de Jonas! Se Eu não te lavar os pés, não irás para o meu Reino. É preciso que te lave os pés, pois eles terão um longo caminho a percorrer e a tua alma precisa de pés fortes…Lembra-te que está escrito: “São belos os pés daqueles que anunciam boas novas.”

Pedro – Ó Senhor! Então lava-me os pés, a cabeça, os braços, as mãos…

Jesus – Vós já estais puros. Os pés precisam de ser purificados, porque são eles que levam o homem pelos maus caminhos que as más intenções abrem…

E, no meio de um choro convulsivo, Pedro deixa que Jesus lhe lave os pés e lhos beije. Finalmente, Jesus tira a toalha da cintura, lava as mãos, volta a vestir-se e a ocupar o Seu lugar,  olhando para Judas e dizendo:

Jesus – Agora estais puros, mas não todos. Somente aqueles que tiverem a vontade de permanecer puros.

Jesus enche novamente de vinho o grande cálice comum e todos bebem, seguindo-se o canto de vários salmos de louvor (114, 115). Quando algum versículo se aplica a Judas, Jesus fixa nele o Seu olhar, por exemplo :” Todo o homem é mentiroso”; “É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos justos”; “Eu não morrerei, mas viverei para cantar as obras do Senhor”; “Celebrai o Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”; “É melhor confiar no Senhor do que no homem”; “Maldito o homem que confia noutro homem”; “Eu cambaleava e ia a cair, mas o Senhor me amparou”; “A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular”; “Bendito o que vem em nome do Senhor”; “Eu me alegro, porque o Senhor ouviu a minha oração, porque volta os seus ouvidos para mim. Eu O invocarei por toda a minha vida, pois me haviam cercado as angústias da morte”; “O Senhor é clemente e compassivo, lento para a ira e pronto para o perdão”, etc.  Estas  sentenças dos Salmos atingem-no profundamente e perturbam-no, ao ponto de se desconcentrar, não acertando nem com a letra nem com a música nem com o tom. Tomé, um dos seus vizinhos do lado, sente a necessidade de lhe chamar a atenção para a desafinação com que canta… Após o canto, Jesus distribui nova dose do cordeiro assado e repesca o tema do lava-pés:

Jesus-  Eu quero que compreendais o meu gesto de vos lavar os pés. Trata-se de um gesto de humildade, um gesto de Deus a lavar os pés às suas criaturas, de o Senhor a lavar os pés ao seus servos, fazendo-se Ele próprio o servo dos servos. Será na humildade e no Amor a Deus e ao próximo que vós sereis grandes no Reino de Deus. Como Eu fiz, fazei vós também .  Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei, pois este é o mandamento novo que vos deixo. É por isto que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. Aquele que Me ama cumprirá as minhas palavras. Se alguém Me amar, o Pai o amará e  Nós viremos a ele e faremos nele a Nossa morada. Quem não Me tem amor não guardará as minhas palavras. Fazendo isto sereis felizes, mas não sereis todos felizes, porque se cumprirá o que foi escrito a Meu respeito: “Aquele que come comigo à mesa levantou o seu calcanhar contra Mim” (Sl 40, 10)

Após cantarem o longo salmo 118, Jesus senta-se e proclama:

Jesus – O velho rito terminou e vai ser inaugurado um novo. A Velha Aliança chegou ao fim e vai ser substituída pela Nova. A vítima dos sacrifícios não mais será o vitelo, a pomba, o cordeiro. A Nova Aliança vai ser alicerçada sobre Mim,  a Nova Vítima, a Vítima Eterna, a Vítima sem mácula, o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do Mundo, Aquele que se oferece ao Pai para remissão de todos os pecados dos homens. Será um ritual perpétuo de Amor, um memorial perpétuo a renovar-se a cada hora por toda a Terra. Este será o grande milagre do Amor, que agora vou realizar, não havendo na Terra nada superior a ele nem nada que se lhe compare. Será um milagre de união e comunhão entre Mim e vós e vós entre uns e outros. Eu vou partir mas não vos deixarei órfãos, porque ficarei convosco até à consumação dos séculos.

Jesus pega num pão inteiro, coloca-o sobre o cálice cheio de vinho, abençoa-os, oferece-os ao Pai, parte o pão em treze bocadinhos, coloca-os na mão esquerda, dá um bocadinho a cada um e diz:

Jesus – “Tomai e comei. Isto é o Meu Corpo, que vai ser entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.”

Faz o mesmo com o cálice, dizendo:

Jesus –  “Tomai e bebei. Isto é o meu sangue, que vai ser derramado por vós para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de Mim”.

Pega também no último pedacinho e no cálice, sai da sala e vai levar a Comunhão à Mãe. Regressa com o cálice vazio. Toma a palavra:

Jesus – Vistes o que eu fiz. Dei-me a Mim próprio. As minhas desculpas, se não posso fazer mais por vós. Agora compreendeis o que Eu queria dizer quando anunciei (Jo, 6) que Eu sou o Pão Vivo descido dos Céus, o Novo Maná , a Minha Carne e o Meu Sangue como alimentos de Vida Eterna. Quem Me come e quem Me bebe não mais terá fome nem sede e quem Me come e bebe terá cada vez mais fome e mais sede de Mim, um mistério que compreendereis mais tarde. Por este milagre de Amor Eu estarei em vós e vós em Mim, mas ai daquele (olhando para Judas) que se alimentar de Mim sem estar puro…Um de vós aqui não está puro! Um de vós Me vai trair! É por isso que Eu estou de espírito perturbado e numa tristeza de morte. A mão daquele que Me vai trair está comigo sobre esta mesa e nem o Meu amor, nem o Meu Corpo, nem o meu Sangue, nem a minha Palavra foram suficientes para o levar ao arrependimento…Eu lhe concederia o perdão e morreria também por ele, se…(lágrimas nos olhos e voz embargada). Na verdade, Eu vou ser traído, mas ai daquele por quem o Filho do Homem vais ser entregue! Melhor lhe fora não ter nascido! (1)

Os apóstolos entram em pânico e, cada um  por sua vez, perguntam a Cristo:

Todos – Serei eu?…Serei eu?…Serei eu?…

Judas –  (Sorrindo frio e tranquilo) Por acaso serei eu, Mestre?

Jesus – Tu mesmo o disseste. Tu mesmo te acusas, sem que Eu te tenha acusado…A  tua consciência te diz se és tu ou não. Não vale a pena enganá-la…, porque ela não se deixa enganar!

Todos suspeitam de Judas, mas Pedro é o que suspeita mais, pois Judas Iscariotes nunca lhe caiu no goto! João recebe um recado de Pedro para que pergunte directamente a Jesus, sobre Cujo peito apoia a cabeça, conseguindo falar com Jesus sem que ninguém mais ouça o que quer que seja.

João – Quem é, Senhor?

Jesus – Aquele a quem Eu der um bocado de pão (não consagrado) passado neste molho!…. (Cortando um pedaço de um pão inteiro, Jesus  banha-o no molho). Toma, Judas! Tu aprecias muito isto!

Judas – Obrigado, Mestre, pela Tua simpatia para comigo. Sim, gosto muito!

Enquanto ele come o pão avidamente, João sente-se horrorizado, tapa os olhos e soluça, em contraste com o satânico sorriso de Judas Iscariotes…

Jesus – Judas, agora que Eu já fiz por ti tudo o que podia…vai tu fazer o que ainda tens a fazer lá fora…E o que tens a fazer fá-lo depressa!

Judas – Está bem, Mestre! Eu cumpro as Tuas ordens! Depois nos encontraremos no Getsémani, porque Tu vais para lá, como sempre, não é verdade?

Jesus – Sim,… vou para lá,… como sempre…

Enquanto Judas se levanta, põe o manto e se prepara para sair:

Pedro – Mas onde é que ele vai sozinho? E a fazer o quê? Um de nós não pode ir com ele?

Judas –  Ouve lá! Eu já não sou criança e sei governar-me sozinho!

Jesus – Pedro, deixa-o! Ele e Eu sabemos o que vai fazer.

Pedro – (Vítima de uma terrível suspeita, sente remorsos…E se julgou mal?…) Está bem, Mestre, mas…

Jesus – (Em segredo a João, apoiado no Seu peito) Não digas nada a Pedro, por agora. Ele poderia armar aqui um escândalo desnecessário.

Judas – Adeus, Mestre! Adeus, amigos!

Jesus – (Triste) Adeus, Judas!

Judas saiu dali e dirigiu-se directamente ao Templo para informar os seus amigos sobre a possibilidade de apanharem Jesus no Getsémani naquela noite e receber os trinta dinheiros contratados pela traição, a qual se consumou com o tristemente famoso beijo ao seu Mestre, umas horas mais tarde, no Jardim das Oliveiras. Para sempre lá ficou a ecoar o lânguido suspiro do nosso Redentor: “Amigo, com um beijo entregas o Filho do Homem!?”. Assim foi!

(1)   – Esta foi a primeira Comunhão mal feita, o primeiro sacrilégio dos muitos que passaram a ser feitos até aos dias de hoje. S. Paulo diz-nos quais são as consequências de uma Comunhão em pecado mortal: “ Todo aquele que comer o Pão (consagrado) ou beber o cálice (com o Vinho consagrado) do Senhor, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste Pão e beba deste Vinho, pois aquele que o come e bebe sem distinguir o Corpo e o Sangue do Senhor, come e bebe a sua própria condenação (eterna).  Por causa disto há entre vós doentes e muitos morrem” (1 Cor 11, 27 – 30).

Era a esta trágica realidade que o Anjo de Portugal se referia quando convidou os Pastorinhos a consolar o nosso Deus pelos sacrilégios e ultrajes…com que Ele é ofendido.

Convém saber (ou lembrar) que não deve ir à Comunhão todo o baptizado que estiver em pecado grave, também chamado mortal. O arrependimento sincero, a promessa firme de emenda e a Confissão sacramental anulam o impedimento. Em casos de católicos em situações de adultério, divorciados vivendo com outros que não sejam  os seus cônjuges, uniões de facto, uniões homossexuais, situações de pedofilia, casamentos apenas pelo civil,  negação de verdades da Fé (seitas), actividades espíritas, bruxarias, ocultismo, maçonaria, defesa e propagação de ideologias ou doutrinas  condenadas pela Igreja ou em outras situações de pecado contínuo…a Comunhão está proibida a quem estiver nestas situações e a Confissão também, se a pessoa não estiver disposta a romper radical e definitivamente com a situação de pecado. Os que vivem nestas situações costumam consolar-se acusando a Igreja de ser demasiado severa…mas a Doutrina é de Cristo e tudo isto entronca no cumprimento dos Dez Mandamentos ou no seu desprezo. Na categoria de ultrajes entram os pecados que têm a ver com o desvio de Hóstias consagradas por pessoas que se apresentam à Comunhão e depois…enfiam a Hóstia num lenço ou num bolso e levam-Na para fora, para a vender ou para a utilizar em bruxarias ou em rituais satânicos.

Assunto para pensar!

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Ezequiel Miguel

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