Jesus ressuscita Lázaro

(Confira: Jo 11, 1-57)

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Lazaro30I – Morte e ressurreição de Lázaro

  Estava doente um homem chamado Lázaro, de Betânia, terra de Maria e de Marta, sua irmã. Maria cujo irmão, Lázaro, tinha caído doente, era aquela que tinha ungido os pés do Senhor com perfume e lhos tinha enxugado com os seus cabelos. Então, as irmãs enviaram a Jesus este recado:

Mensageiro – Senhor, aquele que amas está doente!

Jesus – Esta doença não é de morte, mas sim para a glória de Deus, manifestando-se por ela a glória do Filho de Deus.

Pedro – Mestre, vamos já para Betânia, em socorro dos nossos amigos Lázaro, Marta e Maria?

Jesus – Não, não vamos já! A seu tempo iremos. Já ouvistes que a sua doença não é de morte, por isso, continuaremos a cumprir a nossa missão aqui.  Ficaremos aqui mais dois dias!

Passados dois dias:

Jesus -  Vamos outra vez para a Judeia!

João – Mestre, há pouco os Judeus tentavam apedrejar-te e Tu agora queres ir outra vez para lá?

Jesus – Não tem o dia doze horas? Se alguém anda de dia, não tropeça, porque tem a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz com ele. O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo.

André – Mestre, se ele dorme, vai curar-se!

Jesus – Lázaro morreu! E Eu, por amor de vós, estou contente por não ter estado lá, para assim poderdes crer. Mas vamos ter com ele!

Tomé – Vamos nós também, para morrermos com Ele!

Em Betânia (a três quilómetros de Jerusalém):

Ao chegar, Jesus encontrou-o sepultado havia quatro dias.

Marta – Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido! Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedirdes a Deus, Ele to concederá.

Jesus – O teu irmão ressuscitará!

Marta – Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia!

Jesus – Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá!

E todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá para sempre. Crês nisto?

Marta – Sim, ó Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.

Jesus – Então, vai chamar a tua irmã!

Ainda antes de entrar na aldeia de Betânia:

Maria – (Ajoelhada aos pés de Jesus)  Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido!

Jesus (Comovido por ver tantas lágrimas à Sua volta) – Onde o pusestes?

Marta – Senhor, vem e verás!

Então, Jesus começou a chorar.

1º Judeu – Vede como era seu amigo!

2º Judeu – Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?

Jesus – (Suspirando) Vamos até ao túmulo de Lázaro!….Tirai a pedra!

 Marta – Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia!

Jesus – Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?   (Após a abertura do sepulcro e erguendo os olhos ao céu): Pai, dou-Te graças por Me teres atendido. Eu já sabia que sempre Me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu Me enviaste!…(Bradando com voz forte): Lázaro, vem cá para fora!

“O que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário.

Jesus – Desamarrai-o e deixai-o ir!”

II – Alarme no Sinédrio

“ Então, muitos dos Judeus que tinham vindo a casa de Maria, ao verem o que Jesus fez, creram nele. Alguns deles,  porém, foram ter com os fariseus e contaram-lhes o que Jesus tinha feito. Os sumos sacerdotes e os fariseus convocaram então o conselho.

Anás– Que havemos nós de fazer, dado que este homem realiza  muitos sinais miraculosos? Se o deixarmos assim, todos irão crer nele e virão os romanos e destruirão o nosso Lugar santo e a nossa nação?

Caifás – Vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira!

E a partir desse dia, resolveram dar-Lhe a morte. Por isso, Jesus já não andava em público, mas retirou-se dali para uma região vizinha do deserto, para um cidade, chamada Efraim, e lá ficou com os discípulos.

Estava próxima a Páscoa dos Judeus…Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no Templo: Que vos parece? Ele virá à Festa? Entretanto, os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem de que se alguém soubesse onde Ele estava, o indicasse, para O prenderem.”

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Considerações:

1. Vem ao caso perguntar: Onde estariam as almas  dos Justos antes de Jesus  morrer e  ressuscitar? Não estavam certamente no paraíso, uma vez que ele não fora aberto antes da  morte de Jesus. É o que quer dizer o Credo, quando dizemos: ” Desceu aos infernos e subiu ao Céu, onde está sentado à direita de Deus Pai, de onde há-de vir para julgar os vivos e os mortos”. Os infernos é o lugar inferior, o reino dos mortos, o Hades. A Igreja ensinava que os que morriam sem pecado iam para o Limbo. Recentemente, eliminou essa palavra do Catecismo. Cristo dizia que os justos iam para o “Seio de Abraão”. Com a morte e a ressurreição de Cristo os Justos do Limbo subiram ao Paraíso, reaberto por Cristo, o Primogénito dos mortos e dos ressuscitados.

2. Neste episódio, além da ressurreição de Lázaro, que estaria necessariamente no “Seio de Abraão”, porque era um Justo, confirma-se a Ressurreição Final de todos os humanos falecidos, seguida do Juízo Final, em que, após a sentença definitiva, os corpos ressuscitados irão acompanhar as almas a que estiveram associados. Esta Verdade é Dogma de Fé e consta do Credo, ficando herético quem a negar. S. Paulo diz que os que estiverem vivos nessa ocasião serão transformados e aguardarão a sentença final, tal como os ressuscitados. Assim voltarão a unir-se: a alma, ao seu único corpo e o corpo, à sua única alma.  Se é adepto da crença na reencarnação, deite essa ideia da cabeça para fora e não a divulgue, pois é um disparate monstruoso, divulgado pelo Espiritismo. Além disso, a Igreja, assim como a Bíblia, condena todas as formas de espiritismo e excomunga quem se mete nele, quem o divulga e quem o apoia, seja de que maneira for. Espero que não seja o seu caso!… Se for, enterre essa ideia e fuja quanto antes!

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Ezequiel Miguel

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Vai lavar-te à piscina de Siloé

(Confira: Jo 9, 1-40)

Personagens: Jesus, discípulos, Cego, vizinhos, fariseus

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Siloe30Ao passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe:
Discípulos- Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?
Jesus – Nem pecou ele nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras Daquele que Me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo.
Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e disse-lhe:
Jesus – Vai lavar-te na piscina de Siloé!
Ele foi, lavou-se e regressou a ver. Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam:
1º vizinho – Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?
2º vizinho – É ele mesmo!
3º vizinho – De modo nenhum! É outro parecido com ele!
Cego – Sou eu mesmo!
4º vizinho – Como foi que os teus olhos se abriram?
Cego – Esse homem que se chama Jesus fez lama, ungiu-me os olhos com ela e disse-me: “Vai à piscina de Siloé e lava-te!” Então, eu fui, lavei-me e comecei a ver!
5º vizinho – Onde está Ele?
Cego – Não sei!
Levaram o cego aos fariseus. O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado:
1º fariseu – Como é que tu começaste a ver?
Cego – Ele pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver!
2º fariseu – Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado!
1º vizinho – Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?
3º fariseu – E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?
Cego –É um profeta!
4º fariseu – Nós não acreditamos que tu tivesses nascido cego e agora vês! Vamos chamar os teus pais e tirar as coisas a limpo….Vós, aí, sois realmente os pais dele? É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então, como é que ele agora vê?
Pais – Nós sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego! Mas não sabemos como é que ele agora vê, nem quem foi que o pôs a ver! Perguntai-lhe a ele! Já tem idade para falar de si!
5º fariseu – Dai glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!
Cego – Se é um pecador, não sei! Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo!
1º fariseu –O que é que ele te fez? Como é que ele te pôs a ver?
Cego – Eu já vo-lo disse! Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?
Fariseus – Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés, mas, quanto a esse, nós não sabemos de onde é!
Cego – Ora, isso é que é de espantar: que vós não saibais de onde ele é e me tenha dado a vista! Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada!
Fariseus – Tu nasceste coberto de pecado e dás-nos lições? Põe-te já fora daqui e vai pregar para outro lado, pois não acreditamos em nada do que dizes! És um farsante, um mentiroso, um intrujão, um ignorante a armar-se em doutor da lei!
E puseram-no fora. Pouco tempo depois:
Jesus – Sei que te expulsaram. Diz-me: Tu crês no Filho do Homem?
Cego – E quem é, Senhor, para que eu creia Nele?
Jesus – Tu já O viste! É Aquele que está a falar contigo!
Cego – (Ajoelhando-se) Eu creio, Senhor!
Jesus – Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.
Fariseus – Porventura nós também somos cegos?
Jesus – Se fosseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.

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Observações–
1 . Como se entende esta última frase de Jesus? No sentido em que Ele fala, quem são os cegos e quem são os que vêem? Dito de outro modo: Quem são os que, vendo, são cegos e os que, não vendo, passam a ver?
Tem que se entender, necessariamente, no plano espiritual e doutrinal. Aqui, fala-se de dois tipos de cegos e dois tipos de não cegos. Partindo da cura de um cego físico, porque os seus olhos corporais não viam, Jesus salta para outro plano, outra realidade, referindo-se àquela em que se moviam os fariseus e a outras autoridades religiosas dos Judeus, dando a entender que a cegueira espiritual deles era voluntária, em oposição à cegueira corporal, involuntária, do cego, que não fizera nada para o ser.
2 . A cegueira voluntária dos fariseus consistia em serem espiritualmente tão cegos que recusavam ver, aceitar, reconhecer as obras de Cristo, nomeadamente os seus estrondosos e públicos milagres, pois, se os aceitassem, teriam de ser coerentes e intelectualmente honestos para verem em Cristo o Messias, o que alteraria por completo as suas vidas de “fariseus hipócritas”, como Cristo os chamou. Mas eles e outros preferiam continuar cegos, buscando para isso os necessários argumentos para se autoconvencerem e continuarem na sua cegueira, mesmo à custa de pecado, ao atribuírem os poderes miraculosos de Cristo aos demónios, nomeadamente a Belzebú, caindo assim num pecado contra o Espírito Santo, que, como Cristo também disse, não teria perdão durante a vida nem depois da morte.
3 . Estas atitudes têm implicações medonhas também no nosso tempo! Todos aqueles que abandonaram a Igreja Católica, ou que se recusam a entrar nela, atiram-se /atiraram-se para a multidão dos cegos a que Cristo se referia, porque, em seu orgulho, pensam que vêem, …e dali não passam, mesmo que a Verdade lhes entre pelos olhos dentro. Consolam-se atirando para o caixote do simbolismo tudo o que lhes custa a crer. Pairam na corda bamba, fingindo não acreditar nos precipício à esquerda e à direita. Vejam-se na Bíblia passagens claras, límpidas, irrefutáveis, imutáveis, eternas,…que a soberba e a cegueira humanas se atrevem a pôr em dúvida, a distorcer ou a negar em absoluto, modificando-as a gosto para se tragarem melhor:
. Esta é a Minha Igreja e as portas do Inferno não levarão a melhor sobre ela! ( Igreja única )
. Aquele sobre quem a minha Igreja cair ficará esmagado (Poder de excomunhão)
. Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja – (Instituição do primado de Pedro e seus sucessores como chefias da igreja Única de Cristo)
.Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja… Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu (a Igreja); o que atares na terra será atado no céu e o que desatares na Terra será desatado no Céu (Mt 16,18-19) – (Dogma da infalibilidade pontifícia em matéria de Fé, sacramentos, costumes, indulgências, culto, devoções, imagens, bênçãos etc.)
. Ide…perdoai os pecados! Aqueles a quem os perdoardes ficarão perdoados; aqueles a quem os não perdoardes não ficarão perdoados (Jo 20, 23) – (Sacramento da Penitência ou Confissão sacramental individual, meio ordinário para o perdão dos pecados).
. Isto é o Meu Corpo… que vai ser entregue por vós. …Isto é o Meu Sangue…que vai ser derramado por vós! Fazei isto em memória de Mim!…(Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio da Nova Aliança). Ver, entre outras passagens bíblicas: 1 Cor 11,23-29.
Se quem lê é destes cegos voluntários, aqui lhe fica o exemplo deste cego (não voluntário) de nascença. Entre ou reentre na Igreja Católica, pois ela é a verdadeira piscina de Siloé para todo o tipo de cegueira doutrinal e espiritual. Peça a Deus a cura da cegueira espiritual e doutrinal e, depois, diga como o cego de que se fala: “Eu creio, Senhor”! E a sua vida mudará, passando a ver o que hoje não vê. Não seja daqueles que busca argumentos falsos, como os fariseus deste episódio bíblico, para não acreditar naquilo que entra pelos olhos dentro!

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Ezequiel Miguel

 

 

Nota

A rebelião de Coré (Cf. Números 16 )

(Realidade e Ficção)

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Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –   Meribá (= Disputa)  e Massá  (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan),  Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

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“ Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” ( na Terra Prometida)(Salmo 95/96)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida,  onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel, ocupada entretanto por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números,  do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico e registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido  e meditado sob diversos ângulos por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento dele nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente nos filmes “os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra  prometida , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura , era, e ainda é,  o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo.  Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus  erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida  em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem,  Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé  e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas  de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá  (disputa)e Massá  (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”:

Coré – Olha lá, Moisés!  Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yhaweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés –  “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para  vos honrar perante a comunidade,  entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós  e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio .  Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh  fará conhecer quem é dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante  de Yahweh. Aquele que ele escolher, esse é o homem que lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora,  chamo  aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

Abiram – Eu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne,  sem vinho, sem uvas,  com  água potável só de vez em quando!  De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e  um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste com um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos idiotas, tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui!  Se tu, lá no Egipto foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teu truques, de morrermos  à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram –  Temos saudades das refrescantes  cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados!  Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para  a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda) da Reunião  com Moisés e Aarão”.

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão, afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés  e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH –“ Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui  morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

Lições a tirar:

1. A História de um povo faz-se com Deus ou contra Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar com tantos pormenores e milagres  a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem  pertenceriam,  por direito, esses territórios, onde a paz é árvore que não deita raízes.

Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe-nos muitas vezes à prova, a nossa fé Nele,com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, muitas vezes para nos levar a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.(…)

2. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, sem perguntar a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Ele bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e lá foi, baseado na promessa da protecção de  Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”!  Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!

3.  Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas  que exercem autoridade sobre nós, quer  definitivamente  quer  temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo  S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra  as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.

4. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube,  no quartel, na paróquia, no Movimento da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver um murmurador, seja ele quem for, …afaste-se dele quanto antes,  seja quem for  e seja onde for. Encare-o como um virus mortal e evite-o, se não puder exercer nele a correcção fraterna!

5.  Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz,  para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!

6. Quem despreza um profeta de Deus, despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive, outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo quase todos de perseguições, maus trato, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de que tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição mensagens proféticas teve enormes custos para  Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo o mundo.

7. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências  trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo”. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

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Ezequiel Miguel

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Jesus e a Samaritana (Jo 4, 4-38)

(Realidade & Ficção)

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“Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, que se chama Sicar, junto da herdade que Jacob deu a seu filho José. Ora, havia ali um poço, chamado a fonte de Jacob. Fatigado do caminho, estava Jesus sentado sobre a borda do poço. Era quase a hora sexta” (Jo 4, 5-6)

Cristo : – Vamos parar aqui. Vós ide à cidade e comprai o que é preciso para o almoço.

João – Vamos todos?

Cristo – Sim, João. É bom andardes em grupo.

João –  (Receoso pela segurança do Mestre…)E Tu ficas aqui sozinho? Vê lá! Eles são Samaritanos, inimigos dos Judeus!

Cristo – Não serão piores que os meus inimigos judeus. Ide, fico aqui a rezar por vós e por eles.

Os discípulos saem, um tanto contrariados, hesitantes, olhando para trás, para o Mestre, alimentando alguns receios secretos…Cristo tira o manto da cabeça, senta-se junto ao poço, num muro baixo, coloca o manto sobre o regaço, apoia os cotovelos sobre os joelhos, mãos juntas para a frente e cabeça curvada para o chão. Entretanto, surge uma mulher, de nome Dina, de 30-35 anos, que vem ao poço, trazendo uma ânfora vazia, segurando uma asa com mão esquerda, e com a direita afasta o véu, num gesto de surpresa, para ver o Homem que ali está sentado. Jesus sorri para ela e saúda-a:

CristoA paz esteja contigo, mulher! Podes dar-me de beber? Caminhei muito, estou cansado e com sede.

Dina – Oh! Tu não és Judeu? E pedes-me de beber a mim, que sou Samaritana? Que terá acontecido? Será que já foram feitas as pazes entre nós? Algo de grande aconteceu, se um Judeu fala educadamente com uma Samaritana. Mas eu devia dizer-Te (arrogante e irritada…): Não Te dou água, para castigar em Ti todas as patifarias que os Judeus nos têm feito ao longo  dos séculos! E até teria muito prazer em ver-Te aqui morrer à sede! E não só a Ti, mas a todos os Judeus!

Cristo – Disseste bem! Aconteceu realmente algo de grande, que muitas coisas já mudou e outras vai mudar. Deus ofereceu um grande dom ao mundo. Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz:”Dá-me de beber!”, talvez tu mesma Lhe pedisses de beber e Ele te daria água viva. Então, tu própria te tornarias uma fonte de água viva a jorrar para a vida eterna.

Dina – A água viva está nos lençóis subterrâneos que alimentam este poço, que é nosso (dito em tom zombeteiro, orgulhoso e levando a palma da mão direita ao peito…)! Mas esta água está funda e Tu nem sequer tens com que a tirar. Como é que Tu me podes dar dessa água de que falas? Será que  vais fazer um milagre para a transformar e fazê-la vir cá acima por si mesma? Este poço foi mandado construir por nosso Pai Jacob e não há por aqui outra água como esta. Como é que Tu me vais dar de outra água? Não compreendo!

Cristo – A água é de Deus! É Ele que a dá a todos os Seus Filhos, assim como lhes dá a vida, os alimentos, as árvores, os frutos, a chuva, o sol, o dia, a noite,…Tudo é de um único Deus, mulher, e todos os homens vêm de um único Deus, tanto os Samaritanos como os Judeus. Este poço é de Jacob, como dizes. E Jacob não é a cabeça dos nossos povos? Portanto, temos uma origem comum, apesar de alguém nos ter levado à separação.

Dina –  (Em tom agressivo e irónico). Queres então dizer que a culpa é nossa, não é? Tinha que ser! Nós é que somos os culpados, claro, e vós, os Judeus, os inocentes, os anjinhos puros!…

Cristo – Mulher, Eu não te ofendo nem ofendo a tua raça. Porque és agressiva para Comigo?

Dina – Tu és o primeiro Judeu que ouço falar assim. Os outros…(faz um gesto de repulsa) só valorizam a nossa água e a nossa fonte de Jacob, de água pura, fresca, cristalina. Parece que é a única coisa boa que encontram em nós!

Cristo – Quanto à vossa água maravilhosa, é mesmo como dizes. Mas quem bebe desta água ficará ainda com sede. Eu, porém, tenho uma água viva que, quem a beber não sentirá mais sede. Mas é só minha e sou Eu que a dou a quem ma pedir. E em verdade te digo que quem beber da água que Eu lhe der ficará para sempre coberto de orvalho e não terá mais sede, porque a minha água se tornará nele nascente certa, permanente, constante,  eterna.

Dina – Como é isso? Não entendo nada! És porventura um mago? Como pode um homem transformar-se num poço? Estás a gozar comigo! O camelo bebe e faz a sua reserva de água no seu ventre. Mas depois, consome-a e não lhe dura a vida inteira. E Tu dizes que a Tua água dura para toda a vida?

Cristo – Ainda te digo mais: ela jorrará até à vida eterna e dará frutos de vida eterna, porque é uma fonte de salvação.

Dina –Que bom! Se não estás a brincar comigo ou a sonhar, dá-me dessa água, se é verdade que a possuis. Eu canso-me para vir até aqui buscá-la. Se ma deres, não preciso mais de vir aqui, não terei mais sede e não ficarei doente…nem velha…nem morrerei, uma vez que dá vida eterna! Onde a tens e quanto é que eu preciso de pagar por ela?

Cristo – Não pagarás nada por ela, bebas dela a quantidade que beberes!  Mas…diz-me uma coisa: Só de vir aqui a buscar a água é que te cansas? Não andarás também cansada de outras coisas? Só pensas na água para o teu pobre corpo? Existe algo que é mais importante do que o corpo. Tu já viste que canseiras te custam essas pinturas, essas tranças que o teu fino véu deixa ver, esse vestido listrado e multicolor, apertado na cintura, no peito e nas ancas, tudo para realçar a tua sensualidade provocante e pecaminosa? Pecas tu e fazes outros pecar! Já pensaste que serás responsável pelos teus pecados e por todos aqueles que fizeres cometer a outros? Não te preocupa isso? Já tomaste o peso a essa enorme quantidade de anéis, pulseiras, colares, medalhões de várias formas, brincos que agora mesmo brilham à luz do sol? Pareces uma montra ambulante de pesada joalharia e uma feira ambulante de vaidades! Já viste tantos cuidados que dispensas ao teu corpo, que o Pai do Céu te deu tão bem feito,  alto,  moreno, belo,…para com ele O louvares, Lhe agradecer  e pôr ao  serviço da tua alma? É a tua alma, mulher, que tens de tornar bela! Jacob não deu a si mesmo e aos seus somente a água deste poço, mas preocupou-se em dar a si mesmo e aos outros a santidade, que é a água de Deus.

Dina – ( Deixou de ser petulante e irónica. Apresenta-se submissa, confusa e muda o tom de voz e o assunto da conversa) – Vós dizeis que nós somos pagãos…Se isso for verdade, nós não podemos ser santos…porque só o pecado mora connosco!

Cristo – Um pagão também pode ser virtuoso e Deus, que é justo, o premiará pelo bem que tiver feito. Não será um prémio completo, mas  entre um fiel com culpa grave e um pagão sem culpa, Deus será menos rigoroso para com o pagão. Sabendo vós que sois pagãos, porque não vindes ao Deus verdadeiro? (Cristo olha-a nos olhos, enquanto  espera por uma resposta, que não vem… ) Como te chamas?

Dina – Dina!

Cristo – Pois bem, responde-me, Dina! Tu sentes não poder aspirar à santidade porque és pagã, porque andas nas névoas de um antigo erro, como Eu digo?

Dina – Sim, eu sinto que é mesmo assim como dizes!

Cristo  – Então,… porque não vives como uma pagã virtuosa?

Dina – (Confusa, atrapalhada,  olhos no chão, sem palavras para se desculpar…) Senhor!…

Cristo – Não tens nada a dizer?… Vai chamar o teu marido…e volta aqui com ele!

Dina  – ( A sua confusão aumenta) Eu não tenho marido!…

Cristo  – Disseste bem! Não tens marido! Tiveste já cinco maridos e agora tens um contigo que não é teu marido. A tua religião também não aconselha isso!… Vós também tendes os Mandamentos (Decálogo) dados por Deus a Moisés! Porque, então, Dina, vives assim, mergulhada no pecado? Não te sentes cansada dessa canseira de seres carne prostituída para tantos e não a mulher honesta de um só? Não ficas com medo da tua velhice, quando te encontrares sozinha com as lembranças dos teus pecados, as tuas saudades, os teus medos, os teus pesadelos, os teus remorsos, os teus terrores, os teus fantasmas, a incerteza da justiça divina? Como sabes se acordarás viva cada manhã, cá na Terra? O pensamento, a eventualidade da tua condenação eterna não te dá ânimo para levares uma vida honesta, segundo os Mandamentos?

Dina – Senhor, vejo que és  um Profeta!

Cristo – Mulher, Eu sou mais que Profeta!… Onde estão os teus filhos?

Dina – (Baixa a cabeça, olha para o chão …) Não tenho filhos!

Cristo – Não tens, mas já tiveste!…Não os tens nesta Terra, mas as suas pequenas almas, que tu impediste de verem a luz do dia, acusam-te… (Pausado, mas incisivo…) Sempre jóias,…belos e provocantes vestidos,…casa rica,…mesa farta,…festas,…brincos,…colares,…cintos de ouro e prata,…pulseiras vistosas,… mas tu és uma miserável! Sim, há em ti um enorme vazio, lágrimas e muita miséria interior. És uma desorientada, uma perdida, uma barca à deriva,…apesar do teu falso ar de felicidade! Somente com um arrependimento sincero, através do perdão de Deus e do perdão dos teus filhos, poderás vir a ser rica!

Dina –(Sentindo-se incomodada, semblante atingido pela tristeza, lágrimas a aflorar…)Senhor, eu tenho vergonha! É mesmo como dizes!…(tapa o rosto com as mãos para disfarçar o choro…)

Cristo – E do Pai que está nos Céus, tu não tinhas vergonha quando praticavas o mal? Não chores pela vergonha diante do Homem…Vem aqui, Dina, para mais perto de mim (ela senta-se perto de Cristo). Eu vou falar-te de Deus, que talvez não conheças bem e, por isso, tens feito tanta asneira…Se tivesses conhecido bem o verdadeiro Deus, não terias descido tão baixo, pois Ele te teria falado e amparado.

Dina –(Tentando desviar a conversa) Senhor, os nossos pais adoravam Deus neste monte (Garizim). Vós dizeis que só em Jerusalém é que se deve adorar. Mas Tu dizes: Deus é um só. Ajuda-me a ver onde e como devo fazer!

Cristo – Mulher, crê em Mim! Vai chegar a hora, que já começou, em que nem no monte Garizim, da Samaria, nem no monte Sião, de Jerusalém,  o Pai será adorado. Nós adoramos Aquele que conhecemos, porque a Salvação vem dos Judeus, como vieram também os profetas. Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, não mais com o rito antigo, mas com o novo rito, no qual não haverá sacrifícios e ofertas de animais consumidos pelo fogo, mas Sacrifício eterno da Hóstia Imaculada, queimada pelo Fogo do Amor. Será um culto espiritual do Reino espiritual. Deus é Espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em Espírito e Verdade.

Dina – Tu tens palavras santas, nunca ouvidas por aqui!… Eu sei que está para chegar Aquele que  também é chamado o Cristo. Quando vier, Ele nos ensinará todas as coisas. Também por aqui perto anda aquele que dizem ser o seu Precursor. Muitos vão ouvi-lo, mas ele é tão severo!…Diz coisas terríveis! Só falta que mande cair fogo do céu! …Tu és bondoso,…calmo,…compassivo,…tolerante,…não ameaças, não insultas, não metes medo, dizes palavras que que vão direitas como setas, ao nosso coração. Penso que o Cristo também será assim, como Tu!. Dão-lhe o nome de Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz …( Is 9,5) Ainda falta muito para  Ele vir?

Cristo – Eu já te disse que o tempo Dele já chegou e que Ele já está entre vós.

Dina – Como é que o sabes? És porventura um dos seus discípulos? O Precursor tem muitos discípulos, que depois vão ser discípulos do Cristo.  Quem me dera vê-LO!

Cristo – O que farias, se O visses e te encontrasses em frente Dele?

Dina – Isso seria sonhar! Há tantos anos que foi profetizado e calhar-me a mim essa bênção…nem quero crer! Acho que me ajoelharia a Seus pés e lhos beijaria! Depois, pedia-lhe que me limpasse a alma e me aceitasse ao Seu serviço como a mais ínfima das suas servas! …Mas isso…é sonhar demasiado alto! Como eu seria feliz,… feliz,… feliz!… (Olhando para o céu com ar sonhador…)

Cristo – E como achas que será o Cristo, o Messias?

Dina – Penso que será um Homem alto, bonito, de cabelos louros até aos ombros, de olhos azuis, com uma barba dividida a meio, com uma testa grande e saliente, com um porte real, majestoso, com um olhar vivo, límpido e perscrutador, capaz de ver através do opaco, meigo, bondoso, manso, atraente, de sorriso divinal e fazendo covinhas nas faces quando sorri,…tudo assim como Tu!

Cristo – Dina, olha bem para Mim! … Eu, que estou a falar contigo, sou o Cristo Jesus, o Messias!

Dina –(Levanta-se de repente, em grande confusão, com gestos descontrolados, com cara de medo… e mostrando sinais de querer fugir…) Tu!?…Oh!…

Cristo – Espera aí, mulher! Porque foges de Mim?

Dina – Porque tenho nojo de ficar perto de Ti. Tu és santo!…E eu…Eu também fujo de mim!

Cristo –Confia em Mim! Eu sou o Salvador, Aquele que tira o pecado do Mundo. Eu Vim até aqui porque sabia que a tua alma andava cansada e errante e tu andas enjoada do teu alimento venenoso …Eu vim para dar-te um alimento novo que te tirará as náuseas e o cansaço…Olha, lá vêm os meus discípulos de volta, com pão! Mas Eu já estou alimentado por te ter dado as migalhas iniciais para a tua redenção.

Dina – Senhor, Tu não vieste aqui por acaso!…Ajuda-me! Hoje mesmo vou mudar de vida! Não quererás aceitar-me como uma humilde serva ao Teu serviço?

Cristo – A tua hora chegará! Acompanharás outras mulheres na difusão da mensagem que eu venho trazer ao mundo. Há muitas outras ovelhas como tu que precisam dos nossos cuidados.  Aguarda e a seu tempo chegará a tua oportunidade. Por agora, sê apóstola na tua cidade!

Os discípulos chegam, olham intrigados, de soslaio, meio disfarçadamente, para a mulher, mas nenhum diz nada ou pergunta o que quer que seja ao Mestre. Apenas cochicham entre si e se interrogam mutuamente. Dina afasta-se, deixando no local a ânfora vazia, sem mais pensar na água. Pedro interrompe aquele silêncio embaraçoso:

Pedro – Aqui está, Mestre! Eles (habitantes de Sicar) trataram-nos bem. Eis o queijo, o pão fresco, as azeitonas e as maçãs! Serve-te! Aquela mulher fez bem em deixar a ânfora. Assim guardaremos melhor a água e não precisaremos de pedir mais nada aos Samaritanos… Não comes? Eu quis trazer-te peixe, mas não encontrei. Talvez preferisses o peixe. Mas…tens ares de  cansado e  estás pálido!…

Cristo – Eu tenho um alimento que vós não conheceis. Comerei dele e ficarei bem alimentado.

Os discípulos trocam olhares intrigados e interrogadores, cada um fazendo as suas perguntas mudas e olhando à volta para tentar descobrir algo parecido com alimento… Cristo esclarece:

Cristo – O Meu alimento é fazer a vontade Daquele que Me enviou e levar a bom termo a obra que Me entregou. Eu venho fazer a sementeira do Reino. O semeador sempre se alegra com o fruto da sua sementeira. Assim Eu me alegrarei com a colheita que vós ides fazer quando ceifardes e, pelo vosso trabalho, Eu vos compensarei com o devido salário no Meu Reino eterno. Vós só ceifareis, porque o trabalho mais duro Eu já o terei feito. Quando todo o trigo que Eu tiver semeado for por vós ceifado, então se cumprirá a vontade de Deus e Eu me sentarei para o banquete na Jerusalém celeste. Mas… vamos almoçar, pois não tarda muito que os Samaritanos de Sicar apareçam por aí com a Dina. Sede simpáticos e caridosos para com eles! São almas que vêm à procura de Deus, ovelhas tresmalhadas à procura do Pastor.

E. Miguel

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Jesus no Deserto (Cf. Lc 4, 1-13)

(Realidade e ficção)

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Jesus17Os Evangelhos narram que, ao iniciar a sua vida pública, Jesus foi para o deserto e lá permaneceu em jejum e oração durante 40 dias, no fim dos quais teve fome ( Mt 4, 1-2). No deserto havia concavidades e grutas, umas provocadas pela erosão dos ventos agrestes e outras aumentadas e aperfeiçoadas por pessoas que fugiam à justiça que os perseguia pelos seus crimes ou ainda por quem se aventurava a atravessá-lo. Foi numa dessas grutas que Jesus se estabeleceu para o Seu retiro de 40 dias, que o demónio aproveitou para O tentar, de acordo com a narração evangélica.

Todo o deserto atingiu uma alta temperatura e Jesus, pela hora do meio-dia, está sentado à entrada da gruta, sobre uma pedra que também Lhe serve de travesseira durante as poucas horas de repouso.  A Sua atitude é de quem está em oração, com os braços apoiados sobre os joelhos e o rosto apoiado nas mãos, com os dedos entrelaçados. É nesta posição que um viajante beduíno surge em frente Dele e tenta estabelecer a conversa, depois de ter observado a palidez e a magreza do Senhor:

Viajante – Estás sozinho?… (Silêncio)  Como vieste parar aqui ?… Andas perdido? …(Silêncio) Pareces estar a arder em sede. É pena, porque eu já não tenho água no odre. O meu cavalo morreu e eu vou até ao Jordão, onde poderei beber à vontade e encontrarei alguém que me dê um bocado de pão. Vem comigo até lá! Eu sei o caminho, por isso posso ser o teu guia!

Jesus ouve todas aquelas perguntas, sugestões e convites, mas continua em oração e nem sequer levanta o olhar para o forasteiro, sentado em frente Dele. É este comportamento que leva o forasteiro a dar sinais de que é Satanás, passando a agir como tal:

Satanás – Ah! Afinal és Tu! Há que tempos que ando à Tua procura e agora descobri-Te. Já desde o teu Baptismo que tento observar todos os Teus passos. Agora estás para aí em oração ao Eterno? Ele está longe e Tu estás  abandonado, com fome, sede, calor de dia e frio de noite, pálido, fraco, sem forças para Te aguentares nas pernas…Abandonaste o Céu para vires instalar-Te na Terra, entre os homens, perdido no meio deles. Mas fica sabendo que eu é que reino entre eles e são minhas as leis que regem as suas vidas.

 Eu tenho muita pena de Ti, porque vieste sacrificar-Te em vão, pois eles não irão aproveitar nada do que Tu lhes ensinares. Deixa-os comigo, fala-lhes de dinheiro, de comida, de sexo. Essa é a linguagem que eles entendem. Sacrifício, penitência, arrependimento, dor, obediência às Tuas Leis…isso são tudo palavras sem sentido que para eles não significam nada. Eles são ainda mais estéreis que este deserto e que as suas areias e poeiras. Tu, que és a pura Bondade, o perfeito Amor, não merecias isto! Falo-Te assim, porque eu conheço-os melhor do que Tu. Larga-os da mão e deixa que no fim tenham o que merecem! …Fazes mal em não me dares ouvidos…É a minha sabedoria que governa a Terra, por isso conheço todos os truques e trapaças para singrar na vida. Até posso dar-Te umas lições. Tu és jovem e belo, por isso, deves aproveitar o que todos aproveitam e começar por onde todos começam: a mulher! Tu és o Novo Adão e precisas de uma nova Eva. Precisas de saber o que é a sensualidade, para ficares em condições de curar todo o cortejo de miséria moral de que ela (a sensualidade) é a mãe. Basta que as atraias com ouro e poder e terás quantas quiseres! Só assim saberás o que é a vida e só assim poderás curar as doenças da humanidade. Não viste como eu à Eva prometi Poder, Grandeza, Conhecimento, Endeusamento, Glória, …ser igual a Deus? Viste como ela caiu sem pestanejar? O melhor que podes fazer é casar, pois não foi essa a ordem que destes ao primeiro casal: crescei e multiplicai-vos! Mas…deixemos a mulher, que parece não te atrair, talvez porque as privações de alimento te dêem uma visão ofuscada da realidade!

Olha para estas pedras redondas, lisas, luzidias e douradas à luz do sol. Parecem mesmo pães. Basta que digas, como Filho de Deus, “Faça-se!” e elas convertem-se em pães acabadinhos de sair do forno, perfumados e apetitosos. Se quiseres, também destas acácias esturradas podes colher belas maçãs ou tâmaras com sabor a mel. Tu és o Senhor do Universo e podes tudo, se quiseres. Mas Tu não queres. Estás tão fraco que já nem um milagre a Teu favor és capaz de fazer. Pobre Jesus! Mas se Tu não queres, ajuda-me, dá-me o poder e eu farei um milagre por Ti, para Te servir, porque Tu és o meu Deus, com Quem em tempos eu vivi,…tempos de que tenho imensas saudades! Como eu transmitia luz!…Agora sou um carvão negro!…

Jesus – Cala-te! Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que vem da boca de Deus.

Satanás – Está bem! Recusas os meus serviços. Mas vem ver o que acontece na Casa de Deus! Vê como todos aceitam aquilo que Tu recusas, até os mais altos…, o que prova que são homens e não anjos. É a eles que me dá prazer fazê-los cair do pedestal…E eles não se fazem muito rogados! Tu sabes isso tão bem como eu e serão eles os Teus maiores inimigos, aqueles que condenarão o Justo…Para esses terás vindo em vão, porque eu os cegarei, de modo a que não vejam em Ti mais que um arruaceiro, um rebelde, um inimigo da Tua própria Casa, um blasfemador, um inimigo de Israel. Tu irás desmascará-los, os santos de Israel, como eles se intitulam (e solta uma estrondosa gargalhada, após a qual os seus olhos deixaram transparecer  um  ódio de morte…), mas Tu vais pagar por isso um alto preço. Ainda por cima, vens lá de Nazaré…e isso é mais uma pedrada de descrédito a Teu desfavor. Até um daqueles que vais escolher dirá de Ti:” De Nazaré poderá vir alguma coisa boa?”. (Jo 1,46). Tenho pena de Ti! Ainda estás a tempo de desistir e evitar o que Te espera.

A Tua Casa, o Templo, que é a glória de Israel, está transformado numa toca de víboras que tentarão morder-Te sempre que lá puseres os pés, porque serás tido por incómodo…Chegaram ao ponto de fazer da Casa de Teu Pai um local de feira, de vendilhões, de ladrões e sabe-se lá que mais! Até mesmo aqueles com o título de mestres, de doutores,…não tirarão partido dos seus estudos, dos seus cálculos, da análise das profecias…e não chegarão a reconhecer-Te como o Messias, porque eles esperam um Messias que os liberte do domínio dos Romanos…Eles já deturparam tudo a respeito do Messias e já calcaram aos pés o Servo de Iahweh (Isaías 9, 1-6), que lhes diz que o Messias profetizado é um Rei Espiritual, Conselheiro-Admirável, Deus-Forte, Pai-Eterno, Príncipe-da-Paz. Eles não verão em Ti mais que um pobre homem pregando uma doutrina subversiva. Por isso, eles Te matarão e da Tua morte muito poucos aproveitarão ao longo dos séculos e dos milénios.

Jesus – Aproveitarão os que estiverem inscritos no Livro da Vida.

Satanás – Mas o meu Livro da Morte terá muitas mais páginas que o Teu Livro da Vida. Se queres mesmo iniciar a Tua vida pública, entra em grande e manifesta logo Quem realmente Tu és, o Filho de Deus, o Executor da vontade do Pai, o Alfa e o Ómega, o Deus omnipotente perante o Qual tudo e todos se vergam, no Céu, na Terra e nos Infernos! Não entres como um pobre, um solitário, um desconhecido, um fraco, um pelintra que não tem sequer onde dormir! Vem comigo até ao pináculo do Templo e lá daquelas alturas mostra a todos o Teu poder, a tua divindade omnipotente, atrai aqueles milhares de visitantes e perante eles faz um milagre, para que todos vejam, ao deitares-Te dali abaixo, que os teus anjos virão proteger-te, para que os teus pés não se magoem lá em baixo, como está escrito num dos Salmos (Sl 90). Logo ali mostrarás que és Deus e todos te seguirão com entusiasmo. Um  acto destes pode valer mais, para a Tua Causa, do que percorrer muitos quilómetros pelas estradas e caminhos da Palestina.

Jesus – Também está escrito: “Não tentarás o Senhor, teu Deus!”.

Satanás – Compreendo que não queiras fazer um milagre para dares nas vistas. Bem vistas as coisas, não converterias ninguém e muito menos os corruptos do Templo, que só uma força vinda de espadas humanas poderá dominar. Tu irás ver, como apesar de fazeres tantos milagres em Israel, curar cegos, coxos, surdos, mudos, paralíticos, ressuscitares mortos,…eles, duros de coração, cegos, surdos, …não aproveitarão nada e Tu vais perder tempo com eles. Até os milagres que vais fazer serão atribuídos a mim…ou dirão que sou eu que Te dou esse poder (larga sonora gargalhada)…Sou eu que os faço descer até essa baixeza. Mas eu queria de Ti algo que me elevaria dos infernos até ao mais alto do trono do Altíssimo: Concede-me, por momentos que seja, todo o poder que tens e adora-me como deus, ajoelhando-Te perante mim! Tu verias aquilo de que eu seria capaz!

Jesus – E que farias com todo esse poder?

Satanás – Nem imaginas! Apagar-se-ia de uma vez por todas esta infinita ânsia de ser igual a Deus, de rivalizar com Ele, de ser adorado, como sempre quis e quererei, porque estes desejos imperiosos me consomem, me derretem, me provocam um sofrimento pior que todos os do inferno juntos. Estas ânsias já me vêm daqueles tempos em que eu me revoltei e quis destronar o Altíssimo ou, pelo menos, ser igual a Ele. Nesses momentos eu me sentiria calmo, glorificado, honrado, divinizado, adorado. Ó momento supremo, pelo qual teria valido lutar durante uma eternidade! Esse momento nunca esteve tão perto, ao alcance da mão. Basta que digas uma palavra e dobres os joelhos perante mim e…já está! Em troca dou-Te todos estes reinos que nos circundam, dos quais eu sou o rei!

Jesus – Está escrito: “ O senhor, teu Deus, adorarás, e somente a Ele prestarás culto”. Mas ainda não me disseste o que farias com esse poder!

Satanás – Porque perguntas? Tu sabes o que eu faria e é por isso que recusas! Ó potências infernais, como seria belo incendiar todas as florestas da Terra, cozer os peixes nos mares em ebulição, assar todos os seres vivos dos continentes, provocar o caos entre os astros e soltá-los das suas órbitas, injectar fogo em todo o universo, subverter as suas leis!… E quanto aos homens que Tu criaste,…caberiam todos no inferno pela eternidade. Mas Tu és Amor e o Amor obriga-te a salvá-los! Que glória a minha em convidar todo o inferno para assistir a esta destruição total e completa, a este festival único, a este fogo de artifício universal, a este regresso à suprema beleza do Caos…e Tu e o Altíssimo a assistirem!…No fim,…Vós tirastes a Criação a partir do Nada e eu voltaria a enterrá-la no Nada. Deste Acto supremo me ficaria a eterna memória de um momento de felicidade! Deixa-me delirar! Sei que não me vais conceder nada do que Te peço, mas entrega-me ao menos, já, as Taças da Ira que um Teu discípulo descreverá no Apocalipse (Ap 16) e eu as verterei sobre a Terra. Porquê adiar o derramamento do seu conteúdo? Entrega-mas e dar-Te-ei a oportunidade de encetares uma Nova Criação, porque esta está por minha conta!

Tu verás as abominações a que estes seres humanos chegarão!…Quantas Sodomas e Gomorras terás à disposição para afundar e queimar pela cólera do Altíssimo! Eles farão a Tua Doutrina em farrapos, virarão os Teus Mandamentos de patas para o ar, decretarão aconselhável e legal qualquer aberração em nome da liberdade, da democracia, da modernidade, dos valores universais, dos direitos humanos, do direito à igualdade, do progresso…Eles  chegarão ao ponto de se casarem eles com eles e elas com elas, desafiando a Tua santa Lei e a Tua Autoridade e  atraindo sorte semelhante à de Sodoma e Gomorra. Eles matar-se-ão em guerras sujas como sempre tem havido e encherão o Limbo de crianças por nascer. Os Teus direitos como Deus e Senhor serão ignorados, calcados aos pés, invertidos e chamar-Te-ão um monstruoso trapalhão por lhes teres dado os incómodos Dez Mandamentos e sobretudo por teres inventado essa coisa abominável de unir um homem e uma mulher para continuarem  a Tua Criação…e vão criticar-Te por não teres logo casado uma Eva com outra Eva e um Adão com outro Adão!…

É por estes seres humanos dotados de inteligência superior e alma imortal, pouco inferiores aos anjos,…mas com comportamentos irracionais,…que vais entregar-Te à morte? O que Te espera é algo ciclópico, de uma grandeza sem limites, de sofrimento indescritível e morte vergonhosa às mãos dos Teus inimigos do Templo, os da Tua Casa, cujos direitos de pisar Te serão negados e da qual Te expulsarão como um anarquista blasfemo!…Tu, o Senhor dos Céus e de todo o Universo!…Ajoelho-me a Teus pés! Concede-me o que Te peço, nem que seja por breves momentos e serei para sempre um Teu fiel servo!…

Jesus – Afasta-te de mim, Satanás!

E Satanás teve que obedecer, deixando no local a sua fumarada negra, a pestilência do cheiro a ódio nos ares e um urro de fazer tremer os rochedos.  Depois, vieram os anjos e serviram Jesus, lançando sobre Ele uma aragem refrescante que fez evaporar o suor que lhe caía da fronte.

Considerações:

1. Daqui se pode concluir que foram o silêncio e a oração as armas com que Jesus jogou neste confronto com Satanás, aliadas à Palavra de Deus, cuja força Satanás não suporta. Satanás apresenta-se sempre com aparência benévola, caritativa, defensora dos interesses da pessoa tentada…tal como no caso de Eva, a quem ele só mostrou vantagens pessoais na desobediência à ordem divina. Este é o seu truque para levar alguém a cair na tentação. Mas os dois caminhos mais usados por Satanás para chegar às almas são os pecados da carne, a sensualidade (pecados contra a castidade) e a gula. Depois de ele dominar o pensamento e o espírito do homem, todo o temor de Deus (receio de ofender a Deus) desaparece e Satanás toma conta da alma, que dificilmente se liberta das suas garras.

2. Outra lição que se tira é aquela que nos permite concluir que com Satanás não se discute, porque pela discussão apenas Deus o vence. No Apocalipse, ele (o Dragão) é descrito como: grande, vermelho, da cor do fogo, com sete cabeças, cada uma com seu diadema ( peça metálica usada pelos reis sobre a fronte, como símbolo da realeza) e dez chifres, símbolo da sua inteligência superior e da sua tremenda força (Ap 12, 1-17).

Satanás é então apresentado também como rei dos sete reinos do Mal, simbolizados pelos sete pecados capitais: soberba, avareza, luxúria, gula, ira, inveja e preguiça. Quanto a ser da cor do fogo…bem se pode dizer que ele vive no fogo, do fogo, para o fogo e o fogo faz sofrer (inferno) e destrói tudo o que puder (nas almas e no resto da Criação). Também é vermelho, da cor do sangue, porque ele é homicida (assassino), por matar a vida divina nas almas e arrastar também os corpos para a eterna condenação.

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Ezequiel Miguel

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Jesus e os Apóstolos visitam Nazaré

(Realidade & ficção)

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Jesus26É primavera. Campos, quintais, árvores, ervas e flores acordam da letargia invernal e sorriem para o sol que ilumina aquela manhã.

Cristo e os Apóstolos dirigem-se para Nazaré com o específico objectivo de visitar a Mãe. Jesus   suspira de ansiedade à medida que os quilómetros da estrada poeirenta vão ficando para trás. Inevitavelmente, Ela torna-se assunto de conversa:

João – Mestre, sabes o que me lembram estas rosas à beira das casas e nestes jardins por onde vamos passando? Lembram-me a Tua Mãe!

Jesus –  Boa lembrança, João! A Minha Mãe é realmente a Rosa das rosas, a Flor das flores, o Jardim dos jardins, a Beleza das belezas, o Perfume dos perfumes,…a Amada do Cântico dos Cânticos.

Pedro – Ela sabe que nós vamos a caminho de Nazaré?

Jesus – Não! Vamos fazer-lhe uma agradável  e dupla surpresa: por vós e por Mim!

Tiago  de Zebedeu– Mestre, às vezes parece-me que, quando Te sentes mais triste, Te vejo lançar suspiros e fico a pensar qual será a verdadeiracausa. São saudades da Tua Mãe?

Jesus – Sim, Tiago! De vez em quando preciso mesmo de apoiar a minha cabeça nos ombros da Minha Mãe. Nesses momentos esqueço as canseiras e outras dificuldades e sinto-Me como se estivesse no Céu, rodeado de anjos a consolarem-Me!  Também sou Homem como vós e preciso da Minha doce Mãe! Oh! Se soubésseis tudo a respeito dela!

Tomé – Há coisas sobre Ela que ninguém conhece?

Jesus – Há e muitas!

Nataniel– Podes dizer-nos qualquer coisa que nós não saibamos?

Jesus – Posso! Desde toda a eternidade Ela foi pensada e preparada para ser a Minha Mãe. Ela é a Nova Eva e Eu sou o Novo Adão. Ambos e em conjunto vamos reparar o que Eva e Adão estragaram. Eles fecharam as portas do paraíso aos homens e nós vamos reabri-las através da maior obra de Deus: a Redenção do género humano.

Judas Iscariotes – Mas, Mestre, como vai ser isso?  Será por meio de milagres?

Jesus – Será por meio do sofrimento que o vosso Mestre e a Minha Mãe levarão a cabo essa tarefa tremenda, num mistério que permanecerá mistério para sempre, porque o homem  não tem capacidade para atingir as suas profundezas.

Judas Tadeu – Nós já vimos que Tu sofres e às vezes até choras, sinal de que sofres com as perseguições, as calúnias, a rejeição da Tua mensagem, etc., mas a Tua Mãe,… Ela também está destinada a sofrer? Como e porquê, se Ela nunca fez mal a ninguém nem faz.

Jesus – Não faz nem fará, porque ela é a “Cheia de Graça”, conforme o anjo Gabriel A saudou. Se é cheia de Graça, Ela não pode pecar. Satanás não se aproximará Dela, pois uma escolta de mil anjos A  honra e A defende de todos os perigos.

Filipe – Mas porque é que Ela é Cheia de Graça? Porque  é Ela diferente de todos os outros homens, que nascem no pecado e estão toda a vida sujeitos ao pecado?

Jesus – Porque, nos planos de Deus, tinha de ser assim. Deus não convive com a mínima sombra do pecado, por isso, Ela foi isenta, por graça especial, das consequências do pecado de Adão e Eva. Ela é a Mulher referida no Génesis, a Mãe que fugiu com o Filho para o deserto, a Mulher que esmaga a cabeça do Dragão, Satanás, exactamente porque o pecado não teve, não tem, nem terá poder sobre Ela.

Tiago de Alfeu – Quer dizer então que Ela não está sujeita às tentações de Satanás! Que mistérios aí vão! Mistérios no Filho, mistérios na Mãe! Mistérios no Céu, Mistérios na Terra!

Jesus – Tens razão, Tiago! Ambos estamos  profetizados nas Escrituras, ambos cumprimos as profecias, ambos nascemos sem pecado, ambos realizamos a redenção pelo sofrimento, ambos amamos os homens ao ponto de aceitarmos o martírio para os salvar.

Simão  – Mas onde está o sofrimento da Tua Mãe? Quem é toda paz, doçura, bondade, sorriso, alegria,…não parece sofrer! E também uma coisa: Se ela não está sujeita ao pecado, também não devia estar sujeita ao sofrimento e à morte, que é o preço do pecado. Aqui está mais um mistério!

Jesus – Parece uma contradição, mas não é!  Lembrais-vos daquilo que o velho Simeão lhe disse quando tinha nos braços aquele Menino que agora é o vosso Mestre?

João – Eu sei o que ele lhe disse: “ Uma espada de dor trespassará o teu coração, porque este Menino está posto para salvação e condenação de muitos em Israel”.

Jesus – Então, aí tendes! Em que consistia, consiste e consistirá essa espada de dor  a atravessar-lhe o coração?

André – Para já, a Tua condenação à morte  pelo Herodes, quando eras Menino. A Tua fuga para o exílio do Egipto,  a sua gravidez miraculosa sem o esposo saber, a pobreza do Teu nascimento em Belém,…

Tiago de Alfeu – E agora, após a morte do meu tio José, seu esposo, a Tua vida pública com tudo o que Te afecta: as dificuldades, a perseguição, os teus inimigos e…qualquer coisa mais que eu agora não digo!…

Judas Iscariotes – Eu sei o que é! Como israelita que é, Ela sofre ao ver o Filho desleixar-se e atrasar-se na restauração do Reino de Israel, pois as Escrituras dizem que o Messias será Rei de Israel.

Jesus – Judas, os teus sonhos virarão pesadelos. Ela sabe que tipo de Rei Eu vou ser, um Rei que, diante Dele se tapa o rosto, como disse o profeta Isaías. É aí que a  espada da dor lhe perfurará o coração ao ver outro Coração perfurado… A seu tempo sabereis mais!  Apesar das prerrogativas que a sua condição de Mãe do Filho do Homem lhe conferem, Ela aceita voluntariamente tudo aquilo que o seu Filho aceita e sofre com tudo o que faz sofrer o Filho, numa união perfeita, completa, permanente, indissolúvel. Agora, vós vedes o seu sorriso, a sua alegria,…mas chegará o tempo em que vereis o seu rosto pálido, lacrimosos, com sulcos de sofrimento que lhe vêm do mais profundo da alma. Nesses dias, apesar de andar permanentemente guardada por uma multidão de anjos invisíveis, Ela sentirá também o abandono do Pai e sofrerá a sua agonia dolorosa em união com o Seu Filho. A espada da dor enterrar-se-á cada vez mais em seu coração até que a profecia de Simeão se cumpra na totalidade. E tudo isto em união com o Filho e pela redenção de todo o género humano. Ela é a mártir voluntária e  vai-lhe ser dado um coração maternal tão grande que nele caberão todos os homens presentes e futuros. Por agora, não digo mais sobre este assunto.

Nataniel – Mas então, Ela é uma mulher única, criada de encomenda para ser Tua Mãe e Tua Co-redentora!

Jesus – É isso, Nataniel! Disseste bem! É mesmo Única, a criatura mais bela, mais pura, mais preciosa criada por Deus, a jóia mais valiosa no anel de Sua Mão.

Tomé – Ehhh! Tudo isso? Então Ela é quase uma deusa!

Jesus- Tomé, não há deuses nem deusas! Isso são invenções humanas para adorar Satanás em suas múltiplas formas. Ela é apenas uma mulher, mas acima de todas as outras mulheres e bendita entre todas elas, as de todas as gerações, como Lhe profetizou Isabel, a mãe do João Baptista.

Filipe – Mas, se Ela é toda pura, concebida sem pecado, não pode pecar,…então Ela é mais um anjo do que uma criatura humana!

Jesus – Em verdade vos digo que a Minha Mãe está acima dos anjos, sejam eles quais forem, em Sua dignidade e santidade. Ela própria será chamada a Rainha dos Anjos, dos Justos, dos Profetas e o Seu trono estará instalado ao lado do trono do Filho. Digo-vos mais: Já toda a corte celeste a conhecia muito tempo antes de Ela ser conhecida, porque Deus A apresentou aos anjos e lhes disse qual seria a Sua missão futura, porque para Deus não há passado. É tudo presente.

Tiago de Alfeu –  Mais outro mistério! Eu cá não tenho cabeça para compreender isso!

Pedro – Não tens tu nem tem ninguém! Mas eu não tenho ciúmes Dela! Nosso é o Filho e nossa será também a Mãe!… Até pareço o Isaías a profetizar (ri).

Jesus – E profetizas bem, Simão de Jonas! Foi o Espírito Santo que te inspirou!

Simão – Então, se Ela nasceu sem pecado, também estará livre da morte, penso eu!

Jesus – E pensas bem, Simão! Ela está realmente livre da morte e da corrupção corporal, mas Ela escolherá passar pela morte,  para em tudo imitar o Filho, que também morrerá às mãos dos seus inimigos…Quanto ao Seu corpo, não terá de esperar pela Ressurreição final. Será levada ao Céu em corpo e alma, pois é ao Céu que ela pertence.

Mateus – Mestre, Tu já deste a entender, mais ou menos, a sorte e a missão de cada um no futuro. Ela também, no futuro, terá uma missão a cumprir, além daquela de ser a Tua Mãe?

Jesus – Ela vai ter uma grande missão. Chegará o tempo em que Ela vos apoiará, aconselhará, orientará, ainda mais do que faz agora. Nos séculos futuros será intercessora entre Mim e os homens. Como Mãe de todos os homens, Ela os atrairá a Mim e Eu A nomearei a Minha principal missionária. Ela terá direitos adquiridos sobre a humanidade, porque também Ela sofreu pela sua redenção. Quando os homens forem esquecendo a Minha mensagem, Ela será a Minha mensageira até eles, para os recuperar e trazê-los a Mim. Como Mãe universal, todos os homens deverão reconhecê-La como tal.

André – E quando é que Tu A nomeias solenemente Mãe de todos os homens?

Jesus – Já não falta muito tempo. Aguardai e vereis!…

Tiago de Zebedeu – Eu tenho uma pergunta atrevida a fazer! Se Tu és o Filho do Pai, Tu és Deus; se Ela é Tua Mãe, Ela é Mãe de Deus; mas Ela também é filha de Deus, porque foi Deus que A criou. Então, Ela é filha e Mãe de Deus: Mas Tu, o João e eu somos também  segundos irmãos (primos)  logo, nós somos segundos irmãos  de Deus; mas como Tu  também és Homem e dizes que todos os homens são filhos de Deus, logo, nós somos todos Teus irmãos; se somos todos Teus irmãos, também teremos todos a mesma Mãe, que será a Tua Mãe. Será isso?

Jesus – Foste brilhante, Tiag! Em curvas e contracurvas foste direito até ao fim! Vedes como todos os homens constituem a família de Deus? Mas, infelizmente, o Meu Inimigo trabalha para a dividir. Quanto a ser da Minha família, todo aquele que cumprir as Minhas palavras e levar outros a cumpri-las, como vós já fazeis e fareis no futuro, será Meu pai, Minha mãe, Meu irmão, Minha irmã, Meu segundo irmão, Minha segunda irmã (prima), Meu tio, Minha tia,…não pela carne, mas pelo Espírito. Estes são os novos parentes que Me tornarão conhecido pelo  Mundo.

Mateus -  Mas eu também tenho uma observação a fazer!  Tu dizes que Ela foi concebida sem pecado. Mas os filhos dos homens não nascem todos em pecado? Como é que Ela foi isenta? Já nasceu de pais isentos ou…como é que Deus a isentou a Ela e não isentou todas as pessoas que já nasceram e nascerão até ao fim do mundo? Isto, para mim, é muito confuso!

Jesus – A Minha santíssima Mãe está envolta em mistério, no qual não podereis penetrar. Pergunto-vos: que tipo de Messias seria Eu, se tivesse nascido de uma mulher comum, isto é, concebida em pecado?

João – Não serias o Messias anunciado pelos profetas, o Filho de Deus. Serias apenas um homem como nós, sujeito ao pecado, às doenças, à morte e  ao regresso ao pó da terra. Não serias Homem-Deus.

Jesus – Falaste bem, João! Já vedes que o Messias tinha de abrir uma excepção no curso normal do nascimento dos homens. Deus é pureza absoluta, por isso, o Seu Filho não podia nascer como nasce o resto dos homens. Por agora, contentai-vos com o pouco que vos digo, porque os desígnios de Deus não estão abertos às mentes humanas.

Judas Tadeu –Eu já sinto a cabeça às voltas, só de tentar compreender o que não consigo compreender. Agora, pergunto eu: O que estará a Tua Mãe a fazer neste momento? Não estará com certeza a preparar o almoço para todos nós, uma vez que não foi avisada!

Jesus – Anda no jardim como abelha de flor em flor, tratando das rosas e louvando a Deus pela beleza multicolor que A rodeia, o que também serve de exemplo para vós. Em tudo e por tudo deveis louvar a Deu, por vos oferecer tantas coisas maravilhosas! É assim o Seu Amor pelos Homens.

Simão – Mestre, eu tenho ainda uma pergunta a fazer!

Jesus – Diz, Simão!

Simão- Está nos Teus planos falar na sinagoga de Nazaré?

Jesus – É claro que está! Não posso perder uma só ocasião na difusão do Reino de Deus.

Simão – E eles vão aceitar a Boa Nova? Eles sempre se habituaram a ver-Te como uma pessoa normal, ignorando a Tua divindade de Messias profetizado! Tenho receio que Te maltratem!

Jesus –  Se Eu te responder, não ficarás muito satisfeito com a resposta!…Mas, para eles recusarem a Boa Nova, eles terão que a ouvir de Mim. Não conheces o provérbio que diz: “Ninguém é profeta na sua terra”?  Sendo assim, metade do que tu queres saber está aí! Será que Eu serei excepção?

 Estamos a chegar. Eu anuncio-Me primeiro, de surpresa, e, pouco depois, a um sinal Meu, apareceis todos e fareis as vossas saudações. Ela ficará agradavelmente surpreendida, dará graças e louvores a Deus e nós com Ela.

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Nota – Aqueles que nós consideramos “primos” eram chamados irmãos, por não haver a palavra apropriada.

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Ezequiel Miguel

Nasceu-vos hoje o Salvador (Lc 2,11)

(Realidade & Ficção)

Personagens:

. Pastores: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaac, Tobias, Jónatas, Daniel, Simeão, João, José, Benjamim.

 . Anjos

. S. José

. Virgem Maria

estrelaNa mesma região (Belém) encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. (Lc 2, 8-12)

Nos arredores de Belém, exactamente no lado oposto da cidade onde se situa a gruta, pernoitam os pastores, com seus rebanhos, que não são todos seus, mas pertencem aos seus patrões, uns dali, outros, de localidades vizinhas. Todas as noites eles se revezavam para que um deles ficasse de vigia. Ficava um sempre de sentinela, não  por medo de fuga das ovelhas, mas por temerem os ladrões de gado.

Não é bem verdade dizer que aquela noite era igual a todas as outras noites, porque ela, por ser mais clara que as outras, por ter um luar mais luminoso que as outras, porque a lua naquela noite requisitara ao sol uma dose extra de luz que tornava os campos não só visíveis, mas até com uma claridade estranha. Esta era a noite…a princesa de todas as noites, a rainha de todas as noites, a mãe de todas as noites, a noite das noites…a noite única, a noite santa, a noite profetizada séculos antes, esperada durante milénios, a noite em que o Plano de Deus iria dar o passo principal para a Redenção da Humanidade caída sob as garras de Satanás. Era a noite cuja memória perdurará pelo tempo até ao fim do Tempo.

A estranha luminosidade da lua, movendo-se entre as nuvens de um céu estrelado, não deixou de chamar a atenção dos pastores que, um após outro, saíram do cabanal que os protegia do frio da noite e todos achavam muito estranho não se poder olhar para a lua sem colocar  uma mão à frente dos olhos, tal como se faz para mirar o sol. Uma lua assim nunca se vira. Enquanto todos olhavam a lua, viram aproximar-se algo luminoso que, ao longe, através dos ares, vinha em sua direcção, até que finalmente chegou perto deles:

Anjo“Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias -Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura”(Lc 2, 10-12).

Coro dos Anjos  (Cantando) – “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens por Ele amados” (Lc 2, 14)

Samuel – Nasceu o Messias!

Todos – Louvado seja para sempre o Deus de Israel, que  já  nos enviou o Desejado das Nações!

Jonas – Prestai atenção! Olhai para as ovelhas!

David – Estão todas agitadas e a balir!

Benjamim – E os cães estão a ladrar e às correrias! Parecem doidos!

Simeão – Escutai! A passarada também perdeu o sono e desatou num estrondoso concerto!

Elias – Olhai o céu! Está além uma estrela nova com um brilho fora do vulgar!

Levi – E parece estar do outro lado de Belém, aqui tão perto, quase sobre as nossas cabeças!

Jónatas – É isso! Toda a natureza se alegra com o nascimento do Messias!  Despachemo-nos e ponhamo-nos a caminho!

Simeão – Quem sabe onde é esse local indicado pelo anjo?

Levi – Eu sei onde é e quem é a Mãe do Messias!

Elias – Ah sim? Conta lá!

Levi – Há poucos dias chegou um casal a casa dos meus patrões a pedir hospedagem, mas os  meus patrões não tinham nenhum espaço disponível para lá ficarem a dormir. A minha patroa  lá arranjou um quartinho para Ela descansar um pouco. Se vós a vísseis! Ela parecia um anjo!

José – Porquê?

Levi –  Porque Ela é ainda muito nova, pouco mais velha que eu, mas estava grávida e não parecia nada preocupada. Toda Ela respirava paz e no seu rosto não havia sinais de ansiedade ou angústia alguma. Ela parecia uma princesa, é muito bonita, de olhar muito meigo, com um sorriso que nunca se esquece e desfazia-se em agradecimentos por qualquer pequeno serviço que se lhe prestasse. Não imaginais como Ela me agradeceu quando eu lhe trouxe uma tigela de leite quente! Lembro-me que o senhor que vinha com ela estava um pouco nervoso e muito preocupado com a falta de condições dignas para o Menino nascer. Ela acalmava-o e dizia-lhe que o Senhor forneceria o necessário e que não seria preciso ninguém para ajudar no parto e que também não teria dores.

Tobias – O quê? Ela disse isso? Mas como é que Ela sabia essas coisas? E como é que Ela sabia que era um Menino e que teria um parto sem dores? Sendo assim, não esperemos encontrá-la  de cama! Mas as mulheres, quando nascem os bebés, ficam de cama dois ou três dias e alguém tem de as ajudar nas lides domésticas!

Samuel – Então, Ela é diferente das outras mulheres, ou não fosse Ela a Mãe do Messias. Tenho cá para mim que não haverá maior dignidade na Terra do que ser a Mãe do Messias. Superior a Ela, só Deus!

Daniel – E se nos deixássemos de conversa, ó teólogos da meia-noite !Vamos embora! Conversamos pelo caminho!

Simeão – Calma aí! E aparecemos lá de mãos vazias? O Menino não é um qualquer! Ouvistes bem que Ele é o Messias, o Cristo, o Senhor! Israel anda há 600 anos a falar Dele e os profetas sabiam bem de Quem falavam.

João – O Simeão diz bem. Que podemos levar-Lhe como presentes?

José – Podemos levar queijo…

Benjamim –  Leite…

Daniel –  Pão, fruta, azeitonas…

Samuel –  Figos secos, tâmaras secas…

Jonas – Eu levo uma pele de ovelha, que vale tanto como  o melhor dos cobertores.

Elias – Eu cá levo uma ovelha!

Todos – Uma ovelha?

Elias – Sim, uma ovelha! Imaginai que a Mãe não tem leite! Como é que o Menino vai sobreviver se a Mãe não tem leite?

Samuel – Não tem leite? Todas as mães dão leite!

Elias – Pois, mas eu  já ouvi dizer que há mães que não têm leite quando os filhos nascem! Ou se o têm, demora a vir! Assim, é fácil levar uma tigela e tirar leite da ovelha. Ela até se sentirá muito honrada com isso. Já vistes que poderá ser a única ovelha a alimentar o Messias? (Ri com gosto ante esta ideia…)

José – Ó rapazinho, isso é uma ideia brilhante! De onde te vem tanta sabedoria, sendo ainda tão jovem?

Jonas – E quem sabe exactamente onde eles estão?

Levi – Eu sei! Aquela estrela deve estar sobre uma gruta que há lá no outro lado da cidade. Eu lembro-me que o senhor (penso que será o seu esposo) disse que iam para uma gruta que ele conhecia bem. Depois, quando pudessem, procurariam uma casa.

Isaac – Eu até já ouvi dizer que essa gruta já existia nos tempos de Abraão.

Tobias – Então, é hora de ir! Estou a ficar impaciente!  Eu levo um cordeirinho branco. Tome cada um o seu presente e vamos! Levemos umas lanternas para o caso de Eles lá não terem luz!

Simeão – Bem pensado!

Todos – Lá vamos a caminho de Belém adorar o Deus-Menino!

Chegados à porta da gruta, surgiu um problema. Como se anunciariam, como entrariam, quem entraria primeiro, quem falaria por todos?

Simeão – Levi, espreita aí, a ver se descobres alguém ou sinais de presença humana.

Levi – (espreitando) Cheira-me a fumo! Deixai-me entrar um pouco, pode ser que… (Arranca umas tossidelas ruidosas…)

Jonas – Vai mais para dentro e vê se descobres alguma luz! Vês alguma coisa ou alguém?

Levi – Espera aí! Há lá dentro muita luz. Parece o sol ao meio dia! E vejo…É Ela!…É Ela!…É Aquela que esteve em casa dos meus patrões…E também o homem que vinha com ela. São eles! Estão ambos curvados sobre uma manjedoura onde um Menino está deitado, tal e qual como disse o anjo. Estão ambos a contemplar o Menino. Ele parece chorar! Se calhar é com fome e com frio! Ele não está a mamar! A Mãe está-lhe a dizer palavrinhas meigas, como só as mães sabem dizer!

Benjamim – O que está Ela a dizer ao Menino?

Levi – Fazei silêncio, de contrário não posso ouvir!…

Maria – Aqui estás Tu, finalmente, ó Filho de Deus feito Homem! Tanto tempo que esperámos por Ti! Agora…quem diria? O Senhor omnipotente aqui a choramingar com frio e fome! Meu Menino, Meu Filho, Meu Amorzinho, Meu Principezinho, meu Reizinho, Meu Senhor, Meu Criador, meu Deus!… Não encontrámos instalações melhores para nasceres! Tu, o Rei do Universo, aqui tão pobrezinho! Mas tens o amor da Tua Mamã e do Teu adoptivo pai para Te compensar. É o melhor que podemos dar-Te!

Daniel – Basta de espiar! Chama em voz alta para que te ouçam ou nunca mais saímos daqui! Além disso, é feio espiar o que os outros fazem ou dizem. Quem tem cara limpa não se esconde!

Levi – Calai-vos! Se soubésseis o que ouvi! Foram as palavras mais doces que um ser humano pode proferir!… Mas eu vou chamar, para ver se aparece alguém!…Quem está aí?… Ó da casa! …Podemos entrar?…

S. José  – (Virando-se, levantando-se e indo até à entrada)  Quem sois vós?

Todos – Somos pastores e viemos adorar o Menino. Trazemos também alguns presentes: alimentos e lã.

S. José – Entrai!

Maria –(Virando-se e sorrindo) Sede bem-vindos! Como soubestes que o Messias já tinha nascido?

Simeão– Foi um anjo que nos disse e nos convidou a vir adorar o Menino. Depois, ouvimos um coro de anjos a cantar: “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na Terra aos homens…”Agora, aqui estamos! E temos presentes para o Menino: pão, queijo, figos secos, tâmaras secas, leite, um cordeirinho, uma pele de ovelha… (Olhando em volta) Falta qualquer coisa! Falta o Elias com a sua ovelha! Ide chamá-lo e que tire já leite quente para dar ao Menino, pois o leite que aí trazeis já está frio!

Maria – Muito obrigado pelos vossos presentes. O Meu Filho vos compensará e um dia Ele voltará aqui para vos agradecer pessoalmente e ainda muito mais, que a seu tempo se revelará.

João – Podemos pedir-vos um grande favor?

S. José – Dizei!

João – Deixais-nos beijar a veste do Menino?

Maria –(Destapando um pé do Menino) Podeis, mas em vez da veste podeis beijar o Seu pèzinho!

E todos, um por um, concretizaram a primeira adoração popular do Menino, que correspondia agitando os pèzinhos. Concentração, lágrimas, sensação de felicidade interior, desejo que aqueles momentos se prolongassem indefinidamente, … Mas tudo termina! Ali nasceu neles o entusiasmo e o veemente desejo de darem a conhecer ao mundo o nascimento do Messias. Cristo acabara de fazer os Seus primeiros discípulos. Mais tarde, trinta anos depois, Cristo procurá-los-ia para lhes agradecer e confirmá-los em sua fé no Messias. Todos eles, aqueles ainda vivos, engrossariam o número dos Seus discípulos fiéis que estariam dispostos a dar a vida por Ele, após terem presenciado a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Nessa altura compreenderiam qual a sorte final do Cordeiro de Deus e a visão profética da Jovem Virgem Maria.

Elias – Eu vou a Hebron dar a notícia aos meus patrões!

Maria – Olha, conheces lá o sacerdote Zacarias, a sua esposa Isabel e o seu menino João?

Elias – Zacarias é aquele que ficou mudo até o menino nascer?

Maria – (Sorrindo ante  a sentença  de Elias)  Então fazes-me um favor? Eles são meus parentes!  Diz-lhes que eu lhes peço para virem até aqui.

Elias – Isso farei com muito gosto! Podes ficar  descansada!

Maria – O Senhor te pague! Sê sempre bonzinho e o Meu Menino te recompensará!

No regresso:

E a visita terminou. Cheios de alegria, encetaram o caminho do regresso, animados, falando pelos cotovelos, comentando, fazendo cálculos, especulando, falando sobre o que sabiam do Messias referido pelos profetas, interrogando-se sobre muita coisa que nós também ainda hoje nos interrogamos, assim como se interrogarão as gerações futuras: se tinha que ser assim, ali, logo de noite, logo num tempo em que não havia lugar nas estalagens, logo naquela pobreza, porque não no palácio de Herodes, porque não na casa deles próprios ou dos seus patrões, etc., etc.

Elias – Vistes para que serviu a minha ovelha?

Jonas – E vistes o que a Mãe fez com a pele de ovelha? Agarrou no Menino,  embrulhou-O nela e Ele logo se calou.

Tobias – E vistes para que serviu o meu cordeirinho branco?

Todos – Para que foi? Não vimos nada de especial!

Tobias – Ah não? Não vistes as carícias que a Mãe fez ao meu cordeirinho? Quando lho ofereci, Ela  desatou a fazer-lhe festinhas e ele olhava para Ela de tal modo que até parecia querer dizer qualquer coisa! Ela olhava ora para o Seu Menino ora para o meu cordeirinho! Agradeceu sorrindo, e, de repente, ficou muito séria, com olhar fixo em alguma coisa invisível…imóvel, sem pestanejar… como se visse alguma coisa má que eu não via e…imaginai lá: eu vi-a a limpar as lágrimas!(Limpando as suas próprias lágrimas)

Todos – Estás a chorar!?…

Tobias- Estou! Ela chorou, enquanto vós estáveis lá entretidos em volta do Menino na manjedoura. Choro também porque tenho muita pena Dela e não posso esquecer aquelas lágrimas que lhe caíram silenciosas pela face abaixo. Ela tentou disfarçar, mas eu vi! Depois, continuando a fazer festinhas ao meu cordeirinho, Ela dizia: O que tu me fazes lembrar, meu lindo cordeirinho!… Depois, enxugou as lágrimas, tentou sorrir e fingiu que estava feliz.

Samuel – Mas então só tu é que viste isso? Porque é que Ela terá chorado? Alguém é capaz de ter uma ideia? Não foi, de certeza, por nossa causa!

Aqui, cada um foi lançando a sua hipótese, que podia ser rejeitada, semi-aceite ou unanimemente aceite como possível.  Uns diziam que era por causa do frio, outros, por falta de uma casa, outros, porque não tinham alimentos nem roupa suficiente, outros, porque tinha muita pena do Menino, o nosso Messias ali tão pobrezinho, quando não faltam palácios em Jerusalém e em Belém. Falou, por fim, Simeão:

Simeão – Cá para mim, Ela relacionou o teu cordeirinho com o Cordeirinho Dela, quer dizer, o Seu Menino. Por isso, Ela olhava ora para um ora para outro, lembrando-se de qualquer coisa relacionada com cordeiros, porque Ela disse que o Seu Menino também era um Cordeirinho. São ambos puros e Ela deve ter-se lembrado do que acontece aos cordeirinhos brancos por altura da Páscoa… Será que Ela não viu o Seu Cordeirinho a verter o Seu Sangue  pelo nosso Povo e por todos os Povos?

Jónatas  – E um profeta não diz que o Servo do Senhor, que é o Messias,  foi levado ao matadouro e que como uma ovelha não abriu a boca (Is 33,5)? Já me lembro: foi Isaías que disse isso! Ela, ao ver a ovelha e o cordeirinho, associou-os à sorte final do Menino. Ela deve saber mais do que nós pensamos, ou não esteja Ela dentro dos segredos que envolvem a vinda do Messias! É o que eu penso!

João – O quê! O Messias ainda agora nasceu e já estais a falar da Sua morte? Calai-vos lá com isso! Hoje é dia de alegria para todo o mundo!

David – Mas o Messias não vem para libertar o nosso povo da pata dos Romanos? Não se diz que Ele é o Libertador e o Salvador que vai restaurar o Reino de Israel? Não percebo! Então…e é preciso morrer para cumprir essa missão? Mas Ele morre ou matam-nO? E se O matam, quem o mata e porquê?

Samuel – Eu já ouvi dizer que Ele será traído por um que se fará passar por Seu amigo. Quanto ao porquê, não sei responder! Se alguém sabe, diga! De qualquer modo, como eu gostaria de pertencer ao seu exército!

David – Eu já me contentava com servir no Palácio Real!

Levi – Eu gostaria de ser general do seu exército!

Elias – E eu gostaria de ser o pajem da Sua Mãe, o servo para todo o serviço!

Isaac – Eu não acredito que o Messias tenha vindo para isso! Ele é chamado o Príncipe da Paz, por isso não pode ser um guerreiro, um general, um conquistador de cidades e reinos.

Tobias – Mas então, se Ele é o Libertador, o Salvador,  de que é que nos liberta e nos salva, afinal?

José – Mas Ele também é chamado Deus Eterno,  Deus Forte, Deus Imortal, Deus Santo, Príncipe Adorável, Conselheiro Admirável, Deus Poderoso, Pai Eterno… (Is 9,6)e outras coisas assim. Ora, se é Deus, só Lhe deve interessar a santidade dos homens e isso tem a ver com o pecado.

Benjamim – A propósito de pecado: Uma vez o Chefe da Sinagoga disse que o Messias viria para abrir as portas do paraíso aos Justos e para estabelecer na Terra um Reino de Paz e  Amor.

David – Se calhar, é isso, porque o profeta Isaías diz que um dia os animais selvagens e os domésticos conviverão sem se comerem e que até uma criança poderá meter a mão na toca da víbora e que os filhotes do leão brincarão com os filhotes das ovelhas e das vaquinhas,…(Is 11, 6-9), mas os animais aqui podem ser os homens. Ora, para os homens se amarem é preciso que eles se sintam todos irmãos e que não se guerreiem uns aos outros. E só num Reino de Amor é que isso é possível. Esse Reino do Amor será o Reino do Messias, pois o profeta Isaías até diz que será mesmo assim, porque as espadas enferrujarão por falta de uso.

Simeão – Eu curvo-me perante tanta sabedoria, ó David! …O David diz que tudo isso tem a ver com o pecado. Eu também assim penso, porque esse profeta, ou outro, também diz que ainda que os nossos pecados sejam vermelhos como o escarlate, eles ficarão mais brancos do que a neve (Is 1,18)). Sendo assim, Ele vem salvar-nos e libertar-nos das consequências do pecado.

Elias – E depois, já se pode pecar à vontade?

Simeão – Não! Era o que faltava! O pecado é inevitável, porque todos os homens são pecadores, mas o Reino do Messias será espiritual e Ele assumirá sobre si todos os pecados da Humanidade e pagará o preço pelas ofensas feitas a Yahweh. Só depois de pagar esse preço é que os Justos do Limbo subirão ao paraíso. Só depois disso os Justos que morrem no Senhor irão também ao paraíso, que, como sabeis, ficou fechado depois do pecado de Adão e Eva.

Isaac – Mas onde é que tu aprendeste essas coisas?

Simeão – Eu tenho um tio que é sacerdote e ele fala-me muito destas coisas e de outras sobre o Messias.

Daniel – Lá em minha casa fala-se muito naquela passagem da Torá onde é dito ao rei Acaz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho que será chamado Emanuel”( Is 7,14),  que quer dizer,…quer dizer…Já não me lembro!”

Jónatas – Deus- connosco, Deus- entre-nós!

Daniel – É isso! Então a tal Virgem é esta donzela! Que sorte nós tivemos em vê-la a Ela e ao Messias, seu Filho! Isto quer dizer que aquele homem não é o pai do Menino, mas finge ser! Nesse caso, quem é o pai do Menino?

Levi – Não é ninguém!

Todos – O quê!!! Como pode ser isso?

Levi – Se o Menino é o Messias, o Messias é Filho de Deus; se é o Filho de Deus, também é Deus e ninguém pode ser o pai de Deus. Neste caso, o Pai do Filho de Deus é o próprio Deus! Porque ninguém que seja filho de um homem pode ser Deus. Isto quer dizer que o Messias foi gerado pelo próprio Deus no seio daquela Virgem e nesse caso….

Tobias – Ah! Agora percebo porque é que Ela disse que não teria dores de parto e também agora percebo porque é que Ela, após o Menino nascer, não ficou de cama como as outras mulheres e anda por ali como se não tivesse havido parto nenhum! Pois é! Agora percebo! Isto foi e é tudo obra do próprio Yahweh!

 Quer então dizer que o Seu marido,…isto é, o seu esposo, porque Ela tratou-o por “esposo”…Sendo assim,…ainda tem de haver mais! Se Ela é Virgem, o seu esposo também é! Sei lá, devem ter feito ambos voto de virgindade para toda a vida. Assim, têm de ser verdadeiros esposos, porque…senão …Ela era condenada à morte. E o Seu esposo deve ser apenas o guarda do Messias e o Seu pai adoptivo, tudo para não levantar suspeitas. Não pode ser de outra maneira. Quem penetra nos mistérios do Deus Altíssimo?

Samuel – Ó rapaz, pareces um profeta! Em que trapalhadas filosóficas e teológicas nos meteste! Um dia Ele e Sua Mãe vão-nos explicar tudo isso. Por agora, alegremo-nos e louvemos o Senhor! Mas antes, tenho que vos colocar uma questão: Qual foi o profeta que anunciou que o Messias nasceria em Belém de Judá? Aguardo a resposta certa!… Então, ninguém arrisca?…Então eu digo: Foi o profeta Miqueias.

Simeão – O que é que ele disse exactamente?

Samuel – Disse: “Mas tu, (Belém) Éfrata, embora a menor das cidades de Judá, de ti sairá para mim Aquele que dominará em Israel” (Miq 5, 1)

Levi – Mas eu ainda tenho uma coisa a dizer, uma coisa que se passou comigo quando estava a beijar o pèzinho do Menino.

Todos – O que foi? O que foi?

Levi– Não sei se diga! Ides dizer que estou maluco! Posso enganar-me, porque não sei se foi real ou se foi apenas uma impressão estranha. Pareceu-me ter uma visão diferente do Menino. É que, enquanto Ele chorava, eu vi-O sorrir para mim!… Pronto, já disse! Já podeis chamar-me maluco!

Todos (um por um): Olha, comigo aconteceu a mesma coisa!

Jonas – Eu só não falei porque,…mas então aconteceu o mesmo convosco! Que maravilha!

Daniel – Foi isso mesmo! Somos todos malucos! Ele sorriu para nós! Nós somos os seus primeiros amigos! Glória a Deus e ao nosso Messias pelos séculos dos séculos!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

João – Eu tenho ainda uma coisa a perguntar ao Elias. Tu disseste que ias a Hebron dar a notícia àquela  Sua parente, de nome Isabel?

Elias – Disse e vou cumprir o mais rápido possível. Aliás, há aqui qualquer coisa que se me escapa. Parece haver coincidências a mais! Essa Isabel…faz-me cá confusão!

Todos – Conta! Conta!

Elias – É assim! Há lá em Hebron um casal já muito idoso que conseguiu ter um filho, que tem agora uns quinze meses, por aí,  e lá todos comentam que não sabem como é que isso aconteceu, pois naquela idade, a tal Isabel já não podia engravidar. Para mais, ela sempre foi considerada estéril. O marido é o sacerdote Zacarias e também já é muito velho. Mas dizem por lá que um anjo lhes anunciou um filho, e que ele, por ter duvidado do anjo, ficou mudo até o menino nascer. Esse menino chama-se João.

José – É tudo muito estranho! O Messias foi concebido milagrosamente por Yahweh no seio de uma Virgem,  o Joãozinho foi profetizado também e também milagrosamente foi concebido por um casal estéril. Para mais, da mesma família!

Daniel – Será que ambos os nascimentos não estarão intimamente relacionados? E porque é que o Joãozinho nasceu primeiro que o Messias?

Jónatas – Porque tinha de ser!

João – Explica-te!

Jónatas – Eu sei lá explicar isso! Mas um dia ouvi um Chefe de Sinagoga dizer que um mensageiro iria à frente do Messias a preparar o seu caminho (Malaquias 3,1). Só não sei como é que ele explicou o resto. Já não me lembro! Ele disse que isso tinha sido escrito por um profeta, que também já não sei qual foi!

David – Então, se assim é, isso deve demorar para aí uns 20 ou trinta anos! Será que ainda estaremos todos vivos nessa altura? Assim, já sabemos! Quando ouvirmos  o  mensageiro João, saberemos que o Messias vai também entrar em acção! Quem me dera viver até lá!

Jonas–  Egoísta! Diz antes: Quem nos dera a todos viver até lá! A Mãe disse que um dia Ele nos retribuiria a visita!

Todos – Assim o esperamos! Louvado seja o Senhor, Deus de Israel! (1)

Elias – Mas eu ainda tenho uma coisa para dizer! Vós vistes lá alguma candeia ou lanterna a dar luz?

Todos – Não!

Elias – Então, de onde vinha toda aquela luz, se não havia nenhuma fonte de luz?

Todos – Bem visto! Quem sabe, diga!

Simeão – Era a própria Luz do Menino, uma vez que Ele é Deus! E agora pergunto eu: O Levi disse, quando estava lá a espreitar, que cheirava a fumo. Alguém cheirou o fumo lá dentro?

Todos – Não!

Simeão – Então, foram os presentes que o Menino nos ofereceu em troca dos nossos! Glória a Deus nos Céus e paz na Terra aos homens!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

E a conversa continuou animada até ao telheiro onde se protegiam do frio e mantinham vigilância sobre os rebanhos.

“E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito” (Lc 2, 20)

(1) Uma das primeiras preocupações de Jesus, quando começou a sua vida pública, foi mesmo ir até Belém e contactar os pastores ainda vivos. Todos eles viveram na expectativa de voltar a encontrá-Lo, mas para alguns (poucos)isso já não foi possível. Os outros tiveram a felicidade de O reencontrar e de se tornarem Seus discípulos.

 .

Ezequiel Miguel

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