O golpe de Judas

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Jesus Cristo

. Judas Iscariotes

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Judas24Judas frequentava o Templo de Jerusalém e convivia de perto com os sacerdotes, os escribas e os fariseus, tendo muitas amizades entre eles. Possivelmente, seria um estudante de teologia e um candidato a doutor da Lei. A sua figura imponente, esbelta, ricamente vestida, era de molde a chamar a atenção por onde passava. Tinha fama de se insinuar facilmente junto das donzelas de Israel, às quais prometia união de casamento, mas depois…abandonava-as, para ir recomeçar com outra. Em certas aldeias próximas de Jerusalém já tinha a cabeça a prémio.

Ele não desconhecia as profecias sobre o Messias e, como muitos outros, aguardava os sinais do Sua presença próxima. Mas ele, tal como todas as autoridades religiosas do povo judeu, era também uma vítima das circunstâncias políticas que se tinham abatido sobre Israel, após a invasão e ocupação do território pelo exército romano. Assim, o que se precisava era realmente de um Messias que viesse restaurar a Monarquia e a independência de Israel e o ambiente não era nada favorável para se aceitar um Messias conforme as profecias das Escrituras o apresentavam.

Um dia, Cristo entrou no Templo, fez a Sua pregação, apresentou-se como o Messias e confirmou o Seu poder com uma estrondosa cura. Entre os assistentes estava Judas, que mediu Cristo de alto a baixo, as  Suas palavras, os Seus gestos, o Seu poder e autoridade com que falava e agia. Tinha que ser mais que um profeta, para fazer o que fazia e dizer o que dizia e como o dizia!

A cabeça de Judas começou então a girar, a calcular, a especular, a sonhar…Ele não foi daqueles que atribuiu a Cristo poderes conferidos por Satanás. Ele viu mais longe e não demorou muito a tirar todas as conclusões : Ele era o Messias que vinha para restaurar o Reino de Israel, há muito ocupado pelos Romanos. Judas também já sabia que Cristo andava a escolher discípulos para o acompanharem na Sua missão. Na visão de Judas, estes seriam os futuros ministros do Messias, o futuro Rei de Israel unificado. Ele próprio não poderia ser um deles? Se outros podiam!… E não demorou a gizar um plano para se encontrar com Jesus de um modo discreto, para uma conversa a sós. E encontrou-O, após muitos esforços nesse sentido:

Judas – Salve, Mestre! Encontro-Te, finalmente! Estou farto de andar à Tua procura!

 Jesus – Quem és tu, que tão distintamente te apresentas?

Judas – Sou Judas de Simão, natural de Keriot. Estou no Templo e vivo sonhando com o Rei dos Judeus. Da análise que eu já fiz de Ti, esse Rei és Tu. Aceita-me como Teu discípulo! Penso que ainda vou a tempo de me candidatar, pois vejo-Te rodeado de poucos!

Jesus – Aceitar-te, assim sem mais nem menos? Não! Não pode ser assim! Isso exige estudo, tempo, decisões firmes e inabaláveis, recta intenção, coragem, constância, humildade, …e muito mais!

Judas – Não acreditas que Te peço isso com sinceridade? Eu já pensei muito sobre este passo, por isso, não considero que seja leviandade da minha parte.

Jesus – Judas, Eu vejo em ti apenas impulsos momentâneos que se esvaem como o fumo quando o fogo se apaga. Pensa nisso até Me encontrares de novo! Brevemente poderás encontrar-Me. Nessa altura falaremos!

Passado algum tempo, Judas volta a encontrar Jesus num espaço aberto do Getsémani, num ambiente de oliveiras:

Judas – Salve, Mestre! Sou Judas de Keriot, aquele que Te pediu para o aceitares como Teu discípulo. Não Te lembras?

Jesus – (Nada entusiasmado)  Lembro! Vieste ter comigo há pouco tempo!

Judas – Então, aqui estou eu de novo. Segui a Tua sugestão de pensar, meditar, pesar os prós e os contras…e já decidi. Quero mesmo que me aceites no Teu grupo!

Jesus – E quais os motivos que te levam a querer?

Judas – Eu repito o que disse da outra vez:  Eu vejo em Ti o Rei do futuro Reino de Israel. Nada mais natural que eu queira estar a Teu lado nesta missão de restaurar o Reino de Israel!

Jesus – São então esses os motivos?

Judas – São! E acho que são motivos nobres! Ponho-me ao Teu serviço, juntamente com os meus bens, as minhas capacidades, os meus conhecimentos, amizades, trabalhos, etc.

Jesus – Vejo que és um homem ambicioso, um sonhador, um exaltado…Mas Eu não te procurei, não te chamei nem te convidei!

Judas – Mas eu, pelo contrário, procurei-Te por todo o lado e até recorri a espiões para me informarem do Teu paradeiro.

Jesus – Pensas que terá sido algo de bom para ti o teres Me encontrado?

Judas – Claro! Se eu Te procurava, foi bom encontrar-Te!

Jesus – E porque Me procuravas?

Judas – Obrigas-me a dizer outra vez? Vejo que não me compreendes!

Jesus – Eu compreendo-te, mas também quero que Me compreendas, antes de Me seguires por todo o lado. Eu devo esclarecer-te que as tuas ideias sobre Mim, o Messias, estão erradas. Eu não vim ao Mundo para cumprir o plano que tens na cabeça, nem coisa que se pareça!

Judas – Mas não és Tu Aquele que as Escrituras apontam como o Rei dos Judeus, Aquele de que falaram os profetas? Tu manifestas todos os sinais do verdadeiro Messias: Falas e ages como Deus, Deus está em Ti e Tu estás em Deus, operas milagres, conheces o passado, o presente e o futuro, és santo! Ora, onde Deus está e actua  há sucesso garantido! Por isso, não sei o que é que receias. Se as Escrituras profetizam tudo a Teu respeito, como é que podes trair a missão que Te foi confiada de libertar o povo da escravidão, como está escrito? É neste sentido que eu quero fazer algo pelo nosso povo, colocando-me a Teu lado no trabalho e na glória que advirá para o povo de Israel.

Jesus – Judas, tu deliras no teu sonho! Advirto-te que aquilo  que Me está reservado não é um bonito sonho, melhor dizendo, é um bonito sonho, mas pelo meio há um tremendo pesadelo. O meu Reino não é deste mundo. O que Eu trago a Israel não é a glória  mundana nem a luz da ciência mundana. Eu venho instaurar uma nova ordem meramente espiritual, fazer de todos os pecadores novos santos e abrir-lhes as portas da Vida Eterna. Neste novo Reino de Paz e Amor não há lugar para ódios, rancores, vaidades, ambições mundanas, crimes, desonestidades, roubos, divórcios, luxúrias, vinganças, guerras, invejas, acumulação de riquezas, avareza,… A Minha missão é salvar almas, conquistando-as a Satanás, arrancar-lhas através do arrependimento e dos novos meios que Eu venho estabelecer para a Salvação Eterna. Não vim para fundar  ou conquistar reinos mundanos. Que lugar quererás tu no Meu Reino, onde, em vez de glória, prestígio, louvores, recompensas materiais,…te estarão guardadas fome, sede, pobreza, honestidade, santidade, humilhações, perseguições e, no fim, uma injusta sentença de morte por causa do meu Nome? Sendo assim, não tenhas ilusões! Eu não libertarei o Povo do poder de Roma, nem lutarei contra César e se Eu já vim a este mundo sob o domínio de César, também o deixarei sob o seu domínio. Não serei um chefe político e não aceito ninguém imbuído dessas ideias. Por isso, Judas, é melhor ponderar estas coisas, antes de insistires.

Judas – Queres então  dizer  que me rejeitas!

Jesus -  Serei Eu que te rejeito ou serás tu que te rejeitas? É por Amor que te mostro as desvantagens que te circundam, é por Amor que eu digo a alguém que o remédio que vai tomar é veneno mortal, é por Amor que eu digo a um inocente que não tome aquele veneno, que pode destruí-lo, arruinar a sua saúde ou matá-lo.

Judas – Bem! Penso que estás a exagerar! Eu poderei envenenar-me ou arruinar a minha saúde se andar Contigo? Não acredito nessa! Dizes isso para me convenceres a não teimar no pedido que Te faço, porque, está visto, não me queres aceitar. Mas aceitas outros, que já andam Contigo e que são muito inferiores a mim em condição social, cultura, conhecimentos, influência, riqueza. Já contei seis que andam Contigo por todo o lado…Vais buscar pescadores, ladrões, cobradores de impostos, artífices,… todos uns Zés-Ninguém e até um ex-leproso que Tu curaste. Que queres Tu fazer com essa gente? Eu não reunirei melhores créditos do que eles para ser seleccionado? Não sei porque embirras comigo! Nunca Te fiz mal nenhum e só desejo fazer-Te Bem ajudando-Te na Tua missão de Messias de Israel!

Jesus – Judas, desiste do teu pedido! Tu arruinarás não só a saúde, mas até a vida do corpo e da alma. Tu conviverás com o Santo, mas tornar-te-ás Seu inimigo e como tal virás a ser um dos Seus inimigos, um assassino!

Judas – Assassino, eu? Só essa me faria rir! Acaba lá com esses argumentos ocos e admite-me! Se és o Salvador, como confessas que és, não podes rejeitar-me, porque eu também sou pecador e preciso de ser salvo e, se Tu és a Salvação, como podes rejeitar-me? Isso não é próprio de um Messias Salvador! Não vieste Tu para as ovelhas perdidas de Israel, como está escrito e Tu dizes? Então, eu sou uma dessas ovelhas perdidas, logo, não podes rejeitar-me! Eu vou ser-Te fiel até à morte! Não tenhas receios a meu respeito! Não Te desiludirei!

Jesus –(Triste e pensativo) Sim!… Sim!…Até à morte!…Até à morte!…Depois!…

Judas – Em que estás a pensar, Mestre? Não entendo esses silêncios!

Jesus – Judas, insistes?

Judas –Ainda me perguntas? Como não insistir? É isso que eu quero, custe o que custar!

Jesus – (Suspirando, triste e abatido) Assim seja!… Entrego-te à  misericórdia de Deus! Que Ele  esteja contigo e te proteja!

Judas – Obrigado, Mestre. Nunca lamentarás a tua decisão!

Jesus – (Desanimado) Sim, Judas!…

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Considerações:

  1. Judas comete aqui vários erros em juízos, afirmações, atitudes, palavras…, mas o seu erro principal e que está na base de todos os outros é a sua falta de recta intenção, ao apresentar-se a Cristo para O seguir. Não se pode tentar servir a Deus a pensar em recompensa material, porque Deus não  dá valor a esse serviço, que visa apenas glória e prestígio pessoais.
  1. Judas não mostra ter a sabedoria própria dos humildes e dos santos, os quais penetram fundo nas mensagens da Bíblia e extraem dela o verdadeiro sumo do que lá está, contrariamente a outros que se ficam pela rama e acabam por denegrir ou deturpar a Verdade que está por baixo ou dentro da palavra escrita. Foi assim que ele acabou por ver no Messias o Rei mundano que Israel precisava para expulsar os Romanos.
  1. Judas, em toda a conversa com Cristo, sempre revela uma flagrante grosseria e falta de delicadeza para com o Mestre, tratando-O de igual para igual, discutindo de igual para igual e tornando-se até agressivo em sua argumentação.
  1. Judas revela uma boa dose de soberba, atrevendo-se até a censurar atitudes de Cristo e a dar-Lhe conselhos quanto ao que devia fazer ou devia evitar.
  1. Judas sempre se mostra um auto-convencido, um arrogante, um homem cheio de sonhos coloridos de grandeza e glória mundanas e nesses sonhos insiste e persiste, apesar de Cristo lhe mostrar que eram sonhos loucos de loucura humana.
  1. A sua soberba fá-lo insistir teimosamente na viabilidade do seu plano, apesar de o Mestre lhe demonstrar que seria a ruína do seu corpo e da sua alma.
  2. Apesar de ver em Cristo o Messias,  Judas menospreza os Seus conselhos, encarando-os como desculpas idiotas e preconceitos engendrados propositadamente para rejeitar a sua candidatura a integrar o colégio apostólico.
  1. Ao recusar os conselhos e a argumentação de Cristo, Judas tenta praticamente colocar-se numa posição superior ao próprio Senhor, invertendo as posições para fazer valer os seus argumentos.
  2.  Judas usa de chantagem ao forçar a sua admissão, acusando Cristo de ser o culpado, caso ele (Judas) venha a condenar-se, se Cristo o recusar, fingindo até ser uma das ovelhas perdidas de Israel que também precisa de ser salva, mas só será salvo se o Messias o admitir. Argumentos engendrados na mentira e na hipocrisia.
  1. Judas actua como um cego a quem se aponta que vai por um caminho que leva à morte, mas que, mesmo assim, confiando em si próprio e nos seus talentos, avança a qualquer custo para um suicídio certo.
  1. Judas mostra não confiar nos prognósticos de Cristo a seu respeito, o que equivale a considerá-Lo um adivinho, um charlatão, uma pessoa pouco ou nada credível em seus diagnósticos e prognósticos.  Mais tarde, já perto da Paixão de Cristo, Judas acusá-Lo-á de ter arruinado a sua vida, por não ter concretizado o seu (de Judas) plano, recusando assumir a mínima culpa dos seus actos.
  2. As lições de Judas são pela negativa, mas também podemos aprender muito com elas, pois, se com Cristo aprendemos o que e como se deve fazer, com Judas aprendemos o que não devemos fazer.
  3. Há quem pense (e até há livros e filmes sobre isso) que Judas foi mais uma vítima do que um criminoso, porque, segundo as teses apresentadas, já estava escrito e profetizado que ele seria o traidor do Messias. É verdade que o Antigo Testamento aponta um traidor, mas não revela o seu nome, logo, não teria necessariamente que ser Judas.  Consta: “Até aquele que comia comigo à mesa …me traiu” (Salmo 41,9).  No Novo Testamento Cristo disse: “ Dos que me deste, nenhum se perdeu, a não ser o filho da perdição” (Jo 17,12); “A esse, que vai trair o Filho do Homem, melhor lhe fora não ter nascido”. (Mt 26,24)
  4. Há quem pergunte: Se Deus sabia quem era o homem que trairia Cristo, porque não o impediu ou porque permitiu que ele nascesse? Ou porque não o converteu? Judas tinha mesmo que trair Cristo, uma vez que estava escrito que ele o trairia?
  5. Convém ter ideias claras sobre questões confusas. A explicação para questões aparentemente inexplicáveis está na liberdade individual e na vontade soberana que Deus concedeu ao ser humano, tanto para o Bem como para o Mal. Deus não interfere nas leis da Natureza, nas leis da Física ou da Química, nas leis genéticas que presidem à individualidade de cada ser humano, embora possa fazê-lo, como no caso da gravidez da Virgem Maria. Deus não impede o nascimento de um futuro criminoso, mesmo de um homem que vai trair o Seu próprio Filho, como foi o caso de Judas. Cristo não precisava de um traidor para ser morto, porque mais cedo ou mais tarde o Sinédrio apanhá-Lo-ia quando Cristo decidisse que estava na hora. Ele próprio disporia as coisas e se entregaria, pois viera para isso.
  6. Convém não esquecer que para Deus tudo é presente e, como omnisciente que é, sabe tudo, conhece tudo aquilo que para nós está contido no passado, no presente e no futuro. Mas, apesar de saber o que cada ser humano vai ser durante a sua vida terrena, em consequência do bom uso ou do mau uso da sua liberdade e da sua vontade, Ele não pode ser culpado de não impedir o curso normal e o percurso natural que os seres humanos seguem em consequência das suas opções tomadas livremente.
  7. Em vista do que fica dito, qual o pecado de Judas, no final de contas? Foi ter arquitectado um plano e tentado sobrepô-lo ao plano de Deus, não olhando aos meios para conseguir desonestamente atingir os seus objectivos. Pelo meio ficaram pecados de soberba, orgulho, mentira, hipocrisia, ambição desonesta, roubo, luxúria, espiritismo, calúnia, cólera, inveja, agressividade verbal, desesperação de salvação e impenitência final (pecados contra o Espírito Santo), falta de respeito a Cristo, conspiração, traição, etc. Mas de Cristo ele não tinha razões válidas para se queixar, porque foi aconselhado e, no fim, também Cristo fez tudo para que ele se convertesse. Tudo em vão!
  8. Como consideração final, pergunta-se: Sabendo Cristo onde Judas iria parar, porque acabou Ele por ceder às suas pressões no sentido de ser admitido? A resposta tem a ver com  esta outra questão: Se Cristo tivesse rejeitado Judas e este, como deu a entender, tivesse entrado nos caminhos do mal, ou por vingança ou por outro motivo qualquer, e se condenasse, não poderia Cristo ser acusado de ter discriminado Judas e ser o causador da sua condenação? Tendo aceitado Judas, Cristo transferiu para ele (Judas) toda a responsabilidade e aguentou o ter de lidar com ele, que, a pouco e pouco, se ia transformando num demónio, até se transformar totalmente e se suicidar. Cristo não chorou somente por Lázaro e pelo futuro de Jerusalém, mas também chorou, e mais do que uma vez, por causa de Judas, ao sentir-se impotente para levá-lo a mudar e converter-se de vez. As lágrimas da Mãe de Jesus também não foram suficientes.

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Ezequiel Miguel

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. Última tentativa de Cristo para salvar Judas.

. O contrato de Judas com o Sinédrio

. E Judas foi enforcar-se

. A Ceia da despedida

. Manhas e artimanhas de Judas Iscariotes.

Cá se fazem…cá se pagam…

(Realidade & ficção)                                    

Personagens:

. D. Dinis, rei de Portugal

. Pajem de D. Dinis

. Pajem da rainha Santa Isabel

. Capataz do forno

.  Local das cenas -  Coimbra

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reiNão se sabe bem se foi real ou se é mais uma das lendas e histórias que giram à volta de Santa Isabel,  esposa do rei  D. Dinis e rainha de Portugal. Mas é possível que seja verdadeira, assim como outras que têm passado de geração em geração.

. Pajem de D. Dinis  – Majestade, eu preciso de lhe dizer uma coisa muito grave e importante!

D. Dinis – Conta lá o que sabes!

Pajem – Eu não sei se diga! Mas é tão grave!

D. Dinis – Ó rapaz, diz lá! Vieste até aqui e agora estás com receios?

Pajem – É que a rainha vossa esposa e o seu pajem…Bem, não sei se é preciso dizer mais, mas,…parece-me que…

D. Dinis – Já vejo onde queres chegar!… Queres dizer que há certas intimidades entre eles? Mas tu já viste alguma coisa?

Pajem – Bem, eu vi-os…assim muito pertinho um do outro e ele a beijar a mão da vossa real esposa!

D. Dinis – Só isso? E tu não beijas a minha mão quando vens falar comigo? Ainda agora beijaste! E para beijares a minha mão tens de estar perto de mim!

Pajem- Mas ali era diferente, saberá Vossa Majestade!…

D. Dinis -  Garantes então que eles têm um caso! Será isso?

Pajem – Quase que posso garantir que sim!

D. Dinis – Mas já viste mais alguma coisa além disso?

Pajem – Já vi o pajem dela olhar para ela com olhos a brilhar e vi os olhos dela brilhar também e sorrir estranhamente para ele. É verdade que ele é um belo rapaz, mas…

D. Dinis – E isso já ocorre há muito tempo?

Pajem – Já! Por isso é que tomei a resolução de informar Vossa majestade, embora me custasse muito.

D. Dinis – Está bem! Agradeço a tua franqueza e a amizade que tens pelo teu rei e senhor.

No dia seguinte, D. Dinis dirigiu-se a um dos fornos de cal situados no outro lado do rio Mondego, em Santa Clara:

D. Dinis – Quem é aqui o capataz  do forno ?

Dono – Sou eu, meu senhor!

D. Dinis – Então, presta atenção ao que te vou dizer!  Quando cá vier o primeiro  pajem a perguntar se as ordens do rei já foram cumpridas, vós agarrai nele e atirai-o para dentro do forno, sem lhe fazerdes perguntas e sem discutirdes com ele.

Dono – Sim, real majestade!

No dia seguinte, D. Dinis mandou chamar à sua presença o pajem da rainha e deu-lhe esta ordem:

D. Dinis – Vai ao forno que fica em  S. Clara, aquele que fica lá no alto, e pergunta ao capataz se as ordens do rei já foram cumpridas.

Pajem da rainha – Sim, meu senhor!

De caminho no cumprimento da sua missão,  o pajem apercebeu-se que se celebrava missa no convento de S. Francisco, na margem esquerda do rio Mondego. Ele entrou e lá ficou até ao fim. Logo de seguida, surgiu outro sacerdote paramentado para celebrar outra missa e ele também ficou. Entretanto, o rei fez cálculos e concluiu que era tempo de enviar o seu pajem a informar-se do que se passava, convocando, para o efeito  o seu próprio  pajem:

D. Dinis- Vem cá! Vai àquele forno lá no alto de S. Clara e pergunta ao dono do forno se as ordens do rei já foram cumpridas.

Pajem – Sim, meu senhor! Vou já!

E foi. Quando lá chegou, mal acabou de falar, foi de imediato agarrado e atirado ao forno. Surgiu pouco depois o pajem da rainha a fazer a mesma pergunta, recebendo em resposta a confirmação da execução das ordens do rei. No regresso foi comunicar ao rei que as suas ordens tinham sido cumpridas. Imagine-se o espanto de D. Dinis:

D. Dinis – O quê? Tu aqui, rapaz?

Pajem – Sim, meu senhor, para dizer a vossa real majestade que as ordens do rei foram cumpridas.

D. Dinis -  Tu foste directo ao forno ou demoraste-te em algum lado?

Pajem – No caminho, assisti a duas missas. Como Vossa majestade não me marcou horas de regresso, eu não tive essa preocupação. Foi só isso! Mas Vossa majestade pode ficar descansada e contente por as vossas reais ordens terem sido cumpridas…

D. Dinis – Pois, pois! É isto escrever direito por linhas tortas! Línguas que incendeiam morrem no incêndio!

Pajem -  Não entendo o que Vossa real majestade acaba de dizer!

D. Dinis – Não faz mal, rapaz! Estou-te grato por teres cumprido as minhas ordens com dedicação e eficácia. Podes ir em paz e diz à rainha, tua senhora, que ainda hoje nos encontraremos.

Pajem – Sim, meu senhor!

Considerações:

Em casos semelhantes, o povo costuma dizer :” Cá se fazem, cá se pagam!” Mas não é sempre assim. Porém,  foi assim com os personagens bíblicos que a Bíblia apresenta como vítimas inocentes de calúnias, em que os seus caluniadores caíram nas armadilhas preparadas para as suas vítimas. Veja na Bíblia os casos de Susana , Mardoqueu, Daniel,  José do Egipto.

Pode-se ser caluniador de duas maneiras: inventando a calúnia (mentira a respeito de alguém) e transmitindo-a  directamente ou retransmitindo-a em cadeia até chegar não se sabe bem até onde e com que consequências. Em qualquer dos casos, a vítima costuma ser a última a saber e, depois de saber, nem ela nem ninguém consegue apagar esse incêndio. Às vezes, tal como nos incêndios, pode saber-se onde começou e porquê: vingança, maldade, inveja, demência,… Os fogos na floresta acabam, mais tarde ou mais cedo, por serem debelados, mas o incêndio da calúnia deixa cinzas por onde vai passando e nem depois de o caluniador e o caluniado morrerem esse incêndio fica apagado. O “ diz-se, diz-se…” tem vida própria, alimentada pela inesgotável energia do inferno.

Nem sempre o caluniador tem a intenção de caluniar e nem sempre se apercebe do mal que provoca ao retransmitir notícias, informações, boatos, mexericos, intrigas, coscuvilhice…Mas aquilo que retransmite, consciente ou inconscientemente, é mais uma achega que vai alimentando o incêndio que vai destruindo  a vítima. Em matéria grave é mesmo pecado grave. A calúnia tem asas que lhe permitem voar em todas as direcções e uma foice que varre tudo o que é mais querido e digno a uma pessoa: o direito ao bom nome, à honra, ao prestígio, à sua aceitação em sociedade, no local de trabalho, etc.

A calúnia destrói namoros, noivados, casamentos, famílias, profissões, vocações sacerdotais ou religiosas, gera doenças, insónias, obsessões, vinganças, assassínios, suicídios, divórcios, conflitos em tribunais, perda de empregos, prisões injustas,  depressões nervosas, ideias fixas, perda de bens materiais, sei lá que mais! Ninguém está imune contra a calúnia, assim como ninguém está imune à queda de um raio sobre a sua cabeça. Quando a calúnia cai em cima de alguém, de nada lhe adiantará tentar detê-la, não tendo outro remédio senão beber o cálice amargo que lhe foi destinado. Se tem fé, a oração, a entrega da situação a Deus, a oferta a Deus pelos próprios pecados ou em reparação pelos pecados dos outros, são lenitivos para aquilo que parece não ter remédio. De qualquer modo, como vítima de calúnia não está só. Cristo foi o maior caluniado e nem a Sua Mãe escapou à calúnia. Lembro-me de Joana de Arc, condenada à fogueira por ter sido acusada de bruxaria e, possivelmente, muitas outras vítimas terão tido a mesma sorte. Também houve santos que morreram na prisão devido a falsas acusações. Como diria o Pe António Vieira a propósito da guerra, nem Deus está seguro e protegido contra a calúnia. Já no Antigo Testamento Deus se defendia da calúnia que os Judeus Lhe lançavam de ser o culpado dos males que os afligiam, o que acontece também com os homens de hoje. Se acontece com Deus, quem somos nós para que tal não nos aconteça, uma vez que não há vacinas contra?

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados :

. A mentira

. O Dilema de Susana – I

.O Dilema de Susana – II

José do Egipto – V

(Continuação de “José do Egipto – IV” )

( Cf.Génesis, Cap. 45, 46, 47)

O texto bíblico vai em negrito

 .

faraoJosé não pôde conter-se diante dos que o rodeavam, mandou sair toda a gente, ficando apenas ele e seus irmãos. Foi então que se deu a conhecer a eles, após uma crise de choro. Chorava tão alto que  até os egípcios o ouviam, chegando o acontecimento aos ouvidos do faraó. Mas havia chegado a hora de esclarecer tudo perante os irmãos e acabar com os equívocos e as manobras no sentido de esconder a sua verdadeira identidade.

José – Aproximai-vos todos de mim e olhai bem para mim! Eu sou José, vosso irmão, aquele que vendestes e que veio parar ao Egipto. Mas não vos entristeçais nem vos irriteis contra vós próprios, por me terdes vendido para este país. Foi para podermos conservar a vida que Deus me mandou para aqui à vossa frente. Com efeito, há dois anos que a fome reina em toda esta região. Durante cinco anos não voltará a haver lavoura nem colheitas. Deus enviou-me à vossa frente para vos preparar recursos, neste país, e para vos conservar a vida e garantir a sobrevivência de uma forma maravilhosa. Não fostes vós que me fizestes vir para aqui; Foi Deus; foi Ele que me tornou como um pai para o faraó, senhor da sua casa e administrador de todo o país do Egipto. Apressai-vos a regressar para junto de meu pai e dizei-lhe: “Assim fala o teu filho José: Deus fez-me senhor de todo o Egipto. Vem para junto de mim sem demora. Habitarás na terra de Góchen e estarás perto de mim, tu e os teus filhos, os teus netos, o teu gado miúdo e graúdo e tudo o que te pertence. Sustentar-te-ei ali, porque, durante cinco anos, ainda haverá fome, a fim de que nada sofras, tu, a tua família e tudo o que te pertence.

Vedes com os vossos olhos, assim como meu irmão Benjamim, que, na verdade, sou eu que vos falo. Contai a meu pai todas as honras que me rodeiam no Egipto e apressai-vos a trazer o meu pai para cá.”

Então, lançou-se ao pescoço de Benjamim, seu irmão, e chorou: e Benjamim também chorou nos seus braços. José abraçou todos os seus irmãos e chorou abraçado a eles. Só então é que os irmãos puderam falar-lhe.

  A notícia espalhou-se por toda a corte do Faraó: “Chegaram os irmãos de José!” O faraó disse a José:

Faraó – “Diz aos teus irmãos que voltem a carregar os seus animais e que se ponham a caminho de Canaã. Diz-lhes que tragam o vosso pai e as vossas famílias e que venham para junto de mim. Dar-vos-ei a melhor província do Egipto e comereis os melhores frutos deste país. Diz-lhes que levem carros para os seus filhos e suas mulheres…Que não tenham pena das suas terras, porque o melhor do Egipto será para eles!

Assim fizeram os filhos de Jacob. José deu-lhes carros,…forneceu-lhes provisões para a viagem e deu a todos, individualmente, roupas novas….Enviou a seu pai dez jumentos carregados com trigo, pão e provisões, que lhe serviriam para a viagem. Despediu-se dos irmãos e disse-lhes: ”Não entreis em discussões durante a viagem!”

Quando chegaram a Canaã, à casa de seu pai Jacob, disseram-lhe que José estava vivo e que governava todo o Egipto, mas ele não acreditou. Repetiram-lhe então as palavras de José e  mostraram-lhe os carros que ele enviara para os levar a todos para o Egipto. E Jacob exclamou: Meu filho José ainda está vivo. Isso basta-me! Vou voltar a vê-lo antes de morrer.

Tudo e todos preparados, chegou o dia em que homens, mulheres, crianças e animais se puseram a caminho do Egipto, numa caravana de carros, rebanhos e animais de carga, mais as  setenta pessoas da casa de Jacob.

Chegados ao Egipto, José  informou o faraó. Em resposta:

Faraó – Teu pai e teus irmãos vieram para junto de ti. O país do Egipto está à tua disposição. Instala-os na melhor província! Que habitem na terra de Góchen e se vires que entre eles há pessoas de valor, nomeia-os inspectores dos meus domínios!

Jacob saudou o faraó e retirou-se da presença dele.  José instalou seu pai e seus irmãos e concedeu-lhes direitos de propriedade no Egipto, no melhor território, o de Ramessés, como o faraó tinha ordenado. E José sustentou seu pai, seus irmãos e toda a casa de seu pai, dando-lhes víveres, de acordo com as necessidades de cada família.

A fome continuou a atingir Canaã e agudizou-se no Egipto, cuja população esgotou o dinheiro para comprar  cereais a José. Quando os habitantes já não tinham dinheiro, entregavam os seus animais em troca do trigo; quando já não tinham animais, vendiam os campos a José para comprar trigo; quando já não tinham campos, entregavam a própria casa,  e, finalmente, ofereciam-se para escravos, em troca do alimento e sementes. Em resultado desta política agrária conduzida por José, todo o dinheiro do Egipto entrou nos cofres do faraó e todos os habitantes do Egipto, todos os animais, terras e casas passaram a ser sua propriedade.

E José disse ao povo:

José – De hoje em diante, vós e as vossas terras  sereis propriedade do faraó. Aqui estão as sementes  para semeardes a terra. Depois, na  altura da produção, dareis um quinto ao faraó; as outras quartas partes serão para semeardes os campos e para vos sustentardes, assim como à vossa gente e às vossas famílias.

Povo – Tu conservaste-nos a vida. Possamos alcançar o favor do nosso senhor e permanecer servos do faraó!

Israel estabeleceu-se então no país do Egipto, na província de Góchen; os israelitas adquiriram propriedades e multiplicaram-se prodigiosamente….durante quatrocentos anos, como fora profetizado a Abraão:

“O Senhor disse-lhe (a Abraão): Fica desde já a saber que os teus descendentes habitarão como estrangeiros numa terra que não é deles, que serão reduzidos à escravidão e hão-de ser oprimidos durante quatrocentos anos. Mas eu próprio julgarei também a nação que os escravizar e sairão, depois, com grandes riquezas dessa terra (Gen 15, 13-14).

Considerações:

Esta história de José não é apenas uma linda história! Todos os episódios narrados na Bíblia são lições de vida para quem a interpreta correctamente, quer esses episódios tenham um fim feliz ou infeliz, pois  se pode aprender a partir de tudo o que é negativo ou positivo. Na Bíblia estão representados todos os homens, quer sejam santos quer sejam pecadores, por isso, nós também lá temos quem nos represente… A Bíblia serve para ensinar, corrigir, aconselhar ou condenar comportamentos e atitudes, animar, confiar, largar o pecado, louvar, pedir, agradecer, explicar o sentido da vida na Terra, porque se nasce, se vive, se morre…, explicar o que vem depois da morte, como se deve viver e morrer, explicar o tempo e a eternidade e nada daquilo que envolve  Deus, o homem, a alma, o mundo,  fica fora. Lá, temos exemplos e teorias sobre todos os tipos de pecados e de virtudes, além  de explicitar como Deus tem agido, age e agirá com os homens e com o resto da Criação. A Bíblia é o livro dos livros e, no fim da vida de cada homem, apenas interessará se aprendeu ou não a viver segundo os ensinamentos da Bíblia, interpretados e propostos pela Igreja católica, não alterados, deturpados, cortados, aumentados, distorcidos, esfarrapados…

A Bíblia é Fonte da Verdade, mas não é a única fonte, contrariamente ao que apregoam todos aqueles para quem ela tem valor único e absoluto, como sejam os protestantes, os espíritas, os homossexuais e outros. A Bíblia verdadeira e completa é a Católica, com a qual a Igreja Católica está em consonância, assim como os ensinamentos (palavras, usos e costumes) deixados pelos Apóstolos de Cristo (Tradição) e que a Igreja mantém em vigor. Embora a Bíblia, quando correctamente interpretada, não leve ninguém ao erro (inerrância), ela sempre foi aproveitada para semear todo o tipo de erros e assim continuará a ser, para mal daqueles que o fazem e daqueles que se deixam cair…

Se você é católico, que Bíblia tem em casa, se é que tem uma?… Queime-a, se não tiver o seguinte:

1. Aprovação de um Bispo católico (Imprimatur);

2. Notas explicativas no rodapé das páginas;

3. Conter os seguintes livros:

Génesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronómio; Josué, Juízes, Rute, 1º Samuel, 2º Samuel, 1º Reis, 2º Reis, 1º Crónicas, 2º Crónicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite, Ester, 1º Macabeus, 2º Macabeus, Job, Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Sabedoria, Ben-Sirá (Eclesiástico); Profetas: Isaías, Jeremias, Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. Evangelhos de:  Mateus, Marcos, Lucas, João. Actos dos Apóstolos; Epístolas de S. Paulo : Romanos, 1ª Coríntios, 2ª Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, 1ª Tessalonicenses, 2ª Tessalonicenses, 1ª Timóteo, 2ª Timóteo, Tito, Filémon. Cartas de: Tiago, 1ª Pedro, 2ª Pedro, 1ª João, 2ª João, Judas. APOCALIPSE.

Bíblias…há muitas! Mas a Bíblia é só uma, a Bíblia Católica, a única que deverá ler, estudar, recomendar e oferecer como presente!

Considerações:

1 – Com a história de José começa a presença do povo de Israel no Egipto, a qual durou quatrocentos anos, terminando com a saída atribulada conduzida por Moisés.

2- No princípio, enquanto José foi vivo, o povo de Israel gozou das graças do Faraó, mas, após a morte de José, os faraós seguintes começaram a recear pela estabilidade do país, devido ao preocupante aumento da população hebreia, que, devido à zona fértil que ocupavam e à recusa de se misturarem com o resto da população,  começaram a ser mal olhados e temidos, não fossem eles constituir uma nação dentro do próprio Egipto. Receios, medos, incertezas, possíveis rebeliões para tomar conta do poder, as riquezas acumuladas, o desrespeito pelos deuses do Egipto e outros factores contribuíram para que, a pouco e pouco, passassem à condição de escravos, até ao dia em que Deus, por intermédio de Moisés, conduziu o povo para fora do Egipto, o que se pode ver no livro do Êxodo, que, na Bíblia vem logo a seguir ao livro do Génesis, cuja leitura integral de ambos recomendo.

3 – Diz Deus, pelo profeta Isaías. “Os vossos caminhos, não são os meus caminhos e os vossos pensamentos não são os meus pensamentos (Is 55, 3). Quem adivinharia que os sonhos de José se iriam concretizar desta maneira? Mas aquilo que pareceu ser uma desgraça para ele e seu pai Jacob, acabou por ser parte do plano de Deus para os salvar a todos de morrerem à fome e dar continuação à promessa feita a Abraão de o fazer pai de um povo mais numeroso que as areias do mar e as estrelas do céu.

4- José aconselhou os seus irmãos, no retorno a Canaã, a trazerem o pai e a restante família para o Egipto, a não entrarem em discussões sobre quem teve mais culpas na altura em que ele foi vendido. O conselho era de esquecer o passado, porque, segundo ele, eles não seriam culpados, mas foi Deus que assim organizou as coisas para que fosse um dia possível salvá-los a todos no Egipto. Insondáveis são os pensamentos, os planos, os esquemas, as obras, os caminhos, os decretos de Deus, que sabe extrair o bem onde há mal. Como diz S. Paulo : “Tudo acaba em bem para aquele que ama o Senhor”.

5 – Também isto é a fé: acreditar que Deus está por trás e acima dos acontecimentos e que é Ele que tem a última palavra na história dos homens. Nada Lhe escapa! Contrariamente, nós apenas vemos o presente e sabemos como foi o passado, mas ignoramos o resto que ainda está escondido no futuro. De qualquer modo, o exemplo de José mostra-nos que cada um de nós teve, tem ou terá uma missão a cumprir, segundo os Seus planos, fazendo-nos por vezes rebolar para aqui e para ali sem que encontremos uma explicação, e que ver Deus nos acontecimentos é uma das características da fé    . Não é difícil, no fim de algum tempo de  infortúnio, chegarmos à conclusão: “Afinal, para eu agora disfrutar deste boa situação, teria mesmo de passar por aquele mau bocado”! Nem tudo o que de mau nos acontece na vida (sem termos culpa disso…) é mesmo uma desgraça! Poderá não ser, mas algo necessário (um empurrão…) para a fase seguinte! Aí, ter fé activa em Deus, rezar, confiar e esperar!

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Ezequiel Miguel

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José do Egipto – IV

(Confira: Gen. capítulo 43 e 44)

O texto bíblico vai em negrito

 .

JoseIVEntretanto, a fome pesava sobre o país(Canaã). Quando consumiram todo o trigo que tinham trazido do Egipto, o pai disse-lhes:

Jacob – Voltai ao Egipto e comprai-nos alguns víveres!

Judá – Aquele homem falou-nos categoricamente e proibiu-nos de aparecer à frente dele sem levar o nosso irmão connosco! Se consentes que ele vá connosco, então iremos comprar víveres. Mas se não o deixares ir, nós não podemos voltar lá!

Jacob – Porque procedestes assim tão mal para comigo, ao informardes esse homem de que tínheis ainda um irmão?

Rúben – Aquele homem fez-nos muitas perguntas, a nosso respeito e da nossa família. Ele perguntou se o nosso pai ainda vivia, se tínhamos mais algum irmão,… E nós respondemos às suas perguntas. Podíamos acaso adivinhar que ele iria dizer: ”Fazei vir o vosso irmão”? Nós fomos apanhados desprevenidos e não tivemos tempo de engendrar uma manobra de diversão. Bem nos arrependemos disso, mas agora já não há remédio. Sem ele, nós não voltamos lá, nem que morramos à fome! A chave do problema está nas tuas mãos!

Judá – Deixa ir o menino comigo, a fim de que possamos partir; e assim poderemos viver, nós, tu e os nossos filhos, em vez de morrermos. Sou eu que respondo por ele; é a mim que o reclamarás; se eu não to trouxer e não o puser diante de ti, declarar-me-ei culpado diante de ti, para todo o sempre. Se não tivéssemos demorado tanto, já estaríamos de volta pela segunda vez!

Jacob – Visto que é assim, está bem!…Metei nas vossas bagagens os melhores produtos do país e levai-os como homenagem a esse homem: um pouco de bálsamo, mel, aromas, láudano, pistácios e amêndoas. Levai também convosco o dobro do dinheiro, assim como a soma que encontrastes na boca dos sacos, para lho devolverdes, pois deve lá ter sido posto por engano. Levai o vosso irmão e preparai-vos para voltar à presença desse homem! Que o Deus supremo vos faça encontrar compaixão junto desse homem, a fim de que vos deixe vir com o outro vosso irmão e com Benjamim! Quanto a mim, se tiver de ser privado dos meus filhos, paciência, que eu seja privado deles!

Os homens partiram…com Benjamim e o dobro do dinheiro….Apresentaram-se diante de José, que, logo que viu Benjamim, mandou chamar o intendente:

José – Manda entrar esses homens em minha casa, manda matar um animal e prepara-o, porque esses homens comerão comigo ao meio-dia!

O intendente obedeceu às ordens e introduziu os viajantes  na casa de José, mas …eles alarmaram-se na casa de José e disseram:

Rúben – É por causa do dinheiro reposto nos nossos sacos, da outra vez, que nos trouxeram aqui; é para nos agredirem, caindo sobre nós, para nos escravizarem e se apoderarem dos nossos jumentos.

Judá – (Para o governante da casa de José):  - Perdão, senhor! Já aqui estivemos uma vez para comprar víveres. Ora, aconteceu que ao chegarmos a uma estalagem (ou acampamento), abrimos os nossos sacos e encontrámos o dinheiro de cada um na boca de cada saco – o nosso próprio dinheiro. Temo-lo nas mãos e trouxemos connosco uma outra quantia para comprar víveres. Não sabemos quem voltou a pôr o nosso dinheiro nos nossos sacos.

Governante –  Tranquilizai-vos e não tenhais medo! O vosso Deus, o Deus do vosso pai, é que vos fez encontrar um tesouro nos vossos sacos: o vosso dinheiro foi-me entregue, mas recebi ordens para o pôr no saco de cada um. Esse dinheiro é vosso, assim como o trigo que levastes.

E trouxe-lhes  Simeão. O intendente mandou-os entrar na casa de José. Deram-lhes água para lavarem os pés e deram forragem aos animais. Enquanto esperavam  José, que devia chegar ao meio-dia, prepararam os presentes, porque lhes tinham dito que comeriam ali. Quando José entrou em casa, levaram-lhe os presentes que haviam trazido e inclinaram-se até ao chão, diante dele.

José – Então, como estais todos de saúde?

Judá – Não temos razões de queixa. Apenas um pouco cansados da viagem, mas isso passa.

José – Como está o vosso velho pai, esse ancião do qual me falastes? Ainda está vivo?

Rúben – O teu servo, nosso pai, está de saúde e vive ainda.

José – Então, tu aí, tu é que és o Benjamim! É este o vosso irmão mais novo, do qual me falastes? Que Deus te seja favorável, meu filho!

E José saiu…para chorar. Regressou pouco depois e deu ordens para servir a  refeição… Beberam e alegraram-se todos juntos. José deu a seguinte ordem ao intendente da sua casa:

José -  Enche de víveres os sacos destes homens, tanto quanto eles podem conter, e põe o dinheiro de cada um na boca do saco. Põe também a minha taça de prata na boca do saco do mais novo, juntamente com o preço do trigo!

E tudo foi executado. Quando chegou a manhã, deixaram partir os homens com os seus jumentos. Acabavam de sair da cidade e ainda estavam a pouca distância, quando José disse ao intendente da sua casa:

José – Vai, corre atrás desses homens e, assim que os encontrares, diz-lhes…

Intendente - Alto aí! Um de vós tem no seu saco a taça de prata por onde bebe o meu senhor.    Também é por esta taça que o meu senhor faz  adivinhação. É assim que pagais o bem com o mal?

Judá – Porque fala assim o meu senhor? Longe de nós ter cometido uma tal acção! Do país de Canaã trouxemos-te o dinheiro que encontrámos na boca dos nossos sacos. Como poderíamos nós então furtar da casa do teu amo ouro ou prata? Aquele dos teus servos que a tiver a taça em seu poder morrerá e nós mesmos seremos escravos do meu senhor!

Intendente – Sim, é certo e justo o que dizeis! Somente aquele que for encontrado na posse da taça é que será meu escravo, e vós ficareis livres! Vamos então a pôr os sacos no chão, para eu os abrir um por um.

E o intendente revistou-os a todos….A taça foi encontrada no saco de Benjamim. Rasgaram, então, as suas vestes, tornaram a carregar os jumentos e voltaram para a cidade. Judá entrou com seus irmãos na casa de José, que ainda ali se encontrava, e prostrou-se no chão a seus pés.

José – Que procedimento foi o vosso? Não sabeis que um homem como eu tem o poder de adivinhar?

Judá – Que havemos de dizer ao meu senhor? Como falar e como nos justificaremos? Deus descobriu a iniquidade dos teu servos. Seremos agora os escravos do meu senhor, tanto nós como aquele em cujo poder se encontrou a taça.

Longe de mi proceder assim! O homem em cujo poder se encontrou a taça é que será meu escravo. Quanto a vós, voltai em paz para junto do vosso pai!

Judá – Por favor, senhor, que o teu servo possa dizer uma palavra aos ouvidos do meu senhor e que a tua cólera não se inflame contra o teu servo! Porque tu és igual ao faraó! Quando o meu senhor interrogou os seus servos, dizendo: “Tendes ainda pai ou outro irmão?”, nós respondemos ao meu senhor: ”Temos um pai idoso e um irmão jovem, filho da sua velhice. Seu irmão morreu, ficando ele só, dos filhos de sua mãe, e o pai está muito afeiçoado a ele. Tu disseste então aos teus servos: ”Trazei-mo, para que eu o veja!” E nós respondemos ao meu senhor: ” O menino não pode deixar o pai; se ele o deixasse, o seu pai morreria”…Foi este teu servo que se responsabilizou pelo menino, prometendo ao pai que eu o levaria de volta. Se não o levar, o seu pai morrerá de desgosto. …Por favor, que este teu servo fique teu escravo em vez dele, mas deixa o menino voltar para seu pai, juntamente com seus irmãos! Como poderei eu voltar para junto de meu pai sem levar comigo o seu filho? Nem quero ver a dor que sobreviria a meu pai!

(Continua)

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Ezequiel Miguel

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José do Egipto – III

( Confira: Gen. capítulos 41 e 42)

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(Realidade & ficção)

O texto bíblico vai em negrito

 .

JacobJosé deixou a presença do Faraó e percorreu toda a terra do Egipto. Durante os sete anos de abundância, a terra produziu copiosamente e ele reuniu todos os víveres dos sete anos em que houve abundância…e depositou-os nas cidades, colocando em cada cidade os víveres dos campos vizinhos. José armazenou o trigo como  a areia do mar, em tal quantidade que se renunciou a medi-lo, pois isso ultrapassava toda a medida.

 Chegaram ao fim os sete anos de abundância que houve na terra do Egipto e começaram a vir os sete anos da fome. …Havia fome em todas as terras, mas havia pão em todas as regiões do Egipto…A fome assolava toda a terra…Então, José abriu todos os armazéns de trigo e vendeu mantimento aos Egípcios…De toda a terra se veio ao Egipto para comprar mantimento a José…

 Jacob, vendo que havia mantimento à venda no Egipto, disse aos filhos:

Jacob – Porque estais aí a olhar uns para os outros? Eu soube que há mantimento para vender no Egipto. Descei e comprai-o para nós, a fim de que vivamos e não morramos! Porém, o Benjamim não irá, para que não lhe aconteça nenhuma desgraça. Os outros,…podeis ir.

E lá foram…” Os irmãos de José chegaram e prostraram-se diante dele, com a face em terra. Logo que José viu os irmãos ele os reconheceu, mas fingiu ser estrangeiro para eles e falou-lhes duramente:

José – De onde vindes?

Todos – Da terra de Canaã, para comprar víveres.

Assim José  reconheceu os seus irmãos, mas eles não o reconheceram. José lembrou-se dos sonhos que tivera a seu respeito e disse-lhes:

José – Vós sois espiões! É para reconhecer os pontos fracos da terra que viestes!

Todos – Não, meu Senhor! Os teus servos vieram para comprar víveres. Somos todos filhos de um mesmo homem, somos sinceros, os teus servos não são espiões!

José – Não! Foi para ver os pontos fracos do Egipto que viestes!

Todos – Os Teus servos eram doze irmãos, nós somos todos filhos de um mesmo homem, na terra de Canaã. O mais novo está agora com o nosso pai e há um que já não existe.

José – É como eu vos disse! Vós sois espiões! Eis como sereis provados: pela vida do Faraó, não partireis daqui sem que primeiro venha o vosso irmão mais novo (Benjamim)! Enviai um de vós para buscar o vosso irmão; os outros ficam prisioneiros. Provareis as vossas palavras e se verá se a verdade está convosco ou não. Se não, pela vida do Faraó, sois espiões! Ficareis todos na prisão durante três dias!

No terceiro dia:

José – Eis o que fareis para salvar a vida, pois eu temo a Deus: se sois sinceros, que um de vós fique detido na prisão! Quanto aos outros, parti e levai os mantimentos de que as vossas famílias precisam! Trazei-me o vosso irmão mais novo; assim, as vossas palavras serão verificadas e não morrereis!…

Judá – Na verdade, nós expiamos o que fizemos ao nosso irmão. Vimos a aflição da sua alma, quando ele nos pedia graça e nós não lhe demos ouvidos. Foi por isso que nos veio esta aflição.

Rúben – Eu não vos disse para não cometerdes falta contra o menino? Mas vós não me ouvistes e eis que se nos pedem contas do seu sangue.

Eles não sabiam que José os compreendia, porque entre José e eles estava o intérprete. Então José afastou-se para chorar. Depois voltou para eles e falou-lhes:

José – (Dirigindo-se a um deles) Como te chamas tu?

Simão – Simeão.

José – Então,  o Simeão vai ficar algemado até vós trazerdes o vosso irmão mais novo.

José deu ordem de encher de trigo os sacos, de restituir o dinheiro de cada um em sua bolsa e lhes dar provisões para o caminho. E assim lhes foi feito. Eles carregaram o trigo sobre os seus jumentos e se foram. Mas um deles, de noite, no acampamento, abriu o saco do trigo e encontrou, logo no cimo, o dinheiro. Ele disse aos seus irmãos:

Levi – (Assustado) Devolveram-me o dinheiro! Está aqui no meu saco!

Issacar – E agora, o que fazemos? O que é isto que Deus nos fez? Vamos ser tratados como ladrões! O que vamos dizer ao nosso pai? Isto vai levá-lo à cova!

Judá – Não te aflijas! Falaremos ao nosso pai de modo a que ele não saiba o que aconteceu.

Chegando junto de Jacob, seu pai, no país de Canaã, contaram-lhe tudo o que lhes tinha acontecido:

Judá – O homem que é o senhor do país falou-nos com dureza, tratou-nos como espiões que iam explorar o país. Nós dissemos-lhe que éramos pessoas honestas e que não éramos espiões e que nunca o fomos. Contámos-lhe que éramos doze irmãos, filhos do mesmo pai, e que um já não vivia. Também dissemos que o mais novo está agora contigo no país de Canaã. E o homem respondeu-nos que, para provarmos que éramos honestos e sinceros, ficaria um de nós como refém até regressarmos com o nosso irmão mais novo. Ele escolheu Simeão, que mandou amarrar e lançar na prisão. Prometeu que depois libertaria Simeão e nós também poderíamos circular pelo país e fazer as nossas compras. E agora, vamos esvaziar os nossos sacos!

“Ao esvaziarem os seus sacos, todos eles encontraram o dinheiro dentro deles. À vista desse dinheiro, tanto eles como seu pai estremeceram.

Rúben – Oh! O meu saco também…

Dan – Olhem! O meu dinheiro vem aqui no saco! Como é que isto aconteceu? Não fui eu que o pus cá!

Todos –(À medida que abriam os sacos) Oh! O meu também! Nós pagámos…e agora o dinheiro aparece aqui! Isto quer dizer que esse homem deu ordens para nos devolverem o dinheiro!

Zabulon – Sim, mas quem vai acreditar que não somos ladrões?

Aser –É simples! Fazemos um pacto de silêncio e cortamos a cabeça àquele que der com  a língua nos dentes!

Neftali – Aqui ninguém vai fazer isso, mas o servo que encheu os nossos sacos pode…

Gad – Esperemos que isso não aconteça! Se acontecer!… Deus lá sabe!…

Jacob – Só me faltava esta! Correr o boato que meus filhos são ladrões! Talvez ele tenha querido oferecer-vos o trigo! Mas que motivos teria ele  para assim proceder?  E se agora, quando regressardes, ele vos acusa de terdes roubado o dinheiro que dizeis ter entregado? Quem irá acreditar-vos?  Não ficareis todos presos? Quanto ao Beijamim!…Ainda me ides deixar sem os meus filhos. José desapareceu, Simeão desapareceu e quereis agora tirar-me o Benjamim! É sobre mim que tudo isto cai!

Rúben – Tira a vida aos meus dois filhos se eu to não trouxer de volta! Entrega-o nas minhas mãos e trá-lo-ei para junto de ti.

Jacob – O meu filho não irá convosco, porque o seu irmão já não existe e só ele é que ficou! Se lhe acontecesse algum mal durante a viagem que ides fazer, os meus cabelos brancos desceriam ao túmulo, com o peso da dor.

(Continua)

Ezequiel Miguel

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José do Egipto – II

(Cf. Gen. capítulos 39, 40, 41)

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(Realidade &ficção)

O texto bíblico vai em negrito.

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JoseIINo Egipto

“José fora levado ao Egipto. Putifar, eunuco do Faraó e comandante dos guardas…comprou-o aos ismaelitas que o levaram para lá….José encontrou graça aos seus olhos e foi posto ao serviço do seu senhor, que o instituiu como mordomo e lhe confiou tudo o que lhe pertencia…e não se preocupou com mais nada, a não ser a comida que tomava. José era belo de porte e tinha um rosto bonito” (Gen. 39, 1-6)

“Aconteceu que, depois desses factos, a mulher do seu senhor lançou os olhos sobre José e disse:

Mulher de Putifar  – Dorme comigo!

José – Estando eu aqui, o meu senhor não se preocupa com o que se passa na casa e confiou-me tudo o que lhe pertence. Ele mesmo…não me interditou  nada a não ser a ti, porque és a sua mulher. Como poderia eu fazer tão grande mal e pecar contra Deus?

Ora, certo dia, José veio à casa de Putifar em serviço e não havia na casa nenhum dos domésticos. A mulher agarrou-o pela roupa, dizendo:

Mulher – Dorme comigo!

Mas ele deixou a roupa ( o manto) nas suas mãos, saiu e fugiu….Ela chamou os domésticos:

Mulher – Vede! O meu marido trouxe-nos um hebreu para nos insultar. Ele aproximou-se de mim para dormir comigo, mas eu lancei um grande grito, e ele, vendo que eu levantava a voz e gritava, deixou a sua roupa a meu lado, saiu e fugiu”(Gen 39, 7-15)

“Colocou a roupa a seu lado, esperando que o seu senhor viesse para casa. Então, ela disse-lhe as mesmas palavras….Quando o marido ouviu,… a sua cólera inflamou-se, mandou prender José e meteu-o na prisão, onde estavam os prisioneiros do rei….Mas Deus assistiu José e estendeu sobre ele a sua bondade e fez-lhe encontrar graça aos olhos do carcerei-chefe,…que confiou a José todos os detidos que estavam na prisão e tudo o que se fazia passava por ele. (Gen 39, 16-23)

“Depois destes acontecimentos, o copeiro e o padeiro-mor do Faraó ofenderam o seu senhor e ele  mandou prendê-los na casa do comandante dos guardas, onde também estava José, …que ficou agregado ao seu serviço. ( Gen 40, 1-4)

Um dia:

José – Bom dia! Parece que estais muito preocupados! Dormistes mal?

Copeiro – Na prisão dorme-se sempre mal, mesmo que pareça não haver motivos para isso! Tive um sonho esquisito e não sei interpretá-lo.

Padeiro – Eu também dormi mal e pelos mesmos motivos. Também ignoro a sua interpretação. Estou farto de conjecturar, mas não atino com nada que seja razoável.

Copeiro – Eu estou na mesma! Se houvesse alguém, algum sábio, algum mago, algum feiticeiro que nos ajudasse!

José – Deus é que sabe o que esses sonhos significam!  Contai lá os vossos sonhos! Poderá ser que eu vos possa ajudar!

Copeiro-mor – Sonhei que havia diante de mim uma videira e na videira havia três ramos, que deram botões, floresceram e deram cachos maduros. Eu tinha na mão a taça do Faraó. Peguei nas uvas e exprimi-as na taça, colocando-a depois na mão do Faraó.

José – Eu digo-te o que isso significa. Os ramos significam três dias. Mais três dias e o Faraó vai libertar-te e restituir-te o emprego. Voltarás a colocar a taça em sua mão, como fazias antes de ser preso. Lembra-te de mim, quando isto resultar em teu benefício. Fala bem de mim ao rei, para que ele me faça sair da prisão, porque não fiz nada que mereça este castigo.

Padeiro-mor -  A tua interpretação faz sentido, tem lógica. Interpreta também o meu sonho, que passo a contar! Havia três cestas de bolos sobre a minha cabeça, empilhadas umas em cima das outras. Na cesta mais alta havia todos os tipos de doces que o Faraó costuma comer, mas as aves atacavam essa cesta e comiam os bolos.

José – Eis a interpretação:  As três cestas significam três dias. Mais três dias ainda e o Faraó erguer-te-á a cabeça, enforcar-te-á e as aves comerão a tua carne em cima de ti.

Passados três dias, assim aconteceu. Comemorava-se o aniversário natalício do Faraó. O copeiro-mor, porém, na alegria da libertação e retoma do emprego, esqueceu-se de interceder por José.

Dois anos depois:

O Faraó também teve sonho. Estava ele junto ao rio Nilo e viu sair do rio sete vacas gordas e belas que depois pastavam nos juncos. Logo a seguir, surgiram do rio outras sete vacas, mas feias, magras, esqueléticas, as quais se foram pôr ao lado das outras, na margem do Nilo. Estas setes vacas devoraram todas as gordas. Foi então que o Faraó acordou. Mas voltou a dormir e teve mais um sonho: Viu sete espigas gordas e bonitas que  saiam da mesma  haste. Mas, logo a seguir, viu que sete espigas mirradas e esqueléticas saíam também dessa haste e devoravam as espigas gordas. Então, voltou a acordar.

Mas acordou e ficou inquieto, perturbado, a magicar. Contou o sonho aos magos e aos sábios,mas ninguém atinou com uma interpretação aceitável. Foi então que o copeiro-mor  contou a sua experiência na prisão e referiu José como tendo interpretado correctamente os sonhos que ele e o padeiro-mor tinham tido, acontecendo depois tudo segundo o que ele dissera.

“Então, o Faraó mandou chamar José e depressa foi ele trazido da prisão. Ele barbeou-se, mudou de roupa e apresentou-se diante do Faraó, que disse a José: Eu tive um sonho e ninguém pode interpretá-lo. Mas ouvi dizer de ti que quando ouves um sonho podes interpretá-lo.

José – Quem sou eu! É Deus quem dará ao Faraó uma resposta favorável. Podeis contar-me o sonho?

 E o Faraó contou novamente os  sonhos que tinha contado aos sábios e aos magos.

José – O Faraó teve apenas um sonho. Deus anunciou ao Faraó que  ele vai realizar. As sete vacas belas e gordas representam sete anos e as sete espigas gordas representam também sete anos. Trata-se de um só e mesmo sonho. As vacas magras e as espinhas definhadas e mirradas representam sete anos de fome em todo o Egipto e arredores. As vacas gordas e as espigas gradas representam sete anos de abundância. Os sete anos de abundância em todo o Egipto virão primeiro e depois virão outros sete anos de fome, pobreza e miséria….Deus mostra assim ao Faraó o que ele deve fazer durante o tempo das vacas e das espigas gordas. Deus tem pressa em que se ponha um plano em prática.

Faraó – O que me aconselhas?

José – “Que o Faraó escolha agora um homem inteligente e sábio e o estabeleça sobre a terra do Egipto. Que o Faraó aja e institua funcionários na terra, tome a quinta parte dos produtos da terra do Egipto durante os sete anos de abundância, e eles reúnam todos os víveres desses bons anos que vêm, armazenem o trigo sob a autoridade do Faraó, coloquem os víveres nas cidades e os guardem. Esses víveres servirão de reserva à terra para os sete anos de fome que se abaterão sobre a terra do Egipto, e a terra não será exterminada pela fome” ( Gen 41, 33-36)

Faraó – (Aos seus oficiais) Agrada-me o conselho deste hebreu. Encontraremos um homem como ele, em que esteja o espírito de Deus?…Ouve lá, tu, que pareces inteligente e sábio! Visto que Deus te fez saber tudo isso, não há ninguém tão inteligente e sábio como tu. Tu serás o administrador do meu palácio e todo o meu povo se conformará às tuas ordens e só no trono eu estarei acima de ti! Vê, eu estabeleço-te sobre toda a terra do Egipto. Tiro o selo  real da minha mão e coloco-o na tua. Vou revestir-te com vestes de linho fino e colocar-te ao pescoço um colar de ouro. Vais subir para o melhor carro depois do meu e os batedores irão à frente do teu carro e gritarão: Abrec! (Atenção!) Eu sou o Faraó, mas sem tua permissão ninguém erguerá a mão ou o pé em todo o Egipto. Passarás a chamar-te Safanet-Fanec e dou-te como mulher  a filha de Putifar, Asenet.

E José saiu a percorrer o Egipto. ( Gen 41,  36-45)

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(Continua)                                        

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Ezequiel Miguel

Artigos relacionados:

. José do Egipto – I

Jesus entre os Doutores

(Realidade &  ficção)

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Personagens:

. Jesus Cristo, adolescente

. Hillel – Sacerdote e doutor da Lei

. Gamaliel – Sacerdote e doutor da Lei

. Shammai – Sacerdote e doutor da Lei

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Jesus12“…Passados três dias, encontraram o Menino no Templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas….” (Lc 2,46-47)

Jesus é agora um adolescente com alguns traços fisionómicos que revelam não ter ainda chegado a adulto, apesar da sua elevada estatura para a idade. É o episódio relatado no evangelho que se refere à perda e encontro de Jesus no Templo.

Enquanto Maria e José O procuravam entre os parentes que moravam em Jerusalém, Jesus, com a idade de doze anos, encontra-se no Templo, perdido no meio da multidão que presencia um debate entre Doutores sobre a vinda do Messias. Em confronto estão os sacerdotes Gamaliel, apoiado pelo sacerdote Hilel, já idoso, e o sacerdote Shamai, atirando cada um os seus argumentos com certezas baseada na Bíblia, na palavra dos profetas e em episódios da História de Israel e em interpretações pessoais. Ambos argumentam, não só para vencerem a discussão, mas também para impressionar os muitos ouvintes com a sua erudição. A discussão parece querer continuar sem que se chegue a algo convincente, porque cada um desfaz os argumentos do outro com passagens e factos de todos conhecidos.

Gamaliel, rodeado pelos seus discípulos, fala da vinda do Messias, apoiado na profecia do profeta Daniel, a qual permite concluir sobre o Messias:

Gamaliel – Segundo a profecia das setenta semanas, do profeta Daniel (Dn  9, 24 -27), o Messias já deve ter nascido, pois as setenta semanas já se cumpriram há dez anos, porque já se passaram dez anos após o decreto da reconstrução do Templo. Portanto, o Messias já deve estar entre nós, algures, ignorado, mas preparando-se para aparecer em público.

Shammai – Não pode ser! É verdade que o Templo foi mandado reedificar, mas também é verdade que a escravidão de Israel aumentou e a paz prometida com o Messias não se vê e esse “Príncipe da Paz”, prometido por Isaías e referido pelos outros profetas, ainda está muito longe de existir no mundo  e muito menos em Jerusalém, ocupada pelos Romanos, por pagãos que até o nosso Templo profanam e vigiam com uma guarnição militar na Torre Antónia.

Segue-se um movimento de aprovação por parte de uns e desaprovação por parte de outros. No meio da multidão ouve-se de repente a voz de um jovem:

Jesus – Gamaliel tem razão! A sua interpretação é que está certa!

Todos se viram e procuram descobrir quem falou, não sendo porém necessário procurar muito, porque Jesus atravessa a multidão e apresenta-se em frente dos rabinos.

Shammai – Quem és tu?

Jesus – Sou um filho de Israel que veio a Jerusalém para cumprir o que ordena a Lei.

Esta resposta firme, corajosa, franca, …originou sorrisos de aprovação, por vir de um jovem.

Shammai – Como te chamas?

Jesus – Jesus de Nazaré.

Hillel – Em que se baseia a tua segurança ao afirmares que a profecia de Daniel já se cumpriu e que o Messias já nasceu?

Jesus – Baseia-se na profecia, que não pode errar, quanto à época e aos sinais que a acompanham. É verdade que César domina Israel, mas o mundo estava em paz quando ele decretou o recenseamento obrigatório, de contrário não o teria feito, por falta de condições de segurança e eficácia. Agora cumpre-se a outra parte da profecia das sessenta e duas semanas mais uma, até o Messias ser ungido. Não vos lembrais da estrela vista pelos sábios do Oriente e que parou sobre o céu de Belém de Judá? Não é Belém o lugar indicado desde Jacob para o nascimento do Messias? Não lestes o profeta Miqueias, que refere Belém – Efrata como o local do nascimento do Messias (Miqueias 5, 1) . Os olhos puros dos Sábios do Oriente viram a estrela e descobriram que o seu nome era “Messias”.

Shammai – ( Irritado) Tu dizes que o Messias nasceu no tempo da estrela, em Belém-Efrata?

Jesus – Digo e confirmo que foi assim!

Shammai –  Pois é! Então ele já não existe! Não sabes, rapazinho, que o Herodes mandou matar todos os meninos com idade até dois anos, em Belém e arredores? Não sabes que foram mais de setecentos os meninos assassinados? Tu, que és tão sábio na Escritura, devias saber o que lá  diz, a este propósito, o profeta Jeremias:“ Em Ramá se ouve uma voz, uma lamentação, um choro amargo; é Raquel, que  chora, mas não quer ser consolada, porque os seus filhos já não existem” ( Jer 31, 15). Está claro que o Messias também foi morto, pois não tinha possibilidades de escapar aos soldados de Herodes!

Jesus – Estás redondamente enganado. O pranto de Raquel deu lugar a cânticos de hossana, porque uma nova Raquel deu ao mundo o Filho do Pai celeste, Aquele que reunirá o Povo de Deus e o livrará da escravidão.

Shammai – E como, se ele foi morto pelos soldados de Herodes?

Jesus – Não leste a respeito de Elias, que ele foi arrebatado  num carro de fogo ( 2 Reis 2, 11)? E o Senhor Deus não poderia ter salvo o  Messias do Seu Povo das garras de Herodes? Ele, que abriu o Mar diante de Moisés, não poderia ter enviado os seus anjos para salvar o Seu Cristo? Pois Eu vos digo:”O Cristo está vivo e está entre vós. Quando chegar  a Sua hora Ele se manifestará em Seu poder  e todos poderão ir ao encontro Dele, falar com Ele, ouvi-Lo frente a frente, pois Ele não rejeitará ninguém. Felizes aqueles que ouvirem a Sua palavra e entrarem no Seu Reino!

Hillel –  Ouve lá, rapazinho, quem te ensinou essas coisas? Quem é o teu Mestre?

Jesus – O Espírito de Deus é o meu Mestre. Eu não tenho nenhum mestre humano. Eu sou a Palavra do Senhor, porque Ele fala através dos meus lábios.

Hillel – Vem cá! Aproxima-te de nós, para te vermos de perto, pois quero reavivar a minha esperança em contacto com a tua fé e iluminar a minha alma em contacto com a tua. Já que apareceste por aqui, vamos tirar proveito da tua Sabedoria, pois dizes coisas que parece nunca terem sido ditas  nem aceites por ninguém. Tens aqui três rolos. Pega neste e lê em voz alta!

 Jesus  - “Consola-te, ó meu Povo! Falai ao coração de Jerusalém, consolai-a, porque a sua escravidão acabou…Voz do que grita no deserto: preparai os caminhos do Senhor…Então aparecerá a glória do Senhor…”

Shammai – Ora, aí está, ó nazareno! Aí se fala de escravidão que se acaba. Nunca fomos tão escravos como o somos agora. Aqui se fala de um precursor. E onde está ele? Se o Messias traz a paz e a liberdade, então, ainda nem uma nem outra nós vemos. Este povo de Deus continua abandonado à sua sorte, humilhado por inimigos e privado da sua independência. Até quando? Tu deliras, rapaz, ou então queres fazer de nós uns ingénuos, uns tolos!

Jesus – Eu digo-te que a ti, mais do que aos outros, está feito o convite do Precursor: “Arrepende-te, endireita os caminhos do Senhor, faz penitência e converte-te”, de contrário não compreenderás a Palavra do Senhor, porque as tuas baixezas, as soberbas, as duplicidades, a hipocrisia, a cegueira…serão para ti um obstáculo para veres, ouvires e compreenderes!

Shammai – É assim que falas a um mestre de Israel, a um santo de Israel?

Jesus – É mesmo assim que falo e falarei até à morte, porque assim o exige o interesse do Senhor e o amor à Verdade, da qual sou Filho. Para teu esclarecimento, ó rabi, digo-te que essa escravidão de que falam os profetas e da qual Eu falo, não é essa que pensas e a realeza também não é a que pensas. A escravidão de que falo é a escravidão do Mal, do pecado, que separa o homem do seu Deus e que vai ser destruída pelos méritos do Messias, fazendo dos homens súbditos espirituais de um Reino Eterno, espiritual, perante cujo Rei todos os povos e nações se curvarão. No Céu e na Terra todos dobrarão o joelho e louvarão o Ungido de Deus, o Príncipe da Paz, o Chefe, o Messias, Aquele que se dará a Si mesmo para alimento das almas e que fará delas o Seu santuário. Também Ele é o Santuário de Deus, Santuário que nunca será destruído.

Shammai – O que tu estás para aí a dizer!… Tudo isso são blasfémias! Lembra-te do que diz o profeta Daniel. Ele diz que após a morte do Cristo, o Templo e a Cidade serão destruídos por um povo e por um chefe que virá.(1) E tu dizes que o Santuário de Deus não será derrubado? Vê lá o que dizes! Tem algum respeito pelos profetas, que falaram em nome de Deus! As suas profecias não podem ser alteradas, sob pena de blasfémia! E tu estás para aí um troca-tintas que misturas e confundes tudo, fazendo das profecias uma caldeirada indecifrável.

Jesus – Digo-te que aqui está Aquele que é maior que os profetas, mas tu não O conheces nem virás a conhecer, porque te falta a vontade para isso. Tudo o que Eu te disse é verdade. O verdadeiro Santuário de Deus não morrerá, mas ressurgirá para a Vida Eterna e no fim do Mundo viverá no paraíso.

Shammai – Vê-se que estás louco! Mas então as pedras do Templo serão transpostas para o paraíso? Que loucura é essa?

Hillel – Escuta, jovenzinho! O profeta Ageu (Ageu 2, 4-9) diz: “Virá o Desejado dos povos. Grande será então a glória desta Casa, maior do que aquela que coube à primeira”. Refere-se ele ao Santuário de que tu falas?

Jesus – Sim, mestre! É isso mesmo! A tua rectidão leva-te para a Luz e faz-te atingir aquilo que para outros não está ao seu alcance. Quando a morte do Cristo ocorrer, terás a Paz, porque és um israelita sem malícia, puro de coração e recto de intenção.

Gamaliel – Diz-me, Jesus! A paz de que falam os profetas…como poderemos esperá-la, se este povo vai ser destruído pela guerra?(1) Esclarece-me a mim também!

Jesus – Não te lembras, mestre, que os anjos cantaram na noite em que nasceu o Messias: “Paz aos homens de boa vontade?” Mas este povo não tem boa vontade, por isso, não merece a paz, e como não a merece, não a terá! Ele não aceitará o seu Messias, o Rei, o Justo, o Salvador, o Redentor, porque está à espera de um rei de poderes humanos, de um general, de um guerreiro, para libertar Israel do jugo dos Romanos, enquanto Ele é o Rei do espírito e nesse equívoco também vós, os mestres, caístes e nele permaneceis, como cegos a guiar outros cegos. Este povo não  amará o seu Messias, porque o Cristo irá pregar o que não lhe agrada. O Cristo não derrotará os seus inimigos com exércitos, carros, cavalos e cavaleiros, mas derrotará os inimigos da alma, os inimigos infernais que dominam as almas e o coração dos homens, criados pelo Senhor. Esta, porém, não é a vitória que Israel espera e da qual se tem alimentado erradamente. Não diz o profeta:”O teu Rei, Jerusalém, virá a ti montando uma jumenta e um jumentinho, ou seja: os justos de Israel e os gentios? Digo-vos que o jumentinho (os gentios) será mais fiel a Ele, crescerá no caminho da Verdade e da Vida e irá à frente da jumenta (Israel). Israel, por sua má vontade, não alcançará a paz e através dos séculos sofrerá em si aquilo que fizer sofrer ao seu Rei, depois de o ter reduzido a “Rei das dores”, como diz o profeta Isaías (Is 53, 3-4).

Shammai – Cala essa boca, ó nazareno! Tu ainda cheiras a leite e já vomitas a blasfémia! Responde-me: E onde é que anda o Precursor? Quando é que ele aparece, para termos a certeza da proximidade do Messias?

Jesus – Ele já cá está! Diz o profeta Malaquias ( Ml 3, 1-4) “Eis que eu mando o meu anjo à tua frente para preparar o caminho e logo virá ao Seu Templo o Dominador e o Anjo do Testamento por vós desejado”. Garanto-vos que tanto o Precursor como o Messias já cá estão. Quando virdes o Precursor, podereis dizer que o Messias começou a Sua missão. Uma coisa te digo: O Messias abrirá muitos olhos, muitos ouvidos, muitos corações, quando Ele andar pelos caminhos, mas não abrirá os teus nem os daqueles iguais a ti, que ficareis fechados, cegos e lhe dareis a morte, em troca da Vida que Ele vos oferecerá. Mas quando ele estiver na sua Glória, acima dos Querubins, no Seu Trono eterno, sairá das Suas múltiplas feridas Vida  abundante para os gentios, para os justos de Israel e para todos aqueles que souberem e quiserem regenerar o seu espírito, tal como Jonas, que renasceu noutras praias, as praias de Deus,…mas das Suas feridas também  sairão maldições para os Seus assassinos  e para aqueles que não quiserem aproveitar da sua vinda à Terra.

Shammai  – Já ouvistes o que ele deita da boca para fora? Como é que ele faz previsões sobre o seu futuro. Será que não consultou a vidente de En-Dor? Ou não será ele o Satanás disfarçado?

Hillel – Não, não é! Este jovem é Profeta de Deus. Fica comigo, Menino! A minha velhice  põe ao Teu serviço todo o seu saber  e curva-se perante a Tua Sabedoria. Tu serás Mestre do Povo de Deus.

Jesus – Em verdade te digo que, se houvesse muitos como tu, viria para Israel a salvação. A Minha hora ainda não chegou. Quando ela chegar, com o meu sangue e com os meus lábios, falarei a Jerusalém, e a minha sorte será a dos profetas que foram apedrejados e mortos por esta cidade. Mas  acima de Mim está o Senhor Deus, ao Qual Eu me submeto, como servo fiel, pois Eu vim para fazer a Sua vontade. Esperai-me na Minha hora. Estas pedras que agora nos ouvem ouvirão de novo a minha voz e tremerão à minha última palavra. Felizes serão aqueles que então a ouvirem! A estes o Cristo dará aquele Reino que o vosso egoísmo não aceita, porque vós fabricastes um reino humano, um rei humano, um messias humano e neles insistis em acreditar, para vossa própria satisfação e ruína. Mas o Reino do Messias é celeste e durará eternamente.

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Observações:

(1)   -Profecia cumprida no ano 70 (D.C.) pelo exército romano, sob o comando do general Tito, filho do imperador Vespasiano, sucessor de Nero. Jerusalém, em consequência de revoltas dos Judeus, foi cercada por 24.000 soldados romanos, acabando por ser incendiada e destruída e do grandioso Templo de Jerusalém resta hoje o muro das Lamentações. Cristo havia dito no ano 33 : “Vedes tudo isto (a grandiosidade do Templo)? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja demolida (Mt 24, 1-2) . Outra passagem :  “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação…Serão dias de punição, nos quais se deverá cumprir tudo o que foi escrito….Com efeito, haverá uma grande angústia na terra e cólera contra este povo. Eles cairão ao fio da espada,  serão levados cativos para todas as nações e Jerusalém será pisada por nações até que se cumpram os tempos das nações” ( Lc 21, 20-24) .  Uma fúria inexplicável atacou os soldados  romanos, que só pararam de matar quando já não havia ninguém para matar. O que resta do Templo salvou-se porque o imperador Vespasiano mandou parar a destruição. No final, 1.1000.000 mortos, pela fome, pela espada e pelo fogo,  incluindo muitos Judeus que tinham vindo de todo o país para as festas em Jerusalém. O Arco de Tito, em Roma, comemora estes acontecimentos.

2. Quando Jesus iniciou a Sua vida pública, vinte anos depois deste episódio, Hillel já tinha morrido. Gamaliel, porém, ainda era vivo e por mais de uma vez esteve frente a frente com Jesus, tornando-se incapaz de se decidir a Seu favor, visto oscilar entre o sim, o não e o talvez… Mas decidiu-se de vez por Jesus após a Sua Ressurreição.

3. Realço o contraste entre Hillel e Gamaliel, por um lado, e Shammai, por outro. Aqueles eram rectos de coração e de intenções, temente a Deus e buscando a verdade e a sabedoria na interpretação das Escrituras. O dom do Entendimento estava com eles e Deus iluminava-os. Ao contrário, a vida pecaminosa de Shammai levava-o a interpretações ocas e vazias, porque lhe faltava a sabedoria divina para a correcta interpretação. Isto tem aplicação, hoje, naqueles que  se servem da Bíblia e a citam de baixo para cima, de cima para baixo, para a direita e para a esquerda, a sublinham a lápis, a tinta ou a cores variadas,…e, no entanto, a Verdade fica-lhes fora do ângulo de visão, sendo caso para dizer como um prestidigitador: “Olhem bem para mim, porque quanto mais olharem, menos vêem)!

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Ezequiel Miguel

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Simão intercede pelos leprosos

(Realidade & ficção)

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Personagens: Jesus e os Apóstolos

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leproso1Simão Zelote, um dos apóstolos de Cristo, sabia bem o que é ser leproso, pois fora um deles, curado pelo Mestre e convidado para apóstolo, o que ele aceitou com entusiasmo, traduzindo-se tudo em duplo benefício de alma e corpo, o que ele nunca esqueceu.

Aquela era uma bela noite de luar, mas um tanto fria, e um manto ou um cobertor mais não seriam de modo algum rejeitados. Enquanto enrolado e encolhido sob o manto que o cobria naquele telheiro onde pernoitavam, Simão lembrou-se dos leprosos que ele sabia habitarem no chamado vale da morte, onde ele tinha também habitado como leproso. Isso lhe deu volta à cabeça e originou um propósito: apresentar o problema ao Mestre. Quando a noite terminou:

Simão Zelote – Mestre, esta noite eu descobri que Tu estiveste ausente e passaste a noite fora.  Saíste por causa do frio da noite, para aquecer?

Jesus – Eu saí para visitar um amigo que nem um manto tem, mas se cobre com umas peles e pernoita numa gruta. Vós até sabeis quem é!

Simão – O Teu primo João, o que baptiza no Jordão!

Jesus – Esse mesmo! Não só os leprosos precisam da Minha presença!

Simão – Mas ele….?

Jesus -  Não, não está doente, mas está perto de dar glória a Deus e de terminar a sua missão na terra.

Simão – Mestre, antes de te apresentar um problema que me surgiu na cabeça, podes satisfazer a minha curiosidade a respeito do João?…Como é que ele conseguiu escapar à matança decretada pelo Herodes daquele tempo?

Jesus – De modo semelhante ao Meu: fugindo a tempo e ficando escondido, protegido por Deus. Lembra-te que a missão dele e a Minha estavam interdependentes e ambas profetizadas pelos profetas. Ora, as profecias de Deus teriam de se cumprir. Lembras-te do que dizem as Escrituras a  nosso respeito: “Enviarei o meu anjo para que prepare os teus caminhos”! E agora, qual é o problema que queres apresentar-Me?

Simão – É a situação dos leprosos. Tu conheces ainda melhor do que eu o vale da morte, perto de Jerusalém. Tu curaste-me da lepra e eu sei bem o que é ser leproso. Senhor, aquilo é horrível, o inferno na terra. Quando formos a Jerusalém não podias passar por lá e compadecer-te daquela miséria que afecta corpos e almas? Senhor, eles estão sujeitos  à revolta, ao desespero e o desespero leva-os ao suicídio ou à blasfémia, ao pecado, em qualquer destas situações…

Jesus – Sim, Simão, fica-te muito bem interceder por eles. Vais ao encontro dos Meus planos. Iremos lá, a esse vale da morte, que tu conheces tão bem! A sociedade é injusta para com eles, que precisam de ser olhados com mais bondade. Aquele isolamento…

Judas Iscariotes – Pois! Mas onde é que eles deveriam ser arrumados? No meio de alguma aldeia ou cidade? Então, e os outros que não são leprosos, como viveriam eles todos juntos? Por algum motivo está decretado que eles devem viver à parte! Se são leprosos, não tivessem ficado leprosos!

Jesus – Judas, isso não são modos de falar nem linguagem de piedade! O que te impede de ficares também leproso? Acaso te julgas menos merecedor de lepra do que eles?

Bartolomeu– Mas, Senhor, recai sobre os leprosos alguma culpa de ficarem leprosos? Que eu saiba, eles não nasceram leprosos, logo, eles adquiriram a lepra já em suas vidas. Podes esclarecer-nos, para não julgarmos erradamente o que não compreendemos?

Jesus – Alguns são leprosos em consequência de pecados graves continuados,  que, a morrerem neles sem arrependimento, se condenariam à Geena (Inferno). A sua lepra já faz parte da penitência expiatória que os levará a Deus, se aceitarem a sua situação em favor das suas almas. Outros são leprosos para se manifestar neles a glória e o poder  de Deus. E outros, ainda, são leprosos como poderiam ser doentes de outra qualquer doença.

Judas Iscariotes – Então, isso quer dizer que para alguns a lepra é castigo pelos seus pecados!

Jesus – Assim é, Judas! Mas isso não exclui serem vistos e tratados com bondade e misericórdia, por muito pecadores que sejam ou  tenham sido. Por serem pecadores e expiadores apelam à vossa dupla compaixão. As leis do Amor assim o exigem. Quanto mais miseráveis, mais amor precisam de vós! Em cada um deles aprendei a ver-me a Mim, também sofredor,  e o que fizerdes a eles, fá-lo-eis a Mim. Como vês, Judas, também a ti poderia acontecer!…

Tiago de Zebedeu – Mas, Senhor, aqueles que não pecaram?

Jesus –Esses adquiriram a lepra naturalmente, como poderiam ter adquirido outra doença qualquer.

Pedro – Perdoa-me, Mestre, mas eu estou a ferver por causa de uma ideia que me veio à cabeça. Posso…?

Jesus – Diz!

Pedro – Alguns são leprosos por pecarem contra a natureza, como os de Sodoma e Gomorra, por andarem metidos em bruxarias, satanismo, espiritismo, necromancia, e essas coisas do ocultismo?

Jesus – Não andas longe, Simão Pedro!…

Tomé – Mestre, eu também tenho uma pergunta. Posso?

Jesus – Podes!

Tomé – Não haverá entre os leprosos pessoas que só aparentemente o são, por erro de avaliação do sacerdote que diagnosticou a lepra? É que eles podem enganar-se e depois, lá vai o desgraçado para o inferno em vida, vítima de uma sentença injusta e irrevogável.

Jesus – Não é bem assim! Há, infelizmente, erros de avaliação, mas, se a ferida curar, pode apresentar-se de novo ao sacerdote, que o declarará curado e livre. Em tudo o que é humano o erro é sempre possível e passível de ser corrigido, desde que haja rectidão de coração.

Pedro – Ora, então, se são leprosos é porque Deus tal permitiu, por um motivo ou por outro. A sociedade não tem culpa! Além disso, as ruas já estão cheias de soldados romanos, soldados do Templo, parasitas, pedintes, vendilhões, ladrões, prostitutas…Agora, imaginem-se as ruas marginadas com leprosos e todos com medo de serem contaminados!

Jesus – Pedro, não podeis atribuir a Deus  a causa dos males humanos. O Mal tem a sua vida própria e esta vida é alimentada pelos pecados dos homens. Deus trava a força do Mal na medida em que os homens cumprem as Suas  santas Leis  e vivem no santo Temor de Deus. Resisti à tentação de julgar Deus. Todos vós sabeis como nasceu o Mal e quem está na sua origem. O Mal é o preço que os homens pagam pelos pecados cometidos. Foi assim no princípio, é assim no vosso tempo e será assim nos tempos futuros. Satanás impele-vos ao Mal e os homens abrem-lhe as portas e as  comportas.

Mateus – A mim parece-me que está certo mantê-los separados, mas seria necessário criar condições humanas e caridosas para com eles, porque, no fim de contas, são seres humanos como nós.

Simão – Mas o problema dos leprosos não é somente o corpo. Eles também têm uma alma que é preciso salvar e precisam de ajuda espiritual para aguentarem aquele inferno. Vós não imaginais o que é viver como leproso. Qualquer animal doméstico é tratado com mais carinho e cuidados do que eles. A sociedade é injusta para com eles e ninguém faz nada para melhorar as condições em que vivem. Somente o Mestre tem poderes para esvaziar com milagres aquele vale da morte, a vergonha de Jerusalém. Eles precisam, naquela desolação, que o Mestre vá lá, lhes fale de Deus, que ponham Nele a sua esperança e Ele se compadeça daqueles farrapos  vivos de carne morta.

Jesus – A tua experiência como leproso também teve utilidade entre os teus antigos colegas de miséria, porque eras um apóstolo entre eles. Chegou a hora em que Me dedicarei aos mais miseráveis, já que os chamados grandes de Israel Me rejeitam e não querem saber daquilo que o  seu Messias lhes diz e traz.

Judas Tadeu– Mestre, como é que Tu conheces o passado leproso do Simão?

Jesus – Eu conheço o passado, o presente e o futuro de todos vós. Até sei o que pensais e o que ides dizer mesmo antes de o pensardes!

Pedro – Céus! Então sabes certas coisas que eu já disse!…

Jesus – Pedro, Eu sei todas as coisas que já disseste e as que vais dizer e fazer!…

Tomé – Mas então, se assim é, temos de andar de bico calado!…

Jesus -  Mas Eu também sei o que quereis dizer, mesmo que o não digais. Por isso, tenho reparos a fazer-vos, sobretudo quando falais como pagãos, sem respeitar os vossos irmãos, todos com a dignidade de filhos de Deus. A caridade, meus amigos, a caridade!…Onde está ela? Além disso, não precisais de falar para pecardes, pois o desejo e o pensamento também vos podem chamuscar, nada escapando ao olhar perscrutador e omnipresente de Deus.

Bartolomeu – Estou a ver! Basta estarmos vivos !…Estamos todos metidos em teias de aranha e se nos defendemos de um fio, logo caímos noutro!

Jesus – É assim a condição humana! Por isso é que precisais  de pedir continuamente a ajuda do vosso Deus!

Filipe – Mestre, esta noite nós demos pela Tua ausência!…Não é perigoso andares por aí de noite, sozinho?

Jesus -  Fui visitar o meu primo João. Fui dar-lhe a força que ele precisa para o tempo que lhe resta, pois o seu martírio aproxima-se e há quem desesperadamente o prepare e o deseje na corte de Herodes…

Todos – Herodíades!

Jesus – Ficai sabendo que no baptismo de sangue todos precisam da Minha ajuda…A fé, a santidade, a confiança em Deus, o Amor a Deus e ao próximo,…parecem ser o suficiente, mas não são. Eu os ouço e ouvirei sempre dizer: “Senhor, ajuda-me , dá-me força, Tu sabes que sou fraco, que o meu espírito está pronto, mas a minha carne é fraca”. Mais tarde compreendereis isto melhor…quando as ondas da perseguição rolarem sobre vós… Mas nesses dias Eu estarei convosco e vós dareis testemunho de Mim. Não vos preocupeis com o que haveis de dizer ou fazer. Contai Comigo, que Eu estarei a vosso lado. Por isso, não temais, pois a vossa recompensa será grande e vale todos os sacrifícios. Quem perder a vida por Minha causa ou por causa da Minha doutrina  salvá-la-á.

André – Mas, Mestre, estarás lá como  agora Te vemos ou estarás lá invisível aos nossos olhos?

Jesus – Não precisareis que eu esteja visível. Sentir-me-eis perto e sentireis a coragem necessária naqueles momentos. Mas também pode acontecer que os vossos olhos me vejam como me vêem agora.

Judas Tadeu – Mestre, mudando de assunto! O João Baptista, apontando uma vez para vós, disse: “Eis que além vai o Cordeiro de Deus, Aquele que tira os pecados do mundo”. Senhor, podes explicar-nos o que o Baptista queria dizer?

Jesus – Explico. Como sabeis, o cordeiro branco que se imola na Páscoa é apenas uma figura de um outro Cordeiro. O cordeiro pascal tem sido a vítima que vós comíeis na Páscoa, em comemoração da libertação da escravidão do Egipto e cujo sangue a assinalar as portas dos Hebreus lhes permitia continuar a viver. Agora, o Cordeiro Pascal vai ser Outro, a Nova  Vítima  que morrerá para vos dar a nova vida. O Novo Cordeiro sem mancha sou Eu, que, através do Meu Sacrifício, vou mesmo pagar a dívida a Deus  por todos os pecados passados, presentes e futuros. A partir de agora, Deus já não quer sacrifícios de vítimas animais, porque o Seu Filho será a Vítima santa, pura, imaculada, a única que  Lhe será agradável.

André– Mestre , mas ainda não disseste como é que tiras o pecado do mundo!

Jesus – O pecado sai do mundo e do pecador através do arrependimento sincero do pecador e dos Sacramentos que Eu vou instituir, que funcionarão como sete bicas de água a jorrar de um único fontanário da graça, que serei Eu. Com o Meu sangue, a justiça divina  merecida pelo pecado será  satisfeita e a majestade divina ficará aplacada. Vós entrareis nos planos de Deus como agentes do perdão dos pecados. Será por vosso intermédio que os pecados serão perdoados…

Pedro – Nós? Como é que isso pode ser? Então, Deus é ofendido e nós é que vamos perdoar? Não compreendo!

Jesus – Já vais compreender! Vós sereis ordenados sacerdotes! Os sacerdotes da Nova Aliança terão poderes que os de agora não têm. Como sacerdotes, vós perdoareis os pecados em Meu Nome, porque sereis os Meus ministros, actuareis em meu Nome, perdoareis em Meu Nome, oferecereis ao Pai a Nova Vítima  em Meu Nome, num Sacrifício santo, imaculado, em memória e actualização até ao fim do mundo. Quanto ao perdão dos pecados, o que perdoardes ficará perdoado e o que não perdoardes não ficará perdoado.

Mateus– E como é que nós vamos saber que pecados perdoamos? Tu disseste a um paralítico: “São-te perdoados os teus pecados” e também disseste, a propósito da irmã de Lázaro: “Foram-lhe perdoados os seus muitos pecados porque muito amou”. Como é que nós vamos conhecer os pecados das pessoas? Nós também faremos assim?

Jesus – Não! Eu perdoei assim, porque Eu, como Deus, conheço os pecados de cada um e o grau de arrependimento existente no íntimo do pecador. Mas vós não tereis esse dom, por isso, será o pecador que terá de vo-los confessar, de acordo com as condições exigidas: arrependimento e firme decisão de não cair novamente nesses  e noutros pecados. Se virdes que há condições para perdoar, perdoareis em Meu Nome. Se não houver…não perdoareis!

João – Nós faremos isso? Mas isso é fantástico! Já estou a perceber como é que então Tu tiras o pecado do mundo! Mas só tiras aqueles que nós em Teu Nome tirarmos. E aqueles pecadores que não quiserem aproveitar?

Jesus – Uma das vossas missões como Meus sacerdotes será difundir a minha doutrina por todo o mundo, para que todos venham a saber como isso funciona.

Judas Iscariotes – Eh!!! Mas isso parece impossível! Nós a perdoar pecados em Teu Nome! E também poderemos perdoar os pecados a nós próprios?

Jesus – Não, Judas! Tereis que fazer como todos os outros e nas mesmas condições! Somente um sacerdote poderá absolver outro sacerdote em Meu Nome!

Judas Iscariotes – Mas isso não vai ser nada fácil! Confessar pecados íntimos, secretos, que ninguém sabe, excepto ele e Deus…Qual é  o homem ou mulher que tem coragem para contar a outro homem estas coisas tão secretas?… E se o outro sacerdote também estiver em pecado? E se ele vai contar a outros o que ouviu? Isto vai ser uma trapalhada!…

Jesus – Não pode ser uma trapalhada aquilo que o vosso Deus, em Seu infinito amor pelos homens, vos vai deixar para viverdes santos e morrerdes santos, tirando os vossos pecados do mundo. Precisais de ter fé em Mim, que sou o Cordeiro de Deus e o Sacerdote dos sacerdotes. Quanta mais fé tiverdes em Mim e na Minha Palavra, mais fácil isso vos será. Devereis invocar o Espírito Santo para que Ele ilumine a vossa consciência e vos ajude a descobrir o que há de errado convosco em palavras, acções, pensamentos, desejos e omissões. A fé levar-vos-á a ver-Me a Mim próprio no sacerdote que vos atende. Não será ele o dono do perdão que vos é dado, mas sou Eu que perdoo através dele, porque somente Deus pode perdoar os pecados, dado que todo o pecado é uma ofensa a Ele e, se for grave, poderá ser de uma gravidade infinita, a requerer uma punição infinita. Falais da lepra do corpo, mas muito mais grave é o pecado, a lepra da alma. Para a lepra dos corpos não tendes remédios eficazes, mas para a lepra das almas ireis ter.

João – Mas isso é incrível! Um homem a perdoar pecados em Teu nome! Então os Teus sacerdotes ficarão cá com uma dignidade como não haverá na Terra!

Jesus – Dizes bem, João! Não haverá na Terra nem no Céu! Nem aos anjos, mesmo aos mais elevados, será dado esse poder! E nem sequer à Minha Mãe! Quanto ao receio de o sacerdote ir divulgar os vossos pecados, não tenhais medo! Eu dar-lhes-ei as graças necessárias para guardarem sigilo absoluto, que nada nem ninguém poderá forçar a quebrar. Somente Eu, vós e ele saberemos. Se precisarem de fortaleza para se deixarem matar por essa causa, Eu dar-lha-ei, e eles morrerão catalogados na lista dos mártires. Que mais garantias quereis?

Simão – E se nessa confissão dos pecados não houver arrependimento nem firme decisão de não repetir?

Jesus – Nesses casos, os pecados não serão perdoados, mesmo que o sacerdote os perdoe em Meu Nome. Pior ainda: O pecador sairá com mais um pecado, porque utilizou mal uma instituição divina que é santa e tem capacidade para fazer santos. Por isso, caberá a vós pregar, catequizar, explicar, divulgar, entusiasmar…e corrigir quando necessário.

Filipe – E aqueles que não quiserem aproveitar para apagarem os seus pecados? Que lhes acontecerá?

Jesus – Depende de vários factores: 1º Precisam que alguém lhes pregue a Minha doutrina, para que eles a conheçam e a pratiquem; 2º  Precisam de ser livres para a aceitarem ou para a recusarem; 3º Precisam de viver numa comunidade onde tenham acesso fácil e pronto a um sacerdote. Aqueles que, podendo, rejeitam instruir-se na Minha doutrina e nos meios de salvação que vos vou deixar ou a subverterem ou modificarem para a adaptarem aos seus interesses, …esses rejeitam-Me a Mim e Eu também os rejeitarei a eles, assim como o Meu Pai os rejeitará.

Tiago de Alfeu– Mas, Mestre, haverá quem tente alterar a Tua Doutrina?

Jesus – Muitos o tentarão e o farão em todos os tempos, mas as Minhas Palavras são de vida eterna e nem um til ou um jota poderão ser  retirados ou alterados. A vós as entrego para que vivais nelas, com elas e por elas e as transmitais puras e genuínas como de Mim as recebeis. Aquilo que vós transmitirdes e ensinardes completará  e aperfeiçoará as Escrituras, pois Eu sou Verdade e em Mim não há erro.

Pedro – E nós, que somos tão poucos, como conseguiremos levar essa mensagem a todo o mundo? Nem para nós sabemos o suficiente!

Jesus – Enviar-vos-ei o Espírito Santo, que vos ensinará todas estas coisas e vos multiplicará para que ela chegue a todo o lado. Vós e os outros meus seguidores sereis Minhas testemunhas até aos confins da Terra e fareis discípulos Meus, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

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Ezequiel Miguel

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Jesus visita João Baptista

(Realidade & ficção)

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 Jesus31Terminara mais um dia e, após uma frugal ceia, os discípulos aconchegaram-se o melhor que puderam para passar a noite. Quando todos já dormiam, Jesus levantou-se e, sem ninguém dar por isso, saiu e foi, por caminhos estreitos, vales e encostas, ao encontro de João Baptista, entregue ao sono profundo numa gruta, nos arredores  pouco frequentados de Hinon.

Jesus – João, acorda!

João – (Ensonado e esfregando os olhos) Mas, …és Tu, Senhor?

Jesus – Sim, João, sou Eu!

João – Porquê Tu aqui?

Jesus – (Ajudando-o a levantar) Vamos ali para fora, onde podemos  admirar este belo luar que o Pai do Céu criou para os Seus filhos. Vim visitar-te por vários motivos: porque somos amigos, porque somos primos, porque és o meu Precursor, porque quero agradecer-te o bom desempenho na tua missão, porque quero animar-te a enfrentar ainda, no tempo que te resta, a fúria que se alimenta na corte de Herodes contra ti e, finalmente, porque quero dar-te alegria e receber de ti alegria, pois o meu Coração anda muito acabrunhado pelo desprezo que as almas me dedicam, a Mim que vim para as salvar…e, finalmente, porque quero garantir-te a Paz de Deus lá em cima, onde dentro em breve nos encontraremos ambos…

João – E ainda tenho de esperar muito?

Jesus – Não! Tu não ignoras que Eu, tal como tu, também tenho de passar pelo baptismo de sangue. Depois…vou buscar-te lá onde os Justos aguardam a minha chegada. Falta pouco para eu completar a Redenção.

João – (De joelhos aos pés de Jesus) – Ó meu Senhor, como Tu és bom! Eu não mereço a visita do meu Deus. Quem sou eu para que venha a mim o meu Senhor? (Chora de comoção) Já no ventre de minha mãe eu a ouvi dizer, quando Tu e  a Tua Mãe nos fostes visitar: “Quem sou eu para que a Mãe do meu Senhor me venha visitar? Estas visitas!… (Chora)

Jesus – Não chores, João, levanta-te e sentemo-nos aqui frente a frente!  O teu Deus não esquece o que se faz por Seu amor, fácil ou difícil, com dor ou sem ela, com alegria ou com tristeza, num palácio ou num deserto, numa casa ou numa caverna.

João – (Chorando ainda mais) – Que bondade a Tua, Senhor! Eu não me queixo de nada, porque Vós sempre me protegestes nos perigos, já desde o meu nascimento, em que, como Tu, fomos levados ao deserto para fugir a Herodes.

Jesus – Mesmo quando longe da tua vista, Eu te via e te protegia, enviando-te os Meus anjos, que te guardavam de dia e de noite, em todos os teus caminhos e estavam atentos a todos os teus passos. A tua voz irá calar-se, mas outras vozes Eu estou a preparar para também pregarem ao Povo da Nova Aliança, que será um Povo de reis, sacerdotes e profetas. Assim, tu serás o último dos profetas da Velha Aliança e o primeiro da Nova! O teu nome jamais se apagará da memória dos homens e do Livro da Vida.  Eu quero aqui dizer-te obrigado, porque foste fiel, não te poupaste a sacrifícios por Mim, preparaste-Me o terreno, atraíste discípulos, combateste o bom combate e foste firme em tua  fé no Messias de Israel, que vai dar-te o prémio que mereces. As tuas canseiras, jejuns, sacrifícios e perseguições, a que essa magreza cadavérica não é estranha, merecem a glória eterna Connosco. Coragem no pouco que ainda falta!

João – Obrigado, meu Senhor e meu Deus, pela Tua bondade! As minhas lágrimas são de felicidade! Como não hei-de chorar? O meu coração não aguenta esta alegria que me trazes e que faz esquecer todas as dificuldades passadas. Como aguardo que cheguemos ao fim da nossa missão martirizante e  redentora! … Mas há uma coisa que me preocupa e me deixa em angústia e ansiedade…

Jesus – Diz!…

João – São os meus fiéis discípulos. Tenho três pelos quais eu ponho as mãos no lume. Tenho receio que eles e outros se percam…, especialmente o Matias, que eu reconheço possuir uma sabedoria que só pode vir do Espírito Santo! Eu entrego-te esse e todos os outros!

Jesus – Não tenhas receio! Todos os que forem verdadeiramente teus discípulos virão para Mim e permanecerão! Quanto ao Matias, irá substituir aquele que me vai trair, o filho da perdição, como está escrito: “Tornem-se desertas as suas moradas e não haja quem habite nas suas tendas” (Salmo 68/69, 26) e “Sejam abreviados os seus dias e outro ocupe o seu lugar” (Salmo 108/109, 8).

João – Obrigado, meu primo, meu Mestre, meu Senhor, meu Deus! Eu não mereço tantas atenções e tantas graças da Tua parte. Sou apenas um dos Teus servos humildes que nada mais ambiciona que agradar ao meu Deus!

Jesus –  (Impondo as mãos sobre a cabeça de João, ajoelhado a Seus pés) Tu achaste graça diante de Deus e nós te daremos a coroa da glória. Quando chegar a hora, morre em paz, imagina-Me à tua frente e não temas! Eu estarei a ver-te subir para a mansão dos Justos. E agora, querido primo, vamos dar o beijo da paz como Mestre e discípulo.

João – Eu, beijar-te, Senhor! Não tenho coragem de beijar o meu Deus! Prefiro ser beijado por Ele!

Jesus – Como queiras, querido primo! Levanta-te e demos o abraço da despedida e o beijo sagrado do Amor de Deus por ti. Adeus! A minha paz, a paz de Deus, esteja sempre contigo e te proteja. Até breve!

 .

Ezequiel Miguel

 

 

As razões do filho pródigo – III

(Ficção)

 .

filhoprodigoJá refeito da triste aventura e já em paz aparente com o pai e o irmão mais velho, o filho pródigo acedeu a dar entrevista sobre a sua experiência, da qual todas as gerações ouvirão falar, mas cuja compreensão e alcance somente em parte se abarcam, uma vez que nem tudo é conhecido e ele também não teve grande interesse em revelar.

D.B.P. – Como vai a tua vida, agora de volta à casa paterna? Já estás totalmente reintegrado no ambiente familiar?

Filho pródigo (F.p.)- Já estou! Não me custou muito pedir perdão ao meu pai, porque ele sempre  esperou que eu lho pedisse, mais cedo ou mais tarde. Mas fazer as pazes com o meu irmão já não é assim tão fácil, porque também ele lá tem feridas profundas e sente que aquilo que eu fiz correspondeu a dolorosas bofetadas, cujas marcas ainda se não dissolveram. Eu, para dizer a verdade, também me envergonho do que fiz e do que lhe fiz a ele. Quando abalei, nem sequer me despedi dele, o que para ele também foi um sinal de desprezo. Agora, eu não me sinto bem a olhar para ele e ele não se sente bem a olhar para mim, embora por  motivos diferentes. São feridas que precisam de tempo para sarar. Enquanto o meu pai me perdoou logo, ele ainda não foi capaz e os rancores demoram a desaparecer. Se ele fosse capaz de me perdoar de uma só vez, como o meu pai, seria mais fácil para ele e para mim. Mas tenho de compreender que eu lhe dei motivos para isso e, por isso, me sinto culpado e o desculpo a ele.

D.B.P. – Mas ele atira-te à cara as tuas asneiras?

F.p. – Não, mas eu sinto o seu silêncio, tanto em casa como fora dela, sinal de que ainda sofre. Possivelmente, só o  tempo melhorará as coisas entre nós.

D.B.P. – E a herança? A tua, já a estoiraste e o teu pai disse-te, antes de a exigires transformada em dinheiro, que não mexeria na do teu irmão, que, no fim de contas, é toda a fortuna que ficou. Como é agora? Vais reivindicar que o vosso pai te dê metade daquilo que pertence ao teu irmão? Ele garantiu que não o faria!

F.p. – Reconheço que não tenho direito a nada. Eles já fazem o especial favor de me aceitarem de volta, com a alegria, o carinho e o amor do meu pai e a frieza e o silêncio do meu irmão. Tenho de conviver com estas duas situações e não culpar ninguém, a não ser a mim.

D.B.P. – Tens esperança que ele algum dia ele seja capaz de superar essa situação?

F.p. – Tenho! O meu pai tentará, com o tempo, conversando com o meu irmão,  levá-lo a compreender que a caridade e a compreensão para comigo são valores absolutos e que o perdão  a conceder pelo ofendido deve ser incondicional, mesmo que o ofensor não o peça. É isso que o meu pai diz. Espero que ele chegue um dia a comportar-se como o meu pai e aceite, de livre vontade, dar-me voluntariamente alguma parte da sua herança, que agora são sobretudo os campos, os pomares e os rebanhos. Mas, se me deixarem com herança zero, não me queixarei, pois terei o que mereço. Com a minha asneira, tudo o que foi transformado em dinheiro o vento  o levou!…

D.B.P.- Sabes bem que não foi o vento!…

F.p. – É uma maneira de falar. Na realidade, foi o vento da minha estultícia, da minha falta de sabedoria, da minha soberba, do meu orgulho, dos meus maus hábitos, da minha imaturidade, da minha rebeldia para com meu pai! Diz o povo que “cá se fazem, cá se pagam”. Não é sempre assim, mas, às vezes, é assim mesmo!

D.B.P. -  Mas, afinal, o que te levou a abandonar a casa? Tinhas  motivos assim tão fortes?

F.p. – Em primeiro lugar, o meu feitio rebelde, fogoso, estroina, ávido de farras, de festas, de amigos e…outras coisas! Também, se eu pudesse deixar para amanhã o trabalho de hoje, eu o deixaria, porque deitar-me tarde e levantar-me  cedo não era programa para mim, acabando o meu irmão por pagar a conta da minha preguiça.” Gozar sim, trabalhar não”, “o trabalho não azeda” eram os meus lemas. Depois, lá vinha sempre o meu pai a tentar reabilitar-me, a mostrar que eu não seguia por caminhos sensatos, mas os seus constantes e diários conselhos acabavam por me irritar e depois,…lá vinha eu com umas respostadas que o meu pai não merecia. Eu portava-me como um cavalo indomável e foi sumamente irritado, após uma discussão mais violenta, que eu lancei o meu grito de revolta e de independência:” Dá-me a parte da herança a que tenho direito e vou-me embora! Estou farto!” O meu pai tentou demover-me, alertando para a asneira que eu ia fazer, mas eu não quis saber dos seus argumentos.  A minha resolução estava tomada. Fiquei em casa até ele vender a minha parte. Depois, peguei num cavalo e voei!…

D.B.P – Para onde?

F.p.- Para a cidade mais próxima, pois não me contentava com um lugarejo ou uma aldeia. Precisava de ver e sentir vida, movimento, reboliço, azáfama, comércio, feiras, fazer amigos, divertir-me,  casas de diversão, restaurantes, danças, vida nocturna, etc.

D.B.P. – Para quanto tempo deu o dinheiro nessa vida de menino endinheirado e esbanjador?

F.p. – Para muito  menos do que eu pensava!

D.B.P – Não tinhas planos para fazer render o dinheiro?

F.p. -  Tinha assim uns castelos no ar, mas  isso iria limitar a minha sede de viver e  gozar a vida. Só comecei a afligir-me e a pensar quando já tudo se afundava, até chegar ao extremo de já não ter para sobreviver. Deixei-me explorar pelos amigos e acabei por gastar tudo,  …tudo asneiras minhas, má sorte,  paixões  ardentes…

D.B.P. – Foi então que…?

F.p. – Eu precisava de trabalhar e de descobrir qualquer patrão que me aceitasse. Nenhum pai dos meus amigos me aceitou, até que, finalmente, e à custa de muito suplicar, um patrão me aceitou como guardador dos seus porcos. A princípio, ainda me dava comida, mas depois…nem as bolotas me deixava comer. Ele tinha muitas alfarrobeiras, mas também me proibia de as comer, dizendo que nem chegavam para os porcos. Miséria, fome, revolta, remorsos agudos, pragas, maldições, ódio,…era o que me saía do coração. Também me dava vontade de matar aquele maldito…pela sua ingratidão para comigo.

D.B.P. – Ingratidão?

F.p. – Sim, ingratidão! Ele fora um daqueles que se fizera meu amigo para comer e se divertir à minha custa. Entretanto, também lá chegou uma crise económica e social e ele começou a racionar a comida dos servos, até quase deixar a morrer à fome os menos categorizados. Eu era um deles. Além da minha miséria, os servos mais qualificados ainda zombavam de mim, chamando-me o porco-mor… Senti-me então ainda mais miserável, despejei em cima de mim todo o vocabulário reles que eu conhecia e, no auge do desespero, comecei a pensar no meu pai e naqueles dias que passei na sua casa desde que nascera. Dei por mim a comparar, a comparar,  a pensar na fartura de comida acessível aos servos, enquanto eu morria ali de fome e já nem roupa decente eu tinha para  me vestir.  Comecei a dar razão àqueles que me chamavam “porco-mor”. Aquela ideia de que em casa de meu pai havia abundância de tudo o que eu precisava começou a crescer como bola de neve, até que um dia tomei a segunda decisão drástica da minha vida: resolvi reconhecer os meus erros, pôr-me a caminho da casa do meu pai, pedir-lhe humildemente perdão e reabilitar-me.  Desci ao fundo de mim mesmo e reconheci que eu já não merecia ser chamado seu filho, contentando-me com ser incluído no número dos servos. Depois, fui ter com o patrão e despedi-me, exigindo-lhe algum do dinheiro que eu gastara com ele, pois não tinha dinheiro para a viagem de regresso. O dinheiro, porém não chegou e tive de ir pedindo esmola pelo caminho.

D.B.P. – E tu tinhas a certeza que o teu pai te receberia como se nada tivesse acontecido?

F.pr. – Tinha, porque eu conheço a bondade do meu pai, que está acima do que se possa imaginar. A bondade nele é algo natural e inspira confiança absoluta. As vezes que ele me perdoara antes não têm conta. Também não guarda azedumes, rancores, ódios, desejos de vingança, mesmo depois de ser magoado, ofendido, desprezado, injuriado…e eu sei do que falo!…Não há pais assim! …Até nem parece deste mundo!…

D.B.P. – Como é que ele te recebeu?

F.p.- De braços abertos! Chorou de alegria, cobriu-me de beijos, apertou-me em seus braços, acarinhou-me, ajudou-me a levantar, pois eu, chorando, estava caído de joelhos, sem forças para me levantar. Eu comecei uma ladainha das minhas misérias, mas ele disse que o passado estava esquecido, perdoado e enterrado…Que agora só o futuro interessava após a minha ressurreição!…Depois, não cabendo em si de contente, e após um banho,  desencantou para mim um anel, a túnica mais bonita, as sandálias dos dias festivos, os frascos com perfumes e fez uma festa de arromba, com danças, música e um banquete. Coisa para nunca mais esquecer! Senti-me como um rei no dia da sua solene coroação!

D.B.P. – E o teu irmão, acabou ele por participar na festa e no banquete em tua honra?

F.p. – Após uma longa intervenção do nosso pai, ele acabou por sentar-se à mesa connosco, mais para lhe agradar do que por concordar. Quanto às danças, fechou-se no quarto e não quis saber de ninguém. Eu ainda tentei animá-lo, pedi-lhe desculpas, mais uma vez, pelas minhas atitudes condenáveis, mas, mesmo assim, ele não conseguiu superar a mágoa que eu lhe causara. Paciência! Com o tempo e com a minha solicitude talvez o ganhe!

D.B.P. – Aprendeste alguma coisa com esta experiência?

F.p. – Ainda me perguntas! Aprende-se mais com os erros do que com os sermões…Os erros deixam-nos marcas indeléveis, frustração, remorsos, arrependimento, fazem-nos crescer quase de repente, ajudam-nos a compreender os erros dos outros e a ser tolerantes, não com os erros, mas com quem os comete, ajudam-nos a entrar mais profundamente dentro de nós mesmos…e a descobrir que somos fracos na hora da tentação. Também me ensinou que não devemos agir com a cabeça quente, num ataque de fúria, ao rebentar de uma panela de pressão. Também aprendi que as decisões, quanto mais importantes forem, mais pensadas deverão ser e quando se tem dúvidas é aconselhável pedir humilde e honestamente conselho. As decisões tomadas sob um ímpeto de paixão, à moda de um touro bravo, não levam a nada de bom. Foi o que aconteceu comigo. Mas, apesar de ter aprendido muita coisa, preferia não a ter aprendido desta maneira.

D.B.P. – E agora?

F.p. – Agora, quero ser um filho manso, obediente, humilde, fazer a vontade de meu pai, cumprir as suas prescrições, não o magoar, não o ofender, mostrar-me grato pelos seus benefícios e,…a pouco e pouco, reaprender a pronunciar e apreciar o doce nome de Pai…e merecer  ser um filho de tal Pai.

 .

Ezequiel Miguel

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As razões do filho pródigo – II

(Continuação de: ” As razões do filho pródigo-I”)

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(Realidade & ficção)

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(Confira: Lucas 15, 11-32)

O texto bíblico vai em negrito

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“Depois de gastar tudo, houve uma grande fome nesse país e ele começou a passar privações”.

Após abandonar a casa do pai, o filho mais novo, com toda a sua herança convertida em dinheiro, dirigiu-se para uma grande cidade, onde poderia encontrar um clima mais favorável a uma vida de satisfação pessoal sem limites nem qualquer tipo de constrangimentos. Liberdade total, felicidade total, prazer total – esta era a trindade que uma bolsa cheia de dinheiro iria – pensava ele -  permitir. Acabaram-se as humilhações, os reparos do pai, as censuras do irmão mais velho, a vigilância sobre os servos do pai, a orientação dos trabalhos agrícolas, enfim, acabara-se uma vida tristonha, monótona, as conversas do pai sempre a manifestar-lhe um amor paternal possessivo, a falta de liberdade para ir fazendo uma asneira ou outra sem que todos os olhares de censura o fulminassem, embora ninguém tivesse a coragem de lhe atirar directamente à cara fosse o que fosse, com excepção do irmão mais velho, com o qual não simpatizava. E como poderia ele simpatizar, se via nele uma crítica permanente, embora silenciosa a maior parte das vezes. Aquele feitio molengão do irmão mais velho, assim como um aparente não-te-rales com a vida e seus problemas, a sua falta de iniciativa, a proximidade afectuosa com o pai, a sua aceitação de tudo o que o pai lhe dizia, a sua obediência sem nunca protestar nem contrapor,…tudo isso e muito mais o irritava. Mas agora…já tudo ficara para trás. Tudo isto coroado com o fim dos humilhantes pedidos de dinheiro, que caía sempre a conta-gotas!… Finalmente: dinheiro, liberdade, independência! O seu grito do Ipiranga ainda ecoava pelo universo!…

“…Partiu para uma terra longínqua e por lá  esbanjou tudo quando possuía, numa vida desregrada. Depois de gastar tudo, houve grande fome nesse país e ele começou a passar privações”.

O dinheiro acabara-se. A sobrevivência exigia tomar medidas drásticas, radicais. A miséria espiritual e corporal fizeram dele mais um verme do que uma pessoa. Lá se foi a dignidade, a arrogância, a soberba da vida, os sonhos, a ambição, os projectos, a liberdade, a independência, a auto-suficiência, a sobranceria de filho rico e mimado, preguiçoso, rebelde, dissipador, dado ao luxo e ao prazer, para já não falar do pouco respeito que tinha pelo pai, com o qual discutia frequentemente e ficava mal-humorado. Agora, tudo o vício  levou.  As alternativas seriam a mendicidade ou um trabalho que desse para sobreviver com alguma dignidade. Mas:

“Então, foi colocar-se ao serviço de um dos habitantes daquela terra, o qual o mandou para os seus campos a guardar porcos. Bem desejava ele encher o estômago com as alfarrobas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava”.

As dificuldades abriram-lhe os olhos para o que antes lhe estava escondido. O descer até ao fundo de si mesmo, descobrir e reconhecer  a própria miséria são as condições necessárias para o caminho da reabilitação, à semelhança de  um doente que reconhece e aceita que está doente. Quanta mais elevada era a sua soberba, mais profunda será agora a sua humildade. A lembrança do passado é a tónica que vai lançar a primeira pedra da sua reabilitação:

“E, caindo em si, disse: Quantos jornaleiros de meu pai têm pão em abundância e eu aqui a morrer de fome! Levantar-me-ei, irei ter com meu pai e vou dizer-lhe: Pai, pequei contra o Céu e contra ti, já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus servos! E, levantando-se, foi ter com seu pai”.

O arrependimento levou-o a uma decisão firme, depois de bem ponderada, iluminada  e corajosa,  mas também desesperada, uma vez que as coisas iam de mal a pior e as alternativas ao regresso a casa do pai não lhe ofereciam nem sequer a dignidade de ser tratado como eram os porcos tratados. Era e considerava-se mais inteligente que o seu irmão, mas reconhecia agora que ele tinha as  qualidades e a sabedoria que a ele faltavam. Também viu que era a sua rebeldia que levava o pai a olhar para o seu irmão com olhos mais benevolentes, embora o pai nunca o ofendesse quando lhe dava bons conselhos ou quando o censurava por comportamentos menos dignos. Bem ao contrário, como ele lamentava agora as más respostas dadas ao pai, a um pai tão bondoso que só queria o seu bem! Mas, enfim, a inteligência que o caracterizava não fora usada com sabedoria e também nisto verificava como o irmão era mais sensato. No fim de contas, fosse como fosse, o pai tem a missão  e a obrigação de corrigir quando tal é necessário. A si próprio se chamou imbecil, estúpido, cego, orgulhoso, idiota, estroina, mais porco que os porcos e que nem as bolotas merecia comer! Quanto às alfarrobas, indicadas para lhe matar a fome, o patrão julgava-as mal empregadas para ele, por isso, recusava-lhas, o que se traduzia em máxima humilhação. Mais fundo em sua dignidade já não podia descer. O regresso à casa do pai, à procura do tempo perdido, era a única solução.

“Quando ainda estava longe, o pai viu-o e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço e cobriu-o de beijos: “

Pai – Sê bem vindo, meu filho! Que saudades eu tinha de ti! Todos os dias e a todas as horas tu me vinhas à lembrança e na minha cabeça cruzavam-se pensamentos contraditórios e no meu coração estava a esperança no teu regresso, mais cedo ou mais tarde!

Filho –“ Pai, eu pequei contra ti e contra o Céu! Já não sou digno de ser tratado como teu filho. Mas trata-me ao menos como um dos teus servos!”

Pai – Ó filho querido, um pai é sempre pai e um filho é sempre filho! Vamos esquecer o passado e viver o futuro. Mas, para já, vamos comemorar o teu regresso, o regresso de um filho que eu considerava perdido. Haja alegria e festa! (Chamando um servo) Eh! Vem cá! “Trazei depressa a melhor túnica e vesti-lha; ponde-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés; trazei o vitelo gordo e matai-o; vamos fazer um banquete e alegrar-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado”.

Cumpridas as instruções do pai e tudo pronto, a que não faltou música e dança, a festa começou  e decorria:

“Ora, o filho mais velho estava no campo. Quando regressou, ao aproximar-se da casa ouviu a música e as danças:

Filho mais velho – Tu aí, servo, o que se passa na casa de meu pai? Ouço música e ruído de dança. Aconteceu alguma coisa de especial que mereça festa?

Servo Foi o teu irmão, que voltou  e o teu pai mandou matar o vitelo gordo, porque chegou são e salvo.

Filho mais velho – Vai dizer a meu pai que eu já cheguei do campo!

Servo – Sim, vou já!…

Pai – Então, filho, chegaste de mais um dia de trabalho! Vem alegrar-te connosco!

Filho mais velho – Não pai, não vou! “ Há tantos anos que te sirvo sem nunca transgredir um ordem tua e tu nunca me deste um cabrito para eu fazer uma festa com os meus amigos; e agora, ao chegar esse teu filho, que gastou os teus bens com meretrizes, mataste-lhe o vitelo gordo.”

Pai Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu, mas tínhamos de fazer uma festa e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e reviveu, estava perdido e foi encontrado. Além disso, filho, tu nunca me pediste um cabrito e nem precisavas de o pedir. Bastava que me dissesses: “Pai, gostava de convidar os meus amigos para uma festa, por isso, vou matar um cabrito, se não te importas. Se quiseres partilhar da nossa alegria, sê bem vindo!”  Filho, tudo o que é meu é teu e agora ainda com maioria de razão. Por isso, vem comigo, dá um abraço ao teu irmão e as boas vindas, pois ele está muito arrependido do que fez e vai certamente pedir-te também perdão pelo seu atrevimento. Não lhe lances na cara o que fez connosco e mostra a tua grandeza de alma perdoando, porque no perdão está a tua libertação desses rancores. Ele vai ser diferente daqui para o futuro, porque a sua triste e dolorosa experiência o tornou mais adulto, mais sábio, mais prudente, mais humilde, mais serviçal, mais tolerante, mais teu amigo. Pelo perdão que lhe concederes ele te ficará grato e tentará pagar-te com amor a tua generosidade. Se eu te tenho dito que devemos perdoar aos nossos inimigos, quanto mais devemos perdoar aos nossos irmãos de sangue! Repara só que ele até acha que nem merece chamar-me pai a mim e irmão a ti, tal a noção que ele tem da sua indignidade. Filho, todos cometem erros, mas grandes são aqueles que são capazes de os reconhecer, pedir perdão deles e expiá-los corajosamente. Ele também precisa do teu perdão para recuperar a sua auto-estima  e apagar o estigma que o marcou. Ajuda-o a esquecer e a sublimar os seus erros. Verás que ele te ficará eternamente grato. Anda, vem comigo, fala com ele, come, bebe e dança, porque recuperaste um irmão perdido. Ajuda-o também a ele a recuperar um irmão!…

Considerações:

1. Há várias maneiras de abordar esta parábola do filho pródigo. Há quem vá ao fundo da questão e, através do dom do Entendimento, a leia e a interprete segundo as intenções que moviam Cristo a proclamá-la. Se há pregadores que põem a tónica no comportamento  reprovável, a vários níveis, do filho pródigo, há outros que se desviam para o comportamento do filho mais velho e aí se demoram, desviando-se do principal e invertendo a lógica da parábola. E, aparentemente, até se irritam com ele!…

2. Como se irritam eles com o filho mais velho, se nem o pai se irritou, limitando-se a justificar  o banquete, a festa, a alegria e a dança pela chegada do filho mais novo? No final, o que fica nos ouvidos da assembleia litúrgica é o espancamento de que é vítima o filho mais velho, por ter a coragem (ou a fraqueza?…) de exteriorizar o que pensava, direito a que tinha direito…, sem faltar ao respeito ao pai nem amaldiçoar o irmão mais novo, cujo comportamento censurável ninguém aprovaria.

3. O que queria Cristo dizer através desta parábola?

a) –  Esta é uma das parábolas da misericórdia de Deus para com o pecador arrependido. Quando o homem peca, ele afasta-se da amizade (da casa) do Pai e mantém-se afastado até reconhecer que  caiu num estado de miséria moral. A partir daí, tal como o filho pródigo fez, assume o seu pecado, arrepende-se, confessa-se  humildemente perante o Pai  e é perdoado por Ele. Após a instituição do Sacramento da Penitência (Reconciliação, Confissão) por Cristo, o perdão passa pelos  Sacerdotes, a quem esse poder foi dado (Perdoai os pecados…) no próprio dia da Ressurreição. Por isso, é a Igreja de Cristo que distribui o perdão dos pecados a quem o requisita nas devidas condições. É assim que  Cristo deseja que todos os pecadores da Terra regressem à Casa do Pai. Quem o não fizer estará fora, seja ele ateu, católico não praticante, católico praticante em pecado ou membro de qualquer confissão protestante. Essa do “Eu confesso-me a Deus” é uma atitude soberba, de rebelião, dado se colocar a própria opinião acima da Palavra de Deus, tal como fez e faz Satanás e seus demónios. De qualquer modo, há duas maneiras de entrar na casa do Pai (Deus): pelo Baptismo e pelo Sacramento da Penitência.

b) – Não há pecados que a misericórdia do Pai ( Deus) não possa ou não queira perdoar, embora Cristo tenha dito que os pecados contra o Espírito Santo não serão perdoados nem neste mundo nem no outro. Tem isto a ver com a ofensa que o pecador faz a Deus ao convencer-se ou a ser convencido por Satanás que não vale a pena arrepender-se nem buscar o perdão de Deus, porque o seu pecado é tão grande que Deus não lhe perdoará, preferindo morrer sem fazer uma boa Confissão. Em outros pecados contra o Espírito Santo o pecador não reconhece o seu pecado, não se arrepende deles nem os confessa, morrendo neles. Também há aqueles que pensam que, sendo Deus um Pai misericordioso, que perdoou ao filho pródigo sem sequer o deixar enumerar os seus imensos pecados, assim procederá sempre  porque Ele (o Pai) sabia e sabe quais os pecados que o pecador tem, não precisando por isso de os confessar ao sacerdote. Lembro que, quando Cristo contou esta parábola, ainda não havia Sacramentos, por isso, Ele tinha em conta os ouvintes de então, que sabiam que bastava o arrependimento sincero, a conversão e a prática dos Mandamentos. Após a instituição dos Sacramentos, isso mudou, e todo aquele que tiver recebido o Baptismo terá de passar pelo Sacramento da Penitência como meio normal de obter o perdão dos pecados. Se Cristo disse que passaria a ser assim, quem terá autoridade para dizer e fazer o contrário? Não será esta atitude de rebeldia também um pecado contra o Espírito Santo, por se pôr a própria palavra acima da Palavra de Deus, pretendendo assim pôr-se acima de Deus?  Neste ano, dedicado pela Igreja  à Fé, pense, repense, corrija, se tem a corrigir, para seu próprio bem!

c)  – Temas passíveis de abordagem na parábola do filho pródigo: A  misericórdia de Deus, o pecado, sobretudo o que respeita ao 6º e ao 9º Mandamentos e que tem a ver com a sexualidade, o arrependimento, a graça de Deus (alma sem pecado grave), a  confissão bem feita dos pecados, a missão do sacerdote como ministro do perdão, a santificação das almas, o perdão das ofensas, o amor incondicional ao próximo, o amor aos pais, situações difíceis – como geri-las sem pecar- etc. Também o Pai espera que regressem à Igreja Católica aqueles que a abandonaram. O regresso à casa do Pai pode entender-se como sendo a recuperação da amizade com Deus  ou a reentrada na Igreja Católica para aqueles que a abandonaram. Estes são temas concretos, que tornam desnecessário divagar ou manipular seca e obtusamente a doutrina de Cristo e o modo como a Igreja a apresenta ao Povo de Deus. Quem se limita a malhar no filho mais velho, poderá estar a malhar em si próprio, porque ele se limitou a proceder como qualquer um de nós procederia. A referência feita por Cristo ao filho mais velho teve como objectivo realçar a atitude misericordiosa do Pai para com a miséria do filho mais novo. Na parábola nem sequer se diz que o filho mais velho tenha faltado à caridade, nem para com o pai nem para com o irmão, sinal de que esse ponto não era o mais importante.

Não sendo, porém, o tema mais importante, também não se deve passar ao lado dele, pois está ligado ao ponto difícil da Caridade (Amor) heróica. Como deveria este filho mais velho proceder para com o seu irmão, para se encaixar bem nas leis do amor a Deus e ao próximo? Deveria alegrar-se com a chegada do irmão, perdoava-lhe, tal como fez o pai, animava-o a esquecer e a superar a sua triste experiência e oferecia-lhe metade da  sua própria herança, isto é, metade de toda a fortuna restante do Pai. E, caso o pai já tivesse morrido, deveria recebê-lo em sua casa, se ele não tivesse para onde ir nem meios para se sustentar dignamente. Só isto!…

 Os pregadores costumam identificar com o filho mais velho os cristãos que permanecem com o Pai (Deus), mas que, por um motivo ou por outro, se portam como ele, de onde nos querem levar a concluir que, se  nós não pertencemos ao clube do mais novo, somos sócios do clube do mais velho!…Alguns costumam ironicamente referir que o  filho mais novo é o mauzão e nós, os do lado de cá, julgamo-nos os bonzinhos!… Não nos resta muito por onde escolher!…Só o Pai (Deus) é Pai de todos e, por todos os motivos, quer que nos mantenhamos na Sua Casa, que entremos nela  ou que regressemos a ela. Resta-nos ainda a consolação de saber que Cristo inventou a parábola para realçar a infinita misericórdia de Deus-Pai para com o pecador arrependido. O resto é especulação sobre uma história inventada para um efeito específico.

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Ezequiel Miguel

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. Eu, pecador, me confesso

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. Pecados contra o Espírito Santo  II

. Pecados contra o Espírito Santo  III

. Pecados contra o Espírito Santo  IV

. Pecados contra o Espírito Santo – V

. Hino ao Amor

. Tesouro no alto monte

A rainha Ester – II

“Todo aquele que se exalta será humilhado, e o que se humilha será exaltado!” ( Lc 14, 11)

(Continuação de :” A rainha Ester – I “)

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(Realidade e ficção)

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Personagens:

.Assuero – rei da Pérsia

.Ester – esposa de Assuero

.Haman – 1º ministro de Assuero

.Mardoqueu – Judeu, tio de Ester

.Hatac – Eunuco do rei

.Zeres – mulher de Haman

.Harbona – Eunuco do rei

.Servo de Assuero

.O texto bíblico (Ester  4, 5, 6, 7) vai em itálico

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Instigado por Haman, o rei Assuero da Pérsia, assinou um édito em que dava a Haman plenos poderes para exterminar o povo de Israel, incluindo mulheres e crianças, exilado no império persa. Apoiado na desonestidade, na mentira, na calúnias e nos propósitos de vingança de Haman, o rei assinou o que Haman quis que assinasse. Todos os governadores receberam as cartas com o édito e com a indicação do dia exacto em que se deveria proceder à matança por todo o reino. À ordem do rei, os correios partiram a toda a pressa, para que as cartas chegassem a tempo de se fazerem os  necessários preparativos para o efeito. Entre as eventuais vítimas estava Mardoqueu, tio de Ester, que encabeçava a lista dos que deveriam morrer naquele dia já marcado: dia 14 do mês de Adar (Fevereiro-Março)

Quando Mardoqueu tomou conhecimento do que se passava,  rasgou as vestes, de indignação, vestiu-se de saco e cinza e entrou em lamentações, oração, jejum e penitência, o mesmo fazendo os Judeus por todo o reino, de modo que a desolação era geral, não se descortinando nenhum meio de impedir a chacina a que todos estavam destinados.

Informada do que se passava com Mardoqueu, Ester mandou perguntar a Mardoqueu a causa da sua dor e das vestes que vestia, enviando-lhe roupas decentes.

Ester – Hatac (Eunuco do rei), vai perguntar a Mardoqueu, aquele homem que passa o dia sentado à porta do palácio, o que significam as roupas que veste e os sinais de dor que manifesta…. Se não estiver à porta do palácio, procura-o na praça da cidade, diante da porta do rei.

Hatac – A rainha manda perguntar porque estás assim vestido e porque passas o dia em gemidos e lamentações.

Mardoqueu – Diz à rainha aquilo que tu já sabes,  que um  édito do rei , a pedido de Haman, permite exterminar todos os Judeus do reino. Diz-lhe ainda que Haman prometeu aumentar o tesouro real com uma grossa quantia de dinheiro, em troca dos favores que alcançou do rei. Entrega-lhe esta cópia do édito real e ela ficará a saber tudo o que se prepara. Diz-lhe que o édito já está afixado nas ruas e praça de Susa. Diz-lhe ainda que eu lhe peço que se apresente ao rei e que implore a sua graça e interceda pelo seu povo….

Hatac transmite  os recados de ida e volta:

Ester – Hatac, leva estes recados a Mardoqueu: “Todos os servos do rei e o povo das suas províncias sabem que há uma lei que castiga com a pena de morte quem quer que seja, homem ou mulher, que penetrar, sem ser chamado, no átrio interior do palácio do rei, excepção feita somente àquele para o qual o rei estender o seu ceptro de ouro, a fim de lhe conservar a vida. E eu não fui chamada pelo rei desde há trinta dias.”

Mardoqueu –“ Não penses que, por estares no palácio, poderás escapar mais facilmente que todos os judeus. Se agora te calares, e o socorro e libertação dos Judeus vier de outra parte, tu e a  casa dos teus pais perecereis. E quem sabe se não foi para estas circunstâncias que chegaste à realeza”?

Ester Vai reunir todos os Judeus de Susa e jejuai por mim, sem comer nem beber, durante três dias e três noites. Eu farei a mesma coisa com as minhas servas. Depois disso, e apesar da proibição, irei ter com o rei. Se tiver de morrer, morrerei!

Mardoqueu retirou-se e fez tudo o que Ester pedira”.

 Oração de Mardoqueu:

Senhor,…rei todo  poderoso, em cujo poder estão todas as coisas e a cuja vontade ninguém pode resistir, se quiseres salvar Israel. Fizeste o céu e a terra e todas as maravilhas que se acham debaixo dos céus. És o Senhor universal e ninguém…Te pode resistir. Conheces tudo  e que não foi por espírito de soberba, nem por presunção, nem por vanglória que recusei prostrar-me diante do orgulhoso Haman. De boa vontade, para salvar Israel, eu beijaria o rasto dos seus pés. Mas procedi assim para não colocar a glória de um homem acima da glória de Deus; não adorarei ninguém fora de Ti. E, agindo assim, não o faço por orgulho. E agora, Senhor, Tua que és o meu Deus e meu Rei,…defende o Teu povo, pois os nossos inimigos querem arruinar-nos e destruir a Tua antiga aliança. Não desprezes o povo que resgataste da terra do Egipto. Ouve a minha oração e sê propício para com a Tua herança e transforma em alegria a nossa dor, a fim de vivermos para celebrar o Teu nome…e não feches a boca daqueles que te louvam.

Todo o Israel clamava também ao Senhor com grandes brados, porque tinha a morte diante dos olhos” (Ester  4, 1-11).

Também a rainha Ester, possuída de uma angústia mortal, recorreu ao Senhor. Depôs as suas vestes luxuosas e vestiu roupas de aflição e pesar,…cobriu a cabeça de cinza e de pó e humilhou-se,…desgrenhou o cabelo e dirigiu esta prece ao Senhor, Deus de Israel:

Oração de Ester – Leia na Bíblia: Ester 4, 12-30.

“No terceiro dia, Ester vestiu os trajes reais e foi colocar-se no átrio interior do palácio real, diante da residência do rei; este estava sentado no trono real, na sala do trono…Quando o rei viu a rainha Ester de pé no átrio, olhou-a com agrado e estendeu o ceptro de ouro que tinha na mão. Ester aproximou-se e tocou na ponta do ceptro.

Assuero – Que tens, rainha Ester e o que queres?

Ester – Se ao rei parecer bem, venha hoje com Haman ao banquete que lhe preparei!

Assuero – Apressai-vos a chamar Haman para atender ao desejo de Ester!….

Haman – Sim, majestade! Porque me mandaste chamar?

Assuero – Porque tenho uma surpresa para ti! A rainha Ester quer oferecer-nos, a mim e a ti, um banquete.

O rei foi com Haman ao banquete que Ester havia preparado. Enquanto se bebia o vinho, o rei disse à rainha:

Assuero – Qual é o teu pedido? Tudo te será concedido. Qual o teu desejo?…

Ester – Eis o que desejo e o meu pedido. Se encontrei favor aos olhos do rei, e se lhe agrada aceder ao meu pedido e satisfazer o meu desejo, que o rei e Haman tornem a vir ao banquete que vou preparar. Amanhã darei resposta à pergunta do rei.

Haman saiu, naquele dia, cheio de gozo e alegre de coração. Mas, à vista de Mardoqueu, sentado diante da porta do rei:

Haman – Continuas na tua! À minha passagem, não dobras o joelho!  Não o farás por muito tempo!…

Haman retirou-se então para casa e contou aos seus amigos , aos servos e à sua esposa as honras de que tinha sido alvo pela rainha e pelo rei, exaltando o seu lugar, os seus dotes, a sua riqueza, a sua influência  e poder em todo o reino. Fora um dia de glória !

Haman Fui o único a quem a rainha Ester admitiu com o rei ao banquete…e convidou-me para amanhã, juntamente com o rei. Mas tudo isto não é nada para mim, enquanto vir esse Judeu Mardoqueu sentado à porta do rei e tratando-me como se eu fosse um cão. Não dobra o joelho à minha passagem! Que judeu tão orgulhoso e arrogante!

Zeres (mulher de Haman) -  Prepara uma forca com cinquenta côvados de altura ( 25 metros) e amanhã cedo, pede ao rei que nela seja suspenso Mardoqueu. Depois, irás satisfeito ao banquete com o rei.

Este conselho agradou a Haman, que mandou levantar a forca.

A insónia do rei:

“Naquela noite, o rei não pôde conciliar o sono. Mandou que lhe trouxessem o livro das memórias, as Crónicas, que na sua presença foram lidas. Nelas estava escrito  o relato da denúncia que lhe fizera Mardoqueu da conspiração de Bigtan e Teres, os dois eunucos do rei, guardas do átrio, que quiseram levantar a  mão contra o rei Assuero.

Assuero – “Que honras e distinções recebeu Mardoqueu por isto?

Servo -  Não recebeu nenhuma!

Assuero -  Quem está no átrio?

Servo – É Haman que está no átrio.

Assuero – Que entre!

 

Ora, Haman  viera ao átrio exterior do palácio para pedir ao rei que fizesse suspender Mardoqueu na forca que mandara levantar.

Assuero -  Que se deve fazer a um homem a quem o rei quer honrar?

Haman- (Pensando que era a ele que o rei queria honrar…) – …É necessário mandar trazer as vestes com que se vestiu o rei e o cavalo que ele montou e colocar a coroa real na cabeça dele. As vestes, o cavalo e a coroa entregar-se-ão a um dos príncipes da corte, para que vista o homem que o rei quer honrar, passeando-o a cavalo pela praça da cidade e dizendo em altos brados diante dele: “É assim que é tratado o homem a quem o rei quer honrar”.

Assuero -  Toma, pois, depressa as vestes e o cavalo, como disseste, e faz tudo isso a Mardoqueu, o judeu que está sentado à porta do rei. Não omitas nada de tudo o que disseste!”

E Haman assim fez. Depois, Mardoqueu voltou para a porta do palácio e Haman regressou a sua casa precipitadamente, humilhado, envergonhado, desolado, de cabeça coberta. Contou a sua desventura à esposa e aos amigos

Zeres – Se Mardoqueu, diante do qual começaste a cair, pertence ao povo judeu, não o conseguirás vencer, mas sucumbirás diante dele!

Zeres, Haman e os seus amigos falavam ainda quando os eunucos do rei chegaram para o levar imediatamente ao banquete que Ester havia preparado.

No 2º banquete de Ester:

Assuero – Qual é o teu pedido, rainha Ester? Pois ele te será concedido. O que é que desejas…?

Ester –“ Se encontrei favor aos teu olhos, ó rei, e se ao rei parecer bem, conceda-me a vida, eis o meu pedido; e salve o meu povo, eis o meu desejo. É que eu e o meu povo fomos votados ao extermínio, à morte, ao aniquilamento. Se tivéssemos sido vendidos como escravos ou como servos, eu calar-me-ia, embora o inimigo não compensasse o prejuízo que o rei sofreria”

Assuero – Quem é e onde está aquele que projecta tais coisas?

Ester – O opressor, o inimigo é Haman, esse malvado!

“Haman ficou tolhido de terror diante do rei e da rainha. O rei, na sua cólera, levantou-se, deixou o banquete e dirigiu-se ao jardim do palácio. Haman, porém, permaneceu ali para implorar a Ester que lhe salvasse a vida, porque via bem que no espírito do rei estava decretada a sua completa ruína. Quando o rei voltou…para a sala do banquete, viu Haman , que se deixara cair no divã em que repousava Ester e exclamou:

Assuero – “Como”?! Será que quer fazer também violência à rainha na minha própria casa, no meu palácio!?”

Mal acabara o rei de pronunciar estas palavras, taparam o rosto de Haman.

Harbona (Eunuco do rei) – Na casa de Haman há uma forca com a altura de cinquenta côvados, que o próprio Haman preparou para Mardoqueu, aquele que descobriu a conspiração contra o rei.

Assuero – Que o suspendam nela!

Suspenderam Haman na forca que havia erguido para Mardoqueu e a cólera do rei aplacou-se.“

Com a execução de Haman,  a situação inverteu-se. Através da oração, pedidos e lágrimas de Ester, o rei anulou o édito que permitia o extermínio dos judeus e assinou um outro em que permitia que os Judeus, no dia marcado para o seu extermínio, se defendessem e matassem todos os seus agressores em todo o império de Asuero, no mesmo dia e mês assinalados por Haman para serem executados. O posto e as honras de Haman foram assumidos por Mardoqueu, para glória, gozo, alegria dos Judeus e louvor a Deus pela maravilha operada em favor do Seu Povo.

“Se o ímpio não se converter, pode afiar de novo a sua espada, retesar o arco e apontar a seta. Contra si prepara armas de morte, das suas flechas faz tições ardentes. Pode conceber a maldade, gerar a iniquidade e dar à luz a mentira. Abre um fosso profundo para os outros, mas cai na cova que ele mesmo fez. A malícia recairá sobre a sua cabeça, e a sua violência, sobre a sua fronte”(Salmo 7, 15-17)

Sugestão: Leia, na Bíblia,  todo o livro de “ESTER”!

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

. A rainha Ester – I

. Judite e Holofernes – I

. Judite e Holofernes – II             

A rainha Ester – I

Confira na  Bíblia: Ester, caps. 1, 2, 3

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(Realidade e ficção)

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Personagens :

. Ester –  Judia , rainha e 2ª esposa do rei Assuero

. Vasti – 1ª esposa de Assuero

.Mardoqueu –  Judeu, tio de Ester

.Xerxes (Assuero) – rei da Pérsia

.Haman – 1º ministro de Assuero

. Chaasgaz – Eunuco de Assuero e guarda das concubinas

.Hegai – Eunuco de Assuero e guarda das mulheres

Local das cenas –  Susa, capital de Assuero.

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“No segundo ano do reinado de Assuero”:

“ Foi no tempo de Assuero, aquele que reinou desde a India até à Etiópia, sobre cento e vinte províncias. Ao sentar-se no trono de Susa, sua capital, no terceiro ano do seu mandato, Assuero deu um banquete a todos os cortesãos e aos seus servos. Reuniu na sua presença os chefes dos exércitos dos persas e dos medos, os príncipes e os governadores das províncias, para ostentar as riquezas e a magnificência do reino, a pompa da sua grandeza, durante…cento e oitenta dias. Passado esse tempo, o rei convidou toda a população de Susa …para um banquete de sete dias na cerca do jardim do palácio…

Ao mesmo tempo, a rainha Vasti ofereceu um banquete às mulheres, no palácio de Assuero. No sétimo dia, o rei, cujo coração estava alegre por causa do vinho, ordenou…que trouxessem à sua presença a rainha Vasti com o diadema real, para mostrar ao povo e aos grandes a sua beleza, porque era formosa de aspecto.” ( Ester 1, 1-11).

Mas a rainha Vasti:

Vasti – Dizei ao meu senhor que não posso abandonar as minhas convidadas, porque isso seria uma falta de respeito para com elas. Eu tenho de honrar as ilustres damas de Susa  com a minha presença nestas últimas horas do meu banquete.

Meuman (Eunuco do rei) –  Mas, majestade, o vosso real esposo vai ficar furioso e não se sabe o que poderá acontecer!

Vasti – Transmite ao meu senhor o que acabo de te dizer. Depois eu explico-lhe os motivos e ele compreenderá e perdoará!

Meuman –  (De regresso à presença do rei): Majestade, a vossa real esposa, a rainha Vasti recusou obedecer às vossas  reais ordens, invocando argumentos para não desonrar as convidadas  do  seu banquete. Ela  manda dizer que só poderia vir quando o banquete terminasse. Apresenta as suas desculpas e pede a vossa real compreensão e tolerância!

Assuero – O quê? Ela recusou obedecer a uma ordem minha? Será que tu lhe transmitiste bem o recado que levavas? Ai de ti se falhaste no cumprimento das minhas ordens! Pelo deus  Ahura,  ela vai arrepender-se! Ninguém no meu reino pode desrespeitar uma ordem do rei. Uma ordem do rei é lei e quem não a cumpre é traidor!

Meuman – Eu transmiti correctamente as vossas reais instruções, mas ela recusou vir.

Assuero – Deixa, por agora! Vou pensar sobre o assunto. Talvez ela não mereça ser a rainha. Vou consultar os meus sábios.

“O rei irritou-se grandemente e, enfurecido, consultou os sábios versados na ciência dos tempos, pois os assuntos do rei eram tratados desse modo com homens conhecedores das leis e do direito. Os mais considerados eram Carsena, Chetar, Admata, Társis, Meres, Marsena e Memuçan, sete príncipes da Pérsia e da Média que viviam na presença do rei e ocupavam os primeiros lugares no reino” (Ester 1. 1-12)

Assuero Que lei se deve aplicar à rainha Vasti, por não ter obedecido à ordem que o rei Assuero lhe transmitiu através do Eunuco?

Memucam – A rainha Vasti não só ofendeu o rei, mas também todos os príncipes e povos de todas as províncias do rei Assuero. De facto, o procedimento da rainha será conhecido por todas as mulheres e incitá-las-á a enfrentar os seus maridos com desprezo, dizendo-lhes: O rei Assuero mandou chamar à sua presença a rainha Vasti, mas ela não quis ir. Daqui em diante, com o exemplo da rainha, as mulheres dos príncipes da Pérsia e da Média, responderão do mesmo modo a todos os grandes do rei, e disso resultará enorme desprezo e irritação por toda a parte. Se o rei achar bem, publique-se em seu nome um decreto real, que ficará escrito nas leis da Pérsia e da Média como irrevogável, por força do qual não apareça mais diante do rei Assuero; e que o rei confira o título de rainha a outra mais digna do que ela. Quando o édito real for conhecido nas províncias do seu vastíssimo reino, todas as mulheres respeitarão os seus maridos, desde o maior até ao mais humilde (Est 1, 15-21)

Assuero -  Este parecer agrada-me e revela a tua grande sabedoria em direito e bom senso. Vou seguir o teu conselho e vou expedir cartas para todas as províncias do meu reino, segundo a escrita e a língua de cada país e povo.

Carta do rei Assuero:

Eu, Assuero, rei da Pérsia e da Media, a todos os governadores das  províncias do meu reino:

1 – Faço saber que a minha rainha Vasti ousou desobedecer às ordens do seu marido, senhor e rei , dando um péssimo exemplo a todas as mulheres do meu reino, as quais, segundo os costumes dos meus povos, têm por norma obedecer aos seus maridos.

2 – Para que o seu exemplo seja condenado e não seguido pelas mulheres do meu reino, decreto que os maridos devem ser os senhores nas suas casas, por isso, cada um deve mandar segundo os costumes do seu povo.

3 – Em virtude da desobediência da rainha Vasti, informo todo o meu reino que ela foi demitida das suas até aqui reais funções e vai ser substituída por outra que seja mais sensata e fiel aos seus reais deveres.

4 – Tendo em vista este objectivo, ordeno aos meu governadores que procurem para o rei donzelas virgens, de bela figura. Assim, ordeno que aceitem os meus comissários e colaborem com eles, a fim de reunirem todas as jovens virgens e de belo aspecto no harém, em Susa, a capital, sob a vigilância de Hegai, o eunuco do rei, guarda das mulheres, que providenciará às necessidades de toucador das mesmas. A jovem que mais agradar ao rei tornar-se-á rainha em lugar de Vasti.

Dado em Susa, por Assuero, rei da Pérsia e da Média.

“Havia em Susa, a capital, um judeu chamado Mardoqueu…da tribo de Benjamim…Mardoqueu tinha criado Hadassa, isto é, Ester (= Estrela),  filha do seu tio, órfã de pai e  mãe. A jovem era bela de porte  e de formoso aspecto; na morte de seus pais, Mardoqueu adoptara-a como filha. Logo que foi publicado o édito do rei, numerosas jovens foram reunidas em Susa…sob a guarda de Hegai. Ester também foi levada ao palácio real e posta sob a vigilância de Hegai, guarda das mulheres.

A jovem agradou-lhe e caiu nas suas boas graças, e ele apressou-se a provê-la do necessário para o seu adorno e sua subsistência. …Ester não revelara  a sua raça nem a sua família, porque Mardoqueu lhe proibira que falasse nisso. Todos os dias Mardoqueu passeava diante do pátio do harém, para saber como passava Ester e como a tratavam .

Ester ganhava as boas graças de todos os que a viam. Após doze meses sujeita à lei das mulheres, ela foi apresentada ao rei, no seu palácio real, no décimo mês, que é o mês de Tabet, no ano sétimo do seu reinado. O rei amou-a mais do que as outras e colocou na sua cabeça o diadema real e proclamou-a rainha, em lugar de Vasti. O rei ofereceu um grande banquete a todos os seus príncipes e aos seus servos, em honra de Ester, concedeu descanso às suas províncias e fez-lhes mercês com liberalidade régia (Ester 2, 5 – 18).

Mardoqueu, sentado à porta do palácio, ouviu uma conversa entre os eunucos Bigtan e Teres, que versava sobre uma conspiração contra o rei. Mardoqueu transmitiu isso à rainha Ester e esta informou o rei, acabando tudo no enforcamento dos conspiradores, após se concluir da veracidade dos factos. O episódio foi transcrito no livros da crónicas do rei, na sua real presença.

Haman, primeiro ministro

Haman entra em cena , após o enforcamento dos eunucos conspiradores.  Haman é  elevado à diginidade de primeiro ministro, com direito a receber, dos servos reais, a saudação  através de um joelho flectido. Todos passaram a fazer assim, mas havia um que passava o dia sentado à porta do palácio e que não dobrava o joelho. Era Mardoqueu, tio de Ester.

1º Servo do rei – Porque desobedeces assim à ordem do rei? Nós já vimos que, dia após dia, tu recusas dobrar o joelho e isso pode trazer-te más consequências! Se continuares assim, denunciamos-te a Haman!

Mardoqueu – Podeis denunciar-me!  Eu sou Judeu  e  não me prostrarei nem dobrarei o joelho perante Haman.

2º Servo – Então, vamos já resolver isso! Nós avisámos-te! Agora…espera um pouco e verás. Com Haman não se brinca!…

3º Servo – Haman manda que vás ao seu gabinete. Vais a bem ou a mal?

Mardoqueu – Vou a bem!…

Haman – Estou sabendo que és Judeu e que desrespeitas as ordens do rei, que manda dobrar o joelho quando alguém se apresenta perante mim ou quando passar por mim. Tu continuas aí de pé sem o fazer. Saúdas-me dobrando o joelho ou não?

Mardoqueu – Não! Eu sou Judeu, por isso, não me prostrarei nem ajoelharei perante ti, que és um homem igual a mim!

Haman – Então, vais arrepender-te e também o teu povo vai sofrer por tua causa! A seu tempo terás  conhecimento do que vos espera!

Perante a recusa de Mardoqueu, Haman ficou furioso e procurou maneira de exterminar Mardoqueu e todos os judeus que habitavam no reino de Assuero. “No primeiro mês, Nisan (Março-Abril) foi lançado o “pur” (= a sorte), diante de Haman, para cada dia do mês. Saiu o duodécimo mês, que é o mês de Adar(Fevereiro Março). Então, Haman disse ao rei:

Haman – Em todas as províncias do teu reino existe um povo, diverso e separado dos outros; as suas leis são diferentes das dos outros povos, e este povo não observa as leis do rei. Não convém aos interesses do rei deixar esse povo em paz. Se ao rei lhe parecer bem, dê-se ordem para os exterminar, e eu pesarei dez mil talentos de prata para as mãos dos funcionários, para que os recolham no tesouro real.

Assuero – (Tirando o anel do dedo, com o selo real) – Entrego-te esse dinheiro e também esse povo; faz dele o que quiseres!

No dia 13 do primeiro mês, foram convocados os secretários do rei e escreveu-se, pontualmente, tudo o que Haman ordenava aos sátrapas do rei, aos governadores de cada

província e aos príncipes de cada nação:

Édito de Assuero (ditado por Haman):

“Assuero, o grande rei, aos sátrapas e aos governadores das cento e vinte e sete províncias, da Índia até à Etiópia mando o que se segue:

Embora eu seja o chefe de numerosas nações e tenha submetido toda a terra, não quero de modo algum abusar da grandeza do meu poder. Quero estabelecer um governo de moderação e de justiça, oferecer aos meus súbditos uma existência de tranquilidade perpétua e procurar para o meu reino, até aos seus confins, a quietude e a segurança, garantia da paz, tão desejada por todos os homens. Perguntei, pois, aos meus conselheiros como poderia levar isto a cabo e um deles, chamado Haman, superior a todos pela sua sabedoria e fidelidade, que ocupa o primeiro lugar depois do rei, deu-me a conhecer que há um povo mal-intencionado, disperso entre os outros povos do mundo, de costumes contrários aos dos outros, que despreza continuamente as ordens régias, a ponto de ameaçar a concórdia que reina no nosso império. Averiguei também que essa nação vive totalmente isolada, sempre em oposição perpétua ao resto do género humano e que, segundo as suas leis, tem um modo de vida estranho, hostil aos nossos interesses, e comete as piores desordens, comprometendo assim a ordem pública do reino. Por estas razões, ordenamos que todos aqueles que vos são indicados nas cartas de Haman, o homem que está à frente dos nossos interesses e que é para nós como um segundo pai, sejam radicalmente exterminados, com as suas mulheres e crianças, pela espada dos seus inimigos, sem nenhuma compaixão nem clemência, no dia catorze do duodécimo mês, chamado Adar, do presente ano. Desse modo, os inimigos de ontem e de hoje sejam obrigados a descer num só dia à região dos mortos, para que, no tempo futuro, o nosso governo seja estável e perfeitamente tranquilo” (Ester 3, 1-7)

Assina: Assuero

“Uma carta com  uma cópia do edito de Assuero foi enviada para todo o reino. O edito publicou-se em Susa, a capital, e , enquanto o rei bebia na companhia de Haman, a cidade de Susa estava consternada”( Ester 3, 15).   

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(Continua)                        

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Ezequiel Miguel

 

David e Golias

(Confira:  1 Samuel 17)

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(Realidade & ficção)

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Personagens:

Saúl  - rei de Israel

David – pastor de Belém

Golias – soldado filisteu

Jessé – pai de David

Eliab – irmão mais velho de David

Abinadab- irmão de David

Chamá – irmão de David

O texto bíblico vai entre aspas: “…”

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“Os filisteus mobilizaram as suas tropas para a guerra. Juntaram-se em Socó de Judá e acamparam entre Socó e Azeca, em Efés-Bamim. Saúl e os filhos de Israel mobilizaram as suas tropas e acamparam no vale do Terebinto, colocando-se em linha de combate contra os filisteus. Estes estavam num lado da montanha e Israel na colina que lhe ficava em frente, separados pelo vale”.

“Saiu do acampamento dos filisteus um guerreiro chamado Golias, de Gat, cuja estatura era de  seis côvados e um palmo. Cobria-lhe a cabeça um capacete de bronze, e o corpo, uma couraça de escamas, cujo peso era de cinco mil siclos de bronze. Tinha perneiras de bronze, e um escudo de bronze defendia os seus ombros. O cabo da lança era como um cilindro de tear, e a ponta pesava seiscentos siclos de ferro. Precedia-o um escudeiro. Apresentou-se diante dos filhos de Israel e gritou-lhes:

Golias -  Porque é que vos colocastes em ordem de batalha? Não sou eu filisteu e vós servos de Saúl? Escolhei entre vós um homem que combata comigo, em duelo. Se me vencer e me matar, seremos vossos escravos; mas se eu o vencer e o matar, então vós sereis nossos escravos e servir-nos-eis….Lanço hoje este desafio ao exército de Israel: dai-me um homem para lutarmos juntos!”

Saúl  e todo o Israel ouviram estas palavras do filisteu e ficaram assombrados e cheios de medo”.

“David era um dos oito filhos de um homem de Efraim, de Belém de Judá, chamado Jessé. Tinha oito filhos e era já idoso nos tempos de Saúl, a quem tinha fornecido homens. Os três filhos mais velhos haviam seguido  Saúl na guerra. O primogénito chamava-se Eliab, o segundo Abinadab e o terceiro Chamá. David era o mais novo. Tendo os três mais velhos seguido Saúl, David ia e vinha da corte de Saúl e voltava para apascentar o rebanho de seu pai, em Belém.

O filisteu (Golias) apresentava-se pela manhã e pela tarde, e isto durante quarenta dias. Um dia, Jessé disse ao seu filho David:

Jessé – Toma para os teus irmãos um efá de trigo ( 30 litros) torrado e estes dez pães e leva-os sem demora ao acampamento. Entrega estes dez queijos ao comandante e pergunta se  os teus irmãos vão bem ou se têm necessidade de alguma coisa.”

“Eles estavam com Saúl, juntamente com todos os homens de Israel, no vale do Terebinto, em guerra com os filisteus. Na manhã do dia seguinte, David, confiando o rebanho a um pastor, pôs ao ombro os alforges e partiu, como lhe ordenara Jessé. Chegou ao acampamento no momento em que o exército, saindo para a batalha, levantava o grito de guerra. Israel e os filisteus puseram-se em linha de combate, esquadrão contra esquadrão. David entregou a sua carga ao guarda das bagagens e correu às fileiras, para se informar dos seus irmãos. Enquanto lhes falava: “

Golias – Ó vós, aí!  Não há por aí ninguém que queira combater comigo? Porque havemos de travar uma batalha de exército contra exército, com milhares de mortos, se podemos resolver as nossas questões com a morte de um só homem? Que homens sois vós que confiais tanto no vosso Deus e andais sempre a dizer que o vosso Deus vos protege, vos guarda, que sois a sua herança, etc., etc.? Se confiais assim tanto nele, porque não vem um homem travar um combate comigo? Medricas é que vós sois todos! Grandes pecadores deveis vós ser para o vosso Deus vos abandonar e vos encher de medo!  Se não escolherdes um homem, teremos de travar a batalha e aí morrereis todos e os vossos cadáveres serão pasto suculento para as feras e para as aves de rapina, que já aguçam o bico para vos devorarem, depois de serdes trespassados pelas nossas lanças e transformados em carne picada pelas nossas espadas!

Chamá –“ Vedes esse homem que avança? Ele vem insultar Israel! O rei cumulará de grandes riquezas aquele que o matar, dar-lhe-á a sua filha e há-de isentar de impostos, em Israel, a casa de seu pai.

David – Que darão àquele que matar esse filisteu e defender a honra de Israel? E quem é esse filisteu incircunciso para insultar deste modo o exército do Deus vivo?

Abinadab – Ainda agora te foi respondido! Exactamente o que acabas de ouvir!

Eliab -  Olha lá! O que vieste tu fazer aqui? A quem deixaste o rebanho no deserto? Conheço as tuas pretensões e a maldade do teu coração, pois vieste para ver a batalha!

David -  Que fiz eu de mal? Apenas fiz uma simples pergunta. Se tu não me queres responder,  vou fazer a mesma pergunta a outros.

Eliab – Pois vai! Não obterás uma resposta diferente daquela que já te foi dada!

As palavras de David chegaram aos ouvidos do rei Saúl, que o mandou vir à sua presença:

Saúl – Porque estás tão interessado naquilo que o filisteu diz e nas provocações ao  exército de Israel? Será que tens alguma solução para o problema?

David – Ninguém desanime por causa desse filisteu. O teu servo há-de combatê-lo!

Saúl – Não poderás lutar contra esse filisteu. Não passas de uma criança, e ele é um homem de guerra desde a sua mocidade.

David –“ Quando o teu servo apascentava as ovelhas do seu pai e vinha um leão ou um urso roubar uma ovelha do rebanho, eu perseguia-o e matava-o. arrancando-lhe a ovelha da boca. E, se ele se levantava contra mim, agarrava-o pela goela e estrangulava-o. Assim como o teu servo matou o leão e o urso, assim fará também a este  filisteu incircunciso que insulta o exército do Deus vivo. O Senhor, que me livrou das garras do leão e do urso, há-de salvar-me igualmente das mãos desse filisteu”.

Saúl – Se assim é, vai, e que o Senhor esteja contigo! Mas, antes de ires, vou pôr a minha armadura à tua disposição….Veste primeiro a armadura!…agora, vai o capacete de bronze…e esta couraça. Sobre a armadura coloca esta espada…

David – Tudo bem! Só que…nem me posso mexer! Eu não fui feito para isto nem isto foi feito para mim, que não estou habituado. Vou tirar isto tudo. Prefiro ir ao encontro do filisteu com o meu cajado de pastor e com a minha funda.

“No caminho, David passou por um regato e escolheu cinco pedras lisas, pondo-as no alforge de pastor que lhe servia de bolsa. Depois, com a funda na mão, avançou para o filisteu, que vinha precedido do seu escudeiro”.  Entretanto:

Golias – Oh! És tu que vens lutar contra mim? (Medindo-o de alto a baixo) Mas tu ainda és um menino, delicado como uma dama, ainda cheiras a leite e o teu cabelo louro não engana! Não há em Israel um homem de barba que se apresente? O que esperas tu, meu jovem atrevido, deste combate? Tu não trazes lança nem espada! Lutas contra mim de mãos vazias? Quem és tu, criança, que ainda não conheces a realidade da guerra? Sou eu, por ventura um cão, para vires contra mim de pau na mão? Maldito sejas tu pelo nosso deus Dagon, (1)  que tu vens insultar, desafiando o seu poder, do qual  me vou servir contra ti. Vem, que eu darei a tua carne às aves do céu e aos animais da terra!

David – “ Tu vens para mim de espada, lança e escudo; eu, porém vou a ti em nome do Senhor do universo, do Deus dos esquadrões de Israel, a quem tu desafiaste. O Senhor vai entregar-te hoje nas minhas mãos e eu vou matar-te, cortar-te a cabeça e dar os cadáveres do campo dos filisteus às aves do céu e aos animais da terra, para que  todo o mundo saiba que há um Deus em Israel. E toda essa multidão de gente saberá que não é com a espada nem com a lança que o Senhor triunfa, porque Ele é o árbitro da guerra e Ele vos entregará nas nossas mãos.”

Golias – (Avançando ao encontro de David) Espera aí, menino insolente, que já vais ver quem será comido pelas aves do céu e pelos animais da terra! Pelo nosso deus  Dagon, senhor dos homens e do mundo,  chegou a tua hora! Prepara-te!

“David  também correu ao encontro do filisteu. Meteu a mão no alforge, tomou uma pedra e arremessou-a com a funda, ferindo o filisteu na fronte. A pedra penetrou-lhe na cabeça, e o gigante tombou com o rosto por terra….E, como não tinha  a espada na mão, arrancou-lha  da bainha e acabou de o matar, cortando-lhe a cabeça. Vendo morto o seu guerreiro mais valente, os filisteus fugiram” ( 1 Sam 17, 48-51).

(1) Dagon – deus homem e peixe

Considerações:

1. Como era o gigante Golias?

 De acordo com o texto bíblico, e fazendo a conversão das medidas indicadas, a sua altura seria de 3,10 metros. A couraça pesaria 60 Kg. A ponta da lança pesaria 7,20 Kg. Caiu de frente, com o rosto em terra, quando se esperaria que caísse para trás. Talvez o peso da armadura e a lança o desequilibrassem para a frente. Não se diz quantos golpes de espada foram necessários para cortar o pescoço de Golias, que deveria ser muito grosso e em proporção com a altura do gigante.

2. Não seria de esperar que um jovem sem experiência nem formação militar se oferecesse para a missão que David abraçou. Naturalmente falando, seria impossível. Mas convém não esquecer que David já tinha sido ungido rei de Israel pelo profeta Samuel, para substituir Saúl, que caíra em desgraça perante Deus por se ter envolvido no espiritismo e em consultas à médium (pitonisa) de Endor. A tarefa e o sucesso de David terão de ser atribuídos a Deus, que o escolhera para outros grandes feitos, pois, após a sua unção real, a Bíblia diz que o “espírito do Senhor tomou conta dele”, o que quer dizer que Deus agia nele e por ele. Isso explica a  coragem de David, a sua disponibilidade, confiança e certeza  para  lutar contra Golias, assim como a pontaria certeira, a força do tiro e o impacto no único sítio onde Golias podia ser atingido mortalmente, não esquecendo a velocidade da pedra atirada pela funda e que fez um buraco na cabeça de Golias.

Como ele disse: “ Não é com a espada nem com a lança que o Senhor triunfa, pois Ele é o árbitro da guerra”. Como em muitos outros casos, é nos fracos e nos humildes que Deus manifesta a sua força.

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

. Judite e Holofernes – I

. Judite e Holofernes – II

. O pecado do rei Saúl

Judite e Holofernes – II

(Continuação de  “Judite e Holofernes – I” )

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Personagens :

. Judite- Mulher hebreia de Betúlia

. Bagoas – Eunuco de Holofernes

. Aquior-  Habitante amonita

. Povo

.Uzias – Príncipe israelita

.General assírio

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O texto bíblico vai em itálico

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A uma das portas da cidade de Betúlia apresentaram-se, do lado de fora, ainda de madrugada, duas mulheres: uma, ricamente vestida,  a outra, vestida modestamente. Eram Judite e a sua serva, que regressavam do acampamento do exército assírio sob o comando do general Holofernes,  o qual,  àquela hora, tinha o corpo  estendido no chão ao lado da cama e a cabeça num saco transportado pela serva de Judite  e  que na viagem de ida levara alimentos para quatro dias.

No regresso de Judite:

“Judite disse de longe aos que guardavam as portas:

Judite – Abri, abri a porta! Deus, o nosso Deus, está connosco para manifestar o seu poder em Israel e a sua força contra os inimigos, tal como fez hoje!

Quando os  homens da sua cidade ouviram a sua voz, apressaram-se a descer para a porta e convocaram os anciãos da cidade. Todos corriam,…porque a sua chegada lhes parecia impossível. Abriram a porta, receberam-nas, acenderam uma fogueira para iluminar e juntaram-se à volta delas. Ela disse-lhes com voz forte:

Judite -  Louvai o Senhor, louvai-O! Louvai a Deus , que não se esqueceu da Sua misericórdia em favor da casa de Israel, mas esmagou os nossos inimigos, esta noite, pela minha mão.

Então, tirou a cabeça (de Holofernes) do saco, mostrou-a e disse-lhes:

Judite – Vede a cabeça de Holofernes, general do exército assírio, e vede a cortina sob a qual estava deitado durante a sua embriaguez. O Senhor atingiu-o pelas mãos de uma mulher. Juro-vos, pelo Deus vivo, que me protegeu no meu caminho, que foi o meu rosto que o seduziu, para sua perdição, sem que ele tivesse cometido pecado comigo, não me tendo contaminado nem envergonhado.

Povo – Bendito és Tu, nosso Deus, que esmagaste hoje os inimigos do Teu povo!

Uzias – Bendita sejas tu, filha, pelo Deus  Altíssimo, mais do que todas as mulheres sobre a terra, e bendito seja o Senhor Deus, que criou os céus e a Terra, Ele que te conduziu para cortares a cabeça do chefe dos nossos inimigos. A tua esperança não abandonará o coração dos homens, ao recordarem a força de Deus para sempre. Possa Deus fazer com que tu sejas exaltada para sempre e cumulada de bens, porque não poupaste a tua vida por causa da humilhação da nossa raça, mas vingaste a nossa ruína, caminhando pelo caminho direito diante do nosso Deus.

Povo – Assim seja, assim seja!” (Jd 13, 11-20)

Judite –“ Ouvi-me, irmãos, pegai nesta cabeça e pendurai-a no parapeito das vossas muralhas. Quando nascer o dia e o sol se levantar, que todos os homens valorosos peguem nas suas espadas  e saiam da cidade. Nomeai um chefe, como se fosseis descer em direcção à planície contra a guarda avançada dos assírios, mas não desçais. Então, eles pegarão nas suas armas, correrão para o campo, farão levantar os oficiais do exército assírio e, quando correrem para a tenda de Holofernes e não o encontrarem, o medo apoderar-se-á deles e fugirão à vossa frente. Vós e todos os que vivem dentro das fronteiras de Israel persegui-los-eis e cortar-lhes-eis o caminho da fuga. Mas, antes de fazerdes isto, trazei Aquior, o amonita, à minha presença e deixai que ele veja e reconheça o homem que desprezou a casa de Israel e que o enviou até nós como se fosse para morrer.

“Chamaram então Aquior, da casa de Uzias. Quando entrou e viu a cabeça de Holofernes na mão de um dos homens da assembleia do povo, caiu de rosto por terra e desmaiou. Quando o levantaram, caiu aos pés de Judite, prostrou-se diante dela e disse:

Aquior - Bendita és tu em todo o território de Judá e entre todas as nações! Quando ouvirem proclamar o teu nome, ficarão perturbadas. Agora diz-me como fizeste tudo isto, nestes dias.

Judite, no meio do povo, contou-lhe tudo o que havia feito, desde o dia da sua partida até ao momento em que falava com eles. Quando terminou de falar, o povo começou a aclamá-la em voz alta e a soltar gritos de júbilo por toda a cidade. Quando Aquior se apercebeu de tudo  o  que o Deus de Israel fizera, acreditou firmemente em Deus, fez-se circuncidar e aderiu à casa de Israel …. Ao nascer do dia, penduraram a cabeça de Holofernes nas muralhas, todos os homens pegaram nas suas armas e saíram, todos eles divididos por secções, pelas vertentes da montanha. Quando os assírios os viram, mandaram avisar os seus oficiais. Estes foram prevenir os generais, os seus chefes de mil homens e todos os seus comandantes. De seguida, foram à tenda de Holofernes e disseram ao  que estava encarregado de tratar de todos os seus assuntos:

General  Acorda o nosso senhor, porque os escravos atreveram-se a descer contra nós para nos combater e para se fazerem exterminar até ao último” (Jd, 14, 6-13)!

“Bagoas entrou e bateu no cortinado da tenda, porque supunha que Holofernes dormia ainda com Judite. Como não ouvisse ninguém, afastou o cortinado, entrou no quarto e encontrou-o morto sobre a cama com a cabeça decepada. Gritou com voz forte, com lamentos e gemidos e, dando gritos violentos, rasgou as suas vestes. Seguidamente, entrou na tenda onde Judite deveria estar, mas não a encontrou. Então, correu em direcção ao povo gritando:

Bagoas – Os escravos revoltaram-se! Uma única mulher dos hebreus envergonhou a casa de Nabucodonosor! Vede! Holofernes está caído e já não tem cabeça!

Quando os oficiais do exército assírio ouviram isto, rasgaram as suas vestes e os seus espíritos ficaram muito perturbados e os seus clamores e gritos elevaram-se pelo campo. (Jd 14, 14-19).

 “Quando os que estavam nas tendas ouviram isto, ficaram fora de si com o que tinha acontecido, e sobre eles abateu-se um grande medo, a ponto de começarem a tremer e de não quererem ficar uns ao lado dos outros. Dispersaram-se uns para cada lado, fugindo por todos os caminhos da planície e da região da montanha. Também os que estavam acampados na montanha ao redor de Betúlia fugiram.” ( Jd 15,1-3).

Rapidamente foram enviados mensageiros por todo o Israel no sentido de todos os homens com armas acorrerem na direcção de Betúlia e interceptarem os assírios em fuga desordenada, que, em sua grande maioria, foram chacinados, deixando o acampamento e os caminhos da fuga cheio de despojos valiosos:

“Todo o povo saqueou o campo durante trinta dias. Ofereceram a Judite a tenda de Holofernes, todas as pratas, os seus leitos, os seus recipientes e todas as suas coisas” (15, 11)

“Todas as mulheres em Israel cantaram e dançaram, exaltaram Judite e  louvaram a Deus pelos benefícios recebidos. …Muitos desejaram casar com ela (Judite), mas ela permaneceu viúva todos os dias da sua vida desde que Manassés, seu marido, morreu….Morreu aos cento e cinco anos de idade” ( Jd 16,22-23).

Considerações:

 1. O que pode fazer uma pequena cidade (Betúlia) perante um exército assírio de 120.000 soldados  de infantaria e 22.000s soldados de cavalaria? O que poderia D. Nuno Álvares Pereira fazer com 5.000 soldados perante um exército inimigo de 30.000 homens? O que poderia Paris fazer, na 2ª guerra mundial, quando 100.000 soldados alemães caminhavam para a cidade? O que poderiam ter feito os marinheiros de Carlos V, na batalha de Lepanto, contra a poderosa armada  do sultão turco no ano de 1571. Como puderam os soldados aliados vencer as batalhas mais importantes na 2ª guerra mundial, todas acontecidas em dias consagrados à Virgem Maria? Muitas outras perguntas poderiam ser feitas para demonstrar que a força do guerreiro não está no cavalo, nem no cavaleiro, nem nas suas armas, mas no poder de Deus, que pode  mudar o curso dos acontecimentos de um momento para o outro, como fez nos casos acima referidos e em muitos outros em que a sua ajuda foi invocada.

2. Quem acusa Deus de andar a dormir enquanto os homens se guerreiam e se matam, muitas vezes até por motivações religiosas, tem na Bíblia fartas ocasiões para concluir que Deus está bem acordado no que respeita aos homens e ao seu destino final. No fim de contas, queira-se ou não, Ele é o Senhor da História e intervém nela de vários modos, umas vezes directamente, outras, indirectamente, através de pessoas ou acontecimentos. Como ninguém penetra nos Seus desígnios, ninguém sabe o porquê, embora, frequentemente, Ele tenha mandado dizer aos profetas que se aproximavam grandes catástrofes em consequência do incumprimento das Suas Leis. Este modo de actuação ainda continua nos nossos tempos. A Revolução Francesa, a 2ª Guerra mundial, o grande tsunami de há 10 anos na Indonésia, o grande terramoto do Haiti, etc., as crises financeiras em que o mundo se debate e muito mais,  tudo foi profetizado e  foi ou está a ser cumprido.

3. Deus continua atento aos problemas humanos, como sempre esteve, mas não abrandou o grau de exigência no cumprimento da Sua Lei, que os homens vão espezinhando por todo o lado. Este episódio histórico, cujas figuras centrais são Judite e Holofernes, mostram como Deus salvou Betúlia apenas por meio de uma mulher casta, temente a Deus, santa, penitente, piedosa, caridosa para com os pobres. O caso tem alguma semelhança com o episódio de David e Golias, pois uma só pessoa  salvou muitas vidas e virou a história de uma cidade e de um povo. Também aqui se evidencia o poder da oração feita por um Justo, que consegue ir directa ao coração de Deus e virá-lo a favor de uma causa justa.

4. Analisando  o comportamento e as palavras proferidas por Judite, verificamos que ela deposita em Deus e no seu auxílio uma confiança absoluta  e não atribui a si própria nenhum mérito no sucesso da operação contra Holofernes, mas louva a Deus porque se serviu dela como seu instrumento, para realizar aquela maravilha de salvar Betúlia do extermínio mais que certo. É isso a humildade, antídoto da soberba, do orgulho,  da vanglória, da vaidade, da gabarolice, da exaltação do próprio Ego (Eu). Nem sequer atribuiu a si própria a beleza do seu rosto, proclamando que fora Deus  a servir-se dele  em favor do seu povo. É esta a grande lição que nunca deverá ser esquecida por aqueles se entregam ao serviço de Deus, qualquer que  seja a missão apostólica em que se envolvam, grande ou pequena.  É sempre Deus que actua através  daqueles que Ele escolhe, por isso, não há motivos para alguém atribuir a si méritos que não tem ou julga ter. Judite agradece a Deus como tudo terminou, mas  dá a entender que a sua  maior façanha foi não ter pecado contra a castidade naquele perigo  a que esteve exposta desde a sua entrada no acampamento assírio.

3. Judite refere mais de uma vez a mentira de que  vai servir-se, ou de que está a servir-se, para poder penetrar no acampamento assírio. Como se explica isso?  Mentir é pecado contra o 8º Mandamento. Já era naquele tempo e continua a ser hoje. Será licito mentir para conseguir algo bom? Para mais, a mentira ou mentiras a que ela se refere foram conscientemente preparadas e faziam parte do seu plano, inspirado por Deus para ser realizado através dela.  Na verdade, parecem mentiras, mas não o são. O não dizer a verdade nem sempre é mentira. Neste caso, ninguém lhe perguntou nada a que ela tivesse de responder, com sinceridade, sim ou não. Algumas das suas respostas perante os assírios até são suficientemente ambíguas  e artísticas, de modo a não mentir. Um exemplo: Ela disse a Holofernes que abandonara a cidade de Betúlia, porque tinha como certo que Deus, por causa dos pecados  que o seu povo iria cometer,  quando chegasse a hora de morrerem à sede e à fome, não a protegeria, e ela não queria morrer, por isso se acolhia sob a protecção de Holofernes. A sua beleza ,  oração e confiança em Deus fizeram o resto.

4. A Igreja costuma  ver em Judite uma figura  que prenunciava  outra grande mulher,  a Virgem Maria, e compara Holofernes a Satanás, tornado inofensivo para aqueles que são seus devotos e A honram diariamente com o Terço bem rezado. A Bíblia diz Dela:” Ela te esmagará a cabeça e tu tentarás mordê-La no calcanhar” ( Gen 3, 14). Ora, uma cabeça esmagada (a de Satanás) ou separada do corpo (Holofernes) torna-se inofensiva. Daí, o paralelo entre Judite e Maria, por um lado, e Holofernes e Satanás, pelo outro.

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

. Judite e Holofernes – I

Judite e Holofernes – I

O cerco de Betúlia

Confira na Bíblia:  Judite , capítulos 7, 8, 9 ,10, 11, 12, 13

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(Realidade & ficção)

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  Personagens :

. Judite – viúva de Manassés

. Raquel – serva de Judite

. Uzias, Capri e Carmi –  chefes de Betúlia

. Holofernes – General do exército Assírio

.Bagoas   - Eunuco de Holofernes

.  Aquior – Habitante de Moab

. Sentinelas e oficiais do exército Assírio

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Por um mero capricho ou por causa de sua honra ofendida pelos Judeus, Nabucodonosor, rei  dos Assírios, com sua capital em  Nínive,  reunira um poderoso exército e, sob o comando do general Holofernes, montou  acampamento perto da cidade  israelita de Betúlia, com a expressa ordem de matar todos os seus habitantes e destruir tudo o que pudesse ser destruído, se a cidade não se entregasse e não reparasse a honra ofendida de Nabucodonosor.

Contrariamente ao que costumava Holofernes fazer em ataques às cidades, ele foi aconselhado  a usar outra estratégia:

Aquior –“ …Por isso, agora, senhor,  não combatas contra eles (Israelitas) como é costume nas batalhas, e nenhum dos homens do teu povo cairá. Permanece no teu campo e manda  que os teus servos controlem as nascentes de água na base da montanha, pois é dali  que todos os habitantes de Betúlia se abastecem de água. A sede há-de vencê-los e eles entregarão a cidade. …Então serão consumidos pela fome, eles, as suas mulheres e crianças e, antes que as espadas os atinjam, eles cairão nas ruas onde habitam. Nessa altura, pagar-lhe-ás com o mal, já que eles recusaram receber-te pacificamente” ( Jd 7, 11-15)

Holofernes – Quem és tu, Aquior, e quem sois vós, vendidos de Efraim, para profetizardes no meio de nós, como fizestes hoje, dizendo-nos para não combatermos os filhos de Israel, porque o seu Deus os defenderia? Quem é Deus, senão Nabucodonosor? Ele é que enviou o seu exército até aqui, para os fazer desaparecer da face da Terra e o seu Deus não os poderá salvar…Por isso, tu, Aquior, mercenário de Amon, que te atreveste a proferir estas palavras,… não voltarás a ver a minha face a partir deste dia, até ao dia em que eu possa exercer a minha vingança sobre essa raça evadida do Egipto. Vou entregar-te a eles e, quando chegar o o dia, serás trespassado pela espada e pela lança dos meus soldados, assim como todos os habitantes de Betúlia.

Ao verem montado o cerco à cidade, os Israelitas ficaram  primeiramente dominados pelo pânico e depois, à medida que o cerco se prolongava,  pelo desespero. Convocaram uma assembleia para discutir a situação, alvitrando uns que seria melhor entregar a cidade, evitando assim a morte de todos os seus habitantes. Foi  também sugerido :

”Levantou-se então um grande clamor no meio da assembleia e, todos ao mesmo tempo, invocaram o Senhor com voz forte. Uzias disse-lhes: “Coragem, irmãos! Vamos aguentar durante mais cinco dias, durante os quais o Senhor nosso Deus voltará para nós a sua misericórdia e não nos abandonará até ao fim. Mas, se no decurso destes dias a sua ajuda não vier até nós, farei como dizeis! Seguidamente, dispersou todo o povo pelos seus postos de combate e eles partiram em direcção às fortificações e às torres da cidade, mandando as mulheres e as crianças para as suas casas. Toda a cidade sentia uma consternação”(Jd 7, 29-32)

Surge em cena uma mulher. Entretanto:

“Por esses dias, todos estes acontecimentos chegaram aos ouvidos de Judite…Era muito bonita e de aspecto agradável…..Ninguém se atrevia a falar mal dela porque era muito temente a Deus. Ela ouviu falar dos maus propósitos do povo contra o seu chefe (Uzias), pois estavam desencorajados por causa da falta de água, e ouviu também falar de tudo o que Uzias lhes havia dito quando jurara entregar a cidade aos Assírios, ao fim de cinco dias. Enviando a sua criada que estava encarregada de administrar todos os seus bens, ela mandou convidar Cabri e Carmi, os anciãos da cidade” ( Jd 8, 1-10).

Cabri – Mandaste-nos chamar e estamos ansiosos por saber o que tens para nos dizer!

Carmi – Se é por causa da situação em que nos encontramos, receio não termos propostas a sugerir, uma vez que que já tudo foi discutido na assembleia.

Judite – “  Peço-vos que me escuteis, vós, os chefes dos habitantes de Betúlia, porque não é justa a palavra que dirigistes ao povo, no dia em que fizestes juramento entre Deus e vós e em que falastes em entregar a cidade aos nossos inimigos, se  dentro de cinco dias o Senhor não vos tivesse enviado socorro. Quem sois vós para, para tentardes o Senhor neste dia e vos colocardes no lugar de Deus no meio dos filhos dos homens. Agora, colocais o Senhor todo poderoso à prova, mas não sabereis nada até ao fim dos tempos, já que nunca descobristes a profundidade do coração do homem e não entendereis os raciocínios da sua inteligência. Como quereis, então, conhecer Deus, que criou tudo isto, saber o que vai na Sua mente e compreender o seu raciocínio?…Não tenteis violentar a vontade do Senhor nosso Deus, porque ele não é semelhante aos homens, para ser ameaçado, nem como um filho de homem, para se discutir com Ele. Por isso, enquanto esperamos pela sua libertação, invoquemo-lo para que nos ajude, e Ele ouvirá a nossa voz, se assim for do seu agrado” Jd 8, 11-15).

Uzias – Tudo o que disseste foi dito foi dito de coração sincero e não há ninguém que possa contradizer as tuas palavras. Não foi hoje a primeira vez que demonstraste a tua sabedoria; mas desde o início da tua vida, todo o povo a reconheceu, porque a disposição do teu coração é recta. Mas o povo estava a sofrer uma grande sede e obrigou-nos a fazer o que lhe havíamos prometido, impelindo-nos a fazer um juramento que já não podemos quebrar. Por isso, agora, reza por nós, tu que és uma mulher piedosa e o Senhor há-de enviar-nos  chuva para encher as nossas cisternas e não voltaremos a desfalecer” (Jd 8, 28-31).

Judite – “Ouvi-me! …Vós ireis colocar-vos esta noite às portas da cidade. Eu sairei com a minha serva e, dentro do prazo durante o qual vós prometestes entregar a cidade aos nossos inimigos, o Senhor, pela minha mão, libertará Israel. Vós, porém, não tenteis descobrir o meu plano, pois eu não vo-lo revelarei até que tenha terminado tudo o que vou fazer” (Jd 8,32-34).

Uzias – Vai em paz, e que o Senhor Deus vá à tua frente, para tirar vingança dos nossos inimigos!

Judite entregou-se à oração, invocando o auxílio divino para aquela situação aflitiva e pedindo a ajuda que em tempos passados Deus não recusara ao seu povo em situações semelhantes.

Judite – “O teu nome é Senhor! Destrói o seu (dos Assírios) vigor com a tua força e abate a sua força com a tua ira. Eles planearam espezinhar os teus lugares santos, profanar a tenda onde repousa o teu nome glorioso e destruir a haste do teu altar com a espada. Observa o seu orgulho, envia a tua cólera sobre as suas cabeças e dá-me a mim, uma viúva, a força para fazer o que planeei. Pela mentira dos meus lábios, abate ao mesmo tempo o escravo e o príncipe, com o seu servo; esmaga a sua arrogância pela mão de uma mulher…Tu és o Deus dos humildes, auxiliador dos oprimidos, sustentador dos fracos, protector dos abandonados, salvador dos desesperados….Faz com que a minha mentira fira e esmague aqueles que fizeram esses projectos contra a tua santa aliança e a tua morada santa, o cume de Sião e a morada dos teus filhos. Faz com que todas as nações e todas as tribos reconheçam que Tu és o Deus detentor de todo o poder e que mais nenhum outro guarda Israel, senão Tu!” (Jd 9, 8-14)

Quando acabou esta oração, Judite foi para a sua casa de campo, onde passava os dias de sábado e de festa. Chamando a serva:

Judite – Raquel!

Raquel – Sim, minha senhora!

Judite – Vou tirar todas estas  roupas de viúva e vou vestir-me tal e qual como me vestia nos tempos do meu marido (Manassés). Traz-me também aquele óleo espesso e perfumado, pois quero tomar banho e ungir-me com ele. Traz ainda as sandálias, as pulseiras , os colares, os anéis e os brincos e os outros adornos que descobrires!…

Raquel – Aqui está tudo, minha senhora! Mas eu não entendo nada do que quereis fazer!

Judite – Não entendes agora, mas entenderás a seu tempo. Agora, vou banhar-me e vestir-me! Entretanto, tu prepara um odre de vinho, uma ânfora de azeite, enche um saco com farinha de cevada, um bolo de frutos secos, pães e queijo. Embala tudo isto cuidadosamente.

Raquel – Sim, minha senhora!

Apresentando-se de novo:

Judite – Aqui estou! Que me dizes?

Raquel –Minha senhora!…Eu nem posso acreditar! Pareceis uma rainha, uma rainha do Egipto ou de Sabá! Que saudades eu tinha de vos ver assim, tal e qual como era antes da viuvez!

Judite – Hoje e por estes dias quero mesmo parecer e ser uma rainha. Quero seduzir os olhos dos homens com quem me vou encontrar ou daqueles que me irão ver!  Nós vamos sair! Já preparaste tudo o que eu te disse?

Raquel – Sim, minha senhora!

Judite – Então, chegou a hora! Vamos na direcção da porta da cidade!…

Em seguida, saíram ambas na direcção da porta da cidade de Betúlia, encontrando ali Uzias e os anciãos da cidade, Cabri e Carmi:

Uzias – Céus! O que vemos! Uma rainha com sua beleza, seus trajes reais, seu rosto jovem e perfumado”!

Carmi e Cabri –“Que o Deus de nossos pais te conceda a graça de levar a bom termo o teu plano, para glória dos filhos de Israel e para a exaltação de Jerusalém!

Judite – Seja louvado e adorado o nosso Deus, que põe  os seus olhos sobre o seu povo quando se encontra nos momentos de aflição! Dai ordens  para que me abram a porta da cidade e eu sairei para cumprir tudo aquilo que falastes comigo!

Judite e a sua serva caminharam pela montanha acima, desceram ao vale e avançaram até aos limites do acampamento de Holofernes, na esperança de serem interceptadas por uma sentinela  dos Assírios, junto à fonte das águas que abastecia a população de Betânia.

1ª Sentinela – Alto aí! Quem sois vós? Estais presas!  A que povo pertenceis, de onde vindes e para onde ides?

Judite –“ Eu sou uma filha dos hebreus eu a fugir deles, porque eles estão prestes a entregarem-se a vós para serem devorados. Por isso, eu venho apresentar-me diante de Holofernes, o comandante do vosso exército, para lhe contar toda a verdade e para lhe mostrar o caminho por pode ir e dominar toda a região das colinas, sem perder a vida de nenhum dos seus homens”(Jd 10, 11-13).

2ª Sentinela – (Admirando-a de alto a baixo) – “ Salvaste a tua vida, apressando-te a descer e a apresentar-te diante do nosso senhor; vem até à sua tenda! Alguns dos nossos conduzir-te- ão até te entregarem nas suas mãos. Quando chegares junto dele, não tenhas medo no teu coração, repete-lhe as palavras que nos disseste e ele tratar-te-á bem. “ Vamos apresentar-te primeiro ao nosso oficial…

 Oficial do exército – Olá! Eu nunca vi uma beleza assim! Já sei que tens um recado para o nosso comandante. Estão aqui cem soldados para te fazerem uma guarda de honra até à tenda do nosso comandante…

“Todo o acampamento entrou numa grande agitação, à medida que a notícia da sua chegada  ia passando de tenda em tenda. Vieram e juntaram-se à volta de Judite, enquanto ela esperava fora da tenda que dessem a Holofernes informações a seu respeito. Ficaram admirados com a sua beleza e admirados com os filhos de Israel por causa dela e diziam uns para os outros: Quem poderá menosprezar um povo como este, que tem no seu meio tais mulheres? Não podemos deixar que nenhum dos seus homens sobreviva, porque, se os deixássemos partir, seriam capazes de ludibriar o mundo inteiro!” ( Jd 10, 18-19). Todos os companheiros de Holofernes e os seus servos saíram e conduziram-na para a tenda. Holofernes estava reclinado sobre a sua cama, rodeada por um cortinado de dossel feito de púrpura, ouro, esmeraldas e pedras preciosas. Quando o informaram acerca de Judite, ele veio até à entrada da tenda, precedido de lâmpadas de prata. Quando Judite chegou à presença de Holofernes e dos seus servos, estes ficaram maravilhados com a beleza do seu rosto. Ela prostrou-se com o rosto por terra diante de Holofernes, e os seus servos ajudaram-na a levantar-se “ (Jd 10, 20-23).

Holofernes -  “Tem confiança, mulher, e não temas, porque eu nunca fiz mal algum a ninguém que tenha escolhido servir  a Nabucodonosor, o rei de toda a terra. Se o teu povo, que habita a região das colinas, não me tivesse desprezado, eu nunca teria levantado a minha lança contra ele. Mas eles é que fizeram isto contra si mesmos. Agora, diz-me, porque é que fugiste deles e vieste até nós? Tem confiança, pois esta noite tu viverás e também daqui em diante. Ninguém te fará mal! Pelo contrário, serás bem tratada, tal como acontece com os servidores do meu senhor, o rei Nabucodonosor” (Jd 11 1-4).

Judite – “Aceita as palavras desta tua serva e permite que a tua serva fale diante de ti e eu não direi nenhuma mentira ao meu senhor esta noite. Se tu seguires as palavras da tua serva, o Senhor cumprirá algo através de ti, e o meu senhor não conhecerá a derrota em nenhum dos seus planos. Pela vida de Nabucodonosor, o rei de toda a terra, e pelo seu poder, que te enviou para governar todo o ser vivo, graças a ti, não só os homens o servem, mas também os animais selvagens e as aves do céu viverão pelo teu vigor ao serviço de Nabucodonosor e de toda a sua casa. Nós ouvimos falar da tua sabedoria e habilidade e diz-se por todo o mundo que só tu és bom em todo o reino, poderoso pela sabedoria e admirável em estratégia militar”(Jd 11, 5-8).

Holofernes – Que sabedoria a tua, mulher! Dizes grandes verdades, não só do meu rei e senhor, mas também a meu respeito, o que muito me lisonjeia!

Judite – Pois é, meu senhor! Tenho a dizer-te mais coisas. Quando a fome apertar desesperadamente os habitantes de Betúlia, eles chegarão ao ponto de comerem aquilo que o nosso Deus lhes proíbe, caindo assim no pecado da desobediência às suas leis. A nossa história mostra que a ira do nosso Deus cai sobre Israel sempre que eles infringem os seus mandamentos.” As primícias do trigo, os dízimos do vinho e do azeite, que eles haviam guardado para os sacerdotes do nosso Deus,…eles acabarão por se servir deles para não morrerem à fome…No dia em que eles fizerem isto, nesse dia o seu Deus entregá-los-á em tuas mãos para serem todos massacrados por causa dos seus pecados. Por esta razão é que eu, tua serva, fugi de junto deles, ao saber como estão as coisas. Deus enviou-me a ti para, por teu intermédio, realizar grandes coisas que hão-de maravilhar o mundo e as pessoas que ouvirem falar delas. Porque a tua serva é piedosa e serve o Deus do céu dia e noite.

 .

O banquete – (Jd 12)

Holofernes – Tu, mulher, vais ser hoje minha hóspede de honra e vós aí levai-a onde está a minha baixela de prata. Quero que ela se sinta como uma rainha nos meus aposentos. Servi-lhe da minha própria comida e dai-lhe a beber do meu vinho!

Judite – Meu senhor, não comerei nada disso, para não cair em pecado, mas servir-me-ei das coisas que eu trouxe!

Holofernes – Quando terminarem as tuas provisões, onde poderemos encontrar outras iguais? Connosco não há mais ninguém do teu povo!

Judite – Assim como o meu senhor vive, a tua serva não esgotará as coisas que trouxe, antes que o Senhor realize pela minha mão tudo o que determinou fazer.

Judite convenceu Holofernes a deixá-la sair da tenda todas as noites, pela vigília da aurora, a fim de ir fazer oração longe do acampamento assírio. Nesse sentido, Holofernes deu instruções à sua guarda pessoal  para não se opor à sua saída durante quatro noites seguidas. Judite saía, lavava-se na fonte, orava e regressava sem problemas.

.

No quarto dia:

Holofernes -  Bagoas, hoje vamos dar um banquete só para os meus servos, com exclusão de  todos os outros funcionários. “Vai e tenta convencer essa mulher hebraica que está em tua casa, para vir até junto de nós para comer connosco. Para nós seria uma vergonha deixar de lado uma mulher como ela, sem ter tido relações com ela. Se não a atrairmos, ela rir-se-á de nós” ( Jd 12, 10-12).

Bagoas – Minha senhora, “ que esta bela serva não hesite em vir até junto do meu senhor, para ser honrada diante dele, para beber connosco o vinho na alegria e para se tornar hoje como uma das filhas dos Assírios que estão em casa de Nabucodonosor!”

Judite –“ Quem sou eu para contradizer o meu senhor? Farei imediatamente tudo o que lhe for agradável e isso será para mim uma alegria até ao dia da minha morte. Vou já tratar de me preparar. Raquel, onde estás?

Raquel – Aqui, minha senhora!

Judite – Traz-me as roupas e todos os adornos de mulher. Vamos ter com o comandante assírio, pois ele convidou-me para o banquete que vai  dar aos seus servos. Tu caminharás à frente e estenderás  no chão, à sua frente, os tapetes que Bagoas te deu para eu poder comer  reclinada sobre eles.

“Então,  Judite entrou, reclinou-se, e o coração de Holofernes ficou maravilhado com ela e a sua alma agitada. Foi tomado de um forte desejo de se unir a ela, uma vez que, desde o dia em que a vira, ele esperava o momento favorável para a seduzir. Disse-lhe Holofernes:

Holofernes – Bebe, por favor, e alegra-te connosco!

Judite – Beberei, senhor, já que hoje a minha vida tem mais valor do que jamais teve desde o dia em que nasci!

“Então, pegando no que a sua serva lhe havia preparado, comeu e bebeu diante dele. Holofernes ficou muito feliz com ela e bebeu muito vinho, muito mais do que alguma vez bebera em qualquer outro dia, desde que nascera”( Jd 12, 19-20).

.

A cabeça de Holofernes:

“Quando se fez tarde, os seus servos apressaram-se a partir. Bagoas fechou as cortinas da tenda pela parte de fora, afastou todos os que estavam diante do seu senhor e eles foram-se deitar. Com efeito, estavam todos muito cansados, porque tinham bebido demasiado. Judite ficou sozinha na tenda de Holofernes, estendido sobre a sua cama, vencido pelo vinho. Judite disse à sua serva que ficasse fora do quarto e que observasse o caminho de saída, como habitualmente, já que ela haveria de sair para rezar. Isto mesmo disse ela a Bagoas. Saíram todos da sua presença e, desde o mais pequeno até ao maior, não ficou ninguém no quarto. Judite, de pé, ao lado da sua cama, disse no seu coração:

Judite  –  Senhor, Deus de todo o poder, olha nesta hora para a obra das minhas mãos e para a glorificação de Jerusalém. Este é o momento de cuidares da tua herança e da realização do meu plano para esmagar os inimigos que se levantaram contra nós. Então, avançando para a cabeceira da cama, junto à qual estava a cabeça de Holofernes, pegou na sua espada que estava ali pendurada, aproximou-se do leito, agarrou-o pelos cabelos e disse:

Judite – Dá-me força neste dia, ó Senhor, Deus de Israel

“De seguida, golpeou-o no pescoço duas vezes com toda a sua força e cortou-lhe a cabeça; fez rebolar o corpo na cama, retirou o cortinado de dossel das colunas e, passados alguns momentos, saiu e entregou a cabeça de Holofernes à sua serva, que a colocou no seu saco de mantimentos. De seguida, saíram ambas, como era costume, para fazer oração. Atravessaram o campo, deram volta à colina, subiram a montanha de Betúlia e chegaram às portas da cidade. Judite disse de longe aos que guardavam as portas:

Judite –  Abri, abri a porta! Deus, o nosso Deus, está connosco para manifestar  o seu poder em Israel e a sua força contra os inimigos, tal como fez hoje” (Jd 13, 8-11).

 .

(Continua)

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 Ezequiel Miguel

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A rainha Ester – II

David e Golias

Também vós quereis ir embora? (Cf. Jo 6 )

(Realidade & ficção)

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Personagens:

. Jesus Cristo

. Apóstolos : Pedro, Tiago, João, Tomé, Mateus, Judas Iscariotes

. Judeus

. Discípulos

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A cena passa-se no Templo de Jerusalém, onde Jesus aparecia de vez em quando para divulgar mensagens importantes e onde nunca faltava um numeroso auditório, pois o Templo era ponto de encontro de multidões.

O que Cristo tinha para dizer desta vez era (e ainda é) algo humanamente inconcebível, a requerer uma aparente loucura de Quem discursava e outra por parte de quem ouvia. Tratava-se do discurso que está relatado em João 6, que aconselho a ler, antes de prosseguir.

Cristo - ….E é assim, como vos digo. Os vossos pais comeram o maná  do deserto, que o Pai lhes enviou, mas esse era um alimento para o corpo, que não evitou que eles morressem. Mas vai chegar o tempo em que o Pai vos dará a comer um alimento que vos dará a Vida Eterna. Esse alimento será a Minha Carne, que acompanhareis com uma bebida, igualmente de Vida Eterna, que será o Meu Sangue. A Minha Carne e o Meu Sangue é que serão o verdadeiro Pão do Céu e quem Me  comer não morrerá, porque Eu sou verdadeira Comida e verdadeira Bebida…

1º Judeu – Eh! Mas o que é que estás para aí a dizer? Será que  bebeste demais?

2º Judeu – Eu penso que há mais alguma coisa além de  estares bêbado! Eu nunca ouvi um bêbado dizer disparates destes. Não estarás  louco?

Cristo – Em certo sentido sou  mesmo louco, tal como o Meu Pai é igualmente louco. Ele e Eu somos loucos de  Amor pelos homens e por eles nós fazemos o possível e o impossível! O Meu Pai e vosso Pai do Céu criou as almas dos homens no momento da concepção dos seus corpos. Estes morrerão, mas as vossas almas nunca morrerão, nem neste mundo nem no outro, quer se salvem, quer se condenem.  Vós alimentais os vossos corpos com o  alimento material que o Pai vos dá, mas Ele também vos quer dar um alimento para as vossas almas, um alimento de Vida eterna junto do Pai, porque Ele, que as criou, quere-as de volta para Si, na eterna felicidade.

3º Judeu –  Queres tu dizer, então, que quem não comer desse alimento para a alma não se salvará? Não há aí um grosseiro exagero? E onde é que haverá desse alimento que chegue para todos os homens comerem, isto é, para aqueles que querem salvar-se?

Cristo – O  nosso Pai ofereceu o maná no deserto durante 40 anos para alimento do corpo, mas o Maná do Céu será inesgotável e à disposição de todos os homens até ao fim dos séculos. Quem comer deste Maná celeste, que Eu vos darei, nunca mais terá fome nem sede.

4º Judeu – Estás a brincar connosco ou fazes de nós todos uns estúpidos que vão acreditar em todas essas balelas? Desde que o mundo é mundo, nunca ninguém falou assim, nem sequer um louco dos mais loucos!

5º Judeu – Mas afinal quem és tu? És um mago, um prestidigitador, um malabarista de ideias, um aliado de Satanás que te ensina truques para ficares famoso? És algum profeta?

Cristo – Se Eu expulso dos vossos possessos todos os demónios, como posso ser Eu um aliado de Satanás? Aliás, tem Satanás interesse em ser expulso? Satanás e Eu estamos sempre em lados opostos; Eu, do lado do Bem dos corpos e das almas, ele, do lado do Mal e contra as almas e os corpos. Quem sou Eu? Sou o Messias que vós esperais há tantos séculos, anunciado pelos profetas. Eu Estou acima dos profetas. Nenhum profeta fez por si só as obras que Eu faço e as obras que eu faço são as obras do Meu e vosso Pai que está nos Céus.

1º Judeu – Já agora, diz-nos quais são essas obras! Nós nunca as vimos!

Cristo – Não chegou aos vossos ouvidos o rumor de ressurreição de mortos, de curas de cegos, coxos, surdos, mudos, paralíticos, expulsão de demónios? Estas são as minhas obras, mas falta ainda a principal, que ainda não foi feita, mas que o será dentro de pouco tempo.

2º Judeu – Quando chegar essa hora, avisa-nos! Queremos ver!

Cristo – Não ireis ver, mas tereis de acreditar, pois chegou o tempo em que a vossa Fé na Lei de Moisés vai ser substituída pela Fé em Mim e no Pai, que Me enviou a vós. A vossa Aliança com Yahweh vai dar lugar a outra, a Nova Aliança, com uma Nova e Única Vítima, um Novo e Único Cordeiro a ser imolado numa nova Páscoa, numa nova passagem para uma Nova Terra Prometida e para um Novo Povo de Israel. Quem acreditar em Mim verá tudo isso e muito mais. Quem não acreditar será excluído da Vida Eterna e Eu não o ressuscitarei no último Dia.

1º Discípulo – Nós, aqui, que te aceitámos como o nosso Messias, nunca pensámos ouvir da tua boca palavras dessas sobre comer a tua carne e beber o teu sangue …e essas coisas todas que já disseste. Isso é linguagem que nós não entendemos. Queres fazer de nós canibais e vampiros? Como é que te vamos comer e beber?  Cru, assado, frito, cozido, ensosso, salgado , com ou sem osso, ou como?  Não estarás porventura a delirar? E quanto ao teu sangue, nós preferimos um bom vinho! ( Risada geral)

Cristo – Não estou a delirar! Vai ser mesmo como Eu digo, mas num plano invisível para vós. Os vossos olhos não estão preparados para penetrar nos mistérios de Deus. Só Ele, Eu , que sou o Seu Filho, e o Espírito Santo sabemos como vai ser. A vós competirá acreditar e fazer como Eu digo, se quereis alcançar a Vida Eterna.

2º Discípulo –  Dizes tu que és o Filho der Deus, o Messias? Cá para mim , és tanto o Messias como eu sou o Moisés. Estamos fartos de messias que aparecem por aí todos os anos, cada um a dizer os seus disparates, a enganar o povo e a tirar proveito da sua ingenuidade. Não serás tu mais um?

Cristo – Nunca houve outro antes de Mim nem haverá depois de Mim.

3º Discípulo – Mas como queres tu fazer discípulos se pregas doutrinas dessas, insuportáveis, intragáveis, misteriosas, incompreensíveis, não próprias para ouvidos humanos?

Cristo – Moisés também exigiu de vós coisas difíceis, que ainda hoje tendes em vigor. A prova de que eram difíceis e insuportáveis foi que vós as modificastes e inventastes outras para as substituir, criando tradições abusivas que nada têm a ver com a essência da Lei que Eu e o Pai vos demos através de Moisés.

1º Judeu – A sério? Foste tu? Mas tu não és filho de um carpinteiro de Nazaré? Até és conhecido por Nazareno!  Cada vez nos deixas mais baralhados. Onde é que tu estavas quando Moisés deu a Lei a nossos pais?

Cristo – Eu estava junto do Meu e vosso Pai. Onde Eu estou está o Pai e onde o Pai está, estou Eu. Eu e o Pai somos Um.

2º Judeu – (para outro Judeu) Este homem dá connosco em doidos. Não estará ele a divertir-se à nossa custa?

3º Judeu – Ou está ele, ou estamos nós, ou estamos nós e ele! Alguma destas tem de ser verdadeira. Qual? É isso que eu ainda não descobri! Mas repara que não somos capazes de o apanhar em falso nem a gaguejar o que quer dizer. Dali, sai tudo como um jacto de água contínuo, sem hesitações. Para mim, isto é tudo muito estranho.

4º Judeu – Parece-me que também é estranho para os que andam com ele. Eu vi alguns fazer caretas quando ele falou dessa coisa de lhe comermos a carne e lhe bebermos o sangue. Ele deve estar a falar de algo misterioso que nós ainda não atingimos. Repara bem! Os mortos que ele ressuscitou e os doentes que curou, dizendo só: “Eu quero! Faça-se!”… Isto tem que se lhe diga. Somente Yahweh pode falar assim e ele diz que ele e Yahweh são um! Há aqui mistério. Tenho de apanhar um daqueles que andam com ele por todo o lado e tirar isto a limpo. Algo de grande deve estar para acontecer. O quê? Não sei, mas os do Templo já andam a espiá-lo por todo o lado e isto quer dizer alguma coisa!

4º Discípulo – Estás a blasfemar contra a nossa santa Lei!

Cristo – A vossa santa lei vai ser modificada, aperfeiçoada e entregue a um povo que se mostrará orgulhoso do seu Deus. Aquilo que vós recusais será aceite pelos pagãos, a começar por aqueles  que vos rodeiam, os quais vão entrar no Reino de Deus, enquanto vós ficareis  de fora.

5º Discípulo – E isso, só porque não queremos comer a tua carne nem beber o teu sangue? Vamos dar-te o benefício da dúvida. Põe lá em miúdos essa linguagem de te comer e beber! Estás a falar em sentido figurado, simbólico, com palavras que querem dizer outra coisa que nós desconhecemos ou estás a fazer um teste à nossa capacidade de compreender e aceitar coisas e realidades ocultas? Podes explicar-te melhor? Nós não temos grandes estudos nem somos mestres em Israel!

Cristo – As Minhas Palavras não têm nada de simbólico. São as palavras certas para exprimir o que vos transmito. Elas vão realizar aquilo que significam. Elas significam o que significam: comer é mesmo comer, beber é mesmo beber, carne é mesmo carne e sangue é mesmo sangue, sem nada de simbólico, metafórico, figurado. Elas exprimem a realidade nua e crua! Quem tem ouvidos para ouvir e capacidade para acreditar em Mim, ouça, acredite e viva. Daquilo que vos disse, nem uma vírgula ou um til será tirado. E ai daqueles que tirarem!

6º Discípulo – Isto são palavras intragáveis, disparates redondos, loucuras perfeitas nunca vistas nem ouvidas! Vamos embora! Deixai-o sozinho com os loucos que acreditarem na sua loucura. Vigiem-no para não beber tanto vinho! Eu sou discípulo Dele, mas nunca pensei que tudo iria dar nisto: um embuste, um fiasco, uma farsa, uma salada de coisas improváveis e coisas impossíveis. Vamos embora!

Segue-se uma confusão de gritos, insultos, numa algazarra própria de uma orquestra totalmente desafinada, tudo seguido de uma debandada quase geral. Cristo assiste silencioso à deserção de muitos discípulos e duas  lágrimas furtivas  deslizam pelas Suas  Faces. O Seu semblante pinta-se de  uma indizível e profunda tristeza. Eram lágrimas semelhantes àquelas já outras vezes derramadas por causa de Judas Iscariotes, lágrimas impotentes  de Deus omnipotente. No fim, restou um pequeno número, além dos Apóstolos. Cristo, disfarçando a Sua tristeza, quebrou, com voz mortiça, o silêncio:

Cristo – E vós? Também quereis ir embora?

Pedro – A quem iremos nós, Senhor, se só Tu tens palavras de Vida Eterna?

Cristo – Há alguém aqui ainda hesitante? Eu espero até que se decida!…Ficais todos?  Então, segui-Me! Vamos para outro lado!

Chegados  ao Jardim das Oliveiras, Cristo pôs-se à disposição daqueles que O acompanhavam, para esclarecer qualquer dúvida, como sempre fazia após qualquer ensinamento.

João – Mestre, nós vimos que Tu choravas enquanto eles desertavam. Nós temos muita pena de Ti e as Tuas lágrimas fazem também rolar as nossas. Nós ficámos Contigo e ninguém nem nada nos afastará de Ti e acreditamos nas Tuas Palavras de Vida Eterna, embora ainda não sejamos capazes de compreender certas coisas…

Cristo – Eu choro pelas almas que Me rejeitam agora e por aquelas que Me rejeitarão no futuro. A perda de uma alma é para o vosso Deus uma tragédia, um insulto ao Seu Infinito Amor pelos Homens. Choro por aqueles que não aproveitarão nada da Minha vinda à Terra. O vosso Deus enviou o Seu Filho à Terra, que vai fazer por eles algo inconcebível com vista à Vida Eterna, à Salvação,  e vai dar-se Ele mesmo em alimento às almas. Muitos Me irão rejeitar, fazendo do seu Deus um impostor, um mentiroso, um vendedor da banha da cobra, um fabricante de utopias! Choro por estes e por todos os das gerações futuras que se portarem como eles. Ao recusarem o seu Deus, recusam também a Vida Eterna junto Dele. Para eles, as Minhas lágrimas, o meu sofrimento, o meu sangue…de nada lhes servirão. Da Minha doutrina escolherão para si aquilo que não precisar de fé, abrindo uma via larga que não os conduzirá a Deus, porque o caminho que Eu vos abro é estreito, pedregoso, difícil,  e  somente Comigo sereis capazes de o percorrer.

Tiago -  Mestre, nós acreditamos nas tuas palavras, mas…

Cristo – Eu sei! É isso a Fé: acreditar sem ver as realidades para lá do mundo material, acreditar na Palavra de Deus, que se cumprirá a seu tempo. Já falta pouco para presenciar e viver o cumprimento das palavras que ouvistes há pouco e que causou a deserção de alguns dos que andavam connosco. Ultrapassa tudo o que possais imaginar. Ó amor infinito de Deus pelos homens!…A quanto obrigas!…

Pedro – Mestre, apesar do que dizes, parece-me que Te referiste a muitos, ao longo dos séculos, que não vão acreditar, por não acharem possível uma coisa dessas! Que lhes acontecerá, uma vez que não levarão a sério as Tuas Palavras?

Cristo – Vós vivereis e dareis testemunho daquilo que acabei de revelar-vos e que se vai cumprir em breve. Aqueles que, tomando conhecimento delas,  as levarem a sério e comerem o Meu Corpo e beberem o Meu Sangue com a alma revestida de veste branca,…para esses é que Eu serei penhor de Vida Eterna. Aqueles que as ignorarem sem culpa própria,…para esses haverá tolerância. Aqueles que as rejeitarem, as  negarem, as deturparem,  as torcerem, as modificarem, as esvaziarem, as interpretarem a seu gosto e não quiserem distingui-las das palavras dos homens , … Esses…

Mateus – E esses serão muitos?

Cristo – Serão mesmo muitos e cada vez mais numerosos, à medida que os séculos avançarem. Lembrai-vos da profecia de Daniel (Dn 13, 10-13) sobre a abominação da desolação no Templo do Senhor (a Igreja) e a abolição do Sacrifício Perpétuo, (a Missa ), anulado e substituído, no fim dos Tempos, por uma abominável imitação, sem nenhum valor.

Tomé – E nós, Mestre, vamos  todos receber-te com a veste branca e alcançar a Vida Eterna?

Cristo – Não todos! Entre vós há um cuja alma se veste de negro!

Todos – Serei eu,…eu…eu…?

Judas Iscariotes – Serei eu, porventura?

Cristo – Judas, tu sabes muito bem quem é!…

 .

Ezequiel Miguel

 .

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – I

13  de Maio de 1917

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Escolhemos nesse dia, para pastagem do nosso rebanho, a propriedade pertencente a meus pais, chamada Cova da Iria. Determinámos, como de costume, qual a pastagem do dia, junto do Barreiro…e tivemos, por isso, que atravessar a charneca, o que nos tornou o caminho dobradamente longe. Tivemos, por isso, que ir devagar, para que as ovelhinhas fossem pastando pelo caminho e chegámos cerca do meio dia”.

Da 4ª Memória da Ir. Lúcia:

“ Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria, a fazer uma paredita  em volta de uma moita, vimos, de repente, como que um relâmpago.

Lúcia -É melhor irmos embora para casa… que estão a fazer relâmpagos;  pode vir uma trovoada.

Francisco e Jacinta – Pois sim.

E começámos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos. Então Nossa Senhora disse-nos:

Virgem Maria (V.M.)- Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

Lúcia - De onde é Vossemecê?

V. M. – Sou do Céu.

Lúcia – E que é que Vossemecê me quer?

V.M . – Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.

Lúcia – Eu também vou para o Céu?

V.M. – Sim, vais.

Lúcia – E a Jacinta?

V.M. – Também.

Lúcia - E o Francisco?

V.M. – Também, mas tem que rezar muitos terços.

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com a minha irmã mais velha.

Lúcia – A Ana das Neves já está no Céu?

V.M. – Sim, está.

Parece-me que devia ter uns 16 anos.

Lúcia - E a Amélia?

V.M. – Estará no purgatório até ao fim do mundo.

Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos.

V.M. – Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

Todos – Sim, queremos!

V.M. – Ides, pois, ter muito quer sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.) que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como um reflexo que delas expedia,  penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:-“Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento”.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

V.M. – Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida começou-se a elevar serenamente, subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivos por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu “.

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Quando nessa mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos pensativos, a Jacinta, de vez em quando, exclamava com entusiasmo:

Jacinta -  Ai que Senhora tão bonita!

Lúcia –  Estou mesmo a ver… ainda vais dizer a alguém!

Jacinta -  Não digo, não! … Está descansada!

No dia seguinte, quando seu Irmão correu a dar-me a notícia de que ela o tinha dito, à noite, em casa, a Jacinta escutou a acusação sem dizer nada.

Lúcia – Vês? Eu bem me parecia! …

Jacinta- Eu tinha cá dentro uma coisa que não me deixava estar calada! ….

Lúcia – Agora não chores! E não digas mais nada a ninguém do que essa Senhora nos disse!

Jacinta – Eu já disse!

Lúcia - O que disseste?

Jacinta – Disse que essa Senhora prometeu levar-nos para o Céu!

Lúcia - E logo foste dizer isso!

Jacinta – Perdoa-me,  eu não digo mais nada a ninguém! “

 .

Leitura aconselhada:  Memórias da Ir. Lúcia, Vice-postulação , Fatima

 .

Ezequiel Miguel

No caminho de Emaús (Lc 24, 13-35)

(Realidade & Ficção)

 .

“Ferirei o Pastor e as Ovelhas dispersar-se-ão” (Zc  13, 7)

Assim aconteceu. O Pastor foi preso, julgado, condenado, executado,…e as Ovelhas dispersaram, com medo dos Lobos, tendo-se mantido escondidas, em angústia, frustração, ansiedade, incerteza, perplexidade,… quanto ao presente e ao futuro,… até  pensarem que já teriam alguma segurança.

Mas essa segurança apenas foi sentida quando tiveram a certeza da Ressurreição do Pastor, que lhes indicou  onde o Rebanho se deveria reunir:” Espero-vos na Galileia” ( Mt 28,10).

Os apóstolos, que se mantiveram escondidos em cavernas escavadas no monte do Calvário e arredores, reuniram-se, os que puderam, no Cenáculo, onde estavam também as santas mulheres de que falam os evangelhos, incluindo a Mãe de Jesus, mas  Tomé e alguns discípulos andavam por ali perdidos e desorientados. Alguns saíram de Jerusalém, pois já se falava na vingança de Caifás sobre todos aqueles que tivessem alguma coisa a ver com  o Mestre e a Sua doutrina. Todos eles eram encarados como traidores e a hora de Caifás poderia não demorar muito a chegar. A caminho de Emaús, aldeia não longe de Jerusalém, vão dois dos Seus discípulos ainda recentes e ainda longe de compreender o alcance de tudo o que acontecera.

Cléofas -  Eu estou desanimado! Tinha posto tanta confiança no Mestre e Ele, não sei por que carga de água, não fez nada para evitar esta tragédia. Agora, sabe-se lá o que nos acontecerá, porque eu não acredito que o Caifás considere o assunto arrumado. Se foi capaz de levar o Messias à morte, o que ele não fará dos seus discípulos! Onde é que nos poremos a salvo da tropa do Caifás e do Herodes?

Lucas -  É por isso que fazemos bem em fugir de Jerusalém! Lá, em Emaús, poderemos estar mais seguros, mais esquecidos, mais ignorados, mais distantes daquela toca de víboras. Aos que ficarem em Jerusalém é que eu não sei o que lhes acontecerá! Penso no Nicodemos e no José de Arimateia, ambos Anciãos! O Caifás já os deve ter marcado com o selo da perseguição, pois o que eles fizeram a favor do Mestre, defendendo-O até no Sinédrio, não vai ser esquecido tão depressa.

Cléofas – Penso que ele vai começar pelo José de Arimateia. É preciso coragem e amor ao Mestre para fazer o que ele fez: pedir o corpo do Mestre a Pilatos, descê-lo da Cruz, proporcionar-lhe um funeral digno e oferecer o seu próprio túmulo, ainda por inaugurar, para depositar o Mestre. Tudo isso, sem se preocupar com as despesas, o receio de ser perseguido, humilhado, maltratado, difamado, caluniado, preso, morto. É um verdadeiro mártir ainda vivo! Ele mandou todas as possíveis consequências para trás das costas. Quem dera que um dia eu tivesse a coragem dele!

Lucas – E o Nicodemos? Ele fora uma vez procurar Jesus de noite(…), para não ser visto pelos seus colegas do Sinédrio. Mas, uma vez que se decidiu a seguir o Mestre, assumiu, com frontalidade e coragem, tornar-se Seu discípulo!  É verdade que nós também o somos, mas ainda estamos no começo do que nos espera! Mas o Mestre dar-nos-á coragem para o que for preciso, se ele ressuscitar, como prometeu.

Cléofas – Nós temos muito a aprender com eles, sobretudo o não ter medo de seguir o Mestre e não pensar nas possíveis consequências que daí nos possam vir. Eu lembro-me de algumas coisas que Ele disse e que vai ser necessário começar a pôr em prática.

Lucas – Por exemplo?

Cléofas – Por exemplo:” Aquele que der a vida por Mim, salvá-la-há” ; “Todo aquele que põe a mão ao arado e olha para trás, não é digno de mim”;  Se alguém quer seguir-me, tome a sua cruz e siga-me…

Lucas – Eu também me lembro de algumas, por exemplo: Felizes os que sofrem perseguição por amor da Verdade, porque deles é o reino dos Céus;  Se me perseguem a Mim, que sou o vosso Mestre, a vós, que sois meus discípulos, também vos perseguirão, porque o discípulo não é mais do que o Mestre;  Felizes sereis quando, dizendo toda a espécie de mentiras, vos acusarem, difamarem, caluniarem e vos matarem. Ficareis inscritos no Reino dos Céus…

Cléofas – Lembro-me de mais algumas : Felizes os puros de coração, porque verão a Deus; Felizes os que têm fome e sede de santidade, porque serão saciados; Felizes os  mansos, os pacíficos, os misericordiosos,  os arrependidos, os pobres em espírito,…porque…

Lucas- Porque ganharão o paraíso!

Cléofas – Isto é que está aqui um programa! Quem o poderá cumprir sem a Sua ajuda?

Lucas – Ninguém! Ainda por cima, depois de fazermos isto, ainda nos chamarão parvos, doidos, idiotas, atrasados mentais, ignorantes, ingénuos, antiquados, botas de elástico,…porque não somos como a maioria! É isto que nos espera! Mas, no fim, Ele cumprirá o que promete: o Paraíso!

Cléofas – Tudo certo! Mas eu pergunto: Seria mesmo necessário deixar-se matar para mudar isto tudo? Ele não podia paralisar, ao menos, os Seus inimigos, como fez lá em Nazaré quando queriam deitá-lo do monte abaixo?

Lucas – E quando o iam prender, Ele não fez cair todos aqueles bandalhos somente por dizer. “Sou eu”? Ele não se serviu do Seu poder, porque Ele dizia que tinha de cumprir as Escrituras. O que eu sei é que Ele, a dado passo, falava disso. Mas há assim tanta coisa nas Escrituras sobre a vida e a morte do Messias de Israel? Eu sempre pensei que Ele vinha para expulsar os Romanos e livrar-nos também do Herodes, que, ao que dizem, mandou matar a mãe e os próprios filhos! Se há tanto mal no mundo, Ele podia tornar-se Rei e endireitar tudo isto! Não era um Rei assim de que se falava nas sinagogas?

Viajante – A paz esteja convosco,  meus amigos! Então, posso saber de que falais assim tão preocupados? Os vossos discursos parecem ser de preocupação e os vossos rostos parecem revelar alguma tristeza!

Lucas – Temos motivos para isso. Serás tu o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias?

Viajante – O quê?

Lucas – O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo. Como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos que afirmavam que Ele vivia. Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito, mas a Ele não O viram.

Viajante – Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas disseram! Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na Sua Glória? As Escrituras falam do Messias desde os tempos de Moisés, passando pelos profetas e pelos salmos. Acaso não conheceis nada do que as Escrituras dizem a Seu respeito? Não dizem elas que o Messias tinha de padecer, ser perseguido, condenado e morto para redimir toda a humanidade pecadora?

Lucas – Mas era mesmo preciso deixar-se matar quando ele tinha o poder  sobre as coisas e as pessoas? Falando de Jesus de Nazaré! Nós éramos amigos e discípulos Dele, mas agora não sabemos o que fazer. É certo que Ele disse que ressuscitaria, mas uma coisa é dizer e outra é fazer! Se nós O víssemos ressuscitado!…

Viajante – O que faríeis?

Cléofas – Iríamos a correr até Jerusalém para darmos a notícia aos discípulos e à Mãe Dele, que ficou inconsolável!

Viajante – Mas Ele não vos explicou as Escrituras sobre o que aconteceria ao Messias? Os vossos mestres, sacerdotes, anciãos, fariseus, saduceus, doutores da Lei, não vos explicaram tudo sobre o Messias de Israel esperado durante tantos séculos. Até diz algures que Ele será chamado Nazareno e que nasceria em Belém! Sabeis onde é que Ele nasceu?

Lucas e Cléofas – Em Belém de Judá!

Viajante – E porque foi chamado Nazareno?

Lucas e Cléofas – Porque foi  criado em Nazaré!

Viajante – As Escrituras não dizem também: “Do Egipto chamei o Meu Filho?”.  Acaso sabeis porquê? Se Deus o chamou do Egipto, é porque Ele estava lá! O que sabeis sobre isto?

Lucas – Ele realmente esteve no Egipto, foi o que nos contaram aqueles que conviveram mais de perto com Ele?

Cléofas – Como é que tu sabes tantas coisas sobre o Messias? Também és discípulo Dele?

Viajante – Eu sei tudo sobre Ele, porque eu sou Mestre em Israel e conheço todas as passagens das Escrituras que se referem ao Messias. Todas, até ao mais pequeno pormenor!

Lucas – Então, nós somos doutores ao contrário! Não sabemos quase nada ou mesmo nada! Estávamos à espera que aquele grupo que andava com Ele nos esclarecesse e nos desse notícias, mas eles desapareceram todos! Até parece que a terra os comeu!

Viajante – Mas isso também está nas Escrituras!

Lucas e Cléofas – A sério?

Viajante – Diz o profeta Zacarias:  Ferirei o pastor e as ovelhas ficarão dispersas

Lucas – Nunca ouvi dizer isso!

Viajante – E não vos constou que Ele disse lá no Templo: ”Deitai abaixo este templo e eu o erguerei em três dias!”?

Cléofas – Mas quem poderá erguer um templo daqueles em três dias?

Viajante – Meus amigos, o Templo era o seu próprio Corpo, Templo de Deus, porque Deus mora Nele. Ora, uma vez que esse Templo do Seu Corpo foi destruído, derrubado, só faltaria cumprir a promessa de o erguer em três dias. Pergunto-vos: Já passaram os três dias depois da sua morte?

Lucas – Já! É hoje o terceiro dia!

Viajante – Então, se Ele veio para cumprir as Escrituras, Ele já ressuscitou!

Lucas e Cléofas – O quê? O que dizes?

Viajante – Sim, Ele já deve ter aparecido a alguém e a primeira pessoa a vê-lo  seria a sua Mãe!

Cléofas – Mas isso deixa-nos em polvorosa, se for verdade!

Viajante – Ó cabeças duras e lentos de compreensão! Então Ele não tinha já dito e mostrado que vinha para cumprir tudo o que as Escrituras diziam a seu respeito? Porque duvidais? Alguma vez o apanhastes a fazer ou a dizer coisas sem nexo? Ele não vos recitava as Escrituras de cor, sem as ler, sabendo até em que livro estavam escritas, as  profecias, em que salmo, em que profeta? Ele não curou imensa gente, não ressuscitou mortos, sendo Lázaro o último deles, ele não imperou sobre os ventos e as ondas, não multiplicou os pães, não avisou com antecedência que ia ser morto e que ressuscitaria? Porque duvidais, mesmo assim? Acreditais ou não que os profetas não escreveram nada inventado por eles? Eles apenas transmitiram o que Deus lhes inspirava, por isso, eles apenas escreveram a Palavra de Iahweh e Iahweh é fiel ao que promete! Já vedes que o Messias tinha de cumprir rigorosamente tudo o que fora escrito a Seu respeito, sem falhar uma vírgula!

Lucas – Mas, afinal, Ele veio ou não para ser o Rei de Israel?

Viajante – Ele veio para ser o Rei espiritual de Israel, por isso nunca ouvistes falar de um palácio, de soldados, de um trono para Ele. Ele tem à sua disposição legiões e legiões de anjos, mas não se serviu deles para fundar um reino temporal e destronar qualquer dos reis que vós conheceis. O Seu Reino é o Reino de Deus, de que Ele falou muitas vezes! É esse Reino que Ele quer ver espalhado por todo o mundo. É através dos seus discípulos, entre os quais vós, que o Seu Reino se vai implantar no mundo! Vós e muitos outros é que farão parte do seu exército. Felizes de vós que já fostes escolhidos para isso!

Lucas – O que dizes está a mexer cá comigo e sinto não sei o quê quando falas com toda essa sabedoria! Tu és um doutor diferente. Os outros não falam assim. Não serás tu um profeta? Tudo em ti indica que sabes demais!

Viajante – Sim eu também sou um profeta!…

Cléofas – Mas, diz-me uma coisa! Eu sei que Ele disse que tinha vindo ao mundo por causa dos pecados dos homens e o João Baptista disse que Ele era o Cordeiro de Deus que tirava os pecados do mundo. Explica-nos isso! Se Ele tira os pecados, quer dizer que os pecados desaparecem e que passaremos todos a ser santos?

Viajante – Como sabeis das Escrituras, os nossos primeiros pais pecaram e o seu pecado transmitiu-se e sempre se transmitirá a todos os seus descendentes. Todos nascerão com esse pecado, excepto Ele, que é Homem-Deus.  Ora, Deus-Pai um dia perguntou: “Quem enviarei eu à Terra para pagar pela ofensa de Adão e Eva? É que, se Eu não encontrar ninguém para esse serviço, o paraíso ficará eternamente fechado. Preciso de alguém que pague o resgate por esse pecado e por todos os pecados que se fizeram, fazem e farão. Tem que ser alguém que seja Homem sem deixar de ser Deus, porque só Deus pode pagar um preço de acordo com a grandeza da maldade humana e da ofensa feita a Deus”.  Então, o Filho de Deus disse:”Eis-me aqui, Senhor para fazer a Tua Vontade. Estou pronto para essa missão!” Então, Deus-Pai deu-Lhe um corpo humano nascido apenas de uma Mulher virgem, que virgem ficou, porque a Deus nada é impossível. Quanto a tirar os pecados do mundo, todos nós vamos aprender em breve o que é preciso fazer para isso.

Lucas – Então, essa Mulher de que falas  é…

Viajante – Maria de Nazaré!

Cléofas – Céus! Que mistérios! E tudo isso está nas Escrituras?

Viajante – É claro que está!

Lucas – Oh! Que corja de cegos! Afinal, não sabemos nada de nada. Para que raio estudam eles tanto, lêem tanto, pregam tanto, explicam tanto, exibem tanta sabedoria oca? Tudo, para nada! Nós estamos admirados com a tua sabedoria. Uma sabedoria assim até parece…

Viajante – Até parece…?

Lucas – Não, não digo! Foi uma ideia que me passou pela cabeça!…Olhando bem para ti,…Não, não pode ser!… Devo estar a ser vítima de uma alucinação!…

Viajante – Não pode ser? Porquê?

Lucas – Passou-me pela cabeça a ideia de que  tu…, bem, é melhor não dizer, porque é uma ideia maluca!

Viajante – Até pode ser que não seja uma ideia maluca, mas…sem a revelares não se pode dizer nada dela! Bem, meus amigos, estamos quase a chegar a Emaús. No próximo cruzamento separamo-nos, pois eu sigo adiante.  Gostei de falar convosco. Espero que estejais agora mais animados, mais confiantes!…O vosso Mestre cumprirá o que prometeu. Eu  sei que Ele é fiel ao que promete e fiel a tudo aquilo que as Escrituras dizem a Seu respeito. Pronto, cá estamos no cruzamento! Despedimo-nos aqui! Foi um prazer vir na vossa companhia!

Cléofas  – Não!  Nós é que nos sentimos honrados pela companhia de um Doutor da Lei. Vem connosco! Teremos todo o prazer em te proporcionar a hospitalidade sagrada de humildes filhos de Israel. A noite já vai caindo e o dia está no ocaso. Sentar-te-ás à mesa connosco e poderemos conversar mais um pouco para iluminares a nossa ignorância. O que tu dizes parece que cria cá dentro raízes profundas. Precisamos de ouvir mais coisas da tua  boca!

Viajante – Bem, se insistis, faço-vos a vontade e desde já agradeço a vossa hospitalidade!

Lucas – Nós tencionamos ficar por aqui até termos notícias seguras de Jerusalém. Esperamos que as tuas palavras já contenham o que precisamos de saber:  Que Ele ressuscitou e está vivo!…

Cléofas – Chegámos à minha casa! Entremos e petisquemos qualquer coisa… Aqui está a água de que precisamos para nos lavarmos da poeirada do caminho.  Susana, somos três! Prepara a mesa!… Meu amigo, damos-te a honra de fazeres a oração!

Viajante – Não! Essa honra é para o dono da casa.

Cléofas – Senhor, Deus de Israel, nós Vos louvamos pelo Vosso poder e pela Vossa bondade em nos favorecerdes com o necessário para alimentar o corpo, à semelhança do maná que Vos dignastes conceder aos nossos antepassados no deserto. Por tudo, sede louvado.

Todos- Amen!

Cléofas – Ora, aqui está a água, o pão, o vinho, os figos, a manteiga, o queijo e a fruta! Bom apetite e bom proveito a todos nós!

Todos – Amen!

Jesus pega no pão, concentra-se, eleva os olhos ao céu, reza em silêncio,…tudo sob o olhar imóvel, atento, arregalado e perplexo de Lucas e Cléofas. Jesus abençoa o pão, parte-o e dá um bocado a cada um. Depois,…desaparece, ficando os discípulos sem  saber o que dizer ou fazer, até que, finalmente, recuperaram da surpresa.

Lucas – É o Senhor! Despachemo-nos e voltemos já a Jerusalém! Não sentias qualquer coisa estranho lá dentro enquanto Ele falava connosco? Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?

Cléofas –Eu também sentia, mas não sabia bem explicar o que sentia. Era a presença Dele que mexia connosco cá dentro. E a conversa Dele?…Devíamos ter logo adivinhado que aquilo não era sabedoria humana! É o Senhor! Aleluia! Sempre ressuscitou, como disse! Vamos levar a notícia a Jerusalém, para que todos percam o medo e a dúvida. Peguemos no pão e no queijo e comamos pelo caminho. Enfia também alguns figos no bolso, que eu levo o cantil da água. Não há tempo a perder! Vamos!

Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram:” Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer ao partir do pão. ( Lc 24,33-35)

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Ezequiel Miguel

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Manhas e artimanhas de Judas Iscariotes

(Realidade & ficção)

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1 – Estava prestes a chegar ao fim o terceiro ano da vida pública de Jesus e pensamentos preocupantes invadiam a cabeça de Judas.

Ao longo  dos três anos, Judas pôde comprovar que Jesus pensava e agia de modo a pôr em risco as expectativas  que ele tinha alimentado desde o início.  Como se disse em outros artigos semelhantes, Judas esperava que Jesus restaurasse o reino de Israel, ocupado e dominado pelos Romanos. Embora Jesus já por mais de uma vez tivesse explicado que Ele não tinha ambições políticas e que a Sua missão se destinava a implantar um reino de Deus nas almas, Judas não aceitava de modo algum que Ele, tendo todos poderes, uma vez que era Deus,  se deixasse insultar, perseguir, agredir à pedrada em Belém,  passasse fome, sede, dormisse em palheiros, quando poderia perfeitamente criar condições para tirar proveito dos palácios.

A sua ambição de um dia ser ministro do Messias-Rei  ameaçava desmoronar-se e dar em menos que nada, analisando os sinais alarmantes de fracasso, tanto do Mestre como seu. Tantos sacrifícios em acompanhar o Mestre, na esperança de um futuro político que fizesse história e agora…parecia-lhe que tudo caminhava para o fundo. À medida que Jesus anunciava a proximidade do fim, ele não sentia diferente dos outros apóstolos, que de modo algum aceitavam  que o Mestre morresse às mãos das autoridades religiosas corruptas de Israel.

Tudo bem pensado, moído e remoído, Judas engendrou um plano para tentar travar a tragédia que se lhe afigurava inevitável e iminente, continuando as coisas como estavam. Desse plano fazia parte  uma conversa cara a cara com o Mestre:

Judas – Mestre, tens de me desculpar, mas eu ando muito preocupado com a minha saúde. Esta agitação permanente, este caminhar sem fim pelas terras de Israel, este ódio que os do Templo me dedicam e também a Ti, as preocupações com a minha mãe, que preciso de visitar com mais frequência, os boatos que correm a Teu respeito,…tudo isso e outras coisas tiram-me o sono, ando a dormir mal, tenho dores de cabeça, tenho falta de apetite, tenho problemas respiratórios por causa da poeirada dos caminhos…

Jesus – Já disseste tudo? Ainda não disseste que morrias à fome e à sede e que já tinhas apanhado uma bronquite por dormires às vezes em palheiros ou em terraços de gente amiga! Afinal, ainda estás vivo, assim como todos os outros!

Judas – Pois, Mestre! É verdade que não me posso queixar de falta da Tua protecção e cuidado, mas a mim não me foi fácil adaptar-me a estas lides do apostolado ambulante. Como sabes, eu tinha um bom posto entre os do Templo e, se lá continuasse, eu poderia ir longe…Seguindo-Te, …tudo isso se me escapou…

Jesus – Judas, eu avisei-te, quando Me vieste pedir para te aceitar, que seria melhor para ti não entrares para o grupo dos meus escolhidos. Se reparares bem, tu foste o único que não foi convidado por Mim! Tu forçaste a tua entrada e insististe, insististe… Mas, Judas, ainda não disseste tudo! Ainda nem disseste o principal!…

Judas – Mestre, Tu sabes que eu ando um pouco perturbado, confuso, ansioso, nervoso, angustiado…Tu já me repreendeste várias vezes pelos meus comportamentos e…

Jesus – E?…

Judas – Eu preciso de um período de repouso fora deste ambiente. Tu sabes que os outros não simpatizam comigo nem eu com eles! Eles estão sempre a julgar mal de mim, embora na verdade eu também julgue  mal deles. Mestre, se não Te importasses, eu ousaria pedir-Te um favor para me acalmar, para reflectir, para pensar, para me corrigir daquelas coisas que Tu me censuras, para eu fazer uma revisão geral das minhas andanças Contigo. Eu queria…não sei bem como dizer…Talvez seja atrevimento…mas eu penso que Tu me vais conceder o que Te vou pedir…mas a verdade é que é muito importante para mim! Eu queria…Ai como isto me custa dizer!

Jesus – Avança, Judas! O que tens a temer de Mim, se for para teu bem?

Judas – Mestre, Tu até sabes o que eu quero dizer, porque Tu lês nos corações e nada Te é escondido do que nós fazemos. Só que, neste momento, Tu finges que não sabes!

Jesus – Judas, eu sei, mas quero que tu o digas! Eu respeito a tua liberdade, tanto para o Bem como para o Mal. Diz o que falta!

Judas – Então, lá vai! Eu queria pedir-Te que me deixasses passar uns dias com a Tua Mãe em Nazaré, na Tua própria casa! Seria para mim um retiro de regeneração da minha pessoa. A Tua doce mãe seria a minha educadora como foi a Tua.  Penso que Ela me mostraria as coisas sob um outro ângulo e me tornaria tudo mais fácil de compreender e aceitar! Já está dito!

Jesus – E quem disse que a minha Mãe te aceita lá em casa? Porque não pedes antes para passar esses dias com a tua própria mãe, dar-lhe alegrias, compensá-la pelo teu abandono e frieza…

Judas – Sabes, Mestre, é diferente. Uma Mãe como a Tua não há, porque Ela está toda envolvida em mistério. Ela tem qualquer coisa que não é deste mundo! Ao pé dela parece que se está no Céu!

Jesus – E quem disse que Ela aceita? Não achas isso um pedido atrevido e que se presta  a murmuração, juízos pecaminosos e outras coisas?

Judas – Mestre, eu não tenho coragem de lhe pedir, mas Tu podes interceder por mim, porque é para meu bem! E ela não recusará, porque a ela ninguém pode fazer mal, nem o inferno todo junto! Por isso, ela nada tem a temer de mim!

Jesus – Tens razão, Judas! Ela anda guardada por mil anjos, numa escolta de honra e de protecção. Eu vou falar com Ela e depois te informarei.

Judas – Obrigado, Mestre. Vais ver que não Te arrependerás!

Jesus – Judas!… Judas!…

2. Judas foi a seu tempo informado da aceitação da proposta, após uma conversa entre Jesus e Sua Mãe. Finalmente, Judas entrou em estágio na casinha de Nazaré, onde não faltou a catequese apropriada às necessidades espirituais de Judas. Mas, tirando as refeições e a dormida, Judas não parava em casa. Por onde andaria ele?

Ouvem-se pancadas na casa dos tios de Jesus, os pais de Tiago e João, apóstolos de Jesus.

Zebedeu – Quem é! Diga o nome!

Judas – Sou Judas, apóstolo do seu sobrinho Jesus!

Zebedeu -  Que fazes tu em Nazaré? Não estás com os outros! Por onde andam eles?

Judas – Eles andam longe daqui! Eu venho ter consigo e com os outros familiares de Jesus para os alertar contra algo muito perigoso em que ele anda metido. Eu já o avisei, mas Ele não me dá ouvidos e receio que tudo vá dar a uma tragédia. Ele é teimoso e cego, porque não quer ver.

Zebedeu – Não me fales desse visionário, que por acaso é meu sobrinho, porque Ele é filho do meu irmão José, que já faleceu. Eu nunca lhe perdoarei o ter-me roubado dois dos meus filhos, o Tiago e o João! Ele enfeitiçou-os e agora lá andam com Ele para trás e para diante, feitos vagabundos , a ensinar uma doutrina nova. Isso que tu me dizes já eu lho disse, mas Ele também não quer saber dos meus conselhos. Já aconteceu até que há tempos levaram-no ao alto do monte para o deitarem de lá abaixo, mas não sei que diabo aconteceu que ninguém foi capaz de pegar nele e atirá-LO lá para baixo! Parece que tem poderes estranhos. No fim, passou por entre todos e ninguém foi capaz de lhe tocar, o que ainda hoje ninguém compreende como isso foi possível

Judas – Mas porque é que o queriam matar?

Zebedeu – O que é que tu queres? Foi lá para a sinagoga, desafiou o chefe com perguntas a que Ele não soube responder e lançou para lá umas ideias novas que não é possível aceitar. Disse que Ele era o Messias e começou para ali a tentar provar que as Escrituras, através dos profetas, falavam Dele há muito séculos. Agora, Ele ali estava para cumprir o que as Escrituras diziam Dele! Mas aquilo foi lá uma conversa! Gerou-se uma discussão violenta e o chefe da sinagoga convidou toda a Nazaré a levá-lo até ao cimo do Monte e acabar com Ele de vez. Só fiquei admirado de uma coisa: Ele esteve sempre calmo e às suas perguntas ninguém era capaz de responder, porque Ele rebatia todos os argumentos relacionados com o Messias que está para vir! Se tu visses!

Judas – Mas eu vi! Eu estava lá! Mas eu tenho de lhe dizer uma coisa: Ele não é um homem como qualquer outro. Ele é mais do que um Homem, Ele afirma ser o Filho de Deus e chama a Deus Seu Pai e já demonstrou que tudo isso é verdade. Ele tem mesmo poderes estranhos. Ele domina os demónios, o mar, as tempestades, os ventos, os movimentos dos cardumes de peixes e imagine só: até lê os nossos pensamentos, os mais íntimos… e pior: até sabe o que cada um diz e faz e até mesmo antes de o dizer e de o fazer!

Zebedeu – Ó Diabo, não me digas! Então eu já falei tão mal Dele e Ele sabe tudo o que eu disse? Isso é mau para mim!

Judas – Mais: Ele tem o poder de fazer milagres! Ele cura leprosos, paralíticos, surdos, mudos, cegos e até, veja lá você, até ressuscita mortos em seu próprio nome. Quanto aos possessos do diabo…não há diabo que lhe resista. Por onde Ele passa, os diabos ficam aterrorizados e fogem! Você já imaginou que às vezes os diabos lhe suplicam para não serem expulsos? É tudo muito estranho, mas Ele é mesmo o Messias, pois já o provou em palavras e obras. É por causa disso que eu me meti  no meio daqueles que O acompanham. Olhe que uma vez vi um ricaço de Jerusalém cair morto a Seus pés porque ele tinha agarrado uma pedra para o apedrejar. Sabe porquê? Porque o seu sobrinho lançou uma maldição sobre o maravilhoso pomar do Doras , assim se chamava ele, e secou todas as árvores num instante, tal como se um raio tivesse fulminado cada uma das árvores. E lá continua estéril. Ainda há dias lá passámos e vimos que tudo continua seco. Nem árvores, nem folhas, nem flores, nem frutos. Ficou tudo queimado pela maldição. Antes da maldição, o seu sobrinho rezou ao Pai e, uns momentos depois, o ricaço caiu ali morto, para espanto de todos!  Ele depois disse-nos que o Doras se tinha exaltado e alimentado o ódio a tal ponto que teve um ataque do coração. Mas lá no povoado todos acreditam que foi resultado da maldição! Mas agora o Sinédrio tem lá o Doras filho, desejoso de exercer vingança sobre o Mestre. Ele aguarda a sua hora como o leão aguarda a sua presa.

Zebedeu – Mau! Mau!  Se Ele for vingativo….não sei o que me acontecerá… Provavelmente tenho de lhe pedir desculpas e redimir-me dos meus maus juízos! Estranho! Tais poderes são superiores aos dos profetas .

Judas – Ele não é vingativo. Se o fosse, onde é que eu já estaria! Pelo contrário: Ele é absolutamente tolerante, compassivo, amoroso, sempre pronto para o perdão…Ele não quer que os pecadores morram em castigo dos seus pecados, mas diz que quer que se convertam e tenham vida longa para louvar a Deus e expiar os seus pecados. Está sempre pronto a perdoar os pecados, desde que o pecador se arrependa!

Zebedeu – O quê? Perdoar pecados? Mas isso só Deus! Quem pode perdoar pecado senão Deus?

Judas – Ele perdoa os pecados, por maiores que sejam, e é capaz de transformar qualquer pecador em santo. Ele converte ladrões, prostitutas, cobradores de impostos,… porque Ele é amor, puro amor… Só não me converte a mim, porque eu… , porque eu… Bem, Não digo mais!

Zebedeu – Ó rapaz, o que tu me dizes! Se assim é, tenho de concluir que o cego, o casmurra …sou eu.  Se calhar, é mesmo Ele o Messias esperado!

Judas – Então, vocês, que o viram crescer, nunca suspeitaram de quem Ele realmente é? Mas vocês são culpados disso! Quando nós cá estivemos com Ele, naquela vez que tentaram atirá-lo pelo monte abaixo, Ele estava disposto a fazer milagres em Nazaré, mas como não acreditaram nele, o maltrataram,…Ele não vos deu grandes sinais de ser o Messias, por isso, esta terra e os seus habitantes são seus inimigos. E agora,  eu chego onde quero chegar! Tendes uma ocasião de vos redimirdes da má recepção que Lhe fizestes! Convidai-O a voltar cá, a pregar na sinagoga e depois, pedi-lhe perdão e convertei-vos à nova doutrina que Ele prega, ao Reino de Deus, como Ele diz.

Este seria o primeiro passo para desfazer a má impressão que deixastes Nele. O segundo seria…seria tentar convencê-lo a restabelecer o reino de Israel, há tantos anos jazendo debaixo das patas dos malditos romanos. Já vistes esta nossa santa nação ocupada e dominada por aqueles nojentos pagãos? Isto tem de terminar e Ele é a única pessoa capaz de levar essa tarefa a bom termo. Mas Ele, tendo todos os poderes, tem sistematicamente recusado usá-los para esse efeito. Ainda há pouco tempo foi ter com Ele uma comissão de Judeus ilustres, secretamente, é claro, e não conseguiram nada! Com aquela cantiga de que o Seu Reino não é deste mundo, Ele recusa todas as sugestões que se lhe façam nesse sentido de se tornar o verdadeiro Rei de Israel. Ainda por cima, Ele diz que é o verdadeiro Rei de Israel. Então, se é, por que não assume de uma vez por todas? Ele diz que é apenas o Rei das almas e que só veio a este mundo por causa das almas e não por causa da política. Ele exprime isto numa curta frase: As almas para Deus e a política para César! E com esta sabedoria ninguém mais tem argumentos para discutir com Ele! É por isso que eu aqui estou. Entrai em contacto com Ele, convencei-o, porque a sua vida está em risco. As autoridades do Templo querem matá-Lo, porque o classificam de blasfemo, arruaceiro, traidor, desordeiro, inimigo de César, come com pecadores à mesa, espalha uma doutrina subversiva, prega o amor aos inimigos,…e até chega ao ponto de dizer que um homem já comete adultério pelo simples facto de olhar para uma mulher com desejos  pecaminosos. Nisto, os do Templo até têm razão! Sendo como Ele diz, quem pode sair à rua sem olhar para uma mulher, se elas andam por todo o lado?

Eu já fiz o meu possível para O chamar à realidade, mas já não posso fazer mais nada. Vós sois a minha última esperança. Também já tentei convencer a Mãe Dele, mas Ela diz que Ele tem de cumprir aquilo que as Escrituras dizem a Seu respeito. E até me indicou as passagens exactas. O que é que eu posso fazer mais? Ou vós fazeis qualquer coisa ou os do Templo liquidam-no, porque eles têm-lhe um ódio de morte! Eu sei que já há movimentações secretas para  O apanharem  de noite, para evitarem sublevações populares. Até sei que eles já contrataram um espião para lhes preparar o caminho, com vista à sua prisão, julgamento, condenação à morte e execução. Só vós podeis evitar isto. Reuni-vos e fazei qualquer coisa! Eu vim aqui secretamente para vos avisar que Ele corre grande perigo. Se vós não fizerdes nada, eu não me responsabilizo pelo que possa acontecer-Lhe. Mas andai depressa, porque aquilo lá em Jerusalém faz pensar no pior. As sombras da morte já O rondam!

Zebedeu – Falas muito bem, Judas! Mas que podemos nós fazer por Ele, se nós nem fé Nele temos!

Judas – Ainda bem que falaste nisso. Lembro-me de Ele dizer que não tinha feito milagres em Nazaré exactamente por não terem fé Nele e nas Suas obras. Rematou o Seu discurso dizendo que ninguém é profeta na sua terra.

Zebedeu -  Se até  a Mãe Dele diz que as Escrituras têm de se cumprir, que posso eu dizer ou fazer, para mais dizendo Ela que Ele cumprirá os desígnios do Altíssimo!…E eu que nunca acreditei Nele nem penetrei nos mistérios que O envolvem. Tenho de ter uma conversa com a minha sobrinha Maria. Ela deve saber muita coisa por nós ignorada. Além disso, Judas, se a Mãe Dele acha que não pode fazer nada, quem haverá na Terra que possa fazer alguma coisa? Por isso, deixa-te disso! Se as Escrituras profetizam a Seu respeito, tudo tem de se cumprir. Mas eu tenho umas reservas a colocar-te! As Escrituras dizem que o Messias deverá nascer em Belém. Por outro lado, também dizem que nascerá de uma virgem. Dizem também : “Do Egipto chamei o Meu Filho”. E acabam por dizer: “Ele será chamado Nazareno”. Ora, só esta coisa do Nazareno é que bate certo a respeito do meu sobrinho Joshua (Jesus).

Judas – Aí é que tu te enganas! Ele nasceu em Belém de Judá, segundo a profecia de Miqueias, foi levado para o Egipto quando o Herodes mandou matar os meninos  e regressou depois da morte daquele assassino. Para terminar: Nasceu mesmo de uma Virgem, por obra e graça do Espírito Santo, conforme aquilo que o anjo Gabriel lhe anunciou. Queres mais sinais? Tudo bate certo com Ele! Vós é que sois uns ceguetas. Tantos anos a viver com Ele e ao pé Dele e não descobristes nada de especial nem Nele nem nos pais Dele! Andastes a dormir e nem descobristes o Messias a viver no meio de vós!

Zebedeu – Então, se assim é, o meu irmão José não é o verdadeiro pai Dele e Maria é a esposa de José, mas  não é  sua mulher! Que trapalhada! Ó Céus, onde eu estou metido! Valha-me Yahweh!

Judas – Mas é claro que é mesmo assim! Não te lembras da profecia feita ao rei Acaz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho”? Então, a Virgem é Ela e o Filho é Ele! E ponto final!

Zebedeu – Eu nunca notei nada de especial neles! Isto é, para falar a verdade, eram todos uns sonsos calados, quase era preciso pagar-lhes para dizerem uma palavra. Eu nunca dei por um conflito lá em casa deles, viveram sempre pobremente, ajudavam quem podiam, nunca ouvi nenhuma rabugice da minha sobrinha, nunca vi nenhum deles irritado, eu sei lá! Aquilo lá em casa parecia  Deus no paraíso a conviver com os Seus anjos! Algumas vezes notei na Maria, quando Ela dava catequese ao Joshua e aos meus filhos, que Ela tinha conhecimentos muito acima do que seria de esperar. E falava com uma convicção! Eu, às vezes, perguntava-me: “Mas de onde é que Ela sabe estas coisas?”  Mas Ela nunca me disse que o Joshua era o Messias! Na verdade, se o tivesse dito, também agora garanto que eu não teria acreditado e ninguém em Nazaré!…Nós cá somos assim, a começar pelo sinagogo…

Judas – Espera aí! Já agora conto-te que um dos do nosso grupo fez um dia esta pergunta a respeito de vós: “De Nazaré pode vir alguma coisa boa”?

Zebedeu – Pois é! Talvez seja verdade! O filho do carpinteiro, um sobrinho meu, ser o Messias! Nunca esperei viver para ouvir isto! E eu que me tornei um dos seus inimigos, eu, um tio Dele!  E agora? Ainda bem que cá vieste, rapaz! Eu andava mesmo cego, como todos os outros em Nazaré!  Mas quanto a estorvar a Sua missão, não contes comigo. Não vou opor-me aos desígnios do Altíssimo. Exige-o  Ele, exigem-no as almas,  exige-o a Sua Mãe, exige-o o próprio Yahweh. O que Yahweh diz tem de se cumprir, porque a Sua Palavra não volta para Ele sem se cumprir! É assim que diz um profeta, não sei qual! Quanto a ti, Judas, abre os olhos, limpa o coração, purifica as tuas intenções e os teu pensamentos, actua de acordo com a doutrina que Ele prega, age com a rectidão do coração, porque o que tu me contas a respeito Dele prova que  somente o Messias pode fazer tais coisas. Feliz de ti, se aproveitares e desgraçado de ti, se perderes a oportunidade!

Judas – Eu não sou capaz de te convencer, mas tenho de contactar outros familiares Dele para ver se os meus argumentos têm mais aceitação. Se não fizerdes nada, vereis o que Lhe vai acontecer e que ainda podeis evitar. Depois, não digais que ninguém vos avisou! Adeus!

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Ezequiel Miguel

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