Salmo 22 (23) – O Senhor é meu Pastor, nada me faltará

4º Domingo da Quaresma

.

Pastor

O Senhor é meu pastor, nada me falta!

A verdes prados me leva a descansar,

para águas refrescantes  minha alma salta,

lá, onde as suas forças pode restaurar.

.

Ele me guia por sendas de rectidão

honra assim prestando ao Seu Nome glorioso,

se em perigos me rodear a solidão,

contra nenhum mal me deixarás medroso.

.

Mesa e refeição para mim preparais

sob os olhos atentos de quem me  espia,

com óleo a minha cabeça perfumais,

o meu cálice transborda de alegria.

.

Com a bondade e a graça eu contarei

todos os dias que a vida me conceder,

na Casa do Senhor sempre habitarei

enquanto ao Senhor agradar meu viver.

.

Ezequiel Miguel

Agonia de Jesus no Getsémani (Mt 26, 36 – 46)

(Realidade e Ficção)

.

Após a Última Ceia, Jesus dirigiu-se com os Seus Apóstolos para o Getsémani, onde iria desenrolar-se uma das mais terríveis cenas da Sua Paixão, aquela que nós  conhecemos por Agonia de Jesus no Horto das Oliveiras. Os evangelistas resumem esse episódio a poucas palavras, mas o que Jesus lá sofreu ultrapassa tudo o que a humana imaginação possa abarcar. Basta dizer que em mais nenhum momento da Sua Paixão Ele solicitou ao Pai que lhe retirasse o Cálice do Sofrimento que estava a beber, apesar de Ele ter abraçado toda a Paixão com alegria, por finalmente se ir consumar a Redenção da Humanidade. Para ultrapassar com êxito esse terrível sofrimento, Ele pedira alguma ajuda aos três Apóstolos que estavam com Ele, mas eles passaram o tempo a dormir…Mas, se eles dormiram profundamente todo o tempo que durou a Agonia, lá estavam muitos outros seres bem despertos, que circundavam todo o espaço em redor do Getsémani. Era Satanás e muitos dos seus anjos, que se divertiam e tentavam lançar sobre Jesus o desespero e a renúncia a tal sofrimento.

Jesus – Eis-nos chegados ao Getsémani. Vós  sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar”. Eu levo comigo Pedro, Tiago e João

João – Mestre, porque vimos só nós para este lugar tão solitário?

Jesus – Porque eu preciso de vós nesta hora. Eu preciso de orar ao Pai e quero que vós reforceis a minha oração. É a ajuda que vos peço. A minha alma está numa tristeza de morte. Eu vou-me afastar um pouco e vós ficai aqui a vigiar e a orar, para não entrardes em tentação, porque estareis rodeados por seres que vos vão tentar.

Jesus afasta-se, ajoelha-se, levanta os olhos e os braços para o Céu e começa a encher-se de pavor e angústia.

Satanás – Cá estou eu de novo para Te oferecer a minha ajuda. Já não te via desde aquele nosso encontro no deserto, onde eu me  propus ajudar-Te…mas tu recusaste. Agora, aqui estou de novo para te propor que sejas razoável e tenhas bom senso. Para quê todo esse sacrifício por que vais passar? Ninguém to vai agradecer e ainda te chamarão tolo, visionário, utópico, por tentares fazer uma coisa que ninguém faria. A tua angústia e o pavor que te assaltam neste momento são só o começo do que te espera. Trouxeste aqueles três ali em baixo, mas…coitados deles e de ti! Não esperes nada deles, porque uma legião dos meus anjos já estão em volta deles para os porem a dormir em sono profundo e eles nem vão dar por nada. Se esperas ajuda deles, não tenhas ilusões. Tu bem os avisaste, mas nós apanhámo-los antes que eles começassem a orar por ti. Olha para eles, encostados aos troncos das oliveiras! Mal se sentaram, caíram logo em sono profundo. Parecem bebés a dormir um sono profundo depois de bem aleitados.

 Mas o pior para Ti está para vir. Aquilo que vai passar por Ti nunca passou nem passará por ninguém, por isso, serás o Único a vivê-lo e nós os únicos a presenciá-lo. Vês aqui à tua volta cinco legiões prontas a proteger-Te? Decide-Te rápido, porque as ondas do Mal já lá vêm para te submergirem. Não há força que as detenha, pois aquelas águas fétidas já vêm dos tempos de Adão e Eva. É uma força de águas negras, profundas, cheias de todo o lixo dos pecados dos homens. Não vale a pena invocares o Teu Pai, porque Ele abandonou-Te à tua sorte, por isso, ninguém te pode valer, a não ser nós! Foge, que vais ficar submerso, sujo, a cheirar mal, com um cheiro que farás fugir toda a corte celeste. Confia em nós, que podemos levantar-Te acima dessa tremenda enxurrada que conspurca toda a Terra. O que sofreste até aqui já chega para redimires aqueles que se vão salvar e os que estão no Limbo. Aliás, nem precisavas de sofrer coisa alguma. Bastaria que intercedesses junto do Teu Pai e Ele nada poderia recusar-Te. Um pedido Teu e…já estava! Todos homens ficariam logo redimidos! Não sofras por causa deles, que a maioria deles não aproveitará nada do teu sangue e do teu sofrimento. Mas a onda já se vê cada vez mais perto. Permite que peguemos em Ti de modo que ela não te toque! Nós levantamos-te, para que nada te toque!…Não?…Não queres?… Não sabes o que perdes!…Vais arrepender-Te! Nós bem Te avisamos!…

Pronto, já está. Aí tens! Pareces um verme saído de uma fossa, Tu, a pureza absoluta, a Luz do Universo, o Sol do Paraíso,…estás irreconhecível. Eu bem te avisei, mas Tu és um tolo que desperdiça a ajuda desinteressada que Te oferecemos. Esta era a onda da luxúria, da homossexualidade, da pedofilia, do nudismo, das modas nojentas e provocantes, dos pensamentos obscenos, da linguagem podre, da pornografia, da animalidade, de todo o uso pecaminoso do sexo…E o cheiro? Vejo que Te revolta as entranhas e Te engasgas com essa tosse que Te sufoca. Até a nós custa a aguentar, quanto mais a Ti!…

Não vale a pena limpares-Te, porque já lá vem outra onda, enorme como um oceano…. Aí está, já perto!…É toda vermelha, da cor do sangue, porque ela é mesmo de sangue, de todo o sangue que correu, corre e correrá, desde o sangue de Abel até ao Juízo final. Aquela massa vermelha contém todos os assassínios, os abortos provocados, os mortos pelas guerras…Não deixes que o Teu Sangue precioso se contamine com esta nojeira!…Vejo que não consegues levantar-Te, tal te deixaram estas avalanches que já passaram. Posso ajudar-Te, visto que estás num estado lastimoso, impotente, fraco, desmaiado, ofegante,…falta-Te o ar!… Tremes de frio, todo molhado…Que injustiça de todo o Céu e sobretudo do Teu Pai, que Te castiga assim! Seria preciso tanto? Não bastaria um pedido Teu, uma vez que um pedido Teu tem a força da omnipotência?

Mas, olha! Lá vem outra onda! À primeira vista é cor de rosa, mas, depois da primeira vaga, segue-se um número incalculável de ondas com duas faces, uma cor de rosa e outra negra. É a avalanche também nojenta da mentira, da hipocrisia, das inverdades, das fraudes, dos enganos, das trapaças, do parecer e não ser, do pregar uma coisa e fazer outra, dos falsos profetas, dos burlões e muitos mais! Não os vês a pregarem doutrinas que não são a tua, a deturparem  uma verdade que não é  a tua Verdade, a fazerem troça da tua Igreja, a passarem por santos quando o não são? Não vês os que se confessarão mal, os que comungarão o Teu Corpo em pecado, os que atraiçoarão a fidelidade conjugal, os que acabarão por imitar os habitantes de Sodoma e Gomorra em seu viver diário? Não vês tudo isso? Achas que vale a pena fazer alguma coisa por eles? Somente uns poucos te agradecerão esse sacrifício. E como vão eles agradecer se nem sabem o que isso vale?

Mas, aí vem mais uma, uma muito especial! Prepara-te para enfrentar avalanches de ferros pontiagudos, de facas, de punhais, de pregos, de vidros cortantes,…tudo instrumentos cortantes usados pelos teus queridos amigos, aqueles que são as meninas dos teus olhos, que irão jurar-te fidelidade, aqueles cujas mãos abençoarás para servir o teu  novo Povo, aqueles que terão escrito na testa “Consagrados ao Senhor”. Olha só o que aí vem de traições e infidelidades ao votos e promessas emitidos! Tu nem queres ver, porque essas ondas vão deixar-te em carne picada. São as traições dos teus amigos, aqueles que tu vais escolher para guias do teu Povo.

Jesus – Paizinho, porque Me abandonaste? Livra-Me deste cálice, se é possível, mas faça-se a Tua vontade e não a minha!

Anjo – Aqui estou, meu Senhor, enviado pelo Pai e a pedido da Tua Santa Mãe, que Te está vendo! Como o Pai, Ela Te consola e pede forças para Ti. Não desanimes, lembra-Te que Te ofereceste ao Pai para esta missão. Trago-Te uma lista daqueles milhões e milhões que aproveitarão o Teu Sangue. Além dos do Limbo, que ansiosamente Te esperam, aí tens todos os nomes daqueles que vivem e viverão de acordo com a doutrina da salvação que pregaste. Em nome deles,  e por causa deles, eu Te trago os agradecimentos do Pai e a coragem necessária. Já falta pouco para se cumprir tudo os que as Escrituras anunciaram a Teu respeito. Eu Te apresento aqui os agradecimentos daqueles que, até ao fim do mundo, irão lavar as suas vestes no Sangue do Cordeiro.

Recompondo-se um pouco, Jesus levantou-se a custo e foi ter com os três discípulos que dormiam profundamente. No Horto soaram as palavras tristes de Jesus: Pedro, Tiago, João, não pudestes vigiar uma hora Comigo? Vigiai e orai, para não cairdes na tentação. O espírito está pronto mas a carne é fraca.

Os discípulos esfregaram os olhos, sentiram o peso da vergonha a fechar-lhes os lábios, de modo que eles nem se abriram para um pedido de desculpas. Mal Jesus virou as costas, o sono voltou a tomar posse deles, enquanto uma alegre e agitada algazarra infernal ecoava em volta do recinto…Jesus voltou para o Seu cantinho, limitado por rochedos e oliveiras, Ele, a Oliveira que produz o óleo santo que irá ungir todos os redimidos, em colaboração com a Outra Oliveira que, não longe dali, se associa a Ele na missão de co-redentora (Zacarias 4 , 1-14).

Novamente de joelhos, braços ao alto e olhar no céu, lá vem novamente a angústia, a ansiedade, a tristeza de morte, em grau e intensidade não imagináveis, a ponto de os seus poros se abrirem para dar saída ao sangue que os capilares já não conseguem reter. Ainda faltam muitas ondas até todo o Mal passar por Ele. Todos os pecados e todos os tipos de pecados devem passar  por Ele. Também  por Ele passaram, durante a Sua Agonia, todos os nossos pecados, que iam engrossando as negras ondas que O submergiram.

.

Do Evangelho:

 Entretanto, Jesus, com os seus discípulos, chegou a um lugar chamado Getsémani e disse-lhes: “Sentai-vos aqui, enquanto eu vou além orar.” E, tendo levado consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes então: “ A minha alma está numa tristeza de morte, ficai aqui e vigiai comigo!”

E, adiantando-se um pouco mais, caiu com a face por terra, orando e dizendo: “Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. No entanto, não seja como eu quero, mas como Tu queres!”

Voltando para junto dos discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:” Nem sequer pudeste vigiar uma hora comigo! Vigiai e orai, para não cairdes na tentação. O espírito está pronto, mas a carne é débil.” Afastou-se pela segunda vez e foi orar, dizendo: “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a Tua vontade!” Depois, voltou e encontrou-os novamente a dormir, pois os seus olhos estavam pesados.

Deixou-os e foi orar de novo, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Reunindo-se finalmente aos discípulos, disse-lhes: “Continuai a dormir e a descansar! Já se aproxima a hora e o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Já se aproxima aquele que me vai entregar.”(Mt 26, 36-46)

.                                                            

 Ezequiel Miguel

Vai lavar-te à piscina de Siloé

(Confira: Jo 9, 1-40)

Personagens: Jesus, discípulos, Cego, vizinhos, fariseus

.

Siloe30Ao passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe:
Discípulos– Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?
Jesus – Nem pecou ele nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras Daquele que Me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo.
Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e disse-lhe:
Jesus – Vai lavar-te na piscina de Siloé!
Ele foi, lavou-se e regressou a ver. Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam:
1º vizinho – Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?
2º vizinho – É ele mesmo!
3º vizinho – De modo nenhum! É outro parecido com ele!
Cego – Sou eu mesmo!
4º vizinho – Como foi que os teus olhos se abriram?
Cego – Esse homem que se chama Jesus fez lama, ungiu-me os olhos com ela e disse-me: “Vai à piscina de Siloé e lava-te!” Então, eu fui, lavei-me e comecei a ver!
5º vizinho – Onde está Ele?
Cego – Não sei!
Levaram o cego aos fariseus. O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado:
1º fariseu – Como é que tu começaste a ver?
Cego – Ele pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver!
2º fariseu – Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado!
1º vizinho – Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?
3º fariseu – E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?
Cego –É um profeta!
4º fariseu – Nós não acreditamos que tu tivesses nascido cego e agora vês! Vamos chamar os teus pais e tirar as coisas a limpo….Vós, aí, sois realmente os pais dele? É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então, como é que ele agora vê?
Pais – Nós sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego! Mas não sabemos como é que ele agora vê, nem quem foi que o pôs a ver! Perguntai-lhe a ele! Já tem idade para falar de si!
5º fariseu – Dai glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!
Cego – Se é um pecador, não sei! Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo!
1º fariseu –O que é que ele te fez? Como é que ele te pôs a ver?
Cego – Eu já vo-lo disse! Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?
Fariseus – Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés, mas, quanto a esse, nós não sabemos de onde é!
Cego – Ora, isso é que é de espantar: que vós não saibais de onde ele é e me tenha dado a vista! Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada!
Fariseus – Tu nasceste coberto de pecado e dás-nos lições? Põe-te já fora daqui e vai pregar para outro lado, pois não acreditamos em nada do que dizes! És um farsante, um mentiroso, um intrujão, um ignorante a armar-se em doutor da lei!
E puseram-no fora. Pouco tempo depois:
Jesus – Sei que te expulsaram. Diz-me: Tu crês no Filho do Homem?
Cego – E quem é, Senhor, para que eu creia Nele?
Jesus – Tu já O viste! É Aquele que está a falar contigo!
Cego – (Ajoelhando-se) Eu creio, Senhor!
Jesus – Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.
Fariseus – Porventura nós também somos cegos?
Jesus – Se fosseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.

.
Observações–
1 . Como se entende esta última frase de Jesus? No sentido em que Ele fala, quem são os cegos e quem são os que vêem? Dito de outro modo: Quem são os que, vendo, são cegos e os que, não vendo, passam a ver?
Tem que se entender, necessariamente, no plano espiritual e doutrinal. Aqui, fala-se de dois tipos de cegos e dois tipos de não cegos. Partindo da cura de um cego físico, porque os seus olhos corporais não viam, Jesus salta para outro plano, outra realidade, referindo-se àquela em que se moviam os fariseus e a outras autoridades religiosas dos Judeus, dando a entender que a cegueira espiritual deles era voluntária, em oposição à cegueira corporal, involuntária, do cego, que não fizera nada para o ser.
2 . A cegueira voluntária dos fariseus consistia em serem espiritualmente tão cegos que recusavam ver, aceitar, reconhecer as obras de Cristo, nomeadamente os seus estrondosos e públicos milagres, pois, se os aceitassem, teriam de ser coerentes e intelectualmente honestos para verem em Cristo o Messias, o que alteraria por completo as suas vidas de “fariseus hipócritas”, como Cristo os chamou. Mas eles e outros preferiam continuar cegos, buscando para isso os necessários argumentos para se autoconvencerem e continuarem na sua cegueira, mesmo à custa de pecado, ao atribuírem os poderes miraculosos de Cristo aos demónios, nomeadamente a Belzebú, caindo assim num pecado contra o Espírito Santo, que, como Cristo também disse, não teria perdão durante a vida nem depois da morte.
3 . Estas atitudes têm implicações medonhas também no nosso tempo! Todos aqueles que abandonaram a Igreja Católica, ou que se recusam a entrar nela, atiram-se /atiraram-se para a multidão dos cegos a que Cristo se referia, porque, em seu orgulho, pensam que vêem, …e dali não passam, mesmo que a Verdade lhes entre pelos olhos dentro. Consolam-se atirando para o caixote do simbolismo tudo o que lhes custa a crer. Pairam na corda bamba, fingindo não acreditar nos precipício à esquerda e à direita. Vejam-se na Bíblia passagens claras, límpidas, irrefutáveis, imutáveis, eternas,…que a soberba e a cegueira humanas se atrevem a pôr em dúvida, a distorcer ou a negar em absoluto, modificando-as a gosto para se tragarem melhor:
. Esta é a Minha Igreja e as portas do Inferno não levarão a melhor sobre ela! ( Igreja única )
. Aquele sobre quem a minha Igreja cair ficará esmagado (Poder de excomunhão)
. Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja – (Instituição do primado de Pedro e seus sucessores como chefias da igreja Única de Cristo)
.Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja… Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu (a Igreja); o que atares na terra será atado no céu e o que desatares na Terra será desatado no Céu (Mt 16,18-19) – (Dogma da infalibilidade pontifícia em matéria de Fé, sacramentos, costumes, indulgências, culto, devoções, imagens, bênçãos etc.)
. Ide…perdoai os pecados! Aqueles a quem os perdoardes ficarão perdoados; aqueles a quem os não perdoardes não ficarão perdoados (Jo 20, 23) – (Sacramento da Penitência ou Confissão sacramental individual, meio ordinário para o perdão dos pecados).
. Isto é o Meu Corpo… que vai ser entregue por vós. …Isto é o Meu Sangue…que vai ser derramado por vós! Fazei isto em memória de Mim!…(Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio da Nova Aliança). Ver, entre outras passagens bíblicas: 1 Cor 11,23-29.
Se quem lê é destes cegos voluntários, aqui lhe fica o exemplo deste cego (não voluntário) de nascença. Entre ou reentre na Igreja Católica, pois ela é a verdadeira piscina de Siloé para todo o tipo de cegueira doutrinal e espiritual. Peça a Deus a cura da cegueira espiritual e doutrinal e, depois, diga como o cego de que se fala: “Eu creio, Senhor”! E a sua vida mudará, passando a ver o que hoje não vê. Não seja daqueles que busca argumentos falsos, como os fariseus deste episódio bíblico, para não acreditar naquilo que entra pelos olhos dentro!

.
Ezequiel Miguel

Aside

Salmo 94 (95) – Oxalá escutásseis hoje a voz do Senhor!

Ano A – 3º Domingo da Quaresma

.

Vinde de alegria no Senhor exultar,

aclamemos a Deus, que é o nosso Salvador,

vamos à Sua presença para graças Lhe dar,

ao som dos hinos aclamemos o Senhor!

.

Admirável é o Senhor pelas Suas grandezas,

por Seus atributos e virtudes tamanhas,

em Sua mão descansam da Terra as profundezas

e a Ele pertencem os cumes das montanhas.

.

Por ter sido Ele Quem os fez, são Seus o mar

e a terra firme, que pelo seu poder formou;

vinde, vamos ante o Senhor nos ajoelhar,

adoremos o nosso Deus,  que nos criou!

.

Porque Ele é o nosso Senhor e o nosso Deus

e nós somos o rebanho do Seu redil;

nós somos as ovelhas e os cordeiros Seus,

que Ele apascenta em pastos com cuidados mil.

.

Oxalá ouvísseis hoje a voz do Senhor:

“Cuidado! Os corações não endureçais,

como em Meribá, incitando o Meu furor,

quando fui provocado pelos vossos pais.

.

Mesmo observando Minhas obras, Me tentaram

e Eu disse: São sempre estes corações errantes

que nunca por Meus rectos caminhos entraram!…

Geração transviada, do seu Deus provocantes!

.

Geração que não conheceu os Meus caminhos!…

Então, magoado, na Minha ira jurei:

Vou abandoná-los no deserto, sozinhos,

e de entrar no Meu repouso os impedirei.”

.

Ezequiel Miguel

Jesus e a Samaritana (Jo 4, 4-38)

(Realidade & Ficção)

.

“Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, que se chama Sicar, junto da herdade que Jacob deu a seu filho José. Ora, havia ali um poço, chamado “a fonte de Jacob “. Fatigado do caminho, estava Jesus sentado sobre a borda do poço. Era quase a hora sexta” (Jo 4, 5-6)

Cristo : – Vamos parar aqui. Vós ide à cidade e comprai o que é preciso para o almoço.

João – Vamos todos?

Cristo – Sim, João! É bom andardes em grupo, tal como se fosseis  verdadeiros irmãos de sangue.

João –  (Receoso pela segurança do Mestre…)E Tu ficas aqui sozinho? Vê lá! Eles são Samaritanos, inimigos dos Judeus!

Cristo – Os samaritanos não serão piores que os meus inimigos judeus. Ide, fico aqui a rezar por vós e por eles!

 Os discípulos saem, um tanto contrariados, hesitantes, olhando para trás, para o Mestre, alimentando alguns receios secretos…Cristo tira o manto da cabeça, senta-se junto ao poço, num muro baixo, coloca o manto sobre o regaço, apoia os cotovelos sobre os joelhos, mãos juntas para a frente e cabeça curvada para o chão. Entretanto, surge uma mulher, de nome Dina, de 30-35 anos, que vem ao poço, trazendo uma ânfora vazia, segurando uma asa com mão esquerda. Com a mão direita afasta o véu, num gesto de surpresa, para ver o Homem que ali está sentado. Jesus sorri para ela e saúda-a:

CristoA paz esteja contigo, mulher! Podes dar-me de beber? Caminhei muito, estou cansado e com sede.

Dina – Oh! Tu não és Judeu? E pedes-me de beber a mim, que sou Samaritana? Que terá acontecido? Será que já foram feitas as pazes entre nós? Algo de grande aconteceu, se um Judeu fala educadamente com uma Samaritana. Mas eu devia dizer-Te (arrogante e irritada…):” Não Te dou água, para castigar em Ti todas as patifarias que os Judeus nos têm feito ao longo  dos séculos! E até teria muito prazer em ver-Te aqui morrer à sede! E não só a Ti, mas a todos os Judeus”!

Cristo – Disseste bem! Aconteceu realmente algo de grande, que muitas coisas já mudou e outras vai mudar. Deus ofereceu um grande dom ao mundo. Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz:”Dá-me de beber!”, talvez tu mesma Lhe pedisses de beber e Ele te daria Água Viva. Então, tu própria te tornarias uma fonte de Água Viva a jorrar para a vida eterna.

Dina – A água viva está nos lençóis subterrâneos que alimentam este poço, que é nosso (dito em tom zombeteiro, orgulhoso e levando a palma da mão direita ao peito…)! Mas esta água está funda e Tu nem sequer tens com que a tirar. Como é que Tu me podes dar dessa água de que falas? Será que  vais fazer um milagre para a transformar e fazê-la vir cá acima por si mesma? Este poço foi mandado construir por nosso Pai Jacob e não há por aqui outra água como esta. Como é que Tu me vais dar de outra água? Não compreendo!

Cristo – A água é de Deus! É Ele que a dá a todos os Seus Filhos, assim como lhes dá a vida, os alimentos, as árvores, os frutos, a chuva, o sol, o dia, a noite,…Tudo é de um único Deus, mulher, e todos os homens vêm de um único Deus, tanto os Samaritanos como os Judeus. Este poço é de Jacob, como dizes. E Jacob não é a cabeça dos nossos povos? Portanto, temos uma origem comum, apesar de alguém nos ter levado à separação.

Dina –  (Em tom agressivo e irónico). Queres então dizer que a culpa é nossa, não é? Tinha que ser! Nós, então, é que somos os culpados, claro, e vós, os Judeus, os inocentes, os anjinhos puros!…

Cristo – Mulher, Eu não te ofendo nem ofendo a tua raça. Porque és agressiva para Comigo?

Dina – Tu és o primeiro Judeu que ouço falar assim. Os outros…(faz um gesto de repulsa) só valorizam a nossa água e a nossa fonte de Jacob, de água pura, fresca, cristalina. Parece que é a única coisa boa que encontram em nós!

Cristo – Quanto à vossa água maravilhosa, é mesmo como dizes. Mas quem bebe desta água ficará ainda com sede. Eu, porém, tenho uma água viva que, quem a beber, não sentirá mais sede. Mas é só minha e sou Eu que a dou a quem ma pedir. E em verdade te digo que quem beber da Água que Eu lhe der ficará para sempre coberto de orvalho e não terá mais sede, porque a minha Água se tornará nele nascente certa, permanente, constante,  eterna.

Dina – Que maravilha! Como é isso? Não entendo nada! estás a gozar comigo? És porventura um mago? Como pode um homem transformar-se num poço? O camelo bebe e faz a sua reserva de água no seu ventre. Mas depois, consome-a e não lhe dura a vida inteira. E Tu dizes que a Tua água dura para toda a vida, neste mundo e no outro?

Cristo – Ainda te digo mais: ela jorrará até à vida eterna e dará frutos de vida eterna, porque é uma fonte de salvação eterna.

Dina –Que bom! Se não estás a brincar comigo ou a sonhar, dá-me dessa água, se é verdade que a possuis. Eu canso-me para vir até aqui buscá-la. Se ma deres, não preciso mais de vir aqui, não terei mais sede e não ficarei doente…nem velha…nem morrerei, uma vez que dá vida eterna! Onde a tens e quanto é que eu preciso de pagar por ela?

Cristo – Não pagarás nada por ela, bebas dela a quantidade que beberes!  Mas…diz-me uma coisa: Só de vir aqui a buscar a água é que te cansas? Não andarás também cansada de outras coisas? Só pensas na água para o teu pobre corpo? Existe algo que é mais importante do que o corpo. Tu já viste que canseiras te custam essas pinturas, essas tranças que o teu fino véu deixa ver, esse vestido listrado e multicolor, apertado na cintura, no peito e nas ancas, tudo para realçar a tua sensualidade provocante e pecaminosa? Pecas tu e fazes outros pecar! Já pensaste que serás responsável pelos teus pecados e por todos aqueles que fizeres cometer a outros? Não te preocupa isso? Já tomaste o peso a essa enorme quantidade de anéis, pulseiras, colares, medalhões de várias formas, brincos que agora mesmo brilham à luz do sol? Pareces uma montra ambulante de pesada joalharia e uma feira ambulante de vaidades! Já viste tantos cuidados que dispensas ao teu corpo, que o Pai do Céu te deu tão bem feito,  alto,  moreno, belo,…para com ele O louvares, Lhe agradecer  e pôr ao  serviço da tua alma? É a tua alma, mulher, que tens de tornar bela! Jacob não deu a si mesmo e aos seus somente a água deste poço, mas preocupou-se em dar a si mesmo e aos outros a santidade, que é a Água de Deus.

Dina – ( Deixou de ser petulante e irónica. Apresenta-se submissa, confusa e muda o tom de voz e o assunto da conversa) – Vós dizeis que nós somos pagãos…Se isso for verdade, nós não podemos ser santos…porque só o pecado mora connosco!

Cristo – Um pagão também pode ser virtuoso e Deus, que é justo, o premiará pelo bem que tiver feito. Não será um prémio completo, mas  entre um fiel com culpa grave e um pagão sem culpa, Deus será menos rigoroso para com o pagão. Sabendo vós que sois pagãos, porque não vindes ao Deus verdadeiro? O que vos impede? O Deus verdadeiro e Único está assim tão longe de vós? (Cristo olha-a nos olhos, enquanto  espera por uma resposta, que não vem… ) Como te chamas?

Dina – Dina!

Cristo – Pois bem, responde-me, Dina! Tu sentes não poder aspirar à santidade porque és pagã, porque andas na atmosfera nublada de  um antigo erro, como Eu digo?

Dina – Sim, eu sinto que é mesmo assim como dizes!

Cristo  – Então,… porque não vives como uma pagã virtuosa, honesta, casta…?

Dina – (Confusa, atrapalhada,  olhos no chão, sem palavras para se desculpar…) Senhor!…

Cristo – Não tens nada a dizer?… Vai chamar o teu marido…e volta aqui com ele! Eu esperarei aqui o tempo que for preciso.

Dina  – ( A sua confusão aumenta) Eu não tenho marido!…

Cristo  – Disseste bem! Não tens marido! Tiveste já cinco maridos e agora tens um contigo que não é teu marido. A tua religião também não aconselha isso!… Vós também tendes os Mandamentos (Decálogo) dados por Deus a Moisés! Porque, então, Dina, vives assim, mergulhada no pecado? Não te sentes cansada dessa canseira de seres carne prostituída, envenenada, mal-cheirosa,… para tantos e não a mulher honesta de um só? Não ficas com medo da tua velhice, quando te encontrares sozinha com as lembranças dos teus pecados, as tuas saudades, os teus medos, os teus pesadelos, os teus remorsos, os teus terrores, os teus fantasmas, a incerteza da justiça divina, que tantas vezes tens desafiado? Como sabes se acordarás viva cada manhã, cá na Terra? O pensamento, a eventualidade da tua condenação eterna não te dá ânimo decidido para levares uma vida honesta, segundo os Mandamentos?

Dina – Senhor, vejo que és  um Profeta!

Cristo – Mulher, Eu sou mais que Profeta!… Onde estão os teus filhos?

Dina – (Baixa a cabeça, olha para o chão …) Não tenho filhos!

Cristo – Não tens, mas já tiveste!…Não os tens nesta Terra, mas as suas pequenas almas, que tu impediste de verem a luz do dia, acusam-te… (Pausado, mas incisivo…) Sempre jóias,…belos e provocantes vestidos,…casa rica,…mesa farta,…festas,…brincos,…colares,…cintos de ouro e prata,…pulseiras vistosas,… mas tu és uma desgraçada, uma miserável! Sim, há em ti um enorme vazio, lágrimas e muita miséria interior. És uma desorientada, uma perdida, uma barca à deriva,…apesar do teu falso e enganador ar de felicidade! Somente com um arrependimento sincero, através do perdão de Deus e do perdão dos teus filhos, poderás vir a ser verdadeiramente rica!

Dina –(Sentindo-se incomodada, semblante atingido pela tristeza, lágrimas a aflorar…)Senhor, tens razão! Eu tenho vergonha! É mesmo como dizes!…(tapa o rosto com as mãos para disfarçar um  choro convulsivo…)

Cristo – E do Pai que está nos Céus, tu não tinhas vergonha quando praticavas o mal? Não chores pela vergonha diante do Homem…Vem aqui, Dina, para mais perto de Mim (ela senta-se no muro, perto de Cristo). Eu vou falar-te de Deus, que talvez não conheças bem e, por isso, tens feito tanta asneira…Se tivesses conhecido bem o verdadeiro Deus, não terias descido tão baixo, pois Ele te teria falado, instruído e amparado.

Dina –(Tentando desviar a conversa) Senhor, os nossos pais adoravam Deus neste monte (Garizim). Vós dizeis que só em Jerusalém é que se deve adorar. Mas Tu dizes: Deus é um só. Ajuda-me a ver o que  devo fazer, como e onde!

Cristo – Mulher, crê em Mim! Vai chegar a hora, que já começou, em que nem no monte Garizim, da Samaria, nem no monte Sião, de Jerusalém,  o Pai será adorado. Nós adoramos Aquele que conhecemos, porque a Salvação vem dos Judeus, como vieram também os profetas. Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, não mais com o rito antigo, mas com o novo rito, no qual não haverá sacrifícios e ofertas de animais consumidos pelo fogo, mas Sacrifício eterno da Hóstia Imaculada, queimada pelo Fogo do Amor. Será um culto espiritual do Reino espiritual. Deus é Espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em Espírito e Verdade.

Dina – Tu tens palavras santas, nunca ouvidas por aqui!… Eu sei que está para chegar Aquele que  também é chamado o Cristo. Quando vier, Ele nos ensinará todas as coisas. Também por aqui perto anda aquele que dizem ser o seu Precursor. Muitos vão ouvi-lo, mas ele é tão severo!…Diz coisas terríveis! Só falta que mande cair fogo do céu! …Tu és bondoso,…calmo,…compassivo,…tolerante,…não ameaças, não insultas, não metes medo, dizes palavras que que vão direitas, como setas, ao nosso coração. Penso que o Cristo também será assim, como Tu!. Dão-lhe o nome de Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz …( Is 9,5) Ainda falta muito para  Ele vir?

Cristo – Eu já te disse que o tempo Dele já chegou e que Ele já está entre vós.

Dina – Como é que o sabes? És porventura um dos seus discípulos? O Precursor tem muitos discípulos, que depois vão ser discípulos do Cristo.  Quem me dera vê-LO!

Cristo – O que farias, se O visses e te encontrasses  frente-a-frente com Ele?

Dina – Isso seria sonhar! Há tantos anos que foi profetizado e calhar-me a mim essa bênção…nem quero crer! Acho que me ajoelharia a Seus pés e lhos beijaria! Depois, pedia-lhe que me limpasse a alma e me aceitasse ao Seu serviço como a mais ínfima das suas servas! …Mas isso…é sonhar demasiado alto! Como eu seria feliz,… feliz,… feliz!… (Olhando para o céu com ar sonhador…)

Cristo – E como achas que será o Cristo, o Messias?

Dina – Penso que será um Homem alto, bonito, de cabelos louros até aos ombros, de olhos azuis, com uma barba dividida a meio, com uma testa grande e saliente, com um porte real, majestoso, com um olhar vivo, límpido e perscrutador, capaz de ver através do opaco, meigo, bondoso, manso, atraente, irresistível, de sorriso divinal e fazendo covinhas nas faces quando sorri,…tudo assim como Tu!

Cristo – Dina, olha bem para Mim! … Eu, que estou a falar contigo, sou o Cristo Jesus, o Messias, o Salvador, o Rei espiritual de Israel.

Dina –(Levanta-se de repente, em grande confusão, com gestos descontrolados, com cara de medo… e mostrando sinais de querer fugir…) Tu!?…Oh!…

Cristo – Espera aí, mulher! Porque foges de Mim? Que mal te fiz Eu?

Dina – Porque tenho nojo de ficar perto de Ti. Tu és santo!…E eu…Eu também fujo de mim!

Cristo –Confia em Mim! Eu sou o Salvador, Aquele que tira o pecado do Mundo. Eu Vim até aqui porque sabia que a tua alma andava cansada e errante e tu andas enjoada do teu alimento venenoso …Eu vim para dar-te um alimento novo que te tirará as náuseas e o cansaço…Olha, lá vêm os Meus discípulos de volta, com pão! Mas Eu já estou alimentado por te ter dado as migalhas iniciais para a tua redenção.

Dina – Senhor, Tu não vieste aqui por acaso!…Ajuda-me! Hoje mesmo vou mudar de vida! Não quererás aceitar-me como uma humilde serva ao Teu serviço?

Cristo – A tua hora chegará! Acompanharás outras mulheres na difusão da mensagem que Eu venho trazer ao mundo. Há muitas outras ovelhas como tu que precisam dos nossos cuidados.  Aguarda e, a seu tempo, chegará a tua oportunidade! Por agora, sê apóstola na tua cidade!

 Os discípulos chegam, olham intrigados, de soslaio, meio disfarçadamente, para a mulher, mas nenhum diz nada ou pergunta o que quer que seja ao Mestre. Apenas cochicham entre si e se interrogam mutuamente. Dina afasta-se, deixando no local a ânfora vazia, sem mais pensar na água. Pedro interrompe aquele silêncio embaraçoso:

Pedro – Aqui está, Mestre! Eles (habitantes de Sicar) trataram-nos bem. Eis o queijo, o pão fresco, as azeitonas e as maçãs! Serve-te! Aquela mulher fez bem em deixar a ânfora. Assim guardaremos melhor a água e não precisaremos de pedir mais nada aos Samaritanos… Não comes? Eu quis trazer-te peixe, mas não encontrei. Talvez preferisses o peixe. Mas…tens ares de  cansado e  estás pálido!…

Cristo – Eu tenho um alimento que vós não conheceis. Comerei dele e ficarei bem alimentado.

Os discípulos trocam olhares intrigados e interrogadores, cada um fazendo as suas perguntas mudas e olhando à volta para tentar descobrir algo parecido com alimento… Cristo esclarece:

Cristo – O Meu alimento é fazer a vontade Daquele que Me enviou e levar a bom termo a obra que Me entregou. Eu venho fazer a sementeira do Reino. O semeador sempre se alegra com o fruto da sua sementeira. Assim, Eu me alegrarei com a colheita que vós ides fazer quando ceifardes e, pelo vosso trabalho, Eu vos compensarei com o devido salário no Meu Reino eterno. Vós só ceifareis, porque o trabalho mais duro Eu já o terei feito. Quando todo o trigo que Eu tiver semeado for por vós ceifado, então se cumprirá a vontade de Deus e Eu me sentarei para o banquete na Jerusalém celeste. Mas… vamos almoçar, pois não tarda muito que os Samaritanos de Sicar apareçam por aí com a Dina. Sede simpáticos e caridosos para com eles! São almas que vêm à procura de Deus, ovelhas tresmalhadas à procura do Pastor.

.

E. Miguel

.

Artigos relacionados:

. A samaritana de Sicar

O contrato de Judas com o Sinédrio (Mt 26,14-16)

(Realidade e Ficção)

.

Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse-lhes: ”Quanto me dareis, se eu vo-Lo entregar”? Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus. (Mt 26, 14-16).

.

Aproximava-se o fim da pregação do Reino e Cristo estava quase a consumar a sua missão de evangelizador.

Um dia em que Jesus e os Apóstolos se encontravam todos em Jerusalém, Judas foi abordado por alguém para se apresentar com urgência na casa de campo de Caifás, o sumo sacerdote que presidia ao Sinédrio. Judas tinha contas a dar a respeito da sua actividade de espião e de agente subversivo. Cristo já tentara salvá-lo, mas a última tentativa falhara, talvez por se ter comprometido com o Sinédrio, no sentido de O espiar e criar situações que levassem Cristo a ser apanhado em pecado, uma vez que se precisava urgentemente de uma razão forte e convincente para O condenar. O plano gizado por Judas e pelo Sinédrio falhara e era a hora de chamar Judas a contas, para se explicar e justificar o falhanço.

É noite! Um vulto solitário caminha em direcção a uma casa no alto de uma colina no exterior das muralhas de Jerusalém, numa noite de luar em que a própria sombra parece assustar Judas, que caminha nervoso, parando e olhando de vez em quando para trás, a fim de se assegurar que não é seguido… Finalmente, chega ao portão da casa de Caifás, e, a um sinal de pancadas previamente combinado, ele abre-se e Judas é introduzido num salão já preparado para o receber. Em círculo dispõem-se os personagens que foram convocados para esta audiência a Judas. São membros do Sinédrio, que condenará Jesus à morte, passando por cima de todos os direitos e usando todos os meios desonestos, ilícitos e ilegais.

Judas – Então, já começastes a reunião?

Todos – A paz esteja contigo, Judas!

Judas – A paz esteja convosco, ó membros do santo Sinédrio! Como calculo o motivo que vos levou a convocar-me, quero antecipar-me às vossas perguntas e dizer-vos o que se passa com o Cristo. Tendes que vos despachar naquilo que quereis fazer com Ele, pois Ele já desconfia de mim e dos meus planos para vo-Lo entregar… e eu estou a chegar ao ponto em que nada mais poderei fazer por vós.

Sadoc – Não nos digas que te deixaste descobrir, ó grandecíssimo tolo!

Judas – (irritado e nervoso) Vós é que sois uns tolos, pois, com toda essa pressa em que ferveis, não planeais bem as coisas e fazeis coisas disparatadas. Vós é que não tendes confiança absoluta em mim!

Elquias – Não te lembras que te entregámos um plano há pouco tempo e que tu não concordaste com ele?

Judas – E pensais que é fácil trair o Único amigo que eu tenho, o Único que me ama de verdade sem esperar nada em troca, um Inocente que vai ser vítima de um crime?

Joaquim – Acalma-te, não estejas nervoso! O que tu fazes é uma obra santa pela pátria e toda a nação te agradecerá. O teu nome será honrado pelas gerações, porque tu figurarás entre os heróis de Israel. Tu chegarás ao poder, ditarás leis e fá-las-ás cumprir, porque tu serás o salvador da pátria. Tu serás aquele que fará desaparecer do número dos vivos o novo Holofernes que quer destruir a nossa querida pátria. Para isso, basta que colabores connosco naquilo que puderes, pois tu és imprescindível neste processo, uma vez que O conheces bem e facilmente O identificas, esteja Ele onde estiver!

Doras – Além disso, o Sumo Sacerdote Caifás falou profeticamente quando disse que era bom que morresse um homem pela nação, para que a nação não fosse destruída. Foi o Altíssimo que falou pela sua boca….Estás nervoso! Não nos acreditas? Nós somos teus amigos e queremos o teu bem, por isso, faremos tudo para que sejas um grande de Israel e isso dentro em breve! Aqui à tua volta estão representados as famílias sacerdotais, os Anciãos, os escribas, os fariseus, os rabis, os doutores, as autoridades do Templo, todos eles prontos para aclamar-te e convencer-te a fazer uma coisa santa de que te orgulharás toda a tua vida. Tomaram muitos estar no teu lugar!

Judas – Mas eu não vejo aqui Gamaliel, José de Arimateia, Nicodemos, João, Eleazar…e eles têm o direito de estar aqui, apesar de estarem a seu favor! Porque não foram convocados?

Caifás – Nós não os avisámos para esta reunião secreta, porque eles podiam dar com a língua nos dentes, …e estragar tudo. Tu sabes bem que eles simpatizam com ele. É melhor assim, para pensarmos todos por igual, a bem da nação e da glória de Deus…

Cananias – As tuas palavras são de verdadeira sabedoria, ó Sumo Sacerdote! Aceitando a sugestão de Judas de que devemos andar depressa e com passo firme, sem hesitações, julgo que devemos resolver já de uma vez por todas. Pertence a ti, ó digníssimo Caifás, como Sumo Sacerdote do Deus Altíssimo, fazer-nos a proposta final.

Caifás – Interpretando a vossa vontade e a vontade de Deus neste magno assunto, proponho que entremos em negociações com Judas para ele no-lO entregar sem mais preocupações da nossa parte. Sendo assim, nós propomos a Judas um pagamento de 30 denários e, em troca, ele deverá informar-nos onde O poderemos apanhar de noite, sem que o povo se aperceba disso. Judas, que dizes?

Judas – (agitado) É pouco! Isso é uma miséria para os serviços que vos presto! Esse preço nem seria justo se fosse para vos entregar um vulgar ladrão ou matar e esfolar um coelho! Para vos entregar Quem vós desejais neste caso, tendes que pagar 90 dinheiros, pelo menos.

Caifás – Não pode ser! Está escrito ( Zacarias 11, 12-13) que serão 30 denários e o que está escrito foi escrito pela vontade de Yahweh, por isso temos de respeitar a sagrada vontade de Yahweh, manifestada pelo profeta. É verdade que se trata de um preço simbólico, mas é esse o preço que pagaremos, para não irmos contra as sagradas Escrituras. Em troca, ficarás assinalado como um dos grandes de Israel, que todos louvarão e invejarão! Ele deve morrer e tu abrir-nos-ás o caminho para prendermos e julgar esse falso profeta, esse blasfemo, esse inimigo de Israel e do povo santo de Deus.

Judas – Para já, tudo o que dizes é falso, mentiroso, difamatório, calunioso. Ele não é nada do que dizes. Ele é um profeta e infinitamente mais que um profeta. Todo Ele é divino, todo Ele é puro Amor, compreensão, bondade, perdão. Ele conhece o íntimo dos corações e a estas horas até sabe o que eu e vós estamos a fazer e onde! Fico com a espinha congelada só de pensar que Ele me está a ver. Vós e eu somos uns miseráveis, uns assassinos, uns ladrões, uns montes de corrupção, uns traidores, uns hipócritas,… que vamos cometer o maior dos delitos que se podem cometer, a morte do Messias de Israel. Tenho umas perguntas a fazer-vos, se é que me autorizais!

Anás – Diz!

Judas – Vós acreditais que o profeta se referia ao verdadeiro Messias quando disse que seria vendido por 30 denários?

Anás – Acreditamos!

Judas – Então, vós próprios estais a dizer e a confirmar que Ele é o verdadeiro Messias de Israel, uma vez que dizeis que este preço é o estipulado pelo profeta. Ninguém encomendaria e ninguém aceitaria o assassínio de um homem por esse preço ridículo. Logo, tendes de concluir que vós próprios acreditais no que dizeis, isto é, que Ele é o Messias profetizado!

Caifás – ( Depois de uns momentos de silêncio e de troca de olhares cruzados)…Esse argumento…Temos de pensar! …

Doras – Nós não te entregámos a sua defesa nem te constituímos seu advogado! Pagamos-te por um nobre serviço e é sobre ele que estamos a negociar. Enquanto te decides, quero que nos expliques o que fizeste com o dinheiro que te demos para o apanhares em pecado, pois ainda não nos falaste sobre isso….Estamos à espera que fales!

Caifás – Deixai lá isso, por agora! Quanto à questão que o Judas colocou, parece ter lógica, mas…só parece! O profeta deve ter referido esse preço se o Messias aparecesse naquele tempo. É evidente, nos tempos de hoje, que esse preço é irrisório e inaceitável. Contudo, nós temos de ser fiéis à palavra do profeta ou então… Anás, que te parece?

Anás – As contas são fáceis de fazer! Se aceitamos as palavras do profeta e só pagamos os trinta denários, temos de reconhecer que o nazareno é o Messias e, nesse caso, não estamos aqui a fazer nada!

Joaquim – Só há um meio de resolver isto!… Os trinta denários e o Messias são indissociáveis, por mais voltas que demos. Ou aumentamos o preço e negamos o Messias, ou mantemos o preço e reconhecemos que ele é o Messias. Nenhum de nós viu isto a tempo! Agora já não sei o que dizer! O que eu ia a dizer já não faz sentido.

Elquias – Cá para mim,…Não! …É melhor calar-me! Para mim isto está a ficar muito confuso! O Caifás, que explique!

Caifás – Temos de dar a volta a isto! Judas, diz lá qual seria preço justo pelo teu serviço?

Judas – 144 denários! Acho aceitável!

Caifás – Certo! Então, nós pagaríamos os 144 denários, mas tu devolverias voluntariamente, como oferta ao Templo, o que vai de 30 até 144, isto é   110 denários. O Templo ficava assim compensado pelo dinheiro que te pagou por um serviço não feito. Achamos que será feita justiça!

Judas – ( Limpando o suor) Mas isso não muda nada! Eu…fiz tudo o que podia… e cumpri o que tinha combinado convosco! Paguei a uma meretriz jovem e bonita, aquela que vós me aconselhastes, informei-a sobre o local e a hora em que ela poderia encontrá-Lo, mas ela falhou, como falharam outras, acabando Ele por convertê-la  à Sua Causa. Algumas, depois de terem tentado seduzi-Lo, fugiram como se tivessem visto o Belzebú. Conheceis aquela famosa irmã de Lázaro, a Maria? A essa eu não a convidei, mas Ele converteu-a e fez dela uma adepta incondicional e convicta, que suporta todos os sacrifícios por Ele! A outras,… eu paguei…,mas elas falharam também e ficaram com o dinheiro. Juro que foi assim! Além disso, Ele até desafiou todo o Israel a apanhá-Lo em pecado. Lembro-me de Ele ter dito: “Quem de entre vós será capaz de me apanhar em pecado”? Ora, um homem que faz este desafio tem que forçosamente ser santo e mais que santo. O desafio também foi feito a pensar em mim e em vós, a quem Ele acusa de sermos hipócritas, víboras, sepulcros caiados e outros mimos semelhantes. Ele tem um poder de que vós nem suspeitais! Agora, não me peçais o dinheiro, porque não o tenho.

Pelo pecado, garanto-vos que nunca O apanhareis, por isso, não percais tempo com essas manobra! Ele é diferente de todos os homens. Ele nunca se irrita, nunca humilha ninguém, corrige com amor, delicadeza e mansidão, nunca se vinga, perdoa sempre, cura todos os doentes que acreditam no Seu poder…Ele é mesmo Amor e tudo faz em nome do Amor. Sei que muitas vezes chamou a atenção do Pedro, que não simpatiza comigo…Eu até me lembro de uma vez em que, numa aldeia, nos trataram mal e ninguém nos quis ouvir. Dois de nós pediram-Lhe autorização para mandar vir fogo do céu sobre oshabitantes, para os consumir…Sabeis o que Ele nos respondeu? Disse que Ele tinha vindo ao mundo para dar a vida, e não a morte, e queria que os homens se arrependessem dos seus pecados e tivessem vida longa. Não há no mundo um homem assim, por isso, ide mais directos, de contrário, andais aí a empatar…

E quanto aos milagres, que vós atribuís a Satanás, Ele nunca invocou Satanás para os fazer, mas diz sempre: “Eu quero, fica curado,…Eu quero, levanta-te e anda, vê, ouve, volta à vida. Eu quero,…Eu quero…” e a Satanás Ele diz : “ Sai desse homem!” A outros dizia:” Eu te absolvo dos teus pecados!”. Ele nunca disse:” Em nome de Iahweh…, em nome de Satanás…, em nome de Belzebú”. E quando ressuscitou Lázaro Ele disse: “Lázaro, Eu te ordeno: Vem cá para fora!”. Vós julgais que Ele é um simples homem? Isto, para compreenderdes as dificuldades que enfrento para cumprir os meus compromissos para convosco! Por isso, tendes de ser tolerantes para comigo e também devíeis ser mais justos na paga que me dais! O que me propondes nem dá para matar um gato!

Elquias – Pois é! Ele é bondoso, manso, delicado…, mas a nós chamou-nos hipócritas, sepulcros caiados, filhos de assassinos de profetas e não sei que mais. Ele insultou-nos a todos, a nós que recebemos de Yahweh a nossa santa autoridade. Mas, há mais: Este miserável preço de 30 denários, como tu dizes, que te oferecemos, também tem em conta aquele dinheiro que te demos para o apanhares em pecado, visto teres falhado. Esse dinheiro devia ser-nos devolvido. Como não o devolves, és ladrão. Também és um mentiroso, pois acreditamos que o gastaste em teu próprio proveito. Por tua culpa, ele tem cada vez mais discípulos e se não agirmos depressa…será a nossa ruína e a ruína de Israel.

Judas – Mas, tendo vós tantas oportunidades para O prenderdes quando Ele pregou no Templo, mesmo sob as vossas barbas, porque não O prendestes, se era tão fácil? Porquê recorrer a mim, a meretrizes, ao dinheiro nojento, como nojentos sois todos vós? Eu, agora, é que sou o culpado? E quanto a ladrões, vós é que o sois, por roubardes o tesouro do Templo, para comprar meretrizes e para preparardes um assassínio! É isso a vossa santidade?

Elquias – Sabes muito bem porquê! Porque ele sempre se escapou, por manobras que o Belzebú lhe inspirava. Nós sentíamo-nos bloqueados, paralisados,…quando ele despedia raios dos seus olhos contra nós. Cada um de nós tinha a impressão que estávamos a ser vistos como se estivéssemos nus.

Judas – Pois é! É isso! Ele vê-vos por dentro e por fora e nada do que sois Lhe escapa! Ele vê a vossa vida de aves de rapina, de feras selvagens, de animais de estrumeira a fossar no estrume, víboras sempre à espreita de lançar veneno sobre todos aqueles que estão a par da vossa imundície.

Caifás – Tudo isso és tu, miserável! É assim que pagas a quem quer ajudar-te e que tem ajudado? Nós partimos-te já esses queixos e cortamos-te já essa língua atrevida! Vamos a ele e resolvamos já este assunto! (Levanta-se ameaçadoramente)

Elquias – Calma aí, ó Caifás! Não é assim que resolvemos o assunto! Temos de respeitar o Judas e agradecer-lhe os esforços que tem feito para nos ajudar. Temos de ser tolerantes para com ele, pois, se mais não fez, é porque não pôde!

Joaquim – Bem, agora que estamos mais calmos, ainda vos lembro aquele atrevimento do nazareno, quando desatou às chicotadas sobre as mesas dos que lá vendiam coisas no Templo, pondo tudo de patas para o ar. É esta a mansidão de que fala o Judas? Ele até disse então que nós estávamos a profanar a Casa do Seu Pai. Que atrevimento! Que presunção! Como é que o Templo é a Casa do seu Pai? O Seu pai não é um carpinteiro de Nazaré? O Judas tem de compreender que nós não acreditamos em nada do que diz.

Judas – Há coisas que vós não entendeis. Dessas coisas que Ele disse:…hipócritas, vendilhões, sepulcros caiados, filhos de assassinos… há alguma que não vos assente como uma luva?

Caifás – Judas, vê lá como falas! Estás a insultar o santo Sinédrio! Tu estás aqui para responder às nossas perguntas e não para as fazer! Com todo esse discurso prevejo que ainda voltas atrás e ficas com Ele! Tudo bem! Nós estamos a ser tolerantes, pacientes e compreensivos. É por isso que já te fizemos a proposta final de um pagamento de 30 dinheiros (denários), pois mereces um pagamento pelo teu esforço e dedicação. É justo que assim seja. Quem está contra esta proposta que fizemos ao Judas de Simão? …Vejo que não há votos contra! Assim, Deus nos ajude e ilumine Judas para ver como Yahweh o escolheu para esta grande missão de nos entregar esse falso messias.

Judas – (Contrariado) Tenho de corrigir aí uma coisa. Vós, aqui, não sois o “santo Sinédrio”! Sois um grupo convocado à pressa e ilegalmente, porque não enviastes aviso aos outros que aqui não estão. Além do mais, também não sois santos, como Ele já vos demonstrou. Quanto ao preço, digo que é injusto, mas não me deixais alternativa.

Sadoc – E agora,…diz lá: onde está Jesus de Nazaré?

Judas – Está em Betânia, em casa de Lázaro que, como sabeis, é o seu mais fiel amigo e é protegido pelos Romanos. Não tenteis aí, porque Lázaro tem muitos servos e só dará sarilhos.

Cananias – Nós confiamos em ti, pois tu és sagaz, inteligente e recto de coração. Yahweh estará contigo na hora certa. Aguardamos que essa hora chegue.

Judas – E quanto ao pagamento?

Caifás– Só te pagaremos quando vieres ter connosco e nos disseres: “É agora, vinde comigo”! Só então é que receberás o dinheiro e naquela quantia de que já falámos.

Judas – Então, até à próxima! A paz fique convosco!

Todos – E contigo também. Adeus!

Faz-se silêncio até se ouvirem os portões de ferro a fechar e depois… todos saltam de alegria e se abraçam efusivamente, todos dando os parabéns a todos…

Doras – E agora? Que faremos quando Judas descobrir que também nós o vamos trair? Daquilo que lhe prometemos…só ficarão os miseráveis 30 dinheiros, o preço que se dá a alguém pela morte de um cordeiro. Este idiota…já o temos no papo! Deve estar muito faminto de dinheiro, para aceitar uma recompensa destas! Será que não vai espalhar pelo povo o que fizemos com ele? Isso seria a nossa desgraça. Poderíamos ter de enfrentar uma revolta popular e daí…quem sabe como tudo ficaria? Ele não é de confiar, devido ao seu temperamento inconstante e às artimanhas de que já deu provas. Nele não é fácil saber quando diz a verdade ou quando nos crava a mais descarada mentira. Na minha opinião ele é um comediante.

Caifás – Não há que ter receios! O povo voltar-se-ia contra ele, por se ter posto ao nosso lado e contra o Nazareno. Por agora, ele tratará do Nazareno e depois…nós trataremos dele sem que o Povo se aperceba!… Este assunto já foi ventilado numa outra reunião. Não vos lembrais?

Sadoc – E se ele se arrepender antes de…?

Caifás – Ele não vai ter tempo para isso!…E vós todos tende cuidado! Daqui não pode sair uma única palavra para o Gamaliel, o José de Arimateia, o Nicodemos, o João, o Eliseu, o Eleazar e outros! Eu não confio em nenhum deles. É preciso andar com o olho neles, não vão eles suspeitar de alguma coisa.

Doras – Eu estou muito contente por ver este dia e outros que se aproximam. Vejo finalmente a vingança que o meu pai desejaria executar sobre o nazareno, que, um dia, fulminou o meu pai mesmo ali em frente dele, caindo morto instantaneamente a Seus pés.(1)

………………………………………………………………………………………..

  • Nota – Isso aconteceu após uma cena de agressividade verbal e tentativa de agressão física a Cristo, por Ele ter lançado sobre os seus pomares uma maldição que tornou estéreis todas as suas árvores de fruto. Doras- pai mantinha os seus servos em escravatura cruel. Cristo tentara torná-lo mais humano, mas ele não cedera. Quando viu os pomares secos, quis tirar desforra de Cristo e excedeu-se no palavreado e nos gestos, tentando mesmo apedrejá-Lo. O excesso de cólera causou-lhe um ataque cardíaco fulminante. Doras- filho tem esses acontecimentos ainda bem vivos na memória, tanto mais que os pomares que herdou continuam estéreis e mirrados, queimados pela maldição. Tal como faria com Judas, Cristo tinha feito tudo para que Doras – pai se convertesse e tratasse bem um dos servos gravemente doente. Tudo em vão! Cristo acabou por pagar o resgate do servo doente e providenciou no sentido de estar presente na hora da sua morte.

.

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados:

. E Judas foi enforcar-se

. Última tentativa de Jesus para salvar Judas

. Manhas e artimanhas de Judas

. O golpe de Judas

. Jesus é preso

. A Ceia da despedida

. Jesus é alvo de tentativa de rapto

Salmo 32 (33) – Feliz o Povo que o Senhor escolheu para Sua herança

 

ANO A – 2º Domingo da Quaresma

.

ceuVós, que sois justos, vinde o Senhor aclamar!

Vós, rectos,  puros de coração, O exaltai!

Vinde com harpa e lira salmos recitar!

Com arte e alma um cântico novo cantai!

.

A palavra do Senhor é de rectidão,

as Suas obras nascem da Sua fidelidade,

a justiça e o direito são a Sua paixão,

pela terra inteira se vê a Sua bondade.

.

Pela Palavra do Senhor foi o céu criado,

o sopro da Sua boca a beleza lhe doou,

pôs as águas do mar em recinto fechado.

O do Senhor é eterno, como o decretou.

 .

Feliz a nação cujo Deus é o Senhor,

o Povo que Ele escolheu para Sua herança!

lá do Céu, Ele contempla e vê com rigor

todos os homens, com olhar que tudo alcança.

.

Do alto trono, onde o Senhor está sentado,

todos os actos do homem pode observar,

o coração do homem foi por ele moldado

e nada do que ele faz escapa ao Seu olhar.

.

Um grande exército pode o rei não salvar,

um herói não se salva por sua valentia,

é pura ilusão só no cavalo confiar,

a sua fogosidade não dá garantia.

.

Os que O temem estão sob o olhar do Senhor,

que das garras da morte liberta as suas almas;

elas, que vivem na esperança do Seu amor,

viverão, no tempo da fome, vidas calmas.

.

Quanto a nós, no Senhor, nosso Deus, esperamos,

é Ele o nosso amparo e a nossa protecção,

confiança em Seu Nome santo depositamos,

Nele exulta e se alegra o nosso coração.

.

Venha, Senhor, sobre nós, a Vossa bondade!

Dentro de nós permaneça em Ti a confiança!

Vê, não nos abandones em nenhuma idade,

pois és Tu que sustentas a nossa esperança!

.

Ezequiel Miguel

Previous Older Entries