Jacinta Marto, reparadora

pintor  Jacinta – Nosso Senhor está muito ofendido…

e tudo isso por causa do pecado!

Aceito da Senhora o pedido:

Tem de ser a todo custo evitado!

.

Lúcia, diz aos grilos e passarinhos,

que andam para aí a cantarolar,

que se calem todos bem caladinhos,

que a minha cabeça vai estoirar.

.

Lúcia – Jacinta, olha! Não queres, então

de sacrifícios fazer só mais um?…

Se eles dores de cabeça te dão…

Então, que não se cale mais nenhum!

.

Jacinta – Pronto! Então, deixa-os lá cantar!

Quero oferecer pelos pecadores!

Para Jesus por eles reparar

vou oferecer da cabeça as dores!

.

Ó meu Jesus é pelo Vosso amor,

pela conversão dos pobres pecadores;

em reparação, ofereço esta dor,

evita-lhes os eternos horrores .

.

Também pelos pecados cometidos

contra o Imaculado Coração

de Maria, pelo Santo Padre, unidos…

Por Eles ofereço reparação.

.

O inferno…o fogo…os condenados!…

Meu Deus, haverá coisa mais horrível?

Viste-los entre as chamas rebolados,

urrando em todo aquele barulho incrível?

.

Talvez,… se Senhora a todos mostrasse

aquele grande mar de fogo a arder…

Talvez assim todo o mundo evitasse

que alguém lá caísse para assim sofrer.

.

Eu vou em breve partir para o Céu,

mas tu ainda algum tempo ficarás,

porque a Senhora quer tirar o véu

de uma Devoção que ainda verás.

.

Deus deseja implantar neste mundo

a Devoção ao Coração de Maria

e quer que ela se enraíze bem fundo,

para ser da Salvação segura guia.

.

Ezequiel Miguel

.

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Jacinta Marto e o segredo

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.Jacinta, o inferno e os pecadores

Lúcia, Jacinta, Francisco e os Anjos

Os pecados contra o Espírito Santo

Desesperação de salvação

Este assunto não é fácil de abordar nem se descobrem tentativas satisfatórias para o fazer. Os catecismos vulgares pouco explicam, por isso deixam margem para diversos tipos de visão do problema, pois há pecados que nós consideramos normais, como outros quaisquer, mas no fundo poderão ser incluídos na categoria de pecados contra o Espírito Santo. Só Deus poderá ser o Juiz, uma vez que nada Lhe fica escondido, nem daquilo que somos nem daquilo que fazemos nem de como o fazemos ou não o fazemos.
São estes os pecados contra o Espírito Santo: 1- Desesperação de Salvação 2. Presunção de se salvar sem merecimento; 3. Negar a verdade conhecida como tal; 4. Ter inveja das mercês que Deus faz a outrem; 5. Obstinação no pecado; 6.  Impenitência final.

Já ouviu certamente dizer ou leu que Deus perdoa todos os pecados, desde que haja arrependimento sincero, firme e pronto propósito de emenda e confissão sacramental   ( para aqueles que são baptizados). Deus, inclusivamente, disse: ” Ainda que os vossos pecados sejam vermelhos como o escarlate…ficarão mais brancos que a neve (Is 1, 18) Esta ideia do arrependimento e do perdão de Deus atravessa muitos dos Salmos compostos pelo Rei David, cujo pecado o levou a muita penitência e a confessar: “Tenho sempre o meu pecado diante de mim…” ( Sl 50 ).

Cristo também perdoou a inúmeros pecadores arrependidos e até perdoaria a Judas, se este lhe implorasse o perdão acompanhado de um sincero arrependimento. Mas um dia Cristo faz uma revelação surpreendente e aparentemente incompreensível, ao dizer que “os pecados e blasfémias contra o Espírito Santo não teriam perdão nem neste mundo nem no outro” ( Mt 12,31-32), o que quer dizer que darão condenação eterna sem margem para dúvidas. Afinal, como é?  Deus não perdoa todos os pecados? Não será visível uma clara contradição entre a pregação de Cristo e a realidade? Onde estará a gravidade dos pecados contra o Espírito Santo, para serem encarados desta maneira tão trágica? Deus abre excepções ao Seu perdão, mesmo havendo arrependimento e as outras condições necessárias? As respostas a estas perguntas parecem fáceis e parecem difíceis e têm dado muitas voltas às cabeças dos teólogos. Se Cristo apresentou as coisas assim, tem de haver uma razão forte, de uma lógica indiscutível e sem deixar dúvidas a ninguém.

A frase de Cristo, acima referida, vem na sequência do comentário proferido pelos escribas e fariseus que acusavam Cristo de expulsar demónios em nome de Belzebu (um demónio). Ninguém pode medir a gravidade desta sentença nem a malícia diabólica em que tal pecado mergulha. É praticamente colocar Cristo ao nível dos demónios ou até abaixo deles, uma vez que pressupõe que é Belzebu quem dá o poder a Cristo, acabando eles por acusar Cristo de estar possuído por Satanás, à semelhança de qualquer endemoninhado. “ Os doutores da Lei…afirmavam: Ele tem Belzebu; e ainda: É pelo chefe dos demónios que Ele expulsa os demónios…” (Mc 3, 22)….Em verdade vos digo: todos os pecados e todas as blasfémias que proferirem os filhos dos homens, tudo lhes será perdoado, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca mais terá perdão: é réu de pecado eterno….Disse-lhes isto porque eles afirmavam: Tem um espírito maligno” ( Mc 3, 28-30). Ora, na outra vida, após a morte, somente no Purgatório  poderão os pecados (veniais) ser perdoados e ser réu de pecado eterno é a mesma coisa que dizer que cairá no inferno, onde o pecado nunca se apagará.

Veja se há blasfémia contra o Espírito Santo no caso que vou expor!  Algum tempo antes de 8 de Dezembro de 1980, John Lennon, um dos famosos “Beatles”, vangloriava-se, dizendo : “Nós, ( os Beatles) somos mais famosos que Jesus Cristo. Exactamente na data acima referida alguém o esperava à porta de casa, de regresso do seu estúdio. Um homem  perguntou-lhe: “O senhor é que é o John Lennon?” – Após a resposta afirmativa, John Lennon caía morto por tiros de pistola.

Desesperação de salvação – É o pecado de Judas Iscariotes, que recusou todas as tentativas de Cristo e da Virgem Maria para se converter, agindo na base de que o seu pecado era tão grande que o seu Mestre já não podia agir sobre a sua malícia de insistir em permanecer no pecado, com nítido desprezo da Misericórdia Divina, que o perseguiu até ao fim. Ao recusá-la, ele colocou-se num grau superior, colocou a sua vontade ao serviço do desespero, não acreditou em Cristo, que ele conhecia bem, pois já O tinha visto perdoar a grandes pecadores e a ele próprio Cristo já lhe perdoara várias vezes pecados que não seriam de supor num Apóstolo. É evidente que, ao ver o seu plano, gizado por uma mente ambiciosa e oportunista, desfazer-se, entrou em desespero, que terminou no suicídio. Já tenho lido e ouvido que Judas não se condenou, mas o que Cristo disse a seu respeito (que era melhor não ter nascido), não alimenta essa benevolência e a dúvida quanto à sua sorte final. Num dos livros do Padre italiano Gabriele Amorth, exorcista, ele relata a presença de Judas numa mulher possessa, dizendo ele (Judas) que está catalogado entre os demónios e não nos condenados normais. O  desespero é também um pecado contra o primeiro Mandamento, por ser um pecado contra a esperança em Deus, contra a possibilidade de se salvar, contra a ideia de atingir os recursos necessários ou o perdão de Deus para os seus pecados. É pecado contra a bondade de Deus, contra a Sua Misericórdia, contra a Sua fidelidade no cumprimento das promessas que faz de perdoar os pecados mais negros, desde que o pecador se arrependa. É também um pecado de soberba, por colocar a Misericórdia divina abaixo de algo produzido pelo homem, neste caso, a crença de que Deus o odeia e já não poderá fazer nada por ele, o que o levará a desistir de invocar a Sua Divina Misericórdia e a considerar-se perdido, condenado, antecipadamente. Recusará também confessar-se, concluindo que já nada valerá a pena, ou porque pensa na gravidade dos seus pecados ou porque não acredita na eficácia de uma boa Confissão ou ainda porque já não sabe confessar-se ou ainda porque Deus não lhe aplica as orações e os méritos das boas obras de alguma alma expiadora/reparadora. A acção de Satanás irá no sentido de reforçar o despero, sugerindo que Deus não poderá perdoar, faça a pessoa o que fizer, levando assim à anulação de toda a esperança. Se acabar por morrer assim (sem arrependimento e sem invocar a Misericórdia divina)…comete pecado contra o Espírito Santo, não perdoável nem neste mundo nem no outro, conforme a Palavra de Cristo. Os pecados e blasfémias contra o Espírito Santo provêm de uma profunda malícia e atacam o Poder, a Bondade, o Amor, a Misericórdia, a Santidade…de Deus, porque é Ele (o Espírito Santo) o Amor que circula do Pai para o Filho e do Filho para o Pai, sendo pois através Dele que o Pai e o Filho exercem os Seus divinos atributos, por isso, uma blasfémia ou pecado contra o Espírito Santo acaba por ser um acto malicioso contra o conjunto da Santíssima Trindade, se não for simplesmente uma fraqueza humana, como tantas outras.

Debrucemo-nos um pouco mais sobre a blasfémia dos judeus que assistiram aos milagres de Cristo, incluindo a ressurreição de mortos e a expulsão de demónios.  Eles viram que Cristo não fazia milagres em nome de Deus, mas fazia-os dizendo: Eu quero…, eu te ordeno, …fica curado,…vê…, ouve,… os teus pecados te são perdoados,… levanta-te e anda, faça-se como desejas,… etc. Nos milagres e perdão dos pecados Cristo actuava como Deus e não como Homem, sob a acção do Espírito Santo. Rebaixar Cristo e atribuir o Seu poder ao demónio,…dificilmente se pode inventar pior. Daí a sua gravidade, que o inclui nos pecados contra o Espírito Santo.

.

Ezequiel Miguel

Amemo-nos uns aos outros

(Confira: 1 Jo 3,11-24)

.

amar10Caríssimos, esta mensagem nos chegou

desde o princípio: Uns aos outros nos amemos!

Não sejamos como Caim, que seu irmão matou,

levado pelo Maligno, como sabemos!

.

E por que motivo Caim o assassinou?

Porque as suas obras eram de iniquidade,

mas Abel, por suas obras, a Deus agradou,

visto serem elas obras de santidade.

.

O mundo odeia-nos, mas não nos admiramos!

Que passámos da morte para vida, o sabemos!

Porque nós, que já os nossos irmãos amamos,

não na morte, mas na vida permanecemos.

.

É homicida quem o seu irmão odeia

e vós deveis saber que nenhum homicida,

que com ódio o seu coração incendeia,

aninha em seu interior a Eterna Vida.

.

Assim ficámos nós a conhecer o Amor!

Jesus nos amou, até a Sua vida dar!

Se Ele assim nos amou, Ele que é o Senhor,

também assim devemos os irmãos amar.

.

Se alguém, entre vós, bens materiais possuir,

vendo que seu irmão vive em necessidade,

e se recusar ao seu irmão acudir,

como permanecerá nele a Caridade?

.

Não é com palavras que devemos amar,

nem com a boca, mas com obras e verdade,

e na verdade vamos a Deus agradar,

com o nosso coração em tranquilidade.

.

Irmãos, se não nos acusar o coração,

podemos nossa confiança em Deus colocar

e receber o que pedirmos na oração,

dado que tudo fazemos para Lhe agradar.

.

Que em Jesus Cristo, Seu filho, acreditemos

é o principal mandamento que Ele nos deu,

e que uns aos outros de verdade nos amemos,

conforme o mandamento que Ele estabeleceu.

.

Todo aquele que guardar os Seus mandamentos

está em Deus e também Deus nele permanece,

sendo por isso que, em todos os momentos,

a presença de Deus em nós se reconhece.

.

Ezequiel Miguel

 .

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Salmo 32 (33) – Feliz o Povo que o Senhor escolheu para Sua herança / Esperamos, Senhor, na Vossa misericórdia

.

ceu

Vós, que sois justos, vinde o Senhor aclamar!

Vós, rectos,  puros de coração, O exaltai!

Vinde com harpa e lira salmos recitar!

Com arte e alma um cântico novo cantai!

.

A palavra do Senhor é de rectidão,

as Suas obras nascem da Sua fidelidade,

a justiça e o direito são a Sua paixão,

pela terra inteira se vê a Sua bondade.

.

Pela Palavra do Senhor foi o céu criado,

o sopro da Sua boca a beleza lhe doou,

pôs as águas do mar em recinto fechado.

O do Senhor é eterno, como o decretou.

.

Feliz a nação cujo Deus é o Senhor,

o Povo que Ele escolheu para Sua herança!

lá do Céu, Ele contempla e vê com rigor

todos os homens, com olhar que tudo alcança.

.

Do alto trono, onde o Senhor está sentado,

todos os actos do homem pode observar,

o coração do homem foi por ele moldado

e nada do que ele faz escapa ao Seu olhar.

.

Um grande exército pode o rei não salvar,

um herói não se salva por sua valentia,

é pura ilusão só no cavalo confiar,

a sua fogosidade não dá garantia.

.

Os que O temem estão sob o olhar do Senhor,

que das garras da morte liberta as suas almas;

elas, que vivem na esperança do Seu amor,

viverão, no tempo da fome, vidas calmas.

.

Quanto a nós, no Senhor, nosso Deus, esperamos,

é Ele o nosso amparo e a nossa protecção,

confiança em Seu Nome santo depositamos,

Nele exulta e se alegra o nosso coração.

.

Venha, Senhor, sobre nós, a Vossa bondade!

Dentro de nós permaneça em Ti a confiança!

Vê, não nos abandones em nenhuma idade,

pois és Tu que sustentas a nossa esperança!

.

Ezequiel Miguel

Jacinta e o segredo

pastorinhos11Lúcia – Olha lá, tu irás guardar

aquilo que é um segredo?

Não irás aos pais badalar?

Porque eu,… não sei, mas tenho medo!

.

Jacinta – Está bem! Não vou dizer nada,

vós podeis em mim confiar,

às perguntas fico calada,

sem do chão os olhos tirar!

…………………

Mãe, tenho um segredo a dizer!

Mas não vás a ninguém contar!

Vimos Nossa Senhora aparecer

sobre uma azinheira, a brilhar.

.

D. Olímpia – Viste mesmo! És uma santinha!

Já agora, diz lá como era Ela!

Jacinta –     Ela era mesmo bonitinha

e falou-nos com voz tão bela!

.

D. Olímpia – Como disse que se chamava

e o que disse Ela que queria?

Jacinta –      Ela o Seu nome não indicava,

mas em Outubro Ela o diria.

.

Quer ver-nos na Cova da Iria

neste dia, seis meses seguidos.

Quer o Rosário cada dia

e os pecadores convertidos.

…………….

Lúcia – Vês? Foste logo a badalar!

A minha mãe só diz que minto!…

E todos vão de nós troçar!…

E mal tu sabes o que sinto!

.

Francisco – Jacinta, o que foste fazer!

Já todos sabem o segredo!

Agora só temos de sofrer

o que a Senhora disse, mais cedo!

.

Lúcia – Agora vão-nos massacrar,

para tudo querer saber!

E como nos vamos livrar?

Lá temos de nos esconder!

.

Jacinta, porquê a chorar?

Logo foste aos teus pais dizer!

Agora, é só aguentar

as lágrimas que vão correr!

.

Mais alguém, além de ti, chora

com os maus tratos de sua mãe.

O que é que vais tu dizer, agora

que contigo choro também?

.

Jacinta – O que é que vós agora quereis?

Eu tinha uma coisa no peito,…

uma coisa que vós sabeis!…

Agora, o que fiz, está feito!

.

Eu estou muito arrependida!

E também muito chateada!

Agora, já estou decidida:

A ninguém vou dizer mais nada!

.

Francisco – Olha lá! Se eles te fritarem,

esconde-lhes bem o segredo!

Se, por acaso, nos matarem,

vamos para o Céu mais cedo!

.

Não lhes reveles o segredo,

pois Nossa Senhora não quer,

por isso, tu não tenhas medo,

fica pronta para o que vier!

.

Jacinta – Ai minha Nossa Senhora!

Lá vou eu para o caldeirão!

É esta a minha última hora!

Sede Vós minha salvação!

.

Ezequiel Miguel

Ó mãe, eu vi hoje Nossa Senhora!

Personagens:

.Jacinta

.Francisco

.Carolina,

.Sr Marto, pai de Jacinta e Carolina

. Olímpia, mãe de Jacinta e Carolina

.

13 de Maio de 1917

(Realidade & Ficção)

.

NSNaquele dia, os pais de Francisco e Jacinta, Sr. Marto e Srª Olímpia, tinham ido à feira da Batalha, a fim de comprarem uma marrana (porca). À tarde, lá vinham eles com o animal. Não suspeitavam eles  de algo que se escondia sob pressão no peito da pequena Jacinta, a Jacintica, conforme o sr. Marto a chamava. Jacinta aguardava ansiosamente a chegada dos pais. A mãe vinha à frente. Logo que a viu, a Jacinta corre até ela, abraça-se-lhe às pernas e despeja o que lhe vai lá dentro, indiferente ao que fora combinado com o irmão e com a prima logo após a Aparição de Nossa Senhora. A Lúcia tinha exigido segredo, eles tinham aceitado e prometido ser fiéis à promessa, mas, como em tudo, o homem propõe e Deus dispõe. O segredo continha o facto de terem visto Nossa Senhora e também a promessa que Ela lhes fizera de os levar para o Céu, duas cláusulas difíceis de serem respeitadas, porque eram de molde a fazerem rebentar o peito de um adulto, quanto mais o de uma criança de sete anos!

Jacinta – Ó mãe,  eu vi hoje Nossa Senhora na Cova da Iria!

Olímpia – Credo, filha! És uma boa santa para veres Nossa Senhora! Vá, vamos para casa e depois contas-me isso melhor.

Jacinta – Mãe, vossemecê não acredita? Mas é verdade! Eu vi-A!

Olímpia – Então, não acredito? Viste tanto Nossa Senhora como eu vi S. José e o Menino!

Jacinta – É verdade! Não estou a mentir!

Olímpia – E só tu é que A viste? E o Francisco e a Lúcia?

Jacinta – Eles também viram!

Olímpia – Mas, então, Ela veio só para se mostrar a vós? Não fez mais nada?

Jacinta – Todos nós A vimos, mas só a Lúcia é que falou com Ela. Eu vi e ouvi, mas o Francisco só viu.

Olímpia – Que coisa tão estranha! Olha, é melhor contares tudo logo ao jantar, porque todos quererão saber como isso foi. Assim, só contas uma vez!

Ao jantar:

Olímpia – Jacinta, já podes contar, mas só depois de comeres a sopa!

Jacinta – A sopa está muito quente! Não posso contar já, enquanto a sopa arrefece?

Olímpia – Não!

Jacinta – Está bem, pronto! Não falem comigo até eu comer a sopa!…

Olímpia – Ó rapariga, come isso mais devagar, que queimas a boca!

Jacinta – Não se aflija, mãe! Já não está quente!… Pronto, já acabei! Já posso começar?

Todos – Venha de lá essa história!

Jacinta – Foi assim: Nós andávamos lá naquela encosta da Cova da Iria. Andávamos a fazer um muro em volta de uma moita. De repente…

Olímpia – Então e quem era o pedreiro e os trolhas?

Jacinta – A Lúcia e eu levávamos as pedras e o Francisco fazia o muro.  Estávamos a criticar o Francisco, porque o muro ia muito torto. De repente, surgiu um relâmpago…e depois, outro…mas não se ouviam trovões, apesar de os relâmpagos estarem ali em cima de nós. Pensámos que vinha lá uma trovoada e pusemo-nos a juntar as ovelhas para virmos embora, porque tivemos medo. Ficámos todos assustados…e lembrámo-nos que em caso de trovoada não nos devemos pôr debaixo das árvores, porque pode lá cair um raio.

Olímpia – Bem pensado e bem feito!

Jacinta – Quando estávamos já ao fundo da encosta, naquela cova, vimos de repente Nossa Senhora em cima de uma azinheira pequena, mas sem pousar nela. Era uma Senhora muito linda, muito linda. Saía Dela tanta luz que nem se podia olhar para Ela, porque aquela luz cegava a gente- Ela brilhava mais que o sol. Ela trazia um Terço muito bonito e pediu que o rezássemos todos os dias, para obter a paz e fazer voltar os soldados que andam na guerra.

Olímpia – És bem doidinha! E logo Nossa Senhora ia aparecer a ti! Há tanta gente no mundo e essa sorte estava mesmo guardada para ti!

Jacinta – Não foi só para mim! Também foi para o Francisco e para a Lúcia!

Pai da Jacinta – Mas como é que vós sabeis que era Nossa Senhora? Ela disse quem era? E o que é que  Ela disse mais?

Jacinta – A Lúcia perguntou-lhe pela Amélia e pela Ana das Neves. A Senhora disse que a Ana das Neves já estava no Céu, mas que a Amélia estaria no purgatório até ao fim do mundo. Ora, se não fosse Nossa Senhora, como é que Ela sabia essas coisas? É sinal de que Ela vinha do Céu!

Olímpia – O quê? Ela disse isso? Então,… isso parece ser coisa séria! Só o Céu sabe para onde vão as pessoas que morrem. E a vós? Também vos disse que iríeis para o Céu?

Jacinta – Disse!

Olímpia – Como é que disse exactamente?

Jacinta – A Lúcia perguntou se nós os três  também íamos para o Céu e a Senhora disse que sim!

Carolina – Tu estás muito contente, mas o Francisco parece não estar a gostar nada da conversa!

Francisco – Não é por isso! A Jacinta sabe porquê. Ela está a falar demais e o que ela está a dizer era um segredo. A Lúcia também vai ficar muito chateada.

Jacinta – O que é que tu queres? Eu não sou capaz de guardar estas coisas só para mim! Se não falo, rebento!

Olímpia – Já agora, se isso era um segredo, perdido por um, perdido por mil. Conta o resto! E depois?

Jacinta – (Um pouco triste) Ela perguntou-nos se queríamos fazer sacrifícios para contentar Jesus, que está muito ofendido pelas pessoas que cometem pecados. E pediu que rezássemos pelos pecadores. Nós dissemos que sim e então Ela disse que iríamos ter muito que sofrer, mas que a graça de Deus seria o nosso conforto. Já agora, quem me diz o que é a graça de Deus?

– (Silêncio e olhando uns para os outros…)

– D. Olímpia –   Ó filha, isso é…é…Então,… é a ajuda que Deus dá a uma pessoa!

Jacinta – Mas parece que ninguém ficou contente por nós irmos para o Céu!

Sr Marto – Ó filha, nós queremos que vás para o Céu,  mas nós também queremos ir! Porque é que não pedistes à Senhora que nos levasse também a nós todos?

Jacinta – A Lúcia só perguntou por nós e ela não se lembrou de mais ninguém!… E eu também não!…Ficámos tão contentes!… Mas eu prometo que vou pedir à Senhora por vós todos!

Francisco – Mas Nossa Senhora disse que nós, antes de irmos, iríamos ter muito que sofrer e eu teria de rezar muitos Terços.  Como vamos sofrer, não sei, mas se a Senhora o disse, é porque vai mesmo ser verdade! E de onde virá esse sofrimento,…também não sei! Mas, se calhar, já começou,… por causa dessa linguaruda da Jacinta! Tenho cá um pressentimento que ela já esturrou o guisado, como diz a mãe!

Olímpia – Mas, afinal, ainda não dissestes como era essa Senhora!

Jacinta –  Era uma Senhora  tão linda, tão linda!… Tinha um vestido branco e um cordão de ouro do pescoço  ao peito…A cabeça estava coberta por um manto branco também, muito branco, não sei, mas mais branco que o leite…e tapava-A até aos pés…Era todo bordado a ouro…Ai que bonito!…Tinha as mãos juntas, assim,… Entre os dedos tinha as contas. Ai que lindo Tercinho que ela tinha,…todo de ouro, brilhante como as estrelas da noite, e um crucifixo que luzia,…luzia,…Ai que Senhora!…Falou muito com a Lúcia, mas nunca falou comigo nem com o Francisco…Eu ouvia tudo o que elas diziam…Ó mãe, é preciso rezar o Terço todos os dias!…A Senhora disse isso à Lúcia. E disse mais outras coisas  que eu agora não me lembro,  mas a Lúcia  deve lembrar-se!…Quando Ela entrou pelo Céu adentro, parece que as portas se fecharam com tanta pressa que até os pés iam ficando entalados…Era tão lindo o Céu!… (1)

Pai da Jacinta –  Bem, parece-me que tudo isso faz sentido. Se era uma mulher assim vestida, só podia ser Nossa Senhora.

Carolina – Olha lá! Vós dormistes a sesta lá na Cova da Iria? É que podeis ter tido um lindo sonho!

Jacinta – E tu achas  que sonhávamos os três ao mesmo tempo e um sonho igual para  todos?

Olímpia – Bem, na Bíblia fala-se do profeta Daniel, que tinha sonhos que depois eram reais. S. José também viu em sonhos um anjo a dizer-lhe que tomasse o Menino e sua Mãe e fugisse para o Egipto…

Jacinta – Mas nós não sonhámos! Nós vimos e ouvimos e estávamos bem acordados, porque ninguém dorme de joelhos. Nós estávamos de pé e quando vimos a Senhora pusemo-nos de joelhos e ficámos com os olhos bem abertos! Ai que Senhora tão bonita! Estamos muito contentes porque Ela prometeu levar-nos para o Céu, mas antes…

Olímpia – Francisco, é certo tudo o que a Jacinta diz?

Francisco – Ela não devia ter dito essas coisas, mas já que disse,…é tudo certo o que ela diz!

Carolina – Amanhã vamos perguntar à Lúcia! Se ela disser que não,…então alguém mente ou inventou uma linda história. Vai ser bonito uns a dizer que sim e outros a dizer que não! Eu ainda lá ia hoje, mas já é tarde.

Pai da Jacinta – Eu cá acredito que é verdade o que eles dizem. Eu nunca os apanhei em mentira. “ Desde o princípio do mundo, Nossa Senhora tem aparecido muitas vezes, de diversas maneiras…É o que vale…Se o mundo está mau, se não se tivessem dado muitos casos assim, pior estava…O poder de Deus é grande! Também não acredito que a Lúcia vá mentir. Lá em casa também sempre se ensinou que não se deve mentir. Não sabemos o que é, mas alguma coisa será…Seja o que Deus quiser!” (1)

No dia seguinte (14 de Maio):

Vizinha – Ó Maria dos Anjos, então não sabes? A Ti Olímpia disse-me que a cachopica mais nova, a Jacinta ou lá como se chama, tinha visto Nossa Senhora na Cova da Iria, mais o Francisco e a Lúcia, a tua irmã!

Maria dos Anjos – O que vossemecê me conta! Ela, lá em casa, não nos disse nada! Ontem, ao jantar, ela esteve muito calada, muito pensativa,… como se não estivesse ali. Perguntámos-lhe como tinha corrido o dia e só disse que tinha corrido bem. Quanto ao resto, aposto que não prestou atenção a nada da conversa. Comeu com pouco apetite e só de vez em quando levava comida à boca. Parecia que estava na lua! Quando lhe perguntámos se queria mais batatas, ela nem ouviu,…era como se não estivesse lá! Achámos aquilo tudo um tanto estranho, mas pensámos que se tivesse zangado com os primos e que estivesse amuada…Então…talvez fosse isso que me conta! Mas eu, quando a encontrar, já tiro os nabos da púcara! Se calhar, até sei onde ela está a estas horas. Deve estar ali debaixo de uma figueira…Já vou ter com ela! Adeus!

Debaixo da figueira:

Maria dos Anjos – Lúcia, que fazes aqui tão sozinha? Estás zangada com alguém?

Lúcia – Não! Estou sozinha porque quero estar sozinha!

Maria dos Anjos – Olha lá! Vais ser franca e responder à pergunta que te vou fazer. Ouvi dizer que tendes visto Nossa Senhora na Cova da Iria. É verdade?

Lúcia – (Após breves momentos de silêncio e atrapalhação) Quem é que to disse?

Maria dos Anjos – Ouvi dizer pelas vizinhas que a Ti Olímpia lhes contara como a Jacinta se tinha saído com esta coisa.

Lúcia – (Triste e pensativa) E tanto eu lhe pedi que o não dissesse a ninguém!

Maria dos Anjos – Mas porquê?

Lúcia – Porque não sei se era Nossa Senhora!…Era uma mulherzinha muito bonita

Maria dos Anjos – E o que é que essa mulherzinha vos disse?

Lúcia – Que queria que fossemos seis meses a fio à Cova da Iria e que depois, então, é que havia de dizer quem era e o que queria.

Maria dos Anjos – Não lhe perguntaste quem Ela era?

Lúcia – Perguntei-lhe de onde era e ela então disse-me assim: “Sou do Céu!”

Maria dos Anjos – Não disse mais nada?

Lúcia – Disse mais coisas, mas eu não quero dizer!

Maria dos Anjos – Olha, vem aí o Francisco!

Francisco – Lúcia! Então não sabes? Aconteceu uma tragédia! A linguaruda da Jacinta já contou tudo! Estamos tramados! Agora todos vão querer saber e temos de nos esconder atrás das paredes, se queremos paz e sossego! Ela estragou tudo! E agora?

Maria dos Anjos – Se a Jacinta já contou tudo, tu também podes agora contar. Acabaram-se os segredos!

Lúcia – Pronto, eu conto!  Estávamos na Cova da iria a fazer uma paredita em volta de uma moita. De repente….

Adaptado de:   João M de Marchi, ERA UMA SENHORA MAIS BRILHANTE QUE O SOL, Edição “Missões Consolata”, pgs 83 – 86,  8ª Edição, Fátima,

.

Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – I

13  de Maio de 1917

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Escolhemos nesse dia, para pastagem do nosso rebanho, a propriedade pertencente a meus pais, chamada Cova da Iria. Determinámos, como de costume, qual a pastagem do dia, junto do Barreiro…e tivemos, por isso, que atravessar a charneca, o que nos tornou o caminho dobradamente longe. Tivemos, por isso, que ir devagar, para que as ovelhinhas fossem pastando pelo caminho e chegámos cerca do meio dia”.

Da 4ª Memória da Ir. Lúcia:

“ Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria, a fazer uma paredita  em volta de uma moita, vimos, de repente, como que um relâmpago.

Lúcia -É melhor irmos embora para casa… que estão a fazer relâmpagos;  pode vir uma trovoada.

Francisco e Jacinta – Pois sim.

E começámos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos. Então Nossa Senhora disse-nos:

Virgem Maria (V.M.)- Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

Lúcia – De onde é Vossemecê?

V. M. – Sou do Céu.

Lúcia – E que é que Vossemecê me quer?

V.M . – Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.

Lúcia – Eu também vou para o Céu?

V.M. – Sim, vais.

Lúcia – E a Jacinta?

V.M. – Também.

Lúcia – E o Francisco?

V.M. – Também, mas tem que rezar muitos terços.

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com a minha irmã mais velha.

Lúcia – A Ana das Neves já está no Céu?

V.M. – Sim, está.

Parece-me que devia ter uns 16 anos.

Lúcia – E a Amélia?

V.M. – Estará no purgatório até ao fim do mundo.

Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos.

V.M. – Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

Todos – Sim, queremos!

V.M. – Ides, pois, ter muito quer sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.) que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como um reflexo que delas expedia,  penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:-“Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento”.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

V.M. – Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida começou-se a elevar serenamente, subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivos por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu “.

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Quando nessa mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos pensativos, a Jacinta, de vez em quando, exclamava com entusiasmo:

Jacinta –  Ai que Senhora tão bonita!

Lúcia –  Estou mesmo a ver… ainda vais dizer a alguém!

Jacinta –  Não digo, não! … Está descansada!

No dia seguinte, quando seu Irmão correu a dar-me a notícia de que ela o tinha dito, à noite, em casa, a Jacinta escutou a acusação sem dizer nada.

Lúcia – Vês? Eu bem me parecia! …

Jacinta– Eu tinha cá dentro uma coisa que não me deixava estar calada! ….

Lúcia – Agora não chores! E não digas mais nada a ninguém do que essa Senhora nos disse!

Jacinta – Eu já disse!

Lúcia – O que disseste?

Jacinta – Disse que essa Senhora prometeu levar-nos para o Céu!

Lúcia – E logo foste dizer isso!

Jacinta – Perdoa-me,  eu não digo mais nada a ninguém! “

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Leitura aconselhada:  Memórias da Ir. Lúcia, Vice-postulação , Fatima

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Ezequiel Miguel

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