Salmo 24 (25) – Para Vós, Senhor, elevo a minha alma

Para Vós, Senhor, elevo a minha alma!

Em Vós confio, que eu não seja confundido!

Os meus inimigos não levem sobre mim a palma,

o que espera em Vós não ficará desiludido.

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Mostrai-me, Senhor, os Vossos rectos caminhos,

pelas veredas da justiça meus passos guiai,

na Verdade caminhem meus pés direitinhos,

minha firme esperança em Vós alimentai!

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Eu espero em Vós, ao longo de todo o dia,

lembrado da Vossa inesgotável bondade!

Recordai que o Vosso amor não se esvazia,

como também não mingua a Vossa piedade!

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Não lembreis as faltas da minha juventude,

lembrai antes que sois compassivo e clemente!

Vós sois bom e recto, em Vós só há virtude,

e para os pecadores sois sempre indulgente.

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Apontais o justo Caminho aos pecadores !

As Vossas sendas são só de amor e verdade

para os que não são Vossos opositores

e não conduzem suas vidas na falsidade.

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Por causa do Vosso Nome, ó meu Senhor,

as minhas graves e enormes faltas perdoai!

Quero ser fiel à aliança do Vosso amor,

do fardo dos meus pecados me libertai!

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Pois quem é o homem que teme o Senhor?

O Senhor lhe ensinará o caminho a seguir,

viverá feliz sem nenhum medo ou terror,

a sua descendência a Terra irá possuir.

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Aos que O temem revela o Senhor Seus segredos

e dá-lhes a conhecer a sua eterna aliança,

os meus olhos estão Nele fixos, sem medos,

porque aos meus pés, contra os laços, dá segurança.

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Voltai-Vos para mim e tende compaixão,

porque estou só, infeliz e desprotegido!

Aliviai as angústias do meu coração,

livrai-me dos tormentos em que estou metido!

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Vede a minha miséria e o meu tormento

e apagai com Vosso perdão os meus pecados!

Vede dos meus inimigos o mau intento

e o ódio que me devotam, descontrolados!

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Defendei, Senhor, a minha vida e livrai-me!

De ter confiado em Vós não me envergonharei,

de total inocência e rectidão dotai-me,

de em Vós ter esperado não me arrependerei.

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Ezequiel Miguel

 

Jesus chora sobre Jerusalém

 

(Realidade e Ficção)

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Jesus e os Seus apóstolos encontram-se no Monte das Oliveiras, que fica sobranceiro a Jerusalém. Conversam animadamente, mas o rosto de Jesus deixa transparecer uma sombra de tristeza. Sentados à sombra de uma árvore, descansam das fadigas da caminhada. Sem que os Apóstolos se apercebam disso, Jesus afasta-se do grupo para um ponto mais alto e ali fica de pé a contemplar a cidade, que se aninha lá no fundo, a curta distância.

Tiago – Olhai para o Mestre! Passa-se qualquer coisa com Ele. Saiu daqui, afastou-se, não nos disse nada e parece estranho. É melhor irmos lá a ver!

João – Não! Deixemo-lO em paz. Deve estar a rezar, como já tem feito outras vezes. Ele afasta-se sempre que precisa de orar ao Pai.

Pedro – (Depois de olhar bem…) Não! Há qualquer coisa. Vamos lá!…Será que Ele está magoado com algum de nós ou com alguém da multidão? Mas nós não detectámos nenhum dos Seus inimigos! É melhor irmos até lá!…

João – Mestre, Tu estás a chorar! Que se passa?

Pedro – Mestre, quem de nós Te magoou? Foi o…? Diz-nos quem te faz chorar!

Tiago – Mestre, nós Te amamos…e sofremos com as Tuas lágrimas!

Jesus – Não sois vós que Me fazeis sofrer nem é por vossa causa que Me saem estas lágrimas. Vós sois meus amigos e espero que sempre o sejais, sobretudo na hora que se aproxima, em que a torrente do Mal vai cair sobre Mim. (Estendendo a mão na direcção de Jerusalém) Vedes esta cidade? É lá que jorra a corrupção, a maldade, o crime, a desonestidade, a hipocrisia, o desígnio de retirar o Messias do número dos vivos. Esta deveria ser a Cidade Santa, a Cidade de Deus, a Morada do Altíssimo entre o Seu Povo, porque a Santidade morava nela e veio até ela para a santificar. A ela foi concedida a honra de ser a esposa santa de um Santo Esposo, mas ela virou prostituta…e não mais se redimirá. Os rios de santidade de que fala o profeta (Ez 47, 7) deixarão de correr do Templo vivo, porque os seus habitantes O destruirão. Por ela Eu nada mais posso fazer, porque ela está corrompida até aos alicerces. O Messias veio para ela, mas ela irá ficar viúva. O seu lugar irá ser ocupado pelos pagãos, que entrarão no reino de Deus, enquanto ela ficará fora, por rejeitar o seu Messias, há tantos séculos anunciado pelos profetas.

Judas – Mestre, nós não seremos incluídos naqueles que Te vão rejeitar. Nós cremos em Ti e morreremos por Ti, se for necessário!

Todos – Sim, morreremos contigo!

Jesus – Oxalá sejais meus amigos até esse ponto! Mas vigiai e orai, pois Satanás está muito activo e nervoso, porque já falta pouco para ser derrotado e ele anda à volta de todos nós a rugir. A Mim quer impedir-Me de cumprir a vontade do Pai e a vós quer desviar-vos, para se vingar de Mim.(Olhando para Judas) Ai daquele que se deixar cair nas suas garras! Esse será para sempre maldito. (Virando-se para Jerusalém)  “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis ajuntar os teus filhos como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das suas asas e tu não quiseste. Eis que a vossa casa ficará abandonada…(Mt 23, 37-38)” E também acabarás  por matar Aquele que veio a ti para te dar a Vida!  Eu continuo orando pela tua redenção. Dentro de pouco tempo deixarás de Me ver, mas espera até ao dia em que o exército estrangeiro  te cercará e rios de sangue correrão dentro de ti.  O grandioso Templo de pedra que é a tua glória…verá a ruína total, porque recusaste a salvação que te foi oferecida. Se tu nesta hora conhecesses a mensagem de paz ! Agora, porém, isso está escondido a teus olhos. Pois dias virão sobre ti e os teus inimigos te cercarão com trincheiras, te rodearão e te apertarão por todos os lados. Deitar-te-ão por terra a ti e aos teus filhos no meio de ti e não deixarão de ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada(Lc 19 , 41- 44).

Pedro – Mestre, Tu dizes coisas terríveis sobre Jerusalém. Isso acontecerá mesmo? A cidade e o Templo serão destruídos?

Jesus – Tudo isso acontecerá ainda na vida desta geração e nos dias da ira até as mães comerão os seus filhos para não morrerem à fome. O ódio que esta cidade Me dedica cairá sobre ela, porque o ódio atrai ódio e ela beberá o cálice amargo do ódio até à última gota e ninguém terá piedade dela, porque recusou o Amor que lhe foi enviado.

João – Mestre,  o que acontecerá aos habitantes de Jerusalém?

Jesus – Uns morrerão pela espada e pela fome e outros serão levados como prisioneiros e humilhados. Nesses dias pedirão misericórdia, mas ninguém os ouvirá, porque essa hora será a hora da justiça divina ofendida. Eu choro pela Minha cidade, pela Minha Pátria e por aqueles que morrerão e se condenarão por terem atraído, com os seus pecados, tão grande tragédia.

André – Mestre, estamos assustados! Vai ser mesmo assim? Não se poderá evitar?

Jesus – Eles ainda estão a tempo, mas pensais vós que ainda seja possível?

Judas Iscariotes – Mestre, eu não conheço ninguém que queira matar-te. Não poderás retirar essa profecia horrível?

Jesus – Que contributo podes tu dar para que isso não aconteça…?

Judas corou ao ver que todos os olhares caíram sobre ele, mas ficou em silêncio.

Tiago – (Em pânico, porque Jesus já lhe tinha dito que ele seria o 1º bispo de Jerusalém). Mestre, e a nós, o que nos acontecerá?

Jesus – O Pai do Céu velará por vós, mesmo caindo mil à vossa esquerda e dez mil à vossa direita (Sl 90).

Tomé – Mas, Mestre, dás a entender que o pecado atrai punições para as pessoas, para as cidades, para os povos e para as nações.

Jesus – E dizes bem, Tomé. É mesmo assim.

Judas Iscariotes – Mas então as pessoas não poderão acusar Deus de ser vingativo? Ora, Tu ensinas que Deus é misericordioso, tolerante e compassivo (Sl 102)!

Jesus – Deus não se vinga. Deus compadece-se do homem e de todo o sofrimento que cai sobre ele desde a queda de Adão e Eva até ao fim do mundo. É o homem que provoca todas as desgraças de que é vitima, pela infracção das leis divinas, cuja gravidade arrasta a desarmonia e o caos na Natureza física e na natureza humana, pondo os homens em conflito entre si e a Natureza contra eles. Tudo isto porque o pecado vai enfraquecer os diques do Mal, seguros pela mão poderosa de Deus. Quando Deus se sente muito ofendido pelo pecado generalizado, afrouxa as amarras do Mal e este, que tem vida própria, liberta as suas forças, dando origem a guerras, pestes, pandemias, vulcões, terramotos, secas, inundações…Por isso, quando os homens virem sobre eles estas desgraças, deverão concluir que algo de errado se passa com eles, em vez de atribuírem a causa ao seu Deus. Deus não é o Autor do Mal, mas é o homem que o provoca, pois todo o pecado, e sobretudo certos tipos de pecado, clamam vingança aos Céus, tal como o sangue de Abel clamava vingança sobre Caim. Tem sido sempre assim, é assim e continuará a ser assim. A própria história de Israel o demonstra. Se evocardes o Êxodo, as derrotas de Israel, as invasões de exércitos estrangeiros, os exílios da Babilónia…tereis a confirmação de que é assim. Este Povo e as suas autoridades nunca ligaram importância aos avisos que o Senhor lhes enviava pelos profetas, desprezando também a bondade do Pai, que acabou por lhes enviar o Seu próprio Filho. É neste contexto que, ao contemplar esta cidade, o Meu coração verte lágrimas, por não poder impedir a maldição que ela já gerou, de que não posso dissociar a horrível profanação do Templo, a Casa de Meu Pai, por parte daqueles que foram lá postos para serem santos e exercerem um ministério santo.

João – Mestre, e depois da destruição do Templo? Voltará a ser reconstruído uma vez mais?

Jesus – Não! Ficarão dele uns restos para lembrar a Israel…como memorial de uma tragédia.(1) E agora, vamos!

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As mais recentes tragédias surgidas um pouco por todo o lado, ainda frescas na memória, levam-nos a perguntar sobre quantas cidades Jesus já chorou e continuará a chorar…

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(1)   – Cumprida no ano 70, sob o comando do general Tito, comandante do exército romano.

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Ezequiel Miguel

Salmo 31 (32) –Sois para mim refúgio

confissao15Feliz aquele cuja culpa foi perdoada

e cujo pecado foi por Deus absolvido!

Feliz quem o Senhor não acusa de nada,

em cujo espírito não há engano escondido.

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Enquanto me calei, meus ossos se mirraram,

pois todos os dias se encheram de vazio,

em gemidos os dias e as noites passaram,

o meu vigor se esvaiu ao calor do estio.

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A Vós, Senhor, o meu pecado confessei

e de Vós as minhas culpas não escondi.

Disse:” As minhas faltas Lhe apresentarei”

e logo eu as minhas culpas perdoadas vi.

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A Vós suplica o fiel em horas dolorosas,

nesse tempo em que o sufoca a tribulação,

mesmo que transbordem as águas caudalosas,

a ele só as águas não atingirão.

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Vós sois para mim esse refúgio seguro,

das tenazes da angústia Vós me preservais,

construí entre mim e os perigos um muro,

com cânticos de vitória me libertais.

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O caminho a seguir Eu te vou ensinar,

de olhos postos em ti serei teu conselheiro,

o cavalo e o jumento não vais imitar,

que se adaptam ao freio em uso costumeiro.

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Só deste modo, por falta de entendimento,

com o freio e o cabresto se podem domar;

de contrário, vê-los-ás fugir como o vento

quando de ti os quiseres aproximar.

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Muitos são os sofrimentos do pecador,

a quem Nele confia Deus dá protecção;

alegrai-vos, justos, exultai no Senhor

vós todos os que sois rectos de coração!

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Ezequiel Miguel

Jesus é convidado para Rei de Israel

(Realidade & ficção)

Personagens: Jesus, Samuel, doutores da Lei, sacerdotes, fariseus, anciãos, cortesãos de Herodes…

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reiSamuel era um dos amigos de Jesus, mas também um que se relacionava com Herodes e seus amigos, pois desempenhava funções na corte de Herodes, sendo lá visto como discípulo ou simpatizante de Cristo.

Por um lado, a sua casa estava à disposição de Jesus em suas andanças apostólicas, por outro, ele desempenhava funções no palácio de Herodes, tentando estabelecer um equilíbrio entre ambas as situações: Não desagradar a Cristo por causa de Herodes e da sua corte e não prejudicar Herodes por causa de Cristo. Mas Samuel, pessoa influente mesmo entre os membros do Sinédrio e das autoridades do Templo, estava incapaz de se decidir radicalmente por uma situação ou por outra, ao contrário de Susana, sua mulher, incondicionalmente discípula de Jesus.

A actividade de Cristo e a Sua pregação não deixavam nenhuma autoridade indiferente. Uns eram criticados por estarem contra Ele, outros eram criticados por não estarem a favor Dele e outros por não se definirem radicalmente a favor Dele.

Certo dia, surgiu na cabeça de alguém influente a ideia de que se deveria convidar Jesus para Rei de Israel, pois já estava provado que Ele era mesmo o Messias prometido e esperado. E, por um motivo ou por outro, era chegado o tempo de tratar do assunto e quanto mais depressa, melhor. Esta ideia começou a girar secretamente, de boca em boca, em volta de personagens bem escolhidos, com aqueles cuidados que um complot exige: reuniões secretas em locais secretos, absoluto sigilo dos conjurados, um cabecilha que coordene e vá fazendo andar o processo e uma vigilância segura. Assim se ia fazendo, não fosse o assunto levado ao conhecimento dos Romanos ou de Herodes e se deitasse tudo a perder, com a inexorável condenação à morte de todos os intervenientes.

Entre os conjurados havia fariseus, membros do Sinédrio, sacerdotes, anciãos, doutores da Lei, cortesãos de Herodes e discípulos de Jesus, públicos, meio- públicos, secretos , conhecidos ou desconhecidos de Jesus, todos unidos por esta ideia: Era tempo de restaurar o Reino de Israel, caído, humilhado e vergado ao chicote do inimigo romano. Para mais, julgando eles interpretar correctamente os Profetas, o Messias era apresentado como o Rei e o Libertador de Israel. Assim, sendo Jesus aceite como Messias, o resto viria por acréscimo. Bastaria oficializar o facto e proceder-se à unção com o óleo e consequente coroação de Jesus. Do apoio de todo o povo ninguém duvidaria, mesmo daqueles espalhados pela diáspora, e que eram muitos.

Assim como o segredo é a alma do negócio, muito mais o é no caso de uma conspiração. E chegou, finalmente, o dia em que Samuel, um dos meio-amigos poderosos de Jesus, O convidou, em nome dos outros conspiradores, para um encontro secreto de pessoas importantes na sua casa de campo, distando de Jerusalém uns quilómetros, em local insuspeito, pessoas que estavam dispostas a ouvir a Sua Palavra de Messias de Israel.

Tudo devidamente preparado, os quarenta conjurados partiram, antecipadamente, em carros puxados por bois, burros ou cavalos , separados por boas distâncias, para não levantar suspeitas, em direcção à casa de campo de Samuel. Finalmente, partiu também aquele que levava Samuel e o Mestre. Quando eles chegaram, já todos os outros os aguardavam serenamente, não tendo revelado nenhum entusiasmo pelos recém- chegados, como é próprio de uma atmosfera de conspiração, em que todos as palavras, gestos , atitudes e passos têm de ser cuidadosamente pesados, contados e medidos.

Samuel, o dono da casa, levou toda a gente para uma sala espaçosa e apresentou a Jesus todos os presentes, um por um, referindo os nomes, categorias e funções que desempenhavam, quer no Templo quer no palácio de Herodes, quer em sinagogas, tudo gente selecta, séria e respeitável a vários títulos. Cristo não precisou de ser apresentado, porque já todos O conheciam e já todos estavam a par do que fazia e do que dizia, assim como os seus conflitos com os Seus inimigos, alguns dos quais estavam ali estranhamente presentes.

Samuel, como hospedeiro de tão ilustre gente, fez o que lhe competia:

Samuel - A todos dou as boas-vindas e todos damos as boas vindas a Jesus de Nazaré, poderoso em palavras e obras, o nosso Messias prometido e profetizado, aqui presente entre nós. Todos nós agradecemos a Sua presença entre os grandes de Israel, pois a Sua sabedoria ultrapassa tudo o que sobre o assunto possamos dizer e nós estamos aqui para O ouvir, mas também para que Ele nos oriente naquilo que nós consideramos importante para Israel.

Seguiu-se a refeição, em que pouco se falou, pois o ambiente era de mútua desconfiança, em que as palavras ficaram contidas dentro de cada um. Os olhares, porém, viajavam, intrigados, de uns para os outros, de todos para Cristo e de Cristo para todos. Quando alguém falava, fazia-o em voz baixa, de modo a que só o vizinho do lado ouvisse e fosse ouvido. E assim decorreu a refeição, em ambiente sério e quase silencioso, como se todos tivessem algo a dizer, mas que não deveria ser dito. Acabada a refeição, chegou mesmo o momento de atacar o problema que tinha congregado aqueles homens. O dono da casa tomou a palavra:

Samuel – Mestre, chegou o momento de Te explicarmos o que nos levou a convidar-Te para esta reunião, assim como os cuidados que tivemos em que ela se mantivesse secreta, de modo a não chegar ao conhecimento de Herodes nem de Pilatos, pois os consideramos inimigos de Israel. Aqui, podemos falar à vontade, sem receio de que alguém, indesejado, nos ouça. Nós convidámos-Te porque Te respeitamos, veneramos, aceitamos como Messias, admiramos a tua sabedoria e o teu poder em fazer obras grandiosas, porque Deus está Contigo.

Não querendo alargar-me muito, digo apenas que, em nome do povo de Israel, oprimido e enxovalhado pelos romanos, Te convidamos para aceitares ser eleito o Rei de Israel, o Príncipe da Paz, o Libertador. Podes contar com as nossas riquezas para Te darmos um palácio real, um reinado que prestigie a nossa nação e um exército que nos restitua a dignidade, expulsando o invasor e deitando abaixo aquele antro de pouca-vergonha que é o palácio de Herodes. …Gostaria de ouvir o que tens a dizer-nos sobre esta proposta, que tem a aprovação de nós todos e de todo o Israel.

Jesus – (Silêncio)

Samuel – Então?…Já vejo que precisas de pensar. Vou dar-Te tempo para isso. Entretanto, dou a palavra a outro.

Cortesão de Herodes – Rabi, todo o Israel sabe o que se passa no palácio de Herodes, sem que ninguém seja capaz de corrigir seja o que for. É certo que temos um rei, mas não é o rei que Israel precisa. Este que temos é um rei fraco e subserviente aos romanos, que são quem realmente manda no país. É para Israel humilhante que este povo tenha chegado ao que chegou. Faltam-nos chefes e condutores da nação que imitem as antigas glórias militares de Israel. Este povo, o povo escolhido por Deus, não vive, mas vegeta como escravo. A maior parte dos cortesãos de Herodes concordam que sejas Tu aquele que merece reinar em Israel como rei soberano e sem concorrência estrangeira. Por isso, em meu nome, e no de todos os que habitamos ou trabalhamos no palácio de Herodes, fazemos-Te o solene convite para aceitares a Tua eleição para Rei de Israel, restaurando assim a antiga realeza, pois reconhecemos em Ti que vieste a este mundo para seres mesmo o Messias esperado, com o glorioso destino de ocupares o trono real em Israel. Poderás dizer-nos o que pensas sobre o assunto?

Jesus –( Silêncio)

Cortesão de Herodes – Pelo que vejo, ainda não pensaste bem no problema.

Jesus – Direi o que penso quando não houver mais ninguém para falar.

Cortesão de Herodes – Então, cedo a palavra a outro.

Ancião do povo – Na minha já avançada idade não queria despedir-me desta vida sem a minha última consolação: ver-Te instalado num palácio real digno de ti. És justo, sábio, tolerante, compassivo, tens poderes extraordinários que Deus Te deu e sabemos todos que os tens posto ao serviço do nosso povo. Tens uma sabedoria que ultrapassa a de Salomão, e Israel, dirigido por um rei a sério, seria compensado por estes anos em que gemeu sob o poder arbitrário das autoridades civis que nos têm governado, isto é, desgovernado. Eu falo em nome de todos os Anciãos de Israel, que pensam como eu e aprovam que Te convide também para assumires o trono real, mesmo que para isso tenhamos de construir um palácio real novo, de onde governarias o novo Israel, porque este parece ter sido abandonado por Yahweh. Aceita a nossa proposta e todo o Israel exultará de alegria e cantará salmos de louvor ao nosso Deus! … (Silêncio)…Então? Que respondes ao nosso convite?

Jesus –( Silêncio )

Sacerdote – Eu ouvi atentamente o que os outros disseram e concordo em absoluto com eles. Embora não sejas originário da tribo de Levi, nós te consagraremos ao sacerdócio, te nomearemos Doutor da Lei e te ungiremos com o óleo da realeza, ficando sacerdote e rei de Israel para sempre. Acho, e todos lá no Templo achamos que, em Israel, só tu és digno de ser ungido e coroado Rei de Israel. Todos nós vemos em ti o Messias Libertador que os profetas anunciam, incluíndo Anás e Caifás, os sumos sacerdotes. Eles te pedem desculpas por uma certa animosidade para contigo, talvez por informações erróneas, mas agora pensam como nós e dizem que Tu serias a honra e a glória do nosso Templo e do nosso Povo, cansado de tanto sofrimento imposto pelos profanadores das nossas coisas santas. Nós também estamos a par das Tuas obras de bem em favor dos doentes, dos pobres e dos oprimidos pelas dificuldades da vida. Já imaginaste o bem que seria termos um Rei santo, justo, poderoso, sábio, com poderes para resolver tantos problemas que afectam o nosso Povo? À semelhança dos anteriores intervenientes neste convite, aqui vai também o meu, que tem a aprovação de todos os que vivem ou trabalham no Templo….

Jesus – ( Após uns momentos de silêncio, pondo-se de pé e girando o olhar por todos os presentes) A minha resposta ao vosso convite é: Nãaooo!!! Eu sabia qual a finalidade deste nosso encontro aqui, mas vim porque já tinha prometido que vinha e também para vos mostrar que Eu não tenho medo de ninguém nas minhas actividades apostólicas. Há aqui dois tipos de pessoas: umas dizem ser meus discípulos, mas ainda compreenderam pouco sobre a minha missão em Israel; outras, como tu, ó sacerdote, tu, ó cortesão de Herodes, tu, ó Ancião do Povo,…. pura e simplesmente, mentis! Os vossos discursos e a vossa presença aqui são de mentira!

Doutor da Lei – O quê?! Acusas-nos de mentira? Vê lá como falas? Nós somos os santos de Israel. Que provas tens tu contra nós?

Jesus – Repito: Mentis!…Tanto a vossa presença como a vossa linguagem é de mentira! Nem no Templo, nem na corte de Herodes, nem os fariseus, nem os saduceus, nem os doutores da Lei, nem os sacerdotes Me aceitam como Messias! E, muito menos, Anás e Caifás! Se Me aceitassem, já teriam dados provas disso. E o que fazem? Espiam-Me, armam-Me ciladas para Me apanharem em pecado, acusam-Me de ser um agitador, um amigo de Belzebú, um comilão que come com publicanos, um que aceita conversar com meretrizes, um profanador da Lei,…e muito mais! Vós viestes aqui para me armardes mais uma cilada, preparada cuidadosamente e servindo-vos de má fé para convencer aqueles que estão do Meu lado. Eu não posso aceitar o vosso convite, porque Eu já sou Rei, mas das almas de Israel, porque o Meu reino é espiritual. Eu nunca serei ungido nem coroado Rei temporal de Israel, porque Eu já fui ungido e coroado Rei das almas, e só elas Me interessam em absoluto. Só por causa delas é que Eu vim ao mundo, disposto a pagar o preço que elas custam. Eu sou Aquele, como dizia João Baptista, que tira o pecado do mundo e também tirarei os vossos, se aceitardes a Minha Pessoa, a Minha doutrina da Boa Nova e vos arrependerdes.

Se Eu aceitasse, aqui e agora, a unção e a coroação como Rei de Israel, amanhã iríeis a correr ao Sinédrio, ao palácio de Pilatos e ao de Herodes, contando-lhes as coisas à vossa maneira, seguindo-se depois uma perseguição com efeitos para vós imprevisíveis. A Mim nada aconteceria, pois a Mim ninguém Me tirará a vida. Eu sou o Senhor da vida, da minha e da vossa, e a Minha sou Eu que a dou, quando chegar a hora, para remir a humanidade, estabelecendo neste mundo o Reino de Deus, do qual sou mesmo o Rei.

Além do mais, que seria de vós quando os romanos vos caíssem em cima e vos massacrassem como traidores a César e traidores a Herodes? Onde vos meteríeis para escapar ao massacre? Resumindo e reiterando a Minha resposta ao vosso convite, que não passa de uma armadilha: NÃAOO!… Aos meus amigos e discípulos aqui presentes censuro o facto de ainda não terem compreendido cabalmente a Minha missão e a deles, mas têm a seu favor o facto de terem sido enganados e instrumentalizados por pessoas sem escrúpulos e a mando do Sinédrio. Aos outros, só tenho de perdoar, porque não sabem o que fazem! Termino com uma pergunta final? Porque não estão aqui aqueles do Sinédrio que Me aceitam ou que não Me combatem, tais como Gamaliel, Nicodemos, José de Arimateia, Eleazar e outros? Porque esses são rectos de coração,… a sabedoria divina está com eles, tornando-os capazes de discernir o que está bem e o que está mal, o que devem ou não devem fazer, e que vêem ao perto e ao longe!…

E Jesus sai imediatamente da sala e da casa, enfia-se no meio de um canavial e abandona o local, caminhando ao longo da costa até encontrar a barca em que alguns discípulos pescam.

Entretanto, arma-se uma confusão na sala, cada grupo chamando traidores aos outros e atribuindo-se mutuamente as culpas pelo falhanço. Enquanto uns sugerem que se vá atrás de Jesus para O prenderem, outros aconselham que se Lhe peça desculpas, outros ainda sugerem que se apanhe e se feche na casa até Ele aceitar a realeza. No final, todos responsabilizam todos pelo falhanço, mas em Jesus ninguém mais põe o olho, porque, em poucos segundos, deixa os perseguidores confundidos, sem encontrarem uma explicação para aquele desaparecimento quase instantâneo.

Quando Jesus se julgou seguro, sentou-se, descansou e acalmou. Era já noite. E Jesus chorou!

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Ezequiel Miguel

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Salmo 146 (147) – É justo louvar o nosso Deus

É belo cantar hinos ao Senhor,

louvá-LO dá deleite, é saudável,

é justo celebrar o seu louvor,

porque Ele é para com todos amável.

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Jerusalém, o Teu Deus te elevou,

os dispersos de Israel reuniu,

corações dilacerados sarou

e o mal das suas feridas extraiu.

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Fixou o exacto número das estrelas,

para cada uma um nome escolheu

e brilhando no céu gostou de vê-las

a cumprir a missão que a todas deu.

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Todo poderoso e grande é o Senhor,

sem limites é a Sua sabedoria,

pobres e humildes conforta na dor,

os ímpios…,  até ao chão os envia.

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Para agradecer não tenhais língua pobre,

com a cítara hinos Lhe cantai,

em louvor vossa alma se desdobre

e agradeça a chuva que do céu cai.

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Sede gratos pela erva dos montes,

alimento certo para animais,

e pelas águas que brotam das fontes,

por estes favores e muitos mais.

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Aos filhotes do corvo dá sustento,

não se compraz na força do cavalo

nem nos pés do homem que desafia o vento,

mas em quem O tema e queira louvá-LO.

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Jerusalém, dá glória ao teu Senhor,

louva o Teu Deus e Senhor, ó Sião;

porque às tuas portas ferrolho quis pôr,

teus filhos agora abençoados são.

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Estabeleceu a paz nas tuas fronteiras,

com a flor da farinha te alimenta,

Suas ordens não esperam em fileiras

e a terra produz o que te sustenta.

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Como lã caem os flocos de neve,

como cinza se espalha a branca geada;

contra o frio quem é que se atreve,

quem pode evitar uma granizada?

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As ordens do Senhor são para cumprir

quando aos gelos dizem para derreter;

enviando o Seu vento, Ele os faz fluir

na água que toda a vida vai manter.

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A Jacob dá Suas leis a conhecer,

Israel conhece os Seus estatutos,

nenhuma outra nação tal pôde ver,

não gozando das justas leis os frutos.

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Ezequiel Miguel

Jesus em casa de Pedro

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Jesus

. Simão Pedro (= Pedro = Simão de Jonas)

Jesus encontra-se em casa de Simão Pedro. A suprema honra para os seus discípulos era conseguir que Jesus se dignasse pisar o soalho de madeira ou o piso térreo de suas casa.

Os preparativos para uma digna hospedagem do Mestre em Casa de Pedro não davam descanso a ninguém e muito menos à esposa e à sogra de Pedro, que pouco podia fazer, por motivo de doença. A doença, no entanto, não a impedia de uma permanente rabugice contra a filha e contra Pedro, de cujos motivos nenhum dos evangelistas levanta a mais leve suspeita. Se nos é permitido alvitrar algum motivo, poderemos tentar adivinhar que ela rabujava contra ele por se ausentar frequente e demoradamente de casa, por deixar a mulher tanto tempo sozinha, por deixar a barca de pesca ancorada à espera que os peixes decidissem saltar para dentro…ou ainda outro qualquer motivo, se é que precisaria de mais algum. Naquele dia, podia acusar Pedro de nada fazer na cozinha, limitando-se a comportar-se como Maria em casa de Lázaro. Neste caso, Pedro seria a Maria, a sogra e a esposa de Pedro seriam as Martas a trabalhar e a protestar. O caso também não seria para menos, pois o ilustre Hóspede não vinha ali todos os dias, embora soubesse que a casa e a barca de Pedro estavam sempre à disposição.

A engrossar o número das especulações estava o facto de a casa estar quase a ser afogada pela multidão que reivindicava ver o Mestre e cuja barulheira de vozes infectava o até agora pacato ambiente da pequena casa de Pedro em Cafarnaum. Atrevo-me a dizer que a sogra de Pedro não lhe poupava críticas azedas. Sim, porque elas vinham sempre azedas, por não mandar calar aquela multidão que as incomodava a elas e, em seu entender, também o seu Ilustre Hóspede. Foi então que Pedro, na falta de um microfone ou de um megafone ainda não existentes, tentou pacificar a multidão, pedindo e repetindo que deixassem o Mestre em paz e que respeitassem também todos os da sua casa, pois um acontecimento daqueles poderia não se repetir. Eles teriam mais ocasiões para ouvir o Mestre, por isso, exigia que se fossem embora, indicando-lhes uma certa hora para voltarem e ouvirem o Mestre. Além disso, ficaria mal a ele, Pedro, deixar o Mestre ser importunado na sua própria casa! Como de nada valeria correr aquela multidão à vassourada, Pedro queixou-se a Jesus, pedindo-lhe desculpa pelo atrevimento, falta de educação e de civismo da multidão.

Jesus – Pedro, deixa a multidão em paz. Eles têm sede e não se pode mandá-los embora sem beberem!

Pedro – Mestre, mas onde é que eu tenho bebida para toda esta gente? Não me dirás?

Jesus – Eles não querem da água em que tu estás a pensar. Eles têm sede da minha Palavra, por isso, não te preocupes com eles! Quem tiver sede de Mim poderá saciar-se!

Pedro – Logo vi, Mestre! Tu dás-me sempre a volta, ensinas, ensinas,…eu fixo tudo o que Tu dizes, mas no dia seguinte já não tenho cá nada. Sou uma cabeça de abóbora, pelada por fora, oca por dentro e ainda com dois buracos, um por onde as Tuas Palavras entram e outro por onde Elas saem.

Jesus – Não sejas tão crítico a teu respeito! Com os outros também acontece isso?

Pedro – Eu tenho falado com eles e eles dizem que também lhes acontece o mesmo. Quando tu falas às multidões, eu, pelo menos, não percebo nada; depois, quando tu nos explicas as coisas em particular, entra-me cá tudo e compreendo, mas no dia seguinte varreu-se-me tudo! Só João é que é capaz de repetir um discurso Teu de fio a pavio, às vezes até com as mesmas palavras que Tu disseste! Quem me dera ser como ele! Eu sou uma nulidade, excepto em pescar e lidar com a barca e com as redes.

Jesus – Virão melhores dias! Um dia falarás tão bem como o João e terás uma memória jovem que arquivará toda a minha doutrina, para a poderes proclamar e defender. Tu serás aquele que orientará os outros e eles deixar-se-ão orientar por ti, porque tu me substituirás e ficarás à frente do Reino de Deus na Terra!

Pedro – Eu? Nem penses! Eu seria a ruína do Teu Reino. Eu não sou capaz de dizer três palavras seguidas e tu queres fazer de mim um pregador que te substitua! A sério, por favor, isso não! Tem pena de mim! O João é aquele que é mais capaz para essa missão. Eu sou um zero à esquerda!

Jesus – Pois é, Pedro! Mas um dia serás muitos zeros à direita. Confia! Se Eu te escolhi, é porque serás capaz de cumprir aquilo que te for pedido! Eu não sou cego e vejo muito para lá do que os homens vêem. Lembra-te que os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens. Quando Eu já não estiver convosco, Roma espera por ti, pois será lá que ficará a cabeça do meu Reino. Tu e Eu, Eu e tu seremos um na direcção do meu Reino.

Pedro – Em Roma? Eu? Deus me livre! O que seria de mim a dar com a cabeça em cada esquina de Roma, por não dar com o caminho para casa! E depois,… é lá que está o Imperador! E se o Imperador me chamar lá para falar de Ti? Dá-me logo um desmaio e fico para ali como um tronco de árvore abatida! E depois,… imagina que me pedem para incensar o Júpiter!…Nem quero pensar nisso! E nem penses que eu sou capaz de converter o César! É capaz de ser mais fácil que ele…Ui! Que ideia me veio à cabeça!

Jesus – Diz lá!

Pedro - É uma ideia sinistra, aterradora… (Pedro chora…)

Jesus – Não tenhas medo! Eu estarei sempre contigo e se tu ou algum de vós for levado a tribunal, Eu vos inspirarei o que devereis dizer! Eu dar-vos-ei a força e a sabedoria necessárias em todas as situações. Quanto a ti, Eu dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus. O que ligares na Terra será ligado nos Céus e o que desligares na Terra será desligado nos Céus! Serás o Chefe da Minha Igreja, que será perseguida, difamada, caluniada, atacada por fora e também por dentro, mas as portas do inferno não levarão a melhor sobre ela, porque ela será o meu Corpo e Eu serei a sua Cabeça. Queres mais garantias, meu Pedro? Enviarei sobre vós o meu Espírito Santo, que anulará todos os vossos medos, toda a vossa ignorância, todos os receios,…e até ficareis muito felizes quando tiverdes ocasião de sofrer algo por Mim ou pela minha Doutrina. Os vossos nomes já estão inscritos no Reino dos Céus. Que mais queres, Simão de Jonas?

Pedro – Mestre, desculpa a minha fraqueza! Eu só sou forte de palavreado e de goela, sou ignorante em tudo, mas se Tu prometes tudo isso, é porque o cumprirás. Sendo assim, estou mais confiante e menos apreensivo!

Jesus – Pedro, tu, amas-me ao ponto de dares a tua vida por Mim? Ninguém me tem mais amor do que aquele que é capaz de dar a sua vida por Mim. E quem perder a vida por causa de Mim, ganhá-la-á depois, porque Eu é que sou a Verdade, o Caminho e a Vida!

Pedro – Mestre, se Tu estás comigo, de quê ou de quem hei-de ter medo?

Jesus –Vós e os vossos sucessores ireis pelo mundo a dar testemunho de Mim e Eu estarei convosco até ao fim dos séculos. Em Meu nome curareis as doenças, expulsareis os demónios, pregareis, baptizareis e convencereis o mundo pagão da Verdade que vamos instaurar por todo o lado.

Pedro – Mestre, serei indiscreto se perguntar qual a missão que destinas a cada um dos outros, incluindo o Judas?

Jesus – Estás mesmo a ser indiscreto, Simão Pedro! A seu tempo saberás!…Tu, por agora, cinges-te à tua vontade e vais para onde queres, mas um dia irás para onde não queres, outros te cingirão e estenderás as mãos…Todos dareis Glória a Deus, mas cada um à sua maneira… Mas agora, Simão, vamos contentar a multidão que está lá fora gritando por Mim. Não é necessário que os censures por Me quererem ver e ouvir. Tu estás sempre Comigo e Eu contigo, mas eles terão raras oportunidades… Diz-lhes que se concentrem na praia, pois nós vamos para a barca e é de lá, a alguma distância, que lhes falarei.

Pedro – Mestre, posso contradizer-te sem ofensa?

Jesus – Sim! Sê franco!

Pedro – Essa de Tu estares sempre comigo e eu Contigo… Eu acho que estou muito pouco tempo a sós Contigo, pois quando chegamos a algum lado Tu deixas de ser meu e dos outros, porque todos não chegamos para ordenar as multidões, dar instruções, afastar os atrevidos que não Te deixam passar, levantar aqueles que se ajoelham a Teus pés, impedir que cada um leve uma lembrança da Tua roupa, etc, etc. Por isso, hoje que estás em minha casa… A propósito, Mestre, curas a minha sogra ?

Jesus – Curo!

Pedro – E também a curas daquela rabugice crónica que põe em água a minha cabeça e a da minha mulher?

Jesus – (Sorrindo) Pedro, há nesta casa alguém que queira ser meu discípulo?

Pedro – Há! A minha mulher e eu!

Jesus – Então, quem quiser vir após Mim tome a sua cruz e siga-me!

Pedro – Mas ela frita a paciência, sobretudo à minha mulher. Se pede leite quente, depois diz que está morno. Se pede leite morno, depois diz que está frio ou quente; se pede leite frio, diz que está morno. Passa a vida a dar sentenças e nada está bem para ela. Quando vou à pesca, os peixes que pesco… ou são demasiado pequenos ou demasiado grandes; se são estes peixes deveria ter pescado outros, etc.

Jesus – E o que diz ela a teu respeito?

Pedro – Critica-me por ter casado com a filha dela e por estar muito tempo fora de casa e andar na companhia de…

Jesus – Na companhia de….?

Pedro – É melhor eu não dizer, porque é uma falta de respeito para Contigo!…Mesmo assim, queres que eu diga?

Jesus – Diz!

Pedro- Então, lá vai! Ela diz: “Andas para aí na companhia desse Galileu que ninguém sabe quem é nem de onde vem, em vez de andares na pesca e ajudares a tua mulher em casa e no campo!

Jesus – (Sorrindo) – Não será próprio da sua doença falar assim? Queres que a tua mulher te acompanhe no Reino dos Céus? Então, ela tem de levar a sua cruz. Com essa cruz ela salva-se pela paciência, pelo sacrifício, pelo silêncio, pelo perdão, pela caridade em circunstâncias difíceis,… Um dia tu escreverás isto mesmo: “Pela paciência salvareis as vossas almas!” ( Lc, 5-19).

Pedro – Não me digas que tu aceitaste o Judas para ele fazer connosco o que ela faz com a minha mulher e comigo? São os maiores resmungões que eu conheço! Tudo está mal para eles e conseguem pintar de mal as acções, as intenções e os pensamentos dos outros. Tu sabes isso muito bem, porque lês no íntimo dos corações. A minha cabeça anda sempre atravessada por pensamentos negros por causa deles. Senhor, como é que eu evito os pensamentos contra aqueles vulcões rabugentos?

Jesus – (Sorrindo) – Pedro, para onde deixas fugir o pensamento!… Não julgues, para não seres também julgado! Quanto à tua sogra, tens de esperar até que ela reconheça o seu defeito e faça um esforço sério para se corrigir. Ela não é doente da cabeça, por isso, tudo depende da sua própria vontade. É assim com ela e com todos. Eu ajudo quem se quer ajudar a si próprio e solicita a necessária ajuda. Quanto aos maus pensamentos contra o próximo, temos de ser pacientes, tentar desculpá-los, usar de alguma simpatia para com eles, sermos atenciosos, não nos irritarmos contra eles, manter o silêncio quando são agressivos para connosco, levá-los às boas,…Temos de reconhecer as ocasiões em que Satanás nos tenta para faltar à caridade para com o outro. O amor ao próximo exige tolerância e compreensão perante as suas fraquezas, embora não concordemos com elas quando elas são pecaminosas. Quanto a ti, Simão de Jonas, em certas coisas até pareces ter uma boa memória!… Ainda te lembras das palavras que Eu vos dirigi quando te chamei a ti e ao teu irmão André?

Pedro – Lembro! Disseste: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4, 19)

Jesus – E lembras-te do ” Pai-Nosso”?

Pedro – Lembro, porque o recitamos todos os dias.

Jesus – Lembras-te daquilo que Eu vos ensinei a propósito de julgar ou não julgar os outros?

Pedro – Penso que sou capaz de encarreirar esse Teu discurso. Fixei-o, porque…Tu sabes porquê! Como podemos não julgar quando nos fazem a vida negra? Isso é muito difícil de cumprir, porque nós nem sempre somos capazes de segurar o pensamento. Então, aí vai o Teu discurso: “Não julgueis para não serdes julgados, pois conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados e com a medida com que medirdes assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, tendo tu uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão”(Mt 7, 1-5).

Jesus – Muito bem, Pedro! Não estás assim tão falho de memória como dizes!

Pedro – Oh! Foi porque Tu deste uma ajudinha! Amanhã eu já não encarreiro duas linhas!

Jesus – Não te aflijas, Pedro! A aprendizagem precisa de ser lenta para ser bem mastigada e digerida. Pouco a pouco, chega-se onde é preciso chegar! Vamos curar a tua sogra e, depois, vamos pregar à multidão, a partir da tua barca!

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Ezequiel Miguel

Salmo 77(78) – Deus na História de Israel

travessia

Escutai, povo meu, que vos quero instruir!

Das minhas palavras sede atentos amigos,

que em forma de provérbios as vou proferir,

para revelar mistérios dos tempos antigos.

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Aquilo que temos de nossos pais ouvido,

o que eles, dia após dia, nos têm contado,

não deve ficar de seus filhos esquecido,

mas pelas gerações deve o Senhor ser louvado.

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Pois Ele grandes maravilhas operou,

tendo promulgado uma lei divina em Jacob.

Então, a todos os nossos pais ordenou

que a dessem aos filhos, por não ser deles só.

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Para que o soubessem as gerações seguintes

e os filhos que delas viessem a nascer;

para que estes, dos preceitos de Deus ouvintes,

os ensinassem aos seus que viessem a ter.

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Ergam-se e a seus filhos dêem a conhecer

que a sua esperança em Deus devem colocar,

que as maravilhas de Deus não são para esquecer

e que os Seus mandamentos devem observar!

.

Para que não se comportem como os seus pais,

geração contumaz, de cerviz arrogante,

sem coração recto, obstinado demais,

de espírito infiel, insubmisso e provocante.

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Os filhos de Efraim, na linha dos archeiros,

no dia do combate todos debandaram,

calcaram a Aliança como uns desordeiros,

quando à Lei de Deus fidelidade negaram.

.

Esqueceram-se das Suas façanhas gloriosas,

daqueles prodígios que outrora lhes mostrou;

perante os seus pais fez obras maravilhosas

nas planícies do Egipto, de onde Ele os tirou.

.

Dividiu o mar e o povo em seco passou,

conteve as águas, divertidas em tal jogo,

através de branca nuvem de dia o guiou

e de noite, por meio de um clarão de fogo.

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Abriu fendas nas duras rochas do deserto,

dando-lhes a beber das águas daí correntes,

fez brotar rios das pedras ali por perto,

fez correr águas em caudalosas torrentes.

.

Eles, porém, continuaram sempre a pecar

e a revoltarem-se contra Deus no deserto;

os seus corações insistiam em Deus tentar,

exigindo o alimento que julgavam certo.

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Contra o Senhor entraram em murmuração:

“Acaso poderá Deus pôr aqui a mesa?

Poderá Ele também dar-nos carne e pão?”

E água veio da rocha, qual aberta represa.

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Ao ouvir tudo isto, a ira de Deus se ateou,

contra Jacob irrompeu Sua indignação,

a Sua cólera contra Israel disparou,

por não terem confiado na Sua protecção.

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Apesar disso, às nuvens do alto imperou

para que as portas do céu deixassem abrir,

o pão do Céu como alimento então lhes doou,

mandando o Maná sobre o deserto cair.

.

Então, o pão dos fortes lhes deu a comer,

comida abundante para a todos saciar,

ao vento leste deu ordens para aparecer

e ao vento sul deu vigor para forte soprar.

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Foi então que decidiu carne lhes enviar,

abundante, como se fossem grãos de poeira,

aves numerosas como as areias do mar

caíram entre eles como o grão cai na eira.

.

Caíram as aves no meio do acampamento,

ali mesmo ao redor deles e das suas tendas;

eles comeram, sem que houvesse enfartamento,

indo o Senhor ao encontro de suas contendas.

.

Eles comeram, fartando-se à saciedade

e assim o Senhor satisfez o seu desejo;

ainda o seu apetite era de tenra idade,

quando à ira do Senhor deram novo ensejo.

.

Ainda a comida em suas bocas se desfazia,

quando o Senhor Deus contra eles se virava,

então, a morte entre os mais fortes fez razia

e aos jovens de Israel as suas vidas tirava.

.

Apesar disso, continuaram a pecar,

ousando não acreditar em Seus prodígios;

com sopro de terror fez os seus dias finar,

como os seus anos, sem deles deixar vestígios.

.

Quando os castigava, eles O procuravam

e regressavam de novo ao seu Protector;

então, de Sua protecção se lembravam

e também de que Deus era o seu Redentor.

.

Mas eles, com suas bocas, a Deus enganavam

e com suas línguas a verdade não diziam;

em seus corações a mentira proclamavam

e da fidelidade à Aliança fugiam.

.

Ele da face da Terra não os varria

e, compadecido, os pecados lhes perdoava,

a Sua cólera muitas vezes reprimia

e a Sua ira apenas em parte executava.

.

Da carne de que eram tecidos se lembrava,

assim lhes perdoando a atrevida rebelião,

um sopro fugidio que não mais regressava.

Como O contristavam naquela vastidão!

.

De novo ofendiam o Deus misericordioso,

o que o Santo de Israel muito amargurou;

esqueceram-se do Seu braço poderoso

quando da opressão do Egipto os libertou.

.

Quando os Seus milagres no Egipto realizou,

seus prodígios nos campos de Suão ostentando,

rios e regatos em sangue transformou,

imprópria para beber a água deixando.

.

Enxames de moscas, exércitos de rãs

em casas e campos os atormentaram,

os gafanhotos tornaram as culturas vãs,

das colheitas eles se apropriaram.

.

Com granizadas as suas vinhas flagelou

e também os seus sicómoros, com a geada;

febres e pestes aos seus animais enviou,

deixando os rebanhos reduzidos a nada.

.

A Sua cólera sobre eles descarregou

em calamidades, penas, desolação;

uma legião de anjos da desgraça chamou,

abrindo assim caminho à Sua indignação.

.

A Sua ira entregou-os de presente à morte,

contra a peste tiveram que lutar suas vidas,

seus primogénitos feriu de mortal sorte,

as primícias da sua raça em Cam colhidas.

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Guiou-os pelo deserto como uma manada,

como um rebanho fez o Seu povo sair,

seguros os conduziu, sem medo de nada,

vendo o mar os seus inimigos submergir.

.

Na Sua Terra Santa Ele os introduziu,

na montanha que para eles conquistou;

diante deles nações inimigas baniu

e o seu espólio em suas mãos lhes depositou.

.

Mas eles de novo o Altíssimo ofenderam

e Seus mandamentos repudiaram;

tal como seus pais, o amor ao seu Deus perderam,

como setas de arco frouxo, assim se desviaram.

.

Ofenderam-No mesmo lá no alto dos montes,

onde os seus ídolos O provocaram;

Deus ouviu, abriram-se da Sua ira as fontes

e abandonou a Tenda que Lhe levantaram.

.

Para o cativeiro deixou ir a Arca da Aliança,

deixando ao inimigo o Seu Poder e Glória,

justamente se enfureceu contra a Sua herança

e lhe negou a não merecida vitória.

.

Viram seus jovens pelo fogo devorados

e as suas virgens sem hipóteses de casar,

os seus sacerdotes pela espada passados

e suas viúvas sem lágrimas para chorar.

.

Mas o Senhor despertou como de um sono

e como de embriaguez o Seu poder surgiu:

Derrubou os inimigos, por trás, de seus tronos

e uma humilhação eterna lhes infligiu.

.

As tendas de José para sempre rejeitou

e a tribo de Efraim também não escolheu,

mas a tribo de Judá seleccionou,

o santuário de Silo para Sião deslocou.

.

Alto como o céu o Seu santuário ergueu,

como terra firme para sempre o elevou,

Seu servo David, jovem pastor, escolheu

e sobre o trono de Judá o colocou.

.

Das tarefas pastoris o quis libertar,

tirando-o do cuidado das ovelhas e crias,

para o povo de Jacob recto apascentar,

guiar, prudente, o povo de Israel por novas vias.

.

Ezequiel Miguel

.

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