Salmo 145 (146) – Ó minha alma, louva o Senhor!

Louva, minha alma, o Senhor, como é teu dever!

Por toda a minha vida o Senhor louvarei

e salmos Lhe cantarei enquanto viver,

pois dia após dia o louvor Lhe destinarei.

.

Não ponhais vossa confiança nos poderosos,

nos homens que nem a si se podem salva!

Caem mortos e voltam à terra, polvorosos,

assim ficando seus planos por realizar.

.

Feliz quem no Deus de Jacob põe sua confiança,

Ele, que tudo criou por um acto da Sua mente!

Feliz o que Nele põe a sua esperança,

pois Ele é  o nosso Deus fiel eternamente!

.

Ele garante o seu direito aos oprimidos,

liberta os cativos e aos famintos dá pão,

endireita  curvados, levanta  abatidos,

aos  cegos abre os olhos e oferece a visão.

.

Aos peregrinos o Senhor dá protecção,

aos pecadores torna o caminho penoso,

o Senhor ampara a viúva e o órfão,

Ele reinará eternamente glorioso.

.

Ezequiel Miguel

A PARÁBOLA DO RICO EPULÃO E DE LÁZARO

(Confira Lc 16,19-31)

(Realidade & ficção)

 .

Personagens: Cristo –  Narrador

.                      Epulão – Rico avarento

                       Lázaro – Pobre

                      Abraão – Patriarca

 .

lazaroJesus Cristo – “Havia um homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e fazia todos os dias esplêndidos banquetes. Um pobre, chamado Lázaro, jazia ao seu portão, coberto de chagas. Bem desejava ele saciar-se com o que caía da mesa do rico; mas eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas. Ora, o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão (Limbo). Morreu também o rico e foi sepultado. Na morada dos mortos, achando-se em tormentos, ergueu os olhos e viu, de longe, Abraão e também Lázaro no seu seio. Então, ergueu a voz e disse:

Rico Epulão – Pai Abraão, tem misericórdia de mim, envia Lázaro para molhar em água a ponta de um dedo e refrescar-me a língua, porque estou atormentado nestas chamas.

 Abraão – “ Filho, lembra-te que recebeste os teus bens em vida, enquanto Lázaro recebeu somente males. Agora, ele é consolado, enquanto tu és atormentado. Além disso, entre nós e vós há um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão pouco vir daí para junto de nós.

O rico Epulão – ” Peço-te, pai Abraão, que envies Lázaro a casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos; que os previna, a fim de que não venham também para este lugar de tormento”!

Abraão –  Têm Moisés e os Profetas; que os oiçam!”

Rico Epulão – Não, Pai Abraão! Se algum dos mortos for ter com eles, hão-de arrepender-se!

Abraão –  Se não dão ouvidos a Moisés e aos Profetas, tão pouco se deixarão convencer, se alguém ressuscitar dentre os mortos!”

.

Comentário:

  1. Sobre o pobre Lázaro não se diz se era temente a Deus, paciente, justo, amigo de Deus, mas teria de ser isso tudo, de contrário não iria para o seio de Abraão. Um pobre, se não for temente a Deus, paciente, aceitador da vontade de Deus a seu respeito, …também arrisca condenar-se, por viver revoltado e desejando mal aos ricos, porque, neste caso, não será daqueles a quem se aplicará a bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus” (Mt 5,3)

Sobre o rico Epulão  também não se diz se ele era crente, praticante, se dava esmola…mas é de crer que não era praticante e não cumpria os Mandamentos, o que se deduz da sua falta de caridade par com o pobre Lázaro.. Vestir ricamente, banquetear-se todos os dias, beber do melhor vinho, esbanjar, divertir-se, gozar esta vida como se a outra não existisse…De tudo isso consistia o seu programa diário.

  1. Este rico, como muitos outros, viveu sempre à margem das realidades espirituais, sem pensar nelas,…por serem incómodas, sem tempo para ir à sinagoga, para estudar a Lei, para rezar, para agradecer a Deus pela riqueza, sem descobrir que os ricos precisam impreterivelmente de dar esmola e praticar a caridade concreta, não se limitando a contentar-se com um pouco de compaixão pelos pobres que vivem à sua porta. Este rico nem compaixão ou coisa parecida sentiu pelo pobre Lázaro que, possivelmente, se teria contentado com os restos dos banquetes diários, que acabariam por ser lançados aos cães ou aos porcos. Este rico condenou-se ao inferno, mas poderia ter-se salvado através de Lázaro, anichado junto ao seu portão, como meio de salvação, porque “ a esmola apaga uma multidão de pecados” ( Tg 5, 19-20 ).
  1. Vem a propósito citar o que Jesus Cristo disse a respeito dos pobres: “Pobres, sempre os tereis” (Jo 12,8) E porquê? Parecerá uma heresia dizê-lo, mas os pobres são necessários para os ricos se salvarem. Não é que Deus tenha prazer ou interesse numa sociedade de pobres, mas Ele sabe que é utópico chegarmos a uma sociedade sem pobres.

Mas bastará a um rico dar uns milhões a pobres ou instituições de caridade para que tenha garantida a salvação? Não!  S. Paulo diz “Ainda que eu dê todos os meus bens aos pobres,… se não tiver Caridade (= Amor a Deus)) de nada me vale”(1 Cor 13, 3). Como é isso, então? A chave para interpretar isto está na expressão latina : “Deus Caritas est” (=Deus é Amor). Então, se se derem grandes esmolas (caridade) aos pobres e faltar o Amor a Deus,…de nada vale, porque é feito por vaidade ou interesses pessoais. E só haverá amor a Deus quando se cumprir a Sua Lei, os Seus Mandamentos, sem desvios nem interpretações pessoais oportunistas. Não sendo por amor a Deus, será por amor a si próprio, ao seu orgulho, à sua vaidade e gória, ao seu prestígio, ao seu nome, à sua memória após a morte, etc. Isso não conduz à salvação. No entanto, Deus pode alcançar para essa alma  proveito espiritual, apesar do seu acto imperfeito, concedendo-lhe posteriormente o dom da conversão e da recta intenção.

  1. Surgem as perguntas: A riqueza é uma bênção ou uma maldição, em termos de salvação eterna? A miséria de Lázaro foi uma bênção e a riqueza do rico foi uma maldição? As respostas dependem do ângulo de observação. Objectivamente falando, nem a pobreza nem a riqueza são causa de salvação ou condenação. Tudo depende do modo como se lida com elas. Ambas podem conduzir à salvação e ambas podem conduzir à condenação. A salvação exige que tanto os ricos como os pobres se transformem em “pobres em espírito”, isto é, desprendidos dos bens materiais por amor do Reino dos Céus. A única maneira que os ricos têm de mostrar esse desprendimento é praticá-lo, transformando a riqueza em bênção.

Quanto aos pobres, a sua condição de pobres não chega para se salvarem. Se não forem pobres em espírito, também desprendidos dos poucos ou nenhuns bens materiais que possuam, ficam em igualdade de circunstâncias com os ricos e, nesse caso, também poderão não se salvar. Estes são cálculos humanos, mas a Deus nada é impossível e poderá haver outros dados que entrem nas contas finais.

  1. Mas há outras contas que todo o homem tem de fazer, se quiser salvar-se, e mal irá se as não fizer. A salvação ou a condenação são tecidas nesta vida terrena, por isso, terá que entrar na chamada economia da salvação, onde somar e diminuir são as operações aritméticas principais, devendo resultar, no fim, um saldo positivo de boas obras. As boas obras, porém, só serão boas se forem marcadas pela recta intenção de agradar a Deus em tudo o que se fizer, pois o amor a Deus assim o exige. A teologia moral também diz que as boas obras cometidas em pecado grave não têm valor nesta economia da salvação. E quem está em pecado grave não está em condições de obter méritos para a salvação final. É isto o que S. Paulo diz em 1 Cor 13,3.

Pode (re)ler esta parábola em Lucas 16, 19-31. Eis algumas aplicações práticas que este episódio permite:

  1. Existem ricos que vivem à grande, gastando, fazendo do estômago o seu deus, esbanjando, sem se preocuparem com remediar necessidades alheias, mesmo que estas surjam na porta ao lado, na forma de pobreza extrema. Este rico banqueteava-se todos os dias e vestia-se de púrpura e linho.
  2. Existem pobres aos quais falta o mínimo necessário para a sobrevivência e aos quais ninguém liga importância, nem mesmo um rico vivendo ao lado…Este pobre jazia, coberto de chagas, junto ao portão do rico e eram os cães que vinham lamber-lhe as chagas…
  3. Trata-se de um caso extremo de insensibilidade à miséria extrema a que se pode chegar. Por direito divino, o supérfluo não nos pertence, mas pertence a alguém que o necessite.
  4. A morte veio tornar iguais o pobre e o rico, a única realidade que torna os homens iguais, além do nascimento.
  5. De acordo com os méritos de cada um, tiveram sorte diferente: prémio para o pobre, punição para o rico. Poderemos acusar Deus de ser injusto? É evidente que não, pois tudo o que o homem faz ou não faz depende da sua livre vontade. Aplicando isto aos cristãos, estes têm as Fontes da Verdade ao seu alcance: A Bíblia, A Tradição Apostólica e a Igreja Católica. Estas Três  Fontes estão interligadas, actuam em conjunto e completam-se totalmente, não podendo nenhuma estar em contradição com qualquer uma das outras. As Confissões chamadas protestantes devem ter isto em conta e agir em conformidade. E quanto mais depressa, melhor!…
  1. Demonstração de uma Vida Eterna para além da morte, no Inferno ou no Paraíso. Há seitas que não aceitam a realidade do Inferno, mas também há católicos que dizem que Deus não pode, pelo Seu Amor ao homem, mandar alguém para lá, porque Ele é misericordioso, bondoso, perdoa sempre, etc. Tudo isso tem algo de verdade, mas convém não esquecer que a misericórdia divina só funciona na vida terrena, e  desde que se cumpram os requisitos para a obter. Depois, é a Sua  terrível Justiça: “Ide, malditos para o fogo eterno…”!

Consulte o Catecismo da Igreja Católica sobre este assunto!

  1. Para aqueles que foram baptizados, membros, por isso, da Igreja Católica, mesmo se afastados ou não praticantes, a Misericórdia de Deus chega pela prática dos Sacramentos, sobretudo o da Confissão Sacramental (Penitência) e o da Eucaristia, associados a um arrependimento sincero e a uma firme determinação de evitar o pecado. Ninguém se deixe levar pelo “Eu, cá, confesso-me a Deus”, que é um tremendo acto de soberba que sairá muito caro. Trata-se da recusa e do desprezo de algo instituído pelo próprio Jesus Cristo, que deixou todos os meios para a salvação. Quem os não aproveita  e os despreza em vida lamentará para sempre depois da morte.
  2. O pobre foi para o Seio de Abraão ( Limbo) . O paraíso só foi aberto por Cristo após a Sua Morte, por isso, não havia lá almas humanas. Abraão, como todas as almas humanas que foram justas (santas) ficaram lá a aguardar que Jesus Cristo consumasse a redenção. É a isto que nos referimos quando dizemos no Credo: “Desceu aos infernos, subiu ao Céu…”
  3. O rico foi lançado no Hades (Xeol), ao sofrimento do fogo (Inferno).O sofrimento do fogo é a essência dos suplícios do Inferno. Trata-se de um fogo diferente daquele que nós conhecemos. Este fogo do inferno arde, faz sofrer, mas não destrói nem reduz a cinzas. Um santo a quem foi revelado este mistério, diz que seria suficiente para fazer evaporar num instante toda a água do mar. Não está ao alcance do homem a complexidade deste mistério. Releia a 3ª aparição da Virgem Maria em Fátima.
  4. O rico pediu ajuda a Lázaro: um pouco de água no dedo, para atenuar o sofrimento. Só que nem toda a água de um lago lhe reduziria o sofrimento. É um fogo espiritual que actua sobre a alma, mas também sobre os corpos dos condenados, após a ressurreição dos mortos e do Juízo Final
  5. Abraão recusa qualquer ajuda, por impossível, por falta de uma ponte. Chamamos ao Paraíso a Vida Eterna em Deus. Ao Inferno referimo-nos como sendo a Morte Eterna com os demónios. Impossível qualquer mudança temporária ou definitiva. Em ambas as vidas apenas se conjuga o verbo estar no Presente do Indicativo.
  6. O rico pede que Lázaro seja enviado à Terra para avisar os cinco irmãos de que o inferno existe, certamente por se sentir também culpado pela sorte dos irmãos, o que viria a aumentar o seu sofrimento. É uma realidade! Quem, em vida, foi causa de pecado para alguém, será também responsabilizado por esse pecado. Cristo refere-se a isso, ao dizer:” Ai daquele que levar alguém a pecar…Melhor lhe fora que o atirassem ao fundo do mar. Estou a pensar nos pecados causados por vestes femininas minúsculas, tanto em baixo como em cima, mesmo nas igrejas…
  7. Não faz parte dos planos normais de Deus enviar alguém à Terra para avisar que há Inferno, uma vez que isso faz parte da Revelação divina do Antigo e do Novo Testamento, embora se conheçam excepções, destinadas a reavivar a memória de realidades tendentes a cair cada vez mais no esquecimento…Relembremos que Nossa Senhora o mostrou, em Fátima, aos Pastorinhos. Também numerosos santos tiveram visões do inferno e deixaram-nas escritas, para que pudessem ser lidas e meditadas. Não esqueçamos as quatro últimas realidades que dizem respeito ao futuro de cada ser humano: morte, juízo, inferno, paraíso. A Igreja Católica dá-lhes o nome de “Novíssimos do Homem”.

 .                                                                                                                                                                                Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

. O INFERNO – Visões e revelações I

. O INFERNO – Visões e revelações II

. O INFERNO – Visões e revelações III

. O Inferno – Visões e revelações – IV

. Feliz serei se…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Salmo 112 (113) – Louvai o Senhor, servos do Senhor!

Louvai, servos do Senhor, o Seu Nome santo,

agora e sempre o louvor lhe seja prestado,

louvai-o quando da noite cai o manto,

desde o nascer ao pôr do sol seja louvado.

.

Excelso acima de todos é o Senhor,

acima dos céus fez a Sua glória habitar,

a igualar o nosso Deus quem se vai propor,

Ele que para a Terra baixa o Seu olhar?

.

Ao miserável oferece dignidade

para entre os príncipes do povo o sentar,

brinda a  estéril da casa com fertilidade

para  seus filhos à mesa poder contar.

.

Ezequiel Miguel

OS ALICERCES DA NOVA JERUSALÉM – VIII (TOMÉ)

crisoberilo. “A muralha da Cidade tinha doze fundamentos e sobre eles os nomes dos doze Apóstolos do Cordeiro” (Ap 21,14)

“Os alicerces da muralha da Cidade estavam incrustados com toda a espécie de pedras preciosas: o primeiro, com Jaspe, o segundo, com Safira; o terceiro, com Calcedónia; o quarto, com Esmeralda; o quinto, com Ónix; o sexto, com Sardónica; o sétimo, com Crisólito (Crisoberilo); o oitavo, com Berilo /Crisoberilo…” (Ap 21, 19-20)

 .

CRISOBERILO  (Berilo )/ / TOMÉ

.

O Crisoberilo veio

redondo, não com facetas,

risco vertical ao meio

e visível sem lunetas.

.

É seu nome Brilho de Ouro,

que vai de verde a amarelo.

Leva na vitória o louro

sobre tudo o que há de belo.

.

Eis o Pilar de Tomé

que, fundido no crisol,

de noite vermelho é,

mas verde, se à luz do sol.

.

Brilho de ouro de Tomé

na dúvida escurecia;

defronte a Jesus, de pé,

“Meu Senhor e Deus” dizia.

.

Com Jesus ressuscitado

a dúvida se desfez

e o antigo brilho dourado

com ele ficou de vez.

.

Crisoberilo assim é,

com alternância de cor,

tal como a fé de Tomé

na presença do Senhor.

.

Tem nome de Olho de Gato,

com dupla, clara metade,

tal como em Tomé o facto

de crer ou não na Verdade

.

Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

. Os alicerces da Nova Jerusalém I – JASPE / PEDRO

. Alicerces da Nova Jerusalém II – SAFIRA // ANDRÉ

. Alicerces da Nova Jerusalém III –CALCEDÓNIA // TIAGO Maior)

. Os alicerces da Nova Jerusalém IV – ESMERALDA / JOÃO

. Alicerces da Nova Jerusalém V – ÓNIX / FILIPE

. Os alicerces da Nova Jerusalém VI – SARDÓNICA // NATANIEL (Bartolomeu)

. Alicerces da Nova Jerusalém VII –Crisólito/ Mateus

Salmo 50 (51) – Dai-me, Senhor, um coração puro

ajoelhar21Por Vosso Amor, ó Deus, tende de mim piedade,

apagai minhas culpas, tende compaixão!

Lavai-me por inteiro da minha iniquidade

e purificai-me de toda a transgressão!

.

As minhas transgressões tenho sempre presente

e diante de mim está sempre o meu pecado.

Contra Vós, ó Deus, contra Vós pequei somente,

do mal feito em Vossa presença sou culpado!

.

Por isso, tendes razão quando me acusais,

reconheço que é justo o   Vosso   julgamento

e irrepreensível a sentença que me dais

para despertar em mim o arrependimento.

.

Eis que eu na culpa a este mundo fui trazido,

pois minha mãe me concebeu no pecado.

Limpai-me, depois de pelo hissopo aspergido,

e mais que a neve me deixai purificado!

.

Vós amais do coração a sinceridade

e no íntimo me ensinais a sabedoria!

Infundi em mim a Palavra da Verdade

e os meus ossos irão exultar de alegria!

.

Escondei a Vossa Face dos meus pecados

e apagai todas as minhas iniquidades!

Considerai-os no esquecimento lançados,

e deles não habitem em mim as saudades!

.

Senhor, meu Deus, criai em mim um coração puro,

renovai um espírito firme no meu peito!

Junto à Vossa Face quero estar no futuro

e no Vosso Santo Espírito de igual jeito!

.

Restituí-me a alegria da Vossa Salvação,

sustentai-me com espírito generoso!

Aos pecadores, que em caminho errado vão,

direi que voltem, pois sois misericordioso.

.

Livrai-me do sangue, meu Deus e Salvador!

Vossa justiça minha língua aclamará,

a minha voz anunciará o Vosso louvor,

pois a minha boca para isso se abrirá.

.

Vós rejeitais um sacrifício oferecido,

num holocausto não tendes satisfação,

mas agrada-Vos um espírito arrependido

a suplicar de seus pecados o perdão.

.

Ezequiel Miguel

As razões do filho pródigo – I

(Confira: Lucas 15,11-32)

 .

 ( Realidade & ficção)

 .

“Como é infame aquele que abandona o seu pai e como é amaldiçoado por Deus o que irrita a sua mãe” (Eclesiástico 3, 18)

Personagens: Pai e filho mais novo

paiefilho“Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde”.  E o pai repartiu entre os dois os seus bens…Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua …” (Lc 15, 11-13)

Não lhe faltava nada, tudo lhe corria bem. Tinha um pai rico, bondoso, compreensivo, tolerante, e um irmão trabalhador e honesto que não lhe causava qualquer complicação. Tinha tudo para uma vida calma numa casa e numa família sem problemas.

Mas há sempre um mas. Um dia,  surgiram, neste ambiente monotonamente feliz, umas  ideias que começaram a engrossar na cabeça deste filho pródigo e tanto engrossaram que, qual árvore já com raízes bem fixadas na terra, começaram a lançar ramagens e frutos, enquanto cresciam, cresciam…Finalmente, o filho mais novo deste pai, chamando-o de parte ,  expôs-lhe o que precisava de lhe  expor:

Filho  – Pai, tenho uma coisa a propor-te! Há já muito tempo que tenho na cabeça uma ideia que sempre receei expor-te, porque não vais, certamente, gostar dela. Não sei bem como começar! Não queria magoar-te, mas…

Pai – Filho, eu sempre vos estimulei a serdes francos, leais e sinceros para comigo e sempre estive disposto a ajudar-vos a resolver qualquer problema que vos afecte, pois os vossos problemas são os meus problemas e a vossa felicidade é também a minha felicidade. Por isso,…aguardo que me contes o motivo das tuas preocupações.

Filho – Custa-me dizer, mas tem que ser! Desde já peço perdão para o meu atrevimento. É que…não sei bem por onde começar! Eu… não é que me sinta mal na tua casa, mas eu queria experimentar uma nova maneira de viver, menos monótona, menos rotineira, mais independente, mais livre,  mais adulta, mais capaz de me fazer crescer como jovem e como homem,  gerindo a minha liberdade mais responsavelmente…

Pai – Mas, filho, tu sentes-te um escravo na minha casa? Eu nunca te obriguei a nada! Apenas vos tenho dito que a vida, em qualquer circunstância, está sujeita a regras que o bom senso e a educação dos filhos exigem. Eu só  quero preparar-vos para a vida e ensinar-vos aquilo que deveis aprender para serdes homens justos, trabalhadores, respeitadores, conscientes, responsáveis… Vê como o teu irmão trabalha! Eu não preciso de lhe dar ordens para ele fazer o que deve fazer. Apenas  me limito a dar-lhe conselhos quando ele mos pede!

Filho  – Pois é, pai, mas eu sempre tenho de te pedir dinheiro para satisfazer algum capricho ou comprar aquilo de que preciso. Além disso, também preciso de me divertir com os meus amigos e amigas e eu já me envergonho de te pedir dinheiro tantas vezes!

Pai – Filho, mas eu alguma vez de neguei o dinheiro que me vais pedindo? Até é a maneira de irmos conversando um com o outro e permutar confidências entre nós, pois filhos e pais precisam de conversar, para quebrar a possível frieza que se vai instalando e alimentar o amor filial e paternal.

Filho  – Pois é!…Mas , se  eu tivesse dinheiro suficiente, eu não andava sempre a pedir-te cada vez que preciso dele.

Pai – Diz-me, filho, quanto achas que precisas por mês? Eu posso conceder-te uma mesada fixa para os teus gastos, mesada essa que tu poderás gerir a teu gosto e assim já não terás que te humilhar a pedir-me, se essa é a causa do teu problema. A minha riqueza é suficientemente grande para eu não precisar de andar a fazer contas contigo. Diz só: Quanto queres mensalmente?

Filho  – Pois!…Mas, assim, criava-se outro problema. Se me desses uma mesada a mim, terias de dar outra mesada ao meu irmão, para seres justo!

Pai – Para mim isso não é problema. Vai ter com o teu irmão e discute com ele esse assunto!

Filho  – Para quê? Para que é que ele precisa de dinheiro?  Ele nem o sabe gastar!  Ele só quer trabalho, não se diverte, não reivindica nada, é um paz de alma enervante!…Nem sequer  consegue enervar-se quando eu discordo dele e ele discorda de mim! Para ele está tudo sempre bem! Ele não tem ambições e, quando morrer, vai morrer podre de rico. Eu sou diferente, tenho sangue na guelra e preciso de mudar de ambientes. Esta pacatez  enjoa-me! Por isso, tenho uma ideia a propor-te:  Dá-me a parte da herança que me pertence e eu sei o que fazer com ela!

Pai – Estás a falar a sério, filho? Nunca pensei ouvir isto de um filho meu, ao qual eu tenho dispensado, com alegria e entusiasmo, tudo o que ele precisa! Quanto ao teu irmão, a experiência mostra-me que ele é sério, trabalhador, amoroso, obediente…embora o seu feitio calmo não seja de molde a preocupar-se  com muitas coisas. Sois diferentes, mas, bem vistas as coisas, todos os homens são diferentes uns dos outros.

Filho – Sim, pai!… É isso mesmo que eu te peço! Vende a parte da minha herança e entrega-ma em dinheiro vivo! Se me amas de verdade, não poderás recusar o que te peço!

Pai – E depois, o que farás com esse dinheiro? Ficas por cá, continuas a viver na minha casa ou…?

Filho – Logo que me dês o dinheiro, partirei para longe! Quero viver a vida e satisfazer a minha ambição de liberdade e felicidade. Trabalhar já não será comigo, pois esse dinheiro será suficiente para viver desafogado sem a humilhação de pedir aquilo a que tenho direito…

Pai (limpando as lágrimas) – Ó filho, filho, o que vais fazer! Tu magoas-me, ofendes-me, entristeces-me…porque prevejo que vais ser um infeliz, um pedinte, um miserável, um órfão, um rejeitado pela sociedade, um…Pensas que é humilhante pedir-me o que precisas, mas vais ter que te humilhar para esmolar o teu sustento diário a outros, que to negarão. Passarás fome e miséria quando na casa de teu pai até os servos têm tudo em abundância…

Filho – Não será bem assim! Eu já tenho idade para gerir a minha vida como me apetecer, sem que ninguém exerça qualquer autoridade sobre mim. Os tempos agora são outros! Os pais são como os outros progenitores. Cumprem a sua missão e depois  chega o tempo de os filhos saírem do ninho e voarem  livremente no espaço infindo da vida. É esse o meu caso!

Pai – Se não posso demover-te de um passo errado, respeitarei a tua liberdade e o modo como vais servir-te dela.  Aguarda que eu possa satisfazer as tuas pretensões. Preciso de fazer contas e vender a tua herança. Depois, …recebê-la-ás em dinheiro! De qualquer modo, se  entretanto mudares de ideias, comunica-me!

Avaliada a herança, contas feitas, dinheiro no bolso, o pai chamou o filho mais novo:

Pai – Aqui está o dinheiro correspondente à tua herança!  Continuas firme na tua decisão de abandonar a casa do teu pai?

Filho – Sim, pai! Já decidi e está decidido. Não volto atrás!

Pai – Então, aqui tens esta bolsa com o dinheiro que te pertence!  Aproveito para te perguntar: E depois, quando o dinheiro acabar?

Filho – Eu sei geri-lo de modo a nunca acabar. Vou comprar e vender, aumentando assim o meu capital. Não quero mais saber desta estúpida vida  de vigiar os servos, transmitir-lhes os teus recados,  transmitir-te os deles, …e nem sequer tenho um salário para gastar a meu gosto!…Vais ver que ainda me vou tornar mais rico e tu não te envergonharás de mim!

Pai – Oxalá seja assim!…Então, filho,  não te vou dizer que espero que sejas feliz, porque… não vais ser! Em qualquer dos casos, se a vida te correr mal,…eu ficarei à tua espera todos os dias e, se decidires voltar para casa, eu cá estarei para te receber com o mesmo amor de sempre e até com mais, porque tu irás precisar de uma dose maior. Um pai é sempre pai e um filho é sempre filho!  Despede-te do teu irmão e depois…vem despedir-te de mim!

Filho – Despedir-me do meu irmão? Para quê? Ele nunca simpatizou comigo!

Pai – Filho, tu também sempre foste agressivo para com ele e também nunca apreciaste as suas qualidades. Sabes que o mal que se faz aos outros recai sobre quem o pratica. Mas agora, pelo que vejo, ficas contente por te veres livre dele!… E dos meus fiéis servos, não te despedes?

Filho – Não! Não vão eles tentar demover-me dos meus propósitos e desatar para ali a choramingar como se me vissem partir num caixão! Assim, quando o souberem, já estarei longe. Despeço-me de ti  e lamento magoar-te, mas o que tem de ser tem de ser! Adeus, pai!

Pai – Adeus, filho!

A partida foi selada pelo pai  com um efusivo ósculo e um apertado e lacrimoso abraço…

E o filho lá se foi, garbosamente montado no seu fogoso cavalo, enquanto o pai subia ao ponto mais alto da sua casa para o seguir com o olhar. Ele o foi seguindo, seguindo… até que uma curva do caminho o escondeu a seus olhos. O coração apertado pelo alicate da mágoa e da angústia era o memorial de uma tragédia não merecida, por parte de um filho a quem só prodigalizara favores e puro amor paternal. Uma planta ficara plantada no âmago do seu coração: a planta da saudade, que iria crescer até não se sabia quando…

.

(Continua)

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Ezequiel Miguel

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Artigos  relacionados:

. As razões do filho pródigo – II

. As razões do filho pródigo – III

. O Filho pródigo (Cf. Lc 15,11-24)

Salmo 89 (90) – Vós, Senhor, tendes sido o nosso refúgio

mourningSenhor, Vós tendes sido a nossa protecção,
um  refúgio  sem quebra de continuidade.
Antes que do Mundo   houvesse geração
já  Vós éreis  desde toda a eternidade.
.
Vós mandais voltar os mortais ao pó da terra
e  a todos dizeis: Voltai, filhos de Adão!
Mil anos para Vós,…tudo num dia se encerra,
o dia de ontem… que os seus olhos não mais verão.
.
Como um sonho, Vós os arrebatais da vida,
tal como a erva que de manhã reverdece,
à tarde, porém, fica murcha, ressequida,
porque, ceifada, estendida,… não mais floresce.
.
Desfalecemos, expostos à Vossa ira,
aterrados por Vossa justa indignação,
da Vossa frente ninguém as suas culpas tira,
nossos pecados ocultos…  a Vós não são.
.
Sob a Vossa ira os nossos dias passaram,
nossos anos  como um suspiro decorreram.
Os nossos anos pelos setenta se contaram
e, se robustos, os oitenta não venceram.
.
A maior parte  são trabalho e desilusão,
passam depressa e, como num voo, lá vamos…
Quem pondera o temor da Vossa indignação,
quando expostos à Vossa ira nós ficamos?
.
Ensinai-nos, Senhor, a contar nossos dias,
a nós dai a sabedoria do coração.
Até quando, Senhor, longe de nossas vias?
Para com vossos servos tende compaixão.
.
Saciai-nos pela manhã, com Vossa bondade,
para exultarmos e viver em  alegria!
Compensai-nos  os dias de intranquilidade,
os anos em que apenas desgraça se via.
.
As obra das nossas mãos nos valorizai,
nossos filhos vejam  a Vossa majestade!
Vossa  graça e favor sobre nós derramai,
actuem em nós as obras da Vossa bondade!
.
Ezequiel Miguel

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