Eu, pecador, me confesso…

O caminho dos pecadores é calcetado de pedras bem unidas, mas no final conduz ao abismo do Hades (Inferno). ( Ben-Sirá  (Eclesiástico) 21, 10 )

Em Adão todos pecámos – é o que diz S. Paulo. Qual foi o nosso pecado? Foi o pecado de Adão e Eva (o pecado original, das origens, a Queda…) porque Adão e Eva representavam toda a Humanidade, sendo eles a semente, de modo que a semente adulterada pelo pecado deu árvores e frutos também adulterados. É essa a razão que explica a sua expulsão do paraíso, para o qual estavam eles e nós destinados. Após o seu pecado, o paraíso ficou fechado, sendo reaberto por Cristo após a Sua Morte na Cruz e Ressurreição. Com a instituição do Baptismo esse pecado (original) é apagado, ficando a alma tão pura como as de Adão e Eva antes da Queda.

Essa inocência e brancura produzida pelo Baptismo vai-se, com os anos do cristão, desbotando por pequenas faltas ou pecados leves (veniais) e arruína-se por completo quando a alma cai no pecado grave (mortal), porque mata a vida divina, expulsando Deus da alma e entrando nela Satanás, porque não é possível Deus e o Diabo habitarem na alma ao mesmo tempo. Para recompor a situação, à qual se dá o nome de “viver na Graça de Deus”, Jesus Cristo deixou também um Sacramento para aqueles que chegaram ao uso da razão ( a partir dos 7 anos até à morte) e que é o Sacramento da Penitência (Confissão, Reconciliação, do Perdão…)

Os Sacramentos da Confissão (Reconciliação, Penitência) e da Eucaristia são aqueles onde se precisa de maior dose de Fé, pois ultrapassam todos os esquemas possíveis que a mente humana possa aceitar racionalmente. Para aqueles que depositam toda a explicação na Ciência, estes dois Sacramentos são muito duros de roer, quando não totalmente impossíveis, porque eles procuram explicações racionais, visíveis, palpáveis, compreensíveis…e daí não passam, porque a falta da Fé os bloqueia. A Fé baseia-se em algo muito simples: acreditar em Deus Uno e Trino e em Jesus Cristo, Verbo (Palavra de Deus) revelada aos homens. A partir daí é só ser inteiramente fiel a essa Palavra de Salvação, confiada à Igreja Católica para ser levada a todos os homens de boa vontade.

O problema dos Sacramentos, para quem os queira compreender minimamente, está em que eles pertencem às realidades espirituais, por isso, não podem ser objecto de estudos científicos e cálculos matemáticos e nenhuma maquinaria inventada pelo homem pode aqui fornecer ajuda. Em vão os biólogos, os cirurgiões, os matemáticos, os físicos nucleares, os arqueólogos, os filósofos, os cientistas,… procuram explicar o mundo espiritual. Nada conseguirão, apesar do grande desenvolvimento do conhecimento humano. O que resta então ao homem para penetrar e compreender alguma coisa daquilo que não é material, que não é medível, pesável, abarcável, palpável? Resta-lhe acreditar  em Algo e em Alguém que estejam na base e no topo, no princípio e no fim, no alfa e no ómega, nas profundidades e nas alturas…Quem tentar compreender  Deus e pô-Lo ao alcance da mente humana e dos conhecimentos científicos, bem pode bater com a cabeça nas paredes, porque é mais fácil partir a cabeça do que compreender Deus e os Mistérios que O envolvem. Assim, são mistérios, além de Deus Uno e Trino (Santíssima Trindade), a Igreja, os Sacramentos (Baptismo, Confirmação, Penitência, Eucaristia, Ordem, Santa Unção, Matrimónio), o Pecado, a Graça, a Encarnação, Vida, Paixão, Morte, Ressurreição de Jesus Cristo…o Inferno, o Paraíso…Quem não tiver Fé e não se deixar guiar na Fé pela Doutrina de Cristo e da Sua Igreja, não achará sentido  nos Sacramentos, sobretudo na Penitência e na Eucaristia .

E entre as coisas que poderão custar está certamente a Confissão, o Sacramento que nos renova, nos recria, nos limpa, nos traz de novo a vida da Graça, nos faz voltar ao abraço do Pai, após uma vida ou um período de vida indigna de filhos de Deus. . Todo o homem em pecado grave (mortal) está fora da Casa do Pai, que espera por ele num confessionário, após um arrependimento sincero e um propósito firme de emenda e fidelidade ao Pai. Se voltar a pecar, o Pai esperará novamente por ele…e assim por diante, até à morte. A diferença entre o que cai e se levanta sempre e o que cai e lá fica caído…é dada pelo próprio Deus quando diz : “O justo cai sete vezes (= está sujeito a cair muitas vezes) ao dia, mas sete vezes se levanta (= levanta-se sempre), ao passo que os ímpios desfalecerão na desgraça “(Prov 24, 16).

Onde está a dificuldade da Confissão? Talvez até seja este Sacramento a principal causa de abandono da Fé Católica. Basta ver que as numerosas seitas arrumaram logo a Confissão, passando os seus adeptos a ser adeptos práticos do “Eu confesso-me a Deus e a mais ninguém”.Humanamente falando, se eu encarar o Sacerdote como um psicólogo, um conselheiro, um amigo…não terei dificuldade em o consultar (e até pagar-lhe a consulta…), mas  confessar-lhe os meus pecados  como parte integrante do Sacramento da Confissão, poderá já não ser tão fácil, porque aí eu preciso da Fé para ver no Sacerdote o representante de Cristo e para acreditar que Cristo me perdoa através dele. Quando ele diz: “…em nome de Jesus Cristo eu te absolvo dos teus pecados. Vai em paz”, o sacerdote cumpriu um dos actos mais sublimes que se podem praticar na Terra, trazendo ao seio do Pai mais um filho pródigo. Uma outra dificuldade reside  na oposição diabólica a  uma prática correcta  da Confissão e da Eucaristia, por parte do cristão. Satanás só ajuda se for para cometer mais um pecado, através de Confissões e Comunhões mal feitas, sacrílegas.

Vem a propósito dizer que são pecaminosas (sacrílegas) as Confissões onde não haja arrependimento, promessa firme de emenda e se deixe propositadamente algum pecado grave por confessar. Toda a Comunhão em pecado mortal consciente dá origem a um pecado gravíssimo (sacrilégio), por se “comer o Corpo e Sangue do Senhor indignamente…comendo e bebendo a própria condenação” (1 Cor 11, 27-29).

Há católicos que são vítimas de uma profunda alergia  ao Sacramento da Penitência, muito empenhados em descobrir, na Bíblia ou fora dela, justificação para a sua não aceitação deste Sacramento, preferindo consolar-se com argumentos históricos sobre o uso, não uso, uso tardio…de tal Sacramento, eliminando, por comodidade e pseudo segurança pessoais, aquilo que Cristo disse quando  o instituiu, após a Ressurreição:  “Recebei o Espírito Santo, àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes ser-lhes-ão retidos “(Jo 20, 22-23).  Será possível ser mais claro? Antes da Instituição deste Sacramento era o arrependimento sincero e a confissão dos pecados a Deus o que obtinha o perdão, porque os sacerdotes do Antigo Testamento (Antiga Aliança), não tinham esse poder, que só no Novo Testamento (Nova Aliança) foi conferido aos Apóstolos e seus sucessores. Diz o Salmo 31 (32) : “Confessei-Vos o meu pecado e não escondi a minha culpa; Disse: Vou confessar ao Senhor a minha falta e logo me perdoastes a culpa do pecado”. Quando o profeta Natan foi ter com o Rei David para lhe demonstrar que tinha pecado, o Rei exclamou: “Pequei contra o Senhor!” Então o profeta garantiu: Uma vez que reconheces o teu pecado e te arrependes dele, o Senhor perdoa-te, mas muitas desgraças atingirão a tua Casa”( 2 Sam 12, 12-13), o que se cumpriu. Para as coisas continuarem como dantes, Cristo não precisaria de dizer aos Apóstolos o que disse ao fundar o Sacramento, agora também chamado  da “Reconciliação” com Deus,  com a Igreja, consigo próprio e com os outros, pois o pecado afecta negativamente a todos.

Vive perigosamente enganado quem não recorre a este maravilhoso Sacramento da Misericórdia Divina, que não lhe será facultado após a morte, arriscando condenar-se por revelar e propagandear o desprezo por algo sagrado, único, sinal valioso da Bondade de Deus para se obter a santidade, se viver uma vida sem pecado e se morrer com as culpas perdoadas. Diz o Catecismo da Igreja Católica no número 1484: “A confissão individual e íntegra e a absolvição constituem o único modo ordinário pelo qual o fiel, consciente de pecado grave, se reconcilia com Deus e com a Igreja; somente a impossibilidade física ou moral o escusa desta forma de confissão”. Foi sobretudo para serem Ministros da Penitência e da Eucaristia que Cristo instituiu os Sacerdotes (Sacerdócio Ministerial), ambos com a mesma finalidade: Remir o pecado e viver em Deus alimentando-se do Próprio Deus: “Se não comerdes a Minha Carne e não beberdes o Meu Sangue não tereis a Vida em vós” ( Jo 6, 53).  Também não se deve olhar para a pessoa do Sacerdote, um homem igual aos outros, possivelmente até mais pecador do que aquele que se vai confessar. Mas, por muito pecador que ele possa ser, ele tem o poder de perdoar em Nome de Cristo, se esse poder não lhe tiver sido retirado, por isso, depois de dizer “Eu te absolvo…”, o penitente, se a Confissão foi bem feita, vem de lá limpo. A eficácia do Sacramento não depende de quem o administra, sendo tão válido se administrado por um Sacerdote,  um Bispo, um Cardeal, um Papa, sejam eles santos ou pecadores, estejam eles em graça ou em pecado. Os Sacerdotes, se quiserem viver na graça de Deus, também têm que se confessar a outros Sacerdotes e também lhes pode acontecer  fazerem Confissões mal feitas e celebrar em pecado, o que seria para eles uma tragédia espiritual, podendo até morrer em pecado e condenarem-se, o que nos leva a concluir: É possível eles irem para o inferno, mas enviarem outros para o Paraíso. Quem não se confessa por recear que o Sacerdote vá divulgar a matéria confessada, pode estar descansado, porque o Sacerdote é obrigado a um silêncio sepulcral, total, sob pena de pecado grave, suspensão e excomunhão e é obrigado a deixar-se matar por esse silêncio, se for caso disso. Deus concede-lhe uma graça especial para serem fiéis às exigências deste Sacramento.

A ignorância religiosa e a má fé levam alguns católicos, e possivelmente todos os que abandonam a Igreja ou o recurso a este Sacramento, a pensarem que foi a Igreja, os Bispos ou os Padres que inventaram a Missa, a Comunhão, a Confissão ao Padre, etc., no que se enganam redondamente. Todos os Sacramentos (também chamados Canais da Graça) são invenção  e herança de Cristo, de cuja Paixão e  Morte tiram a sua eficácia. Por isso, somente o fazer desta ou daquela maneira é que tem mão humana, porque a Igreja tem esse poder, desde que não se mexa no essencial.

Com que frequência se deve uma pessoa confessar? Sempre que haja um pecado grave deverá apelar-se ao arrependimento sincero e consequente pedido de perdão a Deus, a que se associará a intenção firme de não repetir ou de terminar com uma situação de pecado permanente. Depois, deve ir à Confissão o mais rapidamente possível .Não havendo consciência de pecado grave, uma vez por mês seria recomendável. Se alguém quiser combater eficazmente os seus defeitos ou algum defeito dominante, um vício, uma tendência excessiva para o pecado,…não o conseguirá sem uma boa dose de humildade para reconhecer os seus erros ou defeitos ( coisa que às vezes somente os outros vêem…)  e o recurso  frequente à Confissão. Não acredite que as tendências para certos pecados são culpa dos genes… Tudo isso vem da falta de prática religiosa, oração e Sacramentos. Também a vida lhe correrá melhor se se confessar com frequência. Não há santidade sem Confissão frequente, nem perdão dos pecados sem Confissão (refiro-me aos baptizados que têm conhecimentos suficientes). Morrer sem Confissão, por desprezo e alergia a este Sacramento, é cair na impenitência final, um dos pecados contra o Espírito Santo, para os quais não há perdão, nem neste mundo nem no outro, segundo as palavras de Cristo, o que implica inevitavelmente a condenação ao inferno: “Em verdade vos digo: todos os pecados e todas as blasfémias que proferirem os filhos dos homens, tudo lhes será perdoado, mas quem blasfemar contra o Espírito Santo, nunca mais terá perdão: é réu de pecado eterno”( Mc 3, 28-29)  São  seis os pecados contra o Espírito Santo, os quais são cometidos por pura malícia  e vontade explícita de os cometer: Desesperação de Salvação, presunção de se salvar sem merecimento, negar a verdade conhecida como tal, ter inveja das mercês que Deus faz a outrem, obstinação no pecado, impenitência final.

Leitura aconselhada: Catecismo da Igreja Católica, números 1420 a 1498.

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Ezequiel Miguel

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