O Dilema de Susana – II (Dn 13, 1-64)

Para compreender melhor  o que segue, convém ler primeiramente o artigo: O Dilema de Susana – I,  do qual este artigo é continuação e conclusão.

Este é um dos episódios interessantíssimos relatados na Bíblia, o qual nos ensina tanto pela positiva como pela negativa, isto é, diz-nos, por um lado, como se deve fazer e por outro, como não se deve fazer. Está provado que fixamos melhor o que corre mal a outros… De qualquer modo, temos aqui lições que podemos aproveitar, embora vindas de origens diferentes.

1 . Fidelidade conjugal – Este episódio narrado na Bíblia é, entre outras coisas, um hino à fidelidade conjugal levada ao extremo. Nessa altura ainda não havia sido instituído o Sacramento do Matrimónio, mas as obrigações decorrentes do contrato nupcial eram já as mesmas que ainda hoje vigoram e que Deus instituiu por alturas da criação do primeiro casal, constituído por Adão e Eva  (Gen 2).

O contrato nupcial foi pensado por Deus para ser vitalício e ser feito entre um homem e uma mulher e não mais ser desfeito enquanto ambos viverem, partindo-se evidentemente do princípio de que ele foi mesmo válido. Qualquer acto que possa classificar-se em infidelidade conjugal reveste-se de extrema gravidade, dado que Deus estabeleceu as regras, o casal prometeu a Deus aceitá-las e  observá-las, custe o que custar, e até se custar a própria vida, não faltando entre os povos muitos mártires da fidelidade conjugal. Susana teve certamente o mérito de um tal martírio, embora tenha sido salva já a caminho da execução, mas a sua decisão estava conscientemente tomada. Preferir morrer, evitando pecar, continua sendo imperativo ainda nos nossos tempos. Todos os mártires passaram por essa experiência ou foram vítimas  inocentes de um qualquer  mentiroso, acusador, caluniador, perseguidor, tirano, executor de vingança, de lei política ou criminal…O seguir a Doutrina de Cristo inclui evidentemente os seus riscos, entre eles a perseguição religiosa, a difamação, a calúnia, a mentira, a prisão e também a morte. Não é nada que se ignore em toda a história do Cristianismo e se a História regista nomes de perseguidores e perseguidos, de assassinos e de vítimas,…essa História ainda não terminou e os verdadeiros discípulos de Cristo podem ter a certeza de que a sua segurança apenas reside em Deus, tal como a de Susana. De uma maneira ou de outra, perseguidores e mártires sempre houve e haverá e hoje também ainda há.

Tudo o que nas sociedades  modernas e nas mentes  dos governantes modernos sair deste esquema, que Deus estabeleceu, não passa de leis e tolerâncias humanas, pecaminosas, aberrantes,…a desafiar a justiça divina e a bradar aos Céus a punição que a seu tempo cairá sobre esta Humanidade desorientada nos comportamentos e nos valores. Ou será que essa punição não começou já, a avaliar pela situação económica, pela pobreza, pela angústia, pela incerteza, pela corrupção económica e política, pela revolta dos elementos da natureza, pela insegurança, pelos crimes de roubo e de morte, pelo terrorismo, etc., etc.? Uma sociedade que não só hostiliza Deus, mas O põe de lado como se fosse um inimigo, merecerá melhor?

Por aquilo que se diz, se ouve, se lê, se escreve,…a fidelidade conjugal, mesmo entre católicos  unidos pelo sacramento do Matrimónio, anda muito desprezada e muito esvaziada e as conversas sobre divórcios, uniões entre divorciados, amantes,…são do dia-a-dia e parecem ter-se já tornado um assunto normal. A todos os que moralmente se afundam calcando as pés o sagrado dever da fidelidade conjugal, o exemplo de Susana será proposto a todos os cônjuges, sejam eles católicos ou não, ligados por laços religiosos ou civis ou até ligados por uma promessa oral ou escrita. As leis civis que permitam a dissolução de um casal (homem e mulher), validamente unidos, não têm, perante Deus, qualquer valor. Como foi na origem (um homem e uma mulher) assim será até ao fim do mundo, mesmo que um dia os políticos decretem que um homem e uma mulher não são autorizados a casar. Chegaremos um dia aí? Já faltou mais!…

2.  Corrupção – Para além da nobreza de Susana na aceitação do martírio, para manter a fidelidade conjugal e guardar a castidade que é obrigatório guardar segundo o estado de solteiro, casado ou viúvo, ressalta à nossa vista a corrupção dos Juízes que a julgaram e condenaram com base em mentiras, testemunhos falsos e calúnias, vestindo do avesso a toga da recta justiça.

Mentiras, testemunhos falsos, calúnias, justiça comprada e vendida, testemunhas compradas e vendidas, …será alguma coisa que o mundo actual não conheça? Tudo isso faz parte do dia-a-dia, ficando tais actos sempre ou quase sempre impunes, pois a justiça humana é muito falível porque o acesso à verdade nem sempre é fácil. Pela experiência que tenho posso testemunhar que muitas pessoas, ditas católicas, são capazes de aceitar dinheiro para depor em tribunal a favor de um culpado e contra um inocente, não sentindo escrúpulos nem remorsos. Que isto não é assim tão raro e tão novo, mostra-o o autor do salmo 14(15):

Quem poderá, Senhor, habitar no Teu santuário?

Quem poderá residir na Tua montanha santa?

Aquele que leva uma vida sem mancha,

pratica a justiça e diz a verdade com todo o coração;

aquele cuja língua não levanta calúnias

e não faz mal ao seu próximo,

nem causa prejuízo a ninguém;

aquele que despreza o que é desprezível,

mas estima os que temem o Senhor;

aquele que não falta ao juramento,

mesmo em seu prejuízo;

aquele que não empresta o seu dinheiro com usura,

nem se deixa subornar contra o inocente.

Quem assim proceder não sucumbirá para sempre.

3 . Temor de Deus –  Diz o texto bíblico que Susana fora educada por seus pais no Temor de Deus e vivia no Temor de Deus. Ora, o Temor de Deus é aquela força de vontade que nós produzimos e o Espírito Santo ajuda a fortificar  para, a todo o custo, evitarmos não só o pecado mortal, mas também o venial e até as pequenas faltas. É o primeiro dos dons do Espírito Santo, o primeiro e imprescindível degrau na escadaria da santidade. Depois dele e simultaneamente com ele virão a Piedade, a Ciência, a Fortaleza, o Conselho, o Entendimento e a Sabedoria, acabando por funcionar todos ao mesmo tempo ou um com mais vigor e intensidade que os outros. Se a Susana já tinha o Temor de Deus, precisaria de pelo menos um outro para se dispor ao martírio. Esse seria e foi o dom da Fortaleza, que permite tomar decisões  heróicas em situações em que se precisa mesmo de heroísmo.

A Susana reunia todos os ingredientes para ser uma boa esposa e uma boa mãe, porque encarava a santidade no casamento como algo instituído e mandado por Deus, considerando sagrados e indestrutíveis os laços nupciais. O seu exemplo pode actuar hoje como base de meditação para os casais católicos, cujo sacramento que os uniu se vai esboroando. Lamenta-se muito esta situação por parte da hierarquia da Igreja, procuram-se explicações para o fenómeno dos divórcios, das uniões de facto, das uniões homossexuais, dos abortos provocados,…mas a explicação é mais simples do que se pensa e está nisto: nas pessoas que enveredam por estes caminhos pecaminosos falta o Temor de Deus e nos casais católicos em crise ou em vias de divórcio falta também  o Temor de Deus em ambos os cônjuges ou num só! O Matrimónio é um caminho de santidade e tem de ser visto e vivido como tal. Se este princípio falhar, pouco ou nada ficará dele. Lê-se no Salmo 127(128):

Felizes os que obedecem ao Senhor

e andam nos Seus caminhos.

Comerás do fruto do teu próprio trabalho:

assim serás feliz e viverás contente.

A tua esposa será como videira fecunda

na intimidade do teu lar;

os teus filhos serão como rebentos de oliveira

ao redor da tua mesa.

Assim será abençoado o homem

que anda na Lei do Senhor. (Sl 127, 1-4)

4. Eis a calúnia,  erigida monumentalmente, envernizada, brilhante, luminosa, segura e altiva como um farol, aqui arquitectada por dois agentes da verdade, da justiça, da honestidade, da lei de Deus e dos homens…alicerçada sobre os destroços da dignidade de uma vítima. Nada menos que dois Juízes!

A calúnia é uma mentira, mas é muito mais que isso. Ela é como uma bomba que, ao explodir, destrói, estilhaça, queima uma vítima, o seu bom nome, a sua fama, a sua vida, porque ela traz em si uma energia diabólica que, à semelhança de uma garrafa de gás ou de um tanque de gasolina, lança pelos ares os estilhaços de uma construção que, neste caso, é uma pessoa. Os estilhaços provocados pela calúnia nunca mais se reúnem para reconstruir o que foi destruído, por muito engenho e arte que se utilizem, …se é que, nestes casos, há engenho ou arte, porque tudo o vento levou.

A calúnia é uma mentira a respeito do comportamento de alguém, atribuindo-lhe algo que não fez ou não disse, geralmente em matéria grave e por vezes com consequências trágicas para os caluniados. A mentira propriamente dita consiste numa afirmação ou negação contrária à verdade e com a intenção de enganar. A difamação consiste em relatar e divulgar palavras, atitudes ou comportamentos de alguém, que poderão ser verdadeiros em si, mas que não deveriam ser espalhados, por destruir a fama, o bom nome e a dignidade dessa pessoa, pois todos têm direito a uma fama limpa e a um nome respeitável. O nome aqui representa a pessoa e ambos são um conjunto indissociável.

A calúnia feita a Susana atingiu aqui o máximo efeito que uma calúnia pode atingir, pois lhe acarretou a sentença de morte, que não chegou a ser executada porque Deus ouviu a sua oração e inspirou o profeta Daniel para um julgamento justo. Mas essa intervenção divina…quem poderá contar com ela em circunstâncias semelhantes? O normal é que a vítima carregue com as consequências, enquanto o caluniador se fica a rir, pelo menos até se arrepender, alcançar o perdão de Deus ou…deixar de rir no inferno. A vítima de uma calúnia nunca conseguirá limpar o seu nome e, se alguma coisa conseguir ficará sempre no ar  o  pó cinzento da dúvida  por duas ou três gerações, pois os pais contam aos filhos e estes aos  netos.

Que poderá o caluniado fazer? Se tiver dinheiro para tribunais e advogados, poderá ir por aí. Se não for por aí, não poderá fazer nada ou fará como a Susana, entregando a sua sorte a Deus, rezando e…deixando correr, sem se deixar abater pelo ódio, o rancor, desespero, angústia, depressão nervosa, o desejo de vingança, etc.  A outra parte da receita é libertar-se de sentimentos negativos pelo perdão pronto e incondicional. No fim de contas, Cristo disse que até os cabelos da nossa cabeça estão contados, por isso, só nos acontece aquilo que Deus permite que nos aconteça. Poderá ser uma parte ou o todo de uma cruz que se é convidado a transportar, para bem nosso e glória Sua. Não valerá a pena alguém esfarrapar-se para provar a sua inocência porque não o conseguirá. Até os familiares mais directos acabarão por acreditar nas falsidades e duvidar da inocência da pessoa caluniada. E da calúnia, assim como da mentira e da difamação, fica sempre alguma coisa, algum lume que vai ardendo… Mesmo que algum dia os tribunais terrenos lhe limpem o nome, ele nunca ficará totalmente limpo porque já foi reduzido a cinzas e das cinzas nada renasce.

Há dois tipos de caluniadores: O que planeia a calúnia a frio e a transmite a outros, que a espalham sem sequer se aperceberem do mal que fazem. O caluniador consciente planeia friamente a sua intervenção com vista aos objectivos que pretende atingir; o caluniador inconsciente limita-se a proceder ao sabor do momento, agindo sem se preocupar com nenhum tipo de consequências, sendo o seu comportamento menos grave. Ele diz, conta, relata,…o que ouviu a outros. Pouco ou nada adianta que se peça segredo… O caluniador a frio é praticamente um assassino porque da sua língua infernal sai fogo que mata um namoro, um noivado, um casamento, um amor entre esposos, um bom ambiente entre irmãos, uma amizade, uma família, uma carreira profissional ou política, um bom nome, uma boa fama, uma posição social, uma promoção,…e pode também levar alguém a uma sentença judicial que implique indemnizações, prisão ou morte. Pode até matar uma vocação religiosa ou sacerdotal. Pode ainda fomentar ódios, inimizades, desejos de vingança, assassínios, doenças mentais, pesadelos, insónias depressões nervosas, suicídios…

Não consta que algum caluniador tenha sido capaz de anular os efeitos da sua calúnia nem de indemnizar  as vítimas. Quanto a estas, elas terão que pagar o mal com o bem, uma receita nada fácil  de se cumprir, mas é Cristo que diz:     “Fazei bem aos que vos fazem mal; orai pelos que vos perseguem e caluniam; não vos vingueis; perdoai até setenta vezes sete, isto é, sempre; perdoai as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido; amai os vossos inimigos; se amais os amigos, qual é o vosso mérito? Também os pagãos fazem isso!…” Cristo é sumamente exigente para com aqueles que se decidem a segui-Lo.

5. Reacção de Susana perante a calúnia – É curiosa a maneira como Susana se defendeu da calúnia, sem que realmente tenha mesmo conseguido defender-se. Ela não diz, embora tivesse o direito de dizer: “Foram eles que me fizeram a proposta desonesta de pecar com eles e mentiram quando disseram que tinha sido um Jovem. Como eu recusei, eles vingaram-se, acusando-me falsamente. Eles são uns miseráveis mentirosos, caluniadores, etc.” Em vez disso, diz apenas: “ inventaram falsidades contra mim”, escondendo assim da assembleia o comportamento odioso e indigno dos dois Anciãos, numa prova manifesta de respeito pela autoridade de que estavam revestidos e de discrição  quanto a atitudes do próximo, que são para esconder e não para propalar aos quatro ventos. Ela podia ter acusado os acusadores, mas entregou a sua defesa nas mãos de Deus, no Qual pôs a sua confiança.  Ser acusado falsamente e ficar calmo, não reagir agressivamente, não contra-acusar, não ir buscar e rebuscar o passado, não multiplicar por mil a gravidade de qualquer facto insignificante acontecido há anos, não se descontrolar em linguagem produzida por ataques de cólera…, em suma, não faltando à caridade,…tudo isso é heróico, da parte da Susana, como será heróico de parte de qualquer um(a) de nós.  Algum(a) de nós faria hoje algo semelhante, dando assim provas de uma tal grandeza moral? Mas os santos são diferentes e são-no sempre e em tudo! Eles não ofendem quando são ofendidos, não  insultam quando são insultados, não acusam quando são acusados, são mansos perante a agressividade, não inventam ofensas, reconhecem quando erram e pedem desculpas, aceitam a correcção, quando é caso disso, sem agredir quem os corrige, não magoam quando são magoados, não falam mal de quem fala mal deles, não vão contar a outros os desabafos que ouvem, não julgam mal de ninguém, não mexericam, não se gabam daquilo que Deus faz por seu intermédio, julgam-se uns inúteis quando cumprem o dever, não buscam postos de prestígio, mas aceitam-nos humildemente para bem das almas e glória de Deus, etc.  Vivem no Temor de Deus e entregam a Deus as suas vidas, confiando Nele a toda a hora e momento.

Aí ficam as lições luminosas da casta Susana, farol da fidelidade conjugal vertendo luz em todas as direcções e em todas as épocas.

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Ezequiel Miguel

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6 comentários (+add yours?)

  1. Trackback: Cá se fazem…cá se pagam… « Deus, Bíblia e Poesia
  2. Hugo Leonardo
    Mar 21, 2013 @ 15:42:43

    Deus seja louvado, pela imensa sabedoria que demonstrastes em suas palavras! Isso pode ajudar a muitos, assim como me ajudou!

  3. Ezequiel Miguel
    Mar 24, 2013 @ 18:26:39

    Graças a Deus! Faça-se apóstolo deste blog, pois ele está pensado para ser 100% agente de apostolado, em absoluta fidelidade à doutrina tradicional da Igreja Católica.. Ajude a salvar uma alma e salvará a sua! Seja o primeiro elo de uma corrente de apóstolos. Viva e leve outros a viver! Deus esteja consigo!

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