Publicado por: Administrador | Julho 3, 2011

1ª Aparição do Anjo em Fátima – IV

“Meu Deus, eu creio, adoro-Vos, espero e amo-Vos…Peço-Vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e não Vos amam”

Amo-Vos – A oração ensinada pelo Anjo na parte que diz: “Amo-Vos” terá sido só para eles (pastorinhos) ou para todos nós também? No que se refere ao Anjo, ninguém duvida que ele falava verdade quando dizia: “Amo-Vos”. Mas os pastorinhos  estavam dispostos a amá-LO, já O amavam, amavam-NO pouco, muito, muitíssimo? Amavam-no como crianças, um tanto naturalmente, inocentemente, como é próprio de crianças nascidas, educadas e criadas num lar cristão e temente a Deus.

O problema coloca-se de modo diferente para os adultos. E nós, estaremos em condições de dizer a Deus, sem mentir: “Eu amo-Vos”? Ou teremos de concluir que aquela expressão significará: “Quero amar-Vos”, “desejo amar-Vos”, “tenciono daqui para o futuro amar-Vos mais do que até agora, começando agora como se eu estivesse no zero”?. Cristo disse:”Todo aquele que me ama, cumprirá a Minha Palavra( Jo 14,23) e   “Todo aquele que quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16, 24).Onde começa, até onde vai e termina a nossa obrigação de amar a Deus? Se nós formos pessoas de boa vontade, de uma vontade forte, recta, virada para Deus e modelada totalmente na Vontade de Deus e virada rectamemte para os Seus Mandamentos, então é certo que já começámos a  amá-Lo, o que não quer dizer que já estejamos livres de quedas. S. Paulo, apesar de estar confirmado em graça, dizia que andava com cuidado para não se condenar, ele que pregava aos outros a salvação. O primeiro degrau na subida para um amor perfeito a Deus é o Temor de Deus, que consiste na disposição da alma para evitar todo o pecado, por mínimo que seja, depois de se ter purificado  do que houver de errado até aí. Quem não tiver alcançado este primeiro degrau do Amor a Deus, não pense nem diga que ama a Deus, em cujo Amor se inclui o amor ao próximo, conforme consta dos 10 Mandamentos ( o 4º, o 5º, o 7º, o 8º…), de contrário será mentiroso, como diz o Apóstolo S. João: “Quem diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é mentiroso e nele não há verdade” (1Jo 4, 19-21).  Mas o Temor de Deus é somente o primeiro passo no amor a Deus, havendo ainda uma penosa subida até ao dom do Espírito Santo que se chama Sabedoria, no qual a alma já vive mergulhada em Deus, em íntima união com Ele.

Quando nós rezamos a oração do Anjo, não estaremos a rezar como aquele fariseu de que fala o Evangelho, que se vangloriava das suas virtudes e boas obras, em contraste com o humilde pecador publicano lá atrás? “Graças te dou, Senhor, porque não sou como os outros homens…ladrões, adúlteros…,  eu cá jejuo, dou esmola, rezo, não peco, amo-Vos…,” ( Lc 18, 9-14). Parece ser assim, mas não pode estar nas intenções do Anjo ensinar-nos uma oração em que nos exaltemos a nós próprios, nos ponhamos em nível superior, nos gabemos de modo ridículo. Quando Deus se manifesta, por Si ou  através dos Anjos, dos Santos, de Nossa Senhora, deixa normalmente uma mensagem para todo o mundo, para o povo cristão ou para parte dele, quase sempre tendente a corrigir situações de pecado ou a revelar profecias sobre acontecimentos futuros. Não é de aceitar que esta oração tenha sido destinada exclusivamente aos pastorinhos, sendo mais lógico que tenha sido também destinada a todos nós, assim como a ordem (pedido) :”Rezai assim”. E quanto a amar, quem estará em condições de garantir a si próprio que já ama como Deus quer ser amado? Mas o amor tem muitas medidas, não se contentando com ficar armazenado, rolhado, paralisado,  hermético, passivo…mas precisa de se expandir, de crescer, de aumentar até não ser possível medi-lo ou pesá-lo, dado ser Deus o seu peso, a sua medida e o seu limite. O Amor é ciumento e quanto mais ama mais quer amar e mais sente a necessidade de amar.Ele é como o vapor permanentemente alimentado por uma fonte de energia e ele é tanto mais volumoso e expansivo quanto mais enérgica for fonte da sua energia, por isso não há limites para amar a Deus.

E como sabemos qual o nosso grau de amor a Deus? S. Agostinho disse e escreveu: “Ama e faz o que quiseres”, querendo com isso dizer que o Amor a Deus torna o homem livre de qualquer escravidão, porque esse Amor não o deixa mergulhar em vícios, pecados, afeições desonestas que manchem minimamente a alma. Quanto ao” faz o que quiseres”, o Amor a Deus é um travão que impede a alma de se encaminhar pela via do Mal. Outra característica do Amor a Deus é a disponibilidade para sofrer (todos os tipos de sofrimento) e oferecer esse sofrimento a Deus para “comprar” almas pecadoras ou fazer reparação pela conversão de pecadores: “Oferecei sacrifícios para desagravar o vosso Deus, que já está muito ofendido” ou “ Vão muitas almas para o inferno por não haver quem reze e se sacrifique por elas”. Neste contexto todo o Amor que gira na órbita de Deus anda associado ao sofrimento reparador. Santa Teresa de Ávila dizia que não se importava de ir para o inferno, se lá se pudesse amar a Deus.

Mais algumas achegas para ajudar a definir o nosso grau de Amor a Deus:

  1.      Todo aquele que quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz e siga-me (Mt 16,24)
  2.      Se alguém cumprir a minha palavra, Meu Pai o amará, viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo 14, 23).
  3.      Se queres alcançar a vida eterna, cumpre os Mandamentos (Mt 19, 17)
  4.      Se queres ser perfeito, vai, vende…dá aos pobres. Depois vem e segue-me (Mt 19, 21) .
  5.      Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos (Jo 15, 15).
  6.      Quem diz que ama a Deus e não ama o seu irmão é mentiroso (1 Jo 4, 20)
  7.      Quem perder a vida por mim, salvá-la-á (Mt 10, 39)
  8.      A quem muito ama, muito lhe será perdoado (Lc 7, 47)
  9.      Hino à Caridade: ” A Caridade ( Amor a Deus) é paciente, benigna, não é invejosa, não se vangloria, não se incha de orgulho, nada faz de inconveniente, não procura o próprio interesse, não se irrita, não leva em conta as injustiças sofridas, não se alegra com a injustiça, mas congratula-se com a verdade; tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”(1 Cor 13,4-7)
  10.      Perdoa até setenta vezes sete vezes (Mt 18, 21-22).
  11.      Se guardardes os meus mandamentos sereis constantes no meu amor(Jo 15, 10).
  12.      Aquele que ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim não é digno de Mim (Mt 10,37)
  13.      Não podeis servir a Deus e ao dinheiro (Mt 6, 24

Por outro lado, quando eu digo “amo-Vos”, estou a reconhecer que sou algo/um tanto/um pouco/muito/ muitíssimo… mentiroso, porque, bem lá no fundo, reconheço que estou longe de dizer a verdade  ao meu  Deus, para Quem não há segredos dentro de mim, restando-me a consolação de dizer também como S. Pedro : “Tu sabes que te amo”, embora em pequena medida! E para aqueles que” não crêem, não adoram…” de que servirá esta oração do Anjo? Servirá de meditação, de confrontação com o tipo de vida que levam; os humildes e os de coração recto não deixarão de encontrar nela o sabor de um fruto de conversão, o que no fim de contas, se poderá aplicar até mesmo aos que “crêem… e amam” ou julgam “crer… e amar”. Mas o nosso amor a Deus pode estar viciado por um vírus, uma bactéria nociva, que  lhe inquina o sangue e não o deixa crescer de um modo sadio, uniforme e constante: é amarmos a Deus pela medo do inferno, pelo receio de perder o paraíso, pelo temor de algum castigo…Esse não é amor puro, mas é um amor interesseiro, egoísta, calculista, comercial…O amor puro, o que agrada a Deus, é o Amor que ama a Deus por Si mesmo, pelo Seu Amor desinteressado, gratuito, por nós e por ser Ele quem é: Pai bondoso, amoroso, compassivo, generoso, misericordioso, paciente, tolerante, lento para a ira, rico em bondade e fidelidade (Sl 85,15), tudo em grau para nós incompreensível e ainda porque Ele é o nosso Criador e Senhor, com direitos absolutos sobre os nossos corpos, as nossas almas, os nossos talentos, os nossos carismas, que Ele exige que ponhamos ao Seu serviço, que é também o do Próximo.

A obrigação de amar é para todos, embora haja uma maneira de amar para cada um dos estados a que pertencemos: adolescente, jovem, adulto, solteiro, casado, viúvo, religioso, sacerdote, bispo, Papa. (Relembro aqui os casos dos casados pela Igreja e que acabaram por divorciar-se, aos quais é exigido que passem a viver como se fossem  solteiros e em castidade. A coabitação com outra pessoa, como se fosse um cônjuge, passa a constituir pecado grave de adultério por parte  de ambas). A flor que simboliza estes diversos tipos e graus de amor é o amor- perfeito, que pode surgir revestida de lilás, roxo, laranja, vermelho, púrpura, branco, amarelo e azul, não sendo fácil atribuir o primeiro lugar a qualquer deles, pois todas as variedades são amores – perfeitos, belos, singulares, todos iguais embora todos diferentes. Assim é o Amor.

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

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