Publicado por: Administrador | Julho 17, 2011

Dons do Espírito Santo – II (Piedade)

Piedade

. “Na verdade, todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus.

Vós não recebestes um espírito de escravidão, para cair de novo no temor; recebestes, pelo contrário, um  Espírito de Adopção, pelo qual clamamos: “Abba, Pai”. O próprio Espírito atesta, em união com o nosso espírito, que somos filhos de Deus, filhos e igualmente herdeiros – herdeiros de Deus e co-herdeiros de Cristo – se sofremos com Ele, para sermos também glorificados com Ele”( Rom 8, 14-17).

. “Não sabeis, porventura, que o vosso corpo é templo do Espírito Santo, que habita em vós, que recebestes de Deus…?”( 1 Cor 6, 19)

Costuma dizer-se de algumas pessoas que elas são piedosas, muito piedosas, pouco piedosas, nada piedosas, querendo com isso significar o maior ou menor grau de entrega a actos de piedade religiosa, à oração, à prática sacramental, à sua presença em actos religiosos… De outras ouve-se também dizer que andam sempre na igreja, mas que, no fim de contas, são piores que as outras (que não vão à igreja?).

Muitas das críticas que se ouvem terão algum fundamento, porque o testemunho de vida que muitos cristãos dão cá fora ( se acreditarmos naquilo que se ouve ou que se vê…) é de molde a que se julgue e julgar é sempre perigoso, porque só Deus conhece o íntimo de cada pessoa. Às vezes, o que parece não é e outras vezes o que é não parece. Também isto tem a ver com o verdadeiro dom da Piedade, que não condiz com o que seja fingimento, hipocrisia, aparências, desejo de glória  ou prestígio pessoais em qualquer das actividades que tenham a ver com a prática religiosa dentro ou fora da igreja, o mesmo se podendo dizer a respeito da vida pessoal de cada um no mundo. O Dom da Piedade é um reflexo directo  e uma consequência directa do dom do Temor de Deus, aquele que leva o cristão a viver sempre na presença de Deus, fugindo de todo o tipo de pecado e das ocasiões que levam a ele.

Mas a Piedade, dom do Espírito Santo, terá pouco ou nada a ver com a religiosidade rotineira em que por vezes se cai. Distinguirei entre piedade e Piedade. A diferença parece pequena, mas talvez seja maior do que se pensa. Não é pouco frequente encontrar pessoas que andam sempre na igreja, que frequentam quase todos os actos religiosos possíveis, sem que daí tirem algum proveito espiritual. Essa piedade pode até ser mais beatismo do que piedade genuína.

Como dom do Espírito Santo, a Piedade traz-nos à memória e à vida pessoal esta realidade: Deus é constituído por três Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Pelo Baptismo, o cristão torna-se filho adoptivo de um Pai, que é Deus-Pai, com direito à sua Herança, que é Ele mesmo, o paraíso. A partir do Baptismo, como filho adoptivo do Pai, estabelece-se uma  relação de filho para Pai e de Pai para filho. Só que este Pai é um Pai super amoroso, que ama os Seus filhos com um Amor inigualável, acima do que se possa imaginar, atento ao que se passa com todos os Seus filhos tanto na ordem material como na ordem espiritual. Ele se encarrega de dar aos Seus filhos tudo o que é necessário, desde que eles se lembrem de corresponder com um amor filial para pagar esse amor paternal que nos dispensa durante toda a nossa vida, o que os Salmos traduzem tão singelamente quando insistem que a  bondade, a misericórdia e a fidelidade de Deus duram para sempre. São atributos de um Pai que quer ser reconhecido, tratado, louvado  e amado como tal, porque Nele está a plenitude dos direitos sobre nós, provenientes da plenitude da Sua Paternidade. Por outro lado, do lado daquele que recebeu o Baptismo recaem todos os direitos e deveres que esta filiação adoptiva traz consigo. Se, para Deus, é próprio da Sua essência ser Pai, para nós isso já não é tão simples e tão fácil aceitar e demonstrar, pela vida que levamos, que somos filhos adoptivos e que aceitamos plenamente essa filiação, juntamente com os direitos que ela nos concede  e com os deveres que ela nos impõe. Mas é aqui também que entra em acção o Espírito Santo, através do dom da Piedade, não de uma forma automática, mas com a aceitação plena da nossa filiação divina. Isso tem que nos levar, necessariamente, a procurar saber exactamente o que Deus quer de nós e a fazer um esforço no sentido de corresponder a essa vontade do Pai, que se pode manifestar em qualquer uma das circunstâncias, positivas ou negativas, em que a nossa vida terrena é fértil. É então que o Espírito Santo vem em nossa ajuda, porque nós queremos e fazemos realmente por isso.

Jesus Cristo demonstrou que sobre Ele repousaram  e repousam todos os dons do Espírito Santo, entre eles o dom da Piedade, pois ninguém como Ele viveu uma relação tão íntima, intensa e contínua com o Pai, chegando a dizer que o Seu alimento era fazer a vontade do Pai (Jo 4, 34) em tudo, por isso Ele foi e é o Piedoso por excelência. Toda a Sua vida foi uma oração contínua, uma prontidão inteira para escutar a voz do Pai e para Lhe dirigir permanentes louvores e acções de graças, tudo por intermédio do Espírito Santo. Para se invocar e reconhecer Deus como Pai precisa-se da acção do Espírito Santo. S. Paulo também escreveu que  quando oramos, o fazemos por intermédio do Espírito Santo, sendo Ele até que nos substitui com gemidos de ternura para com o Pai, ao Qual somos capazes de dizer, por seu intermédio: “Abbá, Pai!” Outro modelo foi a Virgem Maria, a cheia de Graça, a cheia dos dons do Espírito Santo, tanto quanto é possível a um ser humano.

Família de Deus – Uma vez que o Baptismo nos transforma em filhos adoptivos de Deus, acabamos por ficar irmãos de Jesus Cristo, também irmãos de todos os cristãos, irmãos dos não-cristãos, embora de maneira diferente, o que, em termos práticos, equivale a dizer que pertencemos à família de Deus (Rom 8,17). A importância deste acontecimento deveria, em minha opinião, levar-nos a festejar, não o nosso nascimento corporal, mas o nosso outro nascimento – o  Baptismo. Pelo nascimento corporal nascemos para um vida corporal, mas pelo Baptismo nascemos  para a vida divina, para a família de Deus, o que tem um valor incalculavelmente superior, diferente e de um alcance que se prolonga na eternidade da vida futura, a vida eterna em Deus.

Efeito relevante do dom da Piedade é também a capacidade de olharmos para as pessoas e para as coisas como propriedade de Deus, Criador de tudo. Assim, são de Deus todos os homens, todas as coisas e toda a Natureza. No caso dos homens, o cristão sentirá que todos os homens são seus irmãos e que Deus-Pai exige que os trate como tal, o que quer dizer que tentará não os prejudicar de nenhum modo, nem no corpo nem na alma, nem nos seus bens, o que exige a prática da caridade (amor de Deus) em palavras, obras, pensamentos e desejos, isto é, amar o Próximo na qualidade e na medida que Cristo nos deixou: “Era uma vez um Samaritano…Vai e faz o mesmo! (Lc 10, 25-37) ; “Não julgueis para não serdes julgados “(Mt 7, 1-5);  “ Não condeneis para não serdes condenados” (Lc 6, 37-38); “ Não resistais àquele que vos faz mal”( Mt 5, 38-39) ; “Se emprestardes dinheiro a alguém, não lho reclameis!” (Lc 6, 30); “Quem não ama o seu irmão não ama a Deus”  (1 Jo 4,20).

Como Seus filhos, o Pai também deposita em nós as Suas complacências, tal como revelou com o Seu Filho natural, Jesus Cristo, por ocasião do Seu Baptismo no Jordão (Mt 3,17). Também sobre o baptizando desce o Espírito Santo, embora não se deixe ver, e passa a viver nele, fazendo dele um Templo do Deus vivo, onde se louva e adora a Deus em Espírito e Verdade. Esta presença mantém-se viva e activa enquanto não for expulsa pelo pecado ou pela renúncia às exigências  inerentes ao Baptismo. Talvez seja a oportunidade para lembrar aqui essa raça estranha daqueles que se intitulam católicos não praticantes…esses que atiraram  ao vento a sua filiação divina por não lhe atribuírem valor algum. Que dizer de alguém que se filiou num partido, num clube, pagou a quota de inscrição e depois não mais quis saber nem de direitos nem de deveres ? Assim é o católico não praticante. O Baptismo funcionou como inscrição e respectiva quota, depois…ele  renega a sua filiação divina e a Paternidade divina de Deus-Pai. Tudo funciona como uma traição, um corte de relações filho-Pai, um pródigo altivo e soberbo que fecha os sete canais por onde deveriam chegar até ele os dons do Espírito Santo, neste caso, o dom da Piedade, que o faria sentir-se filho de Deus e sentir Deus como Pai, o que faz dele um pobre órfão de Pai.

As coisas do Pai -Pelo dom da Piedade, o cristão sabe e sente  que Deus é seu Pai e que ele é Seu filho, por isso, ele transforma-se num agente de perene louvor ao Pai, um Lausperene, resultante de uma piedade fervorosa, sentida, verdadeira, em que a oração, os actos de piedade, os actos litúrgicos, são uma alegre e sentida devoção e não uma incómoda obrigação. O Pai-Nosso passa a ser rezado de outro modo, mais lento, mais pensado, mais meditado, mais saboreado, mais sentido, mais terno, mais confiante, extraído mais lá do fundo do coração… O cristão também sabe que o Pai é o Criador, o Autor de toda a Criação, por isso, ele a respeita, a defende, a protege, em resultado de uma consciência ecológica incentivada pelo dom da Piedade, que lhe diz que se deve respeitar tudo o que é do Pai ou tem a ver com o Pai.”Tenho de me ocupar com as coisas que são de meu Pai “(Lc 2, 49); “Fizestes da Casa de meu Pai um covil de ladrões “ (Mc 11,17); “Graças Te dou ó Pai, porque assim foi do teu agrado” (Lc 10, 21);  “O Pai faz nascer o sol e cair a chuva para todos” (Mt 5, 45).

Também são coisas do Pai a obrigação de nos preocuparmos com a nossa santificação, porque essa é a Sua vontade a nosso respeito (1 Ts 4,3), assim como a obrigação de perdoarmos as ofensas que nos são feitas: “Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido (Mt 6,12). Este tema do perdão das ofensas, esta obrigação de perdoar sempre e a todos e de modo incondicional e ficar ainda sem rancores nem desejos de vingança é algo difícil ou impossível, se faltar o dom da Piedade. Sem este Dom, como vamos convencer-nos que é nosso irmão, filho de Deus como nós, quem nos magoa, ofende, agride, rouba, assalta, insulta, difama, calunia, nos manda para um hospital, para um manicómio, para um cemitério? É o dom da Piedade que, no fim de contas, é a própria força de Deus que actua no cristão com este Dom. É ele que nos permite extrair do Pai-Nosso o mel que está escondido nos seus favos e saborear a sua verdadeira doçura, deixando de ser uma oração frequentemente papagueada de um modo automático e vazio. O dom da Piedade leva-nos a rezar o Pai Nosso e outras orações de um modo calmo, consciente e pensando no que se diz, porque a nossa tendência é rezar sem que as palavras exprimam algo que venha do coração.  Não fica de fora da esfera de acção deste Dom a nossa obrigação de aceitar a primazia da vontade do Pai, mesmo que não se compreenda porque não é feita a nossa: “Pai, passa de mim este cálice (de amargura e sofrimento), mas não se faça a Minha Vontade, mas a Tua” (Lc 22, 42). Assim Cristo nos ensinou como o Dom da Piedade funciona: ternura constante e permanente do Filho para com o Pai. Mas o Pai tem para nós uma receita que continua válida desde que foi pronunciada por Cristo: “Procurai primeiro o Reino de Deus ( porque essa é a vontade do Pai) e tudo o resto virá por acréscimo”(Mt 6, 33).

Resumindo e concluindo: Pelo dom da Piedade, o Espírito Santo leva o cristão a sentir e a experimentar na vida prática que Deus é  seu Pai e que ele é Seu filho, embalado num clima de absoluta confiança Nele, de uma entrega total, de uma segurança a toda a prova, porque sabe e sente que o Pai não o abandona em nenhuma circunstância, mesmo naquelas em que tudo pareça caminhar ao contrário. Por outro lado, sendo o cristão um Templo de Deus, ele sabe e sente que o Templo deve ser mantido limpo, com dignidade por dentro e por fora, de acordo com um local próprio para a  adoração, a oração de acção de graças, de intercessão, de louvor. Pense agora na imodéstia no vestir, nos decotes vergonhosos, no semi-nudismo que se vê nas igrejas, no santuário de Fátima,…; pense também no falatório nas igrejas, por ocasião de baptizados, crismas, 1ª comunhão, casamentos, missas de 7º dia, etc., e veja se tudo isso estará de acordo com o Dom da Piedade!…Não esqueça uma cláusula importante que Cristo nos deixou: “ Se alguém cumprir as Minhas Palavras, Nós viremos a ele e faremos nele a Nossa ( do Pai, do Filho e do Espírito Santo) Morada”. São Palavras claras e exigentes, que não deixam margem a dúvidas,  que excluem o Dom da Piedade, porque  a presença de Deus também fica  excluída em quem não as cumprir. Entre as Suas Palavras estão estas:  “…Ai daquele que causar escândalo (=levar outros ao pecado)!… Melhor lhe fora prender-lhe uma mó de moinho ao pescoço e atirá-lo ao fundo do mar…” (Mt 18, 6-9)

Cristo disse: “Nem todo aquele que diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas aquele que faz a vontade de Meu Pai” (Mt 7,21). Será que essas Palavras não se aplicarão àqueles que não têm  sequer uma amostra do Dom da Piedade nem do Temor de Deus, os quais parecem primar pela ausência? Qual é o filho piedoso (com o dom da Piedade) que não se preocupa com a vontade de seu Pai?  Esta é a função do dom do Espírito Santo a que se dá o nome de Piedade.

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Aconselho a que procure na Bíblia o Salmo 90(91). Em alternativa segue uma versão poetizada deste belo Salmo:

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Tu, que vives à sombra do Altíssimo
e confias na protecção do Omnipotente,
diz-Lhe: Vós sois o meu refúgio seguríssimo
e minha cidadela, da noite ao sol poente.
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Ele te livra do laço do caçador
e te protege contra o flagelo maligno,
as Suas penas serão escudo protector,
sob as Suas asas terás refúgio condigno.
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Da noite escura não temerás o pavor,
não te atingirá a seta que voa de dia,
não serás invadido por nenhum terror
quando, na clara luz, grassa a epidemia.
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Ao teu lado esquerdo poderão mil cair,
podendo cair mais dez mil à tua direita,
mas o Senhor não te deixará sucumbir,
porque Sua Mão protectora a teu lado espreita.
.
Ser-te-á possível com teus olhos contemplar
e ver dos pecadores a má recompensa,
o Senhor protege quem Nele se refugiar,
o Altíssimo é tua força! É Sua tal sentença.
.
Nenhum mal na vida sobre ti descerá
e à tua porta não virão bater as desgraças,
porque o Senhor aos Seus Anjos mandará
que te guardem nos caminhos por onde passas.
.
Na palma das sua mãos eles te levarão,
não vás tu em alguma pedra tropeçar,
o dragão calcarás aos pés, tal como o leão,
víboras e serpentes poderás pisar.
.
Porque em Mim, seu Deus, confiou, Eu o salvarei,
conheceu o Meu Nome, hei-de protegê-lo,
perto dele na tribulação estarei,
quando Me invocar, não tardarei a atendê-lo.
.
Hei-de libertá-lo e conceder-lhe glória,
favorecê-lo-ei com uma longa vida,
contra toda a desgraça cantará vitória
e a Minha salvação lhe será garantida.
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Ezequiel Miguel
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Artigos relacionados:
Os dons do Espírito Santo – I (Temor de Deus)

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  7. A medida do amor de Deus, ai estão todas as nossas segurança, pois seremos amados por ele omesmo tanto que amarmos nosso irmão, medidos da mesma forma que medirmos, as graças que desejamos alcançar desde agora e a santidade para que aconteça o reino de Deus desde ja entre nós.

  8. De todos os dons do espirito santo o que mais tocou a minha vida foi o 7 (setemo) dom, que é temó a DEUS pois não devemos ter medo mais sim repeito a quem nos deu a vida

  9. […] .Os dons do Espírito Santo – II (Piedade) […]

  10. Jesus Cristo é o caminho, a verdade e a vida!!!!!!

  11. Para Ravena: Temor de Deus (dom do E. Santo) não significa medo de Deus. Significa: receio, cautela, prudência, cuidado,…em todos os nossos passos para não ofendermos a Deus em nenhuma circunstância. Releia o artigo sobre o “Temor de Deus”. Paz e Bem!


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