Você sabe o que é a Missa ? – IV

O Sacramento por excelência – Por: VeraCOT    Em: 20 de junho de 2011 – Em: Repórter de Cristo

A doutrina sobre a Santa Missa é tão ampla e rica, que nada que tragamos aqui poderá cobrir, nem de longe, a herança que nos legou toda a Igreja, desde os Apóstolos até aos dias de hoje, dias da carta encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, do grande Papa João Paulo II, leitura indispensável para compreender o papel da Eucaristia na vida da Igreja.

Antigos testemunhos

O homem, desde as suas mais remotas origens, inclinou-se, movido pela lei natural, a render homenagem a Deus por meio de sacrifícios. De facto, se corrermos os olhos na história, veremos que em todas as civilizações, das mais sofisticadas às mais rústicas, sacrifícios eram oferecidos às divindades, como que prenunciando um evento que, no futuro, viria dar coerência àquilo que faziam.

Todos aqueles sacrifícios, certamente realizados de modo imperfeito e muitas vezes brutais, apontavam para uma realidade que os superava. Assim como Israel, o povo eleito, foi sendo progressivamente guiado por Deus para recebê-Lo, também os outros, por assim dizer, testemunhavam que haveria, num momento que somente a Providência sabia, um Sacrifício Perfeito, que iria tornar caducos todos os outros. Aqueles, que vemos presentes nas civilizações antigas, apenas serviram de sinais para o sacrifício que iria, de facto, selar a paz entre a Criação e o seu Criador.

Que sacrifício perfeito seria esse para onde convergiam todas as religiões antigas? Para que realidade Deus preparou um povo, que separou dentre todos os outros? Que evento único seria esse para o qual se inclinava todo homem quando procurava agradar a Deus?

E o Verbo se fez carne e habitou entre nós

A longa espera da humanidade, o tempo de sombras e incertezas, encontram o seu termo do modo mais surpreendente possível. O que era inimaginável torna-se realidade: o Deus inatingível, Aquele perante o qual todos os homens se curvavam para render-Lhe graças e oferecer-Lhe sacrifícios faz-se um de nós, reveste-se da nossa carne, entra na descendência de Sua própria criação, assume a nossa natureza… habita no meio de nós!

E não vem sem um propósito. Nasce, cumpre todas as etapas do seu crescimento como homem: vive no seio de uma família, trabalha, aprende e chega à idade em que sua identidade e missão serão manifestadas claramente. Mas, também aqui, a pedagogia divina abre o véu da verdade aos poucos. Jesus vai preparando os Seus discípulos, passo a passo, para o Seu estupendo mistério, que será plenamente revelado quando chegar a “sua hora” (Jo 13,1).

E a “sua hora” chega na Santa Ceia, a primeira missa, aquela em que Jesus fala às claras com os apóstolos na Páscoa que desejara ardentemente (Lc 22,15) … Se quisermos, pois, conhecer o que é a santa missa, teremos que acompanhar as palavras de Jesus naquela quinta-feira santa e os factos que se lhe seguiram. A missa nada mais é que a renovação daquele mesmo sacrifício do Calvário no tempo presente. É como se fôssemos transportados para aquele momento dramático, para onde confluiu e conflui toda a história humana. A cruz de Cristo separa a história em antes e depois, atrai para si todos os pecados que nos impedem de ter a participação na vida divina, sela definitivamente a paz entre Deus e o homem, ao preço do Seu Filho, vertido em propiciação por todos os que creram nele.

Um preço muito alto

A missa é, portanto, este mesmo sacrifício do Filho de Deus, é a renovação da oferta que Ele faz de si mesmo ao Pai em favor de nós todos. É a hora de Jesus, o destino de toda a nossa busca, a coerência que faltava aos ritos antigos, o porto seguro preparado por Deus para a inquieta alma humana que, desde o seu nascimento, sente aquela sede que nada no mundo é capaz de saciar. A missa é, portanto, a nossa própria vida, pois ela não subsiste fora de Deus. Ao nos aproximarmos, portanto, do altar, recordemos antes o que é que se vai celebrar diante dos nossos olhos. E não se permita pensar que aqueles ritos, aquelas palavras sejam apenas algo que nos invoque a memória de Cristo: é o próprio Cristo, Deus de Deus, Luz da Luz, que se torna presente, o Deus que se esconde naquelas humildes formas.

Entender o que é a missa é entender o Calvário. É saber que o sacrifício que nos pacifica com Deus foi feito por uma Vítima inocente que se ofereceu a si mesma para assumir uma cruz que não era Sua. A cruz de Cristo era a cruz de Barrabás. Mesmo esse nome, ‘Bar-Abbas’, ‘filho de Abbas’ (papai), está a indicar-nos que houve, de facto, uma substituição: o Filho de Deus tomou o lugar dos filhos desgarrados, das ovelhas perdidas, para oferecer-se em seu lugar, como Vítima de propiciação, Vítima perfeita, Vítima imaculada, Vítima santa. Essa substituição é apontada de modo muitas vezes velado no Antigo Testamento, como no sacrifício de Isaac (cap. 22 do Génesis): obedecendo à ordem dada por Deus, Abraão leva seu filho Isaac para oferecê-lo em sacrifício; na hora extrema em que ia imolá-lo é interrompido pelo anjo, sendo Isaac substituído por um cordeiro preso pelos chifres entre os espinheiros e que foi oferecido em holocausto no lugar do filho de Abraão. Que sinal impressionante do que ocorreria séculos mais tarde: o Cordeiro de Deus, aquele que tira o pecado do mundo, com a cabeça presa entre ramos de espinheiro, tomando o lugar, não do filho de Abraão, mas de todos nós, de certo modo, outros ‘Bar-Abbas’!

Todos os caminhos trilhados pelo homem na busca para agradar a Deus acabam na cruz de Cristo; todos os vazios experimentados por quem vivia privado da vida de graça são preenchidos pelos méritos da Paixão e morte de Jesus. A missa é esse Sacrifício, um preço muito alto pago por Cristo para que tivéssemos a vida em Deus. Nossas disposições interiores não podem ser outras que aquelas que moviam Jesus: desejar ardentemente participar dessa Ceia, antevisão do banquete para o qual somos chamados a partilhar no Céu, com Deus.

Pão e vinho que se tornam no Corpo e Sangue do Senhor

Na missa ocorre o milagre da transubstanciação, ou seja, o pão e o vinho, ao comando das palavras de Cristo, ditas pelo sacerdote, ‘Isto é o meu corpo’, ‘Isto é o cálice do meu sangue’, palavras que mudam sua substância (não sua forma) em Corpo e Sangue do Senhor, com toda a Sua Divindade e Humanidade. Os acidentes permanecem os mesmos: os sentidos mostram-nos pão e vinho, mas aquelas espécies são, de facto, o próprio Senhor. E não é difícil crer nisso.

Santo Ambrósio, bispo de Milão, nos primórdios da Igreja, chamava a atenção de seus fiéis para o facto de que quem disse (e mandou os apóstolos fazerem o mesmo) ‘Isto é o meu corpo’ é Aquele mesmo que disse ‘Faça-se’ e tudo se fez. Ou seja, quem tem o poder de chamar do nada à existência todas as coisas, não teria também o poder de modificá-las em sua natureza? O Deus imutável, infinito, eterno, indivisível, omnipresente e omnipotente, que se faz verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, não teria como tornar o pão e o vinho em Si mesmo, para servir de alimento à sua Igreja? Tenhamos por certo, portanto, que as palavras ditas pelo sacerdote na consagração carregam a autoridade de quem as disse primeiro; são, pois, eficazes, como bem demonstram milagres eucarísticos que desafiam a ciência.

A Eucaristia é, portanto, algo mais que um símbolo. E porque os acidentes do pão e do vinho consagrados tornam-nos presente algo maior  do que eles testemunham aos nossos sentidos; podemos dizer que são sinais, símbolos que contêm o que eles simbolizam. São símbolo e realidade. Mais uma vez, Santo Ambrósio lembrava (De Sacr., livro VI): “…quando os discípulos de Cristo não suportaram a Sua palavra, mas ao ouvirem que Ele daria Sua carne para comer e daria o seu sangue para beber, Eles se retiraram, apenas Pedro disse ‘Tu tens palavras de vida eterna, para onde irei eu longe de ti?’ Para que muitos não digam isso, sob o pretexto de certa repugnância do sangue derramado, mas para que a graça da redenção permaneça, recebes então os sacramentos na forma de uma realidade  visível (pão e vinho) que exprime uma realidade invisível não palpável, não sensível (Corpo e Sangue do Senhor); recebes a graça e a virtude da real natureza”.

Senhor, não sou digno de que entreis em minha morada…

S. Paulo : “Eu recebi do Senhor o que vos transmiti: na noite em que foi traído, tomou o pão, e, depois de ter dado graças, partiu-o e disse: ‘Isto é o Meu Corpo que é entregue por vós; fazei isso em memória de mim’. Do mesmo modo, depois de haver ceado, tomou também o Cálice, dizendo: ‘Este Cálice é a nova aliança no Meu Sangue; todas as vezes que o beberdes, fazei-o em memória de Mim’. Assim, todas as vezes que comeis deste Pão e bebeis deste Cálice lembrais a morte do Senhor, até que Ele venha. Portanto, todo aquele que comer o Pão ou beber o Cálice do Senhor indignamente será culpável do Corpo e do Sangue do Senhor. Que cada um se examine a si mesmo e, assim, coma deste Pão e beba deste Cálice. Aquele que O come e O bebe sem distinguir o Corpo do Senhor come e bebe a sua própria condenação” (I Cor 11, 23-29).

As graves palavras de São Paulo impelem-nos a fazer um minucioso exame de consciência, antes de nos aproximarmos da Comunhão. Certamente, mesmo para aqueles que cometeram um pecado mortal, e, portanto, não podem comungar, a missa é o remédio adequado para a cura de sua alma, mesmo que não participe da Comunhão. Mas não nos podemos  aproximar do altar sagrado, comer daquele Pão, beber daquele Cálice de modo leviano, porque não são alimento comum. Devemos, portanto, recorrer frequentemente ao sacramento da Confissão, para termos confiança diante de Deus e, desse modo, alimentarmo-nos com o Pão que nos guarda para a Vida eterna.

Vivamos, portanto, de modo a merecer receber a sagrada Comunhão todos os dias, mesmo que as dificuldades do dia-a-dia nos impeçam de nos alimentarmos do santo alimento quotidianamente. A missa é o que de mais valioso se pode oferecer a Deus. Nada do que façamos se pode  comparar a uma única missa, pois nela o Filho de Deus se oferece a si mesmo. Mesmo uma vida de privações suportadas heroicamente por amor a Deus nada é diante do sacrifício da santa missa. Nada a substitui, nada se lhe compara em termos de valor, nada há de mais  precioso. De tão grande tesouro fomos feitos dignos pelos méritos infinitos de Cristo, que, da largueza de sua graça, os distribui a quem lhe corresponde o amor.

Fonte: Ahoradamissa

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