Insultos, injúrias, ofensas…por palavras

Citações bíblicas:

1. Palavras (ofensivas) são espadas fora da bainha” (Sl 54/55)

2. Se alguém pensa ser religioso, mas não refreia a sua língua,…saiba que a sua religião é vã” (Tg 1,26)

3. Notai como um pequeno fogo incendeia uma floresta imensa. Ora, também a língua é um fogo (Tg 3,5-6)

4. A língua, ninguém consegue domá-la: ela é um mal irrequieto e está cheia de veneno mortífero ( Tg 3, 8)

5. A boca fala daquilo de que o coração está cheio… Eu vos digo que de toda a palavra inútil que os homens disserem darão contas no Dia do Julgamento. Pois por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado (Mt 12,34-37)

6. Quem não peca com a língua é perfeito  (Tg 3,2)

raivaA Sabedoria divina alerta-nos para algo a que não costumamos prestar muita atenção e que também passa despercebido aos catequistas, aos pregadores, aos pais, aos professores de religião e moral. Porque será? Porque quando se abordam os pecados da língua estamos a falar contra nós próprios, contra as milhentas situações em que já lançámos fogo, já brandimos a espada  e já lançámos veneno mortífero sobre o próximo. Tão grave, miserável e trágica é esta situação que a Bíblia diz: “Quem não peca com a língua é um homem perfeito” ( Tg 3,2). Será que na sua ou na minha cidade haverá cinco Justos destes, à semelhança do que não havia em Sodoma e Gomorra no diálogo de Abraão com Deus?

Quem gosta de uma saraivada de insultos, injúrias, ofensas, censuras justas ou injustas, acusações, fundamentadas ou não? Não é preciso que caia sobre nós uma saraivada, bastando uma gotinha de chuva para reagirmos agressivamente, devolvendo a ofensa verbal com juros elevados, num momento em que um silêncio de ouro seria o remédio mais eficaz e mais aconselhado. Quem assiste a uma discussão entre duas pessoas com ataques de cólera, facilmente detecta que cada uma procura gritar mais alto do que a outra, enquanto despeja verborreia agressiva, que pode ser injustificada, despropositada, equivocada, mas quem a deita cá para fora acha sempre que é nela que está a razão. Normalmente, a pessoa que tem menos razão é a que grita mais alto e a última a calar-se.

 Em cenas destas, facilmente saem da boca para fora acusações e palavras que magoam, ferem, ofendem,…e dificilmente se esquecem. Mas, ao contrário, quem, num ataque de cólera, despeja sobre o outro tudo o que lhe vier à cabeça, depressa esquece tudo o que disse de ofensivo e, passados um ou dois minutos, nega, a pés a juntos, que tenha dito, acusando, ainda por cima, a vítima da sua cólera, de estar a inventar…a mentir…Bem diz o povo que um mal nunca vem só! Também não é raro que à vítima se exija que peça desculpa!…A língua humana  e a mente dos humanos são verdadeiros mistérios, para o bem e para o mal.

 Porque acontecem cenas destas? Porque a pessoa que se descontrola actua como um alcoólico ou um drogado após um acidente por ele provocado e do qual não se lembra de nada ou diz não se lembrar!… Entretanto, continua em vigor o conselho de S. Paulo: “Irai-vos, mas não pequeis !” (Ef 4, 26), conselho nada fácil de seguir, porque, em certas situações, os nossos nervos mais parecem um tecido de fios eléctricos todos a lançar faíscas…

A citação bíblica nº 5, no princípio deste texto, mostra como Cristo não é nada meigo para quem não controla a língua e ofende o próximo com a calúnia, a difamação, a mentira, a murmuração, os insultos, as acusações falsas, os ataques de cólera, as fúrias agressivas, o tom de voz descontrolado, a falta de delicadeza nas palavras, etc., etc. Junte ainda os juízos temerários (com ou sem palavras) que fazemos quando julgamos mal e condenamos sem termos dados suficientes para formularmos uma opinião acertada. De qualquer modo, só Deus sabe o que se passa na consciência de cada um, por isso, é melhor julgar sempre pelo melhor, isto é, a favor dos outros. Não esquecer: “Não julgueis para não serdes julgados, pois, conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados; e com a medida com que medirdes,  assim sereis medidos” (Mt 7, 1-2). Temos uma consolação: Há sempre uma pessoa de quem podemos julgar mal, censurar, condenar, fuzilar, sem nos enganarmos: nós próprios!… Acertamos sempre e não pecamos!…

Aqui vai uma sugestão para quem quiser domesticar aquela fera que dá pelo nome de “língua de homem (homem e mulher). Seleccione um caderninho e vá apontando, ao deitar, as vezes que utilizou a língua para pecar. Dia a dia, vá apontando e some no fim de cada mês! Some também no fim de cada ano e vá comparando. Fará descobertas sensacionais e corrigirá um defeito que lhe era/é escondido a si, mas não aos outros!… Nem sequer tinha/tem o rabo de fora para que você suspeitasse da sua existência! Tente, que vale a pena. Na tentação, lembre-se da citação bíblica nº 5, acima.

Há medidas para enfrentar semelhantes casos? Segue um trecho do excelente livro  “IMITAÇÃO DE CRISTO”, cheio de Sabedoria divina para estas e outras situações. O autor, Tomás de Kempis (1379-1471),escreveu para Religiosos de Conventos, mas também serve para todos nós. Neste texto, ele coloca a sua sabedoria na boca de Cristo. Este livro foi dos primeiros a ser impresso logo a seguir à Bíblia (em 1475), foi livro de mesinha de cabeceira e de bolso de muitos santos, por ser o livro mais aconselhado aos cristãos, depois da Bíblia. Recomendo a sua aquisição e leitura lenta, mastigada, digerida e…ruminada. Eis o texto da

IMITAÇÃO DE CRISTO:

1.” Filho, conserva-te firme e espera em Mim. Que são as palavras dos homens senão palavras? Fendem o ar, mas não ferem a pedra. Se és culpado, pensa em te emendar prontamente. Se de nada te acusa a consciência, pensa que te deve ser agradável sofrer por amor de Deus. Bem pouco é sofreres algumas vezes meras palavras, já que não estás ainda preparado para grandes provas.

E porque se afligirá o teu coração com coisas tão pequenas, senão porque és ainda carnal e demasiado sensível ao juízo dos homens? Tens medo de ser desprezado: por isso, não queres ser repreendido das tuas faltas e procuras desculpas para as encobrir.

2. Mas, examina-te melhor e reconhecerás que vive ainda em ti o mundo e o desejo vão de agradar aos homens. De facto, quando foges às censuras e humilhações, fica bem claro que não és verdadeiramente humilde, que não estás de todo morto para o mundo e que nem o mundo está crucificado para ti. Mas ouve a Minha palavra e não farás caso de quanto os homens disserem. Ainda que levantassem contra ti quanto de pior maldade pode imaginar, que mal te faria isso, se tudo deixasses passar como a palha que o vento leva? Acaso, perderias com isso um só cabelo?

3. Quem não tem vida interior, nem a Deus diante dos olhos, facilmente se deixa impressionar por qualquer palavra de censura. Mas, aquele que confia em Mim e não se apega ao próprio juízo, não terá nada que temer dos homens. Eu sou o Juiz que conhece todos os segredos  do coração; sei como as coisas se passaram, conheço quem faz a  injúria e quem a recebe. Foi com Minha permissão que foi dita aquela palavra e que aquilo aconteceu, para que ficassem patentes os pensamentos de muitos corações. Eu julgarei o réu e o inocente, mas quis primeiro pôr à prova um e outro, com juízo secreto.

4. O testemunho dos homens engana muitas vezes; o Meu Juízo é verdadeiro; subsistirá e não será revogado. Ordinariamente ele está oculto, e a poucos ele se torna manifesto nas suas particularidades; contudo, nunca erra nem pode errar, ainda que pareça falso aos olhos dos insensatos.

 A Mim, pois, se deve remeter o juízo de tudo e ninguém se há-de firmar no próprio parecer. O justo não será confundido, suceda-lha o que suceder por permissão de Deus. Permanecerá impassível, mesmo perante as injustiças que contra ele se levantarem. Mas também não se desvanecerá, se por outros for com razão defendido, porque ele sabe que sondo os corações e os rins e que não julgo pelo exterior ou pelas aparências humanas. Com efeito, muitas vezes é culpado aos Meus olhos o que, no juízo dos homens, parece louvável.”

FONTE: Imitação de Cristo, Livro III, cap. XLVI, Livraria Apostolado da Imprensa, 6ª Edição- Braga, 1989

.

Ezequiel Miguel

 .

Artigos relacionados:

. Maledicência, murmuração e duplicidade

. A mentira

.A rainha Ester- I

. A rainha Ester – II

. O dilema de Susana – I

. O dilema de Susana – II

. Cá se fazem…cá se pagam

. Salmo 7

. Salmo 12 (11)

. Salmo 54 (55)

Anúncios

4 comentários (+add yours?)

  1. Trackback: O Dilema de Susana – I (Dn 13, 1-64) | Deus, Bíblia e Poesia
  2. Trackback: A rebelião de Coré (Cf. Números 16 ) | Deus, Bíblia e Poesia
  3. Trackback: Salmo 77(78) – Deus na História de Israel | Deus, Bíblia e Poesia
  4. Trackback: O bezerro de ouro no deserto | Deus, Bíblia e Poesia

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: