Marta, …Marta,…!

Do Evangelho:

 “ Naquele tempo, Jesus entrou em certa povoação e uma mulher, de nome Marta, recebeu-O em sua casa. Tinha ela uma irmã, chamada Maria, que, sentada aos pés do Senhor, se pôs a ouvir a palavra Dele. Entretanto, Marta andava atarefada com muito serviço. Interveio então e disse: Senhor, não Te importas que minha irmã me tenha deixado só a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me! O Senhor respondeu-lhe: Marta, Marta, andas inquieta e agitada com muita coisa, quando uma só é necessária. Maria escolheu, na verdade, a melhor parte, que não lhe será tirada!” (Lc 10, 38-42)

Os evangelhos referem-se frequentemente a três irmãos que conviveram de perto com Jesus. São eles Lázaro e suas irmãs Marta e Maria Madalena, sabendo-se hoje da existência de uma outra irmã, já então falecida.

Lázaro e suas irmãs eram filhos de Teófilo, ex-governador da Síria ao serviço do império romano e daí resultava que toda a família era conhecida de toda a Jerusalém e de Betânia, sendo altamente respeitada pelos romanos, de cuja protecção gozava. Quando Jesus e os Seus discípulos se deslocavam a Jerusalém ou a Betânia, era em casa desta família que se hospedavam, pois não lhe faltavam bens materiais para terem uma vida digna e os porem ao serviço do Reino que Jesus pregava.

Mas, apesar de terem tudo o que seria desejável para serem felizes, …no entanto,  não o foram durante bastante tempo, porque as lágrimas ensombravam a alegria da casa. É que Maria era uma prostituta e a ela se referem os evangelhos de vários modos: “uma certa mulher,… uma mulher pecadora,… uma mulher verteu lágrimas sobre os pés de Jesus, beijou-lhos e enxugou-lhos com os seus cabelos,… uma mulher pecadora derramou um frasco de perfume caríssimo sobre a cabeça de Jesus,…etc. “. Jesus refere-se a ela: “São-lhe perdoados os seus muitos pecados porque muito amou” e foi a ela que Cristo ressuscitado apareceu em primeiro lugar e lhe entregou o recado, destinado aos Apóstolos, de irem para a Galileia, sendo também ela uma das Marias que acompanhou o Mestre no Calvário.

Quem era, então, Maria Madalena, a pecadora pública? Era uma das prostitutas dos oficiais romanos, rica, alta, loira, bonita, habitando num palácio que lhe caíra em sorte por herança. Se para os oficiais romanos era motivo de sensualidade, para Lázaro e Marta era a vergonha total, pois uma família daquelas, tão nobre, tão respeitada,…com tanto prestígio… andava nas ruas da amargura e nas bocas do mundo, ao ponto de os evangelistas se terem recusado a identificá-la claramente, dizendo apenas que era uma certa Maria de Magdala, de onde deriva Maria Madalena. Alguns estudiosos pretendem demonstrar que havia três Marias Madalenas pecadoras, mas  tudo aponta para que tenha havido só uma:: esta irmã de Lázaro e de Marta.

Como é que Maria passa de prostituta famosa a convertida e de pecadora a santa? Por um processo lento, como são a maioria das conversões, com recaídas, mas com vontade firme de se libertar de modo duradouro. Se assim não fosse, Cristo não a ajudaria.  E, após muitas  lágrimas e muita insistência de Lázaro e Marta junto de Jesus para que a convertesse, Cristo ia adiando a solução do problema para dar tempo à pecadora de ela própria se aperceber da sua miséria moral, tanto mais que era possuída por sete demónios, conforme o relato evangélico.

 Finalmente, a conversão foi definitiva e a alegria voltou àquela casa. Maria tornou-se uma das discípulas que acompanhavam Jesus e não deixava passar uma ocasião para lhe manifestar a sua gratidão e o seu amor, que ela nunca traiu em circunstância nenhuma, acabando por revelar uma coragem superior à dos Apóstolos naqueles dias difíceis da Paixão do Mestre. Ela agia de acordo com o princípio de que, se nunca tivera medo nem vergonha para praticar o mal, também não os teria para praticar o Bem. Na manhã da Ressurreição, ela convenceu outras mulheres a deslocarem-se ao túmulo de Cristo, deixando-as,  depois, para trás e sendo a primeira a chegar. Cristo recompensou-a da maneira que os evangelhos contam.

 Após a conversão, Maria deixou-se invadir por um amor a Cristo que ultrapassou todas as barreiras, lançando para trás das costas a vergonha, o medo do ridículo, o medo de ser apontada a dedo, o medo de voltar a cair no pecado, o medo da troça, o medo de enfrentar fosse quem fosse. O seu fascínio pelo Mestre foi  irresistível e total.

Um dia, o Mestre surgiu na casa de Lázaro e o nervosismo apoderou-se de Marta, que começou a tratar da refeição. Mas parecia que só ela pensava nisso, porque Maria se anichara aos pés de Jesus e ali permanecia extasiada, a ouvi-LO e a contemplá-LO. Só que as coisas na cozinha avançavam lentamente e a custo, pois não será fácil imaginar o quanto custaria, em nervoso miudinho, e não só,  preparar uma refeição digna do Messias de Israel. Comparando com os nossos tempos, quantos pratos seria preciso preparar, que tipo de peixe ou de frangos, quantos tipos de doces, cremes, pudins, bolos…que tipos de vinhos…enfim, uma tarefa a exigir uma equipa de pessoal…mas a Marta começara sozinha e sozinha continuava, enquanto Maria, nas palavras de Cristo, escolhera a melhor parte, que não lhe seria tirada, o que quer dizer que Cristo não lhe pediria que fosse ajudar a Marta, apesar da queixa desta: “Mestre, não te importas de mandar a minha irmã ajudar-me?”. A resposta de Cristo é de pasmar e parece incompreensível: Marta, Marta, andas atarefada com muita coisa, mas uma só coisa é necessária…e Maria escolheu a melhor parte….”

Põem-se aqui várias questões: 1. Maria procedeu bem ao deixar todo o trabalho para Marta? 2. Cristo impediu que Maria fosse ajudar a sua irmã? 3. Maria não foi causa de nervosismo, impaciência, crítica, mau juízo, revolta…por parte de Marta? 4. Marta terá falado por ciúme da irmã ou mesmo por excesso de trabalho? 5. Cristo não terá mostrado um certo menosprezo/ desprezo pelo trabalho e preocupações de Marta, ao querer praticar todas as exigências de uma digna hospitalidade (conforme a Lei impunha)? 6. Cristo terá querido ensinar que é melhor pôr-se a rezar do que cumprir as tarefas domésticas, inclusive a de preparar as refeições para a família ou para um hóspede? 7. O que teria acontecido se Marta largasse a cozinha e fosse também sentar-se aos pés de Cristo? Cristo tê-la-ia repreendido ou louvado? 8. Neste caso, como se cumpriria o mais elementar dever para com um hóspede, se, chegada a hora, ninguém lhe apresentasse nada para comer? 9. Será que as duas irmãs não entrariam numa infindável discussão, acusando-se mutuamente de desleixo, preguiça, falta de respeito para como o Divino Hóspede, etc, etc. ?

Para se compreender algo sobre os comportamentos e atitudes de Cristo e das duas irmãs, convém ter em atenção o seguinte: 1. Para Cristo, o alimento material era a menor das necessidades e quando aceitava os convites nunca era pelo alimento do corpo, mas tinha sempre em vista a difusão do Reino, a pregação, a conversão, o bem espiritual, a salvação das almas. Daí que alegrar aquela casa, fortificar na Fé e no Amor a pecadora convertida, compensar, com a Sua presença, os serviços que a Casa de Lázaro ia prestando à causa do Reino que Ele pregava, eram objectivos bem definidos, numa estratégia de nunca fazer coisas inúteis. Como Homem, Jesus também precisava de amigos e os daquela casa eram dos mais fiéis, com a sua casa sempre à disposição, umas vezes, para breve repouso, outras, para estadias mais prolongadas, visando a oração, o descanso, a recuperação das forças ou simplesmente estar entre amigos dedicados. Basta lembrar que Jesus chorou aquando da morte de Lázaro, acabando por ressuscitá-lo quando chegou a hora próxima da Sua prisão, de se sentir sozinho, perseguido, amaldiçoado, espiado, difamado, caluniado, incompreendido, rejeitado pelas autoridades religiosas do Seu Povo.

 Maria, por sentir a necessidade de recuperar o tempo perdido no pecado, aproveitava todos os momentos para testemunhar o seu amor ao Mestre, enquanto Marta, por já ter convivido bastante com Jesus, não sentia tanta necessidade de lhe mostrar o seu afecto, e, sendo mais velha que Maria, sentia mais a responsabilidade inerente à recepção e estadia de Jesus naquela casa. Por isso,  considera-se Maria Madalena um exemplo de vida contemplativa e Marta um exemplo de vida de acção, não deixando de sublinhar que faltará aqui um modelo misto de acção e contemplação. Talvez Lázaro fosse tal, mas os evangelhos não referem a esse respeito pormenores que permitam concluir.

Tendo em conta estes modelos, é costume dividir as Ordens e Congregações religiosas em Institutos de Vida Contemplativa ou de Vida Activa, embora, na prática, acabem por serem mais ou menos mistos, porque os Religiosos de Vida Contemplativa não saem dos Conventos, mas vivem, trabalham e rezam lá dentro. Os de Vida Activa podem trabalhar no Apostolado dentro ou fora do Convento, mas também têm o seu tempo de oração e contemplação.

Visões erradas, blasfemas, heréticas…

Vem agora a propósito referir-me àquelas pessoas (jornalistas, realizadores de filmes, encenadores de espectáculos, escritores, investigadores, arqueólogos,…e até teólogos católicos…), que apresentam Maria Madalena apaixonada humanamente por Jesus e Jesus apaixonado por ela, aventando até a hipótese de terem casado e tido filhos…Outros dizem o  mesmo com respeito à mulher samaritana… Outros até dizem e escrevem que Cristo e Madalena casaram nas bodas de Caná!!! Até um teólogo católico, que frequentemente intervém na nossa televisão, disse recentemente que não sabia se Jesus Cristo fora casado ou não e se tivera filhos ou não!..

.Quem diz asneiras destas prova que encara Cristo apenas como um homem normal e não como Deus, o que se traduz em grosseira blasfémia e, possivelmente, blasfémia contra o Espírito Santo, além de ignorância e heresia chapada. Tantos anos de estudo para chegar a estas conclusões! Pensando assim, ele também poderá dizer que não sabe se Cristo deixou uma esposa viúva, qual o seu nome, se teve filhos e quantos, se teve amantes e quantas etc etc. Ele dizia que Cristo era atraente, cativante,…o que não deixa de ser verdade, mas sabe-se que Ele nunca permitiu que uma mulher se aproximasse Dele com más intenções e aquelas que o tentassem depressa viam algo que as amedrontava e as fazia fugir sem olhar para trás. O que viam elas? Possivelmente o Rosto de Cristo transformado ou os raios do Seu olhar penetrante e fulminante. Outras convertiam-se logo ali, perante  o olhar penetrante e a bondade cativante de Jesus. Tudo isto para demonstrar que o amor de Maria Madalena era amor ao seu Deus e Mestre e não amor humano a um simples homem. O carinho que Jesus teve para com Madalena, a samaritana, as meretrizes, os publicanos, os doentes,…é o mesmo que tem para qualquer pecador que se converta ou que queira converter-se. Jesus era, é, e será sempre  a  divina Misericórdia em acção.

O primeiro golpe sobre a pecadora Maria Madalena, com vista à conversão, surgiu durante uma pregação de Cristo. Maria Madalena, atraída pela curiosidade de ver Alguém de quem todos falavam, lá foi também, indecentemente vestida e acompanhada por oficiais romanos. Terminada a pregação, Jesus descia do monte e passava perto dela. Ela bem cravou o seu olhar sobre Ele, mas Ele passou a seu lado ignorando-a em absoluto e nem mesmo olhou para ela, o que a deixou algo perplexa: Como seria possível que houvesse um homem que não fixasse nela o seu olhar? A partir daí, a sua conversão foi uma questão de tempo. Como todas as pecadoras convertidas, ela saudava o Mestre ajoelhando-se e beijando-Lhe os pés.

 Tendo em atenção o respeito devido a Jesus Cristo, Deus e Homem, evite ler livros blasfemos, como os de José Saramago, e ver filmes, novelas ou documentários onde se perverte o verdadeiro sentido da Verdade e o respeito pela santidade e divindade de Jesus Cristo. Parece haver um plano diabólico concertado para atacar a Divindade de Cristo, pois com frequência surgem nas televisões documentários arqueológicos querendo provar que se encontrou ( ou se suspeita que seja) o Corpo de Cristo, ou as suas ossadas, dois cadáveres lado a lado, sugerindo que poderão ser o de Cristo e o da samaritana de Sicar ou o da Maria Madalena…Outras vezes,  anunciam a descoberta do túmulo da Virgem Maria e restos do Seu corpo…Coisas mesmo do diabo e da infinita loucura humana! A propósito: A Igreja Católica definiu, como dogma, que a Virgem Maria foi elevada ao Céu em corpo e alma, por isso, é herético quem quer que seja que negue tal Verdade. Trata-se do dogma da Assunção de Maria ao Céu, comemorada no dia 15 de Agosto de cada ano.

As personalidades de Marta (acção) e Maria (contemplação) têm sido apontadas como características de dois caminhos conducentes a Deus, primando, um, mais pela contemplação,  outro, pela acção e contemplação. Ambos terão de admitir mistura, nem que seja em pequena quantidade. Isto aplica-se não só aos  Religiosos que vivem em conventos, mas também aos Sacerdotes e aos outros leigos que vivem no mundo,  trabalhem eles em qualquer tipo de apostolado ou não. Impressionou-me a franqueza de um Sacerdote, agora casado, ao confessar, num programa televisivo, que abandonou a sua missão porque se deixou afogar na acção (activismo) e descuidou a oração. Está aqui a explicação para a ineficácia de muito apostolado e para a causa de muito desleixo, tibieza e abandono de muitas vocações, incluindo a ruína dos lares cristãos. É um testemunho a ter sempre presente. Em qualquer dos casos, temos o modelo perfeito de acção e contemplação: Jesus Cristo.

Uma informação final : 22 de Julho é o dia dedicado a S. Maria Madalena e 29 de Julho é o dia dedicado a S. Marta e S. Lázaro, que foi Bispo de Marselha. Os três desenvolveram o seu apostolado na Gália ( França ) e lá faleceram.

Nota – Alguns dados deste artigo foram compilados dos livros das videntes: Ana Catarina Emmerich: Vida Pública de Jesus , Paulus    e de:    Maria Valtorta, O evangelho como me foi revelado, Centro Editoriale Valtortiano, cuja leitura aconselho.

 .

Ezequiel Miguel

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