As razões do filho pródigo – I

(Confira: Lucas 15,11-32)

 .

 ( Realidade & ficção)

 .

“Como é infame aquele que abandona o seu pai e como é amaldiçoado por Deus o que irrita a sua mãe” (Eclesiástico 3, 18)

Personagens: Pai e filho mais novo

paiefilho“Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde”.  E o pai repartiu entre os dois os seus bens…Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua …” (Lc 15, 11-13)

Não lhe faltava nada, tudo lhe corria bem. Tinha um pai rico, bondoso, compreensivo, tolerante, e um irmão trabalhador e honesto que não lhe causava qualquer complicação. Tinha tudo para uma vida calma numa casa e numa família sem problemas.

Mas há sempre um mas. Um dia,  surgiram, neste ambiente monotonamente feliz, umas  ideias que começaram a engrossar na cabeça deste filho pródigo e tanto engrossaram que, qual árvore já com raízes bem fixadas na terra, começaram a lançar ramagens e frutos, enquanto cresciam, cresciam…Finalmente, o filho mais novo deste pai, chamando-o de parte ,  expôs-lhe o que precisava de lhe  expor:

Filho  – Pai, tenho uma coisa a propor-te! Há já muito tempo que tenho na cabeça uma ideia que sempre receei expor-te, porque não vais, certamente, gostar dela. Não sei bem como começar! Não queria magoar-te, mas…

Pai – Filho, eu sempre vos estimulei a serdes francos, leais e sinceros para comigo e sempre estive disposto a ajudar-vos a resolver qualquer problema que vos afecte, pois os vossos problemas são os meus problemas e a vossa felicidade é também a minha felicidade. Por isso,…aguardo que me contes o motivo das tuas preocupações.

Filho – Custa-me dizer, mas tem que ser! Desde já peço perdão para o meu atrevimento. É que…não sei bem por onde começar! Eu… não é que me sinta mal na tua casa, mas eu queria experimentar uma nova maneira de viver, menos monótona, menos rotineira, mais independente, mais livre,  mais adulta, mais capaz de me fazer crescer como jovem e como homem,  gerindo a minha liberdade mais responsavelmente…

Pai – Mas, filho, tu sentes-te um escravo na minha casa? Eu nunca te obriguei a nada! Apenas vos tenho dito que a vida, em qualquer circunstância, está sujeita a regras que o bom senso e a educação dos filhos exigem. Eu só  quero preparar-vos para a vida e ensinar-vos aquilo que deveis aprender para serdes homens justos, trabalhadores, respeitadores, conscientes, responsáveis… Vê como o teu irmão trabalha! Eu não preciso de lhe dar ordens para ele fazer o que deve fazer. Apenas  me limito a dar-lhe conselhos quando ele mos pede!

Filho  – Pois é, pai, mas eu sempre tenho de te pedir dinheiro para satisfazer algum capricho ou comprar aquilo de que preciso. Além disso, também preciso de me divertir com os meus amigos e amigas e eu já me envergonho de te pedir dinheiro tantas vezes!

Pai – Filho, mas eu alguma vez de neguei o dinheiro que me vais pedindo? Até é a maneira de irmos conversando um com o outro e permutar confidências entre nós, pois filhos e pais precisam de conversar, para quebrar a possível frieza que se vai instalando e alimentar o amor filial e paternal.

Filho  – Pois é!…Mas , se  eu tivesse dinheiro suficiente, eu não andava sempre a pedir-te cada vez que preciso dele.

Pai – Diz-me, filho, quanto achas que precisas por mês? Eu posso conceder-te uma mesada fixa para os teus gastos, mesada essa que tu poderás gerir a teu gosto e assim já não terás que te humilhar a pedir-me, se essa é a causa do teu problema. A minha riqueza é suficientemente grande para eu não precisar de andar a fazer contas contigo. Diz só: Quanto queres mensalmente?

Filho  – Pois!…Mas, assim, criava-se outro problema. Se me desses uma mesada a mim, terias de dar outra mesada ao meu irmão, para seres justo!

Pai – Para mim isso não é problema. Vai ter com o teu irmão e discute com ele esse assunto!

Filho  – Para quê? Para que é que ele precisa de dinheiro?  Ele nem o sabe gastar!  Ele só quer trabalho, não se diverte, não reivindica nada, é um paz de alma enervante!…Nem sequer  consegue enervar-se quando eu discordo dele e ele discorda de mim! Para ele está tudo sempre bem! Ele não tem ambições e, quando morrer, vai morrer podre de rico. Eu sou diferente, tenho sangue na guelra e preciso de mudar de ambientes. Esta pacatez  enjoa-me! Por isso, tenho uma ideia a propor-te:  Dá-me a parte da herança que me pertence e eu sei o que fazer com ela!

Pai – Estás a falar a sério, filho? Nunca pensei ouvir isto de um filho meu, ao qual eu tenho dispensado, com alegria e entusiasmo, tudo o que ele precisa! Quanto ao teu irmão, a experiência mostra-me que ele é sério, trabalhador, amoroso, obediente…embora o seu feitio calmo não seja de molde a preocupar-se  com muitas coisas. Sois diferentes, mas, bem vistas as coisas, todos os homens são diferentes uns dos outros.

Filho – Sim, pai!… É isso mesmo que eu te peço! Vende a parte da minha herança e entrega-ma em dinheiro vivo! Se me amas de verdade, não poderás recusar o que te peço!

Pai – E depois, o que farás com esse dinheiro? Ficas por cá, continuas a viver na minha casa ou…?

Filho – Logo que me dês o dinheiro, partirei para longe! Quero viver a vida e satisfazer a minha ambição de liberdade e felicidade. Trabalhar já não será comigo, pois esse dinheiro será suficiente para viver desafogado sem a humilhação de pedir aquilo a que tenho direito…

Pai (limpando as lágrimas) – Ó filho, filho, o que vais fazer! Tu magoas-me, ofendes-me, entristeces-me…porque prevejo que vais ser um infeliz, um pedinte, um miserável, um órfão, um rejeitado pela sociedade, um…Pensas que é humilhante pedir-me o que precisas, mas vais ter que te humilhar para esmolar o teu sustento diário a outros, que to negarão. Passarás fome e miséria quando na casa de teu pai até os servos têm tudo em abundância…

Filho – Não será bem assim! Eu já tenho idade para gerir a minha vida como me apetecer, sem que ninguém exerça qualquer autoridade sobre mim. Os tempos agora são outros! Os pais são como os outros progenitores. Cumprem a sua missão e depois  chega o tempo de os filhos saírem do ninho e voarem  livremente no espaço infindo da vida. É esse o meu caso!

Pai – Se não posso demover-te de um passo errado, respeitarei a tua liberdade e o modo como vais servir-te dela.  Aguarda que eu possa satisfazer as tuas pretensões. Preciso de fazer contas e vender a tua herança. Depois, …recebê-la-ás em dinheiro! De qualquer modo, se  entretanto mudares de ideias, comunica-me!

Avaliada a herança, contas feitas, dinheiro no bolso, o pai chamou o filho mais novo:

Pai – Aqui está o dinheiro correspondente à tua herança!  Continuas firme na tua decisão de abandonar a casa do teu pai?

Filho – Sim, pai! Já decidi e está decidido. Não volto atrás!

Pai – Então, aqui tens esta bolsa com o dinheiro que te pertence!  Aproveito para te perguntar: E depois, quando o dinheiro acabar?

Filho – Eu sei geri-lo de modo a nunca acabar. Vou comprar e vender, aumentando assim o meu capital. Não quero mais saber desta estúpida vida  de vigiar os servos, transmitir-lhes os teus recados,  transmitir-te os deles, …e nem sequer tenho um salário para gastar a meu gosto!…Vais ver que ainda me vou tornar mais rico e tu não te envergonharás de mim!

Pai – Oxalá seja assim!…Então, filho,  não te vou dizer que espero que sejas feliz, porque… não vais ser! Em qualquer dos casos, se a vida te correr mal,…eu ficarei à tua espera todos os dias e, se decidires voltar para casa, eu cá estarei para te receber com o mesmo amor de sempre e até com mais, porque tu irás precisar de uma dose maior. Um pai é sempre pai e um filho é sempre filho!  Despede-te do teu irmão e depois…vem despedir-te de mim!

Filho – Despedir-me do meu irmão? Para quê? Ele nunca simpatizou comigo!

Pai – Filho, tu também sempre foste agressivo para com ele e também nunca apreciaste as suas qualidades. Sabes que o mal que se faz aos outros recai sobre quem o pratica. Mas agora, pelo que vejo, ficas contente por te veres livre dele!… E dos meus fiéis servos, não te despedes?

Filho – Não! Não vão eles tentar demover-me dos meus propósitos e desatar para ali a choramingar como se me vissem partir num caixão! Assim, quando o souberem, já estarei longe. Despeço-me de ti  e lamento magoar-te, mas o que tem de ser tem de ser! Adeus, pai!

Pai – Adeus, filho!

A partida foi selada pelo pai  com um efusivo ósculo e um apertado e lacrimoso abraço…

E o filho lá se foi, garbosamente montado no seu fogoso cavalo, enquanto o pai subia ao ponto mais alto da sua casa para o seguir com o olhar. Ele o foi seguindo, seguindo… até que uma curva do caminho o escondeu a seus olhos. O coração apertado pelo alicate da mágoa e da angústia era o memorial de uma tragédia não merecida, por parte de um filho a quem só prodigalizara favores e puro amor paternal. Uma planta ficara plantada no âmago do seu coração: a planta da saudade, que iria crescer até não se sabia quando…

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(Continua)

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Ezequiel Miguel

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