O bezerro de ouro no deserto

(Cf.Êxodo 32 // Deut. 9)

(Realidade & ficção)

.

Personagens :

. YAHWEH = EU SOU AQUELE QUE SOU

. Moisés

. Aarão

. Josué

. Israelitas

 .

bezerro-de-ouroTendo Moisés sido chamado ao Monte Sinai (da cordilheira do Horeb), no deserto, após a travessia do Mar Vermelho,  o povo ficou acampado cá em baixo, na base do monte, com expressa proibição de alguém tentar subir lá acima, sob pena de morte. E Moisés por lá ficou durante 40 dias e 40 noites, sem comer nem beber, de onde regressou com a Lei (Os Dez Mandamentos) que Deus escrevera a fogo nas duas tábuas de pedra.

Entretanto, na ausência prolongada de Moisés,  alguém começou a semear a dúvida sobre o seu destino, destino esse que ninguém poderia investigar subindo ao monte, porque tal atrevimento implicava a morte para quem se atrevesse.  Havia  mesmo um espaço delimitado em volta do Monte, para que ninguém o ultrapassasse, uma vez que todo ele estava entregue à presença e à Glória de Yahweh.

Enquanto Moisés vai a custo subindo,  uma sensação estranha o vai invadindo naquele silêncio não interrompido por nada nem ninguém. A certa altura:

Moisés – O que é aquilo? Um silvado a crepitar por fogo, mas sem cheiro, sem fumo, sem labaredas, sem faíscas…Estranho! Vou aproximar-me mais e ver de perto o fenómeno! Nunca vi uma coisa assim! É fogo, mas não queima, não provoca cinzas, não destrói!

Yahweh – Moisés, Moisés! Tira as sandálias, porque o lugar que pisas é santo!

Moisés – Mas…quem sois vós, Senhor?

YahwehEU SOU AQUELE QUE SOU! Eu sou o Senhor,  vosso  Deus,  que vos tirou do Egipto, da casa da escravidão. Vou fazer com o Meu Povo uma Nova Aliança, como fiz com Abraão, Isaac e Jacob. Vou gravar na pedra o essencial da Minha Lei, que lhe transmitirás, dizendo que não são leis humanas, mas divinas, não inventadas por ninguém. Logo que lhas transmitas, ficarão de imediato promulgadas e em vigor para sempre…..

Entretanto, no acampamento:

1º Israelita –  EH! Amigos!  Quem sabe por onde andas esse Moisés?  Há tanto tempo que subiu ao monte!…Que será feito dele?

2º Israelita –  Já deve ter sido comido por alguma fera e dele  também nem os ossos encontraremos, uma vez que estamos proibidos de ir em busca dele!

3º Israelita –  Se não foi morto por uma fera, já deve ter morrido à fome ou à sede, porque não levou nada para sobreviver!

4º Israelita – Eu cá não acredito naquilo que ele disse. Ele disse que ia lá acima para falar com o Senhor, mas, se Yahweh tivesse alguma coisa para lhe dizer, porque haveria Ele de o chamar para ir lá acima? Podia revelar-se a ele na sua tenda ou  junto da Arca da Aliança.

5º Israelita – Bem vistas as coisas, também não precisamos dele!  Vamos fabricar um deus do Egipto e festejar o fim da história de Moisés, agora que já nos livrámos dele.

6º Israelita – Boa ideia! E como faremos para fabricarmos o deus?

7º Israelita – Vamos de tenda em tenda e pedimos ouro às mulheres: braceletes, brincos, anéis, argolas, medalhões e outras coisas em ouro. Penso que conseguiremos juntar o suficiente.

8º Israelita – E quem nos autorizará, uma vez que  de Moisés não há rasto?

9º Israelita – É fácil! Vamos ter com Aarão, o irmão do Moisés!

10º Israelita – E acreditais que ele fará isso? Isso será uma traição a Moisés!

11º Israelita – Ameaçamo-lo, se  ele não assumir a responsabilidade. Se o Moisés aparecer, terá que se entender com ele e ele com Moisés. Assim, ficamos nós livres de qualquer punição, porque,…nunca se sabe o que poderá acontecer…Vamos então até ele!…

12º Israelita – Aarão,  na ausência do teu irmão, és tu que nos orientas. Vimos aqui para nos ajudares num projecto! Pedimos-te que dês instruções ao povo no sentido de entregar peças de ouro para fundirmos um bezerro. Queremos fazer uma festa para esquecer estas agruras e estas ansiedades em que vivemos. Tu sabes como temos saudades do Egipto e estamos cansados desta vida de nómadas no deserto! Vê lá! Tens  de colaborar connosco e estamos dispostos a tudo se não colaborares!

13º Israelita – “Vamos! Façamos para nós um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos persuadiu a sair do Egipto, não sabemos o que terá acontecido”(Ex 32,1)

Aarão “ Tirai as argolas de ouro das orelhas das vossas mulheres, dos vossos filhos e das vossas filhas e trazei-mas!”

“Eles tiraram as argolas que tinham nas orelhas e levaram-nas a Aarão. Recebeu-as nas mãos deles, deitou-as num molde e fez um bezerro de metal fundido. Então, exclamaram: “ Israel, aqui tens o teu deus, aquele que te fez sair do Egipto.” Vendo isto, Aarão construiu um altar diante do ídolo e disse em voz alta:

Arão –  ”Amanhã haverá festa em honra do Senhor”.

 No dia seguinte, de manhã, ofereceram holocaustos e sacrifícios de comunhão. O povo sentou-se para comer e beber e depois levantou-se para se divertir” ( Ex 32, 3-6)

Então, o Senhor disse a Moisés:

Yahweh –“ Vai, desce depressa, porque o teu povo, que tiraste do Egipto, corrompeu-se. Bem depressa se afastaram do caminho que Eu lhes prescrevera, fabricaram um bezerro de metal fundido e adoraram-no, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: “Este, ó Israel, é o teu deus que te tirou da terra do Egipto. Eu observei este povo e eis que é um povo de dura cerviz. Deixa que se acenda a Minha ira contra eles e os consuma; de ti, porém, farei uma grande nação! “( Ex 31 ,7-11).

Moisés – Mas, Senhor,  ides destruir todo o meu povo quando só alguns fizeram o que acabas de dizer? Perdoa-lhes, Senhor, e castiga-me a mim, mas salva o Teu povo, que , em sua maioria,  Te aceita como  seu Deus e Senhor! “Por que, Senhor, se acenderia o vosso furor contra o meu povo, que tirastes da terra do Egipto com mão forte e braço poderoso? Não convém que se possa dizer no Egipto: Foi com má intenção que Ele os fez sair  para os matar nas montanhas e suprimi-los da face da Terra! Não te deixes dominar pela cólera e abandona a decisão de fazer mal a este povo. Recorda-Te de Abraão, de Isaac e de Israel (Jacob), teus servos, aos quais juraste por Ti mesmo: tornarei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e concederei à vossa posteridade esta terra de que falei, e eles hão-de recebê-la como herança eterna”. (Ex 32, 11-14)

Moisés – (Descendo  do monte com as duas tábuas da Lei e ouvindo o ruído…) –   O que ouço eu? Parece uma festa…Que motivos terão eles para festejar? Também ouço  música e tambores!

Josué Há no acampamento alaridos de batalha!

Moisés Não são gritos de vitória nem gritos de derrota. O que oiço  são vozes de gente a cantar.

“Ao chegar junto do acampamento, Moisés viu o bezerro e as danças. Acendeu-se a sua cólera, atirou com as tábuas e partiu-as ao pé do monte. Depois, agarrando no bezerro que tinham feito, queimou-o e reduziu-o a pó fino, que espalhou na água. E deu-o a beber aos filhos de Israel” ( Ex 32 19-20)

MoisésAarão, que te fez este povo para o deixares cometer um tão grande pecado?

Aarão“ Que o meu senhor não se irrite! Tu próprio sabes como este povo é inclinado para o mal. Eles disseram-me: Faz-nos um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos fez sair do Egipto, não sabemos o que lhe terá acontecido. Eu disse-lhes: quem tem ouro? Despojaram-se dele e entregaram-mo; lancei-o ao fogo e saiu este bezerro .(Ex 32,22-24)

Moisés – Acompanha-me até à entrada do acampamento!...Filhos de Israel, quem é pelo Senhor, junte-se a mim!

Aarão – Estou a ver!  Aí tens todos os filhos de Levi, os da nossa tribo!

Moisés –“ Filhos de Levi, o Senhor, o Deus de Israel, diz o seguinte: Cinja cada um de vós a espada sobre a coxa. Passai e tornai a passar através do acampamento, de uma ponta à outra, e cada um de vós mate o irmão, o amigo e o vizinho!” ( Ex 32 ,27)

“Os filhos de Levi fizeram o que Moisés lhes ordenara, e cerca de três mil homens morreram nesse dia, entre o povo. Moisés disse:

Moisés –  Consagrai-vos desde hoje ao Senhor porque, sacrificando o vosso filho e o vosso irmão, atraístes hoje sobre vós uma bênção”. (Ex 32, 29)

Oração de Moisés:

 No dia seguinte, Moisés disse ao povo:

Moisés: ” Cometestes um enorme pecado. No entanto, vou subir para junto do Senhor. Talvez alcance o perdão para o vosso pecado. “

 Moisés voltou para junto do Senhor e disse:

Moisés – Ah, este povo cometeu um grande pecado. Fizeram para si um deus de ouro. Apesar disso, perdoa-lhes este pecado, ou então apaga-me do livro que escreveste!

“O Senhor disse a Moisés:

Yahweh – ” Apagarei do meu livro aquele que pecou contra mim. Vai agora e conduz o povo para onde Eu te disser. O meu anjo caminhará diante de ti, mas no dia da prestação de contas, puni-los-ei pelo seu pecado”.

O Senhor castigou o povo, por ter instigado Aarão a fazer o bezerro. ((Ex 31,30-35)

Comentário:

  1. O povo de Israel era a concretização da promessa feita a Abraão de que ele seria o pai de uma numerosa descendência, à qual seria dada uma terra de prosperidade e bem estar. Mas Deus serve-se dos homens, daqueles que Ele escolhe, para realizar na Terra os Seus planos, os quais se vão realizando condicionados pela aceitação ou rejeição por parte daqueles que ficam envolvidos neles.

Moisés e seu irmão Aarão, da tribo de Levi, foram os escolhidos para conduzir o seu povo a partir do Egipto, pondo fim a uma escravidão de quatro séculos. Este povo pôde admirar como Deus os libertara do faraó: com inúmeros milagres, como lhe abriu passagem através do Mar Vermelho, como o protegeu e livrou do exército do faraó, como o conduzia de noite por uma nuvem luminosa e de dia por uma nuvem que lhes servia de guia e de local de paragem para montarem o acampamento, como transformara em água potável um poço de águas sujas, etc.

 No entanto, se a maioria tinha olhos para ver, fé para crer e esperança  em melhores dias, outros entraram pela via da murmuração, da rebelião,  da perda da fé  em Deus, caindo na aberrante ideia de pedir (exigir?) a Aarão um deus de metal fundido. Não se compreende como o homem, dotado de razão e inteligência, pode cair tão baixo, ao ponto de  prestar culto de adoração a um ídolo e proclamar: “Este, ó Israel, é que é o teu Deus, que te fez sair do Egipto!”

  1. Será para admirar? Sim e não! O ateu, o que esquece ou não conhece o Deus verdadeiro, está sujeito a tudo, até a ver deus num bezerro de metal ou em outras criaturas, pessoas, animais ou coisas. Convém não esquecer que este povo, enquanto esteve no Egipto, vivia num ambiente de idolatria generalizada, não lhe sendo fácil manter-se afastado das práticas pagãs dos cidadãos do Egipto. Daí, a constante advertência de Deus e de Moisés contra as tentações de ver, fabricar ou adorar divindades concretas, esquecendo o Deus invisível que apenas se manifestava através de Moisés e dos milagres que ia fazendo diariamente.

É o problema da Fé, ontem, hoje e sempre, num Deus que continua e continuará tão invisível como antes. A Fé é a capacidade de ver para lá do visível, requerendo a adesão voluntária da inteligência e das práticas correctas e obrigatórias  que a alimentam. O homem que não tem Fé caminha pela vida às cegas, não descobrindo o que ele próprio é, de onde vem e para onde vai! Quando o descobrir, logo após a morte, é tarde demais!

  1. Após os pecados em que o povo incorria, Moisés não se poupava a interceder por ele, tentando e conseguindo acalmar a ira de Deus, oferecendo-se mesmo para entregar a sua vida em troca do perdão que implorava para o seu povo. Pode ver-se aqui quanto vale a oração de um santo, de um amigo de Deus, de alguém que aceita uma “missão impossível”. É certo que Deus perdoou ao povo, mas não perdoou àqueles que promoviam a revolta, a murmuração, a idolatria, as saudades do Egipto e que tentavam abater a fé daqueles que se mantinham fiéis aos desígnios de Deus, transmitidos por Moisés. Fossem poucos ou fossem milhares, Deus ia varrendo toda a fruta podre no seu povo, para que o resto não apodrecesse também, numa pedagogia que se podia resumir a “ exterminar uns quantos para salvar o maior número possível”. Será caso para acusar Deus de violento, injusto, cruel, etc.? Qualquer general ou oficial faria o mesmo numa batalha, se visse que essa era a solução menos drástica, com menor número de baixas.

E a morte de inocentes, como as mulheres, as crianças, os animais,.. daqueles que foram de imediato executados em punição pelo seus pecados?  Terão sido inocentes, mas o pecado de um chefe, de um governante, de uma autoridade,…arrasta consequências funestas, não só para aqueles que os cometem, mas para  os familiares e a sociedade em geral, tal como numa guerra, em que morrem muitos que não têm culpa, aparente ou real.

  1. A murmuração – É um dos pecados da língua. Murmurar está na raiz da palavra murmúrio, tendo a ver com comentar em surdina, baixinho, ao ouvido, sussurrar, falar em segredo…,sobre a vida ou episódios da vida de alguém, emitindo normalmente juízos e opiniões desfavoráveis, entrando assim na difamação ou na calúnia, quando se espalham falsidades que o murmurador toma por verdades. É triste, mas não deixa de ser verdade: Normalmente, temos a tendência para denegrir a vida alheia e raramente somos capazes de admirar ou referir as suas qualidades e bons serviços, porque caímos na crónica hipocrisia de ver no olho dos outros um argueiro e não vermos no nosso um barrote, uma trave, um milhão de vezes maior…Faz parte da nossa psicologia: afundarmos os outros para  tentarmos elevar-nos a nós próprios. Não esqueçamos que a murmuração acaba por ser também um pecado contra a caridade, porque prejudicamos o próximo. Parafraseando Cristo: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça,  e quem tem sabedoria para entender, entenda!

 

Ezequiel Miguel

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