Jesus é convidado para Rei de Israel

(Realidade & ficção)

Personagens: Jesus, Samuel, doutores da Lei, sacerdotes, fariseus, anciãos, cortesãos de Herodes…

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reiSamuel era um dos amigos de Jesus, mas também um que se relacionava com Herodes e seus amigos, pois desempenhava funções na corte de Herodes, sendo lá visto como discípulo ou simpatizante de Cristo.

Por um lado, a sua casa estava à disposição de Jesus em suas andanças apostólicas, por outro, ele desempenhava funções no palácio de Herodes, tentando estabelecer um equilíbrio entre ambas as situações: Não desagradar a Cristo por causa de Herodes e da sua corte e não prejudicar Herodes por causa de Cristo. Mas Samuel, pessoa influente mesmo entre os membros do Sinédrio e das autoridades do Templo, estava incapaz de se decidir radicalmente por uma situação ou por outra, ao contrário de Susana, sua mulher, incondicionalmente discípula de Jesus.

A actividade de Cristo e a Sua pregação não deixavam nenhuma autoridade indiferente. Uns eram criticados por estarem contra Ele, outros eram criticados por não estarem a favor Dele e outros por não se definirem radicalmente a favor Dele.

Certo dia, surgiu na cabeça de alguém influente a ideia de que se deveria convidar Jesus para Rei de Israel, pois já estava provado que Ele era mesmo o Messias prometido e esperado. E, por um motivo ou por outro, era chegado o tempo de tratar do assunto e quanto mais depressa, melhor. Esta ideia começou a girar secretamente, de boca em boca, em volta de personagens bem escolhidos, com aqueles cuidados que um complot exige: reuniões secretas em locais secretos, absoluto sigilo dos conjurados, um cabecilha que coordene e vá fazendo andar o processo e uma vigilância segura. Assim se ia fazendo, não fosse o assunto levado ao conhecimento dos Romanos ou de Herodes e se deitasse tudo a perder, com a inexorável condenação à morte de todos os intervenientes.

Entre os conjurados havia fariseus, membros do Sinédrio, sacerdotes, anciãos, doutores da Lei, cortesãos de Herodes e discípulos de Jesus, públicos, meio- públicos, secretos , conhecidos ou desconhecidos de Jesus, todos unidos por esta ideia: Era tempo de restaurar o Reino de Israel, caído, humilhado e vergado ao chicote do inimigo romano. Para mais, julgando eles interpretar correctamente os Profetas, o Messias era apresentado como o Rei e o Libertador de Israel. Assim, sendo Jesus aceite como Messias, o resto viria por acréscimo. Bastaria oficializar o facto e proceder-se à unção com o óleo e consequente coroação de Jesus. Do apoio de todo o povo ninguém duvidaria, mesmo daqueles espalhados pela diáspora, e que eram muitos.

Assim como o segredo é a alma do negócio, muito mais o é no caso de uma conspiração. E chegou, finalmente, o dia em que Samuel, um dos meio-amigos poderosos de Jesus, O convidou, em nome dos outros conspiradores, para um encontro secreto de pessoas importantes na sua casa de campo, distando de Jerusalém uns quilómetros, em local insuspeito, pessoas que estavam dispostas a ouvir a Sua Palavra de Messias de Israel.

Tudo devidamente preparado, os quarenta conjurados partiram, antecipadamente, em carros puxados por bois, burros ou cavalos , separados por boas distâncias, para não levantar suspeitas, em direcção à casa de campo de Samuel. Finalmente, partiu também aquele que levava Samuel e o Mestre. Quando eles chegaram, já todos os outros os aguardavam serenamente, não tendo revelado nenhum entusiasmo pelos recém- chegados, como é próprio de uma atmosfera de conspiração, em que todos as palavras, gestos , atitudes e passos têm de ser cuidadosamente pesados, contados e medidos.

Samuel, o dono da casa, levou toda a gente para uma sala espaçosa e apresentou a Jesus todos os presentes, um por um, referindo os nomes, categorias e funções que desempenhavam, quer no Templo quer no palácio de Herodes, quer em sinagogas, tudo gente selecta, séria e respeitável a vários títulos. Cristo não precisou de ser apresentado, porque já todos O conheciam e já todos estavam a par do que fazia e do que dizia, assim como os seus conflitos com os Seus inimigos, alguns dos quais estavam ali estranhamente presentes.

Samuel, como hospedeiro de tão ilustre gente, fez o que lhe competia:

Samuel – A todos dou as boas-vindas e todos damos as boas vindas a Jesus de Nazaré, poderoso em palavras e obras, o nosso Messias prometido e profetizado, aqui presente entre nós. Todos nós agradecemos a Sua presença entre os grandes de Israel, pois a Sua sabedoria ultrapassa tudo o que sobre o assunto possamos dizer e nós estamos aqui para O ouvir, mas também para que Ele nos oriente naquilo que nós consideramos importante para Israel.

Seguiu-se a refeição, em que pouco se falou, pois o ambiente era de mútua desconfiança, em que as palavras ficaram contidas dentro de cada um. Os olhares, porém, viajavam, intrigados, de uns para os outros, de todos para Cristo e de Cristo para todos. Quando alguém falava, fazia-o em voz baixa, de modo a que só o vizinho do lado ouvisse e fosse ouvido. E assim decorreu a refeição, em ambiente sério e quase silencioso, como se todos tivessem algo a dizer, mas que não deveria ser dito. Acabada a refeição, chegou mesmo o momento de atacar o problema que tinha congregado aqueles homens. O dono da casa tomou a palavra:

Samuel – Mestre, chegou o momento de Te explicarmos o que nos levou a convidar-Te para esta reunião, assim como os cuidados que tivemos em que ela se mantivesse secreta, de modo a não chegar ao conhecimento de Herodes nem de Pilatos, pois os consideramos inimigos de Israel. Aqui, podemos falar à vontade, sem receio de que alguém, indesejado, nos ouça. Nós convidámos-Te porque Te respeitamos, veneramos, aceitamos como Messias, admiramos a tua sabedoria e o teu poder em fazer obras grandiosas, porque Deus está Contigo.

Não querendo alargar-me muito, digo apenas que, em nome do povo de Israel, oprimido e enxovalhado pelos romanos, Te convidamos para aceitares ser eleito o Rei de Israel, o Príncipe da Paz, o Libertador. Podes contar com as nossas riquezas para Te darmos um palácio real, um reinado que prestigie a nossa nação e um exército que nos restitua a dignidade, expulsando o invasor e deitando abaixo aquele antro de pouca-vergonha que é o palácio de Herodes. …Gostaria de ouvir o que tens a dizer-nos sobre esta proposta, que tem a aprovação de nós todos e de todo o Israel.

Jesus – (Silêncio)

Samuel – Então?…Já vejo que precisas de pensar. Vou dar-Te tempo para isso. Entretanto, dou a palavra a outro.

Cortesão de Herodes – Rabi, todo o Israel sabe o que se passa no palácio de Herodes, sem que ninguém seja capaz de corrigir seja o que for. É certo que temos um rei, mas não é o rei que Israel precisa. Este que temos é um rei fraco e subserviente aos romanos, que são quem realmente manda no país. É para Israel humilhante que este povo tenha chegado ao que chegou. Faltam-nos chefes e condutores da nação que imitem as antigas glórias militares de Israel. Este povo, o povo escolhido por Deus, não vive, mas vegeta como escravo. A maior parte dos cortesãos de Herodes concordam que sejas Tu aquele que merece reinar em Israel como rei soberano e sem concorrência estrangeira. Por isso, em meu nome, e no de todos os que habitamos ou trabalhamos no palácio de Herodes, fazemos-Te o solene convite para aceitares a Tua eleição para Rei de Israel, restaurando assim a antiga realeza, pois reconhecemos em Ti que vieste a este mundo para seres mesmo o Messias esperado, com o glorioso destino de ocupares o trono real em Israel. Poderás dizer-nos o que pensas sobre o assunto?

Jesus –( Silêncio)

Cortesão de Herodes – Pelo que vejo, ainda não pensaste bem no problema.

Jesus – Direi o que penso quando não houver mais ninguém para falar.

Cortesão de Herodes – Então, cedo a palavra a outro.

Ancião do povo – Na minha já avançada idade não queria despedir-me desta vida sem a minha última consolação: ver-Te instalado num palácio real digno de ti. És justo, sábio, tolerante, compassivo, tens poderes extraordinários que Deus Te deu e sabemos todos que os tens posto ao serviço do nosso povo. Tens uma sabedoria que ultrapassa a de Salomão, e Israel, dirigido por um rei a sério, seria compensado por estes anos em que gemeu sob o poder arbitrário das autoridades civis que nos têm governado, isto é, desgovernado. Eu falo em nome de todos os Anciãos de Israel, que pensam como eu e aprovam que Te convide também para assumires o trono real, mesmo que para isso tenhamos de construir um palácio real novo, de onde governarias o novo Israel, porque este parece ter sido abandonado por Yahweh. Aceita a nossa proposta e todo o Israel exultará de alegria e cantará salmos de louvor ao nosso Deus! … (Silêncio)…Então? Que respondes ao nosso convite?

Jesus –( Silêncio )

Sacerdote – Eu ouvi atentamente o que os outros disseram e concordo em absoluto com eles. Embora não sejas originário da tribo de Levi, nós te consagraremos ao sacerdócio, te nomearemos Doutor da Lei e te ungiremos com o óleo da realeza, ficando sacerdote e rei de Israel para sempre. Acho, e todos lá no Templo achamos que, em Israel, só tu és digno de ser ungido e coroado Rei de Israel. Todos nós vemos em ti o Messias Libertador que os profetas anunciam, incluíndo Anás e Caifás, os sumos sacerdotes. Eles te pedem desculpas por uma certa animosidade para contigo, talvez por informações erróneas, mas agora pensam como nós e dizem que Tu serias a honra e a glória do nosso Templo e do nosso Povo, cansado de tanto sofrimento imposto pelos profanadores das nossas coisas santas. Nós também estamos a par das Tuas obras de bem em favor dos doentes, dos pobres e dos oprimidos pelas dificuldades da vida. Já imaginaste o bem que seria termos um Rei santo, justo, poderoso, sábio, com poderes para resolver tantos problemas que afectam o nosso Povo? À semelhança dos anteriores intervenientes neste convite, aqui vai também o meu, que tem a aprovação de todos os que vivem ou trabalham no Templo….

Jesus – ( Após uns momentos de silêncio, pondo-se de pé e girando o olhar por todos os presentes) A minha resposta ao vosso convite é: Nãaooo!!! Eu sabia qual a finalidade deste nosso encontro aqui, mas vim porque já tinha prometido que vinha e também para vos mostrar que Eu não tenho medo de ninguém nas minhas actividades apostólicas. Há aqui dois tipos de pessoas: umas dizem ser meus discípulos, mas ainda compreenderam pouco sobre a minha missão em Israel; outras, como tu, ó sacerdote, tu, ó cortesão de Herodes, tu, ó Ancião do Povo,…. pura e simplesmente, mentis! Os vossos discursos e a vossa presença aqui são de mentira!

Doutor da Lei – O quê?! Acusas-nos de mentira? Vê lá como falas? Nós somos os santos de Israel. Que provas tens tu contra nós?

Jesus – Repito: Mentis!…Tanto a vossa presença como a vossa linguagem é de mentira! Nem no Templo, nem na corte de Herodes, nem os fariseus, nem os saduceus, nem os doutores da Lei, nem os sacerdotes Me aceitam como Messias! E, muito menos, Anás e Caifás! Se Me aceitassem, já teriam dados provas disso. E o que fazem? Espiam-Me, armam-Me ciladas para Me apanharem em pecado, acusam-Me de ser um agitador, um amigo de Belzebú, um comilão que come com publicanos, um que aceita conversar com meretrizes, um profanador da Lei,…e muito mais! Vós viestes aqui para me armardes mais uma cilada, preparada cuidadosamente e servindo-vos de má fé para convencer aqueles que estão do Meu lado. Eu não posso aceitar o vosso convite, porque Eu já sou Rei, mas das almas de Israel, porque o Meu reino é espiritual. Eu nunca serei ungido nem coroado Rei temporal de Israel, porque Eu já fui ungido e coroado Rei das almas, e só elas Me interessam em absoluto. Só por causa delas é que Eu vim ao mundo, disposto a pagar o preço que elas custam. Eu sou Aquele, como dizia João Baptista, que tira o pecado do mundo e também tirarei os vossos, se aceitardes a Minha Pessoa, a Minha doutrina da Boa Nova e vos arrependerdes.

Se Eu aceitasse, aqui e agora, a unção e a coroação como Rei de Israel, amanhã iríeis a correr ao Sinédrio, ao palácio de Pilatos e ao de Herodes, contando-lhes as coisas à vossa maneira, seguindo-se depois uma perseguição com efeitos para vós imprevisíveis. A Mim nada aconteceria, pois a Mim ninguém Me tirará a vida. Eu sou o Senhor da vida, da minha e da vossa, e a Minha sou Eu que a dou, quando chegar a hora, para remir a humanidade, estabelecendo neste mundo o Reino de Deus, do qual sou mesmo o Rei.

Além do mais, que seria de vós quando os romanos vos caíssem em cima e vos massacrassem como traidores a César e traidores a Herodes? Onde vos meteríeis para escapar ao massacre? Resumindo e reiterando a Minha resposta ao vosso convite, que não passa de uma armadilha: NÃAOO!… Aos meus amigos e discípulos aqui presentes censuro o facto de ainda não terem compreendido cabalmente a Minha missão e a deles, mas têm a seu favor o facto de terem sido enganados e instrumentalizados por pessoas sem escrúpulos e a mando do Sinédrio. Aos outros, só tenho de perdoar, porque não sabem o que fazem! Termino com uma pergunta final? Porque não estão aqui aqueles do Sinédrio que Me aceitam ou que não Me combatem, tais como Gamaliel, Nicodemos, José de Arimateia, Eleazar e outros? Porque esses são rectos de coração,… a sabedoria divina está com eles, tornando-os capazes de discernir o que está bem e o que está mal, o que devem ou não devem fazer, e que vêem ao perto e ao longe!…

E Jesus sai imediatamente da sala e da casa, enfia-se no meio de um canavial e abandona o local, caminhando ao longo da costa até encontrar a barca em que alguns discípulos pescam.

Entretanto, arma-se uma confusão na sala, cada grupo chamando traidores aos outros e atribuindo-se mutuamente as culpas pelo falhanço. Enquanto uns sugerem que se vá atrás de Jesus para O prenderem, outros aconselham que se Lhe peça desculpas, outros ainda sugerem que se apanhe e se feche na casa até Ele aceitar a realeza. No final, todos responsabilizam todos pelo falhanço, mas em Jesus ninguém mais põe o olho, porque, em poucos segundos, deixa os perseguidores confundidos, sem encontrarem uma explicação para aquele desaparecimento quase instantâneo.

Quando Jesus se julgou seguro, sentou-se, descansou e acalmou. Era já noite. E Jesus chorou!

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Ezequiel Miguel

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