Publicado por: Administrador | Abril 8, 2018

O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo

(Realidade & ficção)

.

Personagens:

. Cassius (centurião romano)

. Guardas do Templo

. Anás e  Caifás (sumos sacerdotes do Templo e presidentes do Sinédrio judaico)

.

guardas04 “Terminado o sábado, ao romper da aurora do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro. Nisto, houve um grande terramoto. O anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela….Os guardas, com medo dele, puseram-se a tremer e ficaram como mortos”. (Mt 28,1-4)

A Ressurreição de Cristo foi precedida de fenómenos que continuarão para sempre registados pelos evangelistas, os quais se referem a um verdadeiro anjo, que produziu uma onda de luz, um enorme terror nos guardas e um estrondo de rebentar os ouvidos, logo seguidos da remoção da pedra da entrada  do sepulcro, momento da Ressurreição gloriosa de Cristo.

Os soldados, porém,  que eram guardas judeus do Templo, viram a luz e ouviram o estrondo, mas devem também ter visto o anjo, perante o qual foram apanhados pelo terror  e  por ali ficaram desmaiados, tal como Maria Madalena e as outras companheiras os viram. Quando eles vieram a si:

1º guarda: Eh rapazes! O que foi que nos aconteceu? O fogo que ardia aqui com tanta força apagou-se! Isto quer dizer que alguma coisa se passou há já umas horas!

2º guarda –Mas é claro que se passou alguma coisa! Olhai para o sepulcro! Ele está aberto! É melhor irmos lá a ver!… O quê? O corpo não está cá! Nem sequer o lençol em que ele estava envolvido! Raios! Estamos tramados!  Como é que vamos justificar isto perante Anás e Caifás? Será que poderemos escapar à prisão?

3º guarda – Calma! O Centurião Cassius deve saber! A propósito: onde é que ele está? Ele não estava aqui estendido como nós! Deve andar por aí! Vamos dar uma volta! Ele deve saber mais do que nós sabemos sobre tudo o que se passou. Mas ele só deve contar o que viu e o que sabe ao governador, pois foi para isso que Pilatos lhe mandou estar por perto.

4º guarda – Olhai! Ele vem aí!

Cassius – Então rapazes? Dormistes bem? Então, é assim que cumpris as ordens dos vossos chefes? Eles não vão gostar nada daquilo que lhes ides contar!…

5º guarda – Se dormimos bem? Nós não sabemos explicar este sono. Só sabemos que alguma coisa estranha passou por nós! Sentimos um terramoto,  um grande estrondo e uma luz que nos envolveu. Então, vimos um anjo do Senhor a olhar-nos com cara de poucos amigos, tivemos medo e depois, …não sabemos mais o que nos aconteceu!

Cassius – Eu sei o que vos aconteceu, mas não vou explicar-vos agora. Mais tarde! Eu não tenho aqui mais nada que fazer, por isso, vou transmitir a Pilatos o que se passou. Eu contarei o que vi e vós fareis o mesmo, quando chegar a vossa vez. Não vos ponhais a inventar!

6º guarda – E  achas que nós também devemos contar ao governador, uma vez que foi ele que deu a autorização para esta missão?

Cassius –Eu penso que sim, se ele vos convocar! Poderemos fazer assim:  Eu e alguns de vós iremos ao governador. Primeiro, conto eu a minha versão. Mais tarde, quando eu vos indicar, ireis,  alguns de vós,  expor-lhe a vossa verdade. Os outros irão ao Templo e contarão o que sabem. Nada de inventar! Todos vós vistes e sentistes a mesma coisa, por isso, tem de haver unanimidade nos depoimentos, pois eles podem receber-vos um de cada vez, para verificar se há contradições ou versões diferentes. Se eles vos ameaçarem, dizei-lhes  que se dirijam a mim ou que me convidem para dar o meu testemunho. Mas, antes de abandonarmos este local, vamos dar uma volta pelas redondezas, para vermos os resultados do terramoto, que toda a cidade sentiu. Vamos! Cada um deve fixar bem os pormenores que achar de interesse. Eu já andei por aí, enquanto vós jazíeis  aqui como árvores tombadas,  e já vi tudo o que me interessava ver. Para começar: Observai bem aquele enorme rochedo partido ao meio!

7º guarda – Para já, há por aqui muitas pedras que não estavam cá.

1º guarda – Está aqui uma enorme fenda no terreno.

2º guarda -Também está ali um poço, que não existia cá!

3º guarda –  E ali está uma árvore tombada!

4º guarda –  O buraco onde a cruz foi erguida está muito mais largo e mais profundo e o sangue do rei dos Judeus ainda parece estar fresco.

Cassius –  Eu vou experimentar!…Está mesmo! .… Quem quiser, molhe nele um dedo e toque na sua fronte! Depois, leve aos lábios, tal como eu vou fazer!….Já ninguém mais quer?… Então, vamos até ao sepulcro! Os  três que  fizeram como eu fiz irão comigo ao governador. Os outros quatro irão a Anás e Caifás!… Cá estamos  em frente do sepulcro!….Alguém nota alguma coisa especial?…Nada? Então, eu digo: A pedra foi removida para o lado contrário de onde foi rebolada, mas, se virdes bem, não há nenhum rasto dela, dando a impressão que está ali como caída  directamente do céu ou transportada por alguém. Algum de vós alvitra uma explicação?

5º guarda – Tudo muito estranho!

6º guarda – Eu tenho uma explicação possível! Talvez tenha sido aquele anjo que nos meteu tanto medo!

Cassius –Eu acredito que foi isso. Lembrais-vos do motivo pelo qual nós todos estamos aqui? Este, que nós crucificámos, é o Filho de Deus, tal como disse o centurião Longinus, aquele que lhe espetou a lança no peito. O Rei dos Judeus prometera que ressuscitaria ao terceiro dia e hoje é o 3º dia! Isto não vos diz nada?  Os vossos chefes enviaram-vos para aqui exactamente para impedirdes que o seu corpo fosse roubado, pois não acreditam que ele possa ressuscitar. E agora? Ele ressuscitou mesmo! Eu tenho provas disso e bem convincentes! Agora, vamos entrar!…Que notais?

7º guarda – Ambiente perfumado,…de perfumes que não conheço! Mas, …e o lençol e as outras peças de roupa?

Cassius – Já foram levados pelas mulheres e dois discípulos dele, que vieram cá após ele ter ressuscitado. Vós não os vistes, mas eu vi-os! Eu vi ainda outras coisas que vós não vistes, mas que em altura própria vos contarei e que podem mudar as nossas vidas. E agora, vamos embora! Como combinado, uns, para dar testemunho perante o governador, outros,  a caminho de Anás e Caifás.

Logo que  os dois grupos se separaram, os quatro,  cuja tarefa era informar Anás e Caifás do que se passara, começaram a preparar o terreno para o encontro, combinando as medidas a tomar perante imprevistas eventualidades: O que fariam se Anás e Caifás fossem vítimas de um ataque de fúria; se não fossem levados a sério; se eles os ameaçassem de julgamento e prisão, por  supostamente terem falhado na guarda ao sepulcro, etc.

O outro grupo, três soldados mais o centurião Cassius, foram direitos ao palácio de Pilatos, que os recebeu algo mal humorado, abatido, sonolento, após mais uma noite mal dormida, por interferência dos fantasmas ameaçadores que lhe invadiam a consciência. Aquela sentença de morte a um prisioneiro depois de publicamente o declarar inocente, continuava, e continuaria até ao fim da sua vida, a fazê-lo rebolar na cama, a levantar-se com frequência devido aos dentes aguçados dos remorsos e as marteladas pesadelos .

Às explicações de Cassius, Pilatos não deu importância, atribuindo tudo à acção de um dos deuses dos Judeus, tendo , porém, o cuidado de o aconselhar  a não contar nada ao Sinédrio dos Judeus, para que não viesse a ter problemas. O mesmo conselho deu aos três guardas, não deixando de os censurar por não terem sabido resistir àqueles fenómenos que contavam, mas aos quais não dava crédito. Tanto Cassius como os três guardas fingiram aceitar as recomendações de Pilatos, mas a verdade é que já todos  tinham começado a divulgar os fenómenos, pelo que o anúncio da Ressurreição de Cristo já andava no ar, mesmo entre os romanos.

Não longe dali, Anás, Caifás e outros membros do Sinédrio ouviam os relatos dos quatro guardas, um de cada vez. Como todos contaram a mesma coisa, eles entraram em pânico furioso e agressivo, tudo traduzido em cólera incontrolável. Por um lado, por os guardas terem falhado na missão de guardar o sepulcro; por outro, por se verem derrotados e humilhados, após tanto trabalho, tanto esforço, tanta espionagem, tanto dinheiro gasto para pagar aos habitantes do bairro de Ofel pelo êxito do “Crucifica-o, crucifica-o!”. Agora, eles sentiam que tudo tinha sido em vão, sendo a presente situação pior do que a  anterior, tal como temiam. Acalmando um pouco, perante uma opinião mais calma e sensata, depressa surgiu uma ideia salvadora. Recuperados do choque inicial, com ar mais calmo, eles surgiram com três trunfos para uma saída airosa:

  1. Recurso a promessas de não sofrerem consequências pelas mentiras que dissessem.
  2. Recurso a ameaças de serem acusados, julgados e metidos na prisão, por desleixo na missão que lhes fora confiada.
  3. Recurso ao inesgotável tesouro do Templo para subornar os guardas, na condição de dizerem e propagarem o que lhes convinha: “Que, enquanto dormiam, os discípulos tinham vindo roubar o corpo”.

É evidente que os guardas passaram   a actuar em conformidade com o que lhes foi imposto.

 Entretanto, os guardas que informaram Pilatos vieram também informar Anás e Caifás:

Caifás – Vós sois então os outros guardas que fostes ter com Pilatos e contar-lhe a vossa aventura. Quem vos autorizou a prestar contas a esse pagão?

Guarda 1 – Ninguém! Foi o centurião Cassius que nos aconselhou!

Anás – Nós já sabemos o que se passou convosco. Os outros já contaram e afirmaram, os quatro, que tínheis caído sob o efeito de um ataque de sono e também ficado atordoados pelo tremor de terra. Entretanto, os discípulos desse impostor vieram e roubaram o corpo. Vós concordais com o que eles dizem?

Guarda 2 – Nós não sabemos os que se passou enquanto estivemos atordoados e desmaiados. E também vimos um anjo à entrada do sepulcro, que nos aterrorizou, e caímos todos uns em cima dos outros. Não sabemos quanto tempo ficámos assim. Nós não podemos dizer que alguém  abriu o sepulcro e roubou o corpo, porque, se dissermos isso, mentimos!

Caifás – (Furioso) Mas os outros disseram, logo, vós estais a mentir! Além disso, mereceis punição por não terdes cumprido a vossa missão! Outra coisa: o que estava lá o centurião Cassius a fazer? Ele viu alguma coisa que vós não tenhais visto?

Guarda 3 – Ele lembrou que se cumpriu aquela profecia de ressuscitar ao terceiro dia e foi isso mesmo que ele foi dizer a Pilatos. E nós também dissemos, porque não acreditamos que alguém tenha roubado o corpo e também não acreditamos que os nossos colegas tenham dito outra coisa diferente de nós e do Cassius. E vós vedes que houve um terramoto quando Ele morreu e outro terramoto quando ele ressuscitou. Tendes provas disso nos diversos escombros que há no Templo e na cidade, inclusive lá no Gólgota.

Anás – (Altamente irritado) Pois vós ides ter de escolher: Ou passais a dizer que os discípulos dele roubaram o corpo enquanto dormíeis, ou sereis metidos na prisão! Tendes ainda uma alternativa: aceitais o dinheiro que vos propomos, em troca do vosso compromisso, e guardais absoluto segredo daquilo que vistes, ouvistes e sabeis! Então, que dizeis?

Guarda 1 – Eu não aceito! Contarei sempre a verdade!

Guarda 2 – Recuso! A verdade é só uma, sempre e em todo o lado!

guarda 3 – Não mentirás! Yahweh abomina a mentira. Por isso, não aceito as vossas propostas!

Caifás – Então, ides directos para a prisão, onde ficareis não se sabe até quando!

Estes três guardas  recusaram a proposta e foram mesmo encarcerados. Tanto eles como os centuriões Cassius e Longinus converteram-se e tornaram-se cristão, após receberem o Baptismo.

  Como já tinha acontecido naqueles dias anteriores, a Anás e Caifás não  interessava a verdade objectiva, mas a sua verdade, isto é, a sua mentira, e esta nascia no imenso tesouro do Templo. Como hoje ainda dizemos: “Tudo se compra e tudo se vende”. Eis o texto evangélico:

“ …Alguns dos guardas foram à cidade participar aos sumos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. Eles reuniram-se com os anciãos e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: “Dizei isto: “De noite, enquanto dormíamos, os seus discípulos vieram e roubaram-no. “ E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que vos deixe tranquilos”. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinham ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os Judeus até ao dia de hoje. (Mt 28, 11-15).

Em breve, o Sinédrio decretava a perseguição aos membros mais influentes do Cristianismo nascente e Estêvão inaugurava o volumoso livro dos mártires da Fé em Cristo, onde ainda hoje há imenso espaço para novos nomes…

“Quem poderá, Senhor, habitar no teu santuário?… Aquele que tem o coração puro…, que diz a verdade que tem em seu coração,…e não se deixa subornar para prejudicar o inocente!” (Salmo 14/15).

.

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados:

.Oito dias após a Ressurreição

.No caminho de Emaús

.Ressuscitou, como disse.

 

Anúncios

Responses

  1. […] . O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo […]

  2. […] . O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo […]

  3. […] . O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo […]

  4. […] . O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo […]

  5. […] . O Sinédrio e os guardas do túmulo de Cristo […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Categorias