Publicado por: Administrador | Abril 21, 2019

Maria Madalena perante o túmulo de Cristo

(Realidade & ficção)

Personagens :  Cristo, Pedro, João, Maria Madalena

.

MMadalenaCristo morrera na cruz às três horas de sexta-feira, supondo-se que teria sido colocado no túmulo por volta das 17.30, após ter sido descido da cruz, lavado e perfumado com óleos essenciais e perfumes, segundo o costume dos Judeus. Às 18.00 horas tudo teria de ficar pronto, pois a essa hora começava a Parasceve, isto é, os preparativos da Páscoa, tempo em que era obrigatório descansar de qualquer trabalho não estritamente essencial, até à mesma hora  do  dia seguinte, sábado, o dia santo dos Judeus.

No Cenáculo,  a  casa grande onde decorrera a Última Ceia de Jesus e seus Apóstolos, estavam recolhidos Pedro e João, juntamente com a Mãe de Jesus e algumas mulheres familiares ou próximas, aguardando que chegasse o 3º dia. Entre as certezas de uns e as dúvidas de outros, que julgavam tudo acabado, salientavam-se  a Virgem Maria, o Apóstolo João e Maria Madalena, que iam animando, com a sua confiança na Ressurreição de Jesus, aqueles e aquelas que pareciam vacilar na Fé, um dos quais era Pedro, que não fazia senão chorar amargamente, tal como diz o evangelho de João: “E Pedro chorou amargamente” (Mt 26,75), incapaz de se perdoar a si próprio a tripla negação. O ambiente tornara-se pesado e o choro convulsivo de Pedro começava a incomodar aqueles e aquelas que aguardavam ansiosamente a Ressurreição, tantas vezes anunciada por Cristo. Dos apóstolos, apenas João estava ali, calmo, confiante, tal como a Virgem Maria, apesar das investidas diabólicas contra essa fé, essa esperança e essa certeza. Maria Madalena, a mais irmanada com Pedro num passado recente, tentava consolar Pedro e estancar as abundantes e intermináveis lágrimas de Pedro, garantindo-lhe o perdão do Mestre, certezas também confirmadas pela Mãe de Jesus, pois Ela, mais que ninguém, podia falar do que sabia.

Maria Madalena (M.M.) – Ó Pedro, quando é que tu terminas com essa choradeira? Acaso, ela resolve-te alguma coisa?

Pedro – O que é que é que tu queres? Eu não sou capaz de parar! Isto é superior a mim!…

MM – A mim parece-me que tu duvidas do perdão do Mestre e estás a ser um tanto soberbo, porque julgas o teu pecado superior à Sua misericórdia. Há aqui alguém que tenha cometido mais e maiores pecados do que eu? E tu já viste as minhas lágrimas? O Mestre perdoou-me e…pronto! O meu passado está enterrado e o teu também vai ficar! Não penso mais nisso! E tu tens de fazer a mesma coisa! A Mãe não te disse já que Ela te perdoa e o Mestre também? E Ela, se fala assim, sabe o que diz! Não te lembras do que disse o Mestre: “Quero que o pecador se arrependa, peça perdão, se converta e tenha longa vida”? Para mais, tu já sabes qual vai ser a tua missão na Terra! Eu até aposto se Ele te vai repreender pela tua traição. Ele já viu o teu arrependimento e, mentalmente, também já ouviu o teu pedido de perdão. Por isso, levanta a cabeça e vai em frente! Anima-te! A tua queda também serve para demonstrar que somos fracos e que, sem a Sua ajuda, ninguém fica sempre de pé! Igualmente nos ensina que não devemos acreditar demasiado nas nossas forças nem atirar pedras aos outros, para que não venham elas cair em cima de nós!

João – E, se vires bem, todos nós fugimos e O abandonámos, cada qual para seu lado! E agora, até estamos aqui escondidos, com medo que o Sinédrio nos descubra! Ora, vê lá tu a nossa coragem! Corajosas foram estas mulheres, que O acompanharam e animaram, enquanto nós nos escondíamos, nos disfarçávamos ou nos diluíamos no meio da multidão! É certo que as acompanhei, porque sabia que ninguém me faria mal, pois tenho amigos entre os do Templo. Se não fosse isso, também ninguém me veria lá! Isto, só para veres que não somos muito diferentes uns dos outros! Quando Ele foi preso, eu também fugi, como todos! Tu não me ouviste dizer àquele bando: “ Prendei-me a mim também, pois quero ir com o meu Senhor”!  E eu podia tê-lo feito, porque tinha a certeza que ninguém me faria mal. E, no entanto, quando tentaram agarrar-me, salvei a pele fugindo por ali abaixo. Corajoso foi o José de Arimateia, que não teve medo em dar a cara e oferecer o seu próprio túmulo para depositar o Mestre. E agora, sabeis o que lhe aconteceu? Foi preso, a mando do Caifás, mas eu acredito que será por pouco tempo.  Não te lembras que Ele já nos avisou que ser Seu discípulo pode ter custos elevados? Mas também nos garantiu que vale a pena, em vista do prémio que nos está reservado.

MM – Falaste bem, João!… Bem, eu tenho uma proposta a fazer-vos:  Já chegou a madrugada do 3º dia. Eu não estou disposta  a esperar que se cumpram as 72 horas dos três dias completos  e proponho-vos  a ida ao sepulcro. Quem quer acompanhar-me?…(Silêncio)   Ninguém?…Eu irei sozinha, se ninguém quiser ir comigo!

João – A esta hora? Com as portas fechadas e guardadas pelos romanos? Eu acho que é muito perigoso!

MM – No tempo em que eu andava no pecado, eu nunca tive medo de percorrer sozinha as ruas de Jerusalém. Vou ter medo agora?

 João – Já pensaste bem?   Ainda está escuro, as portas das muralhas estão guardadas por soldados romanos, podes ser assaltada por ladrões, os guardas do túmulo podem enviar-te para trás, pensando que vais espiar, a grande pedra que tapa a entrada do sepulcro não te deixará ver nada!…

MM – Eu já pensei nisso tudo! Mesmo assim, insisto em ir, sozinha ou acompanhada! Além disso, não há nada como uma bolsa cheia de luzidias moedas para convencer qualquer mortal a passar por cima de todos os valores!….Mas eu convido só as mulheres! Vós, homens medricas, é melhor ficardes na segurança destas paredes!… A nós ninguém fará mal! Tenho disso a certeza. E as sentinelas até vão achar divertido e deixar-nos-ão passar!

A estratégia de M.M. passava por excluir qualquer homem, incluindo Pedro e João, os únicos apóstolos retornados ao Cenáculo, pois os outros continuavam dispersos. A Mãe de Jesus não engrossava o número das  convidadas, por estar muito fraca. Por isso, M.M. impôs que ninguém a informasse nem convidasse para esse efeito. Enquanto esta espécie de conspiração feminina se tecia, a Virgem Maria continuaria isolada no seu pequeno quarto, sem ser incomodada por ninguém. Era uma ordem de Maria Madalena.

O que motivava realmente Maria Madalena para esta aventura e a estas horas da noite? Aplicar unguentos e perfumes no Corpo do Senhor, segundo a sua palavra. Ela confiava que, após subornar os guardas, eles a deixariam transpor a saída das muralhas,  e os guaras do túmulo de Cristo também não resistiriam aos denários, ajudando-a a remover  o selo e a pedra do  túmulo. Depois, se o Corpo do Mestre ainda lá estivesse, voltariam a pôr tudo como estava antes. Estes eram os planos, previamente pensados, preparados e justificados.

Ficam duas perguntas: 1. Maria Madalena e todos os outros e outras, inclusive a Mãe de Jesus, sabiam que os três dias somente ficariam completos às três da tarde daquele dia. Se acreditavam realmente que Cristo iria ressuscitar àquela hora, para cumprir a profecia, que necessidade teria o Corpo de Cristo de unguentos e perfumes? Seria uma desculpa para disfarçar o nervosismo,  a ansiedade,  a pressão interior, ou seria para confirmar que ninguém teria roubado o corpo? E como alguém roubaria o Corpo, se o túmulo estava guardado por sentinelas do Templo, a mando do Sinédrio?  Fosse qual fosse o motivo, a verdade é que Pedro, João e o grupo de mulheres que se juntaram naquela casa e noutras próximas, estavam numa terrível ansiedade que transformava as horas em eternidades. Finalmente, algumas mulheres deixaram-se convencer e acompanharam Maria Madalena.

Assim, uma vez franqueada a porta da muralha que dava acesso ao Calvário, que, contrariamente ao que esperavam, já estava aberta àquela hora, as mulheres ficaram aterradas ao sentirem um terramoto, abrigando-se cada uma como pôde e encostando-se umas às outras na esperança de ficarem melhor protegidas, ficassem elas vivas ou mortas… Decidiram, apesar deste sobressalto, do qual saíram incólumes, continuar a missão a que se tinham proposto.  Nesse momento, todas se lembraram  do  terramoto que se sentiu após a morte de Cristo . Ninguém perguntou, mesmo assim, se isto teria a ver com a Ressurreição de Cristo, pois não lhes passava pela cabeça que a profecia dos três dias, que todas entenderam serem completos,  não se cumprisse.

Madalena apressou, então, o passo ao longo da muralha, de modo a encontrar   algo que disfarçasse a sua presença, até que, deixando as outras mulheres para trás, rapidamente chegou ao local do túmulo, onde teve a surpresa da sua vida:  viu os soldados estendidos no chão, aparentemente mortos ou a dormir profundamente. Viu que a pedra do túmulo fora removida e o sepulcro estava  aberto e vazio!  Sentiu que as pernas fraquejavam, segurou-se e ficou por ali sem saber bem o que fazer,  desnorteada, pensativa, lacrimosa, pois nada havia para fazer senão regressar, alimentando toda a frustração, até encontrar as outras mulheres, que tinham ficado para trás. De volta, lá iria a sacola com os perfumes e a bolsa recheada de moedas, ambas perfeitamente intactas. Poderíamos  chamar a isto um fracasso total, mas somente o foi na aparência.

Finalmente, pensou ter sido  bafejada por alguma sorte.  Estranhamente, andava por ali um homem a fazer não sabia bem o quê, mas que ela tomou pelo jardineiro, a ele se dirigindo:

MM– Senhor, podes dizer-me quem terá violado este túmulo e roubado o corpo do meu Senhor? Alguém o roubou e matou os guardas, pois eles não dão sinal de si.

– Homem – Mas que fazes tu aqui, mulher, a estas horas tão matinais?

Madalena– É que eu vim aqui para homenagear o corpo do meu Senhor e encontro o túmulo arrombado e vazio. E não sei quem o roubou. Ajoelho-me, Senhor, a teus pés, mas diz-me, por favor,  se foste tu ou se sabes quem foi, pois  se tu és o jardineiro desta zona, deves saber quem veio de noite e o roubou. Diz-me onde ele está e eu vou buscá-lo!

Jesus – Maria!…

Madalena –  Raboni!…Deixa-me beijar a tua veste!

Jesus – Maria, não Me toques, pois ainda não subi para Meu  Pai e vosso Pai! Vai dizer aos Meus irmãos que espero por eles na Galileia!

Maria não se fez rogada. Em descida rápida, encontra as outras  companheiras, todas ofegantes, e convence-as a voltarem para trás, mas elas recusaram, pois também queriam ver com os próprios olhos. Depois, regressaram todas cheias de alegria, na ânsia de transmitirem aos apóstolos a grande notícia de Cristo ressuscitado, não havendo dúvida que o monte foi mais fácil de descer do que de subir.

Chegadas de volta ao Cenáculo, não é difícil imaginar todas elas a falar ao mesmo tempo e dando a notícia a Pedro e João, que decidiram correr até ao túmulo, para ver com os próprios olhos, tirando assim a limpo aquele palavreado entusiasmado das mulheres. “Ver para crer”, já assim era, antes de o apóstolo Tomé o pronunciar pouco depois.

 .

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados:

. A ressurreição de Cristo

. No caminho de Emaús

. O Sinédrio e a Ressurreição de Cristo

. O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo

. Oito dias apos a Ressurreição.

. Ressuscitou, como disse

 

Anúncios

Responses

  1. […] . Maria Madalena perante o túmulo de Cristo […]


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

Categorias

%d bloggers like this: