Salmo 44 (45) – À vossa direita está a Rainha do Céu

Belas palavras brotam do meu coração!

Com os meus versos eu quero honrar o meu Rei,

a minha língua é pena guiada pela mão,

este meu poema ao meu Senhor dedicarei!

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Entre os filhos dos homens és o mais formoso

e nos teus lábios a graça se derramou,

a tua beleza enche o teu povo de gozo,

por isso, o Senhor Deus para sempre te abençoou.

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Tu te revestiste de glória e majestade,

com tua brilhante espada, à cintura cingida,

mostra  a tua heróica valentia, sem igualdade,

em defesa da justiça desaparecida!

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Passeia a tua majestade vitoriosamente

pela causa da mansidão e da verdade!

Em teu poder se encontra a vitória somente,

tua dextra te diz como enfrentar a maldade.

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A tua mão realizará feitos portentosos

com as tuas setas, na perfeição aguçadas!

A ti se submetem os povos orgulhosos,

depois de as suas hostes verem destroçadas.

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O teu trono, ó Deus, se tece de eternidade,

de justiça é urdido o teu ceptro real,

amas a justiça, odeias a iniquidade,

e, com ela, todos  os que praticam o mal.

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Por esse motivo, o Senhor, teu  Deus, te ungiu

com aquele óleo perfumado da alegria!

Aos teus companheiros Ele te preferiu,

na veste que a mirra, aloé, cássia, recendia.

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No palácio de marfim é a lira tocada,

que os teus ouvidos se deliciam a ouvir!

À tua direita está a rainha coroada,

entre filhas de reis, com o  ouro de Ophir.

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Presta atenção, filha! Inclina o teu ouvido!

Esquece o teu povo e a casa de teu pai!

Por tua beleza ficará o rei atraído

e de ti, por certo, enamorar-se vai.

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Presta-lhe obséquio, pois ele é o teu Senhor!

O povo de Tiro virá com seus presentes,

seus nobres tentarão captar o teu favor,

não deixando seus olhos dos teus estar ausentes!

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A rainha avança em seu porte de esplendor,

de brocados de ouro são seus ricos vestidos,

ela entra, com seu manto multicolor,

pelos pórticos do real palácio floridos.

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No lugar de teus pais, teus filhos se verão,

príncipes sobre a Terra serão constituídos,

todas as gerações teu nome lembrarão.

Teus louvores serão pelos séculos ouvidos!

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Ezequiel Miguel

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Assunção da Virgem Maria ao Céu

Assuncao17Na eternidade fora pensada
para ser única, diferente,
pelo Espírito Santo marcada
com Seus traços no corpo e na mente.
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Deus  A escolheu para ser a Mãe
Sua, também de todos os humanos;
se Filha de Deus ao mundo vem,
como Sua Mãe cabe nos seus planos.
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Se, um dia, o Filho de Deus gerou,
pela promessa da Anunciação,
durante a vida O acompanhou,
como na Morte e  Ressurreição.
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Isenta da mancha original,
também do tributo do pecado,
a Morte respeitaria umbral
que pela Graça fora selado.
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Assim sendo, pôde Ela  escolher
como gostaria da Terra sair:
Imitar o Seu Filho e morrer
ou em vida para o Céu partir?
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Mas, sendo do Filho imitadora,
outra alternativa não queria:
sendo dos homens co-redentora,
também pela morte passaria.
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Sendo Maria a humana excepção,
desta excepção não tirou partido,
assim cumprindo uma obrigação
por  um dever  não atribuído.
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Por ser a Virgem Imaculada,
isenta da culpa original,
foi  em Corpo e Alma ao Céu elevada
para ser Rainha Celestial.
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A Árvore na Terra nascida,
no Paraíso foi transplantada,
continuando a dar  frutos  de Vida,
porque em Deus para sempre enxertada.

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Ezequiel Miguel

Salmo 85 (86) – Clamo por vós, Senhor, nesta aflição…

Ano A – XIX Domingo do Tempo Comum

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Inclinai, Senhor, para mim o Vosso ouvido,

porque estou triste, aflito e necessitado,

guardai a minha vida –  este o meu pedido,

salvai-me, pois em Vós estou esperançado.

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Tende compaixão de mim, meu Deus, meu Senhor,

porque por  Vós clamo todo o dia sem cessar,

para Vós eleva a minha alma o seu clamor,

concedei que ela se possa em Vós alegrar.

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Vós, Senhor, sois bom, compassivo, indulgente,

cheio de misericórdia e compaixão,

escutai, Senhor, a minha oração premente,

atendei-me, não seja o meu pedido em vão.

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Clamo por Vós, Senhor, quando me aflige o mal,

porque sei que sereis para comigo afável,

não há entre os deuses nenhum a Vós igual

e nada às Vossas obras é comparável.

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Virão adorar – Vos os povos que criastes,

o Vosso Nome eles irão glorificar,

pois as grandes maravilhas que operastes

provam que sois o único Deus a invocar.

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Que eu siga pelos Vossos caminhos, Senhor,

e não me afaste jamais da Vossa presença,

concentrai no meu coração grande Temor

para que dele não venha para Vós ofensa.

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De todo o coração, Senhor, Vos louvarei,

por me ter favorecido a Vossa bondade,

para sempre Vosso Nome glorificarei

por ainda não ter descido à profundidade.

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Contra mim se levantaram os orgulhosos,

contra mim atentou a multidão furiosa

que não Vos tem presente a seus olhos maldosos

e que da maldade  vive  sempre sequiosa.

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Vós, Senhor, sois um Deus bondoso e paciente,

lento para a ira, rico em fidelidade;

voltai para mim os Vossos olhos, clemente,

exercei para comigo a Vossa piedade.

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Salvai-me e dispensai-me a Vossa fortaleza,

mandai-me um sinal da Vossa benevolência

para que os  inimigos vejam, com tristeza,

que Vós me consolastes nesta ocorrência.

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Ezequiel Miguel

Aparições da Virgem Maria em Fátima – IV

19 de Agosto de 1917, nos Valinhos, Aljustrel, Fátima

Nas suas Memórias, a Ir. Lúcia refere que esta Aparição ocorreu em 13 de Agosto, mas não deixou de salientar que esta data poderia não ser a data verdadeira, pois já não se lembrava bem. Ficou, porém, demonstrado que houve equívoco da sua parte. O equívoco deveu-se ao facto de naquele  dia 13 de Agosto os Pastorinhos estarem à guarda do Administrador de Vila Nova de Ourém, que apareceu lá por Aljustrel  e, servindo-se da mentira, os raptou, levando-os para V.N. de Ourém. A propósito deste rapto o Ti Marto, pai de Francisco e Jacinta, conta:

“Na manhã do dia 13 de Agosto – era uma segunda- feira – mas eu tinha dado as primeiras enxadadas numa fazendica pouco distante, quando me foram chamar que fosse imediatamente lá a casa. Ao entrar vi que estava lá muita gente de fora, mas isso já não havia que estranhar…lavei as mãos com todo o sossego, peguei num trapo para as limpar e mesmo assim limpando-as é que entrei na sala e dou com os olhos no Administrador.

Ti Marto – Então por cá, Sr. Administrador?

Adm. – É verdade, também lá quero ir ao milagre. Pois vamos lá todos! Levo os pequenos comigo no carro!… Ver e crer como S. Tomé… (Nervoso) Então os pequenos não aparecem ? Está-se a fazer horas. É melhor mandarem-nos chamar!

Ti Marto – Não é preciso que ninguém os convide! Eles lá sabem quando hão-de trazer o gado e aprontarem-se para ir.

Adm. – Ah! Finalmente eles aí vêm. Então, menino e meninas,  vamos já para a Cova da Iria, que eu levo-os no meu carro. Assim poderemos chegar lá mais facilmente, pois hoje deve haver por aí muita gente caminhando para lá!

Lúcia – Nós não queremos ir de carro. Preferimos ir a pé. Além disso, ainda é cedo e a Senhora só no pediu para estarmos lá por volta do meio dia! Muito obrigada pela oferta mas nós não aceitamos a boleia!

Adm. – Mas vós não vedes que é melhor irdes comigo? É que eu também lá quero ir para ver o que por lá se  passa. Sabe-se lá se a Senhora não quer também falar comigo! É que eu também gostava de a ver! No meu carro ninguém vos incomodará com perguntas, pedidos, empurrões, poeirada…

Ti Marto – Não se incomode o Sr. Administrador com isso! Eles lá hão-de ir ter!

Adm. – Pois então vão andando para Fátima, para a casa do Sr. Prior, que quero lá fazer-lhe umas perguntas!  Vamos então todos: os pequenos, o pai da Lúcia e o pai do Francisco e da Jacinta!…

Adm. – Bem, já chegámos à casa do Sr. Prior. Vamos subir! Venha a Lúcia em primeiro lugar!

Ti Marto – Vai lá, Lúcia!…

Prior de Fátima –  Quem te ensinou a dizer aquelas coisas que andas por aí a dizer?

Lúcia –  Aquela Senhora que eu vi na Cova da Iria.

Prior – Quem anda a espalhar tais mentiras, que fazem tão mal, como a mentira que vocês disseram, será julgado e irá dar ao inferno, se não for verdade; de mais a mais que muita gente anda enganada por vocês.

Lúcia – Se quem mente vai para o inferno, então eu não vou para o inferno, porque não minto, e digo só o que tenho visto e o que a Senhora me tem dito. E quanto ao povo que ali vai, só vai porque quer; nós não chamamos  ninguém.

Prior – É verdade que aquela Senhora vos confiou um segredo?

Lúcia – Sim, mas não o posso dizer. Que, se V. Revcia quer sabê-lo, eu peço à Senhora e, se me der autorização, digo-lho.

Adm. – Isso são coisas sobrenaturais. Vamos adiante! …  Vamos embora! Entrai os três na minha charrete, que está ali ao fundo das escadas. Eu levo-vos já à Cova da iria! (1)

Ti Marto – “Os pequenos começaram a descer e o carro, sem eu dar conta, tinha mesmo vindo encostar ao fim da escada. Ora aquilo estava mesmo a jeito e o Administrador, num instante, conseguiu que eles entrassem para dentro do carro. O Francisco pôs-se à frente e as duas cachopas atrás. Estava aquilo tão jeitoso que era uma beleza. O cavalo partiu num trotezinho em direcção à Cova da Iria e eu aliviei-me um tanto, mas ao acolher-se na estrada fez uma reviravolta, e foi chicote por cima do cavalo, que partiu como um raio. Estava bem estudada!…Estava bem armada!…Foi bem feita!…Mas não havia remédio!” (1)

No dia 14 de Agosto as três crianças foram submetidas a um cerrado interrogatório pelo Administrador,  que não conseguiu forçá-las a dizer o segredo, apesar de recorrer a promessas e ameaças. Nem  a promessa de moedas de oiro nem a ameaça de irem parar a um caldeirão de azeite a ferver surtiram efeito. Ficava ainda uma esperança de umas horas na cadeia que os tornassem mais colaborantes com o Administrador. Mas nem isso deu o resultado pretendido.

A Aparição nos Valinhos (19 de Agosto de 1917)

Após os sinais do costume( relâmpagos),  Nossa Senhora esperou que a Jacinta chegasse, para se revelar sobre uma azinheira um pouco maior que a da Cova da Iria.

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

V. MariaQuero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13 e que continueis a rezar o terço todos os dias.

Lúcia – Queria pedir-Lhe para fazer um milagre a fim de que todos acreditem .

V. MariaSim! No último mês,  em Outubro, farei um milagre para que todos creiam nas minhas aparições. Se não  vos tivessem levado à aldeia (Vila Nova de Ourém) o milagre teria sido mais grandioso. Virá S. José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo. Virá também Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores.

Lúcia – O que é que Vossemecê quer que se faça do dinheiro e das outras ofertas que o povo deixa na Cova da Iria?

V. MariaFaçam-se dois andores; um leva-o tu com a Jacinta e outras duas meninas vestidas de branco; o outro leve-o o Francisco com mais três meninos também vestidos de opas brancas. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário.

Lúcia – Queria pedir-lhe por aqueles doentes que…

V. MariaSim, alguns curarei durante o ano. Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.

Desta vez, o Francisco e a Jacinta colheram dois raminhos da pequena azinheira onde Nossa Senhora pousara os seus pés e, deixando a Lúcia a guardar as ovelhas, regressaram muito contentes a casa. À  porta da casa de Lúcia encontraram  D.Maria Rosa dos Santos, mãe de Lúcia.

Jacinta – Ó tia, vimos outra vez Nossa Senhora!…Nos Valinhos!…

D. Maria Rosa – Ai, Jacinta! Sempre vocês me saíram uns mentirosos! Nem que Nossa Senhora lhes vá aparecer agora em toda a banda por onde vocês andam!…

Jacinta – Mas é que vimos. Olhe, tia, Nossa Senhora prantou um pé neste raminho e outro neste!

D. Maria Rosa – Dá-me cá! Deixa ver! (Cheirando) Mas a que cheira isto? …Não é perfume…não é incenso…nem sabonete…cheiro a rosa também não é…nem nada que se conheça…Mas é um cheiro bom! …(Para todos os presentes): Quereis vós também cheirar?…Fica aqui, sempre se há-de encontrar alguém que saiba dizer a que é que cheira este ramo!

À noite:

D. Maria Rosa – Eh! Lúcia, Maria dos Anjos,… quem tirou daqui o raminho?… Ele estava aqui neste vaso!… Será que agora também há ladrões  nesta casa? Não bastam já os problemas do costume?… Lúcia, foste tu que o escondeste?

Lúcia – Ó mãe, eu nem sabia que estava cá um raminho da azinheira! Mas o raminho não é da Jacinta ou do Francisco?

D. Maria Rosa – Realmente!… Hum!…Eu cá  já desconfio!… Quem rouba o que é seu…fica perdoado!… Mas amanhã já tiro isso a limpo!…

Ti Marto – Eu tinha ido nesse dia, à tarde, dar uma volta por umas fazendicas e , ao sol posto, voltei para casa. Quando ia quase a entrar, encontro um fulano meu amigo, que me diz assim:

Fulano – Ó Ti Manel! O milagre já está mais averiguado!

Ti Marto – Cá por mim não sei de nada!

Fulano – Certo que não sabe de mais nada?

Ti Marto – Eu não! Que havera eu de saber mais?

Fulano – Pois fique sabendo que Nossa Senhora apareceu, há um bocado, nos Valinhos, aos seus filhos e à cachopa do Abóbora. Pois olhe que é certo, Ti Manel, e sempre lhe digo que a sua Jacinta tem uma virtude qualquer. Ela não tinha ido com os outros e veio cá um a chamá-la e, só quando ela lá chegou é que Nossa Senhora apareceu.

Ti Marto – Eu encolhi os ombros sem ter palavra que dissesse, mas entrei no pátio a pensar no caso. A mulher não estava em casa; fui andando para a cozinha e lá me sentei. Nisto entra a Jacinta muito contente com um raminho na mão libertando um perfume um inexplicável e magnífico cheiro que eu nem sabia explicar,  assim dum palmo e a dizer-me:

Jacinta – Olhe,  pai! Nossa Senhora voltou a aparecer outra vez à gente nos Valinhos!

Ti Marto – Que é que trazes aí?

Jacinta – É o raminho onde Nossa Senhora pôs os pés.

Cheirei-o, mas o perfume tinha desaparecido. (1)

 .

(1)    Extraído e adaptado de : Pe João De Marchi – Era uma Senhora mais brilhante que o sol –Missões da Consolata, 8ª Edição, pp.156-159 , Fátima, 1966

Ezequiel Miguel

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. Interrogatório dos Pastorinhos em  Ourém

. Lúcia e o Sr. Prior de Fátima

. A mãe de Lúcia – crer ou não crer

Interrogatório dos Pastorinhos em Ourém

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Administrador de Vila Nova de Ourém

. Soldado da Guarda Nacional Republicana (G.N.R)- Secretário do Administrador

. Lúcia, Francisco e Jacinta

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Local da acção:  Gabinete do Administrador, na Câmara Municipal de Ourém. Ele está sentado à secretária, batem à porta e o seu secretário anuncia as três crianças, estando já 3 cadeiras à espera delas mais ou menos a meio do gabinete. Elas entram, e ele, com modos afáveis, convida-as a sentarem-se.

Adm. –  Sois então vós a causa de toda esta trapalhada! Sois então vós que inventastes para aí umas anedotas divertidas sobre uma Senhora que vos aparece lá para os lados da Cova da Iria! E contais bem essa história, pelo que sei, porque muita gente vos acredita. Se calhar, foi o diabo que vos iludiu e agora andais a fazer o jogo dele. Dizei-me uma coisa: Como era ele? Tinha cornos e trazia uma forquilha?

Lúcia – Não era o diabo! Era Nossa Senhora, uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, que vem  do Céu e volta para o Céu e pediu-nos para irmos seis vezes à Cova da Iria, para falar connosco.

Adm. – Ah sim? E que vos diz ela? Sim, o que é que Ela já vos disse?

Lúcia – Disse que rezássemos o Terço e fizéssemos sacrifícios para salvar os pecadores, porque vão muitas almas para o inferno, por não se rezar e fazer sacrifícios por elas.

Adm. – O Inferno? Ó meninos, Isso não existe! Isso é uma invenção dos padres e de cabeças tolas. O inferno são os nossos adversários políticos e aqueles que querem destruir a República. Acreditais no que essa Senhora disse? Como é que Ela prova que há inferno? Por acaso,  vós já o vistes?

Aqui, batem à porta…e o Secretário vem avisar o Administrador.

Secretário –  (Falando ao ouvido): Sr. Administrador, está ali uma pessoa que vem de Lisboa e quer falar consigo. Disse que  era do Governo. Parece ser alguém importante.

Adm. – Vou já! Menino e meninas, fiquem aí por uns instantes, enquanto vou ali fora receber uma pessoa.

Ambos saem e ficam as crianças sozinhas. Apercebendo-se do rumo da conversa, Lúcia chama a atenção de Francisco e Jacinta para o segredo. Lúcia combina com eles que, às perguntas sobre o segredo, eles olharão para o chão e não responderão nada.

Lúcia –  Vede lá! Vós já vistes o que ele quer saber! Tu, Jacinta, quando ele te perguntar, não olhes para ele, olha para o chão e fica calada! O Francisco e eu fazemos o mesmo. Se tiveres a tentação de dizer alguma coisa, olha primeiro para mim! Não caias outra vez!

Jacinta  -E se ele nos trata  mal?

Francisco – Oferecemos pelos pecadores!

Jacinta – Ficai descansados! Eu não digo mais nada a ninguém! Fala tu, Lúcia! Nós ficaremos caladinhos que nem ratos!

Lúcia – O Sr. Administrador é esperto e já deu a entender porque é que nos trouxe aqui. Ele quer saber tudo, mas nós não vamos dizer nada! Ele vai ficar muito chateado, mas, depois, manda-nos embora. Atenção, que ele vem aí!…

Adm.  – Ora, então, onde é que nós íamos?…Então, ninguém responde? Ah, já me lembro, íamos no inferno. Volto a perguntar: Já o vistes? Que dizes, Lúcia?

Lúcia – (Silêncio)

Adm. –  E tu, Francisco ?

Francisco – (Silêncio)

Adm. –  E tu, minha pequerrucha, acreditas no inferno?

Jacinta – (Silêncio)

Adm. – Parece-me que um gato vos comeu as línguas ou alguém vos ensaiou para esta entrevista. Bem, vamos saber outras coisas! Afinal, essa Senhora veio lá de tão longe só para vos ver ou também era muda como vós? Dizei-me: O que é que ela disse que interesse a toda a gente? E a propósito, não vos deu nenhum recado para mim? Se calhar, esqueceu-se!

Lúcia – Não, Sr! Só deu o recado a nós!

Adm. – Era eu quem tinha o direito de A receber em primeiro lugar, porque eu é que sou a Autoridade  máxima desta terra. Já não há respeito pela autoridade! Nem sequer lá no Céu!

Lúcia – Mas o senhor quer mesmo saber o que Ela disse e que lhe interessa saber?

Adm. – Ainda me perguntas! Já gastei o saca-rolhas a tentar sacar-vos esse segredo! Eu estou a morrer à fome e ainda me perguntas se quero comer?!

Lúcia  – Ela disse que era preciso fazer penitência, converter-se, arrepender-se, deixar de pecar, fazer sacrifícios pelos pecadores e  rezar o Terço todos os dias. Também disse que a guerra ia acabar e que os soldados voltariam em breve para casa.

Adm. – Ora, aí estão duas boas notícias! Mas isso precisa de ser um segredo? Não acredito que seja! Mas como é que ela sabe isso? Ouvi dizer que vos contou uns segredos! Então, venham eles! Começamos pela Jacinta. Diz lá, menina, o que foi que a Senhora disse assim tão importante que não possa ser dito a todos? A Senhora não vos disse que era preciso respeitar a autoridade desta terra, que sou eu?… Trata-se, acaso,.de outra guerra? Vai haver uma revolta monárquica para trazer o rei de novo?… Tudo isso são manobras da Reacção monárquica e dos padres!

Lúcia – Posso fazer uma pergunta?

Adm. – Diz lá!

Lúcia – Quem é a Reacção? Nós não conhecemos ninguém com esse nome!

Adm – Pois claro que não! Foi uma tirada estúpida da minha parte! Esquecei! Mas voltemos aos segredos! Os segredos só dizem respeito a vós?… Olha lá, Jacinta! Vês ali aquela mesa com brinquedos e outras coisas bonitas? Escolhe dali o que quiseres, se me disseres os segredos!..

Jacinta – (Silêncio e olhos no chão)

Adm. – .Não dizes nada? Bem, vamos ao Francisco! Nós somos homens e entendemo-nos melhor. Estas coisas de segredos,… nós sabemos como é: prometemos guardar segredos, mas, depois, os segredos tornam-se pesados e depressa os despachamos. Espero que a tua língua não esteja ferrugenta como a da Jacinta, que está para ali amuada e com a língua atada. Também ali há coisas de que gostas. Escolhe o que quiseres, por exemplo, aquela bola, aqueles berlindes, aquele pião e  aquele pífaro novo…, mas diz-me os segredos!…

Francisco – (Silêncio e olhos no chão)

Adm. – Não dizes? (Irritado) Mas fostes vós que inventastes os segredos e agora tendes medo de falar? Eu não vos faço mal! Podeis falar à vontade, que eu não direi nada a ninguém! Até podeis dizer que é mentira, que não há segredo nenhum, que inventastes isso para vos divertirdes e meter medo às pessoas!…Também não falas? Combinaste com a tua irmã? Também um gato te comeu a língua!?…Bem, estou a ver que convosco não me safo! Vamos à Lúcia, que já sabe melhor quais são os deveres para com a Autoridade. Diz-me, porque é que eles não falam? Têm medo de ser castigados pelo sr. Prior ou pelos pais? Custa alguma coisa desembuchar algo que todos deveríamos saber? Até porque, se se trata de algum perigo, devíamos saber, para estarmos preparados.

Lúcia – O sr. Administrador tem razão quando diz que todos devíamos saber certas coisas! Então, eu digo algumas coisas que ela disse e que todos devemos saber.  O sr. Administrador quer mesmo saber quais foram essas coisas?

Adm. – Ó rapariga, já estou farto de gastar latim para vos convencer a falar e ainda me perguntas se quero saber? Desembucha de uma vez por todas!

Lúcia – A Senhora disse, além do que já lhe disse, que curaria uns doentes, mas outros não curaria; disse que, no fim de cada mistério do Terço,  rezássemos assim: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do Inferno! Levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem”!

Adm. – O Céu…o inferno…fazer curas milagrosas… curar doentes!…Ó menino e meninas,…são esses os segredos que estavam assim tão bem guardados? Que raio de segredos são esses? Isso já a minha avó sabia!

Lúcia – Mas, sr. Administrador, eu não disse que isso eram os segredos! Isto é o que a Senhora disse para todos e também para si! Quer aprender a rezar o Terço connosco? Nós ensinamos-lhe e também lhe ensinamos a fazer sacrifícios pelos pecadores. Não quer também ir à Cova da Iria num dia 13? Ela pediu que fôssemos seis meses seguidos à Cova da Iria e depois faria um milagre para todos acreditarem que é verdade que Ela nos aparece!

Adm. – Pois! Pois! Sacrifícios, sacrifícios! Isso já eu faço convosco! O terço também já o rezo desde que aqui estou convosco e mistérios também já aqui há que chegue para vários terços. Quanto ao Céu, ao Inferno, às curas milagrosas, à conversão de pecadores…isso não são contas do meu rosário e são tretas dos padres!

Lúcia – Mas a Senhora também se referiu a si!

Adm. –  Ah sim? Finalmente, temos aí alguma coisa que se aproveita! Que disse Ela, então, a meu respeito?

Lúcia – Ela disse que vão muitos pecadores para o inferno. Ora, como o sr. Administrador não crê em Deus, não vai à Missa, não se confessa, não reza o Terço,… fala mal da Religião e dos Padres,…então, é um grande pecador que também vai para o inferno!

Adm. – UI!Ui!Ui! Calma aí! Calma aí! Se o inferno não existe, como é que eu vou para um lugar que não existe?

Lúcia – E como é que o sr Adm. prova que não há inferno?

Adm – Ó miúda, estás-me a queimar os miolos! Vamos cá a descer à terra!

 Mas tu, que és a mais velha,…foste tu que inventaste essas coisas e intrujaste os teus primos, ainda muito novos para saberem resistir a essas patranhas que te ocupam a cabeça? Será que tu não sonhaste e agora remetes-te ao silêncio para não dizeres que mentiste? E, pelo que sei, tens mentido a toda a gente, até aos teus pais e ao Sr. Prior. A tua mãe não te ensinou que é pecado mentir? Afinal, sois uma corja de mentirosos, mas tu és a mais mentirosa e eu estou convencido que tu és a responsável por todas estas patranhas que se passam e contam lá por Fátima. Não queres acabar com isso tudo, dizeres aqui que mentiste e dizer também que inventaste os segredos numa brincadeira? E já agora, esses segredos dizem respeito a vós, a mim, à Igreja Católica,  ao futuro de Portugal, ao mundo, à República, à Maçonaria, à Monarquia, à Religião, a algum Partido político, a alguma guerra, a alguma catástrofe mundial?

Lúcia –( Silêncio e olhos no chão)

Adm. – Já vejo que também recusas revelar esses segredos…que eu acredito não serem segredos nenhuns. Mas, sejam segredos ou não, tens de me dizer… ou então mando-vos prender! Ficais na prisão e só saireis de lá quando falardes! E mais: ninguém virá visitar-vos! E isto é só para começar! Depois, logo veremos! Tendes a noite toda para pensar. Se amanhã não me disserdes os segredos, mando-vos fritar num caldeirão de azeite a ferver. Soldado, leva-os para a prisão!

A cena termina com as crianças saindo do gabinete, conduzidas pelo soldado da GNR.

No dia seguinte –  No gabinete do Administrador

A Jacinta é conduzida à presença do Administrador, para novo interrogatório, baseado nas mesmas perguntas do dia anterior. A Jacinta repete, a todas as perguntas, a mesma atitude de silêncio e olhos no chão, para desespero do Administrador, que vai ficando cada vez mais irritado:

Adm. Ora, então, bom dia a todos. Espero que tenhais dormido bem!

Lúcia, Francisco e Jacinta – Bom dia!

Adm- Ora, espero que tenhais dormido bem e que, com a cabeça fresca e a língua pronta, me digais finalmente o que eu quero saber. É que eu, como ontem vos disse, vou lançar-vos num caldeirão de azeite a ferver, se não me disserdes o segredo ou os segredos. Então, vamos a isso! Qual de vós me diz já esses malditos segredos?…….Ninguém?…Todos com a língua atada e os olhos no chão?…É assim que me respeitais? Bem, vamos a um de cada vez! Fica aqui só a Jacinta!

O Adm. toca uma campainha e entra um GNR

Adm- Soldado, leva a Lúcia e o Francisco para um quarto e fecha-os à chave!. Entretanto, prepara o caldeirão com azeite, para o caso de eles não falarem!

GNR – Sim, sr. Adm.! (Sai)

Adm.- Então, Jacinta!? O que tens a dizer-me?

Jacinta –( Silêncio e olhos no chão).

 Adm. – Continuas na tua teimosia de não obedeceres à minha autoridade? Será que gostas mesmo de ser fritada no caldeirão do azeite ou esperas que a vossa Senhora vos livre? Não tens medo de morrer frita como um torresmo?

Jacinta – Não, senhor, não tenho medo e não digo o segredo.

Adm. – É a tua última palavra?

Jacinta – É!

O Administrador toca a campainha e aparece o GNR

Adm. –  Soldado, o caldeirão de azeite a ferver já está pronto?

Soldado – Sim, sr. Administrador, já está pronto.

Adm. – Então, leva esta e traz-me o Francisco?

O Administrador passeia de um lado para o outro, parando, de vez em quando, para pensar em voz alta. Entretanto, bebe um copo de água, acende um cigarro e fuma-o nervosamente:

Adm. – Que coisa estranha! Em circunstâncias normais, a menina teria desatado a chorar e contado o segredo. Em vez disso, rezava e saiu calmamente para o suplício, sem gritos, sem lamentações, sem choro… Qual era a criança que resistia a esta prova? Há aqui coisas que não compreendo.(Batem à porta) Vejamos como se comportam os outros. Ah! Lá vem o Francisco!

Soldado – Aqui está o Francisco!

Adm – Senta-te, rapaz! Então, espero que soltes a língua, desta vez! A tua irmã não quis soltar a dela, mas agora…acabou-se! Já foi para o caldeirão de azeite a ferver e tu também vais, se não me contares esses segredos.

Francisco limpa as lágrimas pela irmã, mas não abre  a boca nem olha para o Administrador, ficando este perplexo ante a coragem do Francisco, que, finalmente:

Francisco – Se me matarem, vou para o Céu mais cedo, para o pé de Nosso Senhor, Nossa Senhora e da minha irmã e ofereço a minha morte pelos pecadores e para consolar Jesus, que está muito ofendido por causa dos pecados das pessoas.

Adm.- Mas que conversa! Pecadores para a direita, pecadores para a esquerda! Cá está sempre a ladainha dos padres a encher as cabeças destas crianças! Quem te ensinou isso, o sr. Prior ou os teus pais?

Francisco – Foi Nossa Senhora.

Adm. – Pronto, lá vai tudo dar ao mesmo! Vou mandar-te para o Céu, mas, primeiro, mando-te para o caldeirão de azeite a ferver, onde vais a ser frito, como a Jacinta. Pela última vez: Dizes ou não dizes o segredo?…

Francisco – ( Silêncio)

Adm.- Soldado, leva também este e traz-me a outra! Não faço nada com esta garotada que se diverte a inventar coisas estúpidas. Burro sou eu que ando para aqui a tentar o impossível para acalmar os medos de Lisboa! Porque não vêm cá eles e os levam para Lisboa? Pode ser que eles lá consigam o que eu não consigo!

Francisco abandona o gabinete, sem medo, também calmamente, com o seu terço entre os dedos, acompanhado pelo GNR. Segue-se mais um monólogo do sr. Adm., cada vez mais intrigado pelas intrigantes atitudes daquelas crianças.

Adm. – Última tentativa!… Sou uma autoridade neste concelho e a minha influência chega até aos seus confins, mas neste assunto, nem no meu gabinete sou capaz de a exercer e nem sequer com crianças, que fazem de mim um verdadeiro palhaço. Valha-me que elas me levam a sério, de contrário ainda se riam nas minhas barbas, para minha vergonha. Estou a ver que o meu plano se esboroa e que  redunda em nada. Tanta estratégia para conseguir o rapto, tantas noites a magicar na melhor maneira… tantos receios, tantos cuidados, tantas promessas, tantas ameaças, tanto fingimento…e para nada! (Batem à porta) Entre!…Ora cá está a Lúcia, a minha última esperança! Vais, finalmente, estender aqui esses segredos, de contrário, acontece-te como aos teus primos, que se recusaram a falar, mas que já se arrependeram. A estas horas já estão ambos fritos e não lhes aproveitou nada o silêncio, pagando caro a desobediência à minha autoridade de Administrador. Mas tu não vais ser casmurra como eles, porque compreendes melhor o que é respeitar a autoridade. Vá! Desembucha lá o segredo!

Lúcia – (Silêncio e olhos no chão).

Adm. – Com mil diabos! Continuas a não querer falar! Mas que beleza tem o chão deste gabinete para estardes sempre de cabeça baixa a olhar para ele? Diz-me lá quanto queres e eu compro-te esses segredos! Os teus pais ficarão contentes se apareceres lá com dinheiro ganho por ti! Até te vão agradecer, porque eles também gostariam de conhecer esses segredos, se é que não foram eles a meter-vos isso na cabeça! Que filhos sois vós, que não tendes confiança nos vossos pais?…(Silêncio) Bem, não queres mesmo falar? Então também vais a fritar no caldeirão de azeite a ferver. Só já faltas tu. Soldado, leve também esta!

Triste, mas conformada, lá vai Lúcia, conduzida pelo GNR para uma sala onde estão Francisco e Jacinta a rezar por ela. Não é difícil imaginar a alegria, os abraços, os saltos, as acções de graças a Nossa Senhora. Pouco depois, surge o Administrador a dar a notícia:

Adm. –  Ides partir para a vossa terra e para os vossos pais, mas antes ides comer alguma coisa!

A cena termina com a simpática esposa do Administrador a trazer leite, bolos e a fazer-lhes companhia.

Obsv. O segredo dividia-se em três partes:  A visão do inferno;  a Devoção ao Imaculado Coração de Maria e  conversão da Rússia;  a perseguição à Igreja, com o consequente número astronómico de mártires ao longo do século XX, vítimas do Nazismo e  do Comunismo.

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Ezequiel Miguel

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Salmo 96 (97) – O Senhor é Rei

noticia_transfiguraçãoO Senhor é Rei, mostre-Lhe a Terra o seu preito!

De trevas e nuvens se rodeia o Senhor,

Seu trono se apoia na justiça e no direito,

à Sua frente segue um fogo devorador.

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É um fogo que os Seus inimigos devora,

os Seus relâmpagos  iluminam o mundo,

derretem-se os montes como cera na hora,

a Terra vê, estremecendo até ao fundo.

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De toda a Terra Ele é o Dominador,

os céus proclamam Seu louvor e majestade,

os povos contemplam a glória do Senhor,

o universo canta a Sua magnanimidade.

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Serão confundidos os que adoram imagens

e ufanos de seus ídolos se vangloriam!

Todos os deuses não passam de meros pajens,

que perante o Senhor se curvam e desviam.

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Exultem as cidades de Judá com Sião,

por causa dos justos juízos que pronunciais!

Estais acima dos deuses, que nada são,

sobre a Terra como Senhor vos colocais.

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O Senhor ama os que odeiam a iniquidade,

o Senhor protege as almas dos Seus amigos,

livra-os das mãos que praticam a maldade,

aos justos dá a luz que nega aos inimigos.

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Para os justos do Senhor a luz resplandece,

nela rejubilam em alegria perene.

Eultai, justos, de alegria que não fenece,

ao Seu Nome Santo prestai honra solene!

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Ezequiel Miguel

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