SALMO 68 (69) – Pela vossa grande misericórdia atendei-me, Senhor

ANO A – XII domingo do Tempo Comum

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Salva-me, ó Deus, porque nestas águas me afogo,

vejo-me num profundo lodo mergulhado,

onde já não tenho pé; por isso Te rogo,

vem em meu auxílio, que estou desesperado!

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Até ao fundo das águas eu já cheguei

e a corrente por completo me submergiu;

a minha garganta a chamar-Te já sequei,

à Tua espera a luz dos meus olhos já fugiu.

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Os que me odeiam sem uma válida causa

são muitos, mais que os meus cabelos numerosos,

são demasiados e combatem-me sem pausa,

sem motivo atiram-se a mim, quais cães raivosos.

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Os meus pecados não Te ficam escondidos,

conheces, ó Deus , todos os meus desvarios,

que por minha causa não sejam confundidos

os que em Ti  esperam  como pelo mar os rios.

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Afrontas a fio tenho por Ti suportado,

vergonhosa confusão  meu rosto invadiu,

pelos da minha família fui  desterrado

e entre eles nunca tão grande alegria se viu.

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O zelo da Tua Casa, ó Deus, me devorou,

de insultos contra Ti, meu alimento faço,

se o meu rosto com jejuns se descolorou

e de saco me visto,… chamam-me palhaço!

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Cochicham ociosos às portas da cidade,

zombam com canções  inspiradas pelo vinho;

quanto a mim, espero, por Tua grande bondade,

que à minha oração dispenses  o Teu carinho.

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Livra-me do lodo para que não me afunde,

não se feche sobre mim a boca do abismo,

que a onda do rancor e do ódio não me inunde,

pois para dela me livrar me falta heroísmo.

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Escuta-me, ó Deus, por bondade da Tua graça,

volta para mim o Teu rosto complacente,

não Te escondas do Teu servo, que por Ti passa,

apressa-Te e atende-me, que fico demente!

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Abeira-Te de mim, Senhor, e vem salvar-me,

Tu conheces minha vergonha e confusão,

vem depressa dos inimigos libertar-me,

daqueles de quem sou vítima de opressão.

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O insulto foi como se o coração quebrasse,

mas nenhuma compaixão vi aparecer,

não encontrei amigo que me consolasse,

mas fel na comida e vinagre para beber.

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Que as suas mesas sejam armadilhas fatais,

a abundância, um laço para  amigos feito,

que a clara luz dos seus olhos  não brilhe mais,

fique o seu dorso para sempre colado ao leito.

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Descarrega sobre eles Tua indignação,

a Tua ira deixe as suas vidas ensombradas,

deixa deserta, fria, a sua habitação,

fiquem por ocupar as suas tendas montadas.

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Pois eles perseguem os que Tu castigaste,

juntando aos que Tu envias outros  sofrimentos,

com pecado sobre pecado os toleraste,

não merecendo Teu perdão nos maus momentos.

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Do livro dos vivos sejam eles riscados,

no número dos justos não sejam incluídos,

mas a mim, pobre, sem méritos confirmados,

ajuda-me, pois me conto entre os perseguidos.

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Com cânticos hei-de o nome de Deus louvar,

com acção de graças O hei-de engrandecer,

o que Ele aprecia mais que um touro Lhe ofertar

e o sangue de um novilho puro recolher.

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Vejam os humildes e animem-se de alegria,

os que buscam a Deus encham-se de coragem,

ao povo cativo a Sua protecção envia,

os pobres reconforta na sua triste viagem.

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Céus e Terra surjam em louvor concertados,

também os ares e quanto neles se move,

seres que foram por Deus do nada tirados,

com toda a vida que nos mares se promove.

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Deus salvará Sião, sendo fiel à Sua aliança,

livres, os cativos a ela voltarão,

os Seus servos a receberão em herança,

os que amam o Seu Nome nela habitarão.

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Ezequiel Miguel

Você sabe o que é a Missa ? – III

Correspondência entre a Missa e as fases da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo

Já se disse, em artigos semelhantes, que a Missa é um mistério que, como todos os mistérios que envolvem Deus, não está ao alcance da total compreensão da inteligência humana, podendo dizer-se a mesma coisa a respeito dos Santos, dos Anjos e dos demónios. Apesar disso,  temos sempre algo a aprender para melhor viver a Missa.

Na definição da Missa consta: “É o Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo,” entendendo-se por Paixão todo o sofrimento por que  passou Jesus na Agonia do Getsémani, na prisão, nos julgamentos, na flagelação e coroação de espinhos, nos insultos, cuspidelas, agressões, caminho para o Calvário, Crucifixão  e Morte. Um memorial é algo que se faz para perpetuar a memória de um acontecimento relevante ou de uma pessoa. Assim é também com o Memorial de que falamos. Mas este Memorial é mais do que isso. É também uma repetição viva da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, em que tudo acontece de novo, de uma forma mística, não cruenta, em que de novo Ele se oferece ao Pai pelas almas dos homens, derivando daí o nome de “Santo Sacrifício” que se atribui à Missa, porque Jesus se imola como a Vítima agradável ao Pai. Mesmo o Sacerdote celebrante está longe de compreender, entender cabalmente o Acto que se realiza através dele, embora não seja ele o protagonista principal, mas o próprio Cristo, Sacerdote e Vítima ao mesmo tempo e em simultâneo.

O Padre Pio de Pietralcina, frade Capuchinho italiano (25/05/1887 – 23/09/ 1968), já canonizado, foi talvez aquele a quem foi dado chegar mais fundo, mais alto e mais longe na compreensão deste  mistério da Missa e quem melhor a viveu e explicou. Assim, seguem-se as explicações contendo alguns elementos por ele fornecidos sobre os momentos da Missa que correspondem à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo:

  1. Do sinal da cruz inicial até ao Ofertório – Com  a oração inicial, a Confissão, o Kyrie, o Glória, as leituras, o Salmo responsorial, a Homilia, o Credo, a Oração dos Fiéis, decorre a fase correspondente à estadia de Jesus no Getsémani, onde sofreu a terrível Agonia, da qual constaram a angústia, os tremores, o suor de sangue, a visão das avassaladoras ondas dos pecados humanos passados, presentes e futuros. É nesta fase da Missa que imaginamos Cristo em sua Agonia a sofrer pelos nossos pecados…Acompanhamo-Lo pela Confissão, pelo arrependimento, dizendo a todos que somos pecadores e pedindo perdão uns aos outros, a Deus, aos Anjos e aos Santos. Nas leituras, salmo, homilia, ouvimos o que Deus nos diz directamente sobre o que devemos fazer, como devemos pensar, louvar, agradecer, viver,…tudo em união com Cristo, que está lá no Getsémani intercedendo por nós. É nesta fase da Liturgia da Palavra que podemos inserir o conselho/mandamento que o Pai nos dá: “ Este é o Meu Filho muito amado. Escutai-O!”
  2. O Ofertório –  Corresponde ao oferecimento que Jesus fez de Si mesmo ao Pai (Faça-se a Tua Vontade). É a hora de confirmar o seu “Quero  continuar e seguir com isto até ao fim”! É nesta fase que se espera que façamos, à semelhança de Cristo, a oferta da nossa vida, com tudo o que ela tem de bom e de mau, oferecendo também a submissão da nossa vontade à Vontade do Pai, na disposição de fazer o que Ele manda e de aceitar tudo o que Ele permitir que nos aconteça, numa oferta total como aquela que Cristo fez ao Pai. É o momento de manifestar a Deus a nossa disposição de continuar (ou de começar) a aceitar tudo o que possa incluir-se naquele conjunto de problemas a que chamamos a cruz de cada um, nada nos impedindo, porém, de solicitar a Deus que a torne um pouco menos pesada…mas acrescentando: “Não se faça minha vontade, mas a Vossa”! É o momento de nos despojarmos de tudo o que nos afasta de Deus e do cumprimento da Sua Vontade soberana a nosso respeito. Nesta oferta vai tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que fazemos, as nossas intenções, as nossas fraquezas, os nossos anseios, as nossas frustrações, os nossos desejos de melhorar…, de evitar o pecado, de viver mais santamente,…e até os nossos pecados, para que sobre eles venha um sincero arrependimento que os dilua na misericórdia divina. Mas não esqueça: arrependimento sem Confissão sacramental nada garante!
  3. O Prefácio ( fase que termina no Sanctus) é o canto de louvor e agradecimento que Jesus dirige ao Pai por Lhe ter permitido chegar a esta etapa, o princípio do fim da Sua obra redentora a favor dos homens. Nesta fase da Missa unimo-nos a Cristo no Seu canto de louvor e agradecimento ao Pai por tudo o que sejam favores, auxílios, graças materiais e espirituais, provações, dificuldades, sofrimentos…enfim, tudo o que até nós chegou de bom e de mau na nossa vida. Não é costume louvarmos e agradecermos pelas horas más, mas esta é uma oportunidade de nos unirmos a Cristo, que louva e agradece pelas fases dolorosas por que passa  na Redenção dos homens.
  4. Da Oração Eucarística ( após o Sanctus) até à Consagração – é a prisão, os insultos, o julgamento, a flagelação, a coroação de espinhos, a condenação à morte, o caminho da cruz. Imagine-se um daqueles que percorrem esse caminho e veja Cristo carregando a pesada cruz na subida para o Gólgota. Imagine e tenha a certeza que Ele vai ali expiando os seus pecados e os de todos nós. A imaginação permite-nos saltar da igreja para os locais da Paixão, Morte e Ressurreição e vice-versa, sem que ninguém se aperceba disso.  Inclui-se aqui o momento de lembrar os vivos e os defuntos pelos quais o Celebrante intercede :“Lembrai-vos daqueles que… e lembrai-Vos também …” É também o momento de nós nos lembrarmos dos nossos vivos e dos nossos defuntos e de rezarmos por eles, familiares, amigos, estranhos ou inimigos que estejam ainda no Purgatório. Nada como a Missa pode aliviar e encurtar o seu terrível sofrimento pelo qual eles nada podem fazer. Tal como aos condenados ao inferno, a vontade própria (livre arbítrio) foi-lhes retirada, ficando totalmente dependentes dos meios espirituais da Igreja e seus membros que por eles intercedem. Em todas as Missas é dever nosso lembrar os nossos familiares ( e outros) do Purgatório. Um dia, eles agradecerão e intercederão em nosso favor. Sem os sufrágios da Igreja, muitas almas do Purgatório estariam lá até ao fim do mundo, tal como Nossa Senhora revelou em Fátima, na primeira Aparição, a propósito da recém falecida Amélia.
  5. A Consagração – É a própria Crucifixão, em que Jesus entrega aos homens o Seu Corpo e  o Seu Sangue, alimento vivo para as almas. Quando o Celebrante proclama: “Mistério da Fé”, a Igreja põe nas nossas bocas: “Anunciamos, Senhor, a Vossa Morte, proclamamos a Vossa e Ressurreição… !”
  6. A Elevação da Hóstia – O gesto da Elevação da Hóstia pode corresponder ao momento em que a cruz, já com Jesus crucificado, é levantada e todos O podem ver : “Eu, quando for erguido da terra, atrairei todos a Mim” (Jo  12, 32) e “Olharão para Aquele que trespassaram” (Jo 20, 37).
  7. Oração litúrgica após a Consagração – Corresponde ao tempo em que Jesus  esteve suspenso na  Cruz. Podemos vê-LO  e ouvi-LO a oferecer-nos a Sua Mãe (Filho, eis aí a tua Mãe), a entregar-nos à Sua própria Mãe ( Mãe, eis aí o Teu filho), a pedir perdão para os algozes e todos aqueles que contribuíram para aquela situação (Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem), a prometer a Dimas o paraíso (Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso), a  revelar a Sua sede de almas (Tenho sede), a revelar quanto Lhe custou o abandono do Pai (Pai, porque Me abandonaste?), a alegrar-se por a grande obra da Redenção ter chegado ao fim (Tudo está consumado).
  8. Por Cristo, com Cristo e em Cristo… – Corresponde ao grito de Jesus anunciando a sua morte – “ Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito”.  É o momento do Pai-Nosso, em que os homens são convidados a sentirem-se unidos como irmãos em Cristo e filhos do mesmo Pai, após o  Seu sacrifício consumado. O espírito de Cristo é oferecido ao Pai e o Seu Corpo e Sangue são oferecidos aos homens para que eles se sintam unidos entre si e reunidos ao Pai em Cristo.
  1. Quando o sacerdote parte a Hóstia – É o momento da Morte de Jesus, o momento em que o Corpo e o Sangue de Jesus se separam de vez. O Seu grito “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito” marca o momento exacto da morte. O Sangue verte-se para a terra e o Corpo é também entregue à terra. É o corte completo com a vida, a fractura, a separação do Corpo e do Sangue. É isso a Morte.
  2. Quando o sacerdote deixa cair no Cálice uma partícula da Hóstia – É o momento da Ressurreição, momento em que o Corpo e o Sangue de Cristo estão de novo reunidos no Corpo total, vivo, que vai ser comungado.
  3. Comunhão – É Cristo vivo, na Sua Alma, no seu Corpo, no seu Sangue, na sua Humanidade, na sua Divindade, a entregar-se  como alimento num banquete divino, algo que somente na Terra se oferece àqueles que se apresentam com veste branca nupcial. Recorde-se a Comunhão dada pelo Anjo de Portugal aos Pastorinhos, na Loca do Cabeço, em que da Hóstia caíam gotas de Sangue para dentro do Cálice. É o Cristo ressuscitado, vivo, inteiro, a oferecer-se como alimento das almas, Penhor de Vida Eterna para aqueles que O comem e bebem dignamente e garantia de condenação para aqueles que O comem e bebem indignamente, isto é, em pecado grave: “Quem come e bebe o Corpo do Senhor indignamente come e bebe a própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor” (1 Cor. 29).
  4. A Acção de Graças – É o encontro pessoal de cada um com Cristo vivo, semelhante àquele em que os Apóstolos O viram e dialogaram com Ele após a Ressurreição. É o momento de Lhe dar as boas-vindas, de louvar, pedir, agradecer, oferecer, dialogar com o próprio Deus vivo presente na alma humana.
  5. A bênção final (despedida) –  O Celebrante abençoa os fiéis com o Sinal da Cruz, porque este Sinal é um distintivo indelével que também actua como escudo protector contra a acção de Satanás. É o convite de Cristo transmitido à Madalena: “Vai e diz aos Meus irmãos que se ponham a caminho da Galileia. É lá que os espero para darem testemunho da Minha Ressurreição:…Ide…pregai, …expulsai os demónios … baptizai…em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” É o convite que se nos faz de viver a Missa fora da igreja e dar o testemunho que se espera de todo o fiel discípulo de Cristo.

Posto isto, quando estiver na Missa, sirva-se da imaginação e acompanhe Cristo na Sua Paixão, Morte e Ressurreição, pois ela realiza-se de novo em cada Missa, não sendo apenas uma comemoração. Se assim fizer, terá poucos motivos para se distrair e ficar à espera que a Missa acabe quanto antes… Também não se lembrará de olhar para o relógio ou de pensar no que vai cozinhar para o almoço… Mistérios são mistérios, algo que não se discute, mas se aceita ou se rejeita. É uma questão de crer ou não crer, uma questão de fé católica ou de falta dela. Viva a Missa de forma diferente e passará a apreciá-la melhor, pois nela se realiza o acto mais importante em que o Homem pode participar.

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Ezequiel Miguel

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Felizes os convidados

Felizes os convidados 1Felzes os convidados 2

Salmo 99 (100) – Nós somos o Povo do Senhor

Exultai, povos todos, em honra do Senhor,

servi o Senhor com cânticos de alegria,

vinde até Ele com jubiloso louvor,

cantai-Lhe salmos e hinos dia após dia.

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Lembrai-vos que Ele é o nosso Deus e Senhor,

Ele nos constituiu ovelhas do Seu rebanho;

nós somos Seus, por ser Ele o nosso Criador,

o Seu povo, cada um Sua ovelha ou anho.

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Nós somos a Sua Grei, Ele o nosso Pastor,

pelas portas do Seu Templo santo entrai,

penetrai em Seus átrios ao som do louvor,

bendizei-O! O Seu Nome glorificai!

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O Senhor é infinitamente bondoso,

porque perene é a Sua clemência,

de geração em geração misericordioso,

a Sua fidelidade não tem concorrência.

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Ezequiel Miguel

Aclamai a Deus Terra inteira

ACLAMAI A DEUS TERRA INTEIRA

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Você sabe o que é a Missa? – I

Muitos responderão, primeiro que tudo e antes de mais nada: “ É uma seca”! Mas quero aqui demonstrar-lhe que não é! Se houver uma seca, será na mente, na vida  e na atitude de quem vai à missa por ir, porque tem de ir, porque sempre foi, porque fica mal não ir, porque, se não for, causa problemas a si próprio, porque faz parte das festas, porque se anda em qualquer Movimento da Igreja e…tem de ser, porque, indo à missa, se poderá esconder uma vida de pecado, porque se tem de mostrar aos outros que se vai,  porque é necessário deitar aos outros poeira nos olhos, para que eles não desconfiem de certos comportamentos pecaminosos, porque o Padre diz uma missa gira, onde se batem palmas e se cantam coisas modernas, porque,…porque,…

Fica já assente que ninguém, a não ser Deus, compreende na totalidade o que é a Missa, nem mesmo os Santos do paraíso e os Anjos, daqueles de hierarquia mais baixa até aos Querubins e Serafins, que pertencem às hierarquias mais elevadas.

Mas isso não nos impede de saber e compreender minimamente o que é a Missa, tanto quanto a inteligência humana é capaz de abarcar e assimilar e tanto quanto alguém nos consegue fazer ver as coisas, sem deturpar nada e sem torcer ou retorcer.

Diz a Igreja no Catecismo da Igreja Católica, nº 1323: “O nosso Salvador instituiu, na Última Ceia, na noite em que foi entregue, o Sacrifício Eucarístico do Seu Corpo e Sangue, para perpetuar, pelo decorrer dos séculos, até voltar, o Sacrifício da Cruz, confiando à Igreja, Sua Esposa amada, o Memorial da Sua Morte e Ressurreição: sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura.” (SC 47)

Sacrifício Eucarístico – É outra expressão para designar a Missa, designando-se também por Santo Sacrifício, Banquete do Senhor, Fracção do Pão, Assembleia Eucarística, Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, Sagrada Liturgia, Santa Liturgia, Comunhão, Santa Missa, Santos Mistérios, Ceia do Senhor, Eucaristia. Cada um destes nomes exprime a faceta que se quer realçar quando se fala ou escreve a respeito da Missa. Porque se lhe chama “Sacrifício”? Temos que voltar atrás no tempo! Antes de Cristo foi dada ao povo Hebreu, através de Moisés, a Lei a que chamamos a Lei de Moisés, a Lei do ( Monte) Sinai, que é uma montanha que faz parte do Monte Horeb, no deserto entre o Egipto e o actual Israel. Essa Lei, que vai de Moisés até Jesus Cristo, abarca cerca 2.000  anos e está expressa na Bíblia, assim como as pessoas e os episódios que lhe estão associados. A Lei não era da autoria de Moisés, mas é da autoria do próprio Deus-Pai, ficando Moisés a autoridade máxima e o Guardião da Lei, enquanto viveu. Encontra tudo isto nos livros da Bíblia: Êxodo, Levítico, Números e Deuteronómio..

Após 400 anos de escravatura no Egipto, cerca do ano 1250 A.C., Deus chamou Moisés e seu irmão Aarão para comandar a libertação do povo hebreu, o que aconteceu após o Faraó ter finalmente autorizado a saída, vergado pelas 10 Pragas do Egipto. Na última noite da escravidão foi dada a Moisés a mensagem que ordenava:  Todas as famílias deveriam comer um cordeiro de um ano,  sem defeito, sem se lhe partir qualquer osso e recolher o sangue para com ele pintar  as soleiras  e o dintel das portas com o seu sangue. Dessa refeição faziam parte o pão ázimo (sem fermento), o vinho e ervas amargas, para lembrar o amargor da escravidão. Naquela noite um Anjo passaria (e passou) em frente de todas as portas de entrada das casas do Egipto. Aquelas que estivessem assinaladas com o sangue do cordeiro seriam poupadas, nas outras haveria dor e lágrimas para chorar a morte de todos os varões primogénitos do Egipto e ainda os primogénitos dos animais. E assim aconteceu. Era a Páscoa, a Passagem da escravatura à liberdade. E Deus ordenou que esta Páscoa (Passagem) se comemorasse de geração em geração.

Uma vez passado o Mar Vermelho, os hebreus acamparam na base do Monte Sinai e no alto deste monte foi dado aos homens o Decálogo, que traduzimos por Os Dez Mandamentos. Á medida que a travessia do deserto prosseguia, Moisés, inspirado por Deus, foi legislando e acompanhando de perto a vida do seu povo, lançando as bases da convivência com leis civis, leis militares e leis religiosas para presidir ao culto que o próprio Deus instituía. É aqui que entram em cena os sacrifícios (mortes) de animais, os quais  não deveriam ter defeitos, porque eram oferecidos a Deus. Os animais  eram colocados sobre  uma pira de lenha, onde ardiam até serem totalmente consumidos, após serem mortos e se ter recolhido o seu sangue para com ele aspergir o altar e também o povo, depois de convidado ao arrependimento. A vítima substituía a pessoa que oferecia o sacrifício. Era assim que se fazia um sacrifício, o qual incluía sempre  a oferta de um animal (vítima) ou de produtos da terra (oferenda). A finalidade dos sacrifícios poderia ser uma ou mais  das seguintes:  louvar a Deus, agradecer, pedir, interceder para pedir perdão e expiar pelos pecados da pessoa ou do povo em geral e desagravar Deus pela ofensas recebidas (Reparação). A vítima acabava sempre destruída, para significar que Deus é o Senhor de tudo e de todos e para que ninguém fosse servir-se de uma coisa que tinha sido oferecida a Deus.

Há quem leia o Antigo Testamento e diga que não percebe nada daquilo. Convém saber que no Antigo Testamento está o anúncio do Novo, tanto em acontecimentos, como em pessoas, factos,  profecias e Lei de Deus. Estão no Antigo Testamento as referências ao sacerdócio, às vestes sacerdotais, ao culto, ao pecado, às  figuras da Virgem Maria, de João Baptista, da Igreja, de Jesus Cristo e Seu nascimento, pregação do Reino, Sacramentos, instituição da Eucaristia, da Missa, Paixão, Morte e Ressurreição. Na parte que agora nos interessa, João Baptista anunciou O Messias dizendo:” Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira os pecados do mundo”. O Apocalipse trata Jesus Cristo como “o Cordeiro”, sentado num trono à direita do Pai e abrindo o Livro onde estão inscritos os eleitos que lavaram (e vão lavando) as suas vestes no Sangue do Cordeiro. O que quer isto dizer? Foi pelo derramamento do Sangue de Cristo (o Cordeiro), em consequência da sua imolação como Vítima, que Jesus Cristo instituiu os Sacramentos, dos quais os eleitos do Paraíso aproveitaram para lavar as suas vestes ( almas) e outros continuarão a fazer o mesmo. As vestes foram, são e serão lavadas pelo Baptismo, pela Penitência (Confissão), pela Eucaristia, pelo martírio, por um acto de arrependimento perfeito (contrição), seguida de Confissão sacramental, para quem seja obrigado a isso e o possa fazer.

O Cordeiro (Cristo) é imolado, oferecido no Calvário ao Pai como Vítima santa, imaculada, sem defeito, sem mancha, exactamente para morrer em vez de todos os homens e expiar por eles a dívida contraída em consequência do pecado original e de todos os outros pecados que já se tinham feito, que se faziam, que se  fazem hoje e se farão até ao fim do mundo.Esse Sacrifício ( morte violenta de Cristo-Vítima)  ocorrido no Calvário fez-se uma só vez, de uma maneira cruenta, mas ele continua a realizar-se, agora de maneira incruenta, mística, invisível, quase incompreensível, mas verdadeira, num outro plano que nos ultrapassa.

E chegámos à Missa!  Já terá ouvido dizer àqueles que não vão à missa, que já a deixaram ou que nunca a aceitaram, que a Missa foi inventada pelos padres para arranjarem dinheiro. Isto tem a cor de uma blasfémia, de uma insolência, de uma  crassa ignorância, de um inqualificável atrevimento, de um insulto, de um desprezo… Todos os demónios sabem aquilo que essas pessoas não querem saber! Vamos distinguir entre Missa e Eucaristia.

A Eucaristia (transformação da pão e do vinho no Corpo de Cristo, fenómeno a que se dá o nome de Transubstanciação) realiza-se dentro da Missa e foi o próprio Cristo, na Última Ceia, que realizou ambas e ordenou aos Apóstolos que fizessem o mesmo. Antes disso, porém, ordenou-os Bispos e eles ordenaram sacerdotes e bispos até aos tempos de hoje. Assim, qualquer bispo da Igreja Católica validamente ordenado faz parte de uma cadeia que vai até um dos Apóstolos presentes na Última Ceia.

A Missa contém várias partes, sendo a primeira apenas preparatória e catequética, onde se convida ao arrependimento dos pecados e ao pedido de perdão a Deus, constando dela o” Kyrie    eleison” (Senhor, tende piedade de nós), as leituras, o Salmo responsorial, o Glória, a Homilia, o Credo. A esta primeira parte chama(va)-se a Missa dos Catecúmenos. A partir daí começa a 2ª parte, com uma série de orações que vão subindo de intensidade até chegar à Consagração, cujas palavras (as mesmas de Cristo) realizam o que significam: “…Tomai e comei ; isto é o meu Corpo, que vai ser entregue por vós! …Tomai e bebei, isto é o Meu Sangue, que vai ser derramado por vós para remissão dos pecados!…Fazei isto em memória de Mim!” Após estas palavras, o sacerdote eleva a Hóstia e o Cálice e, se ele foi  validamente ordenado e teve a intenção de fazer o que faz a Igreja, acontece a Eucaristia, o Santíssimo Sacramento,  a Hóstia Santa, Imaculada, o Corpo de Cristo, o Cordeiro Imaculado, o Cristo total em Corpo, Alma e Divindade, tão real e perfeitamente como está no Céu! É o Mistério sacrossanto, o  Mistério inefável (inexprimível), o Mistério dos Mistérios, o Mistério da Fé! O ritual da Missa prossegue com a 3ª parte até ao fim, passando pelo momento da Comunhão e Acção de Graças. À Comunhão  só deve ir quem estiver devidamente preparado. Assim se satisfaz a ordem, o mandamento, o convite, a oferta de Cristo e se cumprem as profecias que Ele fizera e que constam do capítulo 6 do Evangelho de S. João: “ A minha carne é verdadeira comida e o meu Sangue é verdadeira bebida…  Quem come a Minha carne e bebe o Meu Sangue tem a Vida Eterna …Eu sou o Pão vivo descido do Céu…”, etc. Parte-se do princípio que as pessoas que vão comungar o fazem na graça de Deus, sem pecado grave, em situações conformes às leis de Deus e da Igreja. Em situações de casamento civil, de vida com amantes, de uniões de facto, de divórcio partilhado com outra pessoa que não o cônjuge, homossexualidade, adopção de seitas,…ou de qualquer pecado grave,  pessoas não baptizadas, etc., não deverão apresentar-se à Comunhão. Em conclusão, todos aqueles que não estejam em união plena com a Igreja e com tudo o que ela propõe, defende e ensina. Se o fizerem, cometem um sacrilégio e, segundo S. Paulo, “comem e bebem a própria condenação”.

Então, a Missa tem três  facetas e funções importantíssimas que definem o que realmente ela é.  1ª – Porque Cristo disse: “Fazei isto em memória de Mim”, a Missa é o Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, isto é, a Comemoração de um acontecimento grandioso, à semelhança daquela Páscoa Hebraica em que se deu a libertação da escravidão do Egipto; – Esta faceta é absolutamente misteriosa, desenvolvida no nível místico, não visível aos nossos olhos e consiste nisto: Repete-se totalmente o drama do Calvário, com a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, o Qual se oferece de novo ao Pai como Vítima expiatória pelos pecados dos homens. 3ª – As Hóstias consagradas na Missa servem para a Comunhão do Celebrante e dos fiéis, mas também para ficarem presentes  no Sacrário, onde Cristo espera por Adoração Eucarística e também para serem levadas  aos moribundos e outros doentes incapacitados de se deslocarem à igreja. É aqui que está o outro grande Mistério e eis porque cada Missa é simultaneamente as três coisas: Memorial  (Aniversário, Comemoração), Repetição ao vivo, embora invisível, e Presença de Cristo. Posto isto, vem a pergunta: Será isto uma “seca”? Se houver uma “seca”, será da parte de quem está presente sem saber bem o que está ali a fazer e porquê! Esses serão a grande maioria, por falta de catequese profunda sobre estes mistérios. Daí,  o convite que lhe faço de se esclarecer, lendo e relendo o que aqui deixo escrito.

Também é caso para perguntar, perante tantas novidades e abusos que se cometem por todo o lado, até nas coisas mais santas e sagradas, se, estando nós presentes na Crucifixão e Morte de Cristo, nos atreveríamos a cantar canções religiosas, bater palmas, tocar umas guitarradas, cantar umas músicas de espantar pássaros, desatar para ali a dançar e a beijocar! Não acredito que os Anjos, presentes em todas as Missas, o façam! Então, o que se aconselha? O cântico litúrgico, as músicas aprovadas, as letras aprovadas e se possível retiradas dos Salmos,  hinos bíblicos ou outros propostos pela Igreja, instrumentos aprovados,… para que não se confunda a Missa com qualquer festival da canção religiosa. Requerem-se ainda atitudes de concentração, devoção e máximo respeito pelo maior acontecimento que se realiza sobre a Terra: a Missa!

Posto isto, aqui vai uma definição resumida  do que é a Missa: A Missa  é o Sacrifício (Morte com derramamento de Sangue) do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo que, sob as espécies do pão e do vinho, é oferecido pelo sacerdote a Deus no altar, em memória e renovação do Sacrifício da Cruz ocorrido no Calvário.

Definição de Eucaristia: A Eucaristia é o sacramento que, sob as aparências do pão e do vinho, contém realmente o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo para alimento das almas.

Não há Missa sem Sacerdote e sem Eucaristia e ambas somente se realizam através de um Sacerdote validamente ordenado, tendo ele a intenção de fazer o que faz a Igreja Católica. Por isso, a cerimónia semelhante oferecida por seitas protestantes, nomeadamente as evangélicas, não é Missa nem Eucaristia, por muito parecidas que sejam, sendo antes um arremedo, uma paródia, um atrevimento, tudo blasfemo, de algo sagrado acima de tudo o que é sagrado. Eles pretendem comemorar a Última Ceia de Cristo, mas ignoram (ou rejeitam) que essa Ceia não foi simplesmente um jantar para despedida de alguém que vai partir. Foi muito mais do que isso, infinitamente mais!

Qual a função do Sacerdote? O verdadeiro e único Sacerdote aqui é Jesus Cristo, que também é a Vítima, por isso, é Ele mesmo que, como Sumo Sacerdote e Vítima, se oferece ao Pai, através de um intermediário humano, que é o Sacerdote, Ministro de Deus, por desempenhar funções em nome de Jesus Cristo.

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Ezequiel Miguel

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Salmo 147 (12-20) – Glorifica, Jerusalém, o teu Senhor

coro01Glorifica, Jerusalém, o teu Senhor,

louva com entusiasmo o teu Deus, ó Sião!

Por tuas portas já não entra medo ou temor,

pois o Senhor te dispensa Sua protecção.

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Já firmou a paz em todas as tuas fronteiras

e com a flor da farinha já te saciou,

Suas palavras envia à Terra, ligeiras,

e a Sua mensagem até aos homens chegou.

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A neve, como flocos de lã, faz cair,

como cinza espalha pelo solo a geada,

quais migalhas de pão faz o granizo vir,

com o frio que envia deixa a água gelada.

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A Sua palavra faz os gelos derreter,

as águas correm quando o vento faz soprar;

a sua palavra a Jacob deu a conhecer

e Seus preceitos a Israel mandou guardar.

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Não fez assim com nenhuma outra nação,

a nenhum povo manifestou Seus preceitos;

Israel foi o único a receber informação

sobre o que Deus espera dos Seus eleitos.

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Ezequiel Miguel

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