Jesus visita o Mar Morto

Sodoma e Gomorra

(Confira: Génesis 19 e 20)

(Realidade & ficção)

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Citações bíblicas:

1 . “Se um homem se deitar com outro homem, como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um acto abominável. Serão ambos punidos com a morte. O seu sangue cairá sobre eles”(Lev 20, 13).

2 . “Os dois homens disseram a Lot : “…Manda sair desta região os teus genros, os teus filhos, as tuas filhas e todos os parentes que tiveres na cidade. Pois vamos destruir todas estas terras, porque o clamor que se eleva contra os seus habitantes é enorme diante do Senhor e Ele enviou-nos para os aniquilar” (Gen 19, 12-13).

3 . “Erguia-se o sol sobre a terra, quando Lot entrou em Soar. Então, o Senhor fez cair do céu uma chuva de enxofre e de fogo, enviada pelo Senhor. Destruiu estas cidades, todo o vale (de Sedim) e todos os habitantes das cidades e até a vegetação da terra” (Gen 20, 23-25).

marmorto17O Mar Morto, também chamado, Mar do Sal, Mar de Lot, Mar da Morte, Mar de Zoar, Mar de asfaltite, Mar de Arava e Mar Oriental, não é algo que sempre tenha existido como hoje o conhecemos, pois antes da destruição das cinco cidades era o Vale de Sedim, onde ficavam vários poços de betume natural. Mas, com a destruição das cidades, o terreno afundou, engolindo as ditas cidades que antes ocupavam aquele vale e a planície à volta. E ele lá está, a esconder uma horrível realidade, monumento perene, sinistro, maldito, a comportamentos irracionais dos homens, nada menos que a homossexualidade generalizada nas cinco cidades, conforme o relato bíblico apresentado no Génesis: Sodoma, Gomorra, Bela, Bedma e Seboim.

O Mar Morto tem uma superfície de cerca de 1050 Km2, um comprimento de 80 Km, uma largura de 18 Km e uma profundidade de 450 metros abaixo do nível do mar, sendo a mais baixa depressão existente na Terra, com uma tendência para o nível das suas águas descer.

No fundo do Mar Morto jaz tudo e todos daquilo que eram estas cidades, local de profunda meditação de que não se tira proveito, porque se relaciona com factos esquecidos, incómodos, negados, camuflados, deformados, transformados, manipulados, desvalorizados, branqueados, atribuídos a meras causas naturais por investigadores e teólogos racionalistas, que fornecem explicações ridículas para acalmar mentes graníticas.

Se o que aconteceu a estas cidades tivesse por base uma causa natural, não seria preciso ter ficado relatado no Génesis, assim como o Dilúvio, também negado por muitos, apesar de a Arqueologia ter demonstrado a sua existência. Se lá ficou é porque Deus quis dar aos homens uma permanente lição sobre comportamentos altamente pecaminosos e indignos, que hoje, cada vez mais, tendem a ser imitados, com as consequências trágicas que cairão sobre aqueles que os aprovam em teoria ou os praticam.

Este é um tema que não merece a simpatia de ninguém, porque ninguém gosta de o abordar sem arriscar ser alcunhado de ingénuo, infantilmente crédulo, porque, dizem, não está provado que tenha sido como a Bíblia relata, que foi apenas um fenómeno natural aproveitado para vincar umas teorias religiosas, umas lições moralistas sem bases sólidas, etc., etc. Também confesso que nunca ouvi nada sobre o assunto nas homilias das missas, tal como não ouvi sobre a existência de Satanás e sua acção, sobre a existência do inferno, sobre os pecados do sexo, sobre o aborto, sobre tudo o que é sexualidade pecaminosa, sobre as seitas, sobre o espiritismo e outras correntes de vida que levam muitos cristãos, impávidos e serenos, na direcção da eterna condenação.

Mas também há cientistas que afirmam que há testemunhos materiais válidos sobre o que aconteceu nestas cidades que jazem sepultadas e em ruínas no Mar Morto, morto porque o excesso de sal nas suas águas não permite vida aquática.

Cristo foi lá com os Apóstolos e fez-lhes a catequese a que o local e o destino dessas cidades estavam, e estão ainda, ligados:

Jesus – Eis-nos chegados! Eu conduzi-vos até aqui, para vos mostrar algo que não deve ser perdido de vista e ficará relatado para sempre, tal como o conheceis da Escritura. Este é um mar que cobre os restos do que foram cinco cidades, a uma profundidade de 400 metros, notáveis pelos piores motivos. Abraão bem implorou misericórdia para elas, mas chegou à conclusão que não mereciam nenhuma misericórdia. A maldição do Senhor caiu sobre elas e lá no fundo está ainda o que resta delas. Juntamente com a destruição por fogo e enxofre, vindos de cima e de baixo, ainda dura a outra maldição que impede que a vida volte aqui a nascer. Sabeis certamente qual o pecado que aqui se cometia, um pecado hediondo e indigno da raça humana, em permanente e total desrespeito pelas leis do Senhor, que criou o homem e a mulher, unindo-os de modo indissolúvel, para um fim bem específico: a geração de seres humanos.

Deus é tolerante e compassivo, cheio de misericórdia e bondade, mas há medidas que os homens enchem até vazarem, desafiando Deus e as Suas santas leis. Aqui estão exemplos, tal como o do Dilúvio, para lembrar aos homens que o desprezo das leis divinas brada ao Céu por severas punições que, mais cedo ou mais tarde, poderão desabar sobre as cidades que até aos demónios metem nojo. Nas vossas pregações evocai Sodoma e Gomorra e pregai sobre as causas da sua destruição. O relato desta tragédia está na Escritura e lá estará até ao fim do mundo, para que os homens tenham sempre presente que devem manter a dignidade com que Deus os dotou, a ninguém sendo lícito colocar os Seus santos mandamentos de cabeça para baixo. O homem foi criado pouco inferior aos anjos, foi coroado de honra, glória e nobreza (Salmo 8, 6)) e nele está infundida uma luz que lhe dita o que deve fazer e o que deve evitar.

Pedro – Mestre, os homens irão sempre acreditar que estas cidades foram destruídas em consequência dos seus pecados?

Jesus – Não! Virão tempos em que os homens, negando a intervenção divina nos acontecimentos humanos, dirão que se tratou apenas de fenómenos naturais e que a intervenção divina nem sequer foi necessária. Dirão que havia lá uns vapores, uns fumos, uns borbulhares de águas, etc. Mas, se tudo tivesse acontecido por causas simplesmente naturais, não mereceria ter ficado relatado como está relatado na Escritura nem testemunhado por personagens reais. E Deus também pode servir-se de causas naturais para a realização dos Seus santos desígnios, pois o Senhor, que tudo criou, pode alterar, suspender ou anular as leis que impôs à Natureza. A estes que não virem a mão do Senhor em Sodoma e Gomorra, lembro que a sua destruição foi previamente anunciada, como está relatado na conversa com Abraão.

João – E a mulher de Lot, que ficou transformada em estátua de sal?

Jesus – Ela morreu em consequência da sua desobediência à ordem peremptória que lhe foi dada: “ Ninguém olhe para trás!…Aquele que olhar para trás morrerá”! Ela olhou e morreu instantaneamente. O sal que a envolveu e cobriu ficou para lembrar aos homens que aquilo que o Senhor ordena é para se cumprir. O sal conserva e ela passou a ser uma pequena extensão do mar que engoliu as cidades, ficando a ser, para sempre, um memorial à desobediência da mulher de Lot. Muitos dirão que já por aqui havia rochedos com formas humanas, mas isso servirá apenas para os incrédulos alimentarem a sua incredulidade. Esta mulher ficou instantaneamente transformada em estátua de sal, o que difere de tudo o que houvesse por aqui.

André – Mestre, poderão ter sido destruídas por algo parecido com um vulcão?

Jesus – Na Terra há locais bem definidos para os vulcões, que podem eclodir por causas naturais ou por ordem de Deus, que pode despoletar um em qualquer lugar. Mas a erupção de um vulcão provoca a elevação do terreno, um monte com um grande buraco redondo no centro, a boca do vulcão, por onde saem as chamas, a lava, as cinzas, os vapores, os fumos e os gases. Aqui, não vedes nada disso! Podereis assim tirar as vossas conclusões.

Tiago – Mestre, mas lá no fundo ainda há testemunhos do que foram estas cidades?

Jesus – Há e muitos! O excesso de sal destas águas conserva muitos materiais que são testemunhas dos acontecimentos. Destas cidades malditas nada ficou à superfície, nem sequer a erva dos campos. Este local é local de maldição e estas águas não alimentam nenhuma vida animal em seu seio.

Tomé – Mestre, além deste local amaldiçoado, há outros em Israel?

Jesus – Há! Lembro-vos Endor, local cheio de ruínas, rastejantes, corujas, cobras, lagartos, lagartixas, ratos, silvas,…por onde as pessoas têm medo de passar. Era lá que vivia a bruxa que o rei Saúl foi consultar, a qual, aliada aos demónios, proferia oráculos. Também vos recordo que o Senhor o fez morrer antes do tempo por causa desse pecado, para que servisse de exemplo a todo o Israel. Algo semelhante se passou com o rei Acazias (=Ocozias).

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – I

13  de Maio de 1917

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Escolhemos nesse dia, para pastagem do nosso rebanho, a propriedade pertencente a meus pais, chamada Cova da Iria. Determinámos, como de costume, qual a pastagem do dia, junto do Barreiro…e tivemos, por isso, que atravessar a charneca, o que nos tornou o caminho dobradamente longe. Tivemos, por isso, que ir devagar, para que as ovelhinhas fossem pastando pelo caminho e chegámos cerca do meio dia”.

Da 4ª Memória da Ir. Lúcia:

“ Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria, a fazer uma paredita  em volta de uma moita, vimos, de repente, como que um relâmpago.

Lúcia -É melhor irmos embora para casa… que estão a fazer relâmpagos;  pode vir uma trovoada.

Francisco e Jacinta – Pois sim.

E começámos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos. Então Nossa Senhora disse-nos:

Virgem Maria (V.M.)- Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

Lúcia – De onde é Vossemecê?

V. M. – Sou do Céu.

Lúcia – E que é que Vossemecê me quer?

V.M . – Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.

Lúcia – Eu também vou para o Céu?

V.M. – Sim, vais.

Lúcia – E a Jacinta?

V.M. – Também.

Lúcia – E o Francisco?

V.M. – Também, mas tem que rezar muitos terços.

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com a minha irmã mais velha.

Lúcia – A Ana das Neves já está no Céu?

V.M. – Sim, está.

Parece-me que devia ter uns 16 anos.

Lúcia – E a Amélia?

V.M. – Estará no purgatório até ao fim do mundo.

Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos.

V.M. – Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

Todos – Sim, queremos!

V.M. – Ides, pois, ter muito quer sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.) que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como um reflexo que delas expedia,  penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:-“Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento”.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

V.M. – Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida começou-se a elevar serenamente, subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivos por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu “.

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Quando nessa mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos pensativos, a Jacinta, de vez em quando, exclamava com entusiasmo:

Jacinta –  Ai que Senhora tão bonita!

Lúcia –  Estou mesmo a ver… ainda vais dizer a alguém!

Jacinta –  Não digo, não! … Está descansada!

No dia seguinte, quando seu Irmão correu a dar-me a notícia de que ela o tinha dito, à noite, em casa, a Jacinta escutou a acusação sem dizer nada.

Lúcia – Vês? Eu bem me parecia! …

Jacinta– Eu tinha cá dentro uma coisa que não me deixava estar calada! ….

Lúcia – Agora não chores! E não digas mais nada a ninguém do que essa Senhora nos disse!

Jacinta – Eu já disse!

Lúcia – O que disseste?

Jacinta – Disse que essa Senhora prometeu levar-nos para o Céu!

Lúcia – E logo foste dizer isso!

Jacinta – Perdoa-me,  eu não digo mais nada a ninguém! “

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Leitura aconselhada:  Memórias da Ir. Lúcia, Vice-postulação , Fatima

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Ezequiel Miguel

Jesus e o falso paralítico

(Realidade & ficção)

Personagens: Jesus, fariseus, falso paralítico

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Hospital26_1Jesus tornara-se um quebra-cabeças para as autoridades religiosas dos Judeus, obrigando o Sinédrio a reunir frequentemente para debater as palavras, as atitudes e os comportamento de Cristo.

Mas, como toda a discussão terminava sem resultados práticos, angariavam-se cada vez mais espiões para darem notícias daquilo que Jesus dizia, fazia e por onde andava. Eram, normalmente, os chefes das sinagogas que davam as informações, mas também havia comissões (pequenos grupos), encarregados de  armar ciladas a Cristo, para O levarem a contradizer-se, a atacar a Lei de Moisés e os Romanos, que ocupavam o país. O objectivo principal era desacreditá-lo perante as multidões ou torná-lo inimigo de César, prestando assim um serviço ao Governador Pôncio Pilatos, que depressa O meteria na prisão e o condenaria à morte por fomentar revoltas populares. Aliás, já vários falsos messias tinham pago com a vida tais atrevimentos.

Na impossibilidade de apanharem Cristo em hostilidade contra os Romanos, o Sinédrio optara também por apanhá-lo em pecado, pagando e enviando prostitutas, que, por via de regra, acabavam convertidas, quer pela argumentação quer pelo olhar penetrante e luminoso de Cristo, que tudo viam. Um terceiro ponto em que os fariseus e outros atacavam dizia respeito aos milagres que Jesus fazia por todo o lado, curando todo o tipo de doenças, assim como à expulsão de demónios que massacravam os possessos.

Quanto aos milagres de curas e à expulsão dos demónios, os fariseus, saduceus, doutores da Lei e sacerdotes depressa abafaram a consciência, acusando Cristo de fazer tudo aquilo por obre e graça de Belzebú, um dos mais poderosos demónios, esquecendo que dos demónios, seja ele qual for, não pode vir coisa boa. Era assim, é assim e será sempre assim! E se alguma coisa vinda deles parece boa, tem a finalidade de enganar e de preparar algo mau que virá depois.

Então, se nada vinha de Cristo que pudesse incriminá-LO, tornava-se imperioso armar-Lhe ciladas. Para isso, era preciso pôr a imaginação a funcionar e arquitectar os necessários planos.

E foi assim que, em certa aldeia, antes da pregação, Jesus ia curando os doentes e os possessos. Em dado momento foram colocados à sua frente dois paralíticos, transportados em padiolas:

1º Fariseu – Mestre, trazemos-te aqui dois doentes paralíticos, para que os cures.

Jesus – E vós acreditais que Eu tenho poder para os curar? Já me vistes curar muitos, mas, mesmo assim, não acreditais em Mim! Porque trazeis estes?

2º Fariseu – Então, se já curaste muitos, cura também estes. Já vimos que tens esse poder, mas não sabemos de onde ele te vem!

Jesus – De onde veio ao profeta Elias o poder de ressuscitar o filho da viúva de Sarepta? De onde veio a Moisés o poder de separar as águas na travessia do Mar Vermelho?

3º Fariseu – Veio de Yahweh!

Jesus – E o Meu não sabeis de onde vem ? É estranho! Pois, digo-vos. Vem de Mim mesmo, como Filho de Deus que sou e como o Messias verdadeiro que sou!

1º Fariseu – Pois, mas isso a nós agora pouco interessa. Se tens esse poder, mostra-o agora, curando estes doentes que te apresentamos aqui! Tem pena deles e das suas famílias, que sofrem muito.

Jesus – Pois vou mesmo mostrar-vos o Meu poder, como já mostrei em muitas outas ocasiões. (Dirigindo-se ao primeiro paralítico): Acreditas que eu posso curar-te?

1º Paralítico – Acredito, Senhor!

Jesus – Então, levanta-te, vai para tua casa e não peques mais! (Dirigindo-se aos apóstolos): Vamos agora pregar à multidão!

2º fariseu- O quê?! Não curas este paralítico? Que mal te fez ele, para não o curares? Não tens pena dele e da sua família? É assim que pregas o amor ao próximo? Será que temos de te oferecer dinheiro para o curares? Já viste que te vamos acusar de seres injusto e discriminador? Já curaste tantos e deixas este sem nos explicares os motivos?

Jesus – Mas vós conheceis os motivos!…

3º Fariseu – É claro que não conhecemos! Quem sabe porque é que um paralítico é paralítico? Só Deus sabe!

Jesus – Vós dizeis então que ele é paralítico! E o vosso paralítico sabe porque é paralítico?

1º Fariseu – Claro que sabe que é paralítico, mas não sabe porquê! Ninguém sabe! Só Yahweh!

Jesus – Nem meu Pai nem Eu sabemos por que motivo ele é paralítico,… porque ele não é paralítico! Vós, fariseus hipócritas, viestes aqui com ele para me armardes uma cilada. (Ao falso paralítico e fixando nele o olhar perscrutador): Que dizes tu, Jovem?

Jovem – (Levantando-se rapidamente e preparando-se para fugir): Senhor, não me castigues! Eles pagaram-me para eu fazer de paralítico. Eu não queria, mas eles insistiram e ameaçaram-me, se não alinhasse! Peço-te perdão, pois me envergonho de ter colaborado com eles.

Jesus – Estás perdoado! E não repitas! Dá graças a Deus, porque dentro de momentos ias mesmo ficar paralítico. Viverias o resto da tua vida paralítico e paralítico morrerias, em expiação do teu pecado. Vai em paz! E não esqueças que Yahweh abomina a mentira e a hipocrisia, punindo severamente quem se entrega a elas.

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Ezequiel Miguel

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No caminho de Emaús (Lc 24, 13-35)

(Realidade & Ficção)

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“Ferirei o Pastor e as Ovelhas dispersar-se-ão” (Zc  13, 7)

Assim aconteceu. O Pastor foi preso, julgado, condenado, executado,…e as Ovelhas dispersaram, com medo dos Lobos, tendo-se mantido escondidas, em angústia, frustração, ansiedade, incerteza, perplexidade,… quanto ao presente e ao futuro,… até  pensarem que já teriam alguma segurança.

Mas essa segurança apenas foi sentida quando tiveram a certeza da Ressurreição do Pastor, que lhes indicou  onde o Rebanho se deveria reunir:” Espero-vos na Galileia” ( Mt 28,10).

Os apóstolos, que se mantiveram escondidos em cavernas escavadas no monte do Calvário e arredores, reuniram-se, os que puderam, no Cenáculo, onde estavam também as santas mulheres de que falam os evangelhos, incluindo a Mãe de Jesus, mas  Tomé e alguns discípulos andavam por ali perdidos e desorientados. Alguns saíram de Jerusalém, pois já se falava na vingança de Caifás sobre todos aqueles que tivessem alguma coisa a ver com  o Mestre e a Sua doutrina. Todos eles eram encarados como traidores e a hora de Caifás poderia não demorar muito a chegar. A caminho de Emaús, aldeia não longe de Jerusalém, vão dois dos Seus discípulos ainda recentes e ainda longe de compreender o alcance de tudo o que acontecera.

Cléofas –  Eu estou desanimado! Tinha posto tanta confiança no Mestre e Ele, não sei por que carga de água, não fez nada para evitar esta tragédia. Agora, sabe-se lá o que nos acontecerá, porque eu não acredito que o Caifás considere o assunto arrumado. Se foi capaz de levar o Messias à morte, o que ele não fará dos seus discípulos! Onde é que nos poremos a salvo da tropa do Caifás e do Herodes?

Lucas –  É por isso que fazemos bem em fugir de Jerusalém! Lá, em Emaús, poderemos estar mais seguros, mais esquecidos, mais ignorados, mais distantes daquela toca de víboras. Aos que ficarem em Jerusalém é que eu não sei o que lhes acontecerá! Penso no Nicodemos e no José de Arimateia, ambos Anciãos! O Caifás já os deve ter marcado com o selo da perseguição, pois o que eles fizeram a favor do Mestre, defendendo-O até no Sinédrio, não vai ser esquecido tão depressa.

Cléofas – Penso que ele vai começar pelo José de Arimateia. É preciso coragem e amor ao Mestre para fazer o que ele fez: pedir o corpo do Mestre a Pilatos, descê-lo da Cruz, proporcionar-lhe um funeral digno e oferecer o seu próprio túmulo, ainda por inaugurar, para depositar o Mestre. Tudo isso, sem se preocupar com as despesas, o receio de ser perseguido, humilhado, maltratado, difamado, caluniado, preso, morto. É um verdadeiro mártir ainda vivo! Ele mandou todas as possíveis consequências para trás das costas. Quem dera que um dia eu tivesse a coragem dele!

Lucas – E o Nicodemos? Ele fora uma vez procurar Jesus de noite(…), para não ser visto pelos seus colegas do Sinédrio. Mas, uma vez que se decidiu a seguir o Mestre, assumiu, com frontalidade e coragem, tornar-se Seu discípulo!  É verdade que nós também o somos, mas ainda estamos no começo do que nos espera! Mas o Mestre dar-nos-á coragem para o que for preciso, se ele ressuscitar, como prometeu.

Cléofas – Nós temos muito a aprender com eles, sobretudo o não ter medo de seguir o Mestre e não pensar nas possíveis consequências que daí nos possam vir. Eu lembro-me de algumas coisas que Ele disse e que vai ser necessário começar a pôr em prática.

Lucas – Por exemplo?

Cléofas – Por exemplo:” Aquele que der a vida por Mim, salvá-la-há” ; “Todo aquele que põe a mão ao arado e olha para trás, não é digno de mim”;  Se alguém quer seguir-me, tome a sua cruz e siga-me…

Lucas – Eu também me lembro de algumas, por exemplo: Felizes os que sofrem perseguição por amor da Verdade, porque deles é o reino dos Céus;  Se me perseguem a Mim, que sou o vosso Mestre, a vós, que sois meus discípulos, também vos perseguirão, porque o discípulo não é mais do que o Mestre;  Felizes sereis quando, dizendo toda a espécie de mentiras, vos acusarem, difamarem, caluniarem e vos matarem. Ficareis inscritos no Reino dos Céus…

Cléofas – Lembro-me de mais algumas : Felizes os puros de coração, porque verão a Deus; Felizes os que têm fome e sede de santidade, porque serão saciados; Felizes os  mansos, os pacíficos, os misericordiosos,  os arrependidos, os pobres em espírito,…porque…

Lucas– Porque ganharão o paraíso!

Cléofas – Isto é que está aqui um programa! Quem o poderá cumprir sem a Sua ajuda?

Lucas – Ninguém! Ainda por cima, depois de fazermos isto, ainda nos chamarão parvos, doidos, idiotas, atrasados mentais, ignorantes, ingénuos, antiquados, botas de elástico,…porque não somos como a maioria! É isto que nos espera! Mas, no fim, Ele cumprirá o que promete: o Paraíso!

Cléofas – Tudo certo! Mas eu pergunto: Seria mesmo necessário deixar-se matar para mudar isto tudo? Ele não podia paralisar, ao menos, os Seus inimigos, como fez lá em Nazaré quando queriam deitá-lo do monte abaixo?

Lucas – E quando o iam prender, Ele não fez cair todos aqueles bandalhos somente por dizer. “Sou eu”? Ele não se serviu do Seu poder, porque Ele dizia que tinha de cumprir as Escrituras. O que eu sei é que Ele, a dado passo, falava disso. Mas há assim tanta coisa nas Escrituras sobre a vida e a morte do Messias de Israel? Eu sempre pensei que Ele vinha para expulsar os Romanos e livrar-nos também do Herodes, que, ao que dizem, mandou matar a mãe e os próprios filhos! Se há tanto mal no mundo, Ele podia tornar-se Rei e endireitar tudo isto! Não era um Rei assim de que se falava nas sinagogas?

Viajante – A paz esteja convosco,  meus amigos! Então, posso saber de que falais assim tão preocupados? Os vossos discursos parecem ser de preocupação e os vossos rostos parecem revelar alguma tristeza!

Lucas – Temos motivos para isso. Serás tu o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias?

Viajante – O quê?

Lucas – O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo. Como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos que afirmavam que Ele vivia. Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito, mas a Ele não O viram.

Viajante – Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas disseram! Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na Sua Glória? As Escrituras falam do Messias desde os tempos de Moisés, passando pelos profetas e pelos salmos. Acaso não conheceis nada do que as Escrituras dizem a Seu respeito? Não dizem elas que o Messias tinha de padecer, ser perseguido, condenado e morto para redimir toda a humanidade pecadora?

Lucas – Mas era mesmo preciso deixar-se matar quando ele tinha o poder  sobre as coisas e as pessoas? Falando de Jesus de Nazaré! Nós éramos amigos e discípulos Dele, mas agora não sabemos o que fazer. É certo que Ele disse que ressuscitaria, mas uma coisa é dizer e outra é fazer! Se nós O víssemos ressuscitado!…

Viajante – O que faríeis?

Cléofas – Iríamos a correr até Jerusalém para darmos a notícia aos discípulos e à Mãe Dele, que ficou inconsolável!

Viajante – Mas Ele não vos explicou as Escrituras sobre o que aconteceria ao Messias? Os vossos mestres, sacerdotes, anciãos, fariseus, saduceus, doutores da Lei, não vos explicaram tudo sobre o Messias de Israel esperado durante tantos séculos. Até diz algures que Ele será chamado Nazareno e que nasceria em Belém! Sabeis onde é que Ele nasceu?

Lucas e Cléofas – Em Belém de Judá!

Viajante – E porque foi chamado Nazareno?

Lucas e Cléofas – Porque foi  criado em Nazaré!

Viajante – As Escrituras não dizem também: “Do Egipto chamei o Meu Filho?”.  Acaso sabeis porquê? Se Deus o chamou do Egipto, é porque Ele estava lá! O que sabeis sobre isto?

Lucas – Ele realmente esteve no Egipto, foi o que nos contaram aqueles que conviveram mais de perto com Ele?

Cléofas – Como é que tu sabes tantas coisas sobre o Messias? Também és discípulo Dele?

Viajante – Eu sei tudo sobre Ele, porque eu sou Mestre em Israel e conheço todas as passagens das Escrituras que se referem ao Messias. Todas, até ao mais pequeno pormenor!

Lucas – Então, nós somos doutores ao contrário! Não sabemos quase nada ou mesmo nada! Estávamos à espera que aquele grupo que andava com Ele nos esclarecesse e nos desse notícias, mas eles desapareceram todos! Até parece que a terra os comeu!

Viajante – Mas isso também está nas Escrituras!

Lucas e Cléofas – A sério?

Viajante – Diz o profeta Zacarias:  Ferirei o pastor e as ovelhas ficarão dispersas

Lucas – Nunca ouvi dizer isso!

Viajante – E não vos constou que Ele disse lá no Templo: ”Deitai abaixo este templo e eu o erguerei em três dias!”?

Cléofas – Mas quem poderá erguer um templo daqueles em três dias?

Viajante – Meus amigos, o Templo era o seu próprio Corpo, Templo de Deus, porque Deus mora Nele. Ora, uma vez que esse Templo do Seu Corpo foi destruído, derrubado, só faltaria cumprir a promessa de o erguer em três dias. Pergunto-vos: Já passaram os três dias depois da sua morte?

Lucas – Já! É hoje o terceiro dia!

Viajante – Então, se Ele veio para cumprir as Escrituras, Ele já ressuscitou!

Lucas e Cléofas – O quê? O que dizes?

Viajante – Sim, Ele já deve ter aparecido a alguém e a primeira pessoa a vê-lo  seria a sua Mãe!

Cléofas – Mas isso deixa-nos em polvorosa, se for verdade!

Viajante – Ó cabeças duras e lentos de compreensão! Então Ele não tinha já dito e mostrado que vinha para cumprir tudo o que as Escrituras diziam a seu respeito? Porque duvidais? Alguma vez o apanhastes a fazer ou a dizer coisas sem nexo? Ele não vos recitava as Escrituras de cor, sem as ler, sabendo até em que livro estavam escritas, as  profecias, em que salmo, em que profeta? Ele não curou imensa gente, não ressuscitou mortos, sendo Lázaro o último deles, ele não imperou sobre os ventos e as ondas, não multiplicou os pães, não avisou com antecedência que ia ser morto e que ressuscitaria? Porque duvidais, mesmo assim? Acreditais ou não que os profetas não escreveram nada inventado por eles? Eles apenas transmitiram o que Deus lhes inspirava, por isso, eles apenas escreveram a Palavra de Iahweh e Iahweh é fiel ao que promete! Já vedes que o Messias tinha de cumprir rigorosamente tudo o que fora escrito a Seu respeito, sem falhar uma vírgula!

Lucas – Mas, afinal, Ele veio ou não para ser o Rei de Israel?

Viajante – Ele veio para ser o Rei espiritual de Israel, por isso nunca ouvistes falar de um palácio, de soldados, de um trono para Ele. Ele tem à sua disposição legiões e legiões de anjos, mas não se serviu deles para fundar um reino temporal e destronar qualquer dos reis que vós conheceis. O Seu Reino é o Reino de Deus, de que Ele falou muitas vezes! É esse Reino que Ele quer ver espalhado por todo o mundo. É através dos seus discípulos, entre os quais vós, que o Seu Reino se vai implantar no mundo! Vós e muitos outros é que farão parte do seu exército. Felizes de vós que já fostes escolhidos para isso!

Lucas – O que dizes está a mexer cá comigo e sinto não sei o quê quando falas com toda essa sabedoria! Tu és um doutor diferente. Os outros não falam assim. Não serás tu um profeta? Tudo em ti indica que sabes demais!

Viajante – Sim eu também sou um profeta!…

Cléofas – Mas, diz-me uma coisa! Eu sei que Ele disse que tinha vindo ao mundo por causa dos pecados dos homens e o João Baptista disse que Ele era o Cordeiro de Deus que tirava os pecados do mundo. Explica-nos isso! Se Ele tira os pecados, quer dizer que os pecados desaparecem e que passaremos todos a ser santos?

Viajante – Como sabeis das Escrituras, os nossos primeiros pais pecaram e o seu pecado transmitiu-se e sempre se transmitirá a todos os seus descendentes. Todos nascerão com esse pecado, excepto Ele, que é Homem-Deus.  Ora, Deus-Pai um dia perguntou: “Quem enviarei eu à Terra para pagar pela ofensa de Adão e Eva? É que, se Eu não encontrar ninguém para esse serviço, o paraíso ficará eternamente fechado. Preciso de alguém que pague o resgate por esse pecado e por todos os pecados que se fizeram, fazem e farão. Tem que ser alguém que seja Homem sem deixar de ser Deus, porque só Deus pode pagar um preço de acordo com a grandeza da maldade humana e da ofensa feita a Deus”.  Então, o Filho de Deus disse:”Eis-me aqui, Senhor para fazer a Tua Vontade. Estou pronto para essa missão!” Então, Deus-Pai deu-Lhe um corpo humano nascido apenas de uma Mulher virgem, que virgem ficou, porque a Deus nada é impossível. Quanto a tirar os pecados do mundo, todos nós vamos aprender em breve o que é preciso fazer para isso.

Lucas – Então, essa Mulher de que falas  é…

Viajante – Maria de Nazaré!

Cléofas – Céus! Que mistérios! E tudo isso está nas Escrituras?

Viajante – É claro que está!

Lucas – Oh! Que corja de cegos! Afinal, não sabemos nada de nada. Para que raio estudam eles tanto, lêem tanto, pregam tanto, explicam tanto, exibem tanta sabedoria oca? Tudo, para nada! Nós estamos admirados com a tua sabedoria. Uma sabedoria assim até parece…

Viajante – Até parece…?

Lucas – Não, não digo! Foi uma ideia que me passou pela cabeça!…Olhando bem para ti,…Não, não pode ser!… Devo estar a ser vítima de uma alucinação!…

Viajante – Não pode ser? Porquê?

Lucas – Passou-me pela cabeça a ideia de que  tu…, bem, é melhor não dizer, porque é uma ideia maluca!

Viajante – Até pode ser que não seja uma ideia maluca, mas…sem a revelares não se pode dizer nada dela! Bem, meus amigos, estamos quase a chegar a Emaús. No próximo cruzamento separamo-nos, pois eu sigo adiante.  Gostei de falar convosco. Espero que estejais agora mais animados, mais confiantes!…O vosso Mestre cumprirá o que prometeu. Eu  sei que Ele é fiel ao que promete e fiel a tudo aquilo que as Escrituras dizem a Seu respeito. Pronto, cá estamos no cruzamento! Despedimo-nos aqui! Foi um prazer vir na vossa companhia!

Cléofas  – Não!  Nós é que nos sentimos honrados pela companhia de um Doutor da Lei. Vem connosco! Teremos todo o prazer em te proporcionar a hospitalidade sagrada de humildes filhos de Israel. A noite já vai caindo e o dia está no ocaso. Sentar-te-ás à mesa connosco e poderemos conversar mais um pouco para iluminares a nossa ignorância. O que tu dizes parece que cria cá dentro raízes profundas. Precisamos de ouvir mais coisas da tua  boca!

Viajante – Bem, se insistis, faço-vos a vontade e desde já agradeço a vossa hospitalidade!

Lucas – Nós tencionamos ficar por aqui até termos notícias seguras de Jerusalém. Esperamos que as tuas palavras já contenham o que precisamos de saber:  Que Ele ressuscitou e está vivo!…

Cléofas – Chegámos à minha casa! Entremos e petisquemos qualquer coisa… Aqui está a água de que precisamos para nos lavarmos da poeirada do caminho.  Susana, somos três! Prepara a mesa!… Meu amigo, damos-te a honra de fazeres a oração!

Viajante – Não! Essa honra é para o dono da casa.

Cléofas – Senhor, Deus de Israel, nós Vos louvamos pelo Vosso poder e pela Vossa bondade em nos favorecerdes com o necessário para alimentar o corpo, à semelhança do maná que Vos dignastes conceder aos nossos antepassados no deserto. Por tudo, sede louvado.

Todos- Amen!

Cléofas – Ora, aqui está a água, o pão, o vinho, os figos, a manteiga, o queijo e a fruta! Bom apetite e bom proveito a todos nós!

Todos – Amen!

Jesus pega no pão, concentra-se, eleva os olhos ao céu, reza em silêncio,…tudo sob o olhar imóvel, atento, arregalado e perplexo de Lucas e Cléofas. Jesus abençoa o pão, parte-o e dá um bocado a cada um. Depois,…desaparece, ficando os discípulos sem  saber o que dizer ou fazer, até que, finalmente, recuperaram da surpresa.

Lucas – É o Senhor! Despachemo-nos e voltemos já a Jerusalém! Não sentias qualquer coisa estranho lá dentro enquanto Ele falava connosco? Não ardia o nosso coração quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?

Cléofas –Eu também sentia, mas não sabia bem explicar o que sentia. Era a presença Dele que mexia connosco cá dentro. E a conversa Dele?…Devíamos ter logo adivinhado que aquilo não era sabedoria humana! É o Senhor! Aleluia! Sempre ressuscitou, como disse! Vamos levar a notícia a Jerusalém, para que todos percam o medo e a dúvida. Peguemos no pão e no queijo e comamos pelo caminho. Enfia também alguns figos no bolso, que eu levo o cantil da água. Não há tempo a perder! Vamos!

Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram:” Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!” E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer ao partir do pão. ( Lc 24,33-35)

 .

Ezequiel Miguel

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A Ceia da Despedida

(Mc 14, 17-31 ; Mt 26, 20-35; Lc 22, 14-38 ; Jo 13, 1-38)

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(Realidade & Ficção)

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O Cenáculo estava pronto para a última Ceia, após a azáfama dos Apóstolos para adquirirem tudo o que era necessário para se cumprir o ritual prescrito pela Lei de Moisés, a propósito da comemoração da Páscoa que, por sua vez, comemorava aquela passagem dos Hebreus da escravidão do Egipto à Liberdade. O Livro do Êxodo descreve essa passagem e como foi a última ceia em terras do Egipto.

Chegara para Cristo a hora de se despedir, pois iria ainda naquela 5ª feira dar início, no Getsémani, à  Sua Paixão e, como um pai de Família, tomou todas as previdências para que tudo corresse como estava previsto na Lei, da qual, Ele,  o Senhor da Lei, não se quis dispensar. E assim, Ele próprio indicou a cada um dos doze Apóstolos o seu lugar em volta da mesa, semi-deitados em cadeiras-cama, como era normal naquele tempo. Estamos habituados a ver a figura de Judas numa das pontas da mesa, feio, mal-humorado e com a bolsa à vista…, mas Cristo escolheu para ele o lugar à Sua frente, um lugar estratégico, para poder encará-lo olhos nos olhos, na esperança de que ele viesse ainda a reconsiderar quanto ao plano já estabelecido com os inimigos de Jesus. O passar todo o tempo da Ceia a encarar Judas de frente já era para Cristo um tormento que lhe revoltava as entranhas, que lhe tirava o apetite e Lhe cobria o rosto de uma profunda tristeza, o que os outros apóstolos não deixavam de notar, mas cuja causa eles estavam longe de adivinhar. Mas eles próprios também estavam dominados por um ar melancólico, apreensivo…, que se acentuava à medida que o Mestre ia orientando o decorrer da Ceia e ouviam Dele os últimos recados.

Jesus – Judas, tu ficas aqui à minha frente!

Judas – Mestre, Tu manténs-me sempre perto de Ti! Será que me amas mais do que aos outros?

Jesus – Eu amo-te tanto como aos outros, mas os outros não precisam tanto de ver o Meu Amor como tu, nesta hora…E tu até sabes porquê!… Além disso, o facto de nós estarmos aqui hoje deve-se a ti…, mais do que a nenhum outro…

Judas – Obrigado, Mestre, por me enalteceres aqui à frente de todos. Eu bem preciso disso, porque às vezes tenho a impressão de que ninguém, a não ser Tu, gosta de mim, o que eu acho profundamente injusto, porque eu nunca lhes fiz mal nenhum…

Jesus – E tens a certeza de que tu não lhes dás motivos para isso?…

Judas fez uma careta, esboçou um sorriso  sardónico e baixou os olhos. Começa a Ceia. Na mesa está um grande cálice, que Jesus enche de vinho e reza sobre ele. Cada apóstolo tem à sua frente um copo  individual, de pé alto. Segue-se o canto de salmos e a recitação das palavras do Ritual apropriadas. Jesus reza sobre o pão, parte-o e distribui-o, juntamente com as ervas amargas banhadas no molho. Chega depois o cordeiro assado, seguindo-se mais cânticos. Jesus parte o cordeiro, dando a cada apóstolo um bom pedaço, de modo a que ninguém fique com fome. Os apóstolos ouvem-No então proclamar:

Jesus –  Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa. Foi sempre o Meu desejo, desde que aceitei a missão de Redentor do género humano.

Simão – Mestre, a propósito da distribuição dos lugares, como é que poderemos saber quem é o maior de entre nós?

Jesus –  Se alguém quer ser o primeiro, seja o último e o servo de todos. O maior seja como o menor, o chefe, como aquele que serve os outros. Eu sou o que presido à mesa e, no entanto, estou a servir-vos. Ficai comigo nas horas que se aproximam e noutras que vos surgirão pela frente e com isso é que provareis a vossa grandeza aos olhos do Pai. Quem na dor Me acompanhar e for fiel até ao fim, esse é que terá o prémio. Está próxima a hora de Eu vos poder preparar um lugar junto do Pai, no Meu Reino, onde há moradas para todos os que acreditarem em Mim e Me acompanharem na minha Paixão, da qual deixo uma parte para todos passarem por ela.

Pedro – Mestre, nós seremos fiéis até ao fim ?

Jesus –  Pedro, vais passar por uma prova! Eu rezo por ti para que a tua fé não desfaleça e tu, quando te arrependeres, confirma na Fé os teus irmãos.

Pedro – Senhor, eu sou um pecador, mas serei fiel até à morte. Seguir-Te-ei para todo o lado e estou disposto a morrer contigo.

Jesus – Pedro, estás a ser vítima de um ataque de soberba! Dentro de pouco tempo muita coisa vai mudar. Vamos ser todos abandonados  pelo Pai e pelos Anjos e cada um de nós ficará entregue a si próprio, porque esta hora é a hora dos demónios. Até os Anjos vão sofrer e tapar os olhos para não verem aquilo que vão ver. Bem quereriam ajudar, mas…Aquilo que Eu vos disse sobre a Bondade e Providência do Pai, que Ele cuida de vós e dos passarinhos, que os Seus Anjos vos protegem, que calcareis aos pés escorpiões e serpentes, que não sereis tentados acima das vossas forças, que Ele sabe o que vós precisais…agora, esquecei tudo isso, porque é a hora em que seremos todos abandonados. Em toda a Terra não haverá Anjos nas horas que se seguem, porque o Pai os mandou recolher ao Céu. É a hora de se cumprirem todas as profecias sobre Mim e uma delas diz :“Ele foi contado entre os malfeitores”. E tu, Pedro, ora e vigia, porque Satanás anda à tua volta rugindo como um leão para te devorar.

Pedro – Mestre, eu morrerei Contigo ou, se quiseres, em vez de Ti!

Jesus – Ainda esta noite, antes de o galo cantar, três vezes me negarás!

Pedro – Mestre! Essa é demais! Eu tenho acreditado em Ti, em toda a Tua Palavra, mas nessa…desculpa lá, eu não acredito! Eu nunca Te negarei e todos estes vão ser minhas testemunhas!

Jesus – Oxalá que assim seja, meu Pedro, mas Satanás pediu-me para te joeirar.

E Pedro calou-se, deixando transparecer no rosto uma repentina angústia de incerteza…Se o Mestre tal dizia… Ele que sabia tudo antes de as coisas acontecerem!…

Simão – (Depois de ter ido a um baú buscar duas espadas) Mestre, o Pedro e eu temos espadas e os outros têm cada um o seu punhal curto. Quando for preciso, nós cá estaremos!

Jesus – Pensais que tereis ocasião para as usar? Mas agora vou ensinar-vos algo que tereis de usar. Acabei de vos servir o alimento corporal, mas agora quero prestar-vos um outro tipo de serviço, um alimento de um ritual novo de uma Aliança Nova, ainda não inaugurado por ninguém. Vamos suspender esta refeição.

E levantando-se da mesa, vai a um baú, despe a sua veste vermelha, cinge-se com uma toalha, enche uma bacia com água e coloca-a perto da mesa, tudo isto em silêncio e sob os olhares intrigados e espantados dos Apóstolos.

Jesus – Será que ninguém tem nada a perguntar-Me?

Pedro – Nós não sabemos o que queres fazer. Nós já nos lavámos antes da refeição!

Jesus – A minha purificação destina-se a quem já está puro, para ficar ainda mais puro.

Jesus ajoelha-se, descalça as sandálias a Judas Iscariotes e lava-lhe os pés, beijando-os em seguida. Um por um, faz o mesmo a todos. Judas não se comoveu, mas os outros…uns sentiram vergonha, outros comoveram-se e choraram.  Como era possível uma coisa destas? Mas Pedro…

Pedro – Tu lavares-me os pés? Era o que faltava! Eu não to permito! Tu és Deus e eu sou um pecador, um Zé ninguém, um verme. Tu és Tu e eu sou eu! Eu não deixo que me laves os pés!

Jesus – O que Eu te faço, tu não o compreendes agora, só mais tarde.

Pedro – Como queiras, Mestre, mas lavares-me os pés, nunca!. Deixa-me antes lavar os Teus!

Jesus – Olha, Simão de Jonas! Se Eu não te lavar os pés, não irás para o meu Reino. É preciso que te lave os pés, pois eles terão um longo caminho a percorrer e a tua alma precisa de pés fortes…Lembra-te que está escrito: “São belos os pés daqueles que anunciam boas novas.”

Pedro – Ó Senhor! Então lava-me os pés, a cabeça, os braços, as mãos…

Jesus – Vós já estais puros. Os pés precisam de ser purificados, porque são eles que levam o homem pelos maus caminhos que as más intenções abrem…

E, no meio de um choro convulsivo, Pedro deixa que Jesus lhe lave os pés e lhos beije. Finalmente, Jesus tira a toalha da cintura, lava as mãos, volta a vestir-se e a ocupar o Seu lugar,  olhando para Judas e dizendo:

Jesus – Agora estais puros, mas não todos. Somente aqueles que tiverem a vontade de permanecer puros.

Jesus enche novamente de vinho o grande cálice comum e todos bebem, seguindo-se o canto de vários salmos de louvor (114, 115). Quando algum versículo se aplica a Judas, Jesus fixa nele o Seu olhar, por exemplo :” Todo o homem é mentiroso”; “É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos justos”; “Eu não morrerei, mas viverei para cantar as obras do Senhor”; “Celebrai o Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”; “É melhor confiar no Senhor do que no homem”; “Maldito o homem que confia noutro homem”; “Eu cambaleava e ia a cair, mas o Senhor me amparou”; “A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular”; “Bendito o que vem em nome do Senhor”; “Eu me alegro, porque o Senhor ouviu a minha oração, porque volta os seus ouvidos para mim. Eu O invocarei por toda a minha vida, pois me haviam cercado as angústias da morte”; “O Senhor é clemente e compassivo, lento para a ira e pronto para o perdão”, etc.  Estas  sentenças dos Salmos atingem-no profundamente e perturbam-no, ao ponto de se desconcentrar, não acertando nem com a letra nem com a música nem com o tom. Tomé, um dos seus vizinhos do lado, sente a necessidade de lhe chamar a atenção para a desafinação com que canta… Após o canto, Jesus distribui nova dose do cordeiro assado e repesca o tema do lava-pés:

Jesus–  Eu quero que compreendais o meu gesto de vos lavar os pés. Trata-se de um gesto de humildade, um gesto de Deus a lavar os pés às suas criaturas, de o Senhor a lavar os pés ao seus servos, fazendo-se Ele próprio o servo dos servos. Será na humildade e no Amor a Deus e ao próximo que vós sereis grandes no Reino de Deus. Como Eu fiz, fazei vós também .  Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei, pois este é o mandamento novo que vos deixo. É por isto que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. Aquele que Me ama cumprirá as minhas palavras. Se alguém Me amar, o Pai o amará e  Nós viremos a ele e faremos nele a Nossa morada. Quem não Me tem amor não guardará as minhas palavras. Fazendo isto sereis felizes, mas não sereis todos felizes, porque se cumprirá o que foi escrito a Meu respeito: “Aquele que come comigo à mesa levantou o seu calcanhar contra Mim” (Sl 40, 10)

Após cantarem o longo salmo 118, Jesus senta-se e proclama:

Jesus – O velho rito terminou e vai ser inaugurado um novo. A Velha Aliança chegou ao fim e vai ser substituída pela Nova. A vítima dos sacrifícios não mais será o vitelo, a pomba, o cordeiro. A Nova Aliança vai ser alicerçada sobre Mim,  a Nova Vítima, a Vítima Eterna, a Vítima sem mácula, o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do Mundo, Aquele que se oferece ao Pai para remissão de todos os pecados dos homens. Será um ritual perpétuo de Amor, um memorial perpétuo a renovar-se a cada hora por toda a Terra. Este será o grande milagre do Amor, que agora vou realizar, não havendo na Terra nada superior a ele nem nada que se lhe compare. Será um milagre de união e comunhão entre Mim e vós e vós entre uns e outros. Eu vou partir mas não vos deixarei órfãos, porque ficarei convosco até à consumação dos séculos.

Jesus pega num pão inteiro, coloca-o sobre o cálice cheio de vinho, abençoa-os, oferece-os ao Pai, parte o pão em treze bocadinhos, coloca-os na mão esquerda, dá um bocadinho a cada um e diz:

Jesus – “Tomai e comei. Isto é o Meu Corpo, que vai ser entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim.”

Faz o mesmo com o cálice, dizendo:

Jesus –  “Tomai e bebei. Isto é o meu sangue, que vai ser derramado por vós para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de Mim”.

Pega também no último pedacinho e no cálice, sai da sala e vai levar a Comunhão à Mãe. Regressa com o cálice vazio. Toma a palavra:

Jesus – Vistes o que eu fiz. Dei-me a Mim próprio. As minhas desculpas, se não posso fazer mais por vós. Agora compreendeis o que Eu queria dizer quando anunciei (Jo, 6) que Eu sou o Pão Vivo descido dos Céus, o Novo Maná , a Minha Carne e o Meu Sangue como alimentos de Vida Eterna. Quem Me come e quem Me bebe não mais terá fome nem sede e quem Me come e bebe terá cada vez mais fome e mais sede de Mim, um mistério que compreendereis mais tarde. Por este milagre de Amor Eu estarei em vós e vós em Mim, mas ai daquele (olhando para Judas) que se alimentar de Mim sem estar puro…Um de vós aqui não está puro! Um de vós Me vai trair! É por isso que Eu estou de espírito perturbado e numa tristeza de morte. A mão daquele que Me vai trair está comigo sobre esta mesa e nem o Meu amor, nem o Meu Corpo, nem o meu Sangue, nem a minha Palavra foram suficientes para o levar ao arrependimento…Eu lhe concederia o perdão e morreria também por ele, se…(lágrimas nos olhos e voz embargada). Na verdade, Eu vou ser traído, mas ai daquele por quem o Filho do Homem vais ser entregue! Melhor lhe fora não ter nascido! (1)

Os apóstolos entram em pânico e, cada um  por sua vez, perguntam a Cristo:

Todos – Serei eu?…Serei eu?…Serei eu?…

Judas –  (Sorrindo frio e tranquilo) Por acaso serei eu, Mestre?

Jesus – Tu mesmo o disseste. Tu mesmo te acusas, sem que Eu te tenha acusado…A  tua consciência te diz se és tu ou não. Não vale a pena enganá-la…, porque ela não se deixa enganar!

Todos suspeitam de Judas, mas Pedro é o que suspeita mais, pois Judas Iscariotes nunca lhe caiu no goto! João recebe um recado de Pedro para que pergunte directamente a Jesus, sobre Cujo peito apoia a cabeça, conseguindo falar com Jesus sem que ninguém mais ouça o que quer que seja.

João – Quem é, Senhor?

Jesus – Aquele a quem Eu der um bocado de pão (não consagrado) passado neste molho!…. (Cortando um pedaço de um pão inteiro, Jesus  banha-o no molho). Toma, Judas! Tu aprecias muito isto!

Judas – Obrigado, Mestre, pela Tua simpatia para comigo. Sim, gosto muito!

Enquanto ele come o pão avidamente, João sente-se horrorizado, tapa os olhos e soluça, em contraste com o satânico sorriso de Judas Iscariotes…

Jesus – Judas, agora que Eu já fiz por ti tudo o que podia…vai tu fazer o que ainda tens a fazer lá fora…E o que tens a fazer fá-lo depressa!

Judas – Está bem, Mestre! Eu cumpro as Tuas ordens! Depois nos encontraremos no Getsémani, porque Tu vais para lá, como sempre, não é verdade?

Jesus – Sim,… vou para lá,… como sempre…

Enquanto Judas se levanta, põe o manto e se prepara para sair:

Pedro – Mas onde é que ele vai sozinho? E a fazer o quê? Um de nós não pode ir com ele?

Judas –  Ouve lá! Eu já não sou criança e sei governar-me sozinho!

Jesus – Pedro, deixa-o! Ele e Eu sabemos o que vai fazer.

Pedro – (Vítima de uma terrível suspeita, sente remorsos…E se julgou mal?…) Está bem, Mestre, mas…

Jesus – (Em segredo a João, apoiado no Seu peito) Não digas nada a Pedro, por agora. Ele poderia armar aqui um escândalo desnecessário.

Judas – Adeus, Mestre! Adeus, amigos!

Jesus – (Triste) Adeus, Judas!

Judas saiu dali e dirigiu-se directamente ao Templo para informar os seus amigos sobre a possibilidade de apanharem Jesus no Getsémani naquela noite e receber os trinta dinheiros contratados pela traição, a qual se consumou com o tristemente famoso beijo ao seu Mestre, umas horas mais tarde, no Jardim das Oliveiras. Para sempre lá ficou a ecoar o lânguido suspiro do nosso Redentor: “Amigo, com um beijo entregas o Filho do Homem!?”. Assim foi!

(1)   – Esta foi a primeira Comunhão mal feita, o primeiro sacrilégio dos muitos que passaram a ser feitos até aos dias de hoje. S. Paulo diz-nos quais são as consequências de uma Comunhão em pecado mortal: “ Todo aquele que comer o Pão (consagrado) ou beber o cálice (com o Vinho consagrado) do Senhor, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste Pão e beba deste Vinho, pois aquele que o come e bebe sem distinguir o Corpo e o Sangue do Senhor, come e bebe a sua própria condenação (eterna).  Por causa disto há entre vós doentes e muitos morrem” (1 Cor 11, 27 – 30).

Era a esta trágica realidade que o Anjo de Portugal se referia quando convidou os Pastorinhos a consolar o nosso Deus pelos sacrilégios e ultrajes…com que Ele é ofendido.

Convém saber (ou lembrar) que não deve ir à Comunhão todo o baptizado que estiver em pecado grave, também chamado mortal. O arrependimento sincero, a promessa firme de emenda e a Confissão sacramental anulam o impedimento. Em casos de católicos em situações de adultério, divorciados vivendo com outros que não sejam  os seus cônjuges, uniões de facto, uniões homossexuais, situações de pedofilia, casamentos apenas pelo civil,  negação de verdades da Fé (seitas), actividades espíritas, bruxarias, ocultismo, maçonaria, defesa e propagação de ideologias ou doutrinas  condenadas pela Igreja ou em outras situações de pecado contínuo…a Comunhão está proibida a quem estiver nestas situações e a Confissão também, se a pessoa não estiver disposta a romper radical e definitivamente com a situação de pecado. Os que vivem nestas situações costumam consolar-se acusando a Igreja de ser demasiado severa…mas a Doutrina é de Cristo e tudo isto entronca no cumprimento dos Dez Mandamentos ou no seu desprezo. Na categoria de ultrajes entram os pecados que têm a ver com o desvio de Hóstias consagradas por pessoas que se apresentam à Comunhão e depois…enfiam a Hóstia num lenço ou num bolso e levam-Na para fora, para a vender ou para a utilizar em bruxarias ou em rituais satânicos.

Assunto para pensar!

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Ezequiel Miguel

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Exulta, filha de Sião! Eis que o teu Rei vem a ti!

(Realidade & ficção)

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Ramos13Exulta, filha de Sião! Grita de alegria, filha de Jerusalém! Eis que o teu rei vem a ti! Ele é justo e vitorioso, humilde, montado sobre um jumentinho, filho da jumenta (Zac 9,9).

Aproximava-se a Páscoa dos Judeus, aquela escolhida nos planos divinos para nela chegar ao fim a pregação do Reino de Deus e consumar a redenção do mundo por Jesus Cristo.

Os apóstolos andavam a ficar nervosos com a intenção que Jesus manifestava de deixar a Galileia e ir meter-se na toca dos lobos, em Jerusalém, já com a cabeça a prémio, em virtude de decisão do Sinédrio, que mandara publicar que quem soubesse por onde Ele andava, deveria comunicá-lo, para que fosse preso. Entretanto, Judas Iscariotes ia avisando o Sinédrio a respeito das intenções do Mestre de ir para aqui ou para ali, por isso, fazia frequentes perguntas, aparentemente inocentes e ingénuas, mas que claramente tinham a intenção de captar informação de interesse para os inimigos de Jesus.

Com a argumentação de que Lázaro tinha morrido, Jesus fez por convencer os Apóstolos da absoluta necessidade de irem para Betânia, a três quilómetros de Jerusalém, com o objectivo de ressuscitar Lázaro. Os apóstolos deixaram-se aparentemente convencer que tinha de ser assim, embora questionando-se se o Mestre não poderia ressuscitar Lázaro mesmo à distância. Perante a insistência de Jesus, eles convenceram-se mesmo que Jesus iria entregar-se à morte, o que levou Tomé a opinar: “Vamos e morramos com Ele” (Jo 11,16)!

Em Betânia, Jesus ressuscitou Lázaro à vista de amigos e inimigos, convertendo à Sua causa muitos Judeus, como os evangelhos afirmam. Mas outros não acreditaram, apesar de terem mesmo visto Lázaro a sair do túmulo enfaixado, de pés atados e cabeça coberta, após taparem o nariz por causa do mau cheiro, apesar de disfarçado pelos unguentos e perfumes. Pouco tempo depois, o Sinédrio não demorou a enviar espiões a casa de Lázaro, para saberem se Cristo estava realmente hospedado em sua casa e também para puxarem pela língua de Lázaro sobre o fenómeno da sua própria ressurreição, que alguns hoje alcunham de reanimação, quer dizer, trazer novamente a alma ao corpo.

Era uns dias antes do nosso Domingo de Ramos. Jesus escolhera refugiar-se em casa de Lázaro, para preparar a Sua última semana na Terra e tomar as últimas disposições que se impunham perante o grande acontecimento da Sua iminente Paixão, Morte e Ressurreição. Durante esses dias, Jesus e Lázaro tiveram longas conversas a sós. Eis uma delas:

Lázaro – Senhor, porque me fizeste voltar a esta vida?

Jesus – Por vários motivos, que passo a explicar-te:

1. Eu seria ingrato para contigo e tuas irmãs, se recusasse fazer por vós o que fiz, pois a Mim não Me custa nada fazer isso, porque sou o Senhor da vida e da morte. As tuas casas foram o meu principal apoio no Meu apostolado e em vós Eu tive amigos sinceros, discípulos convictos e sempre prontos a gastar Comigo e com os Meus discípulos tudo o que fosse necessário nestes três anos da Minha pregação. Esta tua casa foi sempre um refúgio seguro contra os Meus inimigos, tal como agora é. Foi uma maneira de vos recompensar e de algum modo retribuir-vos a alegria que sempre Me destes quando aqui ou em outros lugares Me recebíeis.

2. Chamei-te de novo à vida porque nestas horas amargas, nestas horas de trevas e abandono que vão passar por Mim, Eu preciso de vós como verdadeiros amigos, em cuja casa posso alimentar-Me, descansar e preparar-Me para o que se aproxima. Vai chegar a Minha hora, a hora que o Pai Me marcou para consumar a maior obra da Criação, a redenção do Homem.

Lázaro – Mas, Senhor, Tu tens mesmo de Te entregar nas mãos dos Teu inimigos? Não haverá outro modo de terminares essa Tua grande missão?

Jesus – Não, Lázaro! Tem de ser assim como te digo! Quando o Pai perguntou: “Quem enviarei…” (Is 6,8)? Eu ofereci-Me, em nome do infinito Amor que circula entre Nós e o Homem, a criatura saída do nada à nossa imagem e semelhança, e cujo fim último é o regresso à casa do Pai. Em breve se cumprirão todas as profecias saídas dos profetas e dos salmistas.

Lázaro – Mas, Senhor, Tu sabes que eu tenho influência junto dos Romanos e a uma palavra minha, ninguém Te tocará, porque eles serão capazes de Te proteger contra todos os teu inimigos!

Jesus – Bateste no ponto crucial e agora menciono-te mais um motivo por que te ressuscitei:

3. Exactamente para impedires as tuas irmãs de intercederem por Mim junto das autoridades romanas. Quero que uses a tua influência sobre elas para que não façam nada que possa estorvar o que tem de ser feito, pois eu vim à Terra para isso e essa é a vontade do Pai e a Minha.

Lázaro – Mas eu…

Jesus – Também de ti Eu exijo que fiques quieto, que não saias de casa nesses dias, a não ser por motivos pessoais, que não recebas nenhum dos meus discípulos, pois sei que eles depositarão em ti a esperança de um resgate e até pensarão em Me raptar, quando concluírem que será a última medida para Me livrarem dos Meus inimigos. Nessa hora, eles sentir-se-ão perdidos, tal como diz o profeta: “Ferirei o Pastor e as ovelhas dispersar-se-ão” (Mt 26,31)

Lázaro – (Chorando) Senhor, Tu exiges-me isso?! Que amigo serei eu, se não posso ajudar o Meu Amigo quando Ele está num perigo mortal? Senhor, uma ida minha a Pilatos e…

Jesus – Nem penses, Lázaro! Se és Meu amigo, não apoies os intentos de Satanás, pois ele, por um lado, quer impedir-Me, mas, por outro, tentará tirar proveito do Meu sofrimento e reforçá-lo, como vingança. Mas peço-te uma coisa, para te compensar por esta proibição: Naquelas horas, une-te espiritualmente às orações da Minha Mãe, para que alguma força chegue até Mim, nessas horas em que o Pai Me vai abandonar. Também a Minha Mãe vai sofrer os ataques de todo o inferno contra a sua fé na Minha ressurreição, pois, como co-redentora, também o Pai e os anjos que a guardam a irão abandonar, deixando-a em atroz sofrimento. O inferno Lhe dirá que estará tudo pedido, que nada valeu a pena, que foi tudo um engano e que não tenha ilusões, por que ele não ressuscitará.

Lázaro – Mas isso vai ser horrível!

Jesus – Vai mesmo, Meu amigo! Mas o Pai também A escolheu para ter a Sua parte na Redenção. Vai cumprir-se Nela a profecia de Simeão, quando Ela Me apresentou no Templo: “…Uma espada de dor vai trespassar-te o coração…” (…) A espada vai começar a enterrar-se no Seu Coração e lá ficará enterrada até que Eu ressuscite, ao 3º dia.

Lázaro – Senhor, eu vejo em Ti uma profunda tristeza, como nunca vi! É só por causa do que se aproxima?

Jesus – Não, Lázaro! (Chora…) Se tu soubesses , Lázaro!…

Lázaro – Tu, Senhor, a chorar?

Jesus – Sim, meu amigo! E não é por causa daquilo que Me espera! É por causa de um dos Meus, um daqueles, como diz o profeta, que come comigo à mesa (Lc 22,21)

Lázaro – Atrevo-me a dizer que é Judas Iscariotes!

JesusEsse mesmo! Quantas lágrimas Eu não derramei já por sua causa!

Lázaro – (Chorando e ajoelhando-se aos pés de Jesus) Ó Senhor!…O meu Deus a chorar! Como posso segurar as minhas lágrimas quando vejo as Tuas! Ó mistério insondável!

Jesus – Eu vim para redimir todos os homens, mas não consigo que Judas aproveite do Meu Sangue! Até já Me ajoelhei a seus pés,…tudo para que aceite os Meus argumentos em seu favor, mas…nada! Não consigo demovê-lo de cumprir aquilo que já prometeu ao Sinédrio. Por seu intermédio vai cumprir-se a profecias de Isaías de vender o Servo de Yahweh por trinta dinheiros. O contrato está feito! Eu só precisava que ele dissesse: “Sim, quero libertar-me das garras de Satanás!” Mas não consegui e ele vai perder-se. E logo um dos Meus (chora)!

Lázaro – Mas, Senhor, Tu podes tudo! Não poderás mudar-lhe a vontade, como mudaste à minha irmã Maria?

Jesus – Não, meu amigo! Ele entregou a sua vontade a Satanás, que já incarnou nele e agora é Satanás que fala por ele. Já são dois em um!

Lázaro – Mas Tu não tens poder sobre os possessos e sobre os demónios?

Jesus – Tenho, mas Judas não está possesso! Ele não quer mesmo o que Eu lhe proponho. Já lhe propus que recuse voltar a encontrar-se com o Sinédrio, refugiando-se mesmo em tua casa, mas ele recusou e continua a recusar. Aguentar Judas durante estes três anos custou-me mais do que me vai custar o que se aproxima de Mim. Já imaginaste, Eu, a pureza e santidade absolutas, a ter de conviver com alguém entregue à hipocrisia, à mentira, à imoralidade, ao espiritismo, à prostituição, à traição,… ao ponto de ir cometer o delito dos delitos: trair o seu Deus! Eu te digo: Se o inferno não tivesse sido criado para os anjos caídos, teria sido criado para ele! Não imaginas o Meu sofrimento, que abre as comportas das minhas lágrimas. Para ele não valerá de nada Eu ter vindo !

Lázaro – Senhor, ocorreu-me a ideia: Se, naquelas horas, os teus discípulos vierem pressionar-me para dar algum passo em Teu favor, que deverei fazer?

Jesus – Na próxima vez que fores a Jerusalém, tu irás encontrar o João, que vai mesmo pressionar-te para ires falar com Pilatos. Tu vai dizendo: “Não posso!” Por fim, se ele não te largar, diz-lhe simplesmente: “ O Mestre proibiu-me de interferir”! Nessa altura, ele compreenderá porquê e fará tudo para conter os outros, sobretudo o impetuoso Simão Pedro. Agora, chegou o momento de te dizer mais alguma coisa: Eu vou fazer uma entrada solene, triunfal, em Jerusalém, para cumprir mais uma profecia, que diz: “Alegra-te, Jerusalém, porque o teu Rei vem a ti, montado num jumentinho”(Zac 9,9) ! E sou Eu que te faço mais um pedido: avisa os Meus discípulos, aqueles que encontrares, e diz-lhes que dentro de três dias, espero por eles aqui, com ramos de palmeira, para entrarem comigo em Jerusalém. E que avisem também os de Jerusalém e arredores, para que façam o mesmo! …Estás a questionar-te: “Porquê isso, se tudo já está acertado quanto ao que O espera”? Vou dizer-te: Para cumprir a profecia, para dar a Jerusalém e ao Sinédrio uma última prova de que Eu sou o Messias esperado, o seu Rei, para fortalecer na fé todos aqueles que Me seguem, para convencer os da última hora, os indecisos, os que ainda têm dúvidas,…Quero dar-lhes a oportunidade de glorificarem o Messias, o verdadeiro Rei de Israel, antes que as trevas caiam sobre Ele.

Lázaro – No fim, Senhor?… (Chora)

Jesus – No fim, Lázaro, como está escrito, serei preso, maltratado, sofrerei, morrerei crucificado e ressuscitarei ao 3º dia, pois Eu sou a Ressurreição e a Vida, tal como disse às tuas irmãs.

Lázaro – E depois,…que serviço esperas de mim e das minhas irmãs?

Jesus –Tu serás ordenado sacerdote e bispo e a Gália espera por ti. As tuas irmãs irão contigo e Eu estarei sempre convosco!

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Ezequiel Miguel

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O Sinédrio trama ciladas contra Cristo

(Realidade & ficção)

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Judeus15Personagens: Caifás, Anás, Doras, Elquias, Jeremias, Zacarias, Samuel, Sadoc, Josias, Eliseu, João, Simão

O Sinédrio reúne para discutir o assunto. Precisam-se ideias para montar ciladas a Cristo e desmascará-LO perante as multidões. Para isso foi ele convocado parcialmente, no sentido de impedir que os sinedritas amigos de Jesus estejam presentes. É um assunto que tem de ser tratado urgentemente e no máximo segredo, como tudo o que é de carácter conspirativo. A reunião realiza-se, secretamente, em casa de Caifás, e não no Templo, por motivos de segurança contra espiões.

Caifás– (Presidente e sumo sacerdote) – Caríssimos santos de Israel, convoquei-vos para tratarmos de um grave problema que nos causa grandes preocupações e angústias, por não sabermos bem como enfrentar o galileu. É que, a continuar como até aqui, estaremos a pôr em risco a nossa nação, a nossa Lei, o nosso culto e os nossos costumes! E digo mais: até podemos vir todos a ser vítimas dos romanos. Penso que já estais a par deste assunto de que vamos tratar. Propositadamente, não foram convidados aqueles membros do Sinédrio que não pensam como nós. Confiado em que o assunto de hoje não transpirará para o exterior, eis o que nos traz aqui:

O galileu, que arrasta multidões, serve-se de poderes mágicos para provocar falsos milagres que enganam toda a gente. Todos estamos convencidos de que ele age por virtude de Belzebú, com quem ele tem provavelmente um pacto secreto. Os nossos espiões transmitem-nos tudo o que ele diz e faz, mas nada disso nos dá motivos para o prendermos e o julgarmos. Precisamos de provas mais convincentes, pois, daquilo que vemos e sabemos, há sempre o risco de não interpretarmos bem as coisas. Também não o podemos prender assim sem mais nem menos, para o soltar logo a seguir, se a multidão se armar contra nós e puser em risco a nossa segurança. Depois, poderão vir os romanos e…sabe-se lá o que poderá acontecer!

Assim, preciso que de vós saiam sugestões que possamos pôr em prática para o apanharmos em pecado, conseguindo, assim, desmascará-lo de uma vez por todas e afastar dele as multidões que o seguem, na expectativa de curas milagrosas. Agora, cada um apresentará o seu plano, que todos ouviremos com atenção, deixando os comentários, se os houver, para o fim.

Anás – Eu penso que devemos estudar bem, e preparar melhor, algumas ciladas, pondo-lhe questões enigmáticas, capciosas e dilemáticas, em que qualquer uma das suas respostas seja um trunfo a nosso favor e contra ele. Refiro-me a alguma passagem das Escrituras de difícil interpretação ou de interpretações contraditórias. Por exemplo: Yahweh proibiu fazer imagens de tudo o que há nos céus, na terra e nos mares. Eis a questão: Então, porque mandou ele a Moisés fabricar uma serpente de bronze e erguê-la no deserto? E porque mandou Ele construir dois Querubins sobre a Arca da Aliança? Yahweh deu ordens contraditórias ou não? Ele terá de explicar! E aí podemos apanhá-lo em contradição, seja qual for a resposta que ele der.

Doras – Eu sugiro o seguinte: Podíamos apanhá-lo de noite, atacando a casa onde ele e os seus discípulos pernoitam. Depois, julgávamo-lo por aquilo que ele fez ao meu pai. Deveis estar lembrados que ele lançou uma maldição sobre os pomares de meu pai e todas as árvores secaram imediatamente e lá continuam mirradas, esqueléticas e estéreis. Mais: Ele fulminou o meu pai, quando ele se preparava para o apedrejar. Ele deve ser obrigado a pagar os prejuízos e ser julgado por homicídio.

Elquias – A minha sugestão é esta: Um de nós, por exemplo, eu, podíamos convidá-lo para uma refeição em nossa casa e arranjávamos um estratagema que o impedisse de lavar as mãos antes da refeição, como manda a Lei. Depois, acusá-lo-íamos de infringir a Lei. Perante as nossas testemunhas, ele não poderia negar que não lavou as mãos. Se ele estiver com aqueles que andam sempre com ele, tanto melhor, pois também não teriam ocasião para lavar as mãos, caindo todos em argumentos inaceitáveis perante a Lei. Aí, poderíamos atacá-lo com os nossos argumentos, para os quais ele não teria resposta, uma vez que haveria testemunhas ali presentes.

Eliseu– A minha sugestão é esta: Um dia em que ele apareça lá pelo Templo e desate a pregar, desafiamo-lo a curar um falso doente. Explico melhor: Apresentamos-lhe um doente verdadeiro e outro falso, cada um em sua maca. Depois, no meio da discussão, acusamo-lo de realizar falsos milagres, chamamos-lhe embusteiro, mentiroso e outras coisas do género. Finalmente, desafiamo-lo a curar o doente falso e o doente verdadeiro. É evidente que ele não saberá qual é um e qual é o outro. Depois, lançamos sobre ele o ridículo e   o descrédito, levando as pessoas a concluir que ele é um intrujão, um falso Messias, por curar um falso doente, deixando o verdadeiro doente no mesmo estado em que foi. Nós, então, podemos provar que ele é mesmo mais um falso Messias e que os seus milagres são apenas obras de um charlatão. Teremos, assim, motivos e testemunhas para o levarmos a julgamento, por ser mais um que se arvora em Messias, a merecer a sorte que os outros tiveram: a morte

Samuel – Eis a minha sugestão: Ele já disse muitas vezes que se apresenta como rei das almas, não estando interessado em ser um rei verdadeiro, como esperamos que venha a ser o Messias verdadeiro, quando ele chegar. Mas nós poderíamos tentá-lo a deixar-se nomear e coroar como verdadeiro rei de Israel, em vez de Herodes. Convenceríamos alguns cortesãos de Herodes e alguns amigos do galileu a entrarem no esquema, levando-os a pensar e a acreditar nas nossas boas intenções. Aos amigos de Herodes teríamos de dizer que era uma cilada ao nazareno, de contrário poderia tudo virar-se contra nós e dar mau resultado. Assim, constituiríamos um grupo de amigos seus, um grupo de sacerdotes, um de escribas, um de fariseus, um de sinedritas, um de anciãos, um de doutores da Lei. Todos seriam devidamente instruídos sobre o tipo de discurso que cada um faria, de modo a que ele acreditasse nas boas intenções de nós todos. Esquecia-me de dizer: O encontro com ele seria numa casa de campo de algum dos nossos conhecidos, longe de olhares indiscretos, para evitar complicações futuras. Todos aqueles que falassem, teriam de demonstrar-lhe que ele, sendo o Messias, é aquele que está destinado a ser o verdadeiro rei de Israel, em vez de Herodes, que ocupa o trono indevidamente, por ser filho de estrangeiros. Assim, ele seria pressionado a aceitar, já ali, a eleição, a unção real e a coroação. Um sacerdote levaria já o óleo da unção e faria tal como fez o profeta Samuel com o rei David.Depois, se ele aceitasse, seria acusado ao Sinédrio, a Herodes e a Poncio Pilatos. O resto seria fácil de adivinhar!

Josias –Eis a minha sugestão: Ele já disse que, como senhor da vida, também ressuscita mortos.   Ora, o meu plano seria assim: Faríamos uma encenação de um funeral. Quando um jovem morresse a sério, nós levaríamos também, no funeral, um falso morto, igualmente jovem. Quando o galileu aparecesse, a choradeira seria por causa de ambos. Então, essa seria a ocasião de o provocarmos, acusando-o de fazer falsas ressurreições, porque os mortos que tinham morrido eram falsos mortos. Seria assim uma coisa parecida com o plano apresentado pelo Samuel. Ele seria desafiado, perante a multidão, a mostrar o seu poder, se é que o tem, de ressuscitar mortos verdadeiros. Se recusasse, toda a multidão o insultaria, por não querer ajudar aquelas famílias enlutadas e não usar o poder, que diz ter, em favor dos infelizes em horas tão amargas.

Sadoc – O meu plano é este: Seleccionaríamos um grupo de meretrizes bonitas, que, depois de bem industriadas por nós, as introduziríamos no meio das multidões, isto é, na primeira linha dos ouvintes, em suas pregações, precisamente em frente dele e o mais perto possível dele. Aí, veríamos se a sua pregação condiz com a sua vida e com o que dizem as Escrituras. Findas as pregações, elas aproximar-se-iam dele e…tentavam seduzi-lo, com aquela arte e astúcia que as caracteriza. Não preciso de dizer mais. É evidente que lhes pagaríamos antecipadamente metade e, depois do serviço, a outra metade ou o dobro, desde que tivessem atingido os objectivos.

Simão – Eu proponho o seguinte: Quando for possível, iremos ter com ele e pomos-lhe a questão: É ou não lícito a um Israelita pagar o tributo a César? Se ele disser que sim, atirar-lhe-emos à cara que ele não defende os interesses de Israel, como se esperaria do seu Messias, anunciado como libertador de Israel, aquele que libertará Israel de todas as opressões e opressores. Se disser que não, acusá-lo-emos a Pilatos e ele o enviará para a prisão como agitador anti romano, um inimigo de César. Não terá escapadela possível, seja qual for a resposta que dê. Depois, é só esperar para ver como ele se defende perante os romanos.

Zacarias – Eis o meu plano: Quando o encontrássemos a jeito, surgiríamos à sua frente, levando presa uma mulher adúltera, verdadeira ou falsa. Nós já levaríamos todos uma ou mais pedras para a apedrejar, como manda a Lei. Poderia também ser uma encenação previamente preparada. A mulher seleccionada não teria de dizer nada, apenas fingiria resistir àqueles que a arrastavam. Então, eis a pergunta que lhe faríamos: “Esta mulher foi apanhada em adultério. A Lei manda que a apedrejemos até morrer. Tu, que dizes? Apedrejamo-la ou não”? Aí, se ele disser que sim, acusá-lo-emos de ser cruel, de não usar a misericórdia que prega, de não perdoar, porque ele diz que pode perdoar os pecados, etc. Se disser que não, acusá-lo-emos de não cumprir a Lei e aconselhar outros a não cumpri-la e, sendo assim, já o poderíamos prender por ser um agitador, um intrujão, um falso Messias, levando as multidões a afastarem –se dele.

João – Eis o que eu proponho: Não basta a alguém dizer que é isto ou aquilo, sem primeiro ter feito obras que o demonstrem. Assim, isto pode ser aplicado ao galileu. Então, a minha ideia é esta: Quando ele aparecesse lá pelo Templo, provocaríamos uma discussão com ele, contestando afirmações e explicações sobre a doutrina que prega. É evidente que ele se defenderá com argumentos que nós não aceitamos. Quando chegasse o momento certo, exigiríamos que ali mesmo ele desse um sinal do Céu que demonstrasse que ele é o Messias verdadeiro. Podíamos combinar previamente um sinal, por exemplo: que aparecesse ali, naquele momento, um anjo do Senhor a confirmar que ele é o Messias. Se ele diz que tem os poderes de que fala, então também pode mandar vir do Céu um anjo que todos possamos ver. Se rejeitar a nossa proposta, tiraremos as devidas conclusões.

Jeremias – Também tenho uma ideia, que vou apresentar. Como ele diz que tem poderes para expulsar demónios dos possessos, podíamos encenar uma possessão diabólica, onde um falso possesso estrebucharia, berraria, deitaria espuma pela boca, cairia por terra, etc,. aquelas coisas que são típicas do comportamento dos possessos. Ai, veríamos se ele se deixava enganar ou não e se expulsava demónios de onde eles não estavam. Mais: Se recusasse expulsá-los, iríamos acusá-lo de crueldade e desprezo por alguém que sofre. Se tentasse expulsá-los, cairíamos em cima dele com provas e acusações de intrujão, embusteiro, charlatão e outros mimos que ele merece. Depois, agiríamos em conformidade.

……..

Caifás – Ninguém mais quer falar? Então, ponho à vossa consideração os planos apresentados. Alguém tem objecções contra algum ?… Não?… Então, consideram-se todos aprovados. A seu tempo iremos prepará-los e pô-los em execução.

Anás – Só mais uma coisa! Contamos com Judas Iscariotes para nos ir informando sobre o paradeiro do galileu. Combinaremos com ele quanto lhe pagaremos pelo serviço, que não será muito, pois a sua avidez por dinheiro torna tudo mais fácil. E já agora, tenho mais uma ideia. Entraríamos em negociações com o Judas, neste sentido: Nós pagaríamos ao Judas uma boa quantia pare ele conseguir convencer uma meretriz, até pode ser a sua favorita, a participar num esquema para apanhar o galileu em pecado. Bastaria que ela tentasse convencê-lo a entrar na sua casa numa noite em que ele pernoitasse por ali perto. O Judas informar-nos-ia. Então, a mulher desataria a bater nos portões e a gritar que queria falar com Jesus de Nazaré. Ele viria até ela, para saber quem era e o que queria e depois, ela oferecer-se-ia para o pecado. Quando ambos entrassem em casa da mulher, os que estivessem de guarda, escondidos, surgiriam pela frente e atiravam-lhe à cara o facto consumado, que seria divulgado às multidões que o acompanham, convencidas de que ele é o verdadeiro Messias. Aí, ficaria o mito desfeito.

Caifás – É mais um plano válido, que, a seu tempo, executaremos. A todos agradeço a vossa presença aqui, a bem da nossa nação e da nossa santa Lei.

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Ezequiel Miguel

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