Jesus é convidado para Rei de Israel

(Realidade & ficção)

Personagens: Jesus, Samuel, doutores da Lei, sacerdotes, fariseus, anciãos, cortesãos de Herodes…

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reiSamuel era um dos amigos de Jesus, mas também um que se relacionava com Herodes e seus amigos, pois desempenhava funções na corte de Herodes, sendo lá visto como discípulo ou simpatizante de Cristo.

Por um lado, a sua casa estava à disposição de Jesus em suas andanças apostólicas, por outro, ele desempenhava funções no palácio de Herodes, tentando estabelecer um equilíbrio entre ambas as situações: Não desagradar a Cristo por causa de Herodes e da sua corte e não prejudicar Herodes por causa de Cristo. Mas Samuel, pessoa influente mesmo entre os membros do Sinédrio e das autoridades do Templo, estava incapaz de se decidir radicalmente por uma situação ou por outra, ao contrário de Susana, sua mulher, incondicionalmente discípula de Jesus.

A actividade de Cristo e a Sua pregação não deixavam nenhuma autoridade indiferente. Uns eram criticados por estarem contra Ele, outros eram criticados por não estarem a favor Dele e outros por não se definirem radicalmente a favor Dele.

Certo dia, surgiu na cabeça de alguém influente a ideia de que se deveria convidar Jesus para Rei de Israel, pois já estava provado que Ele era mesmo o Messias prometido e esperado. E, por um motivo ou por outro, era chegado o tempo de tratar do assunto e quanto mais depressa, melhor. Esta ideia começou a girar secretamente, de boca em boca, em volta de personagens bem escolhidos, com aqueles cuidados que um complot exige: reuniões secretas em locais secretos, absoluto sigilo dos conjurados, um cabecilha que coordene e vá fazendo andar o processo e uma vigilância segura. Assim se ia fazendo, não fosse o assunto levado ao conhecimento dos Romanos ou de Herodes e se deitasse tudo a perder, com a inexorável condenação à morte de todos os intervenientes.

Entre os conjurados havia fariseus, membros do Sinédrio, sacerdotes, anciãos, doutores da Lei, cortesãos de Herodes e discípulos de Jesus, públicos, meio- públicos, secretos , conhecidos ou desconhecidos de Jesus, todos unidos por esta ideia: Era tempo de restaurar o Reino de Israel, caído, humilhado e vergado ao chicote do inimigo romano. Para mais, julgando eles interpretar correctamente os Profetas, o Messias era apresentado como o Rei e o Libertador de Israel. Assim, sendo Jesus aceite como Messias, o resto viria por acréscimo. Bastaria oficializar o facto e proceder-se à unção com o óleo e consequente coroação de Jesus. Do apoio de todo o povo ninguém duvidaria, mesmo daqueles espalhados pela diáspora, e que eram muitos.

Assim como o segredo é a alma do negócio, muito mais o é no caso de uma conspiração. E chegou, finalmente, o dia em que Samuel, um dos meio-amigos poderosos de Jesus, O convidou, em nome dos outros conspiradores, para um encontro secreto de pessoas importantes na sua casa de campo, distando de Jerusalém uns quilómetros, em local insuspeito, pessoas que estavam dispostas a ouvir a Sua Palavra de Messias de Israel.

Tudo devidamente preparado, os quarenta conjurados partiram, antecipadamente, em carros puxados por bois, burros ou cavalos , separados por boas distâncias, para não levantar suspeitas, em direcção à casa de campo de Samuel. Finalmente, partiu também aquele que levava Samuel e o Mestre. Quando eles chegaram, já todos os outros os aguardavam serenamente, não tendo revelado nenhum entusiasmo pelos recém- chegados, como é próprio de uma atmosfera de conspiração, em que todos as palavras, gestos , atitudes e passos têm de ser cuidadosamente pesados, contados e medidos.

Samuel, o dono da casa, levou toda a gente para uma sala espaçosa e apresentou a Jesus todos os presentes, um por um, referindo os nomes, categorias e funções que desempenhavam, quer no Templo quer no palácio de Herodes, quer em sinagogas, tudo gente selecta, séria e respeitável a vários títulos. Cristo não precisou de ser apresentado, porque já todos O conheciam e já todos estavam a par do que fazia e do que dizia, assim como os seus conflitos com os Seus inimigos, alguns dos quais estavam ali estranhamente presentes.

Samuel, como hospedeiro de tão ilustre gente, fez o que lhe competia:

Samuel – A todos dou as boas-vindas e todos damos as boas vindas a Jesus de Nazaré, poderoso em palavras e obras, o nosso Messias prometido e profetizado, aqui presente entre nós. Todos nós agradecemos a Sua presença entre os grandes de Israel, pois a Sua sabedoria ultrapassa tudo o que sobre o assunto possamos dizer e nós estamos aqui para O ouvir, mas também para que Ele nos oriente naquilo que nós consideramos importante para Israel.

Seguiu-se a refeição, em que pouco se falou, pois o ambiente era de mútua desconfiança, em que as palavras ficaram contidas dentro de cada um. Os olhares, porém, viajavam, intrigados, de uns para os outros, de todos para Cristo e de Cristo para todos. Quando alguém falava, fazia-o em voz baixa, de modo a que só o vizinho do lado ouvisse e fosse ouvido. E assim decorreu a refeição, em ambiente sério e quase silencioso, como se todos tivessem algo a dizer, mas que não deveria ser dito. Acabada a refeição, chegou mesmo o momento de atacar o problema que tinha congregado aqueles homens. O dono da casa tomou a palavra:

Samuel – Mestre, chegou o momento de Te explicarmos o que nos levou a convidar-Te para esta reunião, assim como os cuidados que tivemos em que ela se mantivesse secreta, de modo a não chegar ao conhecimento de Herodes nem de Pilatos, pois os consideramos inimigos de Israel. Aqui, podemos falar à vontade, sem receio de que alguém, indesejado, nos ouça. Nós convidámos-Te porque Te respeitamos, veneramos, aceitamos como Messias, admiramos a tua sabedoria e o teu poder em fazer obras grandiosas, porque Deus está Contigo.

Não querendo alargar-me muito, digo apenas que, em nome do povo de Israel, oprimido e enxovalhado pelos romanos, Te convidamos para aceitares ser eleito o Rei de Israel, o Príncipe da Paz, o Libertador. Podes contar com as nossas riquezas para Te darmos um palácio real, um reinado que prestigie a nossa nação e um exército que nos restitua a dignidade, expulsando o invasor e deitando abaixo aquele antro de pouca-vergonha que é o palácio de Herodes. …Gostaria de ouvir o que tens a dizer-nos sobre esta proposta, que tem a aprovação de nós todos e de todo o Israel.

Jesus – (Silêncio)

Samuel – Então?…Já vejo que precisas de pensar. Vou dar-Te tempo para isso. Entretanto, dou a palavra a outro.

Cortesão de Herodes – Rabi, todo o Israel sabe o que se passa no palácio de Herodes, sem que ninguém seja capaz de corrigir seja o que for. É certo que temos um rei, mas não é o rei que Israel precisa. Este que temos é um rei fraco e subserviente aos romanos, que são quem realmente manda no país. É para Israel humilhante que este povo tenha chegado ao que chegou. Faltam-nos chefes e condutores da nação que imitem as antigas glórias militares de Israel. Este povo, o povo escolhido por Deus, não vive, mas vegeta como escravo. A maior parte dos cortesãos de Herodes concordam que sejas Tu aquele que merece reinar em Israel como rei soberano e sem concorrência estrangeira. Por isso, em meu nome, e no de todos os que habitamos ou trabalhamos no palácio de Herodes, fazemos-Te o solene convite para aceitares a Tua eleição para Rei de Israel, restaurando assim a antiga realeza, pois reconhecemos em Ti que vieste a este mundo para seres mesmo o Messias esperado, com o glorioso destino de ocupares o trono real em Israel. Poderás dizer-nos o que pensas sobre o assunto?

Jesus –( Silêncio)

Cortesão de Herodes – Pelo que vejo, ainda não pensaste bem no problema.

Jesus – Direi o que penso quando não houver mais ninguém para falar.

Cortesão de Herodes – Então, cedo a palavra a outro.

Ancião do povo – Na minha já avançada idade não queria despedir-me desta vida sem a minha última consolação: ver-Te instalado num palácio real digno de ti. És justo, sábio, tolerante, compassivo, tens poderes extraordinários que Deus Te deu e sabemos todos que os tens posto ao serviço do nosso povo. Tens uma sabedoria que ultrapassa a de Salomão, e Israel, dirigido por um rei a sério, seria compensado por estes anos em que gemeu sob o poder arbitrário das autoridades civis que nos têm governado, isto é, desgovernado. Eu falo em nome de todos os Anciãos de Israel, que pensam como eu e aprovam que Te convide também para assumires o trono real, mesmo que para isso tenhamos de construir um palácio real novo, de onde governarias o novo Israel, porque este parece ter sido abandonado por Yahweh. Aceita a nossa proposta e todo o Israel exultará de alegria e cantará salmos de louvor ao nosso Deus! … (Silêncio)…Então? Que respondes ao nosso convite?

Jesus –( Silêncio )

Sacerdote – Eu ouvi atentamente o que os outros disseram e concordo em absoluto com eles. Embora não sejas originário da tribo de Levi, nós te consagraremos ao sacerdócio, te nomearemos Doutor da Lei e te ungiremos com o óleo da realeza, ficando sacerdote e rei de Israel para sempre. Acho, e todos lá no Templo achamos que, em Israel, só tu és digno de ser ungido e coroado Rei de Israel. Todos nós vemos em ti o Messias Libertador que os profetas anunciam, incluíndo Anás e Caifás, os sumos sacerdotes. Eles te pedem desculpas por uma certa animosidade para contigo, talvez por informações erróneas, mas agora pensam como nós e dizem que Tu serias a honra e a glória do nosso Templo e do nosso Povo, cansado de tanto sofrimento imposto pelos profanadores das nossas coisas santas. Nós também estamos a par das Tuas obras de bem em favor dos doentes, dos pobres e dos oprimidos pelas dificuldades da vida. Já imaginaste o bem que seria termos um Rei santo, justo, poderoso, sábio, com poderes para resolver tantos problemas que afectam o nosso Povo? À semelhança dos anteriores intervenientes neste convite, aqui vai também o meu, que tem a aprovação de todos os que vivem ou trabalham no Templo….

Jesus – ( Após uns momentos de silêncio, pondo-se de pé e girando o olhar por todos os presentes) A minha resposta ao vosso convite é: Nãaooo!!! Eu sabia qual a finalidade deste nosso encontro aqui, mas vim porque já tinha prometido que vinha e também para vos mostrar que Eu não tenho medo de ninguém nas minhas actividades apostólicas. Há aqui dois tipos de pessoas: umas dizem ser meus discípulos, mas ainda compreenderam pouco sobre a minha missão em Israel; outras, como tu, ó sacerdote, tu, ó cortesão de Herodes, tu, ó Ancião do Povo,…. pura e simplesmente, mentis! Os vossos discursos e a vossa presença aqui são de mentira!

Doutor da Lei – O quê?! Acusas-nos de mentira? Vê lá como falas? Nós somos os santos de Israel. Que provas tens tu contra nós?

Jesus – Repito: Mentis!…Tanto a vossa presença como a vossa linguagem é de mentira! Nem no Templo, nem na corte de Herodes, nem os fariseus, nem os saduceus, nem os doutores da Lei, nem os sacerdotes Me aceitam como Messias! E, muito menos, Anás e Caifás! Se Me aceitassem, já teriam dados provas disso. E o que fazem? Espiam-Me, armam-Me ciladas para Me apanharem em pecado, acusam-Me de ser um agitador, um amigo de Belzebú, um comilão que come com publicanos, um que aceita conversar com meretrizes, um profanador da Lei,…e muito mais! Vós viestes aqui para me armardes mais uma cilada, preparada cuidadosamente e servindo-vos de má fé para convencer aqueles que estão do Meu lado. Eu não posso aceitar o vosso convite, porque Eu já sou Rei, mas das almas de Israel, porque o Meu reino é espiritual. Eu nunca serei ungido nem coroado Rei temporal de Israel, porque Eu já fui ungido e coroado Rei das almas, e só elas Me interessam em absoluto. Só por causa delas é que Eu vim ao mundo, disposto a pagar o preço que elas custam. Eu sou Aquele, como dizia João Baptista, que tira o pecado do mundo e também tirarei os vossos, se aceitardes a Minha Pessoa, a Minha doutrina da Boa Nova e vos arrependerdes.

Se Eu aceitasse, aqui e agora, a unção e a coroação como Rei de Israel, amanhã iríeis a correr ao Sinédrio, ao palácio de Pilatos e ao de Herodes, contando-lhes as coisas à vossa maneira, seguindo-se depois uma perseguição com efeitos para vós imprevisíveis. A Mim nada aconteceria, pois a Mim ninguém Me tirará a vida. Eu sou o Senhor da vida, da minha e da vossa, e a Minha sou Eu que a dou, quando chegar a hora, para remir a humanidade, estabelecendo neste mundo o Reino de Deus, do qual sou mesmo o Rei.

Além do mais, que seria de vós quando os romanos vos caíssem em cima e vos massacrassem como traidores a César e traidores a Herodes? Onde vos meteríeis para escapar ao massacre? Resumindo e reiterando a Minha resposta ao vosso convite, que não passa de uma armadilha: NÃAOO!… Aos meus amigos e discípulos aqui presentes censuro o facto de ainda não terem compreendido cabalmente a Minha missão e a deles, mas têm a seu favor o facto de terem sido enganados e instrumentalizados por pessoas sem escrúpulos e a mando do Sinédrio. Aos outros, só tenho de perdoar, porque não sabem o que fazem! Termino com uma pergunta final? Porque não estão aqui aqueles do Sinédrio que Me aceitam ou que não Me combatem, tais como Gamaliel, Nicodemos, José de Arimateia, Eleazar e outros? Porque esses são rectos de coração,… a sabedoria divina está com eles, tornando-os capazes de discernir o que está bem e o que está mal, o que devem ou não devem fazer, e que vêem ao perto e ao longe!…

E Jesus sai imediatamente da sala e da casa, enfia-se no meio de um canavial e abandona o local, caminhando ao longo da costa até encontrar a barca em que alguns discípulos pescam.

Entretanto, arma-se uma confusão na sala, cada grupo chamando traidores aos outros e atribuindo-se mutuamente as culpas pelo falhanço. Enquanto uns sugerem que se vá atrás de Jesus para O prenderem, outros aconselham que se Lhe peça desculpas, outros ainda sugerem que se apanhe e se feche na casa até Ele aceitar a realeza. No final, todos responsabilizam todos pelo falhanço, mas em Jesus ninguém mais põe o olho, porque, em poucos segundos, deixa os perseguidores confundidos, sem encontrarem uma explicação para aquele desaparecimento quase instantâneo.

Quando Jesus se julgou seguro, sentou-se, descansou e acalmou. Era já noite. E Jesus chorou!

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Ezequiel Miguel

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Jesus em casa de Zaqueu

(Realidade e ficção)

( Cf. Lc 19, 1-10)

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zaqueu1

Do evangelho:

“Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de baixa estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómero para o ver, porque devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: “ Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa!”. Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador.

Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “ Senhor, vou dar metade dos meus bens  aos pobres e,  se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais”! Jesus disse-lhe:  “Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão, pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”! ( Lc 19, 1-10)

Zaqueu,  publicano (= chefe de cobradores de impostos), contratado  e pago pelos romanos, era odiado, como todos os publicanos e cobradores de impostos, os quais tinham de comum o facto de se aproveitarem  abusivamente de uma parte  dos impostos para proveito pessoal. Assim, na língua do dia a dia, eram tidos por ladrões, sem que alguém visse o meio de modificar as coisas, uma vez que a força e a autoridade dos romanos eram inquestionáveis. Eram considerados pecadores públicos e Cristo refere-se a eles com alguma frequência. Uma das acusações que os fariseus faziam a Cristo era o de comer com prostitutas e publicanos, que eles consideravam a ralé do povo judeu. Tal como o apóstolo Mateus, ex-cobrador de impostos,  também  Zaqueu vivia em desassossego com a sua vida, pois os fantasmas da desonestidade e da riqueza, adquirida pela extorsão  de impostos, não lhe davam o sono dos justos, apesar de o seu nome  significar “ justo”, “puro”.

Zaqueu tinha consciência de que não era nem uma coisa nem outra, antes se sentia ladrão e muito mais. Já ouvira falar de Jesus, que curava todo o tipo de doenças,  desde cegos a paralíticos e leprosos, expulsava demónios, pregava uma doutrina nova, convertia, perdoava, ressuscitava. Mas ele não só ouvira falar Dele, mas também já O vira de longe, pois esteve presente em uma das pregações do chamado Sermão da Montanha, onde Jesus falara  das riquezas, bem ou mal adquiridas, e verberou todos aqueles que se deixavam dominar por elas, ao ponto de não se importarem com os pobres, doentes e miseráveis que viviam ao lado. Nunca mais esquecera as Palavras de Jesus. “Bem aventurados serão os pobres  em espírito, porque deles é o reino dos Céus”.

Estas palavras não lhe saíam da cabeça, davam-lhe insónias, faziam-no rebolar na cama, perdera boa dose do apetite, do sono, da alegria e da paz de espirito e já se convencera que a sua riqueza mal adquirida seria a palha que alimentaria as chamas do fogo da geena (inferno). A consciência começara acusá-lo e ele desejava ardentemente encontrar-se cara  a cara com Jesus, mas  não sabia como. Também já ouvira dizer que Ele tinha convidado um colega publicano e cobrador de impostos para o grupo de discípulos que O acompanhava por todo o lado. Ocorreu-lhe a ideia: E se  Jesus também o convidasse, tal como  convidara Mateus?

Certo dia, estando Zaqueu na sua banca de cobrança de impostos, um ex-leproso, recentemente curado por Jesus, meteu conversa com ele.

Malaquias – Olá, Zaqueu! Já te conheci mais alegre do que estás hoje! Até parece que o mundo vai acabar por tua causa! Porque estás tão macambúzio?

Zaqueu – Olha, estou chateado, mas não é por causa de ninguém!

Malaquias – Será que a tua fortuna está a ir abaixo?

Zaqueu – Não! Não está a ir, por enquanto, mas irá!…

Malaquias – Estás doente ?

Zaqueu – Sim e não!

Malaquias – Dormiste mal?

Zaqueu – Dormi! Durmo mal todas as noites!

Malaquias – Bem! Não faço mais perguntas, mas parece-me que algo se passa contigo!

Zaqueu – E tu, que fazes por aqui? Tu não eras leproso, assim como a tua mulher e os teus filhos?

Malaquias – Sim, é verdade, mas morreram todos e só fiquei eu! Eu estava já mais morto do que vivo, mas  Jesus  de Nazaré curou-me e deu-me nova vida! Bendito seja Ele!

Zaqueu –  Jesus de Nazaré? Como é que isso aconteceu?

Malaquias – Foi assim: Eu sabia que um dia Ele passaria no caminho perto do túmulo onde eu vivia, isto é, onde eu definhava, lá perto de Jerusalém. Certo dia, vi uma multidão no caminho, com um homem alto à frente, que sobressaía dos outros, e disse para mim: ” É Ele”! Então, aproximei-me do caminho e comecei a gritar com toda a força.” Jesus,  filho de David, tem piedade de mim !” – Sabes o que Ele fez? Ele desviou-se do caminho, foi até junto de mim,  sorriu para mim, olhou-me olhos nos olhos e perguntou-me: “O que queres de Mim?“. Eu respondi: “ Senhor, cura-me, pois sou um desgraçado”! Então, Ele perguntou-me: “ E tu acreditas que Eu posso curar-te”? Eu respondi que sim, que acreditava. Então, Ele disse-me: “Eu quero! Fica curado! Vai mostrar-te ao sacerdote”! Naquele momento, senti um calor a percorrer-me o corpo e, pronto! Desapareceram todas as minhas chagas e fiquei como novo.

Zaqueu – Tu, que O viste de perto, diz-me: Como é Ele? Eu já uma vez O vi, mas foi de longe. Conta-me! Como é Ele?

Malaquias  – Ó Zaqueu, eu nunca vi ninguém assim! Ainda me parece um sonho! Passei do inferno ao paraíso, graças a Ele! Ó Zaqueu, nem sonhas como Ele é, visto de perto como eu O vi! É alto, de porte majestoso, loiro, de olhos azuis muito doces, de um sorriso divino que ilumina a alma, com uma voz suave, melodiosa, meiga,…e até me pareceu que vi uma auréola de luz em volta da Sua cabeça e  toda a Sua face irradiando luz. Nunca vi ninguém assim! Quem me dera voltar a encontrá-Lo! Se voltar a vê-Lo, peço-Lhe que me admita como Seu discípulo, para andar sempre com Ele. Então, a minha felicidade seria completa. Mas olha! Dou-te uma alegre notícia: Está previsto que Ele venha hoje a Jericó e é por causa disso que eu vim até aqui. Penso que uma grande multidão já O espera às portas da cidade.

Zaqueu – O quê? Não me digas que Ele vem cá hoje! Tenho umas ânsias de me encontrar também com Ele! Eu tenho muito interesse em vê-Lo e aproximar-me Dele, mas eu sou de pequena estatura e como é que eu posso chegar até  Ele, se anda sempre rodeado e acompanhado de imensa gente?  Outra coisa: Tu nunca te revoltaste com as tuas desgraças? Como estás de ânimo?

Malaquias – Oh, agora estou calmo, feliz, …já esqueci tudo o que passei e agradeço todos os dias a Yahweh e ao Seu Messias. Digo-te uma coisa: Se tu tens muita necessidade de te encontrar com Ele, Ele virá de certeza ao teu encontro, porque Ele disse uma vez que quem O procura, encontra-O. Isso aconteceu comigo e vai acontecer contigo. Ele é o Messias, o Filho de Deus, e sabe quem O procura e onde está! Por onde passa, Ele cura todos os doentes que acreditam Nele! Espera e verás!

Zaqueu – Sê bendito pelas notícias e pela esperança que me dás. Bem aventurados os pés do mensageiro que trás boas notícias. É o que diz o profeta Isaías… ou outro qualquer!

Malaquias – Escuta! Ouço gritos de hossana! Queres tu ver que Ele vem aí? Olha, lá ao fundo da rua! É Ele, com muita gente  com ramos de palmeira e oliveira. Prepara-te!

Zaqueu, ( arrumando a bancada apressadamente e olhando para todo o lado) Se vem muita gente….Já sei! Vou subir rapidamente a uma árvore!  Vem comigo e ajuda-me a subir àquela, além, que é a mais baixa! De lá, poderei vê-Lo e acenar-Lhe. Oxalá Ele olhe para mim!

Malaquias – Ele vai olhar para ti! É garantido!

 Jesus –  (Ao passar) Zaqueu, desce daí depressa, porque hoje quero ficar em tua casa!

E Zaqueu deixou-se escorregar pela árvore abaixo, acompanhou Jesus, lado a lado, até chegar a sua casa, mais propriamente à enorme vivenda  e ao enorme jardim que a não menos enorme riqueza lhe permitiu construir.

Zaqueu – Chegámos! É esta a minha casa, para a qual Te convido, assim como aos Teus discípulos. Cabemos lá todos e há comida e dormida para todos.

Jesus – Bonita construção, Zaqueu!…O Senhor ajudou-te!…Ele foi magnânimo para contigo!

Zaqueu – Bem, isso tem muito que se lhe diga!… Tu, que conheces a vida de cada um, sabes como a consegui construir… Eu passei a vida dominado pela ganância, roubei sempre que me foi possível, nunca respeitei os pobres e…muito mais! Além de ser ladrão, desonesto,…ainda tenho outros vícios, contando com a Tua ajuda para me ver livre deles. Mas chegou a hora de me redimir e endireitar os meus  caminhos, que são tudo menos planos e rectos.” Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais”! A Ti vou dar em dinheiro o equivalente a metade da minha riqueza e aos outros… facilmente os encontro, pois sei quem são e o que lhes tirei indevidamente.

Eu vivia inquieto e queria encontrar-me Contigo, para me curares desta minha doença da alma  e de outras que também me incomodam…e que me fazem viver com medo. Como eu Te agradeço, Senhor! Sei que Tu disseste um dia: “Quem Me procura, encontra-Me”! Eu já Te procuro desde aquele dia em que estive entre os Teus ouvintes, quando pregavas as bem-aventuranças. O que disseste sobre os pobres em espirito, sobre as riquezas bem ou mal adquiridas e também sobre os puros de coração, porque verão a Deus…deixou-me inquieto. Aquilo atingiu-me  em cheio e deixou-me meio atordoado, tal como se tivesse sido atingido por pedras lançadas por uma catapulta. Cada uma das Tuas palavras atingia-me no peito com estrondo. A partir daí,  tornou-se para mim urgente  encontrar-me Contigo. Isso caiu-me hoje em sorte e quero tirar o máximo proveito.

Jesus – Eu sei disso tudo, Zaqueu! Eu vi-te lá no monte! Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida e a Luz do mundo. Eu vim ao mundo  para que todos se arrependam e endireitem os caminhos tortuosos de suas vidas. Era isso que o João (Baptista) pregava: “Endireitai os caminhos do Senhor, enchei os vales e arrasai os montes…”! E ele também disse: “ Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo”! Pergunto-te, Zaqueu: “A quem se referia o João Baptista”?

Zaqueu –  Referia-se a Ti, Senhor! Mestre, a partir de hoje quero começar uma nova vida! O velho Zaqueu vai morrer e  ressuscitar, com a Tua ajuda!

Jesus – Hoje veio a salvação a esta casa, pois tu também és filho de Abraão e o Filho do Homem veio a ti para te salvar, porque, como tu reconheces, estavas perdido. Que a paz fique contigo e com os que moram na tua casa!  Agora, Zaqueu, enquanto procedeis à preparação da refeição, permite-me que Eu vá ao encontro de outros que vieram também até aqui, com cânticos e  gritos de hossana ao Messias de Israel. Eles esperam por Mim lá fora. Depois, dar-te-ei a alegria de te sentares à mesa a meu lado.

Zaqueu –  Sim, Mestre, mas para a minha alegria ser completa, exponho-Te já um desejo, pois posso não ter outra ocasião para To expor. É este: Admites-me no grupo dos teus discípulos?

Jesus – Admito! Depois de convertido e teres feito o que prometeste, continua na tua profissão, mas agora como um verdadeiro discípulo Meu: honesto, justo, fiel, sincero, puro em tua vida particular e pública,…e dá testemunho de Mim nesta cidade de  Jericó, levando os habitantes a perguntarem-se como é que Zaqueu está diferente. Fala de Mim como Meu verdadeiro discípulo! Depois, voltaremos a encontrar-nos.

“É mais fácil a uma corda passar pelo buraco da agulha do que um rico  entrar no Reino dos Céus…mas a Deus tudo é possível e  nada é impossível” Mt 19,24-26)

Comentário sobre as lições de Zaqueu

  1. Zaqueu é o exemplo daqueles que, sendo ricos, se poderão salvar. É um daqueles casos em que o camelo (=corda) passou pelo buraco da agulha.
  1. Felizes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a cumprem.

 A Palavra de Deus tem força, mas não é automaticamente que produz efeito nas almas. Tal como a chuva, ela molha, mas é preciso que a pessoa se deixe molhar, não se servindo de tapa-chuvas, guarda-chuvas e outras protecções contra…, nomeadamente preconceitos, opiniões e pontos de vista antecipadamente arreigados na alma e qua actuam como carapaças imunes à Palavra de Deus. Neste assunto, a pessoa tem de se despir de palavreado como este: “ A mim esta passagem diz-me que…Eu penso que… A minha opinião sobre isso é que…” etc.  A Palavra de Deus diz o mesmo para todos, sendo abusivo e blasfemo engendrar manobras para torcer, distorcer, diminuir, cortar, acrescentar, desvirtuar, etc, de modo a que tudo coincida com aquilo que nós queremos ou que se coadune com uma vida em desarmonia com os ditames e as exigências que a Palavra de Deus implica. Aproveito para lembrar, àqueles que são baptizados e militam fora da Igreja Católica, que devem  orientar as suas vidas por uma Bíblia Católica e pelo Catecismo da Igreja Católica, onde encontram tudo o que é necessário para a salvação.

3.Exemplo de decisão radical e corajosa.

 Uma decisão como a de Zaqueu, de subir a uma árvore para ver Jesus,é mesmo de coragem, não se importando com o ridículo da situação nem no presente nem no futuro. Também não se importou com as inimizades que viriam depois nem com as possíveis perseguições por parte das autoridades do Templo. Toda a conversão traz (pode trazer) custos, pois leva necessariamente a mudanças radicais que podem ser difíceis, dolorosas, lentas.

  1. Indemnizar pelos prejuízos causados/ devolução de bens roubados

É de elementar justiça devolver o que é roubado, acrescentando os juros e a paga pelos prejuízos morais. Se neste mundo, aquele que roubou  não  restitui nem indemniza, no outro mundo terá, minimamente, longos anos de purgatório, se não vier a ser condenado por infracção grave do 7º Mandamento:” Não roubarás!”

  1. Exemplo de humildade e reconhecimento dos defeitos/pecados/limitações.

É necessária humildade  e autoconhecimento para reconhecer os próprios defeitos, vícios, pecados, limitações, o que não é nada fácil. Para um médico tratar um doente, é preciso que este se aceite como tal. O mesmo se passa com Deus em relação a nós, que também gosta de ouvir, confessado com sinceridade e humildade: “Tende piedade de mim, que sou pecador”! Cristo contou aquela parábola do fariseu que rezava(?) de pé, orgulhoso, santo, perfeito, caridoso, cumpridor perfeito da Lei, em contraste com o publicano, ajoelhado lá ao fundo do Templo, suplicando humildemente, batendo no peito:” Perdoa-me, ó Deus, que sou pecador”! Cristo também disse: “Todo aquele que se humilhar será exaltado e todo aquele que se exaltar será humilhado”.  E: “ Aquele que quiser ser o maior faça-se o mais pequeno”! Daqui se infere que há grandeza na humildade, ingrediente essencial de toda a santidade.

  1. Exemplo de se virar para Deus na busca intensa de ajuda

Zaqueu reconheceu a sua incapacidade para  vencer, por si só, as suas fraquezas. É o que todos nós temos de fazer, mas, primeiro, temos fazer uma introspecção séria, honesta, sincera, profunda, se possível com a ajuda de um psicólogo, de um sacerdote, em direcção espiritual, ou com a ajuda daqueles que vivem mais próximo de nós, pois eles, podem ignorar os seus próprios defeitos, mas conhecem os nossos… e nós, os deles! É a realidade de vermos o argueiro no olho do outro e não vermos a trave/ o barrote no nosso.

  1. Exemplo do poder da Palavra divina

A Palavra de Cristo deixou Zaqueu a fermentar, a incomodar, a causar reacções que depois levaram a massa a levedar, até finalmente sair um produto acabado – a conversão. Em seu íntimo, as decisões de mudar de vida já tinham sido trabalhadas e acabadas, mesmo antes do seu encontro com Cristo, que se limitou a confirmá-lo e a dar-lhe a força necessária para se firmar no novo caminho que iria percorrer até à sua morte. Zaqueu terá sido, a princípio, uma boa terra onde caiu boa semente, mas, com o tempo e com  as teorias e práticas dos fariseus, acabou por se deixar apanhar por silvas e ervas selvagens, de que Cristo veio libertá-lo.

  1. Exemplo de arrependimento e propósito firme de emenda

É evidente que o reconhecimento dos erros, dos vícios, da desonestidade, etc., leva ao arrependimento, absolutamente necessário para a conversão, da qual também não se pode excluir um propósito firme de emenda, o que não quer dizer que o pecador fique com a certeza de que não volta a cair /pecar. Mas, todas as vezes que cair em pecado, terá de repetir o arrependimento, o propósito firme de não repetir e…apresentar-se à Confissão Sacramental, se for baptizado. Uma conversão séria não pode excluir a prática da oração e dos Sacramentos deixados por Cristo, em particular a Confissão e a Missa com Comunhão Eucarística.

  1. Modelo para aqueles que vivem em pecado

 Zaqueu, habituado a fazer contas, não precisou de as fazer na sua conversão. Modelo para quem vive em pecado privado ou público, em que se requere uma decisão radical, sem considerar os prós e os contras.

 Em decisões radicais  importantes, como foi a de Zaqueu, ele não se importou com o que diriam os outros ao converter-se e tornar-se discípulo de Cristo, disposto a dar testemunho público, tal como  Cristo exige a todos nós: “Quem se envergonhar de Mim, também Eu me envergonharei dele”! Só que dar testemunho de Cristo significa cumprir os Mandamentos, aceitar toda a Sua doutrina, sem excepção, e viver segundo as suas exigências. É evidente que nenhuma confissão protestante ou espírita aceita toda a doutrina de Cristo, fazendo eles a selecção daquilo em que querem acreditar. Que testemunho de Cristo poderá dar um protestante  ou um espírita, se não aceitam a única Igreja fundada pelo próprio Cristo: “Esta é a Minha Igreja…”?!  Algo difícil ou impossível de compreender!

  1. Agarrar a ocasião em que Deus passa

Zaqueu tomou a iniciativa  de aproveitar o momento, a ocasião, em que Cristo passava por ele. Também Cristo passa muitas vezes por nós, num retiro, numa leitura, numa conversa, num encontro casual com alguém, numa liturgia, numa homilia da Missa, na leitura da vida de um santo, numas  revelações de Cristo ou da Virgem Maria, numa peregrinação a um santuário Mariano, na presença de um milagre, etc.

Dou alguns exemplos destes:

  1. Agostinho converteu-se ao ouvir um sermão de Santo Ambrósio, Bispo de Milão; S. João de Deus (João Cidade) converteu-se depois de ouvir um sermão de S. João de Ávila; Santa Edith Stein, professora de Filosofia na Universidade de Berlim, no tempo de Hitler, converteu-se do judaísmo ao Cristianismo, ao terminar a leitura das Obras Completas de Santa Teresa de Ávila; Alexis Carrel, médico francês ateu, converteu-se depois de ver uma sua doente curada de um cancro em Lourdes; numerosos são também os casos de verdadeiras conversões em peregrinações a santuários marianos; Lurdes, Fátima,  Medjugorje são notáveis por isso, na Europa; em peregrinações da imagem de N.S. de Fátima pelo mundo há conversões e milagres em  abundância.  Se lhe surgir a ocasião, veja o filme “Fátima no mundo”, promovido pelo Santuário de Fátima. É Deus/ Cristo/ a Virgem/ que passam e deixam rastos de graças que levam à conversão.

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Ezequiel Miguel

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O bezerro de ouro no deserto

(Cf.Êxodo 32 // Deut. 9)

(Realidade & ficção)

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Personagens :

. YAHWEH = EU SOU AQUELE QUE SOU

. Moisés

. Aarão

. Josué

. Israelitas

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bezerro-de-ouroTendo Moisés sido chamado ao Monte Sinai (da cordilheira do Horeb), no deserto, após a travessia do Mar Vermelho,  o povo ficou acampado cá em baixo, na base do monte, com expressa proibição de alguém tentar subir lá acima, sob pena de morte. E Moisés por lá ficou durante 40 dias e 40 noites, sem comer nem beber, de onde regressou com a Lei (Os Dez Mandamentos) que Deus escrevera a fogo nas duas tábuas de pedra.

Entretanto, na ausência prolongada de Moisés,  alguém começou a semear a dúvida sobre o seu destino, destino esse que ninguém poderia investigar subindo ao monte, porque tal atrevimento implicava a morte para quem se atrevesse.  Havia  mesmo um espaço delimitado em volta do Monte, para que ninguém o ultrapassasse, uma vez que todo ele estava entregue à presença e à Glória de Yahweh.

Enquanto Moisés vai a custo subindo,  uma sensação estranha o vai invadindo naquele silêncio não interrompido por nada nem ninguém. A certa altura:

Moisés – O que é aquilo? Um silvado a crepitar por fogo, mas sem cheiro, sem fumo, sem labaredas, sem faíscas…Estranho! Vou aproximar-me mais e ver de perto o fenómeno! Nunca vi uma coisa assim! É fogo, mas não queima, não provoca cinzas, não destrói!

Yahweh – Moisés, Moisés! Tira as sandálias, porque o lugar que pisas é santo!

Moisés – Mas…quem sois vós, Senhor?

YahwehEU SOU AQUELE QUE SOU! Eu sou o Senhor,  vosso  Deus,  que vos tirou do Egipto, da casa da escravidão. Vou fazer com o Meu Povo uma Nova Aliança, como fiz com Abraão, Isaac e Jacob. Vou gravar na pedra o essencial da Minha Lei, que lhe transmitirás, dizendo que não são leis humanas, mas divinas, não inventadas por ninguém. Logo que lhas transmitas, ficarão de imediato promulgadas e em vigor para sempre…..

Entretanto, no acampamento:

1º Israelita –  EH! Amigos!  Quem sabe por onde andas esse Moisés?  Há tanto tempo que subiu ao monte!…Que será feito dele?

2º Israelita –  Já deve ter sido comido por alguma fera e dele  também nem os ossos encontraremos, uma vez que estamos proibidos de ir em busca dele!

3º Israelita –  Se não foi morto por uma fera, já deve ter morrido à fome ou à sede, porque não levou nada para sobreviver!

4º Israelita – Eu cá não acredito naquilo que ele disse. Ele disse que ia lá acima para falar com o Senhor, mas, se Yahweh tivesse alguma coisa para lhe dizer, porque haveria Ele de o chamar para ir lá acima? Podia revelar-se a ele na sua tenda ou  junto da Arca da Aliança.

5º Israelita – Bem vistas as coisas, também não precisamos dele!  Vamos fabricar um deus do Egipto e festejar o fim da história de Moisés, agora que já nos livrámos dele.

6º Israelita – Boa ideia! E como faremos para fabricarmos o deus?

7º Israelita – Vamos de tenda em tenda e pedimos ouro às mulheres: braceletes, brincos, anéis, argolas, medalhões e outras coisas em ouro. Penso que conseguiremos juntar o suficiente.

8º Israelita – E quem nos autorizará, uma vez que  de Moisés não há rasto?

9º Israelita – É fácil! Vamos ter com Aarão, o irmão do Moisés!

10º Israelita – E acreditais que ele fará isso? Isso será uma traição a Moisés!

11º Israelita – Ameaçamo-lo, se  ele não assumir a responsabilidade. Se o Moisés aparecer, terá que se entender com ele e ele com Moisés. Assim, ficamos nós livres de qualquer punição, porque,…nunca se sabe o que poderá acontecer…Vamos então até ele!…

12º Israelita – Aarão,  na ausência do teu irmão, és tu que nos orientas. Vimos aqui para nos ajudares num projecto! Pedimos-te que dês instruções ao povo no sentido de entregar peças de ouro para fundirmos um bezerro. Queremos fazer uma festa para esquecer estas agruras e estas ansiedades em que vivemos. Tu sabes como temos saudades do Egipto e estamos cansados desta vida de nómadas no deserto! Vê lá! Tens  de colaborar connosco e estamos dispostos a tudo se não colaborares!

13º Israelita – “Vamos! Façamos para nós um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos persuadiu a sair do Egipto, não sabemos o que terá acontecido”(Ex 32,1)

Aarão “ Tirai as argolas de ouro das orelhas das vossas mulheres, dos vossos filhos e das vossas filhas e trazei-mas!”

“Eles tiraram as argolas que tinham nas orelhas e levaram-nas a Aarão. Recebeu-as nas mãos deles, deitou-as num molde e fez um bezerro de metal fundido. Então, exclamaram: “ Israel, aqui tens o teu deus, aquele que te fez sair do Egipto.” Vendo isto, Aarão construiu um altar diante do ídolo e disse em voz alta:

Arão –  ”Amanhã haverá festa em honra do Senhor”.

 No dia seguinte, de manhã, ofereceram holocaustos e sacrifícios de comunhão. O povo sentou-se para comer e beber e depois levantou-se para se divertir” ( Ex 32, 3-6)

Então, o Senhor disse a Moisés:

Yahweh –“ Vai, desce depressa, porque o teu povo, que tiraste do Egipto, corrompeu-se. Bem depressa se afastaram do caminho que Eu lhes prescrevera, fabricaram um bezerro de metal fundido e adoraram-no, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: “Este, ó Israel, é o teu deus que te tirou da terra do Egipto. Eu observei este povo e eis que é um povo de dura cerviz. Deixa que se acenda a Minha ira contra eles e os consuma; de ti, porém, farei uma grande nação! “( Ex 31 ,7-11).

Moisés – Mas, Senhor,  ides destruir todo o meu povo quando só alguns fizeram o que acabas de dizer? Perdoa-lhes, Senhor, e castiga-me a mim, mas salva o Teu povo, que , em sua maioria,  Te aceita como  seu Deus e Senhor! “Por que, Senhor, se acenderia o vosso furor contra o meu povo, que tirastes da terra do Egipto com mão forte e braço poderoso? Não convém que se possa dizer no Egipto: Foi com má intenção que Ele os fez sair  para os matar nas montanhas e suprimi-los da face da Terra! Não te deixes dominar pela cólera e abandona a decisão de fazer mal a este povo. Recorda-Te de Abraão, de Isaac e de Israel (Jacob), teus servos, aos quais juraste por Ti mesmo: tornarei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e concederei à vossa posteridade esta terra de que falei, e eles hão-de recebê-la como herança eterna”. (Ex 32, 11-14)

Moisés – (Descendo  do monte com as duas tábuas da Lei e ouvindo o ruído…) –   O que ouço eu? Parece uma festa…Que motivos terão eles para festejar? Também ouço  música e tambores!

Josué Há no acampamento alaridos de batalha!

Moisés Não são gritos de vitória nem gritos de derrota. O que oiço  são vozes de gente a cantar.

“Ao chegar junto do acampamento, Moisés viu o bezerro e as danças. Acendeu-se a sua cólera, atirou com as tábuas e partiu-as ao pé do monte. Depois, agarrando no bezerro que tinham feito, queimou-o e reduziu-o a pó fino, que espalhou na água. E deu-o a beber aos filhos de Israel” ( Ex 32 19-20)

MoisésAarão, que te fez este povo para o deixares cometer um tão grande pecado?

Aarão“ Que o meu senhor não se irrite! Tu próprio sabes como este povo é inclinado para o mal. Eles disseram-me: Faz-nos um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos fez sair do Egipto, não sabemos o que lhe terá acontecido. Eu disse-lhes: quem tem ouro? Despojaram-se dele e entregaram-mo; lancei-o ao fogo e saiu este bezerro .(Ex 32,22-24)

Moisés – Acompanha-me até à entrada do acampamento!...Filhos de Israel, quem é pelo Senhor, junte-se a mim!

Aarão – Estou a ver!  Aí tens todos os filhos de Levi, os da nossa tribo!

Moisés –“ Filhos de Levi, o Senhor, o Deus de Israel, diz o seguinte: Cinja cada um de vós a espada sobre a coxa. Passai e tornai a passar através do acampamento, de uma ponta à outra, e cada um de vós mate o irmão, o amigo e o vizinho!” ( Ex 32 ,27)

“Os filhos de Levi fizeram o que Moisés lhes ordenara, e cerca de três mil homens morreram nesse dia, entre o povo. Moisés disse:

Moisés –  Consagrai-vos desde hoje ao Senhor porque, sacrificando o vosso filho e o vosso irmão, atraístes hoje sobre vós uma bênção”. (Ex 32, 29)

Oração de Moisés:

 No dia seguinte, Moisés disse ao povo:

Moisés: ” Cometestes um enorme pecado. No entanto, vou subir para junto do Senhor. Talvez alcance o perdão para o vosso pecado. “

 Moisés voltou para junto do Senhor e disse:

Moisés – Ah, este povo cometeu um grande pecado. Fizeram para si um deus de ouro. Apesar disso, perdoa-lhes este pecado, ou então apaga-me do livro que escreveste!

“O Senhor disse a Moisés:

Yahweh – ” Apagarei do meu livro aquele que pecou contra mim. Vai agora e conduz o povo para onde Eu te disser. O meu anjo caminhará diante de ti, mas no dia da prestação de contas, puni-los-ei pelo seu pecado”.

O Senhor castigou o povo, por ter instigado Aarão a fazer o bezerro. ((Ex 31,30-35)

Comentário:

  1. O povo de Israel era a concretização da promessa feita a Abraão de que ele seria o pai de uma numerosa descendência, à qual seria dada uma terra de prosperidade e bem estar. Mas Deus serve-se dos homens, daqueles que Ele escolhe, para realizar na Terra os Seus planos, os quais se vão realizando condicionados pela aceitação ou rejeição por parte daqueles que ficam envolvidos neles.

Moisés e seu irmão Aarão, da tribo de Levi, foram os escolhidos para conduzir o seu povo a partir do Egipto, pondo fim a uma escravidão de quatro séculos. Este povo pôde admirar como Deus os libertara do faraó: com inúmeros milagres, como lhe abriu passagem através do Mar Vermelho, como o protegeu e livrou do exército do faraó, como o conduzia de noite por uma nuvem luminosa e de dia por uma nuvem que lhes servia de guia e de local de paragem para montarem o acampamento, como transformara em água potável um poço de águas sujas, etc.

 No entanto, se a maioria tinha olhos para ver, fé para crer e esperança  em melhores dias, outros entraram pela via da murmuração, da rebelião,  da perda da fé  em Deus, caindo na aberrante ideia de pedir (exigir?) a Aarão um deus de metal fundido. Não se compreende como o homem, dotado de razão e inteligência, pode cair tão baixo, ao ponto de  prestar culto de adoração a um ídolo e proclamar: “Este, ó Israel, é que é o teu Deus, que te fez sair do Egipto!”

  1. Será para admirar? Sim e não! O ateu, o que esquece ou não conhece o Deus verdadeiro, está sujeito a tudo, até a ver deus num bezerro de metal ou em outras criaturas, pessoas, animais ou coisas. Convém não esquecer que este povo, enquanto esteve no Egipto, vivia num ambiente de idolatria generalizada, não lhe sendo fácil manter-se afastado das práticas pagãs dos cidadãos do Egipto. Daí, a constante advertência de Deus e de Moisés contra as tentações de ver, fabricar ou adorar divindades concretas, esquecendo o Deus invisível que apenas se manifestava através de Moisés e dos milagres que ia fazendo diariamente.

É o problema da Fé, ontem, hoje e sempre, num Deus que continua e continuará tão invisível como antes. A Fé é a capacidade de ver para lá do visível, requerendo a adesão voluntária da inteligência e das práticas correctas e obrigatórias  que a alimentam. O homem que não tem Fé caminha pela vida às cegas, não descobrindo o que ele próprio é, de onde vem e para onde vai! Quando o descobrir, logo após a morte, é tarde demais!

  1. Após os pecados em que o povo incorria, Moisés não se poupava a interceder por ele, tentando e conseguindo acalmar a ira de Deus, oferecendo-se mesmo para entregar a sua vida em troca do perdão que implorava para o seu povo. Pode ver-se aqui quanto vale a oração de um santo, de um amigo de Deus, de alguém que aceita uma “missão impossível”. É certo que Deus perdoou ao povo, mas não perdoou àqueles que promoviam a revolta, a murmuração, a idolatria, as saudades do Egipto e que tentavam abater a fé daqueles que se mantinham fiéis aos desígnios de Deus, transmitidos por Moisés. Fossem poucos ou fossem milhares, Deus ia varrendo toda a fruta podre no seu povo, para que o resto não apodrecesse também, numa pedagogia que se podia resumir a “ exterminar uns quantos para salvar o maior número possível”. Será caso para acusar Deus de violento, injusto, cruel, etc.? Qualquer general ou oficial faria o mesmo numa batalha, se visse que essa era a solução menos drástica, com menor número de baixas.

E a morte de inocentes, como as mulheres, as crianças, os animais,.. daqueles que foram de imediato executados em punição pelo seus pecados?  Terão sido inocentes, mas o pecado de um chefe, de um governante, de uma autoridade,…arrasta consequências funestas, não só para aqueles que os cometem, mas para  os familiares e a sociedade em geral, tal como numa guerra, em que morrem muitos que não têm culpa, aparente ou real.

  1. A murmuração – É um dos pecados da língua. Murmurar está na raiz da palavra murmúrio, tendo a ver com comentar em surdina, baixinho, ao ouvido, sussurrar, falar em segredo…,sobre a vida ou episódios da vida de alguém, emitindo normalmente juízos e opiniões desfavoráveis, entrando assim na difamação ou na calúnia, quando se espalham falsidades que o murmurador toma por verdades. É triste, mas não deixa de ser verdade: Normalmente, temos a tendência para denegrir a vida alheia e raramente somos capazes de admirar ou referir as suas qualidades e bons serviços, porque caímos na crónica hipocrisia de ver no olho dos outros um argueiro e não vermos no nosso um barrote, uma trave, um milhão de vezes maior…Faz parte da nossa psicologia: afundarmos os outros para  tentarmos elevar-nos a nós próprios. Não esqueçamos que a murmuração acaba por ser também um pecado contra a caridade, porque prejudicamos o próximo. Parafraseando Cristo: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça,  e quem tem sabedoria para entender, entenda!

 

Ezequiel Miguel

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As razões do filho pródigo – I

(Confira: Lucas 15,11-32)

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 ( Realidade & ficção)

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“Como é infame aquele que abandona o seu pai e como é amaldiçoado por Deus o que irrita a sua mãe” (Eclesiástico 3, 18)

Personagens: Pai e filho mais novo

paiefilho“Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde”.  E o pai repartiu entre os dois os seus bens…Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua …” (Lc 15, 11-13)

Não lhe faltava nada, tudo lhe corria bem. Tinha um pai rico, bondoso, compreensivo, tolerante, e um irmão trabalhador e honesto que não lhe causava qualquer complicação. Tinha tudo para uma vida calma numa casa e numa família sem problemas.

Mas há sempre um mas. Um dia,  surgiram, neste ambiente monotonamente feliz, umas  ideias que começaram a engrossar na cabeça deste filho pródigo e tanto engrossaram que, qual árvore já com raízes bem fixadas na terra, começaram a lançar ramagens e frutos, enquanto cresciam, cresciam…Finalmente, o filho mais novo deste pai, chamando-o de parte ,  expôs-lhe o que precisava de lhe  expor:

Filho  – Pai, tenho uma coisa a propor-te! Há já muito tempo que tenho na cabeça uma ideia que sempre receei expor-te, porque não vais, certamente, gostar dela. Não sei bem como começar! Não queria magoar-te, mas…

Pai – Filho, eu sempre vos estimulei a serdes francos, leais e sinceros para comigo e sempre estive disposto a ajudar-vos a resolver qualquer problema que vos afecte, pois os vossos problemas são os meus problemas e a vossa felicidade é também a minha felicidade. Por isso,…aguardo que me contes o motivo das tuas preocupações.

Filho – Custa-me dizer, mas tem que ser! Desde já peço perdão para o meu atrevimento. É que…não sei bem por onde começar! Eu… não é que me sinta mal na tua casa, mas eu queria experimentar uma nova maneira de viver, menos monótona, menos rotineira, mais independente, mais livre,  mais adulta, mais capaz de me fazer crescer como jovem e como homem,  gerindo a minha liberdade mais responsavelmente…

Pai – Mas, filho, tu sentes-te um escravo na minha casa? Eu nunca te obriguei a nada! Apenas vos tenho dito que a vida, em qualquer circunstância, está sujeita a regras que o bom senso e a educação dos filhos exigem. Eu só  quero preparar-vos para a vida e ensinar-vos aquilo que deveis aprender para serdes homens justos, trabalhadores, respeitadores, conscientes, responsáveis… Vê como o teu irmão trabalha! Eu não preciso de lhe dar ordens para ele fazer o que deve fazer. Apenas  me limito a dar-lhe conselhos quando ele mos pede!

Filho  – Pois é, pai, mas eu sempre tenho de te pedir dinheiro para satisfazer algum capricho ou comprar aquilo de que preciso. Além disso, também preciso de me divertir com os meus amigos e amigas e eu já me envergonho de te pedir dinheiro tantas vezes!

Pai – Filho, mas eu alguma vez de neguei o dinheiro que me vais pedindo? Até é a maneira de irmos conversando um com o outro e permutar confidências entre nós, pois filhos e pais precisam de conversar, para quebrar a possível frieza que se vai instalando e alimentar o amor filial e paternal.

Filho  – Pois é!…Mas , se  eu tivesse dinheiro suficiente, eu não andava sempre a pedir-te cada vez que preciso dele.

Pai – Diz-me, filho, quanto achas que precisas por mês? Eu posso conceder-te uma mesada fixa para os teus gastos, mesada essa que tu poderás gerir a teu gosto e assim já não terás que te humilhar a pedir-me, se essa é a causa do teu problema. A minha riqueza é suficientemente grande para eu não precisar de andar a fazer contas contigo. Diz só: Quanto queres mensalmente?

Filho  – Pois!…Mas, assim, criava-se outro problema. Se me desses uma mesada a mim, terias de dar outra mesada ao meu irmão, para seres justo!

Pai – Para mim isso não é problema. Vai ter com o teu irmão e discute com ele esse assunto!

Filho  – Para quê? Para que é que ele precisa de dinheiro?  Ele nem o sabe gastar!  Ele só quer trabalho, não se diverte, não reivindica nada, é um paz de alma enervante!…Nem sequer  consegue enervar-se quando eu discordo dele e ele discorda de mim! Para ele está tudo sempre bem! Ele não tem ambições e, quando morrer, vai morrer podre de rico. Eu sou diferente, tenho sangue na guelra e preciso de mudar de ambientes. Esta pacatez  enjoa-me! Por isso, tenho uma ideia a propor-te:  Dá-me a parte da herança que me pertence e eu sei o que fazer com ela!

Pai – Estás a falar a sério, filho? Nunca pensei ouvir isto de um filho meu, ao qual eu tenho dispensado, com alegria e entusiasmo, tudo o que ele precisa! Quanto ao teu irmão, a experiência mostra-me que ele é sério, trabalhador, amoroso, obediente…embora o seu feitio calmo não seja de molde a preocupar-se  com muitas coisas. Sois diferentes, mas, bem vistas as coisas, todos os homens são diferentes uns dos outros.

Filho – Sim, pai!… É isso mesmo que eu te peço! Vende a parte da minha herança e entrega-ma em dinheiro vivo! Se me amas de verdade, não poderás recusar o que te peço!

Pai – E depois, o que farás com esse dinheiro? Ficas por cá, continuas a viver na minha casa ou…?

Filho – Logo que me dês o dinheiro, partirei para longe! Quero viver a vida e satisfazer a minha ambição de liberdade e felicidade. Trabalhar já não será comigo, pois esse dinheiro será suficiente para viver desafogado sem a humilhação de pedir aquilo a que tenho direito…

Pai (limpando as lágrimas) – Ó filho, filho, o que vais fazer! Tu magoas-me, ofendes-me, entristeces-me…porque prevejo que vais ser um infeliz, um pedinte, um miserável, um órfão, um rejeitado pela sociedade, um…Pensas que é humilhante pedir-me o que precisas, mas vais ter que te humilhar para esmolar o teu sustento diário a outros, que to negarão. Passarás fome e miséria quando na casa de teu pai até os servos têm tudo em abundância…

Filho – Não será bem assim! Eu já tenho idade para gerir a minha vida como me apetecer, sem que ninguém exerça qualquer autoridade sobre mim. Os tempos agora são outros! Os pais são como os outros progenitores. Cumprem a sua missão e depois  chega o tempo de os filhos saírem do ninho e voarem  livremente no espaço infindo da vida. É esse o meu caso!

Pai – Se não posso demover-te de um passo errado, respeitarei a tua liberdade e o modo como vais servir-te dela.  Aguarda que eu possa satisfazer as tuas pretensões. Preciso de fazer contas e vender a tua herança. Depois, …recebê-la-ás em dinheiro! De qualquer modo, se  entretanto mudares de ideias, comunica-me!

Avaliada a herança, contas feitas, dinheiro no bolso, o pai chamou o filho mais novo:

Pai – Aqui está o dinheiro correspondente à tua herança!  Continuas firme na tua decisão de abandonar a casa do teu pai?

Filho – Sim, pai! Já decidi e está decidido. Não volto atrás!

Pai – Então, aqui tens esta bolsa com o dinheiro que te pertence!  Aproveito para te perguntar: E depois, quando o dinheiro acabar?

Filho – Eu sei geri-lo de modo a nunca acabar. Vou comprar e vender, aumentando assim o meu capital. Não quero mais saber desta estúpida vida  de vigiar os servos, transmitir-lhes os teus recados,  transmitir-te os deles, …e nem sequer tenho um salário para gastar a meu gosto!…Vais ver que ainda me vou tornar mais rico e tu não te envergonharás de mim!

Pai – Oxalá seja assim!…Então, filho,  não te vou dizer que espero que sejas feliz, porque… não vais ser! Em qualquer dos casos, se a vida te correr mal,…eu ficarei à tua espera todos os dias e, se decidires voltar para casa, eu cá estarei para te receber com o mesmo amor de sempre e até com mais, porque tu irás precisar de uma dose maior. Um pai é sempre pai e um filho é sempre filho!  Despede-te do teu irmão e depois…vem despedir-te de mim!

Filho – Despedir-me do meu irmão? Para quê? Ele nunca simpatizou comigo!

Pai – Filho, tu também sempre foste agressivo para com ele e também nunca apreciaste as suas qualidades. Sabes que o mal que se faz aos outros recai sobre quem o pratica. Mas agora, pelo que vejo, ficas contente por te veres livre dele!… E dos meus fiéis servos, não te despedes?

Filho – Não! Não vão eles tentar demover-me dos meus propósitos e desatar para ali a choramingar como se me vissem partir num caixão! Assim, quando o souberem, já estarei longe. Despeço-me de ti  e lamento magoar-te, mas o que tem de ser tem de ser! Adeus, pai!

Pai – Adeus, filho!

A partida foi selada pelo pai  com um efusivo ósculo e um apertado e lacrimoso abraço…

E o filho lá se foi, garbosamente montado no seu fogoso cavalo, enquanto o pai subia ao ponto mais alto da sua casa para o seguir com o olhar. Ele o foi seguindo, seguindo… até que uma curva do caminho o escondeu a seus olhos. O coração apertado pelo alicate da mágoa e da angústia era o memorial de uma tragédia não merecida, por parte de um filho a quem só prodigalizara favores e puro amor paternal. Uma planta ficara plantada no âmago do seu coração: a planta da saudade, que iria crescer até não se sabia quando…

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(Continua)

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Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – IV

19 de Agosto de 1917, nos Valinhos, Aljustrel, Fátima

Nas suas Memórias, a Ir. Lúcia refere que esta Aparição ocorreu em 13 de Agosto, mas não deixou de salientar que esta data poderia não ser a data verdadeira, pois já não se lembrava bem. Ficou, porém, demonstrado que houve equívoco da sua parte. O equívoco deveu-se ao facto de naquele  dia 13 de Agosto os Pastorinhos estarem à guarda do Administrador de Vila Nova de Ourém, que apareceu lá por Aljustrel  e, servindo-se da mentira, os raptou, levando-os para V.N. de Ourém. A propósito deste rapto o Ti Marto, pai de Francisco e Jacinta, conta:

“Na manhã do dia 13 de Agosto – era uma segunda- feira – mas eu tinha dado as primeiras enxadadas numa fazendica pouco distante, quando me foram chamar que fosse imediatamente lá a casa. Ao entrar vi que estava lá muita gente de fora, mas isso já não havia que estranhar…lavei as mãos com todo o sossego, peguei num trapo para as limpar e mesmo assim limpando-as é que entrei na sala e dou com os olhos no Administrador.

Ti Marto – Então por cá, Sr. Administrador?

Adm. – É verdade, também lá quero ir ao milagre. Pois vamos lá todos! Levo os pequenos comigo no carro!… Ver e crer como S. Tomé… (Nervoso) Então os pequenos não aparecem ? Está-se a fazer horas. É melhor mandarem-nos chamar!

Ti Marto – Não é preciso que ninguém os convide! Eles lá sabem quando hão-de trazer o gado e aprontarem-se para ir.

Adm. – Ah! Finalmente eles aí vêm. Então, menino e meninas,  vamos já para a Cova da Iria, que eu levo-os no meu carro. Assim poderemos chegar lá mais facilmente, pois hoje deve haver por aí muita gente caminhando para lá!

Lúcia – Nós não queremos ir de carro. Preferimos ir a pé. Além disso, ainda é cedo e a Senhora só no pediu para estarmos lá por volta do meio dia! Muito obrigada pela oferta mas nós não aceitamos a boleia!

Adm. – Mas vós não vedes que é melhor irdes comigo? É que eu também lá quero ir para ver o que por lá se  passa. Sabe-se lá se a Senhora não quer também falar comigo! É que eu também gostava de a ver! No meu carro ninguém vos incomodará com perguntas, pedidos, empurrões, poeirada…

Ti Marto – Não se incomode o Sr. Administrador com isso! Eles lá hão-de ir ter!

Adm. – Pois então vão andando para Fátima, para a casa do Sr. Prior, que quero lá fazer-lhe umas perguntas!  Vamos então todos: os pequenos, o pai da Lúcia e o pai do Francisco e da Jacinta!…

Adm. – Bem, já chegámos à casa do Sr. Prior. Vamos subir! Venha a Lúcia em primeiro lugar!

Ti Marto – Vai lá, Lúcia!…

Prior de Fátima –  Quem te ensinou a dizer aquelas coisas que andas por aí a dizer?

Lúcia –  Aquela Senhora que eu vi na Cova da Iria.

Prior – Quem anda a espalhar tais mentiras, que fazem tão mal, como a mentira que vocês disseram, será julgado e irá dar ao inferno, se não for verdade; de mais a mais que muita gente anda enganada por vocês.

Lúcia – Se quem mente vai para o inferno, então eu não vou para o inferno, porque não minto, e digo só o que tenho visto e o que a Senhora me tem dito. E quanto ao povo que ali vai, só vai porque quer; nós não chamamos  ninguém.

Prior – É verdade que aquela Senhora vos confiou um segredo?

Lúcia – Sim, mas não o posso dizer. Que, se V. Revcia quer sabê-lo, eu peço à Senhora e, se me der autorização, digo-lho.

Adm. – Isso são coisas sobrenaturais. Vamos adiante! …  Vamos embora! Entrai os três na minha charrete, que está ali ao fundo das escadas. Eu levo-vos já à Cova da iria! (1)

Ti Marto – “Os pequenos começaram a descer e o carro, sem eu dar conta, tinha mesmo vindo encostar ao fim da escada. Ora aquilo estava mesmo a jeito e o Administrador, num instante, conseguiu que eles entrassem para dentro do carro. O Francisco pôs-se à frente e as duas cachopas atrás. Estava aquilo tão jeitoso que era uma beleza. O cavalo partiu num trotezinho em direcção à Cova da Iria e eu aliviei-me um tanto, mas ao acolher-se na estrada fez uma reviravolta, e foi chicote por cima do cavalo, que partiu como um raio. Estava bem estudada!…Estava bem armada!…Foi bem feita!…Mas não havia remédio!” (1)

No dia 14 de Agosto as três crianças foram submetidas a um cerrado interrogatório pelo Administrador,  que não conseguiu forçá-las a dizer o segredo, apesar de recorrer a promessas e ameaças. Nem  a promessa de moedas de oiro nem a ameaça de irem parar a um caldeirão de azeite a ferver surtiram efeito. Ficava ainda uma esperança de umas horas na cadeia que os tornassem mais colaborantes com o Administrador. Mas nem isso deu o resultado pretendido.

A Aparição nos Valinhos (19 de Agosto de 1917)

Após os sinais do costume( relâmpagos),  Nossa Senhora esperou que a Jacinta chegasse, para se revelar sobre uma azinheira um pouco maior que a da Cova da Iria.

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

V. MariaQuero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13 e que continueis a rezar o terço todos os dias.

Lúcia – Queria pedir-Lhe para fazer um milagre a fim de que todos acreditem .

V. MariaSim! No último mês,  em Outubro, farei um milagre para que todos creiam nas minhas aparições. Se não  vos tivessem levado à aldeia (Vila Nova de Ourém) o milagre teria sido mais grandioso. Virá S. José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo. Virá também Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores.

Lúcia – O que é que Vossemecê quer que se faça do dinheiro e das outras ofertas que o povo deixa na Cova da Iria?

V. MariaFaçam-se dois andores; um leva-o tu com a Jacinta e outras duas meninas vestidas de branco; o outro leve-o o Francisco com mais três meninos também vestidos de opas brancas. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário.

Lúcia – Queria pedir-lhe por aqueles doentes que…

V. MariaSim, alguns curarei durante o ano. Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.

Desta vez, o Francisco e a Jacinta colheram dois raminhos da pequena azinheira onde Nossa Senhora pousara os seus pés e, deixando a Lúcia a guardar as ovelhas, regressaram muito contentes a casa. À  porta da casa de Lúcia encontraram  D.Maria Rosa dos Santos, mãe de Lúcia.

Jacinta – Ó tia, vimos outra vez Nossa Senhora!…Nos Valinhos!…

D. Maria Rosa – Ai, Jacinta! Sempre vocês me saíram uns mentirosos! Nem que Nossa Senhora lhes vá aparecer agora em toda a banda por onde vocês andam!…

Jacinta – Mas é que vimos. Olhe, tia, Nossa Senhora prantou um pé neste raminho e outro neste!

D. Maria Rosa – Dá-me cá! Deixa ver! (Cheirando) Mas a que cheira isto? …Não é perfume…não é incenso…nem sabonete…cheiro a rosa também não é…nem nada que se conheça…Mas é um cheiro bom! …(Para todos os presentes): Quereis vós também cheirar?…Fica aqui, sempre se há-de encontrar alguém que saiba dizer a que é que cheira este ramo!

À noite:

D. Maria Rosa – Eh! Lúcia, Maria dos Anjos,… quem tirou daqui o raminho?… Ele estava aqui neste vaso!… Será que agora também há ladrões  nesta casa? Não bastam já os problemas do costume?… Lúcia, foste tu que o escondeste?

Lúcia – Ó mãe, eu nem sabia que estava cá um raminho da azinheira! Mas o raminho não é da Jacinta ou do Francisco?

D. Maria Rosa – Realmente!… Hum!…Eu cá  já desconfio!… Quem rouba o que é seu…fica perdoado!… Mas amanhã já tiro isso a limpo!…

Ti Marto – Eu tinha ido nesse dia, à tarde, dar uma volta por umas fazendicas e , ao sol posto, voltei para casa. Quando ia quase a entrar, encontro um fulano meu amigo, que me diz assim:

Fulano – Ó Ti Manel! O milagre já está mais averiguado!

Ti Marto – Cá por mim não sei de nada!

Fulano – Certo que não sabe de mais nada?

Ti Marto – Eu não! Que havera eu de saber mais?

Fulano – Pois fique sabendo que Nossa Senhora apareceu, há um bocado, nos Valinhos, aos seus filhos e à cachopa do Abóbora. Pois olhe que é certo, Ti Manel, e sempre lhe digo que a sua Jacinta tem uma virtude qualquer. Ela não tinha ido com os outros e veio cá um a chamá-la e, só quando ela lá chegou é que Nossa Senhora apareceu.

Ti Marto – Eu encolhi os ombros sem ter palavra que dissesse, mas entrei no pátio a pensar no caso. A mulher não estava em casa; fui andando para a cozinha e lá me sentei. Nisto entra a Jacinta muito contente com um raminho na mão libertando um perfume um inexplicável e magnífico cheiro que eu nem sabia explicar,  assim dum palmo e a dizer-me:

Jacinta – Olhe,  pai! Nossa Senhora voltou a aparecer outra vez à gente nos Valinhos!

Ti Marto – Que é que trazes aí?

Jacinta – É o raminho onde Nossa Senhora pôs os pés.

Cheirei-o, mas o perfume tinha desaparecido. (1)

 .

(1)    Extraído e adaptado de : Pe João De Marchi – Era uma Senhora mais brilhante que o sol –Missões da Consolata, 8ª Edição, pp.156-159 , Fátima, 1966

Ezequiel Miguel

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Jesus visita o Mar Morto

marmorto17Sodoma e Gomorra

(Confira: Génesis 19 e 20)

(Realidade & ficção)

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Citações bíblicas:

1 . “Se um homem se deitar com outro homem, como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um acto abominável. Serão ambos punidos com a morte. O seu sangue cairá sobre eles”(Lev 20, 13).

2 . “Os dois homens disseram a Lot : “…Manda sair desta região os teus genros, os teus filhos, as tuas filhas e todos os parentes que tiveres na cidade. Pois vamos destruir todas estas terras, porque o clamor que se eleva contra os seus habitantes é enorme diante do Senhor e Ele enviou-nos para os aniquilar” (Gen 19, 12-13).

3 . “Erguia-se o sol sobre a terra, quando Lot entrou em Soar. Então, o Senhor fez cair do céu uma chuva de enxofre e de fogo, enviada pelo Senhor. Destruiu estas cidades, todo o vale (de Sedim) e todos os habitantes das cidades e até a vegetação da terra” (Gen 20, 23-25).

O Mar Morto, também chamado Grande Mar, Mar do Sal,  Mar de Lot, Mar da Morte, Mar de Zoar, Mar de asfaltite, Mar de Arava e Mar Oriental, não é algo que sempre tenha existido como hoje o conhecemos, pois, antes da destruição das cinco cidades, era o Vale de Sedim, onde ficavam vários poços de betume natural. Mas, com  a destruição das cidades, o terreno afundou, engolindo as ditas cidades que antes ocupavam aquele vale e a planície  à volta. E ele lá está, a esconder uma horrível realidade, monumento perene, sinistro, maldito, a comportamentos irracionais dos homens, nada menos que a homossexualidade generalizada nas cinco cidades, conforme o relato bíblico apresentado no Génesis: Sodoma, Gomorra, Bela, Bedma e Seboim.

O Mar Morto tem uma superfície de cerca de 1050 Km2, um comprimento de 80 Km, uma largura de 18 Km e uma profundidade de 450 metros abaixo do nível do mar, sendo a mais baixa depressão existente na Terra, com uma tendência para o nível das  suas águas descer.

No fundo do Mar Morto jaz tudo e todos daquilo que eram estas cidades, local de profunda meditação de que não se tira proveito, porque se relaciona com factos esquecidos, incómodos, negados,  camuflados, deformados,  transformados, manipulados, desvalorizados, branqueados, atribuídos a meras causas naturais por investigadores e teólogos racionalistas, que fornecem explicações ridículas para acalmar  mentes graníticas.

Se o que aconteceu a estas cidades tivesse por base uma causa natural, não seria preciso ter ficado relatado no Génesis, assim como o Dilúvio, também negado por muitos, apesar de a Arqueologia ter demonstrado a sua existência.  Se lá ficou, é porque Deus quis dar aos homens uma permanente lição sobre comportamentos altamente pecaminosos e indignos, que hoje, cada vez mais, tendem a ser imitados, com as consequências trágicas que cairão sobre aqueles que os aprovam em teoria ou os praticam.

Este é um tema que não merece a simpatia de ninguém, porque ninguém gosta de o abordar sem arriscar ser alcunhado de ingénuo, infantilmente crédulo. Lê-se e ouve-se dizer que não está provado que tenha sido como a Bíblia relata, que foi apenas um fenómeno natural aproveitado para vincar umas teorias religiosas, umas lições moralistas sem bases sólidas, etc., etc. Também confesso que nunca ouvi nada sobre o assunto nas homilias das missas, tal como não ouvi sobre a existência de Satanás e sua acção, sobre a existência do inferno, sobre os pecados do sexo, sobre o aborto, sobre tudo o que é sexualidade pecaminosa, sobre as seitas, sobre o espiritismo e outras correntes de vida que levam muitos cristãos, impávidos e serenos,  na direcção da eterna condenação.

Mas também há cientistas que afirmam que há testemunhos materiais válidos sobre o que aconteceu nestas cidades que jazem sepultadas e em ruínas no Mar Morto, morto porque o excesso de sal nas suas águas não permite vida aquática.

Cristo foi lá com os Apóstolos e fez-lhes a catequese  a que o local e o destino dessas cidades estavam, e estão ainda, ligados:

Jesus – Eis-nos chegados! Eu conduzi-vos até aqui, para vos mostrar algo que não deve ser perdido de vista e ficará relatado para sempre, tal como o conheceis da Escritura. Este é um mar que cobre os restos do que foram cinco cidades, a uma profundidade de 400 (450?) metros, notáveis pelos piores motivos. Abraão bem implorou misericórdia para elas, mas chegou à conclusão que não mereciam nenhuma misericórdia. A maldição do Senhor caiu sobre elas e lá, no fundo, está ainda o que resta delas. Juntamente com a destruição por fogo e enxofre, vindos de cima e de baixo, ainda dura a outra maldição que impede que a vida volte aqui a nascer. Sabeis certamente qual o pecado que aqui se cometia, um pecado hediondo e indigno da raça humana, em permanente e total desrespeito pelas leis do Senhor, que criou o homem e a mulher, unindo-os de modo indissolúvel, para um fim bem específico: a geração de seres humanos.

 Deus é tolerante e compassivo, cheio de misericórdia e bondade, mas há medidas que os homens  enchem até vazarem, desafiando Deus e as Suas  santas leis. Aqui estão exemplos, tal como o do Dilúvio, para lembrarem aos homens que o desprezo das leis divinas brada ao Céu por severas punições, que, mais cedo ou mais tarde, poderão desabar sobre as cidades que até aos demónios metem nojo. Nas vossas pregações evocai Sodoma e Gomorra e pregai sobre as causas da sua destruição.  O relato  desta tragédia está  na Escritura  e lá estará até ao fim do mundo, para que os homens tenham sempre presente que devem manter a dignidade com que Deus os dotou, a ninguém sendo lícito colocar os Seus santos mandamentos de cabeça para baixo. O homem foi criado pouco inferior aos anjos, foi coroado de honra, glória e nobreza (Salmo  8, 6)) e nele está infundida uma luz que lhe dita o que deve fazer  e o que deve evitar.

Pedro – Mestre, os homens irão sempre acreditar que estas cidades foram destruídas em consequência dos seus pecados?

Jesus – Não! Virão tempos em que os homens, negando a intervenção divina nos acontecimentos humanos, dirão que se tratou apenas de fenómenos naturais e  que a intervenção divina  nem sequer foi necessária. Dirão que havia lá uns vapores, uns fumos, uns borbulhares de águas, etc. Mas, se tudo tivesse acontecido por causas simplesmente naturais, não mereceria ter ficado relatado como está relatado na Escritura nem testemunhado por personagens reais. E Deus também pode servir-se de causas naturais para a realização dos Seus santos desígnios, pois o Senhor, que tudo criou, pode alterar, suspender ou anular as leis que impôs à Natureza. É certo que que havia nesta zona umas camadas de pez entre as placas rochosas, mas foi Deus que lhes atiçou o fogo, que em sua fúria se foi chocar com o fogo que caía directamente do céu. Foi a revolta dos elementos naturais, em choque uns contra os outros, que levou à destruição de uma região que antes fora um pequeno paraíso terrestre, a que vários personagens de Israel ficaram ligados. Era a terra onde corria o leite e o mel, mas a maldade dos habitantes destas cidades levou tudo à destruição. Àqueles que não virem a mão do Senhor em Sodoma e Gomorra lembro que a sua destruição foi previamente anunciada, como está relatado na conversa com Abraão.

João – E a mulher de Lot, que ficou transformada em estátua de sal?

Jesus –  Ela morreu em consequência da sua desobediência à ordem peremptória que lhe foi dada: “ Ninguém olhe para trás!…Aquele que olhar para trás morrerá”! Ela olhou e morreu instantaneamente. O sal que a envolveu e cobriu ficou para lembrar aos homens que aquilo que o Senhor ordena é para se cumprir. O sal conserva e ela passou a ser uma pequena extensão do mar que engoliu as cidades, ficando a ser, para sempre, um memorial à  desobediência da mulher de Lot. Muitos dirão  que já por aqui havia rochedos com formas humanas, mas isso servirá apenas para os incrédulos alimentarem a sua incredulidade. Esta mulher ficou instantaneamente transformada em estátua de sal, o que difere de tudo o que houvesse por aqui.

André –  Mestre,  poderão ter sido destruídas por algo parecido com um vulcão?

Jesus – Na Terra há locais bem definidos para os vulcões, que podem eclodir por causas naturais ou por ordem de Deus, que pode despoletar um em qualquer lugar. Mas a erupção de um vulcão provoca a elevação do terreno, um monte com um grande buraco redondo no centro, a boca do vulcão, por onde saem as chamas, a lava, as cinzas, os vapores, os fumos e os gases. Aqui, não vedes nada disso! Podereis assim tirar as vossas conclusões.

Tiago – Mestre, mas lá no fundo ainda há testemunhos do que foram estas cidades?

Jesus – Há e muitos! O que lá está jaz sob duas camadas: uma, de areias levadas pelo rio Jordão e outra, de sal, num sepulcro com dupla lápide, para que nada do que elas foram transpire cá para fora, em consequência da maldição total que caiu sobre elas. O excesso de sal destas águas conserva muitos materiais que são testemunhas dos acontecimentos. Destas cidades malditas nada ficou à superfície, nem sequer a erva dos campos. Estas águas não alimentam nenhum tipo de vida em seu seio e nem sequer o céu são capazes de espelhar. Assim são as águas negras do pecado.

Tomé – Mestre, além deste local  amaldiçoado, há outros em Israel?

Jesus – Há! Lembro-vos  Endor, local cheio de ruínas, rastejantes, corujas, cobras, lagartos,  lagartixas, ratos, silvas,…por onde as pessoas têm medo de passar. Era lá que vivia a bruxa que o rei Saúl foi consultar, a qual, aliada aos demónios, proferia oráculos. Também vos recordo que o Senhor o fez morrer antes do tempo por causa desse pecado, para que servisse de exemplo a todo o Israel. Algo semelhante se passou com o rei Acazias (=Ocozias).

Simão – E o Templo de Jerusalém? É que me apetece compará-lo a uma toca de víboras!…

Jesus – Não só o Templo, mas a própria cidade! A maior parte de vós ainda viverá quando lá acontecer algo semelhante, mas ainda com a ajuda de milhares de espadas. Esta cidade, este templo e esta geração… pagarão pela rejeição do seu Messias.

 .

Ezequiel Miguel

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O rei David e Betsabé – II

( Confira:  2 Samuel, 12)

O texto bíblico vai a negrito

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BetsabeResumo do episódio anterior:  Depois de ter engendrado eficazmente  um plano para matar Urias, marido de Betsabé,  a fim de esconder o seu adultério e consequências, David fez dela sua esposa.

O Senhor enviou então o profeta Natan a David. Logo que entrou no palácio e se encontrou perante o rei:

Natan – Dois homens viviam na mesma cidade, um rico e outro pobre. O rico tinha ovelhas e bois em grande quantidade; o pobre, porém, tinha apenas uma ovelha pequenina, que comprara. Criara-a e ela crescera junto dele e dos seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do seu copo e dormindo no seu seio; era para ele como uma filha. Certo dia, chegou um hóspede a casa do homem rico, o qual não quis tocar nas suas ovelhas nem nos seus bois para preparar o banquete e dar de comer ao hóspede que chegara; mas foi apoderar-se da ovelhinha do pobre e preparou-a para o seu hóspede.

David (irritado) – Pelo Deus vivo! O homem que fez isso merece a morte! Pagará quatro vezes o valor da ovelha, por ter feito essa maldade e não ter tido compaixão!

Natan – “ Esse homem és tu! E isto diz o Senhor, Deus de Israel:” Ungi-te rei de Israel, salvei-te das mãos de Saúl, dei-te a casa do teu senhor e pus as suas mulheres nos teu braços. Confiei-te os reinos de Israel e de Judá e, se isto te parecer pouco, ajuntarei outros favores. Porque desprezaste a Palavra do Senhor, fazendo o que Lhe desagrada?…Foste tu quem matou Urias, o hitita, por meio da espada dos amonitas! Por isso, jamais se afastará a espada da tua casa…” Eis, pois, o que diz o Senhor:… “Vou fazer sair da tua própria casa males contra ti, pois  tu pecaste  contra Mim, desprezando a Minha Palavra…”

David – Pequei contra o Senhor!

Natan –“ O Senhor perdoou o teu pecado. Não morrerás (por causa disso)).Todavia, como ofendeste gravemente o Senhor com a acção que fizeste, morrerá certamente o filho que te nasceu.…O Senhor feriu o menino que a mulher de Urias havia dado a David com uma doença grave. David orou a Deus pelo menino, jejuou, passou a noite prostrado por terra…Ao sétimo dia morreu o menino…”

Dentro de pouco tempo começou a profecia de Samuel a ser cumprida. Começou pela morte de Amnon, filho de David, por Absalão, filho também de David, mas não da mesma mulher. Em consequência desta morte, David perseguiu Absalão e estabeleceu-se inimizade entre ambos. Absalão manda deitar fogo a uma seara de Joab, seu irmão. Pouco tempo depois, uma vez goradas as ocasiões de conciliação entre David e Absalão, este comprou um carro, cavalos,  e arregimentou uma escolta pessoal de cinquenta homens. Tendo já em mente preparar uma revolta militar contra o rei David e usurpar-lhe a coroa, Absalão começou a denegrir o rei e a maneira como administrava a justiça, pretendendo assim ganhar adeptos para a sua causa. “Absalão  estendia a mão, amparava e beijava todos os que passassem pela porta da cidade para procurar o rei por motivos de justiça.”

Após quatro anos preparando a intentona e aumentando o número dos seus sequazes, David achou melhor abandonar a cidade, em direcção ao deserto, antes que surgisse Absalão e o depusesse pela força. Absalão ocupou mesmo o palácio de David e autoproclamou-se o legítimo rei. Na fuga, um homem insultou David, lembrando-lhe que merecia o que lhe estava a acontecer, por ser um homem sanguinário:” O Senhor fez cair sobre ti todo o sangue da casa de Saúl, cujo trono usurpaste, e entregou o reino a teu filho Absalão. Vês-te, agora, oprimido de males, por teres sido um homem sanguinário” (2 Sam 17, 8). O homem continuou, por largo tempo, a amaldiçoá-lo e a insultá-lo, sem que David desse ordens para o matarem, pois aceitou tais atitudes como um dos castigos merecidos que Deus lhe enviava.

 Finalmente, os dois exércitos defrontaram-se, primeiro em escaramuças, e depois mais a sério. O resultado final foi a morte de Absalão, que acabou por, na fuga  sobre uma mula, ficar preso e suspenso, pela bela e farta cabeleira, num ramo de frondoso carvalho, o que facilitou a vida a um comandante do exército de David, que facilmente o atravessou com a lança, matando-o, o que se verificou contra as ordens de David, que proibira que alguém o matasse. Assim morreu o terceiro filho de David, Absalão, o homem com o rosto e a cabeleira mais belos em todo o Israel, segundo a Bíblia. Após a profecia de Samuel, David passou o resto dos seus dias em amargura, aceitando tudo em expiação pelos seus pecados de adultério e de assassino  mandante do general Urias, marido de Betsabé. O salmo 50 dá conta do seu arrependimento e, através dele, a Igreja convida-nos a recitá-lo com a mesma compunção de que David deu provas.

 No fim de contas, David foi grande na arte da música, na literatura, na política, na realeza, no pecado, na penitência, no sofrimento, na expiação, na santidade, e foi da sua descendência que nasceram S. José, a Virgem Maria e Jesus Cristo. Salmos e Hinos, que a Bíblia regista, reflectem a sua sensibilidade poética. Hoje, que se perdeu a noção do pecado, coisa que para muitos já não existe ou nunca existiu, a vida de David dá que pensar e mostra como o pecado de um só homem teve tamanhas consequências para ele, para os filhos e para a sociedade, tudo traduzido em guerras, revoltas, mortes de civis e de  militares que nada tinham a ver com as asneiras de David. A Igreja ensina que as consequências do pecado podem ser individuais, sociais e colectivas, equivalendo a dizer que o pecado vai contra quem o pratica, contra o próximo e contra Deus, com consequências imprevisíveis. Assim o demonstra a Bíblia, que, em cada página nos dá uma mensagem para cada homem e para todos os tempos. Isto, claro, para quem a souber ler!

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Ezequiel Miguel

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