O golpe de Judas

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Jesus Cristo

. Judas Iscariotes

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Judas24Judas frequentava o Templo de Jerusalém e convivia de perto com os sacerdotes, os escribas e os fariseus, tendo muitas amizades entre eles. Possivelmente, seria um estudante de teologia e um candidato a doutor da Lei. A sua figura imponente, esbelta, ricamente vestida, era de molde a chamar a atenção por onde passava. Tinha fama de se insinuar facilmente junto das donzelas de Israel, às quais prometia união de casamento, mas depois…abandonava-as, para ir recomeçar com outra. Em certas aldeias próximas de Jerusalém já tinha a cabeça a prémio.

Ele não desconhecia as profecias sobre o Messias e, como muitos outros, aguardava os sinais do Sua presença próxima. Mas ele, tal como todas as autoridades religiosas do povo judeu, era também uma vítima das circunstâncias políticas que se tinham abatido sobre Israel, após a invasão e ocupação do território pelo exército romano. Assim, o que se precisava era realmente de um Messias que viesse restaurar a Monarquia e a independência de Israel e o ambiente não era nada favorável para se aceitar um Messias conforme as profecias das Escrituras o apresentavam.

Um dia, Cristo entrou no Templo, fez a Sua pregação, apresentou-se como o Messias e confirmou o Seu poder com uma estrondosa cura. Entre os assistentes estava Judas, que mediu Cristo de alto a baixo, as  Suas palavras, os Seus gestos, o Seu poder e autoridade com que falava e agia. Tinha que ser mais que um profeta, para fazer o que fazia e dizer o que dizia e como o dizia!

A cabeça de Judas começou então a girar, a calcular, a especular, a sonhar…Ele não foi daqueles que atribuiu a Cristo poderes conferidos por Satanás. Ele viu mais longe e não demorou muito a tirar todas as conclusões : Ele era o Messias que vinha para restaurar o Reino de Israel, há muito ocupado pelos Romanos. Judas também já sabia que Cristo andava a escolher discípulos para o acompanharem na Sua missão. Na visão de Judas, estes seriam os futuros ministros do Messias, o futuro Rei de Israel unificado. Ele próprio não poderia ser um deles? Se outros podiam!… E não demorou a gizar um plano para se encontrar com Jesus de um modo discreto, para uma conversa a sós. E encontrou-O, após muitos esforços nesse sentido:

Judas – Salve, Mestre! Encontro-Te, finalmente! Estou farto de andar à Tua procura!

 Jesus – Quem és tu, que tão distintamente te apresentas?

Judas – Sou Judas de Simão, natural de Keriot. Estou no Templo e vivo sonhando com o Rei dos Judeus. Da análise que eu já fiz de Ti, esse Rei és Tu. Aceita-me como Teu discípulo! Penso que ainda vou a tempo de me candidatar, pois vejo-Te rodeado de poucos!

Jesus – Aceitar-te, assim sem mais nem menos? Não! Não pode ser assim! Isso exige estudo, tempo, decisões firmes e inabaláveis, recta intenção, coragem, constância, humildade, …e muito mais!

Judas – Não acreditas que Te peço isso com sinceridade? Eu já pensei muito sobre este passo, por isso, não considero que seja leviandade da minha parte.

Jesus – Judas, Eu vejo em ti apenas impulsos momentâneos que se esvaem como o fumo quando o fogo se apaga. Pensa nisso até Me encontrares de novo! Brevemente poderás encontrar-Me. Nessa altura falaremos!

Passado algum tempo, Judas volta a encontrar Jesus num espaço aberto do Getsémani, num ambiente de oliveiras:

Judas – Salve, Mestre! Sou Judas de Keriot, aquele que Te pediu para o aceitares como Teu discípulo. Não Te lembras?

Jesus – (Nada entusiasmado)  Lembro! Vieste ter comigo há pouco tempo!

Judas – Então, aqui estou eu de novo. Segui a Tua sugestão de pensar, meditar, pesar os prós e os contras…e já decidi. Quero mesmo que me aceites no Teu grupo!

Jesus – E quais os motivos que te levam a querer?

Judas – Eu repito o que disse da outra vez:  Eu vejo em Ti o Rei do futuro Reino de Israel. Nada mais natural que eu queira estar a Teu lado nesta missão de restaurar o Reino de Israel!

Jesus – São então esses os motivos?

Judas – São! E acho que são motivos nobres! Ponho-me ao Teu serviço, juntamente com os meus bens, as minhas capacidades, os meus conhecimentos, amizades, trabalhos, etc.

Jesus – Vejo que és um homem ambicioso, um sonhador, um exaltado…Mas Eu não te procurei, não te chamei nem te convidei!

Judas – Mas eu, pelo contrário, procurei-Te por todo o lado e até recorri a espiões para me informarem do Teu paradeiro.

Jesus – Pensas que terá sido algo de bom para ti encontrar-Me?

Judas – Claro! Se eu Te procurava, foi bom encontrar-Te!

Jesus – E porque Me procuravas?

Judas – Obrigas-me a dizer outra vez? Vejo que não me compreendes!

Jesus – Eu compreendo-te, mas também quero que Me compreendas, antes de Me seguires por todo o lado. Eu devo esclarecer-te que as tuas ideias sobre Mim, o Messias, estão erradas. Eu não vim ao Mundo para cumprir o plano que tens na cabeça, nem coisa que se pareça!

Judas – Mas não és Tu Aquele que as Escrituras apontam como o Rei dos Judeus, Aquele de que falaram os profetas? Tu manifestas todos os sinais do verdadeiro Messias: Falas e ages como Deus, Deus está em Ti e Tu estás em Deus, operas milagres, conheces o passado, o presente e o futuro, és santo! Ora, onde Deus está e actua  há sucesso garantido! Por isso, não sei o que é que receias. Se as Escrituras profetizam tudo a Teu respeito, como é que podes trair a missão que Te foi confiada de libertar o povo da escravidão, como está escrito? É neste sentido que eu quero fazer algo pelo nosso povo, colocando-me a Teu lado no trabalho e na glória que advirá para o povo de Israel.

Jesus – Judas, tu deliras no teu sonho! Advirto-te que aquilo  que Me está reservado não é um bonito sonho, melhor dizendo, é um bonito sonho, mas pelo meio há um tremendo pesadelo. O meu Reino não é deste mundo. O que Eu trago a Israel não é a glória  mundana nem a luz da ciência mundana. Eu venho instaurar uma nova ordem meramente espiritual, fazer de todos os pecadores novos santos e abrir-lhes as portas da Vida Eterna. Neste novo Reino de Paz e Amor, não há lugar para ódios, rancores, vaidades, ambições mundanas, crimes, desonestidades, roubos, divórcios, luxúrias, vinganças, guerras, invejas, acumulação de riquezas, avareza,… A Minha missão é salvar almas, conquistando-as a Satanás, arrancar-lhas através do arrependimento e dos novos meios que Eu venho estabelecer para a Salvação Eterna. Não vim para fundar  ou conquistar reinos mundanos. Que lugar quererás tu no Meu Reino, onde, em vez de glória, prestígio, louvores, recompensas materiais,…te estarão guardadas fome, sede, pobreza, honestidade, santidade, humilhações, perseguições e, no fim, uma injusta sentença de morte por causa do meu Nome? Sendo assim, não tenhas ilusões! Eu não libertarei o Povo do poder de Roma, nem lutarei contra César e se Eu já vim a este mundo sob o domínio de César, também o deixarei sob o seu domínio. Não serei um chefe político e não aceito ninguém imbuído dessas ideias. Por isso, Judas, é melhor ponderar estas coisas, antes de insistires.

Judas – Queres então  dizer  que me rejeitas!

Jesus –  Serei Eu que te rejeito ou serás tu que te rejeitas? É por Amor que te mostro as desvantagens que te circundam. É por Amor que eu digo a alguém que o remédio que vai tomar é veneno mortal. É por Amor que eu digo a um inocente que não tome aquele veneno, que pode destruí-lo, arruinar a sua saúde ou matá-lo.

Judas – Bem! Penso que estás a exagerar! Eu poderei envenenar-me ou arruinar a minha saúde se andar Contigo? Não acredito nessa! Dizes isso para me convenceres a não teimar no pedido que Te faço, porque, está visto, não me queres aceitar. Mas aceitas outros, que já andam Contigo e que são muito inferiores a mim em condição social, cultura, conhecimentos, influência, riqueza. Já contei seis que andam Contigo por todo o lado…Vais buscar pescadores, ladrões, cobradores de impostos, artífices,… todos uns Zés-Ninguém e até um ex-leproso que Tu curaste. Que queres Tu fazer com essa gente? Eu não reunirei melhores créditos do que eles para ser seleccionado? Não sei porque embirras comigo! Nunca Te fiz mal nenhum e só desejo fazer-Te Bem, ajudando-Te na Tua missão de Messias de Israel!

Jesus – Judas, desiste do teu pedido! Tu arruinarás não só a saúde, mas até a vida do corpo e da alma. Tu conviverás com o Santo, mas tornar-te-ás Seu inimigo e, como tal, virás a ser um dos Seus inimigos, um assassino!

Judas – Assassino, eu? Só essa me faria rir! Acaba lá com esses argumentos ocos e admite-me! Se és o Salvador, como confessas que és, não podes rejeitar-me, porque eu também sou pecador e preciso de ser salvo e, se Tu és a Salvação, como podes rejeitar-me? Isso não é próprio de um Messias Salvador! Não vieste Tu para as ovelhas perdidas de Israel, como está escrito e Tu dizes? Então, eu sou uma dessas ovelhas perdidas, logo, não podes rejeitar-me! Eu vou ser-Te fiel até à morte! Não tenhas receios a meu respeito! Não Te desiludirei!

Jesus –(Triste e pensativo) Sim!… Sim!…Até à morte!…Até à morte!…Depois!…

Judas – Em que estás a pensar, Mestre? Não entendo esses silêncios!

Jesus – Judas, insistes?

Judas –Ainda me perguntas? Como não insistir? É isso que eu quero, custe o que custar!

Jesus – (Suspirando, triste e abatido) Assim seja!… Entrego-te à  misericórdia de Deus! Que Ele  esteja contigo e te proteja!

Judas – Obrigado, Mestre. Nunca lamentarás a tua decisão!

Jesus – (Desanimado) Sim, Judas!…

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Considerações:

  1. Judas comete aqui vários erros em juízos, afirmações, atitudes, palavras…, mas o seu erro principal e que está na base de todos os outros é a sua falta de recta intenção, ao apresentar-se a Cristo para O seguir. Não se pode tentar servir a Deus a pensar em recompensa material, porque Deus não  dá valor a esse serviço, que visa apenas glória e prestígio pessoais.
  1. Judas não mostra ter a sabedoria própria dos humildes e dos santos, os quais penetram fundo nas mensagens da Bíblia e extraem dela o verdadeiro sumo do que lá está, contrariamente a outros que se ficam pela rama e acabam por denegrir ou deturpar a Verdade que está por baixo ou dentro da palavra escrita. Foi assim que ele acabou por ver no Messias o Rei mundano que Israel precisava para expulsar os Romanos.
  1. Judas, em toda a conversa com Cristo, sempre revela uma flagrante grosseria e falta de delicadeza para com o Mestre, tratando-O de igual para igual, discutindo de igual para igual e tornando-se até agressivo em sua argumentação.
  1. Judas revela uma boa dose de soberba, atrevendo-se até a censurar atitudes de Cristo e a dar-Lhe conselhos quanto ao que devia fazer ou devia evitar.
  1. Judas sempre se mostra um auto-convencido, um arrogante, um homem cheio de sonhos coloridos de grandeza e glória mundanas e nesses sonhos insiste e persiste, apesar de Cristo lhe mostrar que eram sonhos loucos de loucura humana.
  1. A sua soberba fá-lo insistir teimosamente na viabilidade do seu plano, apesar de o Mestre lhe demonstrar que seria a ruína do seu corpo e da sua alma.
  2. Apesar de ver em Cristo o Messias,  Judas menospreza os Seus conselhos, encarando-os como desculpas idiotas e preconceitos engendrados propositadamente para rejeitar a sua candidatura a integrar o colégio apostólico.
  1. Ao recusar os conselhos e a argumentação de Cristo, Judas tenta praticamente colocar-se numa posição superior ao próprio Senhor, invertendo as posições para fazer valer os seus argumentos.
  2.  Judas usa de chantagem ao forçar a sua admissão, acusando Cristo de ser o culpado, caso ele (Judas) venha a condenar-se, se Cristo o recusar, fingindo até ser uma das ovelhas perdidas de Israel que também precisa de ser salva, mas só será salvo se o Messias o admitir. Argumentos engendrados na mentira e na hipocrisia.
  1. Judas actua como um cego a quem se aponta que vai por um caminho que leva à morte, mas que, mesmo assim, confiando em si próprio e nos seus talentos, avança a qualquer custo para um suicídio certo.
  1. Judas mostra não confiar nos prognósticos de Cristo a seu respeito, o que equivale a considerá-Lo um adivinho, um charlatão, uma pessoa pouco ou nada credível em seus diagnósticos e prognósticos.  Mais tarde, já perto da Paixão de Cristo, Judas acusá-Lo-á de ter arruinado a sua vida, por não ter concretizado o seu (de Judas) plano, recusando assumir a mínima culpa dos seus actos.
  2. As lições de Judas são pela negativa, mas também podemos aprender muito com elas, pois, se com Cristo aprendemos o que e como se deve fazer, com Judas aprendemos o que não devemos fazer.
  3. Há quem pense (e até há livros e filmes sobre isso) que Judas foi mais uma vítima do que um criminoso, porque, segundo as teses apresentadas, já estava escrito e profetizado que ele seria o traidor do Messias. É verdade que o Antigo Testamento aponta um traidor, mas não revela o seu nome, logo, não teria necessariamente que ser Judas.  Consta: “Até aquele que comia comigo à mesa …me traiu” (Salmo 41,9).  No Novo Testamento, Cristo disse: “ Dos que me deste, nenhum se perdeu, a não ser o filho da perdição” (Jo 17,12); “A esse, que vai trair o Filho do Homem, melhor lhe fora não ter nascido”. (Mt 26,24)
  4. Há quem pergunte: Se Deus sabia quem era o homem que trairia Cristo, porque não o impediu ou porque permitiu que ele nascesse? Ou porque não o converteu? Judas tinha mesmo que trair Cristo, uma vez que estava escrito que ele o trairia?
  5. Convém ter ideias claras sobre questões confusas. A explicação para questões aparentemente inexplicáveis está na liberdade individual e na vontade soberana que Deus concedeu ao ser humano, tanto para o Bem como para o Mal. Deus não interfere nas leis da Natureza, nas leis da Física ou da Química, nas leis genéticas que presidem à individualidade de cada ser humano, embora possa fazê-lo, como no caso da gravidez da Virgem Maria. Deus não impede o nascimento de um futuro criminoso, mesmo de um homem que vai trair o Seu próprio Filho, como foi o caso de Judas. Cristo não precisava de um traidor para ser morto, porque mais cedo ou mais tarde o Sinédrio apanhá-Lo-ia quando Cristo decidisse que estava na hora. Ele próprio disporia as coisas e se entregaria, pois viera para isso.
  6. Convém não esquecer que para Deus tudo é presente e, como omnisciente que é, sabe tudo, conhece tudo aquilo que para nós está contido no passado, no presente e no futuro. Mas, apesar de saber o que cada ser humano vai ser durante a sua vida terrena, em consequência do bom uso ou do mau uso da sua liberdade e da sua vontade, Ele não pode ser culpado de não impedir o curso normal e o percurso natural que os seres humanos seguem em consequência das suas opções tomadas livremente.
  7. Em vista do que fica dito, qual o pecado de Judas, no final de contas? Foi ter arquitectado um plano e tentado sobrepo-lo ao plano de Deus, não olhando aos meios para conseguir desonestamente atingir os seus objectivos. Pelo meio ficaram pecados de soberba, orgulho, mentira, hipocrisia, ambição desonesta, roubo, luxúria, espiritismo, calúnia, cólera, inveja, agressividade verbal, desesperação de salvação e impenitência final (pecados contra o Espírito Santo), falta de respeito a Cristo, conspiração, traição, etc. Mas de Cristo ele não tinha razões válidas para se queixar, porque foi aconselhado e, no fim, também Cristo fez tudo para que ele se convertesse. Tudo em vão!
  8. Como consideração final, pergunta-se: Sabendo Cristo onde Judas iria parar, porque acabou Ele por ceder às suas pressões no sentido de ser admitido? A resposta tem a ver com  esta outra questão: Se Cristo tivesse rejeitado Judas e este, como deu a entender, tivesse entrado nos caminhos do mal, ou por vingança ou por outro motivo qualquer, e se condenasse, não poderia Cristo ser acusado de ter discriminado Judas e ser o causador da sua condenação? Tendo aceitado Judas, Cristo transferiu para ele (Judas) toda a responsabilidade e aguentou o ter de lidar com ele, que, a pouco e pouco, se ia transformando num demónio, até se transformar totalmente e se suicidar. Cristo não chorou somente por Lázaro e pelo futuro de Jerusalém, mas também chorou, e mais do que uma vez, por causa de Judas, ao sentir-se impotente para levá-lo a mudar e converter-se de vez. As lágrimas da Mãe de Jesus também não foram suficientes.

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

. Última tentativa de Cristo para salvar Judas.

. O contrato de Judas com o Sinédrio

. E Judas foi enforcar-se

. A Ceia da despedida

. Manhas e artimanhas de Judas Iscariotes.

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O bezerro de ouro

( Cf.Êxodo 32 // Deut. 9)

(Realidade & ficção)

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Personagens :

. YAHWEH = EU SOU AQUELE QUE SOU

. Moisés

. Aarão

. Josué

. Israelitas

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bezerroTendo Moisés sido chamado ao Monte Sinai ( da cordilheira do Horeb), no deserto, após a travessia do Mar Vermelho,  o povo ficou acampado cá em baixo, na base do monte, com expressa proibição de alguém tentar subir lá acima, sob pena de morte. E Moisés por lá ficou durante 40 dias e 40 noites, sem comer nem beber, de onde regressou com a Lei que Deus escrevera a fogo nas duas tábuas de pedra.

Entretanto, na ausência prolongada de Moisés,  alguém começou a semear a dúvida sobre o seu destino, destino esse que ninguém poderia investigar subindo ao monte, porque tal atrevimento implicava a morte para quem se atrevesse.  Havia  mesmo um espaço delimitado em volta do Monte, para que ninguém o ultrapassasse, uma vez que todo ele estava entregue à presença e à Glória de Yahweh.

Enquanto Moisés vai a custo subindo,  uma sensação estranha o vai invadindo naquele silêncio não interrompido por nada nem ninguém. A certa altura:

Moisés – O que é aquilo? Um silvado a crepitar por fogo, mas sem cheiro, sem fumo, sem labaredas, sem faíscas…Estranho! Vou aproximar-me mais e ver de perto o fenómeno! Nunca vi uma coisa assim! É fogo, mas não queima, não provoca cinzas, não destrói!

Yahweh – Moisés, Moisés! Tira as sandálias, porque o lugar que pisas é santo!

Moisés – Mas…quem sois vós, Senhor?

YahwehEU SOU AQUELE QUE SOU! Eu sou o Senhor,  vosso  Deus,  que vos tirou do Egipto, da casa da escravidão. Vou fazer com o Meu Povo uma Nova Aliança, como fiz com Abraão, Isaac e Jacob. Vou gravar na pedra o essencial da Minha Lei, que lhe transmitirás, dizendo que não são leis humanas, mas divinas, não inventadas por ninguém. Logo que lhas transmitas ficarão de imediato promulgadas e em vigor para sempre…..

Entretanto, no acampamento:

1º Israelita –  EH! Amigos!  Quem sabe por onde andas esse Moisés?  Há tanto tempo que subiu ao monte!…Que será feito dele?

2º Israelita –  Já deve ter sido comido por alguma fera e dele  também nem os ossos encontraremos, uma vez que estamos proibidos de ir em busca dele!

3º Israelita –  Se não foi morto por uma fera, já deve ter morrido à fome ou à sede, porque não levou nada para sobreviver!

4º Israelita – Eu cá não acredito naquilo que ele disse. Ele disse que ia lá acima para falar com o Senhor, mas, se Yahweh tivesse alguma coisa para lhe dizer, porque haveria Ele de o chamar lá no alto? Podia revelar-se a ele na sua tenda ou  junto da Arca da Aliança.

5º Israelita – Bem vistas as coisas, também não precisamos dele!  Vamos fabricar um deus do Egipto e festejar o fim da história de Moisés, agora que já nos livrámos dele.

6º Israelita – Boa ideia! E como faremos para fabricarmos o deus?

7º Israelita – Vamos de tenda em tenda e pedimos ouro às mulheres: braceletes, brincos, argolas, medalhões. Penso que conseguiremos juntar o suficiente.

8º Israelita – E quem nos autorizará, uma vez que  de Moisés não há rasto?

9º Israelita – É fácil! Vamos ter com Aarão, o irmão do Moisés!

10º Israelita – E acreditais que ele fará isso? Isso será uma traição a Moisés!

11º Israelita – Ameaçamo-lo, se  ele não assumir a responsabilidade. Se o Moisés aparecer, terá que se entender com ele e ele com Moisés. Assim, ficamos nós livres de qualquer punição, porque,…nunca se sabe o que poderá acontecer…Vamos então até ele!…

12º Israelita – Aarão,  na ausência do teu irmão, és tu que nos orientas. Vimos aqui para nos ajudares num projecto! Pedimos-te que dês instruções ao povo no sentido de entregar peças de ouro para fundirmos um bezerro. Queremos fazer uma festa para esquecer estas agruras e estas ansiedades em que vivemos. Tu sabes como temos saudades do Egipto e estamos cansados desta vida de nómadas no deserto! Vê lá! Tens  de colaborar connosco e estamos dispostos a tudo se não colaborares!

13º Israelita – “Vamos! Façamos para nós um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos persuadiu a sair do Egipto, não sabemos o que terá acontecido”(Ex 32,1)

Aarão “ Tirai as argolas de ouro das orelhas das vossas mulheres, dos vossos filhos e das vossas filhas e trazei-mas!”

“Eles tiraram as argolas que tinham nas orelhas e levaram-nas a Aarão. Recebeu-as nas mãos deles, deitou-as num molde e fez um bezerro de metal fundido. Então, exclamaram: “ Israel, aqui tens o teu deus, aquele que te fez sair do Egipto.” Vendo isto, Aarão construiu um altar diante do ídolo e disse em voz alta: ”Amanhã haverá festa em honra do Senhor”. No dia seguinte de manhã, ofereceram holocaustos e sacrifícios de comunhão. O povo sentou-se para comer e beber e depois levantou-se para se divertir” ( Ex 32, 3-6)

Então, o Senhor disse a Moisés:

Yahweh –“ Vai, desce depressa, porque o teu povo, que tiraste do Egipto, corrompeu-se. Bem depressa se afastaram do caminho que Eu lhes prescrevera, fabricaram um bezerro de metal fundido e adoraram-no, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: “Este, ó Israel, é o teu deus que te tirou da terra do Egipto. Eu observei este povo e eis que é um, povo de dura cerviz. Deixa que se acenda a Minha ira contra eles e os consuma; de ti, porém, farei uma grande nação! “( Ex 31 ,7-11).

Moisés – Mas, Senhor,  ides destruir todo o meu povo quando só alguns fizeram o que acabas de dizer? Perdoa-lhes, Senhor, e castiga-me a mim, mas salva o Teu povo, que , em sua maioria,  Te aceita como  seu Deus e Senhor! “Por que, Senhor, se acenderia o vosso furor contra o meu povo, que tirastes da terra do Egipto com mão forte e braço poderoso? Não convém que se possa dizer no Egipto: Foi com má intenção que Ele os fez sair  para os matar nas montanhas e suprimi-los da face da Terra! Não te deixes dominar pela cólera e abandona a decisão de fazer mal a este povo. Recorda-Te de Abraão, de Isaac e de Israel (Jacob), teus servos, aos quais juraste por Ti mesmo: tornarei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e concederei à vossa posteridade esta terra de que falei, e eles hão-de recebê-la como herança eterna”. (Ex 32, 11-14)

Moisés – (Descendo  do monte com as duas tábuas da Lei e ouvindo o ruído…) –   O que ouço eu? Parece uma festa…Que motivos terão eles para festejar? Também ouço  música e tambores!

Josué Este barulho de batalha vem do acampamento!

MoisésNão são gritos de vitória nem gritos de derrota. O que oiço  são vozes de gente a cantar.

“Ao chegar junto do acampamento, Moisés viu o bezerro e as danças. Acendeu-se a sua cólera, atirou com as tábuas e partiu-as ao pé do monte. Depois, agarrando no bezerro que tinham feito, queimou-o e reduziu-o a pó fino, que espalhou na água. E deu-o a beber aos filhos de Israel” ( Ex 32 19-20)

MoisésAarão, que te fez este povo para o deixares cometer um tão grande pecado?

Aarão“ Que o meu senhor não se irrite. Tu próprio sabes como este povo é inclinado para o mal. Eles disseram-me: Faz-nos um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos fez sair do Egipto, não sabemos o que lhe terá acontecido. Eu disse-lhes: quem tem ouro? Despojaram-se dele e entregaram-mo; lancei-o ao fogo e saiu este bezerro” .(Ex 32,22-24)

Moisés – Acompanha-me até à entrada do acampamento!…Filhos de Israel, quem é pelo Senhor, junte-se a mim!

Aarão – Estou a ver!  Aí tens todos os filhos de Levi, os da nossa tribo!

Moisés –“ Filhos de Levi, o Senhor, o Deus de Israel, diz o seguinte: Cinja cada um de vós a espada sobre a coxa. Passai e tornai a passar através do acampamento, de uma ponta à outra, e cada um de vós mate o irmão, o amigo e o vizinho!” ( Ex 32 ,27)

“Os filhos de Levi fizeram o que Moisés lhes ordenara, e cerca de três mil homens morreram nesse dia, entre o povo. Moisés disse: Consagrai-vos desde hoje ao Senhor porque, sacrificando o vosso filho e o vosso irmão, atraístes hoje sobre vós uma bênção”. (Ex 32, 29)

Oração de Moisés – No dia seguinte, Moisés disse ao povo:” Cometestes um enorme pecado. No entanto, vou subir para junto do Senhor. Talvez alcance o perdão para o vosso pecado. “ Moisés voltou para junto do Senhor e disse: “Ah, este povo cometeu um grande pecado. Fizeram para si um deus de ouro. Apesar disso, perdoa-lhes este pecado, ou então apaga-me do livro que escreveste!

“O Senhor disse a Moisés:” Apagarei do meu livro aquele que pecou contra mim. Vai agora e conduz o povo para onde Eu te disser. O meu anjo caminhará diante de ti, mas no dia da prestação de contas, puni-los-ei pelo seu pecado”.

O Senhor castigou o povo, por ter instigado Aarão a fazer o bezerro. ( Ex 31,30-35)

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Considerações :

  1. O povo de Israel era a concretização da promessa feita a Abraão de que ele seria o pai de uma numerosa descendência, à qual seria dada uma terra de prosperidade e bem estar. Mas Deus serve-se dos homens, daqueles que Ele escolhe, para realizar na Terra os Seus planos, os quais se vão realizando condicionados pela aceitação ou rejeição por parte daqueles que ficam envolvidos neles.

Moisés e seu irmão Aarão, da tribo de Levi, foram os escolhidos para conduzir o seu povo a partir do Egipto, pondo fim a uma escravidão de quatro séculos. Este povo pôde admirar como Deus os libertara do faraó com inúmeros milagres, como lhe abriu passagem através do Mar Vermelho, como o protegeu e livrou do exército do faraó, como o conduzia de noite por uma nuvem luminosa e de dia por uma nuvem que lhes servia de guia e de local de paragem para montarem o acampamento, como transformara em água potável um poço de águas sujas, etc. No entanto, se a maioria tinha olhos para ver, fé para crer e esperança  em melhores dias, outros entraram pela via da murmuração, da rebelião,  da perda da fé  em Deus, caindo na aberrante ideia de pedir (exigir?) a Aarão um deus de metal fundido. Não se compreende como o homem, dotado de razão e inteligência, pode cair tão baixo, ao ponto de lhe prestar culto e proclamar: “Este, ó Israel, é que é o teu Deus, que te fez sair do Egipto!”

  1. Será para admirar? Sim e não! O ateu, o que esquece ou não conhece o Deus verdadeiro, está sujeito a tudo, até a ver deus num bezerro de metal ou em outras criaturas, pessoas, animais ou coisas. Convém não esquecer que este povo, enquanto esteve no Egipto, vivia num ambiente de idolatria generalizada, não lhe sendo fácil manter-se afastado das práticas pagãs dos cidadãos do Egipto. Daí, a constante advertência de Deus e de Moisés contra as tentações de ver, fabricar ou adorar divindades concretas, esquecendo o Deus invisível que apenas se manifestava através de Moisés e dos milagres quer ia fazendo diariamente.

É o problema da Fé, ontem, hoje e sempre, num Deus que continua e continuará tão invisível como antes. A Fé é a capacidade de ver para lá do visível, requerendo a adesão voluntária da inteligência e das práticas correctas e obrigatórias  que a alimentam. O homem que não tem Fé caminha pela vida às cegas, não descobrindo o que ele próprio é, de onde vem e para onde vai! Quando o descobrir, logo após a morte, é tarde demais!

  1. Após os pecados em que o povo incorria, Moisés não se poupava a interceder por ele, tentando e conseguindo acalmar a ira de Deus, oferecendo-se mesmo para entregar a sua vida em troca do perdão que implorava para o seu povo. Pode ver-se aqui quanto vale a oração de um santo, de um amigo de Deus, de alguém que aceita uma “missão impossível”. É certo que Deus perdoou ao povo, mas não perdoou àqueles que promoviam a revolta, a murmuração, a idolatria, as saudades do Egipto e que tentavam abater a fé daqueles que se mantinham fiéis aos desígnios de Deus, transmitidos por Moisés. Fossem poucos ou fossem milhares, Deus ia varrendo toda a fruta podre no seu povo, para que o resto não apodrecesse também, numa pedagogia que se podia resumir a “ exterminar uns quantos para salvar o maior número possível”. Será caso para acusar Deus de violento, injusto, cruel, etc.? Qualquer general ou oficial faria o mesmo numa batalha, se visse que essa era a solução menos drástica, com menor número de baixas.

E a morte de inocentes, como as mulheres, as crianças, os animais,.. daqueles que foram de imediato executados em punição pelo seus pecados?  Terão sido inocentes, mas o pecado de um chefe, de um governante, de uma autoridade,…arrasta consequências funestas, não só para aqueles que os cometem, mas para  os familiares e a sociedade em geral, tal como numa guerra, em que morrem muitos que não têm culpa, aparente ou real.

  1. A murmuração – é um dos pecados da língua. Murmurar está na raiz da palavra murmúrio, tendo a ver com comentar em surdina, baixinho, ao ouvido, sussurrar, falar em segredo…,sobre a vida ou episódio da vida de alguém, emitindo normalmente juízos e opiniões desfavoráveis, entrando assim na difamação ou na calúnia, quando se espalham falsidades que o murmurador toma por verdades. É triste, mas não deixa de ser verdade: Normalmente temos a tendência para denegrir a vida alheia e raramente somos capazes de admirar ou referir as suas qualidades e bons serviços, porque caímos na crónica hipocrisia de ver no olho dos outros um argueiro e não vermos no nosso um barrote, uma trave, um milhão de vezes maior…Faz parte da nossa psicologia: afundarmos os outros para  tentarmos elevar-nos a nós próprios. Não esqueçamos que a murmuração acaba por ser também um pecado contra a caridade, porque prejudicamos o próximo. Parafraseando Cristo: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça,  e quem tem sabedoria para entender, entenda!

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 Ezequiel Miguel

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. Shemá, Israel! – I

. Shemá, Israel ! – II

. Maledicência, murmuração e duplicidade

. Insultos, injúrias, ofensas…por palavras

. Salmo 94(95) – Hoje se escuitásseis a voz do Senhor

. Salmo 77(78) – Deus na história de Israel

A rebelião de Coré (Cf. Números 16)

(Realidade e Ficção)

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Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –   Meribá (= Disputa)  e Massá  (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan),  Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

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Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” (Salmo 94/95)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 400 anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida,  onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel ( que era a fértil  terra de Canãa), ocupada, entretanto, por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números,  do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico, registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido  e meditado, sob diversos ângulos, por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento deles nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente no filme “Os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra prometida (Canãa) , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura, era, e ainda é,  o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo.  Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus  erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida  em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei, como parece ter sido o caso.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas, em troca, que os hebreus O reconhecessem,  Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé  e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas  de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá  (disputa)e Massá  (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Em todas as rebeliões há cabecilhas que engendram os esquemas da revolta. Também aqui foi o caso:  As citações bíblicas vão em negrito

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”:

Coré – Olha lá, Moisés!  Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yahweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés –  “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para  vos honrar perante a comunidade,  entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós  e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio .  Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh  fará conhecer quem é Dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se Dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se Dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante  de Yahweh. Aquele que Ele escolher, esse é o homem que Lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora,  chamo  aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

AbiramEu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne,  sem vinho, sem uvas,  com  água potável só de vez em quando!  De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos, para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e  um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos, uns idiotas! Tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste, que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui!  Se tu, lá no Egipto, foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teus truques, de morrermos  à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram –  Temos saudades das refrescantes  cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados!  Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para  a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda da Reunião,  com Moisés e Aarão”!

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista, embusteiro!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão  afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés  e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui  morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles, e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo o que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

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Comentários sobre as lições a tirar:

  1. A História de um povo faz-se com Deus, contra Deus ou sem Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar, com tantos pormenores e milagres, a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem pertenceriam,  por direito, esses territórios, onde a paz  é árvore que não deita raízes.Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe muitas vezes à prova a nossa fé Nele, com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, a fim de nos levar  a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos, com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.
  2. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, que não perguntou a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Moisés bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que lhe era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e ele lá foi, baseado na promessa da protecção divina. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos, apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”!  Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!
  3. Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas que exercem autoridade sobre nós, quer  definitivamente  quer  temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo  S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência, temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra  as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.
  4. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube, no quartel, na paróquia, nos Movimentos da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos seminários, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver murmuradores,…afaste-se deles, recuse alimentar-lhes esse fogo destruidor que sai das suas bocas e o veneno que sai das suas línguas!
  5. Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz, para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!
  6. Quem despreza um profeta de Deus despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive. Outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo, quase todos, perseguições, maus tratos, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de quem tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição de mensagens proféticas teve enormes custos para Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo os tempos.
  7. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo!”. Também está escrito (na Bíblia) que Deus pode punir nações e povos através de maus governantes, que actuam como chicotes da ira Deus para povos rebeldes. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .
  8. Outra questão: Afinal, Deus castiga ou  não? Há pessoas que recusam aceitar esta ideia de que Deus castiga, porque, sendo Ele um Deus de Amor e Misericórdia, não pode castigar. Preferem antes dizer que Deus corrige. Trata-se de um eufemismo para dizer a mesma coisa. Como é que Deus corrige sem que haja uma consequência trágica, um sinal de força,  algum tipo de violência? A história de Israel, traçada na Bíblia, mostra que Deus castiga mesmo, embora esta não seja uma ideia simpática. Em quase todos os casos de derrotas, exílios, dominio estrangeiro, Deus mandou sempre aviso daquilo que iria acontecer ao Povo de Israel. Estes avisos é que foram realmente tentativas de correcção. Nossa Senhora anunciou em 1917, aos Pastorinhos de Fátima, que, caso os homens não deixassem de pecar, viria a 2ª viria guerra mundial, não deixando de frisar que seria uma punição pelospecados. Até se referiu a um sinal: a aurora boreal em 1939. Outro caso elucidativo de que Deus pode punir é o caso do Profeta Jonas, a quem Deus confiou a obrigação de ir a Nínive anunciar a destruição da cidade, caso não houvesse conversão por parte dos seus habitantes. Este é que foi um aviso correctivo, através do qual Nínive foi salva da destruição. No caso de Sodoma e Gomorra e outras três cidades, Deus também mandou avisos, que foram ignorados. Alguém pode perguntar: Então, e a parábola do filho pródigo não mostra que Deus perdoa sempre, por maiores que sejam os pecados? Realmente, perdoa, mas somente se o pecador reconhecer que pecou, se se arrepender, se pedir a Deus perdão e fizer o propósito de não pecar mais, tal como fez o filho pródigo. Com a instituição do Sacramento da Penitência por Cristo, o perdão dos pecados, para os que são baptizados, passa por uma Confissão bem feita a um sacerdote Católico ou Ortodoxo . A Bíblia também diz que Deus corrige aqueles que ama, no sentido de os elevar na santidade. De qualquer modo, não vem mal ao mundo, se  se disser que Deus não castiga, mas corrige. Depende do ponto de observação.

Ezequiel Miguel

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Jesus visita João Baptista

(Realidade & ficção)

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 Jesus31Terminara mais um dia e, após uma frugal ceia, os discípulos aconchegaram-se o melhor que puderam para passar a noite. Quando todos já dormiam, Jesus levantou-se e, sem ninguém dar por isso, saiu e foi, por caminhos estreitos, vales e encostas, ao encontro de João Baptista, entregue ao sono profundo numa gruta, nos arredores  pouco frequentados de Hinon.

Jesus – João, acorda!

João – (Ensonado e esfregando os olhos) Mas, …és Tu, Senhor?

Jesus – Sim, João, sou Eu!

João – Porquê Tu aqui?

Jesus – (Ajudando-o a levantar) Vamos ali para fora, onde podemos  admirar este belo luar que o Pai do Céu criou para os Seus filhos. Vim visitar-te por vários motivos: porque somos amigos, porque somos primos, porque és o meu Precursor, porque quero agradecer-te o bom desempenho na tua missão, porque quero animar-te a enfrentar ainda, no tempo que te resta, a fúria que se alimenta na corte de Herodes contra ti e, finalmente, porque quero dar-te alegria e receber de ti alegria, pois o meu Coração anda muito acabrunhado pelo desprezo que as almas me dedicam, a Mim que vim para as salvar…e, finalmente, porque quero garantir-te a Paz de Deus lá em cima, onde dentro em breve nos encontraremos ambos…

João – E ainda tenho de esperar muito?

Jesus – Não! Tu não ignoras que Eu, tal como tu, também tenho de passar pelo baptismo de sangue. Depois…vou buscar-te lá onde os Justos aguardam a minha chegada. Falta pouco para eu completar a Redenção.

João – (De joelhos aos pés de Jesus) – Ó meu Senhor, como Tu és bom! Eu não mereço a visita do meu Deus. Quem sou eu para que venha a mim o meu Senhor? (Chora de comoção) Já no ventre de minha mãe eu a ouvi dizer, quando Tu e  a Tua Mãe nos fostes visitar: “Quem sou eu para que a Mãe do meu Senhor me venha visitar? Estas visitas!… (Chora)

Jesus – Não chores, João, levanta-te e sentemo-nos aqui frente a frente!  O teu Deus não esquece o que se faz por Seu amor, fácil ou difícil, com dor ou sem ela, com alegria ou com tristeza, num palácio ou num deserto, numa casa ou numa caverna.

João – (Chorando ainda mais) – Que bondade a Tua, Senhor! Eu não me queixo de nada, porque Vós sempre me protegestes nos perigos, já desde o meu nascimento, em que, como Tu, fomos levados ao deserto para fugir a Herodes.

Jesus – Mesmo quando longe da tua vista, Eu te via e te protegia, enviando-te os Meus anjos, que te guardavam de dia e de noite, em todos os teus caminhos e estavam atentos a todos os teus passos. A tua voz irá calar-se, mas outras vozes Eu estou a preparar para também pregarem ao Povo da Nova Aliança, que será um Povo de reis, sacerdotes e profetas. Assim, tu serás o último dos profetas da Velha Aliança e o primeiro da Nova! O teu nome jamais se apagará da memória dos homens e do Livro da Vida.  Eu quero aqui dizer-te obrigado, porque foste fiel, não te poupaste a sacrifícios por Mim, preparaste-Me o terreno, atraíste discípulos, combateste o bom combate e foste firme em tua  fé no Messias de Israel, que vai dar-te o prémio que mereces. As tuas canseiras, jejuns, sacrifícios e perseguições, a que essa magreza cadavérica não é estranha, merecem a glória eterna Connosco. Coragem no pouco que ainda falta!

João – Obrigado, meu Senhor e meu Deus, pela Tua bondade! As minhas lágrimas são de felicidade! Como não hei-de chorar? O meu coração não aguenta esta alegria que me trazes e que faz esquecer todas as dificuldades passadas. Como aguardo que cheguemos ao fim da nossa missão martirizante e  redentora! … Mas há uma coisa que me preocupa e me deixa em angústia e ansiedade…

Jesus – Diz!…

João – São os meus fiéis discípulos. Tenho três pelos quais eu ponho as mãos no lume. Tenho receio que eles e outros se percam…, especialmente o Matias, que eu reconheço possuir uma sabedoria que só pode vir do Espírito Santo! Eu entrego-te esse e todos os outros!

Jesus – Não tenhas receio! Todos os que forem verdadeiramente teus discípulos virão para Mim e permanecerão! Quanto ao Matias, irá substituir aquele que me vai trair, o filho da perdição, como está escrito: “Tornem-se desertas as suas moradas e não haja quem habite nas suas tendas” (Salmo 68/69, 26) e “Sejam abreviados os seus dias e outro ocupe o seu lugar” (Salmo 108/109, 8).

João – Obrigado, meu primo, meu Mestre, meu Senhor, meu Deus! Eu não mereço tantas atenções e tantas graças da Tua parte. Sou apenas um dos Teus servos humildes que nada mais ambiciona que agradar ao meu Deus!

Jesus –  (Impondo as mãos sobre a cabeça de João, ajoelhado a Seus pés) Tu achaste graça diante de Deus e nós te daremos a coroa da glória. Quando chegar a hora, morre em paz, imagina-Me à tua frente e não temas! Eu estarei a ver-te subir para a mansão dos Justos. E agora, querido primo, vamos dar o beijo da paz como Mestre e discípulo.

João – Eu, beijar-te, Senhor! Não tenho coragem de beijar o meu Deus! Prefiro ser beijado por Ele!

Jesus – Como queiras, querido primo! Levanta-te e demos o abraço da despedida e o beijo sagrado do Amor de Deus por ti. Adeus! A minha paz, a paz de Deus, esteja sempre contigo e te proteja. Até breve!

 .

Ezequiel Miguel

 

 

Herodes e a matança dos meninos

(Realidade & ficção)

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Do Evangelho:
…Avisados em sonhos para não voltarem junto de Herodes, (os Magos do Oriente)  regressaram ao seu país por outro caminho…Então, Herodes, ao ver que tinha sido enganado pelos magos, ficou muito irado e mandou matar todos os meninos de Belém e de todo o seu território, da idade de dois anos para baixo, conforme o tempo que, diligentemente, tinha inquirido dos magos (Mt 2, 16).

Os dias passaram, desde que os Magos partiram na direcção de Belém, após o seu encontro com Herodes, o qual aguardava que aqueles fossem simpáticos e agradecidos pela ajuda real que haviam recebido. Perante a demora, Herodes começou por desconfiar. Depois, abraçou a dúvida, a seguir, adoptou a certeza e  deu   acolhimento à frustração, à raiva, a  uma ideia sinistra  que acabaria por dar à luz uma diabólica vingança. Como não queria ser propriamente o pai solitário de um projecto sanguinário, convocou os seus conselheiros para que estes lhe dessem ideias que coincidissem com as suas e se sentissem responsabilizados pela  aprovação e execução daquilo que o projecto envolvia

Herodes – (Mal-humorado)  Todos vós soubestes como prestei assistência a esses viajantes que passaram por aqui, a caminho de Belém, onde eles acreditaram que nasceria, isto é, que já tinha nascido, o Messias. Contaram uma história esquisita sobre observações astrais, estrelas que ninguém viu senão eles, sinais de uma donzela na lua… com um menino ao colo…e sei lá que mais! Em troca das informações que lhes interessavam, eu pedi que voltassem por aqui no caminho do regresso aos seus países. E aqui é que jaz o problema que originou esta reunião dos meus conselheiros. Pelo tempo que já passou, eles já deveriam ter regressado, mas, ao que sei, piraram-se covardemente, desonestamente, ingratamente, provocatoriamente, por outro caminho, deixando-me aqui pendurado na esperança que esses aldrabões me tragam as informações sobre essa criança que eles diziam ir adorar e para a qual levavam presentes reais. Como eles diziam que era o Messias e o Rei de Israel, eu comecei cá a magicar se eu, vós, o reino, este povo, o nosso glorioso Templo, as nossas tradições, a nossa Lei, a nossa monarquia,…não estará tudo em perigo! …

Daí, convoquei-vos para analisarmos esta situação e tomarmos as necessárias e urgentes decisões que se impõem.  Quero que cada um de vós me sugira algo diferente de cada um, mas com a possibilidade de eu concordar e aceitar. A decisão que se tomar será da responsabilidade de todos, mesmo que seja exclusivamente a minha, pois, como sabeis, este Conselho tem apenas uma finalidade consultiva, não obrigando o Rei a segui-la, se ele a isso se opuser. A decisão que eu tomar será em nome de todos, concordem comigo ou não! Vamos então ao 1º Conselheiro. Que dizes?

1º Conselheiro –Majestade, eu penso que não será motivo de preocupação, pois esses viajantes podem ter-se enganado e se, por acaso, esse menino for alguém importante, ele dará sinal a seu tempo e, nessa altura, poderá ser preso e julgado por alta traição, até porque não será nada fácil provar que é o Messias profetizado. O seu fim será igual ao de muitos falsos Messias que já se anunciaram em Israel.

2º Conselheiro – A história que eles contaram é deveras estranha, uma vez que mete profecias de profetas de Israel, e mete também o nosso Deus, que eles dizem ser também o deles. A lua, a donzela com o Menino, a estrela, o terem lido a palavra “Messias” na conjugação dos astros, o falarem cada um a sua própria língua e serem entendidos pelos povos por onde passavam…tudo isto é muito estranho e pode revelar que anda aí o dedo de Deus, ao qual nada é impossível. Por isso, aconselho muito cuidado e respeito, não aconteça que boicotemos os planos e os desígnios insondáveis do nosso Deus, o que poderá ter consequências terríveis para todos nós.

3º Conselheiro – Quanto a mim, eu acho que a monarquia está em perigo, pois tudo bate certo a propósito do nascimento desse Menino, que será o Messias profetizado. O profeta Miqueias diz que ele  nascerá em Belém e eles foram a caminho de Belém, vindos de tão longe. O profeta diz que o menino será um condutor do Povo de Israel, o que quer dizer que, sendo ele o Condutor, ninguém mais o será enquanto ele reinar. Eu aconselharia  Vossa real majestade a gizar um plano para o descobrir quanto antes, não vá ele ser levado para algum local secreto até se revelar e aparecer com um exército para tomar o poder, sendo depois aclamado pelo povo como o Messias esperado.

4º Conselheiro – Perante os perigos que eu antevejo, eu aconselharia o Rei a pensar numa solução radical que resolvesse o assunto de vez e sem margem para dúvidas, uma vez que a Casa Real de Israel pode estar em perigo. Vossa majestade enviaria soldados e espiões por todas as aldeias, vilas e cidades da sua real jurisdição e eles investigariam quem é esse menino, quem são os seus pais e onde é que ele vive. Com promessas ou ameaças conseguiria que alguém desse os sinais da sua presença e da sua identidade. Uma vez descobertos e identificados, seriam trazidos até aqui para um apertado interrogatório, do qual sairiam os dados necessários para se julgar se há ali algum pormenor que estimule os nossos narizes a cheirar o Messias. Não havendo nada, ficaria tudo em paz e ainda nos ficaríamos a rir da imbecilidade desses cavalheiros que apareceram aí a pedir ajuda, porque uma estrela que só eles viam resolveu pregar-lhes uma partida ao esconder-se deles por trás de algum monte…

5º Conselheiro – Esta última sugestão parece ser muito realista e sensata, mas eu penso que ela não deixaria ao Rei a margem suficiente para eliminar qualquer dúvida sobre esse menino. Imaginemos que ele nasceu realmente em Belém, mas que, por qualquer motivo, já foi levado para outro local, aldeia, vila ou cidade e, ao aparecer lá, ninguém consegue saber de onde veio nem onde nasceu. Quem o conhecerá, quem saberá o seu nome, quem conhece o presente e o passado dos seus pais, quantos meses ou anos terá agora? Aqueles cavalheiros davam-no com a idade de um ano, mais ou menos. Apanhá-lo a ele no meio de tantos meninos que há na jurisdição de vossa real majestade seria como apanhar uma agulha procurada em um palheiro encravado no meio de muitos palheiros. Isto quer dizer que é preciso destruir todos os palheiros para se saber em que palheiro está a agulha…

Herodes – Isso quer dizer que…
5º Conselheiro – Quer dizer que será necessário matar todos os meninos de dois anos para baixo, como única garantia de que ele será apanhado…

Um arrepio percorreu a espinha dos outros Conselheiros, mas não a de Herodes, já muito calejado em operações semelhantes.

Herodes – Sugere como executar essa missão!

5º Conselheiro – Podia ser assim: Os soldados apareceriam de repente em cada lugar, convocariam as mães para trazerem os meninos à praça pública e aí…

Herodes – Não! Isso dá muito nas vistas. Tem que ser mais discretamente! Aceitam-se sugestões sobre a melhor maneira de levar a cabo este plano.

6º Conselheiro – Eu tenho uma ideia mais discreta. O Rei convocaria para Jerusalém todos meninos de dois anos para baixo, os quais seriam trazidos pelas mães. Dir-se-ia que o Rei iria premiar essas mulheres pela sua fertilidade. Elas ficaria reunidas no salão do tribunal e, uma a uma, um soldado pegaria nos meninos, com a promessa de que iriam ser abençoados por um sacerdote e  que dentro de poucos minutos estaria de volta. Lá dentro, de um só golpe…nem haveria choro! Um outro soldado iria depois dizer à mãe do menino que ele tinha morrido… Aquelas que desatassem ali aos gritos seriam expulsas da sala…

Herodes – Alguém faz uma ideia de quantos meninos haverá por aí de dois anos para baixo?

7º Conselheiro – Eu penso que haverá entre 700 a 800, espalhados por todo o território da vossa real jurisdição.

Herodes – Parece-me um plano inteligente, bem traçado,  discreto, eficaz…e que resolve o problema de vez e com segurança. Depois, já poderei dormir descansado e afastar de mim estes  malditos pesadelos que me acordam de noite a ser triturado por um menino que se transforma de repente num gigante ameaçador, contra o qual não tenho armas, nem sequer uma funda como tinha David no seu combate com Golias. Mas resta ainda um problema: que destino dar aos corpos dos meninos? E ainda outro: Como fazer para que nas localidades próximas umas das outras não se saiba o que vai acontecendo, evitando assim a fuga e a preparação de qualquer esconderijo?

8º Conselheiro – Eu penso que a real polícia secreta deverá aparecer pelas localidades da real jurisdição, investigar e registar os nomes dos meninos, seus pais e a respectiva residência. Quando tudo estivesse pronto, os pais seriam convocados todos ao mesmo tempo para se apresentarem na Casa da Justiça, em Jerusalém, onde já tudo estaria preparado. Quanto aos corpos decepados  ou apunhalados dos meninos…uma vala comum aberta no pátio da Casa da Justiça seria o local secreto que os acolheria. Depois, empedrava-se o terreno e ninguém mais daria por isso.

Herodes – E como se garantiria o absoluto sigilo do que se tinha passado?

8º Conselheiro – Só há uma medida eficaz. Custa-me referi-la, mas tem de ser. Todos os que participassem  ou estivessem a par do sucedido…teriam que ser mortos e enterrados no mesmo local logo a seguir. Far-se-ia constar que tinha desabado um muro, um tecto, um pilar…ou que foram mortos por se terem rebelado contra o Rei.

Herodes – Estou a ver!…Eu sinto-me um perfeito idiota perante a sabedoria dos meus Conselheiros. Falaste bem!…Estou de acordo!… Assim se fará!…Não preciso de mais sugestões. No entanto, por uma questão de justiça equitativa, quero ouvir a voz dos dois Conselheiros que ainda não falaram. Digam o que têm a dizer!

9º Conselheiro – Real majestade, eu temo e tremo pela vossa sorte, se entrais em conflito com os planos do Altíssimo. Nenhum desses meninos tem culpa de ter nascido e ainda não cometeu nada que mereça uma condenação à morte. Sugiro antes que procureis identificar o tal menino que dizem ser o Messias, o que não é difícil, se montardes a polícia secreta em Belém. Com o tempo, acabareis por descobri-lo, pois não tardará a manifestar-se e o povo acorrerá a Belém para fazer o mesmo que aqueles Magos do Oriente. Além disso, se é mesmo o Messias, nada podereis contra ele, pois ele é homem, mas também é Deus. Quem pode lutar contra Deus? Isso trará a vossa desgraça e a nossa e ninguém ficará em condições de vos ajudar ou vos defender quando essas coisas se souberem e ficarem relatadas para as gerações que vierem depois de nós. Além disso, lembrai-vos que isso ficará escrito nos anais do vosso reinado, fazendo com que a vossa memória fique amaldiçoada para sempre enquanto houver homens sobre a Terra.

10º Conselheiro – Alteza real, eu ouvi tudo o que aqui foi dito e tremo também perante algumas sugestões aqui pronunciadas. Sem julgamento e prova de crime ninguém deverá ser condenado à morte. Isso vai contra toda a justiça expressa na nossa Lei e nos profetas. Eu aconselharia primeiro uma consulta aos sacerdotes  Hilel e Gamaliel, sábios doutores  e santos intérpretes da Lei e dos Profetas. Os profetas dizem que o Messias não será um rei temporal, que não terá palácios nem exércitos, mas que será apenas o Rei dos corações, o Rei da Paz e de um reino meramente espiritual, o que equivale a dizer que ele não destronará nenhum rei temporal. Sendo assim, vossa real majestade não terá nada a temer, nem os vossos herdeiros nem a vossa dinastia. Se ele tem apenas uns meses de vida, ele poderá manifestar-se pelos 25 ou 30 anos e então se verá quem é, o que faz, de onde vem, de quem vem, o que propõe na sua qualidade de Messias. Se ele vem ao mundo, não será para ficar escondido. Todos nós esperamos o Messias há séculos e um dia ele tem de aparecer. Quem diz que não será esse menino? Não ambicionando um reinado temporal, as autoridades que Ele encontrar, Ele as deixará em paz, tanto as nossas como as dos ocupantes romanos. Por isso, proponho que não se faça nada, porque poderemos ser todos cúmplices de crimes que a história recordará até ao fim dos séculos e tudo isso para nossa vergonha indelével. Seremos a vergonha do Universo, da Terra, dos Céus e dos Infernos, pelos séculos dos séculos. Não aprovo outro plano que não seja este de deixar os meninos crescer em paz.Tenho dito!

Herodes – Eu ouvi com atenção todas as sugestões apresentadas. Não as ponho à votação porque a minha autoridade real rejeita tal procedimento. Um rei é rei em todas as situações. Ninguém está obrigado a concordar comigo nem com as minhas acções, mas a minha política consiste em resolver os problemas aqui e agora, não me preocupando com as consequências futuras, pois não tenho poderes para que me aconteça apenas aquilo que eu quero ou não quero. Sendo assim, não quero que o meu povo viva amedrontado por um menino-fantasma, seja ele quem for, que já me atormenta de noite, mesmo que ainda não exista. O meu povo tem de saber que no meu reino não há ninguém acima de mim, a não ser aquele maldito César (de quem me finjo amigo), instalado em Roma, e o seu Procônsul em Jerusalém. Mas contra esses eu nada posso, a não ser amaldiçoar esses nojentos pagãos que ocuparam a nossa santa nação. Eu sou a honra e a glória deste povo e assim quero continuar durante muitos anos, sem que me sinta ameaçado pelo fantasma desse pseudo-messias.

Essa coisa de aqueles trapalhões dizerem que viram isto ou aquilo na lua ou na posição dos astros…sim, isso pode ter sido apenas fruto de alguma alucinação provocada por alguma festiva bebedeira, em dia de algum aniversário natalício. Todos nós sabemos, penso eu, que o vinho em excesso pode originar visões irreais. Foi isso que deve ter acontecido com eles! Com os pormenores das várias sugestões, já posso arquitectar o meu plano na totalidade, que, a seu tempo, se cumprirá. Este Conselho obriga a sigilo absoluto, sob pena de morte por alta traição. Sereis vigiados pela polícia secreta e nem as vossas esposas podem ouvir uma única palavra sobre este assunto. Pagareis vós e elas com a morte. Secretário, está tudo pronto? Posso mandar dispersar este Conselho?

Secretário – Sim, majestade!

Herodes – Então,…agradeço as vossas sugestões …e  dou por terminado este Conselho.

“Cumpriu-se então o que o profeta Jeremias dissera: Ouviu-se uma voz em Ramá, uma lamentação e um grande pranto. É Raquel que chora os seus filhos e não quer ser consolada, porque eles já não existem” (Mt 17-18).
Este episódio ficou registado para a história, sagrada e profana, como a “Matança (Martírio) dos  (Santos) Inocentes”, que a Igreja comemora no dia 28 de Dezembro com o nome de ” Santos Inocentes”.
Não é difícil encontrar pessoas que se arrepiam perante a matança dos meninos relatada nos Evangelhos. Foi algo de hediondo e aposto que não haverá ninguém que não condene       tal selvajaria herodiana. Convém lembrar que não foi Herodes que matou pessoalmente, mas foi ele que deu as ordens para tal e promulgou os documentos necessários para que tal ordem se cumprisse. Não esperaria, porém, que o seu nome ficasse para sempre ignominiosamente lembrado pelo seu acto. Os  argumentos referentes às profecias sobre o Messias tinham pouca força para Herodes, porque ele, embora integrado no povo Judeu, era de origem estrangeira e subira ao poder através de meios desonestos e oportunistas. Mas, pelo sim, pelo não, achou que seria melhor precaver-se contra qualquer eventualidade de surgir um rival, verdadeiro ou hipotético. Quanto à sua sorte final, ninguém sabe se se arrependeu ou não e se solicitou o perdão de Deus ou não. Só Deus sabe!

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Ezequiel Miguel

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Nasceu-vos hoje o Salvador (Lc 2,11)

(Realidade & Ficção)

Personagens:

Pastores: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaac, Tobias, Jónatas, Daniel, Simeão, João, José, Benjamim.

. Anjos

. S. José

. Virgem Maria

estrela

Na mesma região (Belém) encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. (Lc 2, 8-12)

Nos arredores de Belém, exactamente no lado oposto da cidade onde se situa a gruta, pernoitam os pastores, com seus rebanhos, que não são todos seus, mas pertencem aos seus patrões, uns, dali, outros, de localidades vizinhas. Todas as noites eles se revezavam para que um deles ficasse de vigia. Ficava um sempre de sentinela, não  por medo de fuga das ovelhas, mas por temerem os ladrões de gado.

Não é bem verdade dizer que aquela noite era igual a todas as outras noites, porque ela, por ser mais clara que as outras, por ter um luar mais luminoso que as outras, porque a lua naquela noite requisitara ao sol uma dose extra de luz que tornava os campos não só visíveis, mas até com uma claridade estranha. Esta era a noite…a princesa de todas as noites, a rainha de todas as noites, a mãe de todas as noites, a noite das noites. Era a noite única, a noite santa, a noite profetizada séculos antes, esperada durante milénios, a noite em que o Plano de Deus iria dar o passo principal para a Redenção da Humanidade, caída sob as garras de Satanás, após a Queda de Adão e Eva, A esta Queda  também  chamamos o Pecado das origens da Humanidade ou, ainda, pecado original. Era a noite cuja memória perdurará pelo tempo até ao fim do Tempo.

A estranha luminosidade da lua, movendo-se entre as nuvens de um céu estrelado, não deixou de chamar a atenção dos pastore, que, um após outro, saíram do telheiro que os protegia do frio da noite.Todos achavam muito estranho não se poder olhar para a lua sem colocar  uma mão à frente dos olhos, tal como se faz para mirar o sol. Uma lua assim nunca se vira. Enquanto todos olhavam a lua, viram aproximar-se algo luminoso, que, ao longe, através dos ares, vinha em sua direcção, até que, finalmente, chegou perto deles:

Anjo“Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias -Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura”(Lc 2, 10-12).

Coro dos Anjos  (Cantando) – “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens por Ele amados” (Lc 2, 14)

Samuel – Nasceu o Messias!

Todos – Louvado seja para sempre o Deus de Israel, que  já  nos enviou o Desejado das Nações!

Jonas – Prestai atenção! Olhai para as ovelhas!

David – Estão todas agitadas e a balir!

Benjamim – E os cães estão a ladrar e às correrias! Parecem doidos!

Simeão – Escutai! A passarada também perdeu o sono e desatou num estrondoso concerto!

Elias – Olhai o céu! Está além uma estrela nova com um brilho fora do vulgar!

Levi – E parece estar do outro lado de Belém, aqui tão perto, quase sobre as nossas cabeças!

Jónatas – É isso! Toda a natureza se alegra com o nascimento do Messias!  Despachemo-nos e ponhamo-nos a caminho!

Simeão – Quem sabe onde é esse local indicado pelo anjo?

Levi – Eu sei onde é e quem é a Mãe do Messias!

Elias – Ah sim? Conta lá!

Levi – Há poucos dias, chegou um casal a casa dos meus patrões, a pedir hospedagem, mas os  meus patrões não tinham nenhum espaço disponível para lá ficarem a dormir. A minha patroa  lá arranjou um quartinho para Ela descansar um pouco. Se vós a vísseis! Ela parecia um anjo!

José – Porquê? Já alguma tinhas visto um anjo?

Levi –  Nunca vi, mas  calculo que seja parecido com ela. Além disso, Ela é ainda muito nova, pouco mais velha  do que eu, mas estava grávida e não parecia nada ansiosa nem preocupada. Toda Ela respirava paz e no seu rosto brilhava um olhar muito meigo e um sorriso que nunca se esquece. Ela desfazia-se em agradecimentos por qualquer pequeno serviço que se lhe prestasse. Não imaginais como Ela me agradeceu, quando eu lhe trouxe uma tigela de leite quente! Lembro-me que o senhor que vinha com ela estava um pouco nervoso e muito preocupado com a falta de condições dignas para o Menino nascer. Ela acalmava-o e dizia-lhe que o Senhor forneceria o necessário e que não seria preciso ninguém para ajudar no parto… e que também não teria dores…

Tobias – O quê? Ela disse isso? Isso é muito estranho! Mas como é que Ela sabia essas coisas? E como é que Ela sabia que era um Menino e que teria um parto sem dores? Sendo assim, não esperemos encontrá-La  de cama! Mas as mulheres, quando nascem os bebés, ficam de cama dois ou três dias e alguém tem de as ajudar nas lides domésticas!

Samuel – Pois! E não está na Torá (Bíblia) que a mulher dará à luz com dores?Então, Ela é diferente das outras mulheres, ou não fosse Ela a Mãe do Messias. Tenho cá para mim que não haverá maior dignidade na Terra do que ser a Mãe do Messias. Superior a Ela, só Deus! E outra coisa: Não está escrito também que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho? Sendo assim, Ela é essa Virgem anunciada ao rei Acaz. Logo, tudo nela é milagroso, pois a Deus nada é impossível.

Daniel – E se nos deixássemos de conversa, ó teólogos da meia-noite !Vamos embora! Conversamos pelo caminho!

Simeão – Calma aí! E aparecemos lá de mãos vazias? O Menino não é um qualquer! Ouvistes bem que Ele é o Messias, o Cristo, o Senhor! Israel anda há 600 anos a falar Dele e os profetas sabiam bem de Quem falavam.

João – O Simeão diz bem. Que podemos levar-Lhe como presentes?

José – Podemos levar queijo…

Benjamim –  Leite…

Daniel –  Pão, fruta, azeitonas…

Samuel –  Figos secos, tâmaras secas…

Jonas – Eu levo uma pele de ovelha, que vale tanto como  o melhor dos cobertores.

Elias – Eu cá levo uma ovelha!

Todos – Uma ovelha?

Elias – Sim, uma ovelha! Imaginai que a Mãe não tem leite! Como é que o Menino vai sobreviver se a Mãe não tem leite?

Samuel – Não tem leite? Todas as mães dão leite!

Elias – Pois, mas eu  já ouvi dizer que há mães que não têm leite quando os filhos nascem! Ou, se o têm, demora a vir! Assim, é fácil levar uma tigela e tirar leite quentinho da ovelha. Ela até se sentirá muito honrada com isso. Já vistes que poderá ser a única ovelha a alimentar o Messias? (Ri com gosto ante esta ideia…)

José – Ó rapazinho, isso é uma ideia brilhante! De onde te vem tanta sabedoria, sendo ainda tão jovem?

Jonas – E quem sabe exactamente onde eles estão?

Levi – Eu sei! Aquela estrela deve estar sobre uma gruta que há lá no outro lado da cidade. Eu lembro-me que o senhor (penso que será o seu esposo) disse que iam para uma gruta que ele conhecia bem. Depois, quando pudessem, procurariam uma casa.

Isaac – Eu até já ouvi dizer que essa gruta já existia nos tempos de Abraão.

Tobias – Então, é hora de ir! Estou a ficar impaciente!  Eu levo um cordeirinho branco. Tome cada um o seu presente e vamos! Levemos umas lanternas para o caso de Eles lá não terem luz!

Simeão – Bem pensado!

Todos – Lá vamos a caminho de Belém adorar o Deus-Menino!

Chegados à porta da gruta, surgiu um problema. Como se anunciariam, como entrariam, quem entraria primeiro, quem falaria por todos?

Simeão – Levi, espreita aí, a ver se descobres alguém ou sinais de presença humana.

Levi – (espreitando) Cheira-me a fumo! Deixai-me entrar um pouco, pode ser que… (Arranca umas tossidelas ruidosas…)

Jonas – Vai mais para dentro e vê se descobres alguma luz! Vês alguma coisa ou alguém?

Levi – Espera aí! Há lá dentro muita luz. Parece o sol ao meio dia! E vejo…É Ela!…É Ela!…É Aquela que esteve em casa dos meus patrões!…E também o homem que vinha com ela. São eles! Estão ambos curvados sobre uma manjedoura onde um Menino está deitado, tal e qual como disse o anjo. Estão ambos a contemplar o Menino. Ele parece chorar! Se calhar é com fome e com frio! Ele não está a mamar! A Mãe está-lhe a dizer palavrinhas meigas, como só as mães sabem dizer!

Benjamim – O que está Ela a dizer ao Menino?

Levi – Fazei silêncio, de contrário não posso ouvir!…

Maria – Aqui estás Tu, finalmente, ó Filho de Deus feito Homem! Tanto tempo que esperámos por Ti! Agora…quem diria? O Senhor omnipotente aqui a choramingar com frio e fome! Meu Menino, Meu Filho, Meu Amorzinho, Meu Principezinho, meu Reizinho, Meu Senhor, Meu Criador, meu Deus!… Não encontrámos instalações melhores para nasceres! Tu, o Rei do Universo, aqui tão pobrezinho! Mas tens o amor da Tua Mamã e do Teu adoptivo pai, para Te compensar. É o melhor que podemos dar-Te!

Daniel – Basta de espiar! Chama em voz alta, para que te ouçam …ou nunca mais saímos daqui! Além disso, é feio espiar o que os outros fazem ou dizem. Quem tem cara limpa não se esconde!

Levi – Calai-vos! Se soubésseis o que eu ouvi! Foram as palavras mais doces que um ser humano pode proferir!… Mas eu vou chamar, para ver se aparece alguém!…Quem está aí?… Ó da casa! …Podemos entrar?…

José – (Virando-se, levantando-se e indo até à entrada) Quem sois vós?

Todos – Somos pastores e viemos adorar o Menino. Trazemos também alguns presentes: alimentos e lã.

José – Entrai!

Maria –(Virando-se e sorrindo) Sede bem-vindos! Como soubestes que o Messias já tinha nascido?

Simeão– Foi um anjo que nos disse e nos convidou a vir adorar o Menino. Depois, ouvimos um coro de anjos a cantar: “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na Terra aos homens…”Agora, aqui estamos! E temos presentes para o Menino: pão, queijo, figos secos, tâmaras secas, leite, um cordeirinho, uma pele de ovelha… (Olhando em volta) Falta qualquer coisa! Falta o Elias com a sua ovelha! Ide chamá-lo e que tire já leite quente para dar ao Menino, pois o leite que aí trazeis já está frio!

Maria – Muito obrigado pelos vossos presentes. O Meu Filho vos compensará e um dia Ele voltará aqui para vos agradecer pessoalmente e ainda muito mais, que a seu tempo se revelará.

João – Podemos pedir-vos um grande favor?

José – Dizei!

João – Deixais-nos beijar a veste do Menino?

Maria –(Destapando um pé do Menino) Podeis, mas em vez da veste podeis beijar o Seu pezinho!

E todos, um por um, concretizaram a primeira adoração popular do Menino, que correspondia agitando os pezinhos. Concentração, lágrimas, sensação de felicidade interior, desejo que aqueles momentos se prolongassem indefinidamente … Mas tudo termina! Ali, nasceu neles o entusiasmo e o veemente desejo de darem a conhecer ao mundo o nascimento do Messias. Cristo acabara de fazer os Seus primeiros discípulos. Mais tarde, trinta anos depois, Cristo procurá-los-ia para lhes agradecer e confirmá-los em sua fé no Messias. Todos eles, aqueles ainda vivos, engrossariam o número dos Seus discípulos fiéis que estariam dispostos a dar a vida por Ele, após terem presenciado a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Nessa altura compreenderiam qual a sorte final do Cordeiro de Deus e a visão profética da Jovem Virgem Maria.

Elias – Eu vou a Hebron dar a notícia aos meus patrões!

Maria – Olha, conheces lá o sacerdote Zacarias, a sua esposa Isabel e o seu menino João, que deve ter agora 15 ou 16 meses?

Elias – Zacarias é aquele que ficou mudo até o menino nascer?

Maria – (Sorrindo ante  a sentença  de Elias)  Então, fazes-me um favor? Eles são meus parentes.  Diz-lhes que Eu lhes peço para virem até aqui.

Elias – Isso farei com muito gosto! Podes ficar  descansada!

Maria – O Senhor te pague! Sê sempre bonzinho e o Meu Menino te recompensará!

No regresso:

E a visita terminou. Cheios de alegria, os pastores encetaram o caminho do regresso, animados, falando pelos cotovelos, comentando, fazendo cálculos, especulando, falando sobre o que sabiam do Messias referido pelos profetas, interrogando-se sobre muita coisa que nós também ainda hoje nos interrogamos, assim como se interrogarão as gerações futuras: se tinha que ser assim, ali, logo de noite, logo num tempo em que não havia lugar nas estalagens, logo naquela pobreza! Porque não no palácio de Herodes, porque não na casa deles próprios ou dos seus patrões, etc., etc.

Elias – Vistes para que serviu a minha ovelha?

Jonas – E vistes o que a Mãe fez com a pele de ovelha? Agarrou no Menino,  embrulhou-O nela e Ele logo se calou.

Tobias – E vistes para que serviu o meu cordeirinho branco?

Todos – Para que foi? Não vimos nada de especial!

Tobias – Ah não? Não vistes as carícias que a Mãe fez ao meu cordeirinho? Quando lho ofereci, Ela  desatou a fazer-lhe festinhas e ele olhava para Ela de tal modo que até parecia querer dizer qualquer coisa! Ela olhava ora para o Seu Menino ora para o meu cordeirinho! Agradeceu sorrindo e, de repente, ficou muito séria, com olhar fixo em alguma coisa invisível…imóvel, sem pestanejar… como se visse alguma coisa má que eu não via e…imaginai lá: eu vi-a a limpar as lágrimas! (Limpando as suas próprias lágrimas).

Todos – Estás a chorar!?…

Tobias- Estou! Ela chorou, enquanto vós estáveis lá entretidos em volta do Menino na manjedoura. Choro também porque tenho muita pena Dela e não posso esquecer aquelas lágrimas que lhe caíram silenciosas pela face abaixo. Ela tentou disfarçar, mas eu vi! Depois, continuando a fazer festinhas ao meu cordeirinho, Ela dizia: O que tu me fazes lembrar, meu lindo cordeirinho!… Depois, enxugou as lágrimas, tentou sorrir e fingiu que estava feliz.

Samuel – Mas então só tu é que viste isso? Porque é que Ela terá chorado? Alguém é capaz de ter uma ideia? Não foi, de certeza, por nossa causa!

Aqui, cada um foi lançando a sua hipótese, que podia ser rejeitada, semi-aceite ou unanimemente aceite como possível.  Uns diziam que era por causa do frio, outros, por falta de uma casa, outros, porque não tinham alimentos nem roupa suficiente, outros, porque tinha muita pena do Menino, o nosso Messias ali tão pobrezinho, quando não faltam palácios em Jerusalém e em Belém. Falou, por fim, Simeão:

Simeão – Cá para mim, Ela relacionou o teu cordeirinho com o Cordeirinho Dela, quer dizer, o Seu Menino. Por isso, Ela olhava ora para um ora para outro, lembrando-se de qualquer coisa relacionada com cordeiros, porque Ela disse que o Seu Menino também era um Cordeirinho. São ambos puros e Ela deve ter-se lembrado do que acontece aos cordeirinhos brancos por altura da Páscoa… Será que Ela não viu o Seu Cordeirinho a verter o Seu Sangue  pelo nosso Povo e por todos os Povos?

Jónatas  – E um profeta não diz que o Servo do Senhor, que é o Messias,  foi levado ao matadouro e que como uma ovelha não abriu a boca (Is 33,5)? Já me lembro: foi Isaías que disse isso! Ela, ao ver o Menino e o cordeirinho, associou-os à sorte final  de ambos. Ela deve saber mais do que nós pensamos, ou não esteja Ela dentro dos segredos que envolvem a vinda do Messias! É o que eu penso! Ainda digo mais! Ela deve estar dentro de todos os mistérios relacionados com o Messias de Israel, que vai inaugurar novos tempos. O tempo dos profetas acabou e um outro mundo vai nascer. Só não sei qual o preço que o Messias vai pagar, mas Ela deve saber. Ela estava muito pensativa e os seus olhos  navegavam pelo corpinho do Menino, concentrando-se ora na cabeça, ora no peito, ora nas mãos, ora nos pés! Achei isto muito estranho! Será que Ela estava já a ver a morte do Menino?

João – O quê!? O Messias ainda agora nasceu e já estais a falar da Sua morte? Calai-vos lá com isso! Hoje é dia de alegria para todo o mundo!

David – Mas o Messias não vem para libertar o nosso povo da opressão dos Romanos? Não se diz que Ele é o Libertador e o Salvador que vai restaurar o Reino de Israel? Não percebo! Então…e é preciso morrer para cumprir essa missão? Mas Ele morre ou matam-NO? E se O matam, quem O mata e porquê?

Samuel – Eu já ouvi dizer que Ele será traído por um que se fará passar por Seu amigo. Quanto ao porquê, não sei responder! Se alguém sabe, diga! De qualquer modo, como eu gostaria de pertencer ao seu exército!

David – Eu já me contentava com servir no Palácio Real!

Levi – Eu gostaria de ser general do seu exército!

Elias – E eu gostaria de ser o pajem da Sua Mãe, o servo para todo o serviço!

Isaac – Eu não acredito que o Messias tenha vindo para isso! Ele é chamado o Príncipe da Paz, por isso, não pode ser um guerreiro, um general, um conquistador de cidades e reinos.

Tobias – Mas então, se Ele é o Libertador, o Salvador,  de que é que nos liberta e nos salva, afinal?

José – Mas Ele também é chamado Deus Eterno,  Deus Forte, Deus Imortal, Deus Santo, Príncipe Adorável, Conselheiro Admirável, Deus Poderoso, Pai Eterno… (Is 9,6)e outras coisas assim. Ora, se é Deus, só Lhe deve interessar a santidade dos homens e isso tem a ver com o pecado.

Benjamim – A propósito de pecado: Uma vez, o Chefe da Sinagoga disse que o Messias viria para abrir as portas do paraíso aos Justos e para estabelecer na Terra um Reino de Paz e  Amor.

David – Se calhar, é isso, porque o profeta Isaías diz que um dia os animais selvagens e os domésticos conviverão sem se comerem e que até uma criança poderá meter a mão na toca da víbora e que os filhotes do leão brincarão com os filhotes das ovelhas e das vaquinhas,…(Is 11, 6-9), mas os animais aqui podem ser os homens. Ora, para os homens se amarem é preciso que eles se sintam todos irmãos e que não se guerreiem uns aos outros. E só num Reino de Amor é que isso é possível. Esse Reino do Amor será o Reino do Messias, pois o profeta Isaías até diz que será mesmo assim, porque as espadas enferrujarão por falta de uso.

Simeão – Eu curvo-me perante tanta sabedoria, ó David! …O David diz que tudo isso tem a ver com o pecado. Eu também assim penso, porque esse profeta, ou outro, também diz que ainda mesmo que os nossos pecados sejam vermelhos como o escarlate, eles ficarão mais brancos do que a neve (Is 1,18)). Sendo assim, Ele vem salvar-nos e libertar-nos das consequências do pecado.

Elias – E depois, já se pode pecar à vontade?

Simeão – Não! Era o que faltava! O pecado é inevitável, porque todos os homens são pecadores, mas o Reino do Messias será espiritual e Ele assumirá sobre Si todos os pecados da Humanidade e pagará o preço pelas ofensas feitas a Yahweh. Só depois de pagar esse preço é que os Justos do Limbo subirão ao paraíso. Só depois disso é que os Justos que morrem no Senhor irão também ao paraíso, que, como sabeis, ficou fechado depois do pecado de Adão e Eva.

Isaac – Mas onde é que tu aprendeste essas coisas?

Simeão – Eu tenho um tio que é sacerdote e ele fala-me muito destas coisas e de outras sobre o Messias.

Daniel – Lá em minha casa fala-se muito naquela passagem da Torá onde é dito ao rei Acaz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho que será chamado Emanuel”( Is 7,14),  que quer dizer,…quer dizer…Já não me lembro!”

Jónatas – Deus- connosco, Deus entre nós!

Daniel – É isso! Então, a tal Virgem é esta donzela! Que sorte nós tivemos em vê-La a Ela e ao Messias, Seu Filho! Isto quer dizer que aquele homem não é o pai do Menino, mas finge ser! Nesse caso, quem é o pai do Menino?

Levi – Não é ninguém!

Todos – O quê!!! Como pode ser isso?

Levi – Se o Menino é o Messias, o Messias é Filho de Deus; se é o Filho de Deus, também é Deus e ninguém pode ser o pai de Deus. Neste caso, o Pai do Filho de Deus é o próprio Deus! Porque ninguém que seja filho de um homem pode ser Deus. Isto quer dizer que o Messias foi gerado pelo próprio Deus no seio daquela Virgem e nesse caso….

Tobias – Ah! Agora percebo porque é que Ela disse que não teria dores de parto e também agora percebo porque é que Ela, após o Menino nascer, não ficou de cama como as outras mulheres e anda por ali como se não tivesse havido parto nenhum! Pois é! Agora percebo! Isto foi e é tudo obra do próprio Yahweh!

 Quer então dizer que o Seu marido,…isto é, o seu esposo, porque Ela tratou-o por “esposo”…Sendo assim,…ainda tem de haver mais! Se Ela é Virgem, o seu esposo também é! Sei lá, devem ter feito ambos voto de virgindade para toda a vida. Assim, têm de ser verdadeiros esposos, porque…senão …Ela era condenada à morte. E o Seu esposo deve ser apenas o guarda do Messias e o Seu pai adoptivo, tudo para não levantar suspeitas. Não pode ser de outra maneira. Quem penetra nos mistérios do Deus Altíssimo?

Samuel – Ó rapaz, pareces um profeta! Em que trapalhadas filosóficas e teológicas nos meteste! Um dia, Ele e Sua Mãe vão explicar-nos tudo isso. Por agora, alegremo-nos e louvemos o Senhor! Mas antes, tenho que vos colocar uma questão: Qual foi o profeta que anunciou que o Messias nasceria em Belém de Judá? Aguardo a resposta certa!… Então, ninguém arrisca?…Então, eu digo: Foi o profeta Miqueias.

Simeão – O que é que ele disse exactamente?

Samuel – Disse: “Mas tu, (Belém) Éfrata, embora a menor das cidades de Judá, de ti sairá para mim Aquele que dominará em Israel” (Miq 5, 1)

Levi – Mas eu ainda tenho uma coisa a dizer, uma coisa que se passou comigo quando estava a beijar o pezinho do Menino.

Todos – O que foi? O que foi?

Levi– Não sei se diga! Ides dizer que estou maluco! Posso enganar-me, porque não sei se foi real ou se foi apenas uma impressão estranha. Pareceu-me ter uma visão diferente do Menino. É que, enquanto Ele chorava, eu vi-O sorrir para mim!… Pronto, já disse! Já podeis chamar-me maluco!

Todos (um por um): Olha, comigo aconteceu a mesma coisa!

Jonas – Eu só não falei porque,…mas então aconteceu o mesmo convosco! Que maravilha!

Daniel – Foi isso mesmo! Somos todos malucos! Ele sorriu para nós! Nós somos os seus primeiros amigos! Glória a Deus e ao nosso Messias pelos séculos dos séculos!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

João – Eu tenho ainda uma coisa a perguntar ao Elias. Tu disseste que ias a Hebron dar a notícia àquela  Sua parente, de nome Isabel?

Elias – Disse e vou cumprir o mais rápido possível. Aliás, há aqui qualquer coisa que se me escapa. Parece haver coincidências a mais! Essa Isabel…faz-me cá confusão!

Todos – Conta! Conta!

Elias – É assim! Há lá em Hebron um casal já muito idoso que conseguiu ter um filho. Ele tem agora uns  quinze ou dezasseis meses…. por aí,  e, lá, todos comentam que não sabem como é que isso aconteceu, pois naquela idade, a tal Isabel já não podia engravidar. Para mais, ela sempre foi considerada estéril. O marido é o sacerdote Zacarias e também já é muito velho. Mas dizem por lá que um anjo lhes anunciou um filho, e que ele, por ter duvidado do anjo, ficou mudo até o menino nascer. Esse menino chama-se João.

José – É tudo muito estranho! O Messias foi concebido milagrosamente por Yahweh no seio de uma Virgem,  o Joãozinho foi profetizado também e também milagrosamente foi concebido por um casal estéril. Para mais, da mesma família!

Daniel – Será que ambos os nascimentos não estarão intimamente relacionados? E porque é que o Joãozinho nasceu primeiro que o Messias?

Jónatas – Porque tinha de ser!

João – Explica-te!

Jónatas – Eu sei lá explicar isso? Mas, um dia, ouvi um Chefe de Sinagoga dizer que um mensageiro iria à frente do Messias a preparar o seu caminho (Malaquias 3,1). Só não sei como é que ele explicou o resto. Já não me lembro! Ele disse que isso tinha sido escrito por um profeta, que também já não sei qual foi!

David – Então, se assim é, isso deve demorar para aí uns 20 ou trinta anos! Será que ainda estaremos todos vivos nessa altura? Assim, já sabemos! Quando ouvirmos  o  mensageiro João, saberemos que o Messias vai também entrar em acção! Quem me dera viver até lá!

Jonas–  Egoísta! Diz antes: Quem nos dera a todos viver até lá! A Mãe disse que um dia Ele nos retribuiria a visita!

Todos – Assim o esperamos! Louvado seja o Senhor, Deus de Israel! (1)

Elias – Mas eu ainda tenho uma coisa para dizer! Vós vistes lá alguma candeia ou lanterna a dar luz?

Todos – Não!

Elias – Então, de onde vinha toda aquela luz, se não havia nenhuma fonte de luz?

Todos – Bem visto! Quem sabe, diga!

Simeão – Era a própria Luz do Menino, uma vez que Ele é Deus! E agora pergunto eu: O Levi disse, quando estava lá a espreitar, que cheirava a fumo. Alguém cheirou o fumo lá dentro?

Todos – Não!

Simeão – Então, foram os presentes que o Menino nos ofereceu em troca dos nossos! Glória a Deus nos Céus e paz na Terra aos homens!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

E a conversa continuou animada até ao telheiro onde se protegiam do frio e mantinham vigilância sobre os rebanhos.

“E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito” (Lc 2, 20)

(1) Uma das primeiras preocupações de Jesus, quando começou a sua vida pública, foi mesmo ir até Belém e contactar os pastores ainda vivos. Todos eles viveram na expectativa de voltar a encontrá-Lo, mas para alguns (poucos) isso já não foi possível. Os outros tiveram a felicidade de O reencontrarem e de se tornarem Seus discípulos.

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Ezequiel Miguel

O Sinédrio trama ciladas contra Cristo

(Realidade & ficção)

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Personagens: Caifás, Anás, Doras, Elquias, Jeremias, Zacarias, Samuel, Sadoc, Josias, Eliseu, João, Simão, Enoch

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Judeus15O Sinédrio reúne para discutir o assunto. Precisam-se  ideias  para montar ciladas a Cristo e desmascará-LO perante as multidões. Para isso foi  ele convocado parcialmente, no sentido de impedir que os  sinedritas amigos de Jesus estejam presentes. É um assunto que tem de ser tratado urgentemente e no máximo segredo, como tudo o que é  de carácter conspirativo. A reunião realiza-se, secretamente, em casa de Caifás, e não no Templo, por motivos de segurança contra espiões.

Caifás– (Presidente e sumo sacerdote) – Caríssimos santos de Israel, convoquei-vos para tratarmos de um grave problema que nos causa grandes preocupações e angústias, por não sabermos bem como enfrentar o galileu. É que, a continuar como até aqui, estaremos a pôr em risco a nossa nação, a nossa Lei, o nosso culto e os nossos costumes! E digo mais: até podemos vir todos a ser vítimas dos romanos. Penso que já estais a par deste assunto de que vamos tratar. Propositadamente, não foram convidados aqueles membros do Sinédrio que não pensam como nós. Confiado em que o assunto de hoje não transpirará para o exterior, eis o que nos traz aqui:

O galileu, que arrasta multidões, serve-se de poderes mágicos para provocar falsos milagres que enganam toda a gente. Todos estamos convencidos  de que ele age por virtude de Belzebú, com quem ele tem provavelmente um pacto secreto. Os nossos espiões transmitem-nos tudo o que ele diz e faz, mas nada disso nos dá motivos para o prendermos e o julgarmos. Precisamos de provas mais convincentes, pois, daquilo que vemos e sabemos, há sempre o risco de não interpretarmos bem as coisas. Também não o podemos prender assim sem mais nem menos, para o soltar logo a seguir, se a multidão  se armar contra nós e puser em risco a nossa segurança. Depois, poderão vir os romanos e…sabe-se lá o que poderá acontecer!

Assim, preciso que de vós saiam sugestões que possamos pôr em prática para o apanharmos em pecado, conseguindo, assim, desmascará-lo de uma vez por todas e afastar dele as multidões que o seguem, na expectativa de curas milagrosas. Agora, cada um apresentará o seu plano, que todos ouviremos com atenção, deixando os comentários, se os houver, para o fim.

 Anás – Eu penso que devemos estudar bem, e preparar melhor, algumas ciladas, pondo-lhe questões enigmáticas, capciosas e dilemáticas, em que qualquer uma das suas respostas seja um trunfo a nosso favor e contra ele. Refiro-me a alguma passagem das Escrituras de difícil interpretação ou de interpretações contraditórias. Por exemplo: Yahweh proibiu fazer imagens de tudo o que há nos céus, na terra e nos mares. Eis a questão: Então, porque mandou ele a Moisés fabricar uma serpente de bronze e erguê-la no deserto? E porque mandou  Ele construir dois Querubins sobre a Arca da Aliança? Yahweh deu ordens contraditórias ou não? Ele terá de explicar! E aí podemos apanhá-lo em contradição, seja qual for a resposta que ele der.

Doras – Eu sugiro o seguinte: Podíamos apanhá-lo de noite, atacando a casa onde ele e os seus discípulos  pernoitam. Depois, julgávamo-lo por aquilo que ele fez ao meu pai. Deveis estar lembrados que ele lançou uma maldição sobre os pomares de meu pai e todas as árvores secaram imediatamente e lá continuam mirradas,  esqueléticas e estéreis. Mais: Ele fulminou o meu pai, quando ele se preparava para o apedrejar. Ele deve ser obrigado a pagar os prejuízos e ser julgado por homicídio.

Elquias – A minha sugestão é esta: Um de nós, por exemplo, eu, podíamos convidá-lo para uma refeição em nossa casa e arranjávamos um estratagema que o impedisse de lavar as mãos antes da refeição, como manda a Lei.  Depois, acusá-lo-íamos de infringir a Lei. Perante as nossas testemunhas, ele não poderia  negar que não lavou as mãos. Se ele estiver com aqueles que andam sempre com ele, tanto melhor, pois  também não teriam ocasião para lavar as mãos, caindo todos em argumentos inaceitáveis perante a Lei. Aí, poderíamos atacá-lo com os nossos argumentos, para os quais ele não teria resposta, uma vez que haveria testemunhas ali presentes.

Eliseu– A minha sugestão é esta: Um dia em que ele apareça lá pelo Templo e desate a pregar, desafiamo-lo a curar um falso doente. Explico melhor: Apresentamos-lhe um doente verdadeiro e outro falso, cada um em sua maca. Depois, no meio  da discussão, acusamo-lo de realizar falsos milagres, chamamos-lhe embusteiro, mentiroso e outras coisas do género. Finalmente, desafiamo-lo a curar o doente falso e o doente verdadeiro. É evidente que ele não saberá qual é um e qual é o outro. Depois, lançamos sobre ele o ridículo  e   o descrédito, levando as pessoas a concluir que ele é um intrujão, um falso Messias, por curar um falso doente, deixando o verdadeiro doente  no mesmo estado em que foi. Nós, então, podemos provar que ele é mesmo mais um falso Messias e que os seus milagres são apenas obras de um charlatão. Teremos, assim, motivos e testemunhas para o levarmos a julgamento, por ser mais um que se arvora em Messias, a merecer a sorte que os outros tiveram: a morte

Samuel – Eis a minha  sugestão: Ele já disse muitas vezes que se apresenta como rei das almas, não estando interessado em ser um rei verdadeiro, como esperamos que venha a ser o Messias verdadeiro, quando ele chegar. Mas nós poderíamos tentá-lo a deixar-se nomear e coroar como verdadeiro rei de Israel, em vez de Herodes. Convenceríamos alguns cortesãos de Herodes e alguns amigos do galileu a entrarem no esquema, levando-os a pensar e a acreditar nas nossas boas intenções. Aos amigos de Herodes teríamos de dizer que era uma cilada ao nazareno, de contrário poderia tudo virar-se contra nós e dar mau resultado. Assim, constituiríamos um grupo de amigos seus, um grupo de sacerdotes, um de escribas, um de fariseus, um de sinedritas, um de anciãos, um de doutores da Lei. Todos seriam devidamente instruídos sobre o tipo de discurso que cada um faria, de modo a que ele acreditasse nas boas intenções de nós todos. Esquecia-me de dizer: O encontro com ele seria numa casa de campo de algum dos nossos conhecidos, longe de olhares indiscretos, para evitar complicações futuras. Todos aqueles que falassem, teriam de demonstrar-lhe que ele, sendo o Messias, é aquele que está destinado a ser o verdadeiro rei de Israel, em vez de Herodes, que ocupa o trono indevidamente, por ser filho de estrangeiros. Assim, ele seria pressionado a aceitar, já ali, a eleição, a unção real e a coroação. Um sacerdote levaria já o óleo da unção e faria tal como  fez o profeta Samuel com o rei David.Depois, se ele aceitasse, seria acusado ao Sinédrio, a Herodes e a Pôncio Pilatos.  O resto  seria fácil de adivinhar!

Josias –Eis a minha sugestão: Ele já disse que, como senhor da vida, também ressuscita mortos.   Ora, o meu plano seria assim: Faríamos uma encenação de um funeral. Quando um jovem morresse a sério, nós levaríamos também, no funeral, um falso morto, igualmente jovem. Quando o galileu aparecesse, a choradeira seria por causa de ambos. Então, essa seria  a ocasião de o provocarmos, acusando-o de fazer falsas ressurreições, porque os mortos que tinham morrido eram falsos mortos. Seria assim uma coisa parecida com o plano apresentado pelo Samuel. Ele seria desafiado, perante a multidão,  a mostrar o seu poder, se é que o tem, de ressuscitar mortos verdadeiros. Se recusasse, toda a multidão o insultaria, por não querer ajudar aquelas famílias enlutadas e não usar o poder, que diz ter, em favor dos infelizes em horas tão amargas.

Sadoc –  O meu plano é este: Seleccionaríamos um grupo de meretrizes bonitas, que, depois de bem industriadas por nós, as introduziríamos no meio das multidões, isto é, na primeira  linha dos ouvintes, em suas pregações, precisamente em frente dele e o mais perto possível dele. Aí, veríamos se a sua pregação condiz com a sua vida e com o que dizem as Escrituras. Findas as pregações, elas aproximar-se-iam dele e…tentavam seduzi-lo, com aquela arte  e astúcia que as caracteriza. Não preciso de dizer mais. É evidente que lhes pagaríamos antecipadamente metade e, depois do serviço, a outra metade ou o dobro, desde que tivessem atingido os objectivos.

Simão – Eu proponho o seguinte: Quando for possível, iremos ter com ele e pomos-lhe a questão: É ou não lícito a um Israelita pagar o tributo a César? Se ele disser que sim, atirar-lhe-emos à cara que ele não defende os interesses de Israel, como se esperaria do seu Messias, anunciado como libertador de Israel, aquele que libertará Israel de todas as opressões e opressores. Se disser que não, acusá-lo-emos a Pilatos e ele o enviará para a prisão como agitador anti romano, um inimigo de César. Não terá escapadela possível, seja qual for a resposta que dê. Depois, é só esperar para ver como ele se defende perante os romanos.

Zacarias – Eis o meu plano: Quando o encontrássemos a jeito, surgiríamos à sua frente, levando presa uma mulher adúltera, verdadeira ou falsa. Nós já levaríamos todos  uma ou mais pedras para  a apedrejar, como manda a Lei. Poderia também ser uma encenação previamente preparada. A mulher seleccionada não teria de dizer nada, apenas fingiria resistir àqueles que a arrastavam. Então, eis a pergunta que lhe faríamos: “Esta mulher foi apanhada em adultério. A Lei manda que a apedrejemos até morrer. Tu, que dizes? Apedrejamo-la ou não”? Aí,  se ele disser que sim, acusá-lo-emos de ser cruel, de não usar a misericórdia que prega, de não perdoar, porque ele diz que pode perdoar os pecados, etc. Se disser que não, acusá-lo-emos de não cumprir a Lei e aconselhar outros a não cumpri-la e, sendo assim, já o poderíamos prender por ser um agitador, um intrujão, um falso Messias, levando as multidões a afastarem –se dele.

João – Eis o que eu proponho: Não basta a alguém dizer que é isto ou aquilo, sem primeiro ter feito obras que o demonstrem. Assim, isto pode ser aplicado ao galileu. Então, a minha ideia é esta: Quando ele aparecesse lá pelo Templo, provocaríamos uma discussão com ele, contestando afirmações e  explicações sobre a doutrina que prega. É evidente que ele se defenderá com argumentos que nós não aceitamos. Quando chegasse o momento certo, exigiríamos que ali mesmo ele desse um sinal do Céu que demonstrasse que ele é o Messias verdadeiro. Podíamos combinar previamente um sinal, por exemplo: que aparecesse ali, naquele momento, um anjo do Senhor a confirmar que ele é o Messias. Se ele diz que tem os poderes de que fala, então também pode mandar vir do Céu um anjo que todos possamos ver. Se rejeitar a nossa proposta, tiraremos as devidas conclusões.

Jeremias – Também tenho uma ideia, que vou apresentar. Como ele diz que tem poderes para expulsar demónios dos possessos, podíamos encenar uma possessão diabólica, onde um falso possesso estrebucharia, berraria, deitaria espuma pela boca, cairia por terra, etc,. aquelas coisas que  são típicas do comportamento dos possessos. Ai, veríamos se ele se deixava enganar ou não e se expulsava demónios de onde eles não estavam. Mais: Se recusasse expulsá-los, iríamos acusá-lo de crueldade e desprezo por alguém que sofre. Se tentasse expulsá-los, cairíamos em cima dele com provas e acusações de intrujão, embusteiro, charlatão e outros mimos que ele merece. Depois, agiríamos em conformidade.

Caifás – Ninguém mais quer falar? Então, ponho à vossa consideração os planos apresentados. Alguém tem objecções contra algum ?… Não?… Então, consideram-se todos aprovados. A seu tempo iremos prepará-los e pô-los em execução.

Enoch … Eu também tenho uma ideia! Quando o encontrarmos, metemo-nos no meio daqueles que o cercam e  pomos-lhe a questão:  “Somos obrigados a pagar o tributo  a César ou podemos recusar pagá-lo, por abusivo e humilhante”? Se ele responder que devemos, acusamo-lo de traidor, inimigo do povo e da nação, por defender a ocupação e a exploração do nosso povo pelos inimigos romanos. Se responder que não, acusamo-lo a César, por ser inimigo de César. Aí, a polícia secreta tomaria conta dele, por ser um potencial inimigo de César, candidato à prisão e à morte. Seria uma possibilidade de nos livrarmos dele sem responsabilidade para nós.

Anás – Só mais uma coisa! Contamos com Judas Iscariotes para nos ir informando sobre o paradeiro do galileu. Combinaremos com ele quanto lhe pagaremos pelo serviço, que não será muito, pois a sua avidez por dinheiro torna tudo mais fácil. E já agora, tenho mais uma ideia. Entraríamos em negociações com o Judas, neste sentido: Nós pagaríamos ao Judas uma boa quantia pare ele conseguir convencer uma meretriz, até pode ser a sua favorita, a participar num esquema para apanhar o galileu em pecado. Bastaria que ela tentasse convencê-lo a entrar na sua casa numa noite em que ele pernoitasse por ali perto. O Judas informar-nos-ia. Então, a mulher desataria a bater nos portões e a gritar que queria falar com Jesus de Nazaré. Ele viria até ela, para saber quem era e o que queria e depois, ela  oferecer-se-ia  para o pecado. Quando ambos entrassem em casa da mulher, os que estivessem de guarda, escondidos, surgiriam pela frente e atiravam-lhe à cara o facto consumado, que seria divulgado às multidões que o acompanham, convencidas de que ele é o verdadeiro Messias. Aí, ficaria o mito desfeito e toda a gente ficaria a saber que ele é um embusteiro oportunista.

Caifás – É mais um plano válido, que, a seu tempo, executaremos. A todos  agradeço a vossa presença aqui, a bem da nossa nação e da nossa santa Lei.

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Ezequiel Miguel

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