Jesus e os Apóstolos visitam Nazaré

(Realidade & ficção)

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Jesus26É primavera. Campos, quintais, árvores, ervas e flores acordam da letargia invernal e sorriem para o sol que ilumina aquela manhã.

Cristo e os Apóstolos dirigem-se para Nazaré com o específico objectivo de visitar a Mãe. Jesus   suspira de ansiedade à medida que os quilómetros da estrada poeirenta vão ficando para trás. Inevitavelmente, Ela torna-se assunto de conversa:

João – Mestre, sabes o que me lembram estas rosas à beira das casas e nestes jardins por onde vamos passando? Lembram-me a Tua Mãe!

Jesus –  Boa lembrança, João! A Minha Mãe é realmente a Rosa das rosas, a Flor das flores, o Jardim dos jardins, a Beleza das belezas, o Perfume dos perfumes,…a Amada do Cântico dos Cânticos.

Pedro – Ela sabe que nós vamos a caminho de Nazaré?

Jesus – Não! Vamos fazer-lhe uma agradável  e dupla surpresa: por vós e por Mim!

Tiago  de Zebedeu– Mestre, às vezes parece-me que, quando Te sentes mais triste, Te vejo lançar suspiros e fico a pensar qual será a verdadeiracausa. São saudades da Tua Mãe?

Jesus – Sim, Tiago! De vez em quando preciso mesmo de apoiar a minha cabeça nos ombros da Minha Mãe. Nesses momentos esqueço as canseiras e outras dificuldades e sinto-Me como se estivesse no Céu, rodeado de anjos a consolarem-Me!  Também sou Homem como vós e preciso da Minha doce Mãe! Oh! Se soubésseis tudo a respeito dela!

Tomé – Há coisas sobre Ela que ninguém conhece?

Jesus – Há e muitas!

Nataniel– Podes dizer-nos qualquer coisa que nós não saibamos?

Jesus – Posso! Desde toda a eternidade Ela foi pensada e preparada para ser a Minha Mãe. Ela é a Nova Eva e Eu sou o Novo Adão. Ambos e em conjunto vamos reparar o que Eva e Adão estragaram. Eles fecharam as portas do paraíso aos homens e nós vamos reabri-las através da maior obra de Deus: a Redenção do género humano.

Judas Iscariotes – Mas, Mestre, como vai ser isso?  Será por meio de milagres?

Jesus – Será por meio do sofrimento que o vosso Mestre e a Minha Mãe levarão a cabo essa tarefa tremenda, num mistério que permanecerá mistério para sempre, porque o homem  não tem capacidade para atingir as suas profundezas.

Judas Tadeu – Nós já vimos que Tu sofres e às vezes até choras, sinal de que sofres com as perseguições, as calúnias, a rejeição da Tua mensagem, etc., mas a Tua Mãe,… Ela também está destinada a sofrer? Como e porquê, se Ela nunca fez mal a ninguém nem faz.

Jesus – Não faz nem fará, porque ela é a “Cheia de Graça”, conforme o anjo Gabriel A saudou. Se é cheia de Graça, Ela não pode pecar. Satanás não se aproximará Dela, pois uma escolta de mil anjos A  honra e A defende de todos os perigos.

Filipe – Mas porque é que Ela é Cheia de Graça? Porque  é Ela diferente de todos os outros homens, que nascem no pecado e estão toda a vida sujeitos ao pecado?

Jesus – Porque, nos planos de Deus, tinha de ser assim. Deus não convive com a mínima sombra do pecado, por isso, Ela foi isenta, por graça especial, das consequências do pecado de Adão e Eva. Ela é a Mulher referida no Génesis, a Mãe que fugiu com o Filho para o deserto, a Mulher que esmaga a cabeça do Dragão, Satanás, exactamente porque o pecado não teve, não tem, nem terá poder sobre Ela.

Tiago de Alfeu – Quer dizer então que Ela não está sujeita às tentações de Satanás! Que mistérios aí vão! Mistérios no Filho, mistérios na Mãe! Mistérios no Céu, Mistérios na Terra!

Jesus – Tens razão, Tiago! Ambos estamos  profetizados nas Escrituras, ambos cumprimos as profecias, ambos nascemos sem pecado, ambos realizamos a redenção pelo sofrimento, ambos amamos os homens ao ponto de aceitarmos o martírio para os salvar.

Simão  – Mas onde está o sofrimento da Tua Mãe? Quem é toda paz, doçura, bondade, sorriso, alegria,…não parece sofrer! E também uma coisa: Se ela não está sujeita ao pecado, também não devia estar sujeita ao sofrimento e à morte, que é o preço do pecado. Aqui está mais um mistério!

Jesus – Parece uma contradição, mas não é!  Lembrais-vos daquilo que o velho Simeão lhe disse quando tinha nos braços aquele Menino que agora é o vosso Mestre?

João – Eu sei o que ele lhe disse: “ Uma espada de dor trespassará o teu coração, porque este Menino está posto para salvação e condenação de muitos em Israel”.

Jesus – Então, aí tendes! Em que consistia, consiste e consistirá essa espada de dor  a atravessar-lhe o coração?

André – Para já, a Tua condenação à morte  pelo Herodes, quando eras Menino. A Tua fuga para o exílio do Egipto,  a sua gravidez miraculosa sem o esposo saber, a pobreza do Teu nascimento em Belém,…

Tiago de Alfeu – E agora, após a morte do meu tio José, seu esposo, a Tua vida pública com tudo o que Te afecta: as dificuldades, a perseguição, os teus inimigos e…qualquer coisa mais que eu agora não digo!…

Judas Iscariotes – Eu sei o que é! Como israelita que é, Ela sofre ao ver o Filho desleixar-se e atrasar-se na restauração do Reino de Israel, pois as Escrituras dizem que o Messias será Rei de Israel.

Jesus – Judas, os teus sonhos virarão pesadelos. Ela sabe que tipo de Rei Eu vou ser, um Rei que, diante Dele se tapa o rosto, como disse o profeta Isaías. É aí que a  espada da dor lhe perfurará o coração ao ver outro Coração perfurado… A seu tempo sabereis mais!  Apesar das prerrogativas que a sua condição de Mãe do Filho do Homem lhe conferem, Ela aceita voluntariamente tudo aquilo que o seu Filho aceita e sofre com tudo o que faz sofrer o Filho, numa união perfeita, completa, permanente, indissolúvel. Agora, vós vedes o seu sorriso, a sua alegria,…mas chegará o tempo em que vereis o seu rosto pálido, lacrimosos, com sulcos de sofrimento que lhe vêm do mais profundo da alma. Nesses dias, apesar de andar permanentemente guardada por uma multidão de anjos invisíveis, Ela sentirá também o abandono do Pai e sofrerá a sua agonia dolorosa em união com o Seu Filho. A espada da dor enterrar-se-á cada vez mais em seu coração até que a profecia de Simeão se cumpra na totalidade. E tudo isto em união com o Filho e pela redenção de todo o género humano. Ela é a mártir voluntária e  vai-lhe ser dado um coração maternal tão grande que nele caberão todos os homens presentes e futuros. Por agora, não digo mais sobre este assunto.

Nataniel – Mas então, Ela é uma mulher única, criada de encomenda para ser Tua Mãe e Tua Co-redentora!

Jesus – É isso, Nataniel! Disseste bem! É mesmo Única, a criatura mais bela, mais pura, mais preciosa criada por Deus, a jóia mais valiosa no anel de Sua Mão.

Tomé – Ehhh! Tudo isso? Então Ela é quase uma deusa!

Jesus– Tomé, não há deuses nem deusas! Isso são invenções humanas para adorar Satanás em suas múltiplas formas. Ela é apenas uma mulher, mas acima de todas as outras mulheres e bendita entre todas elas, as de todas as gerações, como Lhe profetizou Isabel, a mãe do João Baptista.

Filipe – Mas, se Ela é toda pura, concebida sem pecado, não pode pecar,…então Ela é mais um anjo do que uma criatura humana!

Jesus – Em verdade vos digo que a Minha Mãe está acima dos anjos, sejam eles quais forem, em Sua dignidade e santidade. Ela própria será chamada a Rainha dos Anjos, dos Justos, dos Profetas e o Seu trono estará instalado ao lado do trono do Filho. Digo-vos mais: Já toda a corte celeste a conhecia muito tempo antes de Ela ser conhecida, porque Deus A apresentou aos anjos e lhes disse qual seria a Sua missão futura, porque para Deus não há passado. É tudo presente.

Tiago de Alfeu –  Mais outro mistério! Eu cá não tenho cabeça para compreender isso!

Pedro – Não tens tu nem tem ninguém! Mas eu não tenho ciúmes Dela! Nosso é o Filho e nossa será também a Mãe!… Até pareço o Isaías a profetizar (ri).

Jesus – E profetizas bem, Simão de Jonas! Foi o Espírito Santo que te inspirou!

Simão – Então, se Ela nasceu sem pecado, também estará livre da morte, penso eu!

Jesus – E pensas bem, Simão! Ela está realmente livre da morte e da corrupção corporal, mas Ela escolherá passar pela morte,  para em tudo imitar o Filho, que também morrerá às mãos dos seus inimigos…Quanto ao Seu corpo, não terá de esperar pela Ressurreição final. Será levada ao Céu em corpo e alma, pois é ao Céu que ela pertence.

Mateus – Mestre, Tu já deste a entender, mais ou menos, a sorte e a missão de cada um no futuro. Ela também, no futuro, terá uma missão a cumprir, além daquela de ser a Tua Mãe?

Jesus – Ela vai ter uma grande missão. Chegará o tempo em que Ela vos apoiará, aconselhará, orientará, ainda mais do que faz agora. Nos séculos futuros será intercessora entre Mim e os homens. Como Mãe de todos os homens, Ela os atrairá a Mim e Eu A nomearei a Minha principal missionária. Ela terá direitos adquiridos sobre a humanidade, porque também Ela sofreu pela sua redenção. Quando os homens forem esquecendo a Minha mensagem, Ela será a Minha mensageira até eles, para os recuperar e trazê-los a Mim. Como Mãe universal, todos os homens deverão reconhecê-La como tal.

André – E quando é que Tu A nomeias solenemente Mãe de todos os homens?

Jesus – Já não falta muito tempo. Aguardai e vereis!…

Tiago de Zebedeu – Eu tenho uma pergunta atrevida a fazer! Se Tu és o Filho do Pai, Tu és Deus; se Ela é Tua Mãe, Ela é Mãe de Deus; mas Ela também é filha de Deus, porque foi Deus que A criou. Então, Ela é filha e Mãe de Deus: Mas Tu, o João e eu somos também  segundos irmãos (primos)  logo, nós somos segundos irmãos  de Deus; mas como Tu  também és Homem e dizes que todos os homens são filhos de Deus, logo, nós somos todos Teus irmãos; se somos todos Teus irmãos, também teremos todos a mesma Mãe, que será a Tua Mãe. Será isso?

Jesus – Foste brilhante, Tiag! Em curvas e contracurvas foste direito até ao fim! Vedes como todos os homens constituem a família de Deus? Mas, infelizmente, o Meu Inimigo trabalha para a dividir. Quanto a ser da Minha família, todo aquele que cumprir as Minhas palavras e levar outros a cumpri-las, como vós já fazeis e fareis no futuro, será Meu pai, Minha mãe, Meu irmão, Minha irmã, Meu segundo irmão, Minha segunda irmã (prima), Meu tio, Minha tia,…não pela carne, mas pelo Espírito. Estes são os novos parentes que Me tornarão conhecido pelo  Mundo.

Mateus –  Mas eu também tenho uma observação a fazer!  Tu dizes que Ela foi concebida sem pecado. Mas os filhos dos homens não nascem todos em pecado? Como é que Ela foi isenta? Já nasceu de pais isentos ou…como é que Deus a isentou a Ela e não isentou todas as pessoas que já nasceram e nascerão até ao fim do mundo? Isto, para mim, é muito confuso!

Jesus – A Minha santíssima Mãe está envolta em mistério, no qual não podereis penetrar. Pergunto-vos: que tipo de Messias seria Eu, se tivesse nascido de uma mulher comum, isto é, concebida em pecado?

João – Não serias o Messias anunciado pelos profetas, o Filho de Deus. Serias apenas um homem como nós, sujeito ao pecado, às doenças, à morte e  ao regresso ao pó da terra. Não serias Homem-Deus.

Jesus – Falaste bem, João! Já vedes que o Messias tinha de abrir uma excepção no curso normal do nascimento dos homens. Deus é pureza absoluta, por isso, o Seu Filho não podia nascer como nasce o resto dos homens. Por agora, contentai-vos com o pouco que vos digo, porque os desígnios de Deus não estão abertos às mentes humanas.

Judas Tadeu –Eu já sinto a cabeça às voltas, só de tentar compreender o que não consigo compreender. Agora, pergunto eu: O que estará a Tua Mãe a fazer neste momento? Não estará com certeza a preparar o almoço para todos nós, uma vez que não foi avisada!

Jesus – Anda no jardim como abelha de flor em flor, tratando das rosas e louvando a Deus pela beleza multicolor que A rodeia, o que também serve de exemplo para vós. Em tudo e por tudo deveis louvar a Deu, por vos oferecer tantas coisas maravilhosas! É assim o Seu Amor pelos Homens.

Simão – Mestre, eu tenho ainda uma pergunta a fazer!

Jesus – Diz, Simão!

Simão– Está nos Teus planos falar na sinagoga de Nazaré?

Jesus – É claro que está! Não posso perder uma só ocasião na difusão do Reino de Deus.

Simão – E eles vão aceitar a Boa Nova? Eles sempre se habituaram a ver-Te como uma pessoa normal, ignorando a Tua divindade de Messias profetizado! Tenho receio que Te maltratem!

Jesus –  Se Eu te responder, não ficarás muito satisfeito com a resposta!…Mas, para eles recusarem a Boa Nova, eles terão que a ouvir de Mim. Não conheces o provérbio que diz: “Ninguém é profeta na sua terra”?  Sendo assim, metade do que tu queres saber está aí! Será que Eu serei excepção?

 Estamos a chegar. Eu anuncio-Me primeiro, de surpresa, e, pouco depois, a um sinal Meu, apareceis todos e fareis as vossas saudações. Ela ficará agradavelmente surpreendida, dará graças e louvores a Deus e nós com Ela.

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Nota – Aqueles que nós consideramos “primos” eram chamados irmãos, por não haver a palavra apropriada.

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Ezequiel Miguel

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Jesus visita João Baptista

(Realidade & ficção)

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 Jesus31Terminara mais um dia e, após uma frugal ceia, os discípulos aconchegaram-se o melhor que puderam para passar a noite. Quando todos já dormiam, Jesus levantou-se e, sem ninguém dar por isso, saiu e foi, por caminhos estreitos, vales e encostas, ao encontro de João Baptista, entregue ao sono profundo numa gruta, nos arredores  pouco frequentados de Hinon.

Jesus – João, acorda!

João – (Ensonado e esfregando os olhos) Mas, …és Tu, Senhor?

Jesus – Sim, João, sou Eu!

João – Porquê Tu aqui?

Jesus – (Ajudando-o a levantar) Vamos ali para fora, onde podemos  admirar este belo luar que o Pai do Céu criou para os Seus filhos. Vim visitar-te por vários motivos: porque somos amigos, porque somos primos, porque és o meu Precursor, porque quero agradecer-te o bom desempenho na tua missão, porque quero animar-te a enfrentar ainda, no tempo que te resta, a fúria que se alimenta na corte de Herodes contra ti e, finalmente, porque quero dar-te alegria e receber de ti alegria, pois o meu Coração anda muito acabrunhado pelo desprezo que as almas me dedicam, a Mim que vim para as salvar…e, finalmente, porque quero garantir-te a Paz de Deus lá em cima, onde dentro em breve nos encontraremos ambos…

João – E ainda tenho de esperar muito?

Jesus – Não! Tu não ignoras que Eu, tal como tu, também tenho de passar pelo baptismo de sangue. Depois…vou buscar-te lá onde os Justos aguardam a minha chegada. Falta pouco para eu completar a Redenção.

João – (De joelhos aos pés de Jesus) – Ó meu Senhor, como Tu és bom! Eu não mereço a visita do meu Deus. Quem sou eu para que venha a mim o meu Senhor? (Chora de comoção) Já no ventre de minha mãe eu a ouvi dizer, quando Tu e  a Tua Mãe nos fostes visitar: “Quem sou eu para que a Mãe do meu Senhor me venha visitar? Estas visitas!… (Chora)

Jesus – Não chores, João, levanta-te e sentemo-nos aqui frente a frente!  O teu Deus não esquece o que se faz por Seu amor, fácil ou difícil, com dor ou sem ela, com alegria ou com tristeza, num palácio ou num deserto, numa casa ou numa caverna.

João – (Chorando ainda mais) – Que bondade a Tua, Senhor! Eu não me queixo de nada, porque Vós sempre me protegestes nos perigos, já desde o meu nascimento, em que, como Tu, fomos levados ao deserto para fugir a Herodes.

Jesus – Mesmo quando longe da tua vista, Eu te via e te protegia, enviando-te os Meus anjos, que te guardavam de dia e de noite, em todos os teus caminhos e estavam atentos a todos os teus passos. A tua voz irá calar-se, mas outras vozes Eu estou a preparar para também pregarem ao Povo da Nova Aliança, que será um Povo de reis, sacerdotes e profetas. Assim, tu serás o último dos profetas da Velha Aliança e o primeiro da Nova! O teu nome jamais se apagará da memória dos homens e do Livro da Vida.  Eu quero aqui dizer-te obrigado, porque foste fiel, não te poupaste a sacrifícios por Mim, preparaste-Me o terreno, atraíste discípulos, combateste o bom combate e foste firme em tua  fé no Messias de Israel, que vai dar-te o prémio que mereces. As tuas canseiras, jejuns, sacrifícios e perseguições, a que essa magreza cadavérica não é estranha, merecem a glória eterna Connosco. Coragem no pouco que ainda falta!

João – Obrigado, meu Senhor e meu Deus, pela Tua bondade! As minhas lágrimas são de felicidade! Como não hei-de chorar? O meu coração não aguenta esta alegria que me trazes e que faz esquecer todas as dificuldades passadas. Como aguardo que cheguemos ao fim da nossa missão martirizante e  redentora! … Mas há uma coisa que me preocupa e me deixa em angústia e ansiedade…

Jesus – Diz!…

João – São os meus fiéis discípulos. Tenho três pelos quais eu ponho as mãos no lume. Tenho receio que eles e outros se percam…, especialmente o Matias, que eu reconheço possuir uma sabedoria que só pode vir do Espírito Santo! Eu entrego-te esse e todos os outros!

Jesus – Não tenhas receio! Todos os que forem verdadeiramente teus discípulos virão para Mim e permanecerão! Quanto ao Matias, irá substituir aquele que me vai trair, o filho da perdição, como está escrito: “Tornem-se desertas as suas moradas e não haja quem habite nas suas tendas” (Salmo 68/69, 26) e “Sejam abreviados os seus dias e outro ocupe o seu lugar” (Salmo 108/109, 8).

João – Obrigado, meu primo, meu Mestre, meu Senhor, meu Deus! Eu não mereço tantas atenções e tantas graças da Tua parte. Sou apenas um dos Teus servos humildes que nada mais ambiciona que agradar ao meu Deus!

Jesus –  (Impondo as mãos sobre a cabeça de João, ajoelhado a Seus pés) Tu achaste graça diante de Deus e nós te daremos a coroa da glória. Quando chegar a hora, morre em paz, imagina-Me à tua frente e não temas! Eu estarei a ver-te subir para a mansão dos Justos. E agora, querido primo, vamos dar o beijo da paz como Mestre e discípulo.

João – Eu, beijar-te, Senhor! Não tenho coragem de beijar o meu Deus! Prefiro ser beijado por Ele!

Jesus – Como queiras, querido primo! Levanta-te e demos o abraço da despedida e o beijo sagrado do Amor de Deus por ti. Adeus! A minha paz, a paz de Deus, esteja sempre contigo e te proteja. Até breve!

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Ezequiel Miguel

 

 

Cristo e o Seu exame de maturidade

(Realidade & Ficção)

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A Lei era clara e Jesus não se quis dispensar dela. Aos 12 anos deveria apresentar-se no Templo de Jerusalém para se submeter ao exame de maturidade, a fim de, ficando aprovado, passar a ser contado entre os “Filhos da Lei”, com tudo o que isso implicava em direitos e deveres.

Tratava-se de um exame de catequese, onde lhe eram postos problemas bíblico-teológicos a que ele teria de responder perante 10 Sacerdotes, todos eles sábios na Lei , acrescendo ainda o conhecimento sobre a história, as tradições e os costumes de Israel e também muitas das 613  disposições legais  introduzidas abusivamente e que tornavam a Lei um fardo impossível de carregar, facto que mais tarde o próprio Cristo haveria de condenar, atirando-o à cara dos fariseus, ao dizer-lhes que não fora Deus quem tornara a Lei impossível de cumprir, mas eles e o resto das autoridades religiosas. Cristo disse, então, que o Decálogo (Dez Mandamentos), dado directamente por Deus, era suficiente, sendo tudo o resto da autoria dos homens.

Para efeito do exame de maturidade S.José  deslocou–se, com Jesus, ao Templo, a fim de cumprirem essa prescrição legal .

Vamos agora ao exame de maturidade e imaginemos Jesus em frente de dez sacerdotes (doutores da Lei), todos fitando um jovem de 12 anos, alto, loiro, elegante, de corpo bem feito e robusto, parecendo mais um adulto do que um rapazinho, embora o Seu rosto redondo e rosado diga a todos que se trata ainda de um menino, tudo confirmado pelos seus grandes olhos lançando um olhar alegre e vivo, que se fixa sobre os Seus examinadores, todos com ar sério, inquisidor e num porte majestoso e altivo, em parte produzido pela solenes e vistosas vestes de que se revestem. Eles estão sentados com toda a dignidade em bancos baixos de madeira. Após a apresentação feita por S. José, este requer que Lhe seja feito o exame.

1º Sacerdote – Vem cá para a frente, menino! Qual o teu nome?

Cristo –  Jesus de José, de Nazaré.

Sac. – És nazareno! …Sabes ler?

Cristo -Sim, rabi! Sei ler as palavras escritas e as que estão encerradas nas próprias palavras.

Sac. – Que queres dizer com isso? Explica-te!

Cristo –  Quero dizer que também compreendo o significado que está escondido por baixo de uma alegoria ou um símbolo, tal como a pérola que não se vê, mas está encerrada numa concha pouco atractiva e  fechada.

Sac. – Esta resposta não é comum e está cheia de sabedoria. Raramente se ouve algo parecido em pessoas adultas, quanto mais vinda da boca de um menino…ainda por cima de um nazareno!…Estás a deixar-nos intrigados e vemos no teu olhar firme e porte humilde que revelas grande certeza naquilo que dizes. O teu mestre deve ser muito sábio e tanto ele como  os teus pais devem sentir-se muito honrados e orgulhosos.

Cristo – A Sabedoria de Deus assentou a sua Morada no coração do Meu Mestre.

Sac.  -(Dirigindo-se a S. José) – Feliz de ti, ó pai, que tens um filho assim!

S. José, lá do fundo da sala, sorri e faz uma vénia de agradecimento.

Sac. – (Para Jesus): Tens aqui três rolos. Lê aquele que está envolto numa fita de ouro.

Jesus abre o rolo e começa a ler. É o Decálogo (Dez Mandamentos). Um dos sacerdotes tira-lhe  o rolo das mãos e diz:

Sac.- Continua, de cor!

Jesus diz de cor o resto do Decálogo e inclina-se profundamente sempre que pronuncia a palavra “ Iahweh”, (Senhor, Deus), o que não deixa de intrigar os juízes do júri.

Sac. – Diz-me lá, menino! Quem te ensinou a fazer isso e porque o fazes?

Cristo – Porque o Nome de Deus é santo e deve ser pronunciado com sinais de respeito interno e externo. Perante o rei, que o é por pouco tempo e que não passa de pó, os súbditos inclinam-se. Perante o Rei dos reis, o Altíssimo, Senhor de Israel, não se deverá inclinar toda a criatura, que depende Dele eternamente?

Sac. – Muito bem! (Dirigindo-se a S. José): Homem, o teu filho deixa-nos sem palavras. Tal sabedoria parece não ser humana. Nós aconselhamos-te a mandar instruir o teu filho por Hilel, o maior  e mais santo dos nossos Doutores…ou por Gamaliel, parecido com ele! O teu filho é nazareno,… mas as suas respostas fazem adivinhar que ele será um dia um grande doutor!

S. José – Isso é com Ele. Ele já  é maior de idade e fará como quiser! Se for uma coisa honesta, eu não me oporei.

Sac. – Rapaz, escuta bem! Tu disseste, de acordo com o que lá está escrito: “Lembra-te de santificar as festas, por ti e também pelo teu filho, tua filha, teu servo, tua serva e até pelo teu jumento, pois está dito que ele não trabalhará ao sábado”. Agora diz-me uma coisa: se uma galinha põe um ovo em dia de sábado, ou se uma ovelha tem um parto,  será lícito usar do fruto dos seus ventres ou será isso considerado uma coisa má?

Cristo – Nada disso é pecado nem vai contra o preceito, porque uma coisa é o homem e outra é o animal e o que ele faz em virtude das leis naturais a que está sujeito. Quem peca é o homem quando o obriga a trabalhar e o maltrata, ainda por cima! Se a galinha e a ovelha estão sujeitas a leis naturais, essas leis cumprem-se, por isso nem o ovo nem a cria da ovelha têm algo de mau ou de pecaminoso, ao virem à luz  em um dia de sábado.

Sac. – E porque não, se todo e qualquer trabalho no sábado é pecado?

Cristo –   Porque o conceber e o gerar correspondem à vontade do Criador e estão regulados por leis que Ele ditou. A galinha e a ovelha apenas obedecem a estas leis que gerem a concepção, a gestação e o desenvolvimento da cria e do ovo. Elas apenas dão glória e louvor a Deus, ao obedecerem às Suas leis, coisa que os homens nem sempre fazem.

Sac. – Desisto! Eu não continuo a examiná-lo mais! A sua sabedoria supera a minha. Eu nunca assim vi nem ouvi nada que se pareça. Isto não é normal. Até parece que  já nasceu ensinado!

Sac. – Não! Ele diz que é capaz até de compreender os símbolos e as alegorias. Vamos ouvi-lo. Então, menino, recita um salmo com as respectivas bênçãos e orações!

Sac. – E também os preceitos!

Cristo inicia então uma ladainha de proibições:”Não fazer isto…não fazer aquilo… nem aquilo…”,etc.

Sac. – Basta! Abre agora o rolo da fita verde”!

Jesus abre e começa a ler em voz alta.

Sac. – Mais adiante… um pouco mais… mais… Chega! Lê agora e explica-nos o que é um símbolo, em tua opinião.

E Cristo leu a passagem relatada em 2 Reis 22, 10-13, em que o rei Josias censura os seus antepassados algo remotos, por terem desprezado o conteúdo de um livro  acabado de lhe chegar às mãos, através do qual ele conclui que Deus deverá estar irado por não se ter observado o que Ele mandava, o que explica alguns castigos que caíram sobre Israel.

Sac. – Chega! Não é preciso mais! E então, que símbolo encontras num facto de uma crónica escrita há séculos? Que palavras encobertas é que tu descobres por baixo das palavras desta crónica tão antiga?

Cristo – Encontro o facto de que vós não tendes tempo para o que é eterno. E eterno é Deus, a nossa alma e as relações entre Deus e a alma. Por isso, o que provocou o castigo naquele tempo (desprezo das leis de Deus) é o mesmo que provoca os castigos agora e no futuro , porque também os efeitos do pecado são iguais.

4º Sac. – (irritado) – Que queres dizer com isso? Estás a censurar-nos? Quererás tu dizer que nós desprezamos a Lei e os profetas, nós que somos os santos de Israel, os guardiões e os mestres da Lei?

Cristo – Israel já não conhece a Sabedoria que vem de Deus. É a Ele que precisamos de pedir a Luz, porque onde não houver a Sua Luz, não haverá nem justiça nem fidelidade a Deus. É por isso que se peca e o pecado atrai a ira de Deus.

5º Sac. – Dizes então que nós já não conhecemos a Sabedoria de Deus? O que tu dizes, rapaz! Isso é uma blasfémia! E que dizes  tu dos 613 preceitos?

Cristo – Os preceitos existem, porque vós os inventastes, mas eles não passam de palavras. Israel os sabe mas não os põe em prática e isso equivale a dizer que não os sabe.. E eis o símbolo: todo o homem, em qualquer tempo, tem necessidade de consultar o Senhor para conhecer a Sua vontade e proceder como Ele quer, confiando sempre Nele.

1º Sac. – O rapaz é perfeito. Nem mesmo uma cilada perturbou a sua resposta, plena de Sabedoria. Ele tem sempre a resposta certa na ponta da língua, não hesita, não gagueja, não duvida, não pára para pensar, não se engana, não emenda nada, não se desdiz de nada, …Não compreendo como é possível tal sabedoria num rapazinho de doze anos. Até parece que já nasceu Doutor! Não temos mais nada a perguntar-lhe. Terminamos! Levai-O à verdadeira sinagoga para as praxes finais.

Terminara o exame, com distinção…como diríamos hoje. E foi assim que Deus se submeteu a ser examinado por um júri de juízes humanos… Dali, José e Jesus  passaram a uma sala pomposamente engalanada, onde se procedeu às cerimónias de investidura de Jesus como Filho da Lei. Tudo começa com um corte do cabelo de Jesus, guardando S. José os Seus grandes e loiros caracóis ;  apertam-lhe em seguida a veste vermelha com uma cinta comprida que passa por diversas vezes à volta da cintura. Umas fitas são também amarradas na fronte, no braço e no manto de Jesus, seguras por um broche. Tudo termina com uma oração e o canto de salmos de louvor.

O sacerdote e Doutor da Lei, Hilel, referido como a autoridade máxima no conhecimento e interpretação da Lei, já tinha falecido quando Cristo iniciou a sua vida pública. Cristo referiu-se a ele, numa visita com os apóstolos ao seu túmulo, como um dos grandes e um Justo de Israel. Quanto a Gamaliel, também aqui referido, era outro Sacerdote e Doutor da Lei que tinha a seu cargo muitos discípulos.  Em tempos pedira a Deus que lhe desse um sinal sobre a vinda do Messias. Pouco tempo antes da Sua Paixão Cristo enviara-lhe um recado a alertá-lo para a proximidade do sinal que pedira 20 anos antes. Apesar disso, Cristo passou por ele várias vezes, no Templo, sem que ele fosse capaz de O reconhecer  e aceitar como o Messias esperado, incapaz de se libertar da dúvida se seria ou não seria o Messias.  Só O reconheceu e se converteu após a morte do Senhor.

Como conclusão, chamo a atenção para uma das passagens do texto onde se fala dos símbolos ou alegorias e das palavras que estão escondidas sob as palavras que lemos na Bíblia, a qual pode ser lida milhentas vezes sem que se descubram as palavras escondidas, o sentido profundo do que se lê…porque falta a Sabedoria de Deus para atravessar a carapaça da ostra e chegar à pérola… Talvez por isso, o sentido profundo da Palavra de Deus, que ouvimos ou lemos com frequência, nos fique escondido, transformando a Bíblia num fontanário seco. Este é um tema sério para aqueles que a lêem,  a estudam, a pregam,  a ensinam,  a interpretam,  escrevem sobre ela…Onde faltar a Sabedoria de Deus haverá erro e a Sabedoria de Deus apenas anda com quem se sintoniza com Deus em tudo, vivendo seriamente de acordo com a Sua Lei e os Seus interesses.

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Ezequiel Miguel

Aparições da Virgem Maria em Fátima – I

13  de Maio de 1917

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Escolhemos nesse dia, para pastagem do nosso rebanho, a propriedade pertencente a meus pais, chamada Cova da Iria. Determinámos, como de costume, qual a pastagem do dia, junto do Barreiro…e tivemos, por isso, que atravessar a charneca, o que nos tornou o caminho dobradamente longe. Tivemos, por isso, que ir devagar, para que as ovelhinhas fossem pastando pelo caminho e chegámos cerca do meio dia”.

Da 4ª Memória da Ir. Lúcia:

“ Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria, a fazer uma paredita  em volta de uma moita, vimos, de repente, como que um relâmpago.

Lúcia -É melhor irmos embora para casa… que estão a fazer relâmpagos;  pode vir uma trovoada.

Francisco e Jacinta – Pois sim.

E começámos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos. Então Nossa Senhora disse-nos:

Virgem Maria (V.M.)- Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

Lúcia – De onde é Vossemecê?

V. M. – Sou do Céu.

Lúcia – E que é que Vossemecê me quer?

V.M . – Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.

Lúcia – Eu também vou para o Céu?

V.M. – Sim, vais.

Lúcia – E a Jacinta?

V.M. – Também.

Lúcia – E o Francisco?

V.M. – Também, mas tem que rezar muitos terços.

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com a minha irmã mais velha.

Lúcia – A Ana das Neves já está no Céu?

V.M. – Sim, está.

Parece-me que devia ter uns 16 anos.

Lúcia – E a Amélia?

V.M. – Estará no purgatório até ao fim do mundo.

Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos.

V.M. – Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

Todos – Sim, queremos!

V.M. – Ides, pois, ter muito quer sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.) que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como um reflexo que delas expedia,  penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:-“Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento”.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

V.M. – Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida começou-se a elevar serenamente, subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivos por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu “.

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Quando nessa mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos pensativos, a Jacinta, de vez em quando, exclamava com entusiasmo:

Jacinta –  Ai que Senhora tão bonita!

Lúcia –  Estou mesmo a ver… ainda vais dizer a alguém!

Jacinta –  Não digo, não! … Está descansada!

No dia seguinte, quando seu Irmão correu a dar-me a notícia de que ela o tinha dito, à noite, em casa, a Jacinta escutou a acusação sem dizer nada.

Lúcia – Vês? Eu bem me parecia! …

Jacinta– Eu tinha cá dentro uma coisa que não me deixava estar calada! ….

Lúcia – Agora não chores! E não digas mais nada a ninguém do que essa Senhora nos disse!

Jacinta – Eu já disse!

Lúcia – O que disseste?

Jacinta – Disse que essa Senhora prometeu levar-nos para o Céu!

Lúcia – E logo foste dizer isso!

Jacinta – Perdoa-me,  eu não digo mais nada a ninguém! “

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Leitura aconselhada:  Memórias da Ir. Lúcia, Vice-postulação , Fatima

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Ezequiel Miguel

Os discípulos de Emaús contam

(Cf. Lc 24, 13-49)

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(Realidade & ficção)

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emaus-.jpg“Não nos ardia cá dentro o coração, quando Ele nos falava no caminho (para Emaús) e nos desvendava as Escrituras?  Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, que lhes disseram: ”Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. E eles contaram o que lhes tinha acontecido no caminho (de Emaús) e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir do pão” (Lc 24, 32-35).

Os discípulos de Emaús voltaram a Jerusalém e foram directos ao Cenáculo, o local da Última Ceia. Lá estavam os Onze com as mulheres que acompanharam Jesus na Sua Paixão e morte e, possivelmente, a Virgem Maria, a primeira a ser informada pelo próprio Jesus ressuscitado. Estes discípulos esperavam ser os primeiros a dar a alegre notícia da ressurreição do Senhor, não escondendo o seu discurso entusiástico sobre o que lhes tinha acontecido, mas a notícia chegara aos Onze através de Simão Pedro, antes de chegar a eles.  Simão Pedro foi o primeiro Apóstolo a ver Jesus ressuscitado. Isso  se compreende se tivermos em conta a primazia que Jesus já lhe tinha confirmado, ao escolhê-lo para  Chefe da Igreja, que ia ser inaugurada no dia de Pentecostes.

Umas pancadas na porta da casa causaram alguma preocupação, pois pairava no ar a ideia de os apóstolos virem a ser perseguidos ou até mortos pelos soldados do Templo. Mas, passado algum tempo, os dois discípulos  regressados de Emaús tiveram a alegria de poderem entrar com a esperada boa nova: “O Senhor ressuscitou e nós vimo-LO”

Todos os habitantes da casa se reuniram na sala do Cenáculo para ouvirem o que os dois tinham para contar:

Pedro – Então, o que tendes a contar com esse ar tão alegre e essa excitação que mostrais?

Lucas – O Senhor apareceu-nos em Emaús e nós viemos ter convosco, pois não podemos ficar calados perante este estrondoso acontecimento.

Cléofas – O meu amigo e eu íamos caminhando abatidos pela tristeza e angústia quanto ao futuro, pois as dúvidas assaltavam-nos. Íamos conversando quando, a certa altura, um homem que se intitulava sacerdote e profeta começou a mostrar-nos que não havia motivos para as nossas apreensões, pois, dizia ele, o Mestre cumpriria o que anunciou: que seria morto, mas que ressuscitaria ao 3º dia. Ora, já estávamos no 3º dia e…não víamos nada disso.

Lucas– O que seria de nós? Onde nos esconderíamos para escapar à prisão e talvez à morte, por sermos seus discípulos? Íamos em conversa nebulosa quando um sacerdote, ou pessoa importante, se aproximou e meteu conversa connosco. Perguntou primeiro qual o motivo da nossa triste conversa. Nós revelámos os motivos e ele foi destruindo, um após outro, esses motivos, revelando uma sabedoria tal, que nos deixava de boca aberta. Ele sabia tudo sobre as Escrituras e até o mais ínfimo pormenor sobre o Messias, demonstrando-nos que o Mestre era o Messias anunciado e que se cumpriria tudo o que as Escrituras diziam  sobre ele. Um espanto! Estávamos admirados e começámos a sentir qualquer coisa que mexia connosco cá dentro, mas que não sabíamos explicar. Aquilo não era sabedoria humana.

Cléofas – A certa altura, surgiu o cruzamento que assinala o caminho  para Emaús. Estávamos em vias de nos despedir. Ele disse que seguia adiante. Foi então que nós o convidámos para petiscar qualquer coisa connosco. Ele aceitou. Sentámo-nos à mesa, nós de um lado e ele do outro, à nossa frente. Ele pediu que fosse um de nós a fazer a oração. Feita a oração, ele pegou no pão, olhou para o céu, partiu-o, deu um bocado a cada um e…desapareceu! Era o Mestre, disfarçado, de modo que não foi possível reconhecê-lo. Levantámo-nos rapidamente, enfiámos qualquer coisa nos bolsos e fomos comendo pelo caminho. Agora, aqui estamos! Ele ressuscitou! Aleluia!

Pedro – Alegramo-nos convosco e com o que contais, pois o Senhor ressuscitou mesmo e já me apareceu, por isso, já não há dúvidas.

Agora, preparamo-nos para ir para a Galileia, conforme disse à Maria Madalena. Lá, nos aparecerá novamente e nos dirá o que fazer. A redenção está consumada e agora é a nossa vez de conquistarmos o mundo para Ele.

“Enquanto isto diziam, Jesus apresentou-se no meio deles e disse-lhes:

Jesus – A paz esteja convosco! Vejo-vos temerosos e assustados, pois julgais que sou um espírito. Porque estais tão perturbados e porque surgem dúvidas nos vossos corações? Vede as minhas mãos e os meus pés! Sou eu mesmo! Tocai-me e olhai que um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho. Vejo que vos custa acreditar. Tendes aí alguma coisa que se coma?

Pedro – Temos peixe assado.

Jesus – Então, trazei, pois vou comer à vossa frente, para que as vossas dúvidas se desfaçam. Estas foram as palavras que vos disse, quando ainda estava convosco: que era necessário que se cumprisse tudo quanto a meu respeito está escrito em Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Vou abrir o vosso entendimento para que compreendais as Escrituras. Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar dentre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém. Vós sois as testemunhas destas coisas. E Eu vou mandar sobre vós o que meu Pai prometeu.” Entretanto, ide para a Galileia, onde Eu vos espero. Depois, vireis para Jerusalém, onde aguardareis até que uma força do Alto vos transforme e vos torne capazes de conquistar o mundo para Mim.

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

. No caminho de Emaús

 

O Sinédrio e os guardas do sepulcro de Cristo

(Realidade & ficção)

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Personagens:

. Cassius (centurião romano)

. Guardas do Templo

. Anás e  Caifás (sumos sacerdotes do Templo e presidentes do Sinédrio judaico)

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guardas04 “Terminado o sábado, ao romper da aurora do primeiro dia da semana, Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro. Nisto, houve um grande terramoto. O anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela….Os guardas, com medo dele, puseram-se a tremer e ficaram como mortos”. (Mt 28,1-4)

A Ressurreição de Cristo foi precedida de fenómenos que continuarão para sempre registados pelos evangelistas, os quais se referem a um verdadeiro anjo, que produziu uma onda de luz, um enorme terror nos guardas e um estrondo de rebentar os ouvidos, logo seguidos da remoção da pedra da entrada  do sepulcro, momento da Ressurreição gloriosa de Cristo.

Os soldados, porém,  que eram guardas judeus do Templo, viram a luz e ouviram o estrondo, mas devem também ter visto o anjo, perante o qual foram apanhados pelo terror  e  por ali ficaram desmaiados, tal como Maria Madalena e as outras companheiras os viram. Quando eles vieram a si:

1º guarda: Eh rapazes! O que foi que nos aconteceu? O fogo que ardia aqui com tanta força apagou-se! Isto quer dizer que alguma coisa se passou há já umas horas!

2º guarda –Mas é claro que se passou alguma coisa! Olhai para o sepulcro! Ele está aberto! É melhor irmos lá a ver!… O quê? O corpo não está cá! Nem sequer o lençol em que ele estava envolvido! Raios! Estamos tramados!  Como é que vamos justificar isto perante Anás e Caifás? Será que poderemos escapar à prisão?

3º guarda – Calma! O Centurião Cassius deve saber! A propósito: onde é que ele está? Ele não estava aqui estendido como nós! Deve andar por aí! Vamos dar uma volta! Ele deve saber mais do que nós sabemos sobre tudo o que se passou. Mas ele só deve contar o que viu e o que sabe ao governador, pois foi para isso que Pilatos lhe mandou estar por perto.

4º guarda – Olhai! Ele vem aí!

Cassius – Então rapazes? Dormistes bem? Então, é assim que cumpris as ordens dos vossos chefes? Eles não vão gostar nada daquilo que lhes ides contar!…

5º guarda – Se dormimos bem? Nós não sabemos explicar este sono. Só sabemos que alguma coisa estranha passou por nós! Sentimos um terramoto,  um grande estrondo e uma luz que nos envolveu. Então, vimos um anjo do Senhor a olhar-nos com cara de poucos amigos, tivemos medo e depois, …não sabemos mais o que nos aconteceu!

Cassius – Eu sei o que vos aconteceu, mas não vou explicar-vos agora. Mais tarde! Eu não tenho aqui mais nada que fazer, por isso, vou transmitir a Pilatos o que se passou. Eu contarei o que vi e vós fareis o mesmo, quando chegar a vossa vez. Não vos ponhais a inventar!

6º guarda – E  achas que nós também devemos contar ao governador, uma vez que foi ele que deu a autorização para esta missão?

Cassius –Eu penso que sim, se ele vos convocar! Poderemos fazer assim:  Eu e alguns de vós iremos ao governador. Primeiro, conto eu a minha versão. Mais tarde, quando eu vos indicar, ireis,  alguns de vós,  expor-lhe a vossa verdade. Os outros irão ao Templo e contarão o que sabem. Nada de inventar! Todos vós vistes e sentistes a mesma coisa, por isso, tem de haver unanimidade nos depoimentos, pois eles podem receber-vos um de cada vez, para verificar se há contradições ou versões diferentes. Se eles vos ameaçarem, dizei-lhes  que se dirijam a mim ou que me convidem para dar o meu testemunho. Mas, antes de abandonarmos este local, vamos dar uma volta pelas redondezas, para vermos os resultados do terramoto, que toda a cidade sentiu. Vamos! Cada um deve fixar bem os pormenores que achar de interesse. Eu já andei por aí, enquanto vós jazíeis  aqui como árvores tombadas,  e já vi tudo o que me interessava ver. Para começar: Observai bem aquele enorme rochedo partido ao meio!

7º guarda – Para já, há por aqui muitas pedras que não estavam cá.

1º guarda – Está aqui uma enorme fenda no terreno.

2º guarda -Também está ali um poço, que não existia cá!

3º guarda –  E ali está uma árvore tombada!

4º guarda –  O buraco onde a cruz foi erguida está muito mais largo e mais profundo e o sangue do rei dos Judeus ainda parece estar fresco.

Cassius –  Eu vou experimentar!…Está mesmo! .… Quem quiser, molhe nele um dedo e toque na sua fronte! Depois, leve aos lábios, tal como eu vou fazer!….Já ninguém mais quer?… Então, vamos até ao sepulcro! Os  três que  fizeram como eu fiz irão comigo ao governador. Os outros quatro irão a Anás e Caifás!… Cá estamos  em frente do sepulcro!….Alguém nota alguma coisa especial?…Nada? Então, eu digo: A pedra foi removida para o lado contrário de onde foi rebolada, mas, se virdes bem, não há nenhum rasto dela, dando a impressão que está ali como caída  directamente do céu ou transportada por alguém. Algum de vós alvitra uma explicação?

5º guarda – Tudo muito estranho!

6º guarda – Eu tenho uma explicação possível! Talvez tenha sido aquele anjo que nos meteu tanto medo!

Cassius –Eu acredito que foi isso. Lembrais-vos do motivo pelo qual nós todos estamos aqui? Este, que nós crucificámos, é o Filho de Deus, tal como disse o centurião Longinus, aquele que lhe espetou a lança no peito. O Rei dos Judeus prometera que ressuscitaria ao terceiro dia e hoje é o 3º dia! Isto não vos diz nada?  Os vossos chefes enviaram-vos para aqui exactamente para impedirdes que o seu corpo fosse roubado, pois não acreditam que ele possa ressuscitar. E agora? Ele ressuscitou mesmo! Eu tenho provas disso e bem convincentes! Agora, vamos entrar!…Que notais?

7º guarda – Ambiente perfumado,…de perfumes que não conheço! Mas, …e o lençol e as outras peças de roupa?

Cassius – Já foram levados pelas mulheres e dois discípulos dele, que vieram cá após ele ter ressuscitado. Vós não os vistes, mas eu vi-os! Eu vi ainda outras coisas que vós não vistes, mas que em altura própria vos contarei e que podem mudar as nossas vidas. E agora, vamos embora! Como combinado, uns, para dar testemunho perante o governador, outros,  a caminho de Anás e Caifás.

Logo que  os dois grupos se separaram, os quatro,  cuja tarefa era informar Anás e Caifás do que se passara, começaram a preparar o terreno para o encontro, combinando as medidas a tomar perante imprevistas eventualidades: O que fariam se Anás e Caifás fossem vítimas de um ataque de fúria; se não fossem levados a sério; se eles os ameaçassem de julgamento e prisão, por  supostamente terem falhado na guarda ao sepulcro, etc.

O outro grupo, três soldados mais o centurião Cassius, foram direitos ao palácio de Pilatos, que os recebeu algo mal humorado, abatido, sonolento, após mais uma noite mal dormida, por interferência dos fantasmas ameaçadores que lhe invadiam a consciência. Aquela sentença de morte a um prisioneiro depois de publicamente o declarar inocente, continuava, e continuaria até ao fim da sua vida, a fazê-lo rebolar na cama, a levantar-se com frequência devido aos dentes aguçados dos remorsos e as marteladas pesadelos .

Às explicações de Cassius, Pilatos não deu importância, atribuindo tudo à acção de um dos deuses dos Judeus, tendo , porém, o cuidado de o aconselhar  a não contar nada ao Sinédrio dos Judeus, para que não viesse a ter problemas. O mesmo conselho deu aos três guardas, não deixando de os censurar por não terem sabido resistir àqueles fenómenos que contavam, mas aos quais não dava crédito. Tanto Cassius como os três guardas fingiram aceitar as recomendações de Pilatos, mas a verdade é que já todos  tinham começado a divulgar os fenómenos, pelo que o anúncio da Ressurreição de Cristo já andava no ar, mesmo entre os romanos.

Não longe dali, Anás, Caifás e outros membros do Sinédrio ouviam os relatos dos quatro guardas, um de cada vez. Como todos contaram a mesma coisa, eles entraram em pânico furioso e agressivo, tudo traduzido em cólera incontrolável. Por um lado, por os guardas terem falhado na missão de guardar o sepulcro; por outro, por se verem derrotados e humilhados, após tanto trabalho, tanto esforço, tanta espionagem, tanto dinheiro gasto para pagar aos habitantes do bairro de Ofel pelo êxito do “Crucifica-o, crucifica-o!”. Agora, eles sentiam que tudo tinha sido em vão, sendo a presente situação pior do que a  anterior, tal como temiam. Acalmando um pouco, perante uma opinião mais calma e sensata, depressa surgiu uma ideia salvadora. Recuperados do choque inicial, com ar mais calmo, eles surgiram com três trunfos para uma saída airosa:

  1. Recurso a promessas de não sofrerem consequências pelas mentiras que dissessem.
  2. Recurso a ameaças de serem acusados, julgados e metidos na prisão, por desleixo na missão que lhes fora confiada.
  3. Recurso ao inesgotável tesouro do Templo para subornar os guardas, na condição de dizerem e propagarem o que lhes convinha: “Que, enquanto dormiam, os discípulos tinham vindo roubar o corpo”.

É evidente que os guardas passaram   a actuar em conformidade com o que lhes foi imposto.

 Entretanto, os guardas que informaram Pilatos vieram também informar Anás e Caifás:

Caifás – Vós sois então os outros guardas que fostes ter com Pilatos e contar-lhe a vossa aventura. Quem vos autorizou a prestar contas a esse pagão?

Guarda 1 – Ninguém! Foi o centurião Cassius que nos aconselhou!

Anás – Nós já sabemos o que se passou convosco. Os outros já contaram e afirmaram, os quatro, que tínheis caído sob o efeito de um ataque de sono e também ficado atordoados pelo tremor de terra. Entretanto, os discípulos desse impostor vieram e roubaram o corpo. Vós concordais com o que eles dizem?

Guarda 2 – Nós não sabemos os que se passou enquanto estivemos atordoados e desmaiados. E também vimos um anjo à entrada do sepulcro, que nos aterrorizou, e caímos todos uns em cima dos outros. Não sabemos quanto tempo ficámos assim. Nós não podemos dizer que alguém  abriu o sepulcro e roubou o corpo, porque, se dissermos isso, mentimos!

Caifás – (Furioso) Mas os outros disseram, logo, vós estais a mentir! Além disso, mereceis punição por não terdes cumprido a vossa missão! Outra coisa: o que estava lá o centurião Cassius a fazer? Ele viu alguma coisa que vós não tenhais visto?

Guarda 3 – Ele lembrou que se cumpriu aquela profecia de ressuscitar ao terceiro dia e foi isso mesmo que ele foi dizer a Pilatos. E nós também dissemos, porque não acreditamos que alguém tenha roubado o corpo e também não acreditamos que os nossos colegas tenham dito outra coisa diferente de nós e do Cassius. E vós vedes que houve um terramoto quando Ele morreu e outro terramoto quando ele ressuscitou. Tendes provas disso nos diversos escombros que há no Templo e na cidade, inclusive lá no Gólgota.

Anás – (Altamente irritado) Pois vós ides ter de escolher: Ou passais a dizer que os discípulos dele roubaram o corpo enquanto dormíeis, ou sereis metidos na prisão! Tendes ainda uma alternativa: aceitais o dinheiro que vos propomos, em troca do vosso compromisso, e guardais absoluto segredo daquilo que vistes, ouvistes e sabeis! Então, que dizeis?

Guarda 1 – Eu não aceito! Contarei sempre a verdade!

Guarda 2 – Recuso! A verdade é só uma, sempre e em todo o lado!

guarda 3 – Não mentirás! Yahweh abomina a mentira. Por isso, não aceito as vossas propostas!

Caifás – Então, ides directos para a prisão, onde ficareis não se sabe até quando!

Estes três guardas  recusaram a proposta e foram mesmo encarcerados. Tanto eles como os centuriões Cassius e Longinus converteram-se e tornaram-se cristão, após receberem o Baptismo.

  Como já tinha acontecido naqueles dias anteriores, a Anás e Caifás não  interessava a verdade objectiva, mas a sua verdade, isto é, a sua mentira, e esta nascia no imenso tesouro do Templo. Como hoje ainda dizemos: “Tudo se compra e tudo se vende”. Eis o texto evangélico:

“ …Alguns dos guardas foram à cidade participar aos sumos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. Eles reuniram-se com os anciãos e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: “Dizei isto: “De noite, enquanto dormíamos, os seus discípulos vieram e roubaram-no. “ E, se o caso chegar aos ouvidos do governador, nós o convenceremos e faremos com que vos deixe tranquilos”. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinham ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os Judeus até ao dia de hoje. (Mt 28, 11-15).

Em breve, o Sinédrio decretava a perseguição aos membros mais influentes do Cristianismo nascente e Estêvão inaugurava o volumoso livro dos mártires da Fé em Cristo, onde ainda hoje há imenso espaço para novos nomes…

“Quem poderá, Senhor, habitar no teu santuário?… Aquele que tem o coração puro…, que diz a verdade que tem em seu coração,…e não se deixa subornar para prejudicar o inocente!” (Salmo 14/15).

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Ezequiel Miguel

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Artigos relacionados:

.Oito dias após a Ressurreição

.No caminho de Emaús

.Ressuscitou, como disse.

 

Jesus é alvo de tentativa de rapto

(Realidade & ficção

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Personagens – Jesus e os Seus Apóstolos

Local da cena: O caminho de Jerusalém ao Jardim das Oliveiras

Situação no tempo : entre as 22.00 e as 23.00 horas de 5ª Feira Santa

conspiraçãoA Ceia da despedida já ficara para trás, juntamente com os episódios  lá ocorridos: o convívio, as últimas recomendações de Jesus, a instituição da Eucaristia, a Comunhão sacrílega de Judas, o lava-pés aos apóstolos, a ordenação sacerdotal e episcopal de Pedro e João por Jesus, os  quais, por sua vez, ordenaram os outros apóstolos, incluindo Judas.

Agora, aproximava-se uma nova etapa, a mais difícil e dolorosa da Redenção. Chegara a hora, tantas vezes anunciada por Jesus, mas nunca compreendida e aceite pelos Apóstolos.  Agora, em total silêncio,  Jesus e os onze Apóstolos já caminhavam em direcção ao Jardim das Oliveiras, mas, na cabeça de todos, estava ainda fresca a saída misteriosa de Judas, que já tinha sido diagnosticada como um passo mais para a traição ao Mestre e a eles.

Mas o silêncio total foi, pouco a pouco, interrompido por cochichos, murmúrios, movimentações cautelosas entre os Apóstolos, tal como se faz quando se prepara uma conspiração ou uma emboscada. A ideia de que se encontravam ali como se fossem para um funeral de Alguém que ainda não morrera começou a cruzar as mentes e a despertá-las para tentar travar aquele processo de uma comitiva a prestar honras a um Condenado à morte que ia ser executado.

Jesus caminhava à frente, em absoluto silêncio, pois o que tinha para dizer já o dissera. Em termos modernos e desportivos diríamos que Ele se ia mentalizando para aguentar o embate que estava próximo: a Sua Agonia. Cá atrás, a alguma distância, para que o Mestre não desse conta, uma ideia surgiu e começou a crescer na cabeça de Pedro, ideia não trabalhada nem polida, como era seu apanágio:

Pedro – Ouvi lá! Então, nós vamos tolerar que aquele bandido do Judas não esteja aqui? O Mestre disse que um de nós O iria entregar. Já vimos que é ele! Vamos deixar o Mestre ir para a morte sem fazermos nada, como se fossemos uns mansos cordeirinhos que nada podem fazer pelo seu Pastor?

Tiago de Zebedeu – O que achas que poderemos fazer? Ele já disse que se entrega porque quer e porque chegou a Sua hora, a hora que o Pai marcou. Quem poderá contrariar a Sua vontade soberana?

Pedro – (Indo de um a outro, passando o recado) Eh, vós aí, ficai um pouco mais para trás e falai baixinho, para que o Mestre não ouça! Tenho um plano!  Eu tenho uma espada e vós tendes punhais. Na perspectiva de sermos poucos, podíamos cercar o Mestre e raptá-Lo, pois não adianta nada negociar com Ele. Meteu-se-Lhe em cabeça que tem de se entregar  aos inimigos como um cordeirinho e…

Tomé – Raptá-LO? Eu não sei como!

João – Mas que ideia! Nem todo o exército romano seria capaz de fazer isso contra Sua vontade. Vistes o que aconteceu em Nazaré, quando quiseram deitá-Lo do monte abaixo? Ele paralisou os inimigos e eles nem foram capazes de Lhe tocar. Ele faria o mesmo connosco e, depois, sabe-se lá o que Ele nos diria! Mas, ó Pedro, não estarás a sonhar? Já te esqueceste que Ele impera sobre a morte, sobre a doença, sobre os demónios, sobre os ventos, as tempestades, os mares…E ambicionas tu raptar Deus? Estás louco e o teu plano é louco. Não tem viabilidade!

Pedro – Mas tu esqueces-te de uma coisa! Não te lembras que Ele nos disse há pouco que ia chegar a hora de Satanás e que Ele e nós iríamos ser abandonados pelo Pai? Ora, se Ele é abandonado pelo Pai, Ele fica um homem  fraco como nós.  Olha só como Ele caminha cada vez com mais dificuldade! Eu até penso que a visão Dele está a ficar cada vez mais fraca. Vê como Ele, de vez em quando, se baixa para ver melhor as pedras do caminho! Aquela profecia que diz “enviará os seus anjos para que Ele não tropece nas pedras do caminho” (Salmo 90) está suspensa. Sendo assim, Ele não teria força para se opor a nós todos. Podíamos raptá-LO  e escondê-LO!

Mateus – (Irónico) Seria uma glória para todos nós conseguir raptar Deus!…Todo o universo se inclinaria perante nós, tal como os feixes do centeio perante o José de Jacob!… E onde o esconderíamos?

Pedro – Talvez em Betânia, no palácio da irmã mais nova de Lázaro,  a Maria! Por estes dias, eles estão cá os três, mas podíamos ir para lá sem ninguém saber. Os servos conhecem-nos e aceitar-nos-iam sem fazerem perguntas.

Filipe – E que faríamos com Maria, a Mãe do Mestre?

Pedro –  Ela está ainda no Cenáculo e podíamos convencê-LA a ir connosco para Betânia e assim ficavam a Mãe e o Filho juntos. Sempre se animavam um ao outro. Depois, quando Eles estivessem em segurança, iríamos ajustar as contas com o Judas Iscariotes. Eu sempre desconfiei daquele hipócrita e, se o Mestre me tivesse deixado, eu já há muito tempo lhe teria tratado da saúde!…

Tiago de Zebedeu – E quem vai lá para A convencer?

Pedro – Vais tu,  ou o João, que sois da família (sobrinhos ) Dela! Eu fico aqui, porque tenho uma espada e espero que ela fique romba à custa de cortar cabeças!…Além disso, eu disse ao Mestre que estava disposto a morrer com Ele ou na vez Dele, se Ele preferir!

Tomé – Eu também tenho uma espada, mas…tenho cá as minhas dúvidas se poderei usá-la! Além disso, Pedro, lembras-te daquilo que o Mestre disse a teu respeito: “Antes de o galo cantar duas vezes, três vezes me negarás?”

Pedro – Também tu acreditas nisso? Aquilo foi um exagero que não quero levar a sério. Eu vou defendê-Lo até à morte! Mas preciso de vós todos! Sozinho, o que posso fazer?

João – Mas, se é a vontade do Pai e a Sua, que sofra o que tem a sofrer, não há no mundo nenhuma força que a isso se possa opor. É aceitar e…mais nada!

Nataniel –  Talvez estejas a ser um pouco pessimista!  Eu tenho um plano alternativo!

Pedro – Espera aí!…  Se não gostais deste plano, tenho outro, em alternativa. Tenho outra ideia e tenho de a contar, antes que rebente ou me esqueça! Este plano passa por Lázaro. Sabemos que Lázaro foi ressuscitado. Podia ir algum de nós a casa dele e pedir-lhe que interceda pelo Mestre junto de Pilatos. Ele pode impedir os Judeus de fazerem qualquer coisa contra Ele. Lázaro tem muita influência junto dos Romanos, porque o seu pai foi governador romano da Síria! Assim, Ele falaria ainda hoje com Pilatos, que enviaria um destacamento militar até ao Getsémani e, quando os esbirros do Templo lá chegassem, eles teriam uma desagradável surpresa, primeiro, e depois deixariam lá as cabeças a rolar pelo monte abaixo…E se há uma cabeça que eu gostaria de ver a rolar por ali abaixo seria a do Judas…

Simão – Mas que genial, essa do Lázaro!… Mas iríamos a Betânia a estas horas da noite?

Judas Tadeu – Não! O Lázaro tem um palácio em Jerusalém, não longe do Templo,  e é lá que ele está a estas horas. Seria fácil ir até lá. Bastaria um ou dois de nós, para o Mestre não dar pela falta.

João – Pois é! Pensais que sois muito espertos. Mas sabeis porque é que o Mestre ressuscitou o Lázaro?

Todos – Conta!

João – Pode haver vários motivos: para recompensar aquela família, que pôs toda a sua riqueza ao serviço do Mestre e de  nós; porque precisava de um amigo forte que o compensasse pelos muitos inimigos;  porque precisava de um refúgio em casa de Lázaro, onde pudesse descansar sem ser perseguido; para, através de um milagre estrondoso que ecoasse por todo o Israel e sobretudo por toda a Jerusalém; para tentar ainda convencer os do Templo de que Ele é realmente o verdadeiro Messias;  e também por um outro motivo, mais secreto, que vós desconheceis em absoluto.

Todos – Motivo secreto? Essa agora! E só tu é que sabes? Nós também temos o direito de saber! Conta!

João – Falai mais baixo e com calma! Se o Mestre olha para trás!…Eu digo-vos, então, mas não ides gostar, já vos digo! O Mestre sabe que Lázaro tem influência suficiente nesta cidade para impedir que algo de mau Lhe aconteça. Sendo assim, um simples pedido a Pilatos, e ele nomeava logo uma  guarda pessoal para o Mestre. Quem Lhe tocaria, nesse caso? Ninguém! Mas, então, os Seus planos de redenção da Humanidade ficariam eternamente adiados, porque nos planos de Yahweh está escrito que Ele tem de morrer às mãos dos seus inimigos, traído e abandonado por todos, inclusive pelo Pai e por nós! E depois, como é que as profecias se cumpririam? Já imaginastes Yahweh a ser mentiroso, prometendo coisas que depois não cumpre? Ora, o Mestre já nos disse que Ele veio para cumprir as Escrituras. E as Escrituras, sobretudo Isaías, dizem tudo a Seu respeito. Por isso, meus amigos, não há nada a fazer! Nós somos impotentes para impedir aquilo que já começou. Ele deve ter ainda algumas recomendações finais a fazer. Rezemos e façamos o que Ele nos disser. Ele ainda não  nos disse a última palavra, penso eu!

André – Tu disseste: “abandonado por nós”?

João  – Disse! E isso está nas Escrituras, onde se diz: “ Ferirei o Pastor e as ovelhas dispersar-se-ão”. Agora, dizei-me : Quem é o Pastor e quem são as ovelhas?  Psiu! Calai-vos!  O Mestre abrandou o passo e talvez queira dizer-nos alguma coisa!

Filipe – Mas ainda não disseste o que leva Lázaro a ficar inerte, sem fazer nada nesta hora e nesta situação. Porque é que ele não se mexe a favor do Mestre? Uma palavra sua ao Pilatos, que está na cidade, e resolvia-se tudo!

João – Também sei o que o paralisa! O motivo é estrondoso e ultrapassa a   nossa   humana compreensão. É que o Mestre já nos trocou todas as voltas e antecipou-se a nós nos passos que deu para levar por diante a Sua obra. Ele nunca proibiu nada ao Judas. Apesar de andar sempre por maus caminhos, tolerou-lhe tudo, repreendeu-o várias vezes, mas nunca foi grosseiro ou violento para com ele; mas  proibiu o Lázaro de utilizar a sua influência para O impedir de prosseguir até ao fim. Por causa desta proibição e para resistir às tentações, Lázaro vem à cidade discretamente e evita conversas, com medo que lhe puxem pela língua. O Mestre sabe que o Lázaro abre todas as portas romanas.  Quando o encontrei, eu sugeri-lhe que fizesse alguma coisa, mas ele recusou liminarmente qualquer ajuda, o que me deixou altamente irritado. Ele só dizia: não posso,… não posso, …não posso!” E não passava dali! Ainda lhe disse: “ Mas que amigo és tu? Ele fez-te voltar à vida e tu é assim que Lhe pagas? Isto é que são amigos! Se os amigos não servem para quando precisamos, para que servem?  Mas ele acabou por dizer: “O Mestre proibiu-me de dar um passo a Seu favor. Também me obrigou a controlar as minhas irmãs, não fossem elas, nas minhas costas, andar por aí a choramingar protecção para Ele. Disse que o Mestre tinha de cumprir a vontade do Pai.” Pediu-me desculpas e afastou-se a toda a pressa, deixando-me ali embasbacado!

Simão – Vós sabeis que eu também nunca gramei o Judas de Simão (Iscariotes). E pensei muitas vezes: “Porque é que este cavalheiro anda connosco? O que levou o Mestre, sabendo o que sabe, a admiti-lo? Foi de livre vontade ou ele impôs-se de maneira a não poder ser rejeitado? Isto sempre me fez confusão! Quem me dá luz sobre este assunto? Tiago, tu deves saber alguma coisa!…

Tiago de Zebedeu –  Eu sei, mas isso, agora, não interessa. E agora pergunto eu: Seria preciso um traidor para o Mestre sofrer o que já sofreu e vai sofrer? Em minha opinião, não seria preciso, porque o Sinédrio iria apanhá-Lo de qualquer modo. Judas só lhes facilitou a tarefa. E porque é que as Escrituras anunciam um traidor do Messias? Para mim, é mistério!

Pedro – Mas o Filipe disse que tinha um plano e ainda não disse nada sobre ele. Queres contar, ó Filipe?

Filipe – Eu conto, mas talvez não gosteis e talvez nem seja possível, porque é assim uma ideia louca.

Tiago de Alfeu – O quê? Então, se não é possível, não é plano nenhum! É apenas uma sugestão. Bem, então, diz lá!

Filipe – É assim: Já vários de nós dissemos que estávamos dispostos a morrer com Ele ou por Ele. Então, chegou a hora de um de nós, ou  aqueles que Ele quiser,  morrermos na vez Dele, se é que isso satisfaz o Sinédrio. Podíamos deitar sortes e aquele a quem calhasse ia ter com o Sinédrio, a oferecer-se!…

Todos – (Longo silêncio)…

André – Eu também gostaria de apresentar uma ideia! Iríamos ter com o sacerdote Gamaliel, que tem muito prestígio em Israel, e pedir a sua intercessão junto do Sinédrio e do Governador!

João – Pois é! Mas tu ignoras que Gamaliel ainda não se decidiu a seguir o Mestre e a largar a Lei de Moisés, porque anda cheio de dúvidas, perplexidades, incertezas,…Ele pediu um sinal a Yahweh sobre o Mestre. Só depois desse sinal é que se decidirá de vez. Isto sei eu, porque tenho amigos lá no Templo. Quanto ao sinal, não me pergunteis, porque ele nunca me disse!

Quanto à ideia do André, isso não adianta nada e não serve de nada, porque as Escrituras dizem que é Ele que tem de pagar pelos pecados dos homens. Podiam morrer, na vez Dele, todos os homens que já existiram, existem e existirão, mas isso não seria suficiente para alcançar a redenção do homem. Alegra-te, ó Filipe, e nós contigo,  porque não é por esta causa que nós morreremos para salvar o Mestre. Ele veio para isso e pronto!… Eh! Silêncio, que o Mestre parece que parou!

Jesus – O João falou bem e Lázaro também!   É, com certeza, o vosso amor por Mim que põe a vossa imaginação a funcionar. Eu vos agradeço o  interesse em  Me livrardes desta hora, mas…não vale a pena pensardes mais no assunto. Nem todo o inferno pode impedir-Me de fazer o que vou fazer. Sei que Me amais, mas o vosso amor é uma pérola ainda em bruto, que precisa de ser lapidada para se lhe apreciar a beleza . Será obra do Espírito Santo, Aquele  que já vos prometi … Chegámos ao fim do nosso caminho. Aquele de vós que encontrar o sacerdote Gamaliel, transmita-lhe da Minha parte, que falta pouco para ele receber o sinal que pediu! Agora,  Pedro, Tiago e João irão Comigo até ao Horto, onde vamos orar.  Vós, os outros,  não passareis daqui, até que a Lua surja sobre aquela oliveira maior. Esse é o momento de nos reunirmos todos de novo e partir ao encontro de Judas, que vem à frente de um grupo, armado com espadas, punhais, lanças, varapaus e cordas. Lembrai-vos que, segundo as Escrituras, o Pastor vai ser ferido, que as ovelhas se dispersarão e que ficarão por sua conta!  Onde quer que estiverdes, orai Comigo ao Pai para que não Me abandone totalmente nestas  longas horas que se aproximam. Na próxima hora, Eu ficarei por perto, naquele canto que todos conheceis e onde orei muitas vezes ao Pai. A paz fique convosco!

Os outros apóstolos ali ficam, totalmente desanimados, inconsoláveis e incapazes de compreender aquele final dos três anos que tinham passado com Cristo. O nome de Judas andava de boca em boca e perguntavam-se:” Se  o Mestre sabia que o Judas o faria sofrer tanto, que O desiludiria tão tragicamente, etc, por que carga de água Ele o deixou entrar no grupo? E porque que é que eles, sendo tantos, não o tinham liquidado a tempo de evitar esta tragédia, por, além de ser o que era, ser ainda ladrão, por roubar as esmola para seu próprio proveito. Eles iam evocando as lágrimas que o traidor tinha feito derramar ao Mestre, chegando Nataniel a dizer que suportar Judas durante três anos fora  o maior sacrifício que o Mestre tinha feito.

O mistério  que envolve Judas e Cristo continua sendo mistério, por mais voltas que se lhe dê.

 .

Ezequiel Miguel

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