IDE PARA A MINHA VINHA! (Cf Mt 20, 1-16)

Local da acção.: uma praça pública, onde os homens se juntavam esperando que alguém os contratasse para qualquer trabalho.

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vineyard-workers“ Naquele  tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: O Reino dos Céus é semelhante a um proprietário, que saiu muito cedo, a contratar trabalhadores para a sua vinha:

Proprietário: Eh! vós aí! Estais livres para irdes trabalhar para a minha vinha, se ainda ninguém vos contratou.

1º trabalhador – Eu estou, mas dizei primeiro o que tenho de fazer e quanto me pagais, pois o dia só agora começa e prevejo trabalho duro até ao pôr do sol.

Proprietário. – Certo! Pago-te, a ti e aos outros que quiserem ir também, um denário e penso que isso é justo.

Pelas 9 horas da manhã:

Propt. – Olá! Vós, aí sentados e tagarelando, sem fazer nada! Já alguém vos contratou?

2º trabalhador – Não, senhor! Ainda ninguém nos contratou.

Proprt. – Então, eu contrato aqueles de vós que quiserem ir trabalhar para a minha vinha. Pago-vos um denário, apesar de trabalhardes menos horas que aqueles  que já lá andam.

3º Trab. – Combinado! Eh, rapazes! Vamos, que o patrão paga bem, com a vantagem de trabalharmos menos tempo do que aqueles que começaram cedo!

Pelas 12 horas:

 Proprt– A paz esteja convosco, homens! Porque estais aí ociosos, sem fazer nada?

4º Trab..  Não temos nada para fazer, pois ainda ninguém nos contratou. E, a esta hora, quem nos vai contratar? Só algum ricaço, mas nós não conhecemos nenhum que seja doido a esse ponto!

Proprt. – Pois eu sou um desses ricaços e contrato já aqueles que quiserem ir trabalhar para a minha vinha!

5º Trab.-  E quanto pagais?

Proprt.- Pago o dia inteiro, como se tivésseis começado logo de manhã cedo. Pago um denário.

6º Trab. – A sério? Pagas mesmo? Eh! amigos, vamos, que já arranjámos patrão a sério e generoso!

Pelas 5 horas;

Proprt. –  Eh! amigos? Que fazeis aqui? Ficastes aqui o dia inteiro, sem fazer nada? Eu procuro trabalhadores para a minha vinha. Estais dispostos a trabalhar umas horas? Eu pago-vos um denário, tanto como pago aos outros que já lá andam desde manhã.

7º Trab.- O quê? É possível? Não há ninguém que pague assim! Estais mesmo em vosso perfeito juízo? Mas isso vai revoltar os outros, ao saberem disto, e vão achar que não é justo o que fazeis! Patrões assim é o que nós precisamos todos os dias!

Proprt. – Não vos preocupeis com isso, pois eu sou rico e faço do meu dinheiro o que quiser.

8º Trab. – Óptimo! Então, vamos todos e, por esse preço, até poderemos trabalhar de noite!

Propt.- Não! Terminais  quando terminarem os outros!

9º Trab. Mas, nessas condições, podes contar connosco todos os dias!

Ao cair da tarde:

 Proprt.- Capataz, chama os trabalhadores e paga-lhes o dia, a começar pelos  últimos até aos primeiros!

“Vieram os das 5 horas da tarde e receberam um denário cada um. Vieram depois os primeiros e julgaram que receberiam mais, mas receberam também eles um denário. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário” :

1º Trab. –  Então, estes últimos só trabalharam uma hora e pagais-lhes  o mesmo que a nós? Nós aguentámos aqui o dia todo, esturrámos aqui ao calor e estamos mortos de cansaço e estes só trabalharam uma hora e pagais-lhes o mesmo: um denário? Não é justo! Para eles merecerem um denário, nós mereceríamos nada menos que dez ou doze. Nunca vimos um patrão assim, com esta falta do sentido de justiça!

Proprt.—“Amigo, eu não te prejudico! Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho! Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou será rancoroso o teu olhar por eu ser bom (bondoso)? É assim que  os últimos serão dos primeiros e os primeiros serão dos últimos”.

Comentário

Decifrando a parábola:

Um denário (Latim denarius) valia o mesmo que uma dracma grega. Era o salário de um dia de trabalho. Era uma moeda romana que servia também para pagar os impostos. Aparece várias vezes nos evangelhos e até Judas avaliou o perfume com que Maria Madalena honrou Jesus, quando ela partiu o frasco.  Judas disse que esse perfume valia uns 300 denários, tanto como 300 dias de jorna, isto é, trabalho para alguém. Mais disse Judas que fora um desperdício e que se poderia até dar aos pobres, tendo-lhe Jesus respondido que “pobres, sempre os tereis”.

. O proprietário é Deus e a vinha é o campo ou campos onde o Reino de Deus esteja actuante. Jesus referia-se certamente à Igreja que iria fundar, tendo Pedro como cabeça e os outros apóstolos como  pilares. O Reino de Deus na Terra é a Igreja Católica, expressão também sinónima de Reino dos Céus. Também se pode entender que o Reino dos Céus é o Paraíso, sendo Cristo o seu Rei eterno.

Os trabalhadores são todos aqueles que na Igreja Católica gastam a sua vida, ou parte dela,  no Apostolado  sacerdotal, religioso ou laical, em qualquer actividade relacionada com os interesses de Deus e das almas, havendo sempre espaço e tempo para todos trabalharem na Vinha do Senhor, de acordo com a disponibilidade possível.

Quanto aos últimos que são os primeiros e aos primeiros que serão os  últimos, talvez Jesus quisesse referir-se aos Judeus como os trabalhadores da 1ª hora e aos  cristãos, organizados sob a orientação da Igreja Católica, a Nova Vinha do Senhor, onde o prémio (a salvação)  está sempre ao alcance  dos trabalhadores, mesmo os da última hora, aqueles que se convertem já próximos da morte. Em qualquer caso, a bondade de Deus oferece o mesmo prémio:  o Reino dos Céus.

A finalidade primeira desta parábola é mostrar e demonstrar a misericórdia e a  bondade de Deus, que está sempre pronto para perdoar e pagar mais  e melhor do que merecemos, pois, como Ele diz na profecia de Isaías: “ Os meus pensamentos são diferentes dos vossos e os vossos caminhos são diferentes dos meus” (Is 55,9)

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Ezequiel Miguel

 

 

 

 

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A rebelião de Coré (Cf. Números 16)

(Realidade e Ficção)

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Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –   Meribá (= Disputa)  e Massá  (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan),  Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

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Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” (Salmo 94/95)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida,  onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel ( que era a fértil  terra de Canãa), ocupada, entretanto, por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números,  do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico, registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido  e meditado, sob diversos ângulos, por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento deles nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente no filme “Os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra prometida (Canãa) , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura, era, e ainda é,  o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo.  Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus  erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida  em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei, como parece ter sido o caso.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem,  Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé  e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas  de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá  (disputa)e Massá  (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Em todas as rebeliões há cabecilhas que engendram os esquemas da revolta. Também aqui foi o caso:  As citações bíblicas vão em negrito

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”

Coré – Olha lá, Moisés!  Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yahweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés –  “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para  vos honrar perante a comunidade,  entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós  e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio .  Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh  fará conhecer quem é Dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se Dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se Dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante  de Yahweh. Aquele que Ele escolher, esse é o homem que Lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora,  chamo  aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

AbiramEu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne,  sem vinho, sem uvas,  com  água potável só de vez em quando!  De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e  um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos, uns idiotas! Tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste, que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui!  Se tu, lá no Egipto, foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teus truques, de morrermos  à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram –  Temos saudades das refrescantes  cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados!  Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para  a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda da Reuniã),  com Moisés e Aarão”!

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista, embusteiro!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão  afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés  e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui  morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles, e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo o que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

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Comentários sobre as lições a tirar:

  1. A História de um povo faz-se com Deus, contra Deus ou sem Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar, com tantos pormenores e milagres, a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem pertenceriam,  por direito, esses territórios, onde a paz  qu não deita raízes. Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe muitas vezes à prova a nossa fé Nele, com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, a fim de nos levar  a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos, com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.
  1. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, que não perguntou a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Moisés bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que lhe era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e ele lá foi, baseado na promessa da protecção de Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos, apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”!  Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!
  2. Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas que exercem autoridade sobre nós, quer  definitivamente  quer  temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo  S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência, temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra  as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.
  3. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube, no quartel, na paróquia, nos Movimentos da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos seminários, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver murmuradores,…afaste-se deles, recuse alimentar-lhes esse fogo destruidor que sai das suas bocas e o veneno que sai das suas línguas!
  4. Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz, para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!
  5. Quem despreza um profeta de Deus despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive. Outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo, quase todos, perseguições, maus tratos, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de quem tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição de mensagens proféticas teve enormes custos para Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo os tempos.
  6. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo!”. Também está escrito (na Bíblia) que Deus pode punir nações e povos através de maus governantes, que actuam como chicotes da ira Deus para povos rebeldes. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

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Ezequiel Miguel

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Lúcia e o Sr. Prior de Fátima

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Prior de Fátima

. Maria Rosa dos santos, mãe de Lúcia

. Lúcia , vidente de Fátima

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Lucia_JacintaAno de 1917. O Sr. Prior de Fátima já enviara recados aos pais da Lúcia, do Francisco e da Jacinta para trazerem as crianças até ele, a fim de serem interrogadas a propósito do que se dizia sobre a Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria. Os pais do Francisco e da Jacinta não atribuíram importância ao pedido do Pároco, mas a mãe da Lúcia, D. Maria Rosa dos Santos, viu nesse pedido o remédio santo, no qual depositou grandes esperanças, para acabar de vez com a agitação que fervilhava lá em casa e no lugarejo de Aljustrel. Se a Lúcia dissesse que tinha mentido, recuperava-se a paz…

Chegou o dia em que D. Maria Rosa e a filha percorreram a distância que vai de Aljustrel até à residência paroquial de Fátima. Não sabemos se a Lúcia disse alguma coisa durante a viagem, mas ela diz nas suas Memórias que a mãe foi todo o tempo silenciosa…Logo, ambas se portaram como duas pessoas literalmente amuadas e apreensivas quanto ao resultado final… É de supor que ambas iam apreensivas, por motivos diferentes. Lúcia caminhava na convicção de que nada adiantaria, pois a sua mãe, que sempre a ensinara a não mentir,  insistia agora para que dissesse a verdade que lhe convinha, isto é, a mentira de dizer que tinha mentido com aquela história da aparição de Nossa Senhora. Tratava-se realmente de um dilema, e, como em todos os dilemas, nenhuma opção seria agradável de tomar. D. Maria Rosa depositava toda a sua confiança na intervenção do sr. Prior de Fátima, pois a sua autoridade de sacerdote e pároco de Fátima era inquestionável, sendo, para mais, o confessor da mãe e da filha. E ambas, com o coração atribulado, chegaram finalmente à residência do sr. Prior:

Maria Rosa (M.R.) – Cá estamos, finalmente! (Depois de bater à porta):

Bom dia, sr. Prior! Aqui tem a minha filha! Interrogue-a, puxe por ela, arranque-lhe toda a verdade e castigue-a, se mentir. Faça com ela o que quiser, para tirar isto tudo a limpo, que eu não consigo!

Sr Prior – Está bem! Vamos tentar! Não ande nervosa, acalme-se, aceite os desígnios de Deus, que são insondáveis…o que quer dizer que nós nem sempre lá penetramos e quando pensamos que penetramos…podemos enganar-nos. Pode ir em paz para sua casa, que a Lúcia já é crescidinha e não terá problema em regressar a casa sozinha. E a propósito, porque não vieram os filhos da sua comadre, a senhora Olímpia?

M.R. – Não sei! Eu passei lá por casa, mas ninguém se mostrou interessado nisso. Então, se o sr. Prior não precisa de mim, saio. Com licença! (e sai)

Prior – Então, minha filha, o que tens para me dizer?

Lúcia – O sr. Prior é que me mandou chamar!…

Prior – Pois foi! Já sabes porquê e para quê! É um assunto muito sério, esse de que se fala por vossa causa. Gostaria que me contasses tudo, para ver se conseguimos ver claro, o que, por vezes, não é nada fácil. Mas tu vais ajudar, contando tudo, mesmo aquelas coisas que ainda ninguém sabe.

Lúcia – No dia 13 de Maio, Nossa Senhora apareceu-nos sobre uma pequena carrasqueira,  e disse-nos que rezássemos o Terço todos os dias, que a guerra ia a acabar, que os soldados regressariam em breve…e ainda nos pediu que fossemos lá mais cinco vezes, nos dias 13 de cada mês. Pediu também que rezássemos pelos pecadores.

Prior – Mais nada?

Lúcia –( Silêncio)

Prior – Como é que tu sabes que era Nossa Senhora?

Lúcia – Era uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, toda vestida de branco e trazia um rosário…Só podia ser Nossa Senhora!

Prior – Mas Ela disse quem era e o que queria de vós?

Lúcia – Não disse quem era, mas nós sabemos que era Ela, porque estava toda rodeada de luz e essa luz também nos cobria.

Prior – E não vos deu um recado para mim? Não vos disse que devíeis falar disso ao vosso Pároco?

Lúcia – Não!

Prior – É estranho! Muito estranho! Em casos semelhantes é costume mandar ir ter com os Superiores ou com os Confessores. Neste caso, tudo isso foi ignorado, o que é tudo muito suspeito! Muito suspeito mesmo! É caso para se desconfiar!

Prior – E vós não tivestes medo, não tremestes, não vos sentistes mal dispostos, com suores frios, inquietos por dentro, nervosos, com desejos de que tudo acabasse depressa? (1)

Lúcia – Não! A nós pareceu-nos pouco tempo.

Prior –  E Ela não vos ameaçou, se não cumprísseis o que vos pedia? (1)

Lúcia – Não! Ela era muito meiga e falava-nos suavemente, com uma  voz linda e doce.

Prior – Não há elementos que provem que era Nossa Senhora! Sabe-se lá?  Podia ser o demónio! (1)

Lúcia – Mas, sr. Prior, o demónio nunca manda rezar e só lhe interessa levar as almas para o inferno!

Prior – Menina, o demónio é muito esperto e é capaz de fazer o Bem para daí levar ao Mal! Em muitos casos, aparece disfarçado de anjo e também  pode fingir que é  Nossa Senhora, para enganar qualquer um. E ele nunca diz quem é, para melhor ludibriar as suas vítimas. Conheço uma santa que,  uma vez, ao ir confessar-se, era o demónio que lá estava sentado no lugar do Confessor. Foi S. Gema Galgani, por isso, não está excluída a hipótese de ser mesmo o demónio que vos apareceu!   (1) É melhor não voltardes à Cova da Iria! E eu, tal como a tua mãe, também estou convencido que mentes quando dizes que Nossa Senhora vos apareceu, uma mentira talvez de boa fé, mas que não deixa de ser uma mentira. Queres que eu diga ao povo, na missa, que tu pedes desculpa por teres mentido sem querer, porque pensavas que era Nossa Senhora? Não te queres confessar já dessa falta?

Lúcia – Não! Eu não minto e os meus primos também não! E não me confesso de pecados que não cometi! Se eu dissesse que mentia…, então é que mentia! E mentir é pecado! É isso que a minha mãe nos anda sempre a dizer! O sr. Prior quer pecar obrigando-me a mentir?

Prior – Mas, menina, não vês em que estado anda a tua mãe? Ela anda tão inquieta, revoltada e nervosa por tua causa, que, sabe-se lá, pode perder o sono, o apetite, o juízo…e morrer louca! Queres ficar toda a vida com as culpas da morte da tua mãe?

Lúcia – Seja o que Deus quiser! Se ela morrer a dizer que não…eu não me importo de morrer a dizer que sim! A verdade é a verdade e ela sempre nos ensinou a ter horror à mentira. Agora, quer que eu minta e o sr. Prior também! (Limpa as lágrimas) Eu não minto,…nem que me matem!

Prior – E a Senhora disse o que viria cá a fazer nas outras vezes?

Lúcia – Não! Só disse que nos queria lá nos dias 13 durante mais cinco meses e depois diria quem é. Disse ainda que faria um milagre para que todos acreditassem!

Prior – Cinco meses seguidos!…Então, será em Outubro! Também pode ser o demónio a tentar enganar-vos a vós e ao povo, com promessas falsas! E depois,… ele fica-se a rir! E sabe-se lá o que vos poderá acontecer! Se não houver milagre, o povo pode revoltar-se, matar-vos e matar também os vossos pais, pensando que foram eles que vos treinaram para esta trapalhada!

Lúcia – Não é nenhuma trapalhada! É tudo claro como água e não vai acontecer nada disso, porque a Senhora não tem cara de mentirosa e nós sentimo-nos felizes e confiantes nela! E nós ficamos sempre com pena quando Ela se vai embora, pois gostaríamos que Ela ficasse mais tempo! Se fosse o diabo, ficaríamos cheios de medo, a suar e a tremer de frio!

Prior – Ó menina, tu falas do diabo como se já o tivesses visto! Já o viste?

Lúcia –Não! E espero nunca o ver! Ela pediu-nos que rezássemos o Terço pela paz e disse que a guerra ia acabar. O diabo não nos mandava rezar nem pela paz nem pela guerra. O diabo só quer o mal, por isso não pede coisas boas nem quer que a gente faça o Bem!

Prior – Ó rapariga, já sabes mais do que eu! Já ensinas o Pai-Nosso ao Vigário! Diz-me lá: o Terço que Ela mandou rezar é igual ao que nós rezamos?

Lúcia – É, mas Ela pediu que disséssemos, no fim de cada mistério. esta oração: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno! Levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem!”

Prior – As que mais precisarem? Não disse:” As mais abandonadas”?

Lúcia – Não!

Prior – Estranho, muito estranho! Há aí uma pirueta teológica!

Lúcia – Não sei o que  isso é!

Prior – Isso é um assunto para nós, os sacerdotes!   As que mais precisarem! Mas precisam todas! Ela disse quais eram as que mais precisam?

Lúcia – Não! Mas Ela disse que iam muitas almas para o inferno por não haver quem reze e se sacrifique por elas!

Prior – Ah! Estou a ver! Então essas almas pecadoras precisam urgentemente de quem faça alguma coisa para que elas não se condenem ao inferno. Estou a ver! É uma questão urgente de fazer reparação por elas, isto é, alguém tem de comprar essas almas com oração e sacrifício. Se é assim, bate tudo certo, porque, Deus lá sabe, já terão pouco tempo de vida, estando, por isso, prestes a cair no Poço…

Lúcia – Eu penso que é assim!

Prior – Apesar de eu já começar a ver a lógica das coisas e a interligá-las, parece-me que não se pode concluir que tenha sido Nossa Senhora! Ela não disse quem era e não vos mandou vir ter comigo. O demónio é muito astuto, muito inteligente, muito matreiro, muito mentiroso e um artista na arte de enganar, disfarçar, parecer o que não é, para depois confundir as suas vítimas. Aconselho-te, a ti e aos teus primos, a não voltar lá, nesses dias treze, à Cova da Iria. Se for Ela, irá ter convosco onde vós estiverdes! E depois, é preciso dar tempo ao tempo, para vermos se isso vem de Deus ou do Demónio.

Lúcia – Mas Ela trazia numa mão o Rosário, logo era Nossa Senhora do Rosário. Nós não temos dúvidas! O demónio não mandava rezar e fazer sacrifícios pelos pecadores! Ele só quer todas as almas lá no inferno, logo, não pede para se rezar por elas! Eu podia pedir à Senhora que dê um sinal ao sr. Prior, para que o sr. Prior acredite que era Ela e não o diabo! Basta o sr. Prior dizer que sinal quer!

Prior – Isso não, filha!  Deus me livre! Isso seria tentar a Deus! Não posso fazer isso! Tenho de me contentar com as luzes que Ele me enviar! O que for soará, como diz o povo! E pronto, filha! Eu não te proíbo de ires à Cova da Iria! Somente te aconselho a não ir, porque as coisas, para mim, não estão bem claras. Confio em Deus! Vai em paz e procura não desgostar a tua mãe!

Sentada no último degrau da escadaria está D. Maria Rosa, aguardando, com ansiedade e angústia, o resultado da conversa de Lúcia com o sr. Prior. Caiu-lhe o coração aos pés quando Lúcia lhe contou o resultado, mas que não se tinha confessado de mentir, porque não mentia!  D. Maria Rosa perdeu as ilusões. Se o sr. Prior não conseguia, como conseguiria ela? O seu pesadelo continuou durante todo o resto da sua vida, num sofrimento angustiante de que nada nem ninguém conseguiu livrá-la. Aquilo que para muitas mulheres seria uma bênção bem-vinda, para ela foi uma pesada Cruz. Quem penetra os desígnios de Deus? Mas a sua dúvida serviu para dar credibilidade às Aparições de Fátima, ficando provado que ela não dera um passo para facilitar a  sua aceitação e divulgação. Como hoje se diz, ela foi o contraditório!

Do Evangelho: (…Não vos preocupeis com o que haveis de falar nem com o que haveis de dizer! Nessa altura vos será inspirado o que tiverdes de dizer. Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós”! ( Mt 10, 19)

(1) Observação – O Sr. Prior conhecia os sinais que acompanham as aparições de demónios, que pretendem sempre dar um ar de realidade, mas deixam sempre o rabo de fora, por muito que queiram escondê-lo. Estes são alguns dos sinais que identificam intervenções demoníacas. Esclareço que os demónios podem assumir formas de anjos celestes, de homens, de mulheres, de jovens, de crianças, de animais…e a sua presença provoca calafrios, medos, angústias, tremores,…revelando, normalmente, uma mensagem com  ameaças de castigos, caso os videntes não estejam dispostos a cumprir.

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Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – IV

19 de Agosto de 1917, nos Valinhos, Aljustrel, Fátima

Nas suas Memórias, a Ir. Lúcia refere que esta Aparição ocorreu em 13 de Agosto, mas não deixou de salientar que esta data poderia não ser a data verdadeira, pois já não se lembrava bem. Ficou, porém, demonstrado que houve equívoco da sua parte. O equívoco deveu-se ao facto de naquele  dia 13 de Agosto os Pastorinhos estarem à guarda do Administrador de Vila Nova de Ourém, que apareceu lá por Aljustrel  e, servindo-se da mentira, os raptou, levando-os para V.N. de Ourém. A propósito deste rapto o Ti Marto, pai de Francisco e Jacinta, conta:

“Na manhã do dia 13 de Agosto – era uma segunda- feira – mas eu tinha dado as primeiras enxadadas numa fazendica pouco distante, quando me foram chamar que fosse imediatamente lá a casa. Ao entrar vi que estava lá muita gente de fora, mas isso já não havia que estranhar…lavei as mãos com todo o sossego, peguei num trapo para as limpar e mesmo assim limpando-as é que entrei na sala e dou com os olhos no Administrador.

Ti Marto – Então por cá, Sr. Administrador?

Adm. – É verdade, também lá quero ir ao milagre. Pois vamos lá todos! Levo os pequenos comigo no carro!… Ver e crer como S. Tomé… (Nervoso) Então os pequenos não aparecem ? Está-se a fazer horas. É melhor mandarem-nos chamar!

Ti Marto – Não é preciso que ninguém os convide! Eles lá sabem quando hão-de trazer o gado e aprontarem-se para ir.

Adm. – Ah! Finalmente eles aí vêm. Então, menino e meninas,  vamos já para a Cova da Iria, que eu levo-os no meu carro. Assim poderemos chegar lá mais facilmente, pois hoje deve haver por aí muita gente caminhando para lá!

Lúcia – Nós não queremos ir de carro. Preferimos ir a pé. Além disso, ainda é cedo e a Senhora só no pediu para estarmos lá por volta do meio dia! Muito obrigada pela oferta mas nós não aceitamos a boleia!

Adm. – Mas vós não vedes que é melhor irdes comigo? É que eu também lá quero ir para ver o que por lá se  passa. Sabe-se lá se a Senhora não quer também falar comigo! É que eu também gostava de a ver! No meu carro ninguém vos incomodará com perguntas, pedidos, empurrões, poeirada…

Ti Marto – Não se incomode o Sr. Administrador com isso! Eles lá hão-de ir ter!

Adm. – Pois então vão andando para Fátima, para a casa do Sr. Prior, que quero lá fazer-lhe umas perguntas!  Vamos então todos: os pequenos, o pai da Lúcia e o pai do Francisco e da Jacinta!…

Adm. – Bem, já chegámos à casa do Sr. Prior. Vamos subir! Venha a Lúcia em primeiro lugar!

Ti Marto – Vai lá, Lúcia!…

Prior de Fátima –  Quem te ensinou a dizer aquelas coisas que andas por aí a dizer?

Lúcia –  Aquela Senhora que eu vi na Cova da Iria.

Prior – Quem anda a espalhar tais mentiras, que fazem tão mal, como a mentira que vocês disseram, será julgado e irá dar ao inferno, se não for verdade; de mais a mais que muita gente anda enganada por vocês.

Lúcia – Se quem mente vai para o inferno, então eu não vou para o inferno, porque não minto, e digo só o que tenho visto e o que a Senhora me tem dito. E quanto ao povo que ali vai, só vai porque quer; nós não chamamos  ninguém.

Prior – É verdade que aquela Senhora vos confiou um segredo?

Lúcia – Sim, mas não o posso dizer. Que, se V. Revcia quer sabê-lo, eu peço à Senhora e, se me der autorização, digo-lho.

Adm. – Isso são coisas sobrenaturais. Vamos adiante! …  Vamos embora! Entrai os três na minha charrete, que está ali ao fundo das escadas. Eu levo-vos já à Cova da iria! (1)

Ti Marto – “Os pequenos começaram a descer e o carro, sem eu dar conta, tinha mesmo vindo encostar ao fim da escada. Ora aquilo estava mesmo a jeito e o Administrador, num instante, conseguiu que eles entrassem para dentro do carro. O Francisco pôs-se à frente e as duas cachopas atrás. Estava aquilo tão jeitoso que era uma beleza. O cavalo partiu num trotezinho em direcção à Cova da Iria e eu aliviei-me um tanto, mas ao acolher-se na estrada fez uma reviravolta, e foi chicote por cima do cavalo, que partiu como um raio. Estava bem estudada!…Estava bem armada!…Foi bem feita!…Mas não havia remédio!” (1)

No dia 14 de Agosto as três crianças foram submetidas a um cerrado interrogatório pelo Administrador,  que não conseguiu forçá-las a dizer o segredo, apesar de recorrer a promessas e ameaças. Nem  a promessa de moedas de oiro nem a ameaça de irem parar a um caldeirão de azeite a ferver surtiram efeito. Ficava ainda uma esperança de umas horas na cadeia que os tornassem mais colaborantes com o Administrador. Mas nem isso deu o resultado pretendido.

A Aparição nos Valinhos (19 de Agosto de 1917)

Após os sinais do costume( relâmpagos),  Nossa Senhora esperou que a Jacinta chegasse, para se revelar sobre uma azinheira um pouco maior que a da Cova da Iria.

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

V. MariaQuero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13 e que continueis a rezar o terço todos os dias.

Lúcia – Queria pedir-Lhe para fazer um milagre a fim de que todos acreditem .

V. MariaSim! No último mês,  em Outubro, farei um milagre para que todos creiam nas minhas aparições. Se não  vos tivessem levado à aldeia (Vila Nova de Ourém) o milagre teria sido mais grandioso. Virá S. José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo. Virá também Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores.

Lúcia – O que é que Vossemecê quer que se faça do dinheiro e das outras ofertas que o povo deixa na Cova da Iria?

V. MariaFaçam-se dois andores; um leva-o tu com a Jacinta e outras duas meninas vestidas de branco; o outro leve-o o Francisco com mais três meninos também vestidos de opas brancas. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário.

Lúcia – Queria pedir-lhe por aqueles doentes que…

V. MariaSim, alguns curarei durante o ano. Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.

Desta vez, o Francisco e a Jacinta colheram dois raminhos da pequena azinheira onde Nossa Senhora pousara os seus pés e, deixando a Lúcia a guardar as ovelhas, regressaram muito contentes a casa. À  porta da casa de Lúcia encontraram  D.Maria Rosa dos Santos, mãe de Lúcia.

Jacinta – Ó tia, vimos outra vez Nossa Senhora!…Nos Valinhos!…

D. Maria Rosa – Ai, Jacinta! Sempre vocês me saíram uns mentirosos! Nem que Nossa Senhora lhes vá aparecer agora em toda a banda por onde vocês andam!…

Jacinta – Mas é que vimos. Olhe, tia, Nossa Senhora prantou um pé neste raminho e outro neste!

D. Maria Rosa – Dá-me cá! Deixa ver! (Cheirando) Mas a que cheira isto? …Não é perfume…não é incenso…nem sabonete…cheiro a rosa também não é…nem nada que se conheça…Mas é um cheiro bom! …(Para todos os presentes): Quereis vós também cheirar?…Fica aqui, sempre se há-de encontrar alguém que saiba dizer a que é que cheira este ramo!

À noite:

D. Maria Rosa – Eh! Lúcia, Maria dos Anjos,… quem tirou daqui o raminho?… Ele estava aqui neste vaso!… Será que agora também há ladrões  nesta casa? Não bastam já os problemas do costume?… Lúcia, foste tu que o escondeste?

Lúcia – Ó mãe, eu nem sabia que estava cá um raminho da azinheira! Mas o raminho não é da Jacinta ou do Francisco?

D. Maria Rosa – Realmente!… Hum!…Eu cá  já desconfio!… Quem rouba o que é seu…fica perdoado!… Mas amanhã já tiro isso a limpo!…

Ti Marto – Eu tinha ido nesse dia, à tarde, dar uma volta por umas fazendicas e , ao sol posto, voltei para casa. Quando ia quase a entrar, encontro um fulano meu amigo, que me diz assim:

Fulano – Ó Ti Manel! O milagre já está mais averiguado!

Ti Marto – Cá por mim não sei de nada!

Fulano – Certo que não sabe de mais nada?

Ti Marto – Eu não! Que havera eu de saber mais?

Fulano – Pois fique sabendo que Nossa Senhora apareceu, há um bocado, nos Valinhos, aos seus filhos e à cachopa do Abóbora. Pois olhe que é certo, Ti Manel, e sempre lhe digo que a sua Jacinta tem uma virtude qualquer. Ela não tinha ido com os outros e veio cá um a chamá-la e, só quando ela lá chegou é que Nossa Senhora apareceu.

Ti Marto – Eu encolhi os ombros sem ter palavra que dissesse, mas entrei no pátio a pensar no caso. A mulher não estava em casa; fui andando para a cozinha e lá me sentei. Nisto entra a Jacinta muito contente com um raminho na mão libertando um perfume um inexplicável e magnífico cheiro que eu nem sabia explicar,  assim dum palmo e a dizer-me:

Jacinta – Olhe,  pai! Nossa Senhora voltou a aparecer outra vez à gente nos Valinhos!

Ti Marto – Que é que trazes aí?

Jacinta – É o raminho onde Nossa Senhora pôs os pés.

Cheirei-o, mas o perfume tinha desaparecido. (1)

 .

(1)    Extraído e adaptado de : Pe João De Marchi – Era uma Senhora mais brilhante que o sol –Missões da Consolata, 8ª Edição, pp.156-159 , Fátima, 1966

Ezequiel Miguel

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Interrogatório dos Pastorinhos em Ourém

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Administrador de Vila Nova de Ourém

. Soldado da Guarda Nacional Republicana (G.N.R)- Secretário do Administrador

. Lúcia, Francisco e Jacinta

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Local da acção:  Gabinete do Administrador, na Câmara Municipal de Ourém. Ele está sentado à secretária, batem à porta e o seu secretário anuncia as três crianças, estando já 3 cadeiras à espera delas mais ou menos a meio do gabinete. Elas entram, e ele, com modos afáveis, convida-as a sentarem-se.

Adm. –  Sois então vós a causa de toda esta trapalhada! Sois então vós que inventastes para aí umas anedotas divertidas sobre uma Senhora que vos aparece lá para os lados da Cova da Iria! E contais bem essa história, pelo que sei, porque muita gente vos acredita. Se calhar, foi o diabo que vos iludiu e agora andais a fazer o jogo dele. Dizei-me uma coisa: Como era ele? Tinha cornos e trazia uma forquilha?

Lúcia – Não era o diabo! Era Nossa Senhora, uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, que vem  do Céu e volta para o Céu e pediu-nos para irmos seis vezes à Cova da Iria, para falar connosco.

Adm. – Ah sim? E que vos diz ela? Sim, o que é que Ela já vos disse?

Lúcia – Disse que rezássemos o Terço e fizéssemos sacrifícios para salvar os pecadores, porque vão muitas almas para o inferno, por não se rezar e fazer sacrifícios por elas.

Adm. – O Inferno? Ó meninos, Isso não existe! Isso é uma invenção dos padres e de cabeças tolas. O inferno são os nossos adversários políticos e aqueles que querem destruir a República. Acreditais no que essa Senhora disse? Como é que Ela prova que há inferno? Por acaso,  vós já o vistes?

Aqui, batem à porta…e o Secretário vem avisar o Administrador.

Secretário –  (Falando ao ouvido): Sr. Administrador, está ali uma pessoa que vem de Lisboa e quer falar consigo. Disse que  era do Governo. Parece ser alguém importante.

Adm. – Vou já! Menino e meninas, fiquem aí por uns instantes, enquanto vou ali fora receber uma pessoa.

Ambos saem e ficam as crianças sozinhas. Apercebendo-se do rumo da conversa, Lúcia chama a atenção de Francisco e Jacinta para o segredo. Lúcia combina com eles que, às perguntas sobre o segredo, eles olharão para o chão e não responderão nada.

Lúcia –  Vede lá! Vós já vistes o que ele quer saber! Tu, Jacinta, quando ele te perguntar, não olhes para ele, olha para o chão e fica calada! O Francisco e eu fazemos o mesmo. Se tiveres a tentação de dizer alguma coisa, olha primeiro para mim! Não caias outra vez!

Jacinta  -E se ele nos trata  mal?

Francisco – Oferecemos pelos pecadores!

Jacinta – Ficai descansados! Eu não digo mais nada a ninguém! Fala tu, Lúcia! Nós ficaremos caladinhos que nem ratos!

Lúcia – O Sr. Administrador é esperto e já deu a entender porque é que nos trouxe aqui. Ele quer saber tudo, mas nós não vamos dizer nada! Ele vai ficar muito chateado, mas, depois, manda-nos embora. Atenção, que ele vem aí!…

Adm.  – Ora, então, onde é que nós íamos?…Então, ninguém responde? Ah, já me lembro, íamos no inferno. Volto a perguntar: Já o vistes? Que dizes, Lúcia?

Lúcia – (Silêncio)

Adm. –  E tu, Francisco ?

Francisco – (Silêncio)

Adm. –  E tu, minha pequerrucha, acreditas no inferno?

Jacinta – (Silêncio)

Adm. – Parece-me que um gato vos comeu as línguas ou alguém vos ensaiou para esta entrevista. Bem, vamos saber outras coisas! Afinal, essa Senhora veio lá de tão longe só para vos ver ou também era muda como vós? Dizei-me: O que é que ela disse que interesse a toda a gente? E a propósito, não vos deu nenhum recado para mim? Se calhar, esqueceu-se!

Lúcia – Não, Sr! Só deu o recado a nós!

Adm. – Era eu quem tinha o direito de A receber em primeiro lugar, porque eu é que sou a Autoridade  máxima desta terra. Já não há respeito pela autoridade! Nem sequer lá no Céu!

Lúcia – Mas o senhor quer mesmo saber o que Ela disse e que lhe interessa saber?

Adm. – Ainda me perguntas! Já gastei o saca-rolhas a tentar sacar-vos esse segredo! Eu estou a morrer à fome e ainda me perguntas se quero comer?!

Lúcia  – Ela disse que era preciso fazer penitência, converter-se, arrepender-se, deixar de pecar, fazer sacrifícios pelos pecadores e  rezar o Terço todos os dias. Também disse que a guerra ia acabar e que os soldados voltariam em breve para casa.

Adm. – Ora, aí estão duas boas notícias! Mas isso precisa de ser um segredo? Não acredito que seja! Mas como é que ela sabe isso? Ouvi dizer que vos contou uns segredos! Então, venham eles! Começamos pela Jacinta. Diz lá, menina, o que foi que a Senhora disse assim tão importante que não possa ser dito a todos? A Senhora não vos disse que era preciso respeitar a autoridade desta terra, que sou eu?… Trata-se, acaso,.de outra guerra? Vai haver uma revolta monárquica para trazer o rei de novo?… Tudo isso são manobras da Reacção monárquica e dos padres!

Lúcia – Posso fazer uma pergunta?

Adm. – Diz lá!

Lúcia – Quem é a Reacção? Nós não conhecemos ninguém com esse nome!

Adm – Pois claro que não! Foi uma tirada estúpida da minha parte! Esquecei! Mas voltemos aos segredos! Os segredos só dizem respeito a vós?… Olha lá, Jacinta! Vês ali aquela mesa com brinquedos e outras coisas bonitas? Escolhe dali o que quiseres, se me disseres os segredos!..

Jacinta – (Silêncio e olhos no chão)

Adm. – .Não dizes nada? Bem, vamos ao Francisco! Nós somos homens e entendemo-nos melhor. Estas coisas de segredos,… nós sabemos como é: prometemos guardar segredos, mas, depois, os segredos tornam-se pesados e depressa os despachamos. Espero que a tua língua não esteja ferrugenta como a da Jacinta, que está para ali amuada e com a língua atada. Também ali há coisas de que gostas. Escolhe o que quiseres, por exemplo, aquela bola, aqueles berlindes, aquele pião e  aquele pífaro novo…, mas diz-me os segredos!…

Francisco – (Silêncio e olhos no chão)

Adm. – Não dizes? (Irritado) Mas fostes vós que inventastes os segredos e agora tendes medo de falar? Eu não vos faço mal! Podeis falar à vontade, que eu não direi nada a ninguém! Até podeis dizer que é mentira, que não há segredo nenhum, que inventastes isso para vos divertirdes e meter medo às pessoas!…Também não falas? Combinaste com a tua irmã? Também um gato te comeu a língua!?…Bem, estou a ver que convosco não me safo! Vamos à Lúcia, que já sabe melhor quais são os deveres para com a Autoridade. Diz-me, porque é que eles não falam? Têm medo de ser castigados pelo sr. Prior ou pelos pais? Custa alguma coisa desembuchar algo que todos deveríamos saber? Até porque, se se trata de algum perigo, devíamos saber, para estarmos preparados.

Lúcia – O sr. Administrador tem razão quando diz que todos devíamos saber certas coisas! Então, eu digo algumas coisas que ela disse e que todos devemos saber.  O sr. Administrador quer mesmo saber quais foram essas coisas?

Adm. – Ó rapariga, já estou farto de gastar latim para vos convencer a falar e ainda me perguntas se quero saber? Desembucha de uma vez por todas!

Lúcia – A Senhora disse, além do que já lhe disse, que curaria uns doentes, mas outros não curaria; disse que, no fim de cada mistério do Terço,  rezássemos assim: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do Inferno! Levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem”!

Adm. – O Céu…o inferno…fazer curas milagrosas… curar doentes!…Ó menino e meninas,…são esses os segredos que estavam assim tão bem guardados? Que raio de segredos são esses? Isso já a minha avó sabia!

Lúcia – Mas, sr. Administrador, eu não disse que isso eram os segredos! Isto é o que a Senhora disse para todos e também para si! Quer aprender a rezar o Terço connosco? Nós ensinamos-lhe e também lhe ensinamos a fazer sacrifícios pelos pecadores. Não quer também ir à Cova da Iria num dia 13? Ela pediu que fôssemos seis meses seguidos à Cova da Iria e depois faria um milagre para todos acreditarem que é verdade que Ela nos aparece!

Adm. – Pois! Pois! Sacrifícios, sacrifícios! Isso já eu faço convosco! O terço também já o rezo desde que aqui estou convosco e mistérios também já aqui há que chegue para vários terços. Quanto ao Céu, ao Inferno, às curas milagrosas, à conversão de pecadores…isso não são contas do meu rosário e são tretas dos padres!

Lúcia – Mas a Senhora também se referiu a si!

Adm. –  Ah sim? Finalmente, temos aí alguma coisa que se aproveita! Que disse Ela, então, a meu respeito?

Lúcia – Ela disse que vão muitos pecadores para o inferno. Ora, como o sr. Administrador não crê em Deus, não vai à Missa, não se confessa, não reza o Terço,… fala mal da Religião e dos Padres,…então, é um grande pecador que também vai para o inferno!

Adm. – UI!Ui!Ui! Calma aí! Calma aí! Se o inferno não existe, como é que eu vou para um lugar que não existe?

Lúcia – E como é que o sr Adm. prova que não há inferno?

Adm – Ó miúda, estás-me a queimar os miolos! Vamos cá a descer à terra!

 Mas tu, que és a mais velha,…foste tu que inventaste essas coisas e intrujaste os teus primos, ainda muito novos para saberem resistir a essas patranhas que te ocupam a cabeça? Será que tu não sonhaste e agora remetes-te ao silêncio para não dizeres que mentiste? E, pelo que sei, tens mentido a toda a gente, até aos teus pais e ao Sr. Prior. A tua mãe não te ensinou que é pecado mentir? Afinal, sois uma corja de mentirosos, mas tu és a mais mentirosa e eu estou convencido que tu és a responsável por todas estas patranhas que se passam e contam lá por Fátima. Não queres acabar com isso tudo, dizeres aqui que mentiste e dizer também que inventaste os segredos numa brincadeira? E já agora, esses segredos dizem respeito a vós, a mim, à Igreja Católica,  ao futuro de Portugal, ao mundo, à República, à Maçonaria, à Monarquia, à Religião, a algum Partido político, a alguma guerra, a alguma catástrofe mundial?

Lúcia –( Silêncio e olhos no chão)

Adm. – Já vejo que também recusas revelar esses segredos…que eu acredito não serem segredos nenhuns. Mas, sejam segredos ou não, tens de me dizer… ou então mando-vos prender! Ficais na prisão e só saireis de lá quando falardes! E mais: ninguém virá visitar-vos! E isto é só para começar! Depois, logo veremos! Tendes a noite toda para pensar. Se amanhã não me disserdes os segredos, mando-vos fritar num caldeirão de azeite a ferver. Soldado, leva-os para a prisão!

A cena termina com as crianças saindo do gabinete, conduzidas pelo soldado da GNR.

No dia seguinte –  No gabinete do Administrador

A Jacinta é conduzida à presença do Administrador, para novo interrogatório, baseado nas mesmas perguntas do dia anterior. A Jacinta repete, a todas as perguntas, a mesma atitude de silêncio e olhos no chão, para desespero do Administrador, que vai ficando cada vez mais irritado:

Adm. Ora, então, bom dia a todos. Espero que tenhais dormido bem!

Lúcia, Francisco e Jacinta – Bom dia!

Adm- Ora, espero que tenhais dormido bem e que, com a cabeça fresca e a língua pronta, me digais finalmente o que eu quero saber. É que eu, como ontem vos disse, vou lançar-vos num caldeirão de azeite a ferver, se não me disserdes o segredo ou os segredos. Então, vamos a isso! Qual de vós me diz já esses malditos segredos?…….Ninguém?…Todos com a língua atada e os olhos no chão?…É assim que me respeitais? Bem, vamos a um de cada vez! Fica aqui só a Jacinta!

O Adm. toca uma campainha e entra um GNR

Adm- Soldado, leva a Lúcia e o Francisco para um quarto e fecha-os à chave!. Entretanto, prepara o caldeirão com azeite, para o caso de eles não falarem!

GNR – Sim, sr. Adm.! (Sai)

Adm.- Então, Jacinta!? O que tens a dizer-me?

Jacinta –( Silêncio e olhos no chão).

 Adm. – Continuas na tua teimosia de não obedeceres à minha autoridade? Será que gostas mesmo de ser fritada no caldeirão do azeite ou esperas que a vossa Senhora vos livre? Não tens medo de morrer frita como um torresmo?

Jacinta – Não, senhor, não tenho medo e não digo o segredo.

Adm. – É a tua última palavra?

Jacinta – É!

O Administrador toca a campainha e aparece o GNR

Adm. –  Soldado, o caldeirão de azeite a ferver já está pronto?

Soldado – Sim, sr. Administrador, já está pronto.

Adm. – Então, leva esta e traz-me o Francisco?

O Administrador passeia de um lado para o outro, parando, de vez em quando, para pensar em voz alta. Entretanto, bebe um copo de água, acende um cigarro e fuma-o nervosamente:

Adm. – Que coisa estranha! Em circunstâncias normais, a menina teria desatado a chorar e contado o segredo. Em vez disso, rezava e saiu calmamente para o suplício, sem gritos, sem lamentações, sem choro… Qual era a criança que resistia a esta prova? Há aqui coisas que não compreendo.(Batem à porta) Vejamos como se comportam os outros. Ah! Lá vem o Francisco!

Soldado – Aqui está o Francisco!

Adm – Senta-te, rapaz! Então, espero que soltes a língua, desta vez! A tua irmã não quis soltar a dela, mas agora…acabou-se! Já foi para o caldeirão de azeite a ferver e tu também vais, se não me contares esses segredos.

Francisco limpa as lágrimas pela irmã, mas não abre  a boca nem olha para o Administrador, ficando este perplexo ante a coragem do Francisco, que, finalmente:

Francisco – Se me matarem, vou para o Céu mais cedo, para o pé de Nosso Senhor, Nossa Senhora e da minha irmã e ofereço a minha morte pelos pecadores e para consolar Jesus, que está muito ofendido por causa dos pecados das pessoas.

Adm.- Mas que conversa! Pecadores para a direita, pecadores para a esquerda! Cá está sempre a ladainha dos padres a encher as cabeças destas crianças! Quem te ensinou isso, o sr. Prior ou os teus pais?

Francisco – Foi Nossa Senhora.

Adm. – Pronto, lá vai tudo dar ao mesmo! Vou mandar-te para o Céu, mas, primeiro, mando-te para o caldeirão de azeite a ferver, onde vais a ser frito, como a Jacinta. Pela última vez: Dizes ou não dizes o segredo?…

Francisco – ( Silêncio)

Adm.- Soldado, leva também este e traz-me a outra! Não faço nada com esta garotada que se diverte a inventar coisas estúpidas. Burro sou eu que ando para aqui a tentar o impossível para acalmar os medos de Lisboa! Porque não vêm cá eles e os levam para Lisboa? Pode ser que eles lá consigam o que eu não consigo!

Francisco abandona o gabinete, sem medo, também calmamente, com o seu terço entre os dedos, acompanhado pelo GNR. Segue-se mais um monólogo do sr. Adm., cada vez mais intrigado pelas intrigantes atitudes daquelas crianças.

Adm. – Última tentativa!… Sou uma autoridade neste concelho e a minha influência chega até aos seus confins, mas neste assunto, nem no meu gabinete sou capaz de a exercer e nem sequer com crianças, que fazem de mim um verdadeiro palhaço. Valha-me que elas me levam a sério, de contrário ainda se riam nas minhas barbas, para minha vergonha. Estou a ver que o meu plano se esboroa e que  redunda em nada. Tanta estratégia para conseguir o rapto, tantas noites a magicar na melhor maneira… tantos receios, tantos cuidados, tantas promessas, tantas ameaças, tanto fingimento…e para nada! (Batem à porta) Entre!…Ora cá está a Lúcia, a minha última esperança! Vais, finalmente, estender aqui esses segredos, de contrário, acontece-te como aos teus primos, que se recusaram a falar, mas que já se arrependeram. A estas horas já estão ambos fritos e não lhes aproveitou nada o silêncio, pagando caro a desobediência à minha autoridade de Administrador. Mas tu não vais ser casmurra como eles, porque compreendes melhor o que é respeitar a autoridade. Vá! Desembucha lá o segredo!

Lúcia – (Silêncio e olhos no chão).

Adm. – Com mil diabos! Continuas a não querer falar! Mas que beleza tem o chão deste gabinete para estardes sempre de cabeça baixa a olhar para ele? Diz-me lá quanto queres e eu compro-te esses segredos! Os teus pais ficarão contentes se apareceres lá com dinheiro ganho por ti! Até te vão agradecer, porque eles também gostariam de conhecer esses segredos, se é que não foram eles a meter-vos isso na cabeça! Que filhos sois vós, que não tendes confiança nos vossos pais?…(Silêncio) Bem, não queres mesmo falar? Então também vais a fritar no caldeirão de azeite a ferver. Só já faltas tu. Soldado, leve também esta!

Triste, mas conformada, lá vai Lúcia, conduzida pelo GNR para uma sala onde estão Francisco e Jacinta a rezar por ela. Não é difícil imaginar a alegria, os abraços, os saltos, as acções de graças a Nossa Senhora. Pouco depois, surge o Administrador a dar a notícia:

Adm. –  Ides partir para a vossa terra e para os vossos pais, mas antes ides comer alguma coisa!

A cena termina com a simpática esposa do Administrador a trazer leite, bolos e a fazer-lhes companhia.

Obsv. O segredo dividia-se em três partes:  A visão do inferno;  a Devoção ao Imaculado Coração de Maria e  conversão da Rússia;  a perseguição à Igreja, com o consequente número astronómico de mártires ao longo do século XX, vítimas do Nazismo e  do Comunismo.

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Ezequiel Miguel

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Ó mãe, eu vi hoje Nossa Senhora!

Personagens:

.Jacinta

.Francisco

.Carolina,

.Sr Marto, pai de Jacinta e Carolina

. Olímpia, mãe de Jacinta e Carolina

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13 de Maio de 1917

(Realidade & Ficção)

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NSNaquele dia, os pais de Francisco e Jacinta, Sr. Marto e Srª Olímpia, tinham ido à feira da Batalha, a fim de comprarem uma marrana (porca). À tarde, lá vinham eles com o animal. Não suspeitavam eles  de algo que se escondia sob pressão no peito da pequena Jacinta, a Jacintica, conforme o sr. Marto a chamava. Jacinta aguardava ansiosamente a chegada dos pais. A mãe vinha à frente. Logo que a viu, a Jacinta corre até ela, abraça-se-lhe às pernas e despeja o que lhe vai lá dentro, indiferente ao que fora combinado com o irmão e com a prima logo após a Aparição de Nossa Senhora. A Lúcia tinha exigido segredo, eles tinham aceitado e prometido ser fiéis à promessa, mas, como em tudo, o homem propõe e Deus dispõe. O segredo continha o facto de terem visto Nossa Senhora e também a promessa que Ela lhes fizera de os levar para o Céu, duas cláusulas difíceis de serem respeitadas, porque eram de molde a fazerem rebentar o peito de um adulto, quanto mais o de uma criança de sete anos!

Jacinta – Ó mãe,  eu vi hoje Nossa Senhora na Cova da Iria!

Olímpia – Credo, filha! És uma boa santa para veres Nossa Senhora! Vá, vamos para casa e depois contas-me isso melhor.

Jacinta – Mãe, vossemecê não acredita? Mas é verdade! Eu vi-A!

Olímpia – Então, não acredito? Viste tanto Nossa Senhora como eu vi S. José e o Menino!

Jacinta – É verdade! Não estou a mentir!

Olímpia – E só tu é que A viste? E o Francisco e a Lúcia?

Jacinta – Eles também viram!

Olímpia – Mas, então, Ela veio só para se mostrar a vós? Não fez mais nada?

Jacinta – Todos nós A vimos, mas só a Lúcia é que falou com Ela. Eu vi e ouvi, mas o Francisco só viu.

Olímpia – Que coisa tão estranha! Olha, é melhor contares tudo logo ao jantar, porque todos quererão saber como isso foi. Assim, só contas uma vez!

Ao jantar:

Olímpia – Jacinta, já podes contar, mas só depois de comeres a sopa!

Jacinta – A sopa está muito quente! Não posso contar já, enquanto a sopa arrefece?

Olímpia – Não!

Jacinta – Está bem, pronto! Não falem comigo até eu comer a sopa!…

Olímpia – Ó rapariga, come isso mais devagar, que queimas a boca!

Jacinta – Não se aflija, mãe! Já não está quente!… Pronto, já acabei! Já posso começar?

Todos – Venha de lá essa história!

Jacinta – Foi assim: Nós andávamos lá naquela encosta da Cova da Iria. Andávamos a fazer um muro em volta de uma moita. De repente…

Olímpia – Então e quem era o pedreiro e os trolhas?

Jacinta – A Lúcia e eu levávamos as pedras e o Francisco fazia o muro.  Estávamos a criticar o Francisco, porque o muro ia muito torto. De repente, surgiu um relâmpago…e depois, outro…mas não se ouviam trovões, apesar de os relâmpagos estarem ali em cima de nós. Pensámos que vinha lá uma trovoada e pusemo-nos a juntar as ovelhas para virmos embora, porque tivemos medo. Ficámos todos assustados…e lembrámo-nos que em caso de trovoada não nos devemos pôr debaixo das árvores, porque pode lá cair um raio.

Olímpia – Bem pensado e bem feito!

Jacinta – Quando estávamos já ao fundo da encosta, naquela cova, vimos de repente Nossa Senhora em cima de uma azinheira pequena, mas sem pousar nela. Era uma Senhora muito linda, muito linda. Saía Dela tanta luz que nem se podia olhar para Ela, porque aquela luz cegava a gente- Ela brilhava mais que o sol. Ela trazia um Terço muito bonito e pediu que o rezássemos todos os dias, para obter a paz e fazer voltar os soldados que andam na guerra.

Olímpia – És bem doidinha! E logo Nossa Senhora ia aparecer a ti! Há tanta gente no mundo e essa sorte estava mesmo guardada para ti!

Jacinta – Não foi só para mim! Também foi para o Francisco e para a Lúcia!

Pai da Jacinta – Mas como é que vós sabeis que era Nossa Senhora? Ela disse quem era? E o que é que  Ela disse mais?

Jacinta – A Lúcia perguntou-lhe pela Amélia e pela Ana das Neves. A Senhora disse que a Ana das Neves já estava no Céu, mas que a Amélia estaria no purgatório até ao fim do mundo. Ora, se não fosse Nossa Senhora, como é que Ela sabia essas coisas? É sinal de que Ela vinha do Céu!

Olímpia – O quê? Ela disse isso? Então,… isso parece ser coisa séria! Só o Céu sabe para onde vão as pessoas que morrem. E a vós? Também vos disse que iríeis para o Céu?

Jacinta – Disse!

Olímpia – Como é que disse exactamente?

Jacinta – A Lúcia perguntou se nós os três  também íamos para o Céu e a Senhora disse que sim!

Carolina – Tu estás muito contente, mas o Francisco parece não estar a gostar nada da conversa!

Francisco – Não é por isso! A Jacinta sabe porquê. Ela está a falar demais e o que ela está a dizer era um segredo. A Lúcia também vai ficar muito chateada.

Jacinta – O que é que tu queres? Eu não sou capaz de guardar estas coisas só para mim! Se não falo, rebento!

Olímpia – Já agora, se isso era um segredo, perdido por um, perdido por mil. Conta o resto! E depois?

Jacinta – (Um pouco triste) Ela perguntou-nos se queríamos fazer sacrifícios para contentar Jesus, que está muito ofendido pelas pessoas que cometem pecados. E pediu que rezássemos pelos pecadores. Nós dissemos que sim e então Ela disse que iríamos ter muito que sofrer, mas que a graça de Deus seria o nosso conforto. Já agora, quem me diz o que é a graça de Deus?

– (Silêncio e olhando uns para os outros…)

– D. Olímpia –   Ó filha, isso é…é…Então,… é a ajuda que Deus dá a uma pessoa!

Jacinta – Mas parece que ninguém ficou contente por nós irmos para o Céu!

Sr Marto – Ó filha, nós queremos que vás para o Céu,  mas nós também queremos ir! Porque é que não pedistes à Senhora que nos levasse também a nós todos?

Jacinta – A Lúcia só perguntou por nós e ela não se lembrou de mais ninguém!… E eu também não!…Ficámos tão contentes!… Mas eu prometo que vou pedir à Senhora por vós todos!

Francisco – Mas Nossa Senhora disse que nós, antes de irmos, iríamos ter muito que sofrer e eu teria de rezar muitos Terços.  Como vamos sofrer, não sei, mas se a Senhora o disse, é porque vai mesmo ser verdade! E de onde virá esse sofrimento,…também não sei! Mas, se calhar, já começou,… por causa dessa linguaruda da Jacinta! Tenho cá um pressentimento que ela já esturrou o guisado, como diz a mãe!

Olímpia – Mas, afinal, ainda não dissestes como era essa Senhora!

Jacinta –  Era uma Senhora  tão linda, tão linda!… Tinha um vestido branco e um cordão de ouro do pescoço  ao peito…A cabeça estava coberta por um manto branco também, muito branco, não sei, mas mais branco que o leite…e tapava-A até aos pés…Era todo bordado a ouro…Ai que bonito!…Tinha as mãos juntas, assim,… Entre os dedos tinha as contas. Ai que lindo Tercinho que ela tinha,…todo de ouro, brilhante como as estrelas da noite, e um crucifixo que luzia,…luzia,…Ai que Senhora!…Falou muito com a Lúcia, mas nunca falou comigo nem com o Francisco…Eu ouvia tudo o que elas diziam…Ó mãe, é preciso rezar o Terço todos os dias!…A Senhora disse isso à Lúcia. E disse mais outras coisas  que eu agora não me lembro,  mas a Lúcia  deve lembrar-se!…Quando Ela entrou pelo Céu adentro, parece que as portas se fecharam com tanta pressa que até os pés iam ficando entalados…Era tão lindo o Céu!… (1)

Pai da Jacinta –  Bem, parece-me que tudo isso faz sentido. Se era uma mulher assim vestida, só podia ser Nossa Senhora.

Carolina – Olha lá! Vós dormistes a sesta lá na Cova da Iria? É que podeis ter tido um lindo sonho!

Jacinta – E tu achas  que sonhávamos os três ao mesmo tempo e um sonho igual para  todos?

Olímpia – Bem, na Bíblia fala-se do profeta Daniel, que tinha sonhos que depois eram reais. S. José também viu em sonhos um anjo a dizer-lhe que tomasse o Menino e sua Mãe e fugisse para o Egipto…

Jacinta – Mas nós não sonhámos! Nós vimos e ouvimos e estávamos bem acordados, porque ninguém dorme de joelhos. Nós estávamos de pé e quando vimos a Senhora pusemo-nos de joelhos e ficámos com os olhos bem abertos! Ai que Senhora tão bonita! Estamos muito contentes porque Ela prometeu levar-nos para o Céu, mas antes…

Olímpia – Francisco, é certo tudo o que a Jacinta diz?

Francisco – Ela não devia ter dito essas coisas, mas já que disse,…é tudo certo o que ela diz!

Carolina – Amanhã vamos perguntar à Lúcia! Se ela disser que não,…então alguém mente ou inventou uma linda história. Vai ser bonito uns a dizer que sim e outros a dizer que não! Eu ainda lá ia hoje, mas já é tarde.

Pai da Jacinta – Eu cá acredito que é verdade o que eles dizem. Eu nunca os apanhei em mentira. “ Desde o princípio do mundo, Nossa Senhora tem aparecido muitas vezes, de diversas maneiras…É o que vale…Se o mundo está mau, se não se tivessem dado muitos casos assim, pior estava…O poder de Deus é grande! Também não acredito que a Lúcia vá mentir. Lá em casa também sempre se ensinou que não se deve mentir. Não sabemos o que é, mas alguma coisa será…Seja o que Deus quiser!” (1)

No dia seguinte (14 de Maio):

Vizinha – Ó Maria dos Anjos, então não sabes? A Ti Olímpia disse-me que a cachopica mais nova, a Jacinta ou lá como se chama, tinha visto Nossa Senhora na Cova da Iria, mais o Francisco e a Lúcia, a tua irmã!

Maria dos Anjos – O que vossemecê me conta! Ela, lá em casa, não nos disse nada! Ontem, ao jantar, ela esteve muito calada, muito pensativa,… como se não estivesse ali. Perguntámos-lhe como tinha corrido o dia e só disse que tinha corrido bem. Quanto ao resto, aposto que não prestou atenção a nada da conversa. Comeu com pouco apetite e só de vez em quando levava comida à boca. Parecia que estava na lua! Quando lhe perguntámos se queria mais batatas, ela nem ouviu,…era como se não estivesse lá! Achámos aquilo tudo um tanto estranho, mas pensámos que se tivesse zangado com os primos e que estivesse amuada…Então…talvez fosse isso que me conta! Mas eu, quando a encontrar, já tiro os nabos da púcara! Se calhar, até sei onde ela está a estas horas. Deve estar ali debaixo de uma figueira…Já vou ter com ela! Adeus!

Debaixo da figueira:

Maria dos Anjos – Lúcia, que fazes aqui tão sozinha? Estás zangada com alguém?

Lúcia – Não! Estou sozinha porque quero estar sozinha!

Maria dos Anjos – Olha lá! Vais ser franca e responder à pergunta que te vou fazer. Ouvi dizer que tendes visto Nossa Senhora na Cova da Iria. É verdade?

Lúcia – (Após breves momentos de silêncio e atrapalhação) Quem é que to disse?

Maria dos Anjos – Ouvi dizer pelas vizinhas que a Ti Olímpia lhes contara como a Jacinta se tinha saído com esta coisa.

Lúcia – (Triste e pensativa) E tanto eu lhe pedi que o não dissesse a ninguém!

Maria dos Anjos – Mas porquê?

Lúcia – Porque não sei se era Nossa Senhora!…Era uma mulherzinha muito bonita

Maria dos Anjos – E o que é que essa mulherzinha vos disse?

Lúcia – Que queria que fossemos seis meses a fio à Cova da Iria e que depois, então, é que havia de dizer quem era e o que queria.

Maria dos Anjos – Não lhe perguntaste quem Ela era?

Lúcia – Perguntei-lhe de onde era e ela então disse-me assim: “Sou do Céu!”

Maria dos Anjos – Não disse mais nada?

Lúcia – Disse mais coisas, mas eu não quero dizer!

Maria dos Anjos – Olha, vem aí o Francisco!

Francisco – Lúcia! Então não sabes? Aconteceu uma tragédia! A linguaruda da Jacinta já contou tudo! Estamos tramados! Agora todos vão querer saber e temos de nos esconder atrás das paredes, se queremos paz e sossego! Ela estragou tudo! E agora?

Maria dos Anjos – Se a Jacinta já contou tudo, tu também podes agora contar. Acabaram-se os segredos!

Lúcia – Pronto, eu conto!  Estávamos na Cova da iria a fazer uma paredita em volta de uma moita. De repente….

Adaptado de:   João M de Marchi, ERA UMA SENHORA MAIS BRILHANTE QUE O SOL, Edição “Missões Consolata”, pgs 83 – 86,  8ª Edição, Fátima,

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Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – I

13  de Maio de 1917

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Escolhemos nesse dia, para pastagem do nosso rebanho, a propriedade pertencente a meus pais, chamada Cova da Iria. Determinámos, como de costume, qual a pastagem do dia, junto do Barreiro…e tivemos, por isso, que atravessar a charneca, o que nos tornou o caminho dobradamente longe. Tivemos, por isso, que ir devagar, para que as ovelhinhas fossem pastando pelo caminho e chegámos cerca do meio dia”.

Da 4ª Memória da Ir. Lúcia:

“ Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria, a fazer uma paredita  em volta de uma moita, vimos, de repente, como que um relâmpago.

Lúcia -É melhor irmos embora para casa… que estão a fazer relâmpagos;  pode vir uma trovoada.

Francisco e Jacinta – Pois sim.

E começámos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos. Então Nossa Senhora disse-nos:

Virgem Maria (V.M.)- Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

Lúcia – De onde é Vossemecê?

V. M. – Sou do Céu.

Lúcia – E que é que Vossemecê me quer?

V.M . – Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.

Lúcia – Eu também vou para o Céu?

V.M. – Sim, vais.

Lúcia – E a Jacinta?

V.M. – Também.

Lúcia – E o Francisco?

V.M. – Também, mas tem que rezar muitos terços.

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com a minha irmã mais velha.

Lúcia – A Ana das Neves já está no Céu?

V.M. – Sim, está.

Parece-me que devia ter uns 16 anos.

Lúcia – E a Amélia?

V.M. – Estará no purgatório até ao fim do mundo.

Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos.

V.M. – Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

Todos – Sim, queremos!

V.M. – Ides, pois, ter muito quer sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.) que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como um reflexo que delas expedia,  penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:-“Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento”.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

V.M. – Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida começou-se a elevar serenamente, subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivos por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu “.

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Quando nessa mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos pensativos, a Jacinta, de vez em quando, exclamava com entusiasmo:

Jacinta –  Ai que Senhora tão bonita!

Lúcia –  Estou mesmo a ver… ainda vais dizer a alguém!

Jacinta –  Não digo, não! … Está descansada!

No dia seguinte, quando seu Irmão correu a dar-me a notícia de que ela o tinha dito, à noite, em casa, a Jacinta escutou a acusação sem dizer nada.

Lúcia – Vês? Eu bem me parecia! …

Jacinta– Eu tinha cá dentro uma coisa que não me deixava estar calada! ….

Lúcia – Agora não chores! E não digas mais nada a ninguém do que essa Senhora nos disse!

Jacinta – Eu já disse!

Lúcia – O que disseste?

Jacinta – Disse que essa Senhora prometeu levar-nos para o Céu!

Lúcia – E logo foste dizer isso!

Jacinta – Perdoa-me,  eu não digo mais nada a ninguém! “

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Leitura aconselhada:  Memórias da Ir. Lúcia, Vice-postulação , Fatima

 .

Ezequiel Miguel

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