Aparições da Virgem Maria em Fátima – IV

19 de Agosto de 1917, nos Valinhos, Aljustrel, Fátima

Nas suas Memórias, a Ir. Lúcia refere que esta Aparição ocorreu em 13 de Agosto, mas não deixou de salientar que esta data poderia não ser a data verdadeira, pois já não se lembrava bem. Ficou, porém, demonstrado que houve equívoco da sua parte. O equívoco deveu-se ao facto de naquele  dia 13 de Agosto os Pastorinhos estarem à guarda do Administrador de Vila Nova de Ourém, que apareceu lá por Aljustrel  e, servindo-se da mentira, os raptou, levando-os para V.N. de Ourém. A propósito deste rapto o Ti Marto, pai de Francisco e Jacinta, conta:

“Na manhã do dia 13 de Agosto – era uma segunda- feira – mas eu tinha dado as primeiras enxadadas numa fazendica pouco distante, quando me foram chamar que fosse imediatamente lá a casa. Ao entrar vi que estava lá muita gente de fora, mas isso já não havia que estranhar…lavei as mãos com todo o sossego, peguei num trapo para as limpar e mesmo assim limpando-as é que entrei na sala e dou com os olhos no Administrador.

Ti Marto – Então por cá, Sr. Administrador?

Adm. – É verdade, também lá quero ir ao milagre. Pois vamos lá todos! Levo os pequenos comigo no carro!… Ver e crer como S. Tomé… (Nervoso) Então os pequenos não aparecem ? Está-se a fazer horas. É melhor mandarem-nos chamar!

Ti Marto – Não é preciso que ninguém os convide! Eles lá sabem quando hão-de trazer o gado e aprontarem-se para ir.

Adm. – Ah! Finalmente eles aí vêm. Então, menino e meninas,  vamos já para a Cova da Iria, que eu levo-os no meu carro. Assim poderemos chegar lá mais facilmente, pois hoje deve haver por aí muita gente caminhando para lá!

Lúcia – Nós não queremos ir de carro. Preferimos ir a pé. Além disso, ainda é cedo e a Senhora só no pediu para estarmos lá por volta do meio dia! Muito obrigada pela oferta mas nós não aceitamos a boleia!

Adm. – Mas vós não vedes que é melhor irdes comigo? É que eu também lá quero ir para ver o que por lá se  passa. Sabe-se lá se a Senhora não quer também falar comigo! É que eu também gostava de a ver! No meu carro ninguém vos incomodará com perguntas, pedidos, empurrões, poeirada…

Ti Marto – Não se incomode o Sr. Administrador com isso! Eles lá hão-de ir ter!

Adm. – Pois então vão andando para Fátima, para a casa do Sr. Prior, que quero lá fazer-lhe umas perguntas!  Vamos então todos: os pequenos, o pai da Lúcia e o pai do Francisco e da Jacinta!…

Adm. – Bem, já chegámos à casa do Sr. Prior. Vamos subir! Venha a Lúcia em primeiro lugar!

Ti Marto – Vai lá, Lúcia!…

Prior de Fátima –  Quem te ensinou a dizer aquelas coisas que andas por aí a dizer?

Lúcia –  Aquela Senhora que eu vi na Cova da Iria.

Prior – Quem anda a espalhar tais mentiras, que fazem tão mal, como a mentira que vocês disseram, será julgado e irá dar ao inferno, se não for verdade; de mais a mais que muita gente anda enganada por vocês.

Lúcia – Se quem mente vai para o inferno, então eu não vou para o inferno, porque não minto, e digo só o que tenho visto e o que a Senhora me tem dito. E quanto ao povo que ali vai, só vai porque quer; nós não chamamos  ninguém.

Prior – É verdade que aquela Senhora vos confiou um segredo?

Lúcia – Sim, mas não o posso dizer. Que, se V. Revcia quer sabê-lo, eu peço à Senhora e, se me der autorização, digo-lho.

Adm. – Isso são coisas sobrenaturais. Vamos adiante! …  Vamos embora! Entrai os três na minha charrete, que está ali ao fundo das escadas. Eu levo-vos já à Cova da iria! (1)

Ti Marto – “Os pequenos começaram a descer e o carro, sem eu dar conta, tinha mesmo vindo encostar ao fim da escada. Ora aquilo estava mesmo a jeito e o Administrador, num instante, conseguiu que eles entrassem para dentro do carro. O Francisco pôs-se à frente e as duas cachopas atrás. Estava aquilo tão jeitoso que era uma beleza. O cavalo partiu num trotezinho em direcção à Cova da Iria e eu aliviei-me um tanto, mas ao acolher-se na estrada fez uma reviravolta, e foi chicote por cima do cavalo, que partiu como um raio. Estava bem estudada!…Estava bem armada!…Foi bem feita!…Mas não havia remédio!” (1)

No dia 14 de Agosto as três crianças foram submetidas a um cerrado interrogatório pelo Administrador,  que não conseguiu forçá-las a dizer o segredo, apesar de recorrer a promessas e ameaças. Nem  a promessa de moedas de oiro nem a ameaça de irem parar a um caldeirão de azeite a ferver surtiram efeito. Ficava ainda uma esperança de umas horas na cadeia que os tornassem mais colaborantes com o Administrador. Mas nem isso deu o resultado pretendido.

A Aparição nos Valinhos (19 de Agosto de 1917)

Após os sinais do costume( relâmpagos),  Nossa Senhora esperou que a Jacinta chegasse, para se revelar sobre uma azinheira um pouco maior que a da Cova da Iria.

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

V. MariaQuero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13 e que continueis a rezar o terço todos os dias.

Lúcia – Queria pedir-Lhe para fazer um milagre a fim de que todos acreditem .

V. MariaSim! No último mês,  em Outubro, farei um milagre para que todos creiam nas minhas aparições. Se não  vos tivessem levado à aldeia (Vila Nova de Ourém) o milagre teria sido mais grandioso. Virá S. José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo. Virá também Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores.

Lúcia – O que é que Vossemecê quer que se faça do dinheiro e das outras ofertas que o povo deixa na Cova da Iria?

V. MariaFaçam-se dois andores; um leva-o tu com a Jacinta e outras duas meninas vestidas de branco; o outro leve-o o Francisco com mais três meninos também vestidos de opas brancas. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário.

Lúcia – Queria pedir-lhe por aqueles doentes que…

V. MariaSim, alguns curarei durante o ano. Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.

Desta vez, o Francisco e a Jacinta colheram dois raminhos da pequena azinheira onde Nossa Senhora pousara os seus pés e, deixando a Lúcia a guardar as ovelhas, regressaram muito contentes a casa. À  porta da casa de Lúcia encontraram  D.Maria Rosa dos Santos, mãe de Lúcia.

Jacinta – Ó tia, vimos outra vez Nossa Senhora!…Nos Valinhos!…

D. Maria Rosa – Ai, Jacinta! Sempre vocês me saíram uns mentirosos! Nem que Nossa Senhora lhes vá aparecer agora em toda a banda por onde vocês andam!…

Jacinta – Mas é que vimos. Olhe, tia, Nossa Senhora prantou um pé neste raminho e outro neste!

D. Maria Rosa – Dá-me cá! Deixa ver! (Cheirando) Mas a que cheira isto? …Não é perfume…não é incenso…nem sabonete…cheiro a rosa também não é…nem nada que se conheça…Mas é um cheiro bom! …(Para todos os presentes): Quereis vós também cheirar?…Fica aqui, sempre se há-de encontrar alguém que saiba dizer a que é que cheira este ramo!

À noite:

D. Maria Rosa – Eh! Lúcia, Maria dos Anjos,… quem tirou daqui o raminho?… Ele estava aqui neste vaso!… Será que agora também há ladrões  nesta casa? Não bastam já os problemas do costume?… Lúcia, foste tu que o escondeste?

Lúcia – Ó mãe, eu nem sabia que estava cá um raminho da azinheira! Mas o raminho não é da Jacinta ou do Francisco?

D. Maria Rosa – Realmente!… Hum!…Eu cá  já desconfio!… Quem rouba o que é seu…fica perdoado!… Mas amanhã já tiro isso a limpo!…

Ti Marto – Eu tinha ido nesse dia, à tarde, dar uma volta por umas fazendicas e , ao sol posto, voltei para casa. Quando ia quase a entrar, encontro um fulano meu amigo, que me diz assim:

Fulano – Ó Ti Manel! O milagre já está mais averiguado!

Ti Marto – Cá por mim não sei de nada!

Fulano – Certo que não sabe de mais nada?

Ti Marto – Eu não! Que havera eu de saber mais?

Fulano – Pois fique sabendo que Nossa Senhora apareceu, há um bocado, nos Valinhos, aos seus filhos e à cachopa do Abóbora. Pois olhe que é certo, Ti Manel, e sempre lhe digo que a sua Jacinta tem uma virtude qualquer. Ela não tinha ido com os outros e veio cá um a chamá-la e, só quando ela lá chegou é que Nossa Senhora apareceu.

Ti Marto – Eu encolhi os ombros sem ter palavra que dissesse, mas entrei no pátio a pensar no caso. A mulher não estava em casa; fui andando para a cozinha e lá me sentei. Nisto entra a Jacinta muito contente com um raminho na mão libertando um perfume um inexplicável e magnífico cheiro que eu nem sabia explicar,  assim dum palmo e a dizer-me:

Jacinta – Olhe,  pai! Nossa Senhora voltou a aparecer outra vez à gente nos Valinhos!

Ti Marto – Que é que trazes aí?

Jacinta – É o raminho onde Nossa Senhora pôs os pés.

Cheirei-o, mas o perfume tinha desaparecido. (1)

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(1)    Extraído e adaptado de : Pe João De Marchi – Era uma Senhora mais brilhante que o sol –Missões da Consolata, 8ª Edição, pp.156-159 , Fátima, 1966

Ezequiel Miguel

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Jesus visita o Mar Morto

marmorto17Sodoma e Gomorra

(Confira: Génesis 19 e 20)

(Realidade & ficção)

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Citações bíblicas:

1 . “Se um homem se deitar com outro homem, como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um acto abominável. Serão ambos punidos com a morte. O seu sangue cairá sobre eles”(Lev 20, 13).

2 . “Os dois homens disseram a Lot : “…Manda sair desta região os teus genros, os teus filhos, as tuas filhas e todos os parentes que tiveres na cidade. Pois vamos destruir todas estas terras, porque o clamor que se eleva contra os seus habitantes é enorme diante do Senhor e Ele enviou-nos para os aniquilar” (Gen 19, 12-13).

3 . “Erguia-se o sol sobre a terra, quando Lot entrou em Soar. Então, o Senhor fez cair do céu uma chuva de enxofre e de fogo, enviada pelo Senhor. Destruiu estas cidades, todo o vale (de Sedim) e todos os habitantes das cidades e até a vegetação da terra” (Gen 20, 23-25).

O Mar Morto, também chamado Grande Mar, Mar do Sal,  Mar de Lot, Mar da Morte, Mar de Zoar, Mar de asfaltite, Mar de Arava e Mar Oriental, não é algo que sempre tenha existido como hoje o conhecemos, pois, antes da destruição das cinco cidades, era o Vale de Sedim, onde ficavam vários poços de betume natural. Mas, com  a destruição das cidades, o terreno afundou, engolindo as ditas cidades que antes ocupavam aquele vale e a planície  à volta. E ele lá está, a esconder uma horrível realidade, monumento perene, sinistro, maldito, a comportamentos irracionais dos homens, nada menos que a homossexualidade generalizada nas cinco cidades, conforme o relato bíblico apresentado no Génesis: Sodoma, Gomorra, Bela, Bedma e Seboim.

O Mar Morto tem uma superfície de cerca de 1050 Km2, um comprimento de 80 Km, uma largura de 18 Km e uma profundidade de 450 metros abaixo do nível do mar, sendo a mais baixa depressão existente na Terra, com uma tendência para o nível das  suas águas descer.

No fundo do Mar Morto jaz tudo e todos daquilo que eram estas cidades, local de profunda meditação de que não se tira proveito, porque se relaciona com factos esquecidos, incómodos, negados,  camuflados, deformados,  transformados, manipulados, desvalorizados, branqueados, atribuídos a meras causas naturais por investigadores e teólogos racionalistas, que fornecem explicações ridículas para acalmar  mentes graníticas.

Se o que aconteceu a estas cidades tivesse por base uma causa natural, não seria preciso ter ficado relatado no Génesis, assim como o Dilúvio, também negado por muitos, apesar de a Arqueologia ter demonstrado a sua existência.  Se lá ficou, é porque Deus quis dar aos homens uma permanente lição sobre comportamentos altamente pecaminosos e indignos, que hoje, cada vez mais, tendem a ser imitados, com as consequências trágicas que cairão sobre aqueles que os aprovam em teoria ou os praticam.

Este é um tema que não merece a simpatia de ninguém, porque ninguém gosta de o abordar sem arriscar ser alcunhado de ingénuo, infantilmente crédulo. Lê-se e ouve-se dizer que não está provado que tenha sido como a Bíblia relata, que foi apenas um fenómeno natural aproveitado para vincar umas teorias religiosas, umas lições moralistas sem bases sólidas, etc., etc. Também confesso que nunca ouvi nada sobre o assunto nas homilias das missas, tal como não ouvi sobre a existência de Satanás e sua acção, sobre a existência do inferno, sobre os pecados do sexo, sobre o aborto, sobre tudo o que é sexualidade pecaminosa, sobre as seitas, sobre o espiritismo e outras correntes de vida que levam muitos cristãos, impávidos e serenos,  na direcção da eterna condenação.

Mas também há cientistas que afirmam que há testemunhos materiais válidos sobre o que aconteceu nestas cidades que jazem sepultadas e em ruínas no Mar Morto, morto porque o excesso de sal nas suas águas não permite vida aquática.

Cristo foi lá com os Apóstolos e fez-lhes a catequese  a que o local e o destino dessas cidades estavam, e estão ainda, ligados:

Jesus – Eis-nos chegados! Eu conduzi-vos até aqui, para vos mostrar algo que não deve ser perdido de vista e ficará relatado para sempre, tal como o conheceis da Escritura. Este é um mar que cobre os restos do que foram cinco cidades, a uma profundidade de 400 (450?) metros, notáveis pelos piores motivos. Abraão bem implorou misericórdia para elas, mas chegou à conclusão que não mereciam nenhuma misericórdia. A maldição do Senhor caiu sobre elas e lá, no fundo, está ainda o que resta delas. Juntamente com a destruição por fogo e enxofre, vindos de cima e de baixo, ainda dura a outra maldição que impede que a vida volte aqui a nascer. Sabeis certamente qual o pecado que aqui se cometia, um pecado hediondo e indigno da raça humana, em permanente e total desrespeito pelas leis do Senhor, que criou o homem e a mulher, unindo-os de modo indissolúvel, para um fim bem específico: a geração de seres humanos.

 Deus é tolerante e compassivo, cheio de misericórdia e bondade, mas há medidas que os homens  enchem até vazarem, desafiando Deus e as Suas  santas leis. Aqui estão exemplos, tal como o do Dilúvio, para lembrarem aos homens que o desprezo das leis divinas brada ao Céu por severas punições, que, mais cedo ou mais tarde, poderão desabar sobre as cidades que até aos demónios metem nojo. Nas vossas pregações evocai Sodoma e Gomorra e pregai sobre as causas da sua destruição.  O relato  desta tragédia está  na Escritura  e lá estará até ao fim do mundo, para que os homens tenham sempre presente que devem manter a dignidade com que Deus os dotou, a ninguém sendo lícito colocar os Seus santos mandamentos de cabeça para baixo. O homem foi criado pouco inferior aos anjos, foi coroado de honra, glória e nobreza (Salmo  8, 6)) e nele está infundida uma luz que lhe dita o que deve fazer  e o que deve evitar.

Pedro – Mestre, os homens irão sempre acreditar que estas cidades foram destruídas em consequência dos seus pecados?

Jesus – Não! Virão tempos em que os homens, negando a intervenção divina nos acontecimentos humanos, dirão que se tratou apenas de fenómenos naturais e  que a intervenção divina  nem sequer foi necessária. Dirão que havia lá uns vapores, uns fumos, uns borbulhares de águas, etc. Mas, se tudo tivesse acontecido por causas simplesmente naturais, não mereceria ter ficado relatado como está relatado na Escritura nem testemunhado por personagens reais. E Deus também pode servir-se de causas naturais para a realização dos Seus santos desígnios, pois o Senhor, que tudo criou, pode alterar, suspender ou anular as leis que impôs à Natureza. É certo que que havia nesta zona umas camadas de pez entre as placas rochosas, mas foi Deus que lhes atiçou o fogo, que em sua fúria se foi chocar com o fogo que caía directamente do céu. Foi a revolta dos elementos naturais, em choque uns contra os outros, que levou à destruição de uma região que antes fora um pequeno paraíso terrestre, a que vários personagens de Israel ficaram ligados. Era a terra onde corria o leite e o mel, mas a maldade dos habitantes destas cidades levou tudo à destruição. Àqueles que não virem a mão do Senhor em Sodoma e Gomorra lembro que a sua destruição foi previamente anunciada, como está relatado na conversa com Abraão.

João – E a mulher de Lot, que ficou transformada em estátua de sal?

Jesus –  Ela morreu em consequência da sua desobediência à ordem peremptória que lhe foi dada: “ Ninguém olhe para trás!…Aquele que olhar para trás morrerá”! Ela olhou e morreu instantaneamente. O sal que a envolveu e cobriu ficou para lembrar aos homens que aquilo que o Senhor ordena é para se cumprir. O sal conserva e ela passou a ser uma pequena extensão do mar que engoliu as cidades, ficando a ser, para sempre, um memorial à  desobediência da mulher de Lot. Muitos dirão  que já por aqui havia rochedos com formas humanas, mas isso servirá apenas para os incrédulos alimentarem a sua incredulidade. Esta mulher ficou instantaneamente transformada em estátua de sal, o que difere de tudo o que houvesse por aqui.

André –  Mestre,  poderão ter sido destruídas por algo parecido com um vulcão?

Jesus – Na Terra há locais bem definidos para os vulcões, que podem eclodir por causas naturais ou por ordem de Deus, que pode despoletar um em qualquer lugar. Mas a erupção de um vulcão provoca a elevação do terreno, um monte com um grande buraco redondo no centro, a boca do vulcão, por onde saem as chamas, a lava, as cinzas, os vapores, os fumos e os gases. Aqui, não vedes nada disso! Podereis assim tirar as vossas conclusões.

Tiago – Mestre, mas lá no fundo ainda há testemunhos do que foram estas cidades?

Jesus – Há e muitos! O que lá está jaz sob duas camadas: uma, de areias levadas pelo rio Jordão e outra, de sal, num sepulcro com dupla lápide, para que nada do que elas foram transpire cá para fora, em consequência da maldição total que caiu sobre elas. O excesso de sal destas águas conserva muitos materiais que são testemunhas dos acontecimentos. Destas cidades malditas nada ficou à superfície, nem sequer a erva dos campos. Estas águas não alimentam nenhum tipo de vida em seu seio e nem sequer o céu são capazes de espelhar. Assim são as águas negras do pecado.

Tomé – Mestre, além deste local  amaldiçoado, há outros em Israel?

Jesus – Há! Lembro-vos  Endor, local cheio de ruínas, rastejantes, corujas, cobras, lagartos,  lagartixas, ratos, silvas,…por onde as pessoas têm medo de passar. Era lá que vivia a bruxa que o rei Saúl foi consultar, a qual, aliada aos demónios, proferia oráculos. Também vos recordo que o Senhor o fez morrer antes do tempo por causa desse pecado, para que servisse de exemplo a todo o Israel. Algo semelhante se passou com o rei Acazias (=Ocozias).

Simão – E o Templo de Jerusalém? É que me apetece compará-lo a uma toca de víboras!…

Jesus – Não só o Templo, mas a própria cidade! A maior parte de vós ainda viverá quando lá acontecer algo semelhante, mas ainda com a ajuda de milhares de espadas. Esta cidade, este templo e esta geração… pagarão pela rejeição do seu Messias.

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Ezequiel Miguel

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. O clamor contra Sodoma e Gomorra

. O pecado do Rei Saúl

O rei David e Betsabé – II

( Confira:  2 Samuel, 12)

O texto bíblico vai a negrito

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BetsabeResumo do episódio anterior:  Depois de ter engendrado eficazmente  um plano para matar Urias, marido de Betsabé,  a fim de esconder o seu adultério e consequências, David fez dela sua esposa.

O Senhor enviou então o profeta Natan a David. Logo que entrou no palácio e se encontrou perante o rei:

Natan – Dois homens viviam na mesma cidade, um rico e outro pobre. O rico tinha ovelhas e bois em grande quantidade; o pobre, porém, tinha apenas uma ovelha pequenina, que comprara. Criara-a e ela crescera junto dele e dos seus filhos, comendo do seu pão, bebendo do seu copo e dormindo no seu seio; era para ele como uma filha. Certo dia, chegou um hóspede a casa do homem rico, o qual não quis tocar nas suas ovelhas nem nos seus bois para preparar o banquete e dar de comer ao hóspede que chegara; mas foi apoderar-se da ovelhinha do pobre e preparou-a para o seu hóspede.

David (irritado) – Pelo Deus vivo! O homem que fez isso merece a morte! Pagará quatro vezes o valor da ovelha, por ter feito essa maldade e não ter tido compaixão!

Natan – “ Esse homem és tu! E isto diz o Senhor, Deus de Israel:” Ungi-te rei de Israel, salvei-te das mãos de Saúl, dei-te a casa do teu senhor e pus as suas mulheres nos teu braços. Confiei-te os reinos de Israel e de Judá e, se isto te parecer pouco, ajuntarei outros favores. Porque desprezaste a Palavra do Senhor, fazendo o que Lhe desagrada?…Foste tu quem matou Urias, o hitita, por meio da espada dos amonitas! Por isso, jamais se afastará a espada da tua casa…” Eis, pois, o que diz o Senhor:… “Vou fazer sair da tua própria casa males contra ti, pois  tu pecaste  contra Mim, desprezando a Minha Palavra…”

David – Pequei contra o Senhor!

Natan –“ O Senhor perdoou o teu pecado. Não morrerás (por causa disso)).Todavia, como ofendeste gravemente o Senhor com a acção que fizeste, morrerá certamente o filho que te nasceu.…O Senhor feriu o menino que a mulher de Urias havia dado a David com uma doença grave. David orou a Deus pelo menino, jejuou, passou a noite prostrado por terra…Ao sétimo dia morreu o menino…”

Dentro de pouco tempo começou a profecia de Samuel a ser cumprida. Começou pela morte de Amnon, filho de David, por Absalão, filho também de David, mas não da mesma mulher. Em consequência desta morte, David perseguiu Absalão e estabeleceu-se inimizade entre ambos. Absalão manda deitar fogo a uma seara de Joab, seu irmão. Pouco tempo depois, uma vez goradas as ocasiões de conciliação entre David e Absalão, este comprou um carro, cavalos,  e arregimentou uma escolta pessoal de cinquenta homens. Tendo já em mente preparar uma revolta militar contra o rei David e usurpar-lhe a coroa, Absalão começou a denegrir o rei e a maneira como administrava a justiça, pretendendo assim ganhar adeptos para a sua causa. “Absalão  estendia a mão, amparava e beijava todos os que passassem pela porta da cidade para procurar o rei por motivos de justiça.”

Após quatro anos preparando a intentona e aumentando o número dos seus sequazes, David achou melhor abandonar a cidade, em direcção ao deserto, antes que surgisse Absalão e o depusesse pela força. Absalão ocupou mesmo o palácio de David e autoproclamou-se o legítimo rei. Na fuga, um homem insultou David, lembrando-lhe que merecia o que lhe estava a acontecer, por ser um homem sanguinário:” O Senhor fez cair sobre ti todo o sangue da casa de Saúl, cujo trono usurpaste, e entregou o reino a teu filho Absalão. Vês-te, agora, oprimido de males, por teres sido um homem sanguinário” (2 Sam 17, 8). O homem continuou, por largo tempo, a amaldiçoá-lo e a insultá-lo, sem que David desse ordens para o matarem, pois aceitou tais atitudes como um dos castigos merecidos que Deus lhe enviava.

 Finalmente, os dois exércitos defrontaram-se, primeiro em escaramuças, e depois mais a sério. O resultado final foi a morte de Absalão, que acabou por, na fuga  sobre uma mula, ficar preso e suspenso, pela bela e farta cabeleira, num ramo de frondoso carvalho, o que facilitou a vida a um comandante do exército de David, que facilmente o atravessou com a lança, matando-o, o que se verificou contra as ordens de David, que proibira que alguém o matasse. Assim morreu o terceiro filho de David, Absalão, o homem com o rosto e a cabeleira mais belos em todo o Israel, segundo a Bíblia. Após a profecia de Samuel, David passou o resto dos seus dias em amargura, aceitando tudo em expiação pelos seus pecados de adultério e de assassino  mandante do general Urias, marido de Betsabé. O salmo 50 dá conta do seu arrependimento e, através dele, a Igreja convida-nos a recitá-lo com a mesma compunção de que David deu provas.

 No fim de contas, David foi grande na arte da música, na literatura, na política, na realeza, no pecado, na penitência, no sofrimento, na expiação, na santidade, e foi da sua descendência que nasceram S. José, a Virgem Maria e Jesus Cristo. Salmos e Hinos, que a Bíblia regista, reflectem a sua sensibilidade poética. Hoje, que se perdeu a noção do pecado, coisa que para muitos já não existe ou nunca existiu, a vida de David dá que pensar e mostra como o pecado de um só homem teve tamanhas consequências para ele, para os filhos e para a sociedade, tudo traduzido em guerras, revoltas, mortes de civis e de  militares que nada tinham a ver com as asneiras de David. A Igreja ensina que as consequências do pecado podem ser individuais, sociais e colectivas, equivalendo a dizer que o pecado vai contra quem o pratica, contra o próximo e contra Deus, com consequências imprevisíveis. Assim o demonstra a Bíblia, que, em cada página nos dá uma mensagem para cada homem e para todos os tempos. Isto, claro, para quem a souber ler!

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Ezequiel Miguel

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Jesus em casa da viúva de Naím (Lc 7, 11-17)

( Confira: Lc 7, 11-17)

(Realidade & ficção)

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Tudo se passa em casa da viúva de Naím, a quem Jesus ressuscitara o filho, episódio ao qual os evangelhos se referem como “ Ressurreição do filho de uma viúva” (Lc 7,11-17).

A multidão que acompanhara o funeral pudera contemplar Jesus a mandar parar o avanço do féretro e a dizer ao Jovem que ia a sepultar:”Eu te ordeno! Levanta-te!”. Agora,  essa multidão fez o caminho ao contrário até à casa da viúva, onde se apinham muitas pessoas, pois o Mestre e Seus discípulos encontram-se lá, não faltando alguns escribas e fariseus, também convidados para a refeição que a viúva, que não era propriamente uma pobre,  oferecia aos convidados.

Mas os escribas e fariseus não estavam lá para honrar Jesus, pelo milagre feito, nem para felicitar o Jovem, a sua mãe ou a sua noiva, mas para O incriminar em algo que encontrassem de errado no que respeitava ao cumprimento da Lei. Eles queriam realmente saber se o jovem Daniel tinha mesmo morrido, quantas horas estivera morto, se tinha mesmo estado doente, quanto tempo esteve doente, de que doença, se chegara a ser embalsamado, se havia testemunhas da sua doença, da sua morte e da sua ressurreição, como é que Jesus de Nazaré tinha feito para o ressuscitar, se aquilo tudo não tinha sido encenado para resultar tudo numa farsa, destinada a enganar o povo e atrair discípulos para a Sua causa.

Os habitantes de Naim já se mostravam irritados com tantas perguntas e desconfiança em relação à ressurreição do Jovem, por isso, os escribas e os fariseus procuraram uma ocasião para cercar o Jovem e desferir as perguntas, tentando enredá-lo em alguma contradição que pusesse em descrédito a acção de Jesus:

1º Fariseu – És tu aquele que dizem que morreu e ressuscitou?

Daniel – Sim, sou eu!

2º Fariseu – Mas tu estavas mesmo doente? E morreste mesmo? Como é que foi isso de morrer e voltar à vida?

Daniel – Eu estava doente,  passei pela agonia, que me custou muito, mas depois…não me lembro de mais nada. Só sei que agora estou vivo e de saúde, graças ao Mestre.

1º Escriba – Mas tu estiveste no Céu, no Purgatório, no Seio de Abraão ( Limbo) ou no Inferno?

Daniel – Não sei! Só sei que passei por um túnel escuro.

2º Escriba – E o que sentiste ao voltares à vida?

Daniel – Nada! Foi como se viesse de um longo sono! Abri os olhos, espreguicei-me, levantei-me e pedi comida! Tão simples como isto!

3º Escriba – E como é o outro mundo?

Daniel – Não sei! É um tempo da minha vida de que não me lembro de nada. Absolutamente nada! É como se não existisse!

4º Escriba – Então, se estiveste no outro mundo, como é que não te lembras de nada? Será que já não há Céu, nem Inferno, nem Purgatório, nem Seio de Abraão? Tu estiveste em algum deles,… ou não queres dizer? Isto leva-nos a concluir que tu não estiveste morto e que a tua morte e ressurreição foi uma patranha ensaiada para nos enganar a todos e arranjar discípulos para Ele

1º habitante de Naim – (Irritado) Mas o que é isto? Se estava morto? Quando o pusemos no féretro já cheirava mal. O que é que vós quereis concluir? Custa-vos muito transmitir aos vossos chefes a verdade? Será que eles vos castigam se relatardes as coisas como elas se passaram? Vós sois uns espiões nojentos e era melhor sairdes da cidade e levar o vosso mau cheiro convosco! Aqui não houve, nem há, o poder da magia, da feitiçaria, da bruxaria, do espiritismo, da necromância, do ocultismo, do satanismo. Houve e há o poder de Deus que actua através do seu Messias, Jesus de Nazaré. Todos nós somos testemunhas do Seu poder e da Sua bondade para connosco!

3º Fariseu (Dirigindo-se a Jesus) – Tu és Deus?

Jesus – Perguntas ou afirmas? Sou Deus, o Filho do Pai Eterno. A Minha doutrina e os Meus milagres revelam tudo a Meu respeito. Somente Eu posso fazer essas coisas, porque Eu sou realmente o Filho de Deus feito homem, que veio a este mundo  para salvar os homens.

1º Escriba – Mas então, se  tu és Deus, saberás o que aconteceu ao Daniel e onde é que ele esteve enquanto morto! Porque é que ele não se lembra de nada, quando os espíritos por nós evocados dizem de onde vêm e contam como é a vida depois da morte?

Jesus – Ele diz a verdade. Não se lembra mesmo! Sou Eu que faço com que ele não se lembre! Nem vós nem ninguém tem o direito de querer saber como é a vida depois da morte. Esse é o mundo do Oculto. Os vossos adivinhos e magos é que não dizem a verdade, porque a verdadeira verdade lhes é oculta. A Lei do Senhor proíbe  e pune severamente tais tentativas de nele penetrar.

2º Escriba – Ah sim? Então, quem é que fala, se não são os espíritos ?E o profeta Samuel, no caso do rei Saúl, quando consultou a pitonisa? (1 Sam 28)

Jesus –Quem fala nas vossas sessões de espiritismo são os demónios. No caso do rei Saúl, Samuel veio por ordem de Deus e não pelo poder da pitonisa feiticeira, para lembrar a Saúl que estava praticando o mal ao invocar, através da pitonisa, o espírito de um morto e para vincar que ninguém fica impune quando troça da Lei do Senhor, fazendo ostensivamente o que ela proíbe em absoluto.

3º Escriba – Mas os teus discípulos estão infringindo a Lei e Tu não os repreendes!

Jesus – Explica-te melhor! O que estão eles a fazer de mal e qual a Lei que eles infringem?

4º Escriba – Tu não vês ou és cego? Não vês que eles não respeitam as tradições dos antigos? Eles entraram para a sala de jantar e não se purificaram, como manda a Lei. Eles deviam ter lavado as mãos. Não vás a dizer que eles não fizeram isso, porque nós estivemos a observá-los de propósito e todos falharam! Que dizes a isto?

Jesus – Digo que eles não estão a infringir a Lei. Dizei-me: Essa purificação das mãos já vem do tempo de Moisés ou é fruto bastardo de alguém dos vossos antepassados que de modo abusivo a encravou na Lei? O que interessa a Deus: Que laveis as mãos antes de comer ou que laveis a alma pelo cumprimento do Decálogo (10 Mandamentos) e pelo arrependimento dos vossos pecados?

Escribas – (Silêncio)…….

Jesus – Não dizeis nada? Essa tradição dos antigos não é nenhuma Lei do Senhor, mas é apenas uma das muitas imposições abusivas, um dos muitos caprichos humanos que confundis com os Mandamentos do Senhor. Dizei-me: Onde está uma Lei do Senhor que obrigue a lavar as mãos antes de comer? Em que parte do Decálogo a incluís? A verdade é que os antigos e vós transformastes a Lei num fardo tão pesado que ninguém o suporta e muito menos vós, hipócritas, semelhantes a hienas, que cheirais mal e não sois capazes de sentir o perfume das coisas boas que o vosso Criador pôs à vossa disposição! Alterais e violais a Palavra de Deus e transformai-la em palavras humanas, palavras vossas, cheias de mentira, falsidade, hipocrisia, desonestidade, ganância, ladroagem… Ai de vós! Só farejais o cheiro do que é podre, porque vós mesmos sois podres. Algum de vós veio aqui para dar glória a Deus, agradecer-Lhe e louvá-lo por tão grande milagre, feito à vista de todos? Eu ressuscito um morto pelo Meu próprio poder e vós limitais-vos a um sorriso trocista?….. Acaso já destes os parabéns à viúva por ter recuperado o filho? Já felicitastes o filho por ter voltado ao convívio de sua mãe? Já Me reconhecestes como o vosso Messias, Aquele anunciado pelos profetas? Os vossos narizes, habituados a ambientes mal cheirosos, não cheiram os perfumes da presença de Deus entre vós?

Escribas – Estás a ofender-nos!

Jesus – Estou mesmo? Então, aproveitai para vos defenderdes e provar o contrário do que vos digo! Ficai vós, e todos os que Me ouvem, a saber:  Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas é o que sai dela, proveniente do coração: as más intenções, os assassínios, os adultérios, as prostituições, os roubos, os falsos testemunhos e as blasfémias…(Mt 15, 1-20).

Quem vos deu autoridade para anular os Mandamentos e substituí-los por tradições vossas, saídas das vossas cabeças às centenas, egoístas, criminosas, desonestas, cheias de iniquidade?

1º Fariseu – Nós fizemos isso? Dá-nos um exemplo!

Jesus – Aí o tendes! Deus disse: “Honra teu pai e tua mãe e quem amaldiçoar o pai e a mãe é réu de morte”. Mas vós emendastes para: “Todo aquele que tiver dito a seu pai e à sua mãe: “ Oferta sagrada”, deixa de ser obrigado a usar isso em favor do pai e da mãe. Utilizais essa “Oferta Sagrada” em vosso próprio benefício ou em benefício dos vossos filhos, enriquecendo-os, assim. à custa de rapinardes os vossos pais. E assim substituístes um Mandamento por um preceito humano. Hipócritas! Já o profeta Isaías dizia: “Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim, por isso, eles Me honram em vão, ensinando doutrinas e mandamentos humanos” (Is 29,13). É assim que, em vossa soberba, vos arvorais em legisladores superiores ao vosso Deus. Não há sacrifícios nem ofertas feitas a Deus, ou a quem quer que seja, quando isso é devido ao sustendo dos vossos pais. Prestai todos vós, convidados, atenção ao que vos digo: Não há nada fora do homem que, entrando nele, possa contaminá-lo. Mas o que sai do homem, isso é o que o contamina. Quem quiser ouvir, ouça! E quem for suficientemente inteligente para compreender, proceda de acordo com aquilo que compreende!

Aos fariseus e escribas faltou capacidade de resposta, saindo todos mudos e cabisbaixos. Quem poderá contestar Jesus Cristo, a Sabedoria do Deus Vivo?

 .

Ezequiel Miguel

 .

Observações:

  1. Os fariseus eram considerados ( e eles também se consideravam) grandes mestres e homens justos. Observavam e exigiam que os outros observassem rigorosamente a Lei oral e escrita. Defendiam zelosamente a “ lei” das purificações e as tradições acrescentadas abusivamente à Lei. Aparentemente, assim era, mas Jesus conhecia-lhes os crimes, as hipocrisias, as injustiças, as mentiras, a opressão sobre o povo,… e os pecados ocultos: “Assim, também vós, exteriormente, pareceis justos aos olhos dos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniquidade” (Mt 23,28).
  1. Os escribas eram chamados os “Doutores da Lei”, ao tempo de Jesus. Ocupavam-se do ensino, leitura e interpretação da Lei, sendo também chamados rabis, rabinos, mestres.

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Também vós quereis ir embora? (Cf. Jo 6 )

(Realidade & ficção)

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Personagens:

. Jesus Cristo

. Apóstolos : Pedro, Tiago, João, Tomé, Mateus, Judas Iscariotes

. Judeus

. Discípulos

.

A cena passa-se no Templo de Jerusalém, onde Jesus aparecia de vez em quando para divulgar mensagens importantes e onde nunca faltava um numeroso auditório, pois o Templo era ponto de encontro de multidões.

O que Cristo tinha para dizer desta vez era (e ainda é) algo humanamente inconcebível, a requerer uma aparente loucura de Quem discursava e outra por parte de quem ouvia. Tratava-se do discurso que está relatado em João 6, que aconselho a ler, antes de prosseguir.

Cristo – ….E é assim, como vos digo. Os vossos pais comeram o maná  do deserto, que o Pai lhes enviou, mas esse era um alimento para o corpo, que não evitou que eles morressem. Mas vai chegar o tempo em que o Pai vos dará a comer um alimento que vos dará a Vida Eterna. Esse alimento será a Minha Carne, que acompanhareis com uma bebida, igualmente de Vida Eterna, que será o Meu Sangue. A Minha Carne e o Meu Sangue é que serão o verdadeiro Pão do Céu e quem Me  comer não morrerá, porque Eu sou verdadeira Comida e verdadeira Bebida…

1º Judeu – Eh! Mas o que é que estás para aí a dizer? Será que  bebeste demais?

2º Judeu – Eu penso que há mais alguma coisa além de  estares bêbado! Eu nunca ouvi um bêbado dizer disparates destes. Não estarás  louco?

Cristo – Em certo sentido sou  mesmo louco, tal como o Meu Pai é igualmente louco. Ele e Eu somos loucos de  Amor pelos homens e por eles nós fazemos o possível e o impossível! O Meu Pai e vosso Pai do Céu criou as almas dos homens no momento da concepção dos seus corpos. Estes morrerão, mas as vossas almas nunca morrerão, nem neste mundo nem no outro, quer se salvem, quer se condenem.  Vós alimentais os vossos corpos com o  alimento material que o Pai vos dá, mas Ele também vos quer dar um alimento para as vossas almas, um alimento de Vida eterna junto do Pai, porque Ele, que as criou, quere-as de volta para Si, na eterna felicidade.

3º Judeu –  Queres tu dizer, então, que quem não comer desse alimento para a alma não se salvará? Não há aí um grosseiro exagero? E onde é que haverá desse alimento que chegue para todos os homens comerem, isto é, para aqueles que querem salvar-se?

Cristo – O  nosso Pai ofereceu o maná no deserto durante 40 anos para alimento do corpo, mas o Maná do Céu será inesgotável e à disposição de todos os homens até ao fim dos séculos. Quem comer deste Maná celeste, que Eu vos darei, nunca mais terá fome nem sede.

4º Judeu – Estás a brincar connosco ou fazes de nós todos uns estúpidos que vão acreditar em todas essas balelas? Desde que o mundo é mundo, nunca ninguém falou assim, nem sequer um louco dos mais loucos!

5º Judeu – Mas afinal quem és tu? És um mago, um prestidigitador, um malabarista de ideias, um aliado de Satanás que te ensina truques para ficares famoso? És algum profeta?

Cristo – Se Eu expulso dos vossos possessos todos os demónios, como posso ser Eu um aliado de Satanás? Aliás, tem Satanás interesse em ser expulso? Satanás e Eu estamos sempre em lados opostos; Eu, do lado do Bem dos corpos e das almas, ele, do lado do Mal e contra as almas e os corpos. Quem sou Eu? Sou o Messias que vós esperais há tantos séculos, anunciado pelos profetas. Eu Estou acima dos profetas. Nenhum profeta fez por si só as obras que Eu faço e as obras que eu faço são as obras do Meu e vosso Pai que está nos Céus.

1º Judeu – Já agora, diz-nos quais são essas obras! Nós nunca as vimos!

Cristo – Não chegou aos vossos ouvidos o rumor de ressurreição de mortos, de curas de cegos, coxos, surdos, mudos, paralíticos, expulsão de demónios? Estas são as minhas obras, mas falta ainda a principal, que ainda não foi feita, mas que o será dentro de pouco tempo.

2º Judeu – Quando chegar essa hora, avisa-nos! Queremos ver!

Cristo – Não ireis ver, mas tereis de acreditar, pois chegou o tempo em que a vossa Fé na Lei de Moisés vai ser substituída pela Fé em Mim e no Pai, que Me enviou a vós. A vossa Aliança com Yahweh vai dar lugar a outra, a Nova Aliança, com uma Nova e Única Vítima, um Novo e Único Cordeiro a ser imolado numa nova Páscoa, numa nova passagem para uma Nova Terra Prometida e para um Novo Povo de Israel. Quem acreditar em Mim verá tudo isso e muito mais. Quem não acreditar será excluído da Vida Eterna e Eu não o ressuscitarei no último Dia.

1º Discípulo – Nós, aqui, que te aceitámos como o nosso Messias, nunca pensámos ouvir da tua boca palavras dessas sobre comer a tua carne e beber o teu sangue …e essas coisas todas que já disseste. Isso é linguagem que nós não entendemos. Queres fazer de nós canibais e vampiros? Como é que te vamos comer e beber?  Cru, assado, frito, cozido, ensosso, salgado , com ou sem osso, ou como?  Não estarás porventura a delirar? E quanto ao teu sangue, nós preferimos um bom vinho! ( Risada geral)

Cristo – Não estou a delirar! Vai ser mesmo como Eu digo, mas num plano invisível para vós. Os vossos olhos não estão preparados para penetrar nos mistérios de Deus. Só Ele, Eu , que sou o Seu Filho, e o Espírito Santo sabemos como vai ser. A vós competirá acreditar e fazer como Eu digo, se quereis alcançar a Vida Eterna.

2º Discípulo –  Dizes tu que és o Filho der Deus, o Messias? Cá para mim , és tanto o Messias como eu sou o Moisés. Estamos fartos de messias que aparecem por aí todos os anos, cada um a dizer os seus disparates, a enganar o povo e a tirar proveito da sua ingenuidade. Não serás tu mais um?

Cristo – Nunca houve outro antes de Mim nem haverá depois de Mim.

3º Discípulo – Mas como queres tu fazer discípulos se pregas doutrinas dessas, insuportáveis, intragáveis, misteriosas, incompreensíveis, não próprias para ouvidos humanos?

Cristo – Moisés também exigiu de vós coisas difíceis, que ainda hoje tendes em vigor. A prova de que eram difíceis e insuportáveis foi que vós as modificastes e inventastes outras para as substituir, criando tradições abusivas que nada têm a ver com a essência da Lei que Eu e o Pai vos demos através de Moisés.

1º Judeu – A sério? Foste tu? Mas tu não és filho de um carpinteiro de Nazaré? Até és conhecido por Nazareno!  Cada vez nos deixas mais baralhados. Onde é que tu estavas quando Moisés deu a Lei a nossos pais?

Cristo – Eu estava junto do Meu e vosso Pai. Onde Eu estou está o Pai e onde o Pai está, estou Eu. Eu e o Pai somos Um.

2º Judeu – (para outro Judeu) Este homem dá connosco em doidos. Não estará ele a divertir-se à nossa custa?

3º Judeu – Ou está ele, ou estamos nós, ou estamos nós e ele! Alguma destas tem de ser verdadeira. Qual? É isso que eu ainda não descobri! Mas repara que não somos capazes de o apanhar em falso nem a gaguejar o que quer dizer. Dali, sai tudo como um jacto de água contínuo, sem hesitações. Para mim, isto é tudo muito estranho.

4º Judeu – Parece-me que também é estranho para os que andam com ele. Eu vi alguns fazer caretas quando ele falou dessa coisa de lhe comermos a carne e lhe bebermos o sangue. Ele deve estar a falar de algo misterioso que nós ainda não atingimos. Repara bem! Os mortos que ele ressuscitou e os doentes que curou, dizendo só: “Eu quero! Faça-se!”… Isto tem que se lhe diga. Somente Yahweh pode falar assim e ele diz que ele e Yahweh são um! Há aqui mistério. Tenho de apanhar um daqueles que andam com ele por todo o lado e tirar isto a limpo. Algo de grande deve estar para acontecer. O quê? Não sei, mas os do Templo já andam a espiá-lo por todo o lado e isto quer dizer alguma coisa!

4º Discípulo – Estás a blasfemar contra a nossa santa Lei!

Cristo – A vossa santa lei vai ser modificada, aperfeiçoada e entregue a um povo que se mostrará orgulhoso do seu Deus. Aquilo que vós recusais será aceite pelos pagãos, a começar por aqueles  que vos rodeiam, os quais vão entrar no Reino de Deus, enquanto vós ficareis  de fora.

5º Discípulo – E isso, só porque não queremos comer a tua carne nem beber o teu sangue? Vamos dar-te o benefício da dúvida. Põe lá em miúdos essa linguagem de te comer e te beber! Estás a falar em sentido figurado, simbólico, com palavras que querem dizer outra coisa que nós desconhecemos ou estás a fazer um teste à nossa capacidade de compreender e aceitar coisas e realidades ocultas? Podes explicar-te melhor? Nós não temos grandes estudos nem somos mestres em Israel!

Cristo – As Minhas Palavras não têm nada de simbólico. São as palavras certas para exprimir o que vos transmito. Elas vão realizar aquilo que significam. Elas significam o que significam: comer é mesmo comer, beber é mesmo beber, carne é mesmo carne e sangue é mesmo sangue, sem nada de simbólico, metafórico, figurado. Elas exprimem a realidade nua e crua! Quem tem ouvidos para ouvir e capacidade para acreditar em Mim, ouça, acredite e viva. Daquilo que vos disse, nem uma vírgula ou um til será tirado. E ai daqueles que tirarem!

6º Discípulo – Isto são palavras intragáveis, disparates redondos, loucuras perfeitas nunca vistas nem ouvidas! Vamos embora! Deixai-o sozinho com os loucos que acreditarem na sua loucura. Vigiem-no para não beber tanto vinho! Eu sou discípulo Dele, mas nunca pensei que tudo iria dar nisto: um embuste, um fiasco, uma farsa, uma salada de coisas improváveis e coisas impossíveis. Vamos embora!

Segue-se uma confusão de gritos, insultos, numa algazarra própria de uma orquestra totalmente desafinada, tudo seguido de uma debandada quase geral. Cristo assiste silencioso à deserção de muitos discípulos e duas  lágrimas furtivas  deslizam pelas Suas  Faces. O Seu semblante pinta-se de  uma indizível e profunda tristeza. Eram lágrimas semelhantes àquelas já outras vezes derramadas por causa de Judas Iscariotes, lágrimas impotentes  de Deus omnipotente. No fim, restou um pequeno número, além dos Apóstolos. Cristo, disfarçando a Sua tristeza, quebrou, com voz mortiça, o silêncio:

Cristo – E vós? Também quereis ir embora?

Pedro – A quem iremos nós, Senhor, se só Tu tens palavras de Vida Eterna?

Cristo – Há alguém aqui ainda hesitante? Eu espero até que se decida!…Ficais todos?  Então, segui-Me! Vamos para outro lado!

Chegados  ao Jardim das Oliveiras, Cristo pôs-se à disposição daqueles que O acompanhavam, para esclarecer qualquer dúvida, como sempre fazia após qualquer ensinamento.

João – Mestre, nós vimos que Tu choravas enquanto eles desertavam. Nós temos muita pena de Ti e as Tuas lágrimas fazem também rolar as nossas. Nós ficámos Contigo e ninguém nem nada nos afastará de Ti e acreditamos nas Tuas Palavras de Vida Eterna, embora ainda não sejamos capazes de compreender certas coisas…

Cristo – Eu choro pelas almas que Me rejeitam agora e por aquelas que Me rejeitarão no futuro. A perda de uma alma é para o vosso Deus uma tragédia, um insulto ao Seu Infinito Amor pelos Homens. Choro por aqueles que não aproveitarão nada da Minha vinda à Terra. O vosso Deus enviou o Seu Filho à Terra, que vai fazer por eles algo inconcebível com vista à Vida Eterna, à Salvação,  e vai dar-se Ele mesmo em alimento às almas. Muitos Me irão rejeitar, fazendo do seu Deus um impostor, um mentiroso, um vendedor da banha da cobra, um fabricante de utopias! Choro por estes e por todos os das gerações futuras que se portarem como eles. Ao recusarem o seu Deus, recusam também a Vida Eterna junto Dele. Para eles, as Minhas lágrimas, o meu sofrimento, o meu sangue…de nada lhes servirão. Da Minha doutrina escolherão para si aquilo que não precisar de fé, abrindo uma via larga que não os conduzirá a Deus, porque o caminho que Eu vos abro é estreito, pedregoso, difícil,  e  somente Comigo sereis capazes de o percorrer.

Tiago –  Mestre, nós acreditamos nas tuas palavras, mas…

Cristo – Eu sei! É isso a Fé: acreditar sem ver as realidades para lá do mundo material, acreditar na Palavra de Deus, que se cumprirá a seu tempo. Já falta pouco para presenciar e viver o cumprimento das palavras que ouvistes há pouco e que causou a deserção de alguns dos que andavam connosco. Ultrapassa tudo o que possais imaginar. Ó amor infinito de Deus pelos homens!…A quanto obrigas!…

Pedro – Mestre, apesar do que dizes, parece-me que Te referiste a muitos, ao longo dos séculos, que não vão acreditar, por não acharem possível uma coisa dessas! Que lhes acontecerá, uma vez que não levarão a sério as Tuas Palavras?

Cristo – Vós vivereis e dareis testemunho daquilo que acabei de revelar-vos e que se vai cumprir em breve. Aqueles que, tomando conhecimento delas,  as levarem a sério e comerem o Meu Corpo e beberem o Meu Sangue com a alma revestida de veste branca,…para esses é que Eu serei penhor de Vida Eterna. Aqueles que as ignorarem sem culpa própria,…para esses haverá tolerância. Aqueles que as rejeitarem, as  negarem, as deturparem,  as torcerem, as modificarem, as esvaziarem, as interpretarem a seu gosto e não quiserem distingui-las das palavras dos homens , … Esses…

Mateus – E esses serão muitos?

Cristo – Serão mesmo muitos e cada vez mais numerosos, à medida que os séculos avançarem. Lembrai-vos da profecia de Daniel (Dn 13, 10-13) sobre a abominação da desolação no Templo do Senhor (a Igreja) e a abolição do Sacrifício Perpétuo, (a Missa ), anulado e substituído, no fim dos Tempos, por uma abominável imitação, sem nenhum valor.

Tomé – E nós, Mestre, vamos  todos receber-te com a veste branca e alcançar a Vida Eterna?

Cristo – Não todos! Entre vós há um cuja alma se veste de negro!

Todos – Serei eu,…eu…eu…?

Judas Iscariotes – Serei eu, porventura?

Cristo – Judas, tu sabes muito bem quem é!…

 .

Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – I

13  de Maio de 1917

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Escolhemos nesse dia, para pastagem do nosso rebanho, a propriedade pertencente a meus pais, chamada Cova da Iria. Determinámos, como de costume, qual a pastagem do dia, junto do Barreiro…e tivemos, por isso, que atravessar a charneca, o que nos tornou o caminho dobradamente longe. Tivemos, por isso, que ir devagar, para que as ovelhinhas fossem pastando pelo caminho e chegámos cerca do meio dia”.

Da 4ª Memória da Ir. Lúcia:

“ Andando a brincar com a Jacinta e o Francisco, no cimo da encosta da Cova da Iria, a fazer uma paredita  em volta de uma moita, vimos, de repente, como que um relâmpago.

Lúcia -É melhor irmos embora para casa… que estão a fazer relâmpagos;  pode vir uma trovoada.

Francisco e Jacinta – Pois sim.

E começámos a descer a encosta, tocando as ovelhas em direcção à estrada. Ao chegar, mais ou menos a meio da encosta, quase junto duma azinheira grande que aí havia, vimos outro relâmpago e, dados alguns passos mais adiante, vimos, sobre uma carrasqueira, uma Senhora, vestida toda de branco, mais brilhante que o Sol, espargindo luz mais clara e intensa que um copo de cristal cheio de água cristalina, atravessado pelos raios do sol mais ardente. Parámos surpreendidos pela aparição. Estávamos tão perto que ficávamos dentro da luz que A cercava ou que Ela espargia, talvez a metro e meio de distância, mais ou menos. Então Nossa Senhora disse-nos:

Virgem Maria (V.M.)- Não tenhais medo. Eu não vos faço mal.

Lúcia – De onde é Vossemecê?

V. M. – Sou do Céu.

Lúcia – E que é que Vossemecê me quer?

V.M . – Vim para vos pedir que venhais aqui seis meses seguidos, no dia 13 a esta mesma hora. Depois vos direi quem sou e o que quero. Depois voltarei ainda aqui uma sétima vez.

Lúcia – Eu também vou para o Céu?

V.M. – Sim, vais.

Lúcia – E a Jacinta?

V.M. – Também.

Lúcia – E o Francisco?

V.M. – Também, mas tem que rezar muitos terços.

Lembrei-me então de perguntar por duas raparigas que tinham morrido há pouco. Eram minhas amigas e estavam em minha casa a aprender a tecedeiras com a minha irmã mais velha.

Lúcia – A Ana das Neves já está no Céu?

V.M. – Sim, está.

Parece-me que devia ter uns 16 anos.

Lúcia – E a Amélia?

V.M. – Estará no purgatório até ao fim do mundo.

Parece-me que devia ter de 18 a 20 anos.

V.M. – Quereis oferecer-vos a Deus para suportar todos os sofrimentos que ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?

Todos – Sim, queremos!

V.M. – Ides, pois, ter muito quer sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto.

Foi ao pronunciar estas últimas palavras (a graça de Deus, etc.) que abriu pela primeira vez as mãos, comunicando-nos uma luz tão intensa, como um reflexo que delas expedia,  penetrando-nos no peito e no mais íntimo da alma, fazendo-nos ver a nós mesmos em Deus, que era essa luz, mais claramente que nos vemos no melhor dos espelhos. Então, por um impulso íntimo também comunicado, caímos de joelhos e repetíamos intimamente:-“Ó Santíssima Trindade, eu Vos adoro. Meu Deus, meu Deus, eu Vos amo no Santíssimo Sacramento”.

Passados os primeiros momentos, Nossa Senhora acrescentou:

V.M. – Rezem o Terço todos os dias, para alcançarem a paz para o mundo e o fim da guerra.

Em seguida começou-se a elevar serenamente, subindo em direcção ao nascente, até desaparecer na imensidade da distância. A luz que A circundava ia como que abrindo um caminho no cerrado dos astros, motivos por que alguma vez dissemos que vimos abrir-se o Céu “.

Da 1ª Memória da Ir. Lúcia:

“Quando nessa mesma tarde, absorvidos pela surpresa, permanecíamos pensativos, a Jacinta, de vez em quando, exclamava com entusiasmo:

Jacinta –  Ai que Senhora tão bonita!

Lúcia –  Estou mesmo a ver… ainda vais dizer a alguém!

Jacinta –  Não digo, não! … Está descansada!

No dia seguinte, quando seu Irmão correu a dar-me a notícia de que ela o tinha dito, à noite, em casa, a Jacinta escutou a acusação sem dizer nada.

Lúcia – Vês? Eu bem me parecia! …

Jacinta– Eu tinha cá dentro uma coisa que não me deixava estar calada! ….

Lúcia – Agora não chores! E não digas mais nada a ninguém do que essa Senhora nos disse!

Jacinta – Eu já disse!

Lúcia – O que disseste?

Jacinta – Disse que essa Senhora prometeu levar-nos para o Céu!

Lúcia – E logo foste dizer isso!

Jacinta – Perdoa-me,  eu não digo mais nada a ninguém! “

 .

Leitura aconselhada:  Memórias da Ir. Lúcia, Vice-postulação , Fatima

 .

Ezequiel Miguel

Maria Madalena perante o túmulo de Cristo

(Realidade & ficção)

Personagens :  Cristo, Pedro, João, Maria Madalena

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MMadalenaCristo morrera na cruz às três horas de sexta-feira, supondo-se que teria sido colocado no túmulo por volta das 17.30, após ter sido descido da cruz, lavado e perfumado com óleos essenciais e perfumes, segundo o costume dos Judeus. Às 18.00 horas tudo teria de ficar pronto, pois a essa hora começava a Parasceve, isto é, os preparativos da Páscoa, tempo em que era obrigatório descansar de qualquer trabalho não estritamente essencial, até à mesma hora  do  dia seguinte, sábado.

No Cenáculo,  a  casa grande onde decorrera a Última Ceia de Jesus e seus Apóstolos, estavam recolhidos Pedro e João, juntamente com a Mãe de Jesus e algumas mulheres familiares ou próximas, aguardando que chegasse o 3º dia. Entre as certezas de uns e as dúvidas de outros, que julgavam tudo acabado, salientavam-se  a Virgem Maria, o Apóstolo João e Maria Madalena, que iam animando, com a sua confiança na Ressurreição de Jesus, aqueles e aquelas que pareciam vacilar na Fé, um dos quais era Pedro, que não fazia senão chorar amargamente, tal como diz o evangelho de João: “E Pedro chorou amargamente” (Mt 26,75), incapaz de se perdoar a si próprio a tripla negação. O ambiente tornara-se pesado e o choro convulsivo de Pedro começava a incomodar aqueles e aquelas que aguardavam ansiosamente a Ressurreição, tantas vezes anunciada por Cristo. Dos apóstolos apenas João estava ali, calmo, confiante, tal como a Virgem Maria, apesar das investidas diabólicas contra essa fé, essa esperança e essa certeza. Maria Madalena, a mais irmanada com Pedro num passado recente, tentava consolar Pedro e estancar as abundantes e intermináveis lágrimas de Pedro, garantindo-lhe o perdão do Mestre, certezas também confirmadas pela Mãe de Jesus, pois Ela, mais que ninguém, podia falar do que sabia.

Maria Madalena (M.M.) – Ó Pedro, quando é que tu terminas com essa choradeira? Acaso, ela resolve-te alguma coisa?

Pedro – O que é que é que tu queres? Eu não sou capaz de parar! Isto é superior a mim!…

MM – A mim parece-me que tu duvidas do perdão do Mestre e estás a ser um tanto soberbo, porque julgas o teu pecado superior à Sua misericórdia. Há aqui alguém que tenha cometido mais e maiores pecados do que eu? E tu já viste as minhas lágrimas? O Mestre perdoou-me e…pronto! O meu passado está enterrado e o teu também vai ficar! Não penso mais nisso! E tu tens de fazer a mesma coisa! A Mãe não te disse já que Ela te perdoa e o Mestre também? E Ela, se fala assim, sabe o que diz! Não te lembras do que disse o Mestre: “Quero que o pecador se arrependa, peça perdão, se converta e tenha longa vida”? Para mais, tu já sabes qual vai ser a tua missão na Terra! Eu até aposto se Ele te vai repreender pela tua traição. Ele já viu o teu arrependimento e, mentalmente, também já ouviu o teu pedido de perdão. Por isso, levanta a cabeça e vai em frente! Anima-te! A tua queda também serve para demonstrar que somos fracos e que, sem a Sua ajuda, ninguém fica sempre de pé! Igualmente nos ensina que não devemos acreditar demasiado nas nossas forças nem atirar pedras aos outros, para que não venham elas cair em cima de nós!

João – E, se vires bem, todos nós fugimos e O abandonámos, cada qual para seu lado! E agora, até estamos aqui escondidos, com medo que o Sinédrio nos descubra! Ora, vê lá tu a nossa coragem! Corajosas foram estas mulheres, que O acompanharam e animaram, enquanto nós nos escondíamos, nos disfarçávamos ou nos diluíamos no meio da multidão! É certo que as acompanhei, porque sabia que ninguém me faria mal, pois tenho amigos entre os do Templo. Se não fosse isso, também ninguém me veria lá! Isto, só para veres que não somos muito diferentes uns dos outros! Quando Ele foi preso, eu também fugi, como todos! Tu não me ouviste dizer àquele bando: “ Prendei-me a mim também, pois quero ir com o meu Senhor”!  E eu podia tê-lo feito, porque tinha a certeza que ninguém me faria mal. E, no entanto, quando tentaram agarrar-me, salvei a pele fugindo por ali abaixo. Corajoso foi o José de Arimateia, que não teve medo em dar a cara e oferecer o seu próprio túmulo para depositar o Mestre. E agora, sabeis o que lhe aconteceu? Foi preso, a mando do Caifás, mas eu acredito que será por pouco tempo.  Não te lembras que Ele já nos avisou que ser Seu discípulo pode ter custos elevados? Mas também nos garantiu que vale a pena, em vista do prémio que nos está reservado.

MM – Falaste bem, João!… Bem, eu tenho uma proposta a fazer-vos:  Já chegou a madrugada do 3º dia. Eu não estou disposta  a esperar que se cumpram as 72 horas dos três dias completos  e proponho-vos  a ida ao sepulcro. Quem quer acompanhar-me?…(Silêncio)   Ninguém?…Eu irei sozinha, se ninguém quiser ir comigo!

João – A esta hora? Com as portas fechadas e guardadas pelos romanos? Eu acho que é muito perigoso!

MM – No tempo em que eu andava no pecado, eu nunca tive medo de percorrer sozinha as ruas de Jerusalém. Vou ter medo agora?

 João – Já pensaste bem?   Ainda está escuro, as portas das muralhas estão guardadas por soldados romanos, podes ser assaltada por ladrões, os guardas do túmulo podem enviar-te para trás, pensando que vais espiar, a grande pedra que tapa a entrada do sepulcro não te deixará ver nada!…

MM – Eu já pensei nisso tudo! Mesmo assim, insisto em ir, sozinha ou acompanhada! Além disso, não há nada como uma bolsa cheia de luzidias moedas para convencer qualquer mortal a passar por cima de todos os valores!….Mas eu convido só as mulheres! Vós, homens medricas, é melhor ficardes na segurança destas paredes!… A nós ninguém fará mal! Tenho disso a certeza. E as sentinelas até vão achar divertido e deixar-nos-ão passar!

A estratégia de M.M. passava por excluir qualquer homem, incluindo Pedro e João, os únicos apóstolos retornados ao Cenáculo, pois os outros continuavam dispersos. A Mãe de Jesus não engrossava o número das  convidadas, por estar muito fraca. Por isso, M.M. impôs que ninguém a informasse nem convidasse para esse efeito. Enquanto esta espécie de conspiração feminina se tecia, a Virgem Maria continuaria isolada no seu pequeno quarto sem ser incomodada por ninguém. Era uma ordem de Maria Madalena.

O que motivava realmente Maria Madalena para esta aventura e a estas horas da noite? Aplicar unguentos e perfumes no Corpo do Senhor, segundo a sua palavra. Ela confiava que, após subornar os guardas, eles a deixariam transpor a saída das muralhas,  e os guaras do túmulo de Cristo também não resistiriam aos denários, ajudando-a a remover  o selo e a pedra do  túmulo. Depois, se o Corpo do Mestre ainda lá estivesse, voltariam a pôr tudo como estava antes. Estes eram os planos, previamente pensados, preparados e justificados.

Ficam duas perguntas: 1. Maria Madalena e todos os outros e outras, inclusive a Mãe de Jesus, sabiam que os três dias somente ficariam completos às três da tarde daquele dia. Se acreditavam realmente que Cristo iria ressuscitar àquela hora, para cumprir a profecia, que necessidade teria o Corpo de Cristo de unguentos e perfumes? Seria uma desculpa para disfarçar o nervosismo,  a ansiedade,  a pressão interior, ou seria para confirmar que ninguém teria roubado o corpo? E como alguém roubaria o Corpo, se o túmulo estava guardado por sentinelas do Templo, a mando do Sinédrio?  Fosse qual fosse o motivo, a verdade é que Pedro, João e o grupo de mulheres que se juntaram naquela casa e noutras próximas, estavam numa terrível ansiedade que transformava as horas em eternidades. Finalmente, algumas mulheres deixaram-se convencer e acompanharam Maria Madalena.

Assim, uma vez franqueada a porta da muralha que dava acesso ao Calvário, que, contrariamente ao que esperavam, já estava aberta àquela hora, as mulheres ficaram aterradas ao sentirem um terramoto, abrigando-se cada uma como pôde e encostando-se umas às outras na esperança de ficarem melhor protegidas, ficassem elas vivas ou mortas… Decidiram, apesar deste sobressalto, do qual saíram incólumes, continuar a missão a que se tinham proposto.  Nesse momento todas se lembraram  do  terramoto que se sentiu após a morte de Cristo . Ninguém perguntou, mesmo assim, se isto teria a ver com a Ressurreição de Cristo, pois não lhes passava pela cabeça que a profecia dos três dias, que todas entenderam serem completos,  não se cumprisse.

Madalena apressou, então, o passo ao longo da muralha, de modo a encontrar   algo que disfarçasse a sua presença, até que, deixando as outras mulheres para trás, rapidamente chegou ao local do túmulo, onde teve a surpresa da sua vida:  viu os soldados estendidos no chão, aparentemente mortos ou a dormir profundamente. Viu que a pedra do túmulo fora removida e o sepulcro estava  aberto e vazio!  Sentiu que as pernas fraquejavam, segurou-se e ficou por ali sem saber bem o que fazer,  desnorteada, pensativa, lacrimosa, pois nada havia para fazer senão regressar, alimentando toda a frustração até encontrar as outras mulheres que tinham ficado para trás. De volta, lá iria a sacola com os perfumes e a bolsa recheada de moedas, ambas perfeitamente intactas. Poderíamos  chamar a isto um fracasso total, mas somente o foi na aparência.

Finalmente, pensou ter sido  bafejada por alguma sorte.  Estranhamente, andava por ali um homem a fazer não sabia bem o quê, mas que ela tomou pelo jardineiro, a ele se dirigindo:

MM– Senhor, podes dizer-me quem terá violado este túmulo e roubado o corpo do meu Senhor? Alguém o roubou e matou os guardas, pois eles não dão sinal de si.

– Homem – Mas que fazes tu aqui, mulher, a estas horas tão matinais?

Madalena– É que eu vim aqui para homenagear o corpo do meu Senhor e encontro o túmulo arrombado e vazio. E não sei quem o roubou. Ajoelho-me, Senhor, a teus pés, mas diz-me, por favor,  se foste tu ou se sabes quem foi, pois  se tu és o jardineiro desta zona, deves saber quem veio de noite e o roubou. Diz-me onde ele está e eu vou buscá-lo!

Jesus – Maria!…

Madalena –  Raboni!…Deixa-me beijar a tua veste!

Jesus – Maria, não Me toques, pois ainda não subi para Meu  Pai e vosso Pai! Vai dizer aos Meus irmãos que espero por eles na Galileia!

Maria não se fez rogada. Em descida rápida, encontra as outras  companheiras, todas ofegantes, e convence-as a voltarem para trás, mas elas recusaram, pois também queriam ver com os próprios olhos. Depois, regressaram todas cheias de alegria, na ânsia de transmitirem aos apóstolos a grande notícia de Cristo ressuscitado, não havendo dúvida que o monte foi mais fácil de descer do que de subir.

Chegadas de volta ao Cenáculo, não é difícil imaginar todas elas a falar ao mesmo tempo e dando a notícia a Pedro e João, que decidiram correr até ao túmulo, para ver com os próprios olhos, tirando assim a limpo aquele palavreado entusiasmado das mulheres. “Ver para crer”, já assim era antes de o apóstolo Tomé o pronunciar pouco depois.

 .

Ezequiel Miguel

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