O Sinédrio trama ciladas contra Cristo

(Realidade & ficção)

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Personagens: Caifás, Anás, Doras, Elquias, Jeremias, Zacarias, Samuel, Sadoc, Josias, Eliseu, João, Simão, Enoch

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Judeus15O Sinédrio reúne para discutir o assunto. Precisam-se  ideias  para montar ciladas a Cristo e desmascará-LO perante as multidões. Para isso foi  ele convocado parcialmente, no sentido de impedir que os  sinedritas amigos de Jesus estejam presentes. É um assunto que tem de ser tratado urgentemente e no máximo segredo, como tudo o que é  de carácter conspirativo. A reunião realiza-se, secretamente, em casa de Caifás, e não no Templo, por motivos de segurança contra espiões.

Caifás– (Presidente e sumo sacerdote) – Caríssimos santos de Israel, convoquei-vos para tratarmos de um grave problema que nos causa grandes preocupações e angústias, por não sabermos bem como enfrentar o galileu. É que, a continuar como até aqui, estaremos a pôr em risco a nossa nação, a nossa Lei, o nosso culto e os nossos costumes! E digo mais: até podemos vir todos a ser vítimas dos romanos. Penso que já estais a par deste assunto de que vamos tratar. Propositadamente, não foram convidados aqueles membros do Sinédrio que não pensam como nós. Confiado em que o assunto de hoje não transpirará para o exterior, eis o que nos traz aqui:

O galileu, que arrasta multidões, serve-se de poderes mágicos para provocar falsos milagres que enganam toda a gente. Todos estamos convencidos  de que ele age por virtude de Belzebú, com quem ele tem provavelmente um pacto secreto. Os nossos espiões transmitem-nos tudo o que ele diz e faz, mas nada disso nos dá motivos para o prendermos e o julgarmos. Precisamos de provas mais convincentes, pois, daquilo que vemos e sabemos, há sempre o risco de não interpretarmos bem as coisas. Também não o podemos prender assim sem mais nem menos, para o soltar logo a seguir, se a multidão  se armar contra nós e puser em risco a nossa segurança. Depois, poderão vir os romanos e…sabe-se lá o que poderá acontecer!

Assim, preciso que de vós saiam sugestões que possamos pôr em prática para o apanharmos em pecado, conseguindo, assim, desmascará-lo de uma vez por todas e afastar dele as multidões que o seguem, na expectativa de curas milagrosas. Agora, cada um apresentará o seu plano, que todos ouviremos com atenção, deixando os comentários, se os houver, para o fim.

 Anás – Eu penso que devemos estudar bem, e preparar melhor, algumas ciladas, pondo-lhe questões enigmáticas, capciosas e dilemáticas, em que qualquer uma das suas respostas seja um trunfo a nosso favor e contra ele. Refiro-me a alguma passagem das Escrituras de difícil interpretação ou de interpretações contraditórias. Por exemplo: Yahweh proibiu fazer imagens de tudo o que há nos céus, na terra e nos mares. Eis a questão: Então, porque mandou ele a Moisés fabricar uma serpente de bronze e erguê-la no deserto? E porque mandou  Ele construir dois Querubins sobre a Arca da Aliança? Yahweh deu ordens contraditórias ou não? Ele terá de explicar! E aí podemos apanhá-lo em contradição, seja qual for a resposta que ele der.

Doras – Eu sugiro o seguinte: Podíamos apanhá-lo de noite, atacando a casa onde ele e os seus discípulos  pernoitam. Depois, julgávamo-lo por aquilo que ele fez ao meu pai. Deveis estar lembrados que ele lançou uma maldição sobre os pomares de meu pai e todas as árvores secaram imediatamente e lá continuam mirradas,  esqueléticas e estéreis. Mais: Ele fulminou o meu pai, quando ele se preparava para o apedrejar. Ele deve ser obrigado a pagar os prejuízos e ser julgado por homicídio.

Elquias – A minha sugestão é esta: Um de nós, por exemplo, eu, podíamos convidá-lo para uma refeição em nossa casa e arranjávamos um estratagema que o impedisse de lavar as mãos antes da refeição, como manda a Lei.  Depois, acusá-lo-íamos de infringir a Lei. Perante as nossas testemunhas, ele não poderia  negar que não lavou as mãos. Se ele estiver com aqueles que andam sempre com ele, tanto melhor, pois  também não teriam ocasião para lavar as mãos, caindo todos em argumentos inaceitáveis perante a Lei. Aí, poderíamos atacá-lo com os nossos argumentos, para os quais ele não teria resposta, uma vez que haveria testemunhas ali presentes.

Eliseu– A minha sugestão é esta: Um dia em que ele apareça lá pelo Templo e desate a pregar, desafiamo-lo a curar um falso doente. Explico melhor: Apresentamos-lhe um doente verdadeiro e outro falso, cada um em sua maca. Depois, no meio  da discussão, acusamo-lo de realizar falsos milagres, chamamos-lhe embusteiro, mentiroso e outras coisas do género. Finalmente, desafiamo-lo a curar o doente falso e o doente verdadeiro. É evidente que ele não saberá qual é um e qual é o outro. Depois, lançamos sobre ele o ridículo  e   o descrédito, levando as pessoas a concluir que ele é um intrujão, um falso Messias, por curar um falso doente, deixando o verdadeiro doente  no mesmo estado em que foi. Nós, então, podemos provar que ele é mesmo mais um falso Messias e que os seus milagres são apenas obras de um charlatão. Teremos, assim, motivos e testemunhas para o levarmos a julgamento, por ser mais um que se arvora em Messias, a merecer a sorte que os outros tiveram: a morte

Samuel – Eis a minha  sugestão: Ele já disse muitas vezes que se apresenta como rei das almas, não estando interessado em ser um rei verdadeiro, como esperamos que venha a ser o Messias verdadeiro, quando ele chegar. Mas nós poderíamos tentá-lo a deixar-se nomear e coroar como verdadeiro rei de Israel, em vez de Herodes. Convenceríamos alguns cortesãos de Herodes e alguns amigos do galileu a entrarem no esquema, levando-os a pensar e a acreditar nas nossas boas intenções. Aos amigos de Herodes teríamos de dizer que era uma cilada ao nazareno, de contrário poderia tudo virar-se contra nós e dar mau resultado. Assim, constituiríamos um grupo de amigos seus, um grupo de sacerdotes, um de escribas, um de fariseus, um de sinedritas, um de anciãos, um de doutores da Lei. Todos seriam devidamente instruídos sobre o tipo de discurso que cada um faria, de modo a que ele acreditasse nas boas intenções de nós todos. Esquecia-me de dizer: O encontro com ele seria numa casa de campo de algum dos nossos conhecidos, longe de olhares indiscretos, para evitar complicações futuras. Todos aqueles que falassem, teriam de demonstrar-lhe que ele, sendo o Messias, é aquele que está destinado a ser o verdadeiro rei de Israel, em vez de Herodes, que ocupa o trono indevidamente, por ser filho de estrangeiros. Assim, ele seria pressionado a aceitar, já ali, a eleição, a unção real e a coroação. Um sacerdote levaria já o óleo da unção e faria tal como  fez o profeta Samuel com o rei David.Depois, se ele aceitasse, seria acusado ao Sinédrio, a Herodes e a Pôncio Pilatos.  O resto  seria fácil de adivinhar!

Josias –Eis a minha sugestão: Ele já disse que, como senhor da vida, também ressuscita mortos.   Ora, o meu plano seria assim: Faríamos uma encenação de um funeral. Quando um jovem morresse a sério, nós levaríamos também, no funeral, um falso morto, igualmente jovem. Quando o galileu aparecesse, a choradeira seria por causa de ambos. Então, essa seria  a ocasião de o provocarmos, acusando-o de fazer falsas ressurreições, porque os mortos que tinham morrido eram falsos mortos. Seria assim uma coisa parecida com o plano apresentado pelo Samuel. Ele seria desafiado, perante a multidão,  a mostrar o seu poder, se é que o tem, de ressuscitar mortos verdadeiros. Se recusasse, toda a multidão o insultaria, por não querer ajudar aquelas famílias enlutadas e não usar o poder, que diz ter, em favor dos infelizes em horas tão amargas.

Sadoc –  O meu plano é este: Seleccionaríamos um grupo de meretrizes bonitas, que, depois de bem industriadas por nós, as introduziríamos no meio das multidões, isto é, na primeira  linha dos ouvintes, em suas pregações, precisamente em frente dele e o mais perto possível dele. Aí, veríamos se a sua pregação condiz com a sua vida e com o que dizem as Escrituras. Findas as pregações, elas aproximar-se-iam dele e…tentavam seduzi-lo, com aquela arte  e astúcia que as caracteriza. Não preciso de dizer mais. É evidente que lhes pagaríamos antecipadamente metade e, depois do serviço, a outra metade ou o dobro, desde que tivessem atingido os objectivos.

Simão – Eu proponho o seguinte: Quando for possível, iremos ter com ele e pomos-lhe a questão: É ou não lícito a um Israelita pagar o tributo a César? Se ele disser que sim, atirar-lhe-emos à cara que ele não defende os interesses de Israel, como se esperaria do seu Messias, anunciado como libertador de Israel, aquele que libertará Israel de todas as opressões e opressores. Se disser que não, acusá-lo-emos a Pilatos e ele o enviará para a prisão como agitador anti romano, um inimigo de César. Não terá escapadela possível, seja qual for a resposta que dê. Depois, é só esperar para ver como ele se defende perante os romanos.

Zacarias – Eis o meu plano: Quando o encontrássemos a jeito, surgiríamos à sua frente, levando presa uma mulher adúltera, verdadeira ou falsa. Nós já levaríamos todos  uma ou mais pedras para  a apedrejar, como manda a Lei. Poderia também ser uma encenação previamente preparada. A mulher seleccionada não teria de dizer nada, apenas fingiria resistir àqueles que a arrastavam. Então, eis a pergunta que lhe faríamos: “Esta mulher foi apanhada em adultério. A Lei manda que a apedrejemos até morrer. Tu, que dizes? Apedrejamo-la ou não”? Aí,  se ele disser que sim, acusá-lo-emos de ser cruel, de não usar a misericórdia que prega, de não perdoar, porque ele diz que pode perdoar os pecados, etc. Se disser que não, acusá-lo-emos de não cumprir a Lei e aconselhar outros a não cumpri-la e, sendo assim, já o poderíamos prender por ser um agitador, um intrujão, um falso Messias, levando as multidões a afastarem –se dele.

João – Eis o que eu proponho: Não basta a alguém dizer que é isto ou aquilo, sem primeiro ter feito obras que o demonstrem. Assim, isto pode ser aplicado ao galileu. Então, a minha ideia é esta: Quando ele aparecesse lá pelo Templo, provocaríamos uma discussão com ele, contestando afirmações e  explicações sobre a doutrina que prega. É evidente que ele se defenderá com argumentos que nós não aceitamos. Quando chegasse o momento certo, exigiríamos que ali mesmo ele desse um sinal do Céu que demonstrasse que ele é o Messias verdadeiro. Podíamos combinar previamente um sinal, por exemplo: que aparecesse ali, naquele momento, um anjo do Senhor a confirmar que ele é o Messias. Se ele diz que tem os poderes de que fala, então também pode mandar vir do Céu um anjo que todos possamos ver. Se rejeitar a nossa proposta, tiraremos as devidas conclusões.

Jeremias – Também tenho uma ideia, que vou apresentar. Como ele diz que tem poderes para expulsar demónios dos possessos, podíamos encenar uma possessão diabólica, onde um falso possesso estrebucharia, berraria, deitaria espuma pela boca, cairia por terra, etc,. aquelas coisas que  são típicas do comportamento dos possessos. Ai, veríamos se ele se deixava enganar ou não e se expulsava demónios de onde eles não estavam. Mais: Se recusasse expulsá-los, iríamos acusá-lo de crueldade e desprezo por alguém que sofre. Se tentasse expulsá-los, cairíamos em cima dele com provas e acusações de intrujão, embusteiro, charlatão e outros mimos que ele merece. Depois, agiríamos em conformidade.

Caifás – Ninguém mais quer falar? Então, ponho à vossa consideração os planos apresentados. Alguém tem objecções contra algum ?… Não?… Então, consideram-se todos aprovados. A seu tempo iremos prepará-los e pô-los em execução.

Enoch … Eu também tenho uma ideia! Quando o encontrarmos, metemo-nos no meio daqueles que o cercam e  pomos-lhe a questão:  “Somos obrigados a pagar o tributo  a César ou podemos recusar pagá-lo, por abusivo e humilhante”? Se ele responder que devemos, acusamo-lo de traidor, inimigo do povo e da nação, por defender a ocupação e a exploração do nosso povo pelos inimigos romanos. Se responder que não, acusamo-lo a César, por ser inimigo de César. Aí, a polícia secreta tomaria conta dele, por ser um potencial inimigo de César, candidato à prisão e à morte. Seria uma possibilidade de nos livrarmos dele sem responsabilidade para nós.

Anás – Só mais uma coisa! Contamos com Judas Iscariotes para nos ir informando sobre o paradeiro do galileu. Combinaremos com ele quanto lhe pagaremos pelo serviço, que não será muito, pois a sua avidez por dinheiro torna tudo mais fácil. E já agora, tenho mais uma ideia. Entraríamos em negociações com o Judas, neste sentido: Nós pagaríamos ao Judas uma boa quantia pare ele conseguir convencer uma meretriz, até pode ser a sua favorita, a participar num esquema para apanhar o galileu em pecado. Bastaria que ela tentasse convencê-lo a entrar na sua casa numa noite em que ele pernoitasse por ali perto. O Judas informar-nos-ia. Então, a mulher desataria a bater nos portões e a gritar que queria falar com Jesus de Nazaré. Ele viria até ela, para saber quem era e o que queria e depois, ela  oferecer-se-ia  para o pecado. Quando ambos entrassem em casa da mulher, os que estivessem de guarda, escondidos, surgiriam pela frente e atiravam-lhe à cara o facto consumado, que seria divulgado às multidões que o acompanham, convencidas de que ele é o verdadeiro Messias. Aí, ficaria o mito desfeito e toda a gente ficaria a saber que ele é um embusteiro oportunista.

Caifás – É mais um plano válido, que, a seu tempo, executaremos. A todos  agradeço a vossa presença aqui, a bem da nossa nação e da nossa santa Lei.

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Ezequiel Miguel

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Pânico no Inferno

(Realidade & ficção)

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h1.jpgAs notícias que chegavam  lá abaixo eram mesmo alarmantes.

O assunto mereceu a convocação de um concílio, destinado a reunir todos os seres diabólicos que habitam aquelas profundezas da Terra e também aqueles que habitam nos mares, nos oceanos, nos ares e nas alturas do universo, assim como nas  suas profundezas mais profundas .

O que acontecera, para pôr todo o inferno em alvoroço? Que poderiam os  demónios temer, uma vez que, depois da sentença de  condenação eterna a que estão sujeitos, já não há mais nada que possam temer?

E assim, Lúcifer e Satanás, os demónios mais poderosos e que fazem valer a sua autoridade lá em baixo, resolveram convocar urgentemente todos os demónios, como acima se afirmou. Eis o discurso de apresentação da situação gravíssima  que seria preciso enfrentar com toda a prudência, sabedoria, decisão e coragem, precisando, para o efeito, de uma dose extra de ódio “ÀQUELES LÁ DE CIMA” (o Pai, o Filho e o Espírito Santo). Os secretos desígnios do Altíssimo precisavam de ser analisados sob todos os pontos de vista e com as opiniões mais diabolicamente díspares, por mais inteligentes ou  estúpidas que fossem, além das medidas possíveis ou impossíveis que fossem ventiladas.

Não havendo código de conduta, a ditadura  imperial imposta por Lúcifer e Satanás limitava os comportamentos, exigindo-se, sem margem para tolerância, a submissão total, permanente e em todos os sentidos, a estas duas autoridades do inferno.

À semelhança dos Coros de Anjos existentes no Paraíso, de onde todos os demónios foram expulsos, também há coros de anjos-demónios, pois eles,  pertenciam igualmente aos vários coros celestes, que ficaram algo desfalcados no paraíso, mas que foram suficientes para formar coros semelhantes no inferno. Quanto ao número total dos demónios, o Apocalipse diz que eles formavam a terça parte dos anjos que uma vez lá existiram. Mesmo assim, eles eram e são suficientemente numerosos para taparem o sol num dia luminoso, caso tivessem um corpo material como o nosso. O Apocalipse refere-se a eles, quando foram expulsos, como “um terço das estrelas do Céu, arrastadas pela cauda do Dragão” (Ap 12,4).

Assim, há no inferno e no Paraíso   os seguintes nove coros ou categorias de anjos: Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Potestades (= Senhorias), Virtudes, Principados, Arcanjos, Anjos.

Tal como acontecia no paraíso, os anjos e os demónios estão sujeitos à autoridade dos anjos de coros superiores, tudo funcionando numa hierarquia que nenhum contesta. No caso dos demónios, quem contestar ou desobedecer está sujeito a que veja o seu sofrimento aumentar, tal e qual como o volume de um aparelho  de rádio ou a intensidade da energia que ele descarrega. Assim, tanto no paraíso como no inferno, há o princípio da obediência total, permanente, pronta e garantida.

 Na mesa da presidência infernal sentavam-se, o mais garbosamente possível, os demónios mais poderoso, sábios e inteligentes: Lúcifer, Satanás e Belzebú, sendo Asmodeu o secretário encarregado de aceitar as marcações para discursar e redigir a Acta final deste magno  e infernal acontecimento. Nos anais do Inferno não havia nenhuma crónica que relatasse algum acontecimento semelhante, porque nunca fora necessário. Tudo estava arquivado no cérebro de cada um. Mas agora era diferente. Estando todos, finalmente, presentes, dera-se início à infernal sessão.

Discurso de Lúcifer

Convoquei-vos a todos, ó eternamente malditos, porque precisamos de tomar medidas urgentes e eficazes contra um problema que surgiu e que  irá afectar as nossas vidas para sempre, se é que alguma coisa pode melhorar ou piorar a nossa  maldita condição. O problema parece ainda só estar no princípio, por isso, quanto mais depressa agirmos, melhor será no presente e no resto da nossa  eternidade, se é que isto de ser melhor ou pior se aplica a nós.

Um dos nossos batedores andou lá pelo Éden e descobriu dois seres estranhos que parecem ter caído ali não se sabe bem como nem de onde, mas foi,  com certeza, pelo poder “Daqueles lá de cima”. São semelhantes aos animais, mas, ao contrário destes, eles só têm duas pernas e andam de pé, com olhos que podem sempre ver o céu. Eles estão muito acima dos animais, pois até têm uma linguagem articulada, que deve ter-lhes sido dada de início. Eles parecem não ter nascido de ninguém, por isso, suspeitamos que tenham sido criados já adultos pelo Altíssimo. Eles passeiam-se lá pelo Jardim, falam com os animais, deram um nome a cada um e eles obedecem-lhes sem dificuldade. Suspeitamos que sejam os primeiros humanos da criação do Altíssimo. Acredito mesmo que eles são ou serão mesmo os reis da Criação.

Mas aqui entronca mais um mistério que temos de desvendar. Ora, todos vós vos lembrais que  “ELES LÁ DE CIMA” andaram por lá, em tempos, a exibir uma menina que os deixava  a todos babados, pela sua beleza, pureza e encanto, menina essa que ainda só estava na mente Deles. Também vos lembrais que nos foi dito que, um dia, ela nos esmagaria a cabeça e que seria Dela que o Filho, a 2ª Pessoa, se tornaria homem, nascendo Dela e sem deixar de ser Deus.

Todos – Não o serviremos, não o adoraremos, não lhe prestaremos culto! NUNCA! NUNCA! NUNCA!…

Lúcifer – Logo nos foi exigido que aceitássemos e adorássemo este Deus-Homem e  venerássemos aquela menina que seria um dia a Sua Mãe. Relembro-vos, ó malditos, que foi por causa disto que nós nos revoltámos, perante tão injusta humilhação. Ainda nem o  Deus-Homem e a Sua Mãe existiam e já, de imediato, exigiam de nós esta aberrante humilhação. Por isso,…

Todos – Isso, nunca, nunca, nunca! Não serviremos, não aceitaremos tais decretos! Mil vezes o inferno! Mil vezes esta eternidade! Mil vezes aumentado o ódio que nos alimenta!

Lúcifer: Nós adoramos os Três, porque Eles têm o poder sobre nós, mas a Ela,… NUNCA! Isso seria a nossa infinita humilhação! Mil vezes a morte, se pudéssemos morrer!  Por isso, venerá-la, aceitá-la?

Todos – NUNCA E EM NENHUM LUGAR, quer no tempo quer na eternidade! Para Ela, todo o nosso infinito ódio! Ela ainda não nasceu, pensamos nós, mas já a odiamos.

Seguiu-se uma sessão de urros, piruetas, juramentos de punho fechado, de raios  de  ódio faiscante, de eterna fidelidade a Lúcifer e Satanás, de combater, por todos os meios e sem descanso, AQUELES LÁ DE CIMA e a MULHER que têm  ou tinham na mente!

Lúcifer – E chegou o momento de alguém ir lá acima, ao Éden, para investigar o casal que anda por lá todo feliz no Jardim, falando com os animais e comendo de todos aqueles frutos sem preocupações nem trabalho. Como é que eles são tão felizes,  se não fizeram nada para tal merecerem? Será que o Altíssimo já perdeu a noção de justiça? Temos de descobrir quem são! Será aquela a tal Mulher que nós vimos, ainda menina, ou será outra? Será desta que irá nascer aquela que nos vai esmagar a cabeça? Se ela vai ser a nossa futura inimiga e aquela que nos vai arruinar, é urgente saber. Assim, proponho que se nomeie uma comissão para investigar e trazer os resultados. Quem se oferece como voluntário?

Uma onda de urros, pinotes, algazarra, piruetas, alegria, se é que no inferno pode haver alegria, se espalhou por todo o inferno e, em uníssono, ouviram-se as vozes de biliões de demónios. Um grito gutural  de biliões de voluntários  saiu de todas as bocas lá existentes: “eu”, urrado até ao infinito.

Lúcifer – Basta! Não têm de ser todos. Uns quantos bastam!

Satanás – Eu ofereço-me para ir lá sozinho. Até já sei como fazer!

Lúcifer – Conta!

Satanás – Eu apareço por lá sorrateiramente, espreito, sigo essa mulher por todo o lado, sem dar nas vistas, e descubro qual a rotina diária, tanto dela como do ser que a acompanha. Tentarei saber como apareceram ali de repente, de onde vieram, quem são os seus pais, como conseguiram ser tão felizes naquele jardim de maravilhas. Isto pode exigir-me que fique por lá alguns dias, tanto de dia como de noite. A minha estratégia consistirá em apresentar-me como uma bela e colorida Serpente junto da árvore mais atractiva que por lá houver ou daquela que eles frequentarem mais assiduamente  para colher os frutos. Depois, tentarei chegar à fala com a mulher, insistindo até ela dar sinais de falar comigo. Além disso, procurarei os momentos em que ela ande por lá sozinha e se deleite a contemplar a beleza das árvores e dos frutos que elas produzem. Depois, logo se verá. É este o meu plano.

Lúcifer – Tenta levá-los a pecar, nem que seja em pensamento, mas tanto melhor se for de pensamento e acto. Se pecarem, ficamos com a certeza que a mulher não é aquela que foi apresentada lá em cima. Porque o Filho do Altíssimo não irá incarnar numa mulher tocada pelo pecado. Mas será certamente da descendência desta que  nascerá a tal que nós odiamos, apesar de ainda não existir.

Todos – Bravo! Tu és mais inteligente que nós todos. Para elas, todo o nosso ódio!

Ouviu-se um uníssono e sonoro grito  de aprovação, não sendo necessário pôr a votos este plano e esta estratégia. Em nome de todos, Lúcifer aprovou.

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Ezequiel Miguel

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Obsv.:Continua no artigo: “Era uma vez uma serpente”

IDE PARA A MINHA VINHA! (Cf Mt 20, 1-16)

Local da acção.: uma praça pública, onde os homens se juntavam esperando que alguém os contratasse para qualquer trabalho.

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vineyard-workers“ Naquele  tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: O Reino dos Céus é semelhante a um proprietário, que saiu muito cedo, a contratar trabalhadores para a sua vinha:

Proprietário: Eh! vós aí! Estais livres para irdes trabalhar para a minha vinha, se ainda ninguém vos contratou.

1º trabalhador – Eu estou, mas dizei primeiro o que tenho de fazer e quanto me pagais, pois o dia só agora começa e prevejo trabalho duro até ao pôr do sol.

Proprietário. – Certo! Pago-te, a ti e aos outros que quiserem ir também, um denário e penso que isso é justo.

Pelas 9 horas da manhã:

Propt. – Olá! Vós, aí sentados e tagarelando, sem fazer nada! Já alguém vos contratou?

2º trabalhador – Não, senhor! Ainda ninguém nos contratou.

Proprt. – Então, eu contrato aqueles de vós que quiserem ir trabalhar para a minha vinha. Pago-vos um denário, apesar de trabalhardes menos horas que aqueles  que já lá andam.

3º Trab. – Combinado! Eh, rapazes! Vamos, que o patrão paga bem, com a vantagem de trabalharmos menos tempo do que aqueles que começaram cedo!

Pelas 12 horas:

 Proprt– A paz esteja convosco, homens! Porque estais aí ociosos, sem fazer nada?

4º Trab..  Não temos nada para fazer, pois ainda ninguém nos contratou. E, a esta hora, quem nos vai contratar? Só algum ricaço, mas nós não conhecemos nenhum que seja doido a esse ponto!

Proprt. – Pois eu sou um desses ricaços e contrato já aqueles que quiserem ir trabalhar para a minha vinha!

5º Trab.-  E quanto pagais?

Proprt.- Pago o dia inteiro, como se tivésseis começado logo de manhã cedo. Pago um denário.

6º Trab. – A sério? Pagas mesmo? Eh! amigos, vamos, que já arranjámos patrão a sério e generoso!

Pelas 5 horas;

Proprt. –  Eh! amigos? Que fazeis aqui? Ficastes aqui o dia inteiro, sem fazer nada? Eu procuro trabalhadores para a minha vinha. Estais dispostos a trabalhar umas horas? Eu pago-vos um denário, tanto como pago aos outros que já lá andam desde manhã.

7º Trab.- O quê? É possível? Não há ninguém que pague assim! Estais mesmo em vosso perfeito juízo? Mas isso vai revoltar os outros, ao saberem disto, e vão achar que não é justo o que fazeis! Patrões assim é o que nós precisamos todos os dias!

Proprt. – Não vos preocupeis com isso, pois eu sou rico e faço do meu dinheiro o que quiser.

8º Trab. – Óptimo! Então, vamos todos e, por esse preço, até poderemos trabalhar de noite!

Propt.- Não! Terminais  quando terminarem os outros!

9º Trab. Mas, nessas condições, podes contar connosco todos os dias!

Ao cair da tarde:

 Proprt.- Capataz, chama os trabalhadores e paga-lhes o dia, a começar pelos  últimos até aos primeiros!

“Vieram os das 5 horas da tarde e receberam um denário cada um. Vieram depois os primeiros e julgaram que receberiam mais, mas receberam também eles um denário. Depois de o terem recebido, começaram a murmurar contra o proprietário” :

1º Trab. –  Então, estes últimos só trabalharam uma hora e pagais-lhes  o mesmo que a nós? Nós aguentámos aqui o dia todo, esturrámos aqui ao calor e estamos mortos de cansaço e estes só trabalharam uma hora e pagais-lhes o mesmo: um denário? Não é justo! Para eles merecerem um denário, nós mereceríamos nada menos que dez ou doze. Nunca vimos um patrão assim, com esta falta do sentido de justiça!

Proprt.—“Amigo, eu não te prejudico! Não foi um denário que ajustaste comigo? Leva o que é teu e segue o teu caminho! Eu quero dar a este último o mesmo que dei a ti. Não me será permitido fazer o que quero do que é meu? Ou será rancoroso o teu olhar por eu ser bom (bondoso)? É assim que  os últimos serão dos primeiros e os primeiros serão dos últimos”.

Comentário

Decifrando a parábola:

Um denário (Latim denarius) valia o mesmo que uma dracma grega. Era o salário de um dia de trabalho. Era uma moeda romana que servia também para pagar os impostos. Aparece várias vezes nos evangelhos e até Judas avaliou o perfume com que Maria Madalena honrou Jesus, quando ela partiu o frasco.  Judas disse que esse perfume valia uns 300 denários, tanto como 300 dias de jorna, isto é, trabalho para alguém. Mais disse Judas que fora um desperdício e que se poderia até dar aos pobres, tendo-lhe Jesus respondido que “pobres, sempre os tereis”.

. O proprietário é Deus e a vinha é o campo ou campos onde o Reino de Deus esteja actuante. Jesus referia-se certamente à Igreja que iria fundar, tendo Pedro como cabeça e os outros apóstolos como  pilares. O Reino de Deus na Terra é a Igreja Católica, expressão também sinónima de Reino dos Céus. Também se pode entender que o Reino dos Céus é o Paraíso, sendo Cristo o seu Rei eterno.

Os trabalhadores são todos aqueles que na Igreja Católica gastam a sua vida, ou parte dela,  no Apostolado  sacerdotal, religioso ou laical, em qualquer actividade relacionada com os interesses de Deus e das almas, havendo sempre espaço e tempo para todos trabalharem na Vinha do Senhor, de acordo com a disponibilidade possível.

Quanto aos últimos que são os primeiros e aos primeiros que serão os  últimos, talvez Jesus quisesse referir-se aos Judeus como os trabalhadores da 1ª hora e aos  cristãos, organizados sob a orientação da Igreja Católica, a Nova Vinha do Senhor, onde o prémio (a salvação)  está sempre ao alcance  dos trabalhadores, mesmo os da última hora, aqueles que se convertem já próximos da morte. Em qualquer caso, a bondade de Deus oferece o mesmo prémio:  o Reino dos Céus.

A finalidade primeira desta parábola é mostrar e demonstrar a misericórdia e a  bondade de Deus, que está sempre pronto para perdoar e pagar mais  e melhor do que merecemos, pois, como Ele diz na profecia de Isaías: “ Os meus pensamentos são diferentes dos vossos e os vossos caminhos são diferentes dos meus” (Is 55,9)

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Ezequiel Miguel

 

 

 

 

A rebelião de Coré (Cf. Números 16)

(Realidade e Ficção)

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Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –   Meribá (= Disputa)  e Massá  (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan),  Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

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Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” (Salmo 94/95)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida,  onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel ( que era a fértil  terra de Canãa), ocupada, entretanto, por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números,  do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico, registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido  e meditado, sob diversos ângulos, por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento deles nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente no filme “Os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra prometida (Canãa) , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura, era, e ainda é,  o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo.  Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus  erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida  em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei, como parece ter sido o caso.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem,  Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé  e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas  de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá  (disputa)e Massá  (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Em todas as rebeliões há cabecilhas que engendram os esquemas da revolta. Também aqui foi o caso:  As citações bíblicas vão em negrito

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”

Coré – Olha lá, Moisés!  Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yahweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés –  “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para  vos honrar perante a comunidade,  entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós  e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio .  Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh  fará conhecer quem é Dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se Dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se Dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante  de Yahweh. Aquele que Ele escolher, esse é o homem que Lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora,  chamo  aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

AbiramEu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne,  sem vinho, sem uvas,  com  água potável só de vez em quando!  De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e  um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos, uns idiotas! Tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste, que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui!  Se tu, lá no Egipto, foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teus truques, de morrermos  à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram –  Temos saudades das refrescantes  cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados!  Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para  a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda da Reuniã),  com Moisés e Aarão”!

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista, embusteiro!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão  afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés  e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui  morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles, e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo o que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

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Comentários sobre as lições a tirar:

  1. A História de um povo faz-se com Deus, contra Deus ou sem Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar, com tantos pormenores e milagres, a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem pertenceriam,  por direito, esses territórios, onde a paz  qu não deita raízes. Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe muitas vezes à prova a nossa fé Nele, com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, a fim de nos levar  a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos, com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.
  1. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, que não perguntou a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Moisés bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que lhe era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e ele lá foi, baseado na promessa da protecção de Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos, apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”!  Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!
  2. Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas que exercem autoridade sobre nós, quer  definitivamente  quer  temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo  S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência, temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra  as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.
  3. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube, no quartel, na paróquia, nos Movimentos da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos seminários, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver murmuradores,…afaste-se deles, recuse alimentar-lhes esse fogo destruidor que sai das suas bocas e o veneno que sai das suas línguas!
  4. Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz, para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!
  5. Quem despreza um profeta de Deus despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive. Outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo, quase todos, perseguições, maus tratos, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de quem tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição de mensagens proféticas teve enormes custos para Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo os tempos.
  6. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo!”. Também está escrito (na Bíblia) que Deus pode punir nações e povos através de maus governantes, que actuam como chicotes da ira Deus para povos rebeldes. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

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Ezequiel Miguel

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Lúcia e o Sr. Prior de Fátima

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Prior de Fátima

. Maria Rosa dos santos, mãe de Lúcia

. Lúcia , vidente de Fátima

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Lucia_JacintaAno de 1917. O Sr. Prior de Fátima já enviara recados aos pais da Lúcia, do Francisco e da Jacinta para trazerem as crianças até ele, a fim de serem interrogadas a propósito do que se dizia sobre a Aparição de Nossa Senhora na Cova da Iria. Os pais do Francisco e da Jacinta não atribuíram importância ao pedido do Pároco, mas a mãe da Lúcia, D. Maria Rosa dos Santos, viu nesse pedido o remédio santo, no qual depositou grandes esperanças, para acabar de vez com a agitação que fervilhava lá em casa e no lugarejo de Aljustrel. Se a Lúcia dissesse que tinha mentido, recuperava-se a paz…

Chegou o dia em que D. Maria Rosa e a filha percorreram a distância que vai de Aljustrel até à residência paroquial de Fátima. Não sabemos se a Lúcia disse alguma coisa durante a viagem, mas ela diz nas suas Memórias que a mãe foi todo o tempo silenciosa…Logo, ambas se portaram como duas pessoas literalmente amuadas e apreensivas quanto ao resultado final… É de supor que ambas iam apreensivas, por motivos diferentes. Lúcia caminhava na convicção de que nada adiantaria, pois a sua mãe, que sempre a ensinara a não mentir,  insistia agora para que dissesse a verdade que lhe convinha, isto é, a mentira de dizer que tinha mentido com aquela história da aparição de Nossa Senhora. Tratava-se realmente de um dilema, e, como em todos os dilemas, nenhuma opção seria agradável de tomar. D. Maria Rosa depositava toda a sua confiança na intervenção do sr. Prior de Fátima, pois a sua autoridade de sacerdote e pároco de Fátima era inquestionável, sendo, para mais, o confessor da mãe e da filha. E ambas, com o coração atribulado, chegaram finalmente à residência do sr. Prior:

Maria Rosa (M.R.) – Cá estamos, finalmente! (Depois de bater à porta):

Bom dia, sr. Prior! Aqui tem a minha filha! Interrogue-a, puxe por ela, arranque-lhe toda a verdade e castigue-a, se mentir. Faça com ela o que quiser, para tirar isto tudo a limpo, que eu não consigo!

Sr Prior – Está bem! Vamos tentar! Não ande nervosa, acalme-se, aceite os desígnios de Deus, que são insondáveis…o que quer dizer que nós nem sempre lá penetramos e quando pensamos que penetramos…podemos enganar-nos. Pode ir em paz para sua casa, que a Lúcia já é crescidinha e não terá problema em regressar a casa sozinha. E a propósito, porque não vieram os filhos da sua comadre, a senhora Olímpia?

M.R. – Não sei! Eu passei lá por casa, mas ninguém se mostrou interessado nisso. Então, se o sr. Prior não precisa de mim, saio. Com licença! (e sai)

Prior – Então, minha filha, o que tens para me dizer?

Lúcia – O sr. Prior é que me mandou chamar!…

Prior – Pois foi! Já sabes porquê e para quê! É um assunto muito sério, esse de que se fala por vossa causa. Gostaria que me contasses tudo, para ver se conseguimos ver claro, o que, por vezes, não é nada fácil. Mas tu vais ajudar, contando tudo, mesmo aquelas coisas que ainda ninguém sabe.

Lúcia – No dia 13 de Maio, Nossa Senhora apareceu-nos sobre uma pequena carrasqueira,  e disse-nos que rezássemos o Terço todos os dias, que a guerra ia a acabar, que os soldados regressariam em breve…e ainda nos pediu que fossemos lá mais cinco vezes, nos dias 13 de cada mês. Pediu também que rezássemos pelos pecadores.

Prior – Mais nada?

Lúcia –( Silêncio)

Prior – Como é que tu sabes que era Nossa Senhora?

Lúcia – Era uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, toda vestida de branco e trazia um rosário…Só podia ser Nossa Senhora!

Prior – Mas Ela disse quem era e o que queria de vós?

Lúcia – Não disse quem era, mas nós sabemos que era Ela, porque estava toda rodeada de luz e essa luz também nos cobria.

Prior – E não vos deu um recado para mim? Não vos disse que devíeis falar disso ao vosso Pároco?

Lúcia – Não!

Prior – É estranho! Muito estranho! Em casos semelhantes é costume mandar ir ter com os Superiores ou com os Confessores. Neste caso, tudo isso foi ignorado, o que é tudo muito suspeito! Muito suspeito mesmo! É caso para se desconfiar!

Prior – E vós não tivestes medo, não tremestes, não vos sentistes mal dispostos, com suores frios, inquietos por dentro, nervosos, com desejos de que tudo acabasse depressa? (1)

Lúcia – Não! A nós pareceu-nos pouco tempo.

Prior –  E Ela não vos ameaçou, se não cumprísseis o que vos pedia? (1)

Lúcia – Não! Ela era muito meiga e falava-nos suavemente, com uma  voz linda e doce.

Prior – Não há elementos que provem que era Nossa Senhora! Sabe-se lá?  Podia ser o demónio! (1)

Lúcia – Mas, sr. Prior, o demónio nunca manda rezar e só lhe interessa levar as almas para o inferno!

Prior – Menina, o demónio é muito esperto e é capaz de fazer o Bem para daí levar ao Mal! Em muitos casos, aparece disfarçado de anjo e também  pode fingir que é  Nossa Senhora, para enganar qualquer um. E ele nunca diz quem é, para melhor ludibriar as suas vítimas. Conheço uma santa que,  uma vez, ao ir confessar-se, era o demónio que lá estava sentado no lugar do Confessor. Foi S. Gema Galgani, por isso, não está excluída a hipótese de ser mesmo o demónio que vos apareceu!   (1) É melhor não voltardes à Cova da Iria! E eu, tal como a tua mãe, também estou convencido que mentes quando dizes que Nossa Senhora vos apareceu, uma mentira talvez de boa fé, mas que não deixa de ser uma mentira. Queres que eu diga ao povo, na missa, que tu pedes desculpa por teres mentido sem querer, porque pensavas que era Nossa Senhora? Não te queres confessar já dessa falta?

Lúcia – Não! Eu não minto e os meus primos também não! E não me confesso de pecados que não cometi! Se eu dissesse que mentia…, então é que mentia! E mentir é pecado! É isso que a minha mãe nos anda sempre a dizer! O sr. Prior quer pecar obrigando-me a mentir?

Prior – Mas, menina, não vês em que estado anda a tua mãe? Ela anda tão inquieta, revoltada e nervosa por tua causa, que, sabe-se lá, pode perder o sono, o apetite, o juízo…e morrer louca! Queres ficar toda a vida com as culpas da morte da tua mãe?

Lúcia – Seja o que Deus quiser! Se ela morrer a dizer que não…eu não me importo de morrer a dizer que sim! A verdade é a verdade e ela sempre nos ensinou a ter horror à mentira. Agora, quer que eu minta e o sr. Prior também! (Limpa as lágrimas) Eu não minto,…nem que me matem!

Prior – E a Senhora disse o que viria cá a fazer nas outras vezes?

Lúcia – Não! Só disse que nos queria lá nos dias 13 durante mais cinco meses e depois diria quem é. Disse ainda que faria um milagre para que todos acreditassem!

Prior – Cinco meses seguidos!…Então, será em Outubro! Também pode ser o demónio a tentar enganar-vos a vós e ao povo, com promessas falsas! E depois,… ele fica-se a rir! E sabe-se lá o que vos poderá acontecer! Se não houver milagre, o povo pode revoltar-se, matar-vos e matar também os vossos pais, pensando que foram eles que vos treinaram para esta trapalhada!

Lúcia – Não é nenhuma trapalhada! É tudo claro como água e não vai acontecer nada disso, porque a Senhora não tem cara de mentirosa e nós sentimo-nos felizes e confiantes nela! E nós ficamos sempre com pena quando Ela se vai embora, pois gostaríamos que Ela ficasse mais tempo! Se fosse o diabo, ficaríamos cheios de medo, a suar e a tremer de frio!

Prior – Ó menina, tu falas do diabo como se já o tivesses visto! Já o viste?

Lúcia –Não! E espero nunca o ver! Ela pediu-nos que rezássemos o Terço pela paz e disse que a guerra ia acabar. O diabo não nos mandava rezar nem pela paz nem pela guerra. O diabo só quer o mal, por isso não pede coisas boas nem quer que a gente faça o Bem!

Prior – Ó rapariga, já sabes mais do que eu! Já ensinas o Pai-Nosso ao Vigário! Diz-me lá: o Terço que Ela mandou rezar é igual ao que nós rezamos?

Lúcia – É, mas Ela pediu que disséssemos, no fim de cada mistério. esta oração: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do inferno! Levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem!”

Prior – As que mais precisarem? Não disse:” As mais abandonadas”?

Lúcia – Não!

Prior – Estranho, muito estranho! Há aí uma pirueta teológica!

Lúcia – Não sei o que  isso é!

Prior – Isso é um assunto para nós, os sacerdotes!   As que mais precisarem! Mas precisam todas! Ela disse quais eram as que mais precisam?

Lúcia – Não! Mas Ela disse que iam muitas almas para o inferno por não haver quem reze e se sacrifique por elas!

Prior – Ah! Estou a ver! Então essas almas pecadoras precisam urgentemente de quem faça alguma coisa para que elas não se condenem ao inferno. Estou a ver! É uma questão urgente de fazer reparação por elas, isto é, alguém tem de comprar essas almas com oração e sacrifício. Se é assim, bate tudo certo, porque, Deus lá sabe, já terão pouco tempo de vida, estando, por isso, prestes a cair no Poço…

Lúcia – Eu penso que é assim!

Prior – Apesar de eu já começar a ver a lógica das coisas e a interligá-las, parece-me que não se pode concluir que tenha sido Nossa Senhora! Ela não disse quem era e não vos mandou vir ter comigo. O demónio é muito astuto, muito inteligente, muito matreiro, muito mentiroso e um artista na arte de enganar, disfarçar, parecer o que não é, para depois confundir as suas vítimas. Aconselho-te, a ti e aos teus primos, a não voltar lá, nesses dias treze, à Cova da Iria. Se for Ela, irá ter convosco onde vós estiverdes! E depois, é preciso dar tempo ao tempo, para vermos se isso vem de Deus ou do Demónio.

Lúcia – Mas Ela trazia numa mão o Rosário, logo era Nossa Senhora do Rosário. Nós não temos dúvidas! O demónio não mandava rezar e fazer sacrifícios pelos pecadores! Ele só quer todas as almas lá no inferno, logo, não pede para se rezar por elas! Eu podia pedir à Senhora que dê um sinal ao sr. Prior, para que o sr. Prior acredite que era Ela e não o diabo! Basta o sr. Prior dizer que sinal quer!

Prior – Isso não, filha!  Deus me livre! Isso seria tentar a Deus! Não posso fazer isso! Tenho de me contentar com as luzes que Ele me enviar! O que for soará, como diz o povo! E pronto, filha! Eu não te proíbo de ires à Cova da Iria! Somente te aconselho a não ir, porque as coisas, para mim, não estão bem claras. Confio em Deus! Vai em paz e procura não desgostar a tua mãe!

Sentada no último degrau da escadaria está D. Maria Rosa, aguardando, com ansiedade e angústia, o resultado da conversa de Lúcia com o sr. Prior. Caiu-lhe o coração aos pés quando Lúcia lhe contou o resultado, mas que não se tinha confessado de mentir, porque não mentia!  D. Maria Rosa perdeu as ilusões. Se o sr. Prior não conseguia, como conseguiria ela? O seu pesadelo continuou durante todo o resto da sua vida, num sofrimento angustiante de que nada nem ninguém conseguiu livrá-la. Aquilo que para muitas mulheres seria uma bênção bem-vinda, para ela foi uma pesada Cruz. Quem penetra os desígnios de Deus? Mas a sua dúvida serviu para dar credibilidade às Aparições de Fátima, ficando provado que ela não dera um passo para facilitar a  sua aceitação e divulgação. Como hoje se diz, ela foi o contraditório!

Do Evangelho: (…Não vos preocupeis com o que haveis de falar nem com o que haveis de dizer! Nessa altura vos será inspirado o que tiverdes de dizer. Não sereis vós a falar, mas o Espírito do vosso Pai é que falará por vós”! ( Mt 10, 19)

(1) Observação – O Sr. Prior conhecia os sinais que acompanham as aparições de demónios, que pretendem sempre dar um ar de realidade, mas deixam sempre o rabo de fora, por muito que queiram escondê-lo. Estes são alguns dos sinais que identificam intervenções demoníacas. Esclareço que os demónios podem assumir formas de anjos celestes, de homens, de mulheres, de jovens, de crianças, de animais…e a sua presença provoca calafrios, medos, angústias, tremores,…revelando, normalmente, uma mensagem com  ameaças de castigos, caso os videntes não estejam dispostos a cumprir.

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Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – IV

19 de Agosto de 1917, nos Valinhos, Aljustrel, Fátima

Nas suas Memórias, a Ir. Lúcia refere que esta Aparição ocorreu em 13 de Agosto, mas não deixou de salientar que esta data poderia não ser a data verdadeira, pois já não se lembrava bem. Ficou, porém, demonstrado que houve equívoco da sua parte. O equívoco deveu-se ao facto de naquele  dia 13 de Agosto os Pastorinhos estarem à guarda do Administrador de Vila Nova de Ourém, que apareceu lá por Aljustrel  e, servindo-se da mentira, os raptou, levando-os para V.N. de Ourém. A propósito deste rapto o Ti Marto, pai de Francisco e Jacinta, conta:

“Na manhã do dia 13 de Agosto – era uma segunda- feira – mas eu tinha dado as primeiras enxadadas numa fazendica pouco distante, quando me foram chamar que fosse imediatamente lá a casa. Ao entrar vi que estava lá muita gente de fora, mas isso já não havia que estranhar…lavei as mãos com todo o sossego, peguei num trapo para as limpar e mesmo assim limpando-as é que entrei na sala e dou com os olhos no Administrador.

Ti Marto – Então por cá, Sr. Administrador?

Adm. – É verdade, também lá quero ir ao milagre. Pois vamos lá todos! Levo os pequenos comigo no carro!… Ver e crer como S. Tomé… (Nervoso) Então os pequenos não aparecem ? Está-se a fazer horas. É melhor mandarem-nos chamar!

Ti Marto – Não é preciso que ninguém os convide! Eles lá sabem quando hão-de trazer o gado e aprontarem-se para ir.

Adm. – Ah! Finalmente eles aí vêm. Então, menino e meninas,  vamos já para a Cova da Iria, que eu levo-os no meu carro. Assim poderemos chegar lá mais facilmente, pois hoje deve haver por aí muita gente caminhando para lá!

Lúcia – Nós não queremos ir de carro. Preferimos ir a pé. Além disso, ainda é cedo e a Senhora só no pediu para estarmos lá por volta do meio dia! Muito obrigada pela oferta mas nós não aceitamos a boleia!

Adm. – Mas vós não vedes que é melhor irdes comigo? É que eu também lá quero ir para ver o que por lá se  passa. Sabe-se lá se a Senhora não quer também falar comigo! É que eu também gostava de a ver! No meu carro ninguém vos incomodará com perguntas, pedidos, empurrões, poeirada…

Ti Marto – Não se incomode o Sr. Administrador com isso! Eles lá hão-de ir ter!

Adm. – Pois então vão andando para Fátima, para a casa do Sr. Prior, que quero lá fazer-lhe umas perguntas!  Vamos então todos: os pequenos, o pai da Lúcia e o pai do Francisco e da Jacinta!…

Adm. – Bem, já chegámos à casa do Sr. Prior. Vamos subir! Venha a Lúcia em primeiro lugar!

Ti Marto – Vai lá, Lúcia!…

Prior de Fátima –  Quem te ensinou a dizer aquelas coisas que andas por aí a dizer?

Lúcia –  Aquela Senhora que eu vi na Cova da Iria.

Prior – Quem anda a espalhar tais mentiras, que fazem tão mal, como a mentira que vocês disseram, será julgado e irá dar ao inferno, se não for verdade; de mais a mais que muita gente anda enganada por vocês.

Lúcia – Se quem mente vai para o inferno, então eu não vou para o inferno, porque não minto, e digo só o que tenho visto e o que a Senhora me tem dito. E quanto ao povo que ali vai, só vai porque quer; nós não chamamos  ninguém.

Prior – É verdade que aquela Senhora vos confiou um segredo?

Lúcia – Sim, mas não o posso dizer. Que, se V. Revcia quer sabê-lo, eu peço à Senhora e, se me der autorização, digo-lho.

Adm. – Isso são coisas sobrenaturais. Vamos adiante! …  Vamos embora! Entrai os três na minha charrete, que está ali ao fundo das escadas. Eu levo-vos já à Cova da iria! (1)

Ti Marto – “Os pequenos começaram a descer e o carro, sem eu dar conta, tinha mesmo vindo encostar ao fim da escada. Ora aquilo estava mesmo a jeito e o Administrador, num instante, conseguiu que eles entrassem para dentro do carro. O Francisco pôs-se à frente e as duas cachopas atrás. Estava aquilo tão jeitoso que era uma beleza. O cavalo partiu num trotezinho em direcção à Cova da Iria e eu aliviei-me um tanto, mas ao acolher-se na estrada fez uma reviravolta, e foi chicote por cima do cavalo, que partiu como um raio. Estava bem estudada!…Estava bem armada!…Foi bem feita!…Mas não havia remédio!” (1)

No dia 14 de Agosto as três crianças foram submetidas a um cerrado interrogatório pelo Administrador,  que não conseguiu forçá-las a dizer o segredo, apesar de recorrer a promessas e ameaças. Nem  a promessa de moedas de oiro nem a ameaça de irem parar a um caldeirão de azeite a ferver surtiram efeito. Ficava ainda uma esperança de umas horas na cadeia que os tornassem mais colaborantes com o Administrador. Mas nem isso deu o resultado pretendido.

A Aparição nos Valinhos (19 de Agosto de 1917)

Após os sinais do costume( relâmpagos),  Nossa Senhora esperou que a Jacinta chegasse, para se revelar sobre uma azinheira um pouco maior que a da Cova da Iria.

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

V. MariaQuero que continueis a ir à Cova da Iria no dia 13 e que continueis a rezar o terço todos os dias.

Lúcia – Queria pedir-Lhe para fazer um milagre a fim de que todos acreditem .

V. MariaSim! No último mês,  em Outubro, farei um milagre para que todos creiam nas minhas aparições. Se não  vos tivessem levado à aldeia (Vila Nova de Ourém) o milagre teria sido mais grandioso. Virá S. José com o Menino Jesus para dar a paz ao mundo. Virá também Nossa Senhora do Rosário e Nossa Senhora das Dores.

Lúcia – O que é que Vossemecê quer que se faça do dinheiro e das outras ofertas que o povo deixa na Cova da Iria?

V. MariaFaçam-se dois andores; um leva-o tu com a Jacinta e outras duas meninas vestidas de branco; o outro leve-o o Francisco com mais três meninos também vestidos de opas brancas. O dinheiro dos andores é para a festa de Nossa Senhora do Rosário.

Lúcia – Queria pedir-lhe por aqueles doentes que…

V. MariaSim, alguns curarei durante o ano. Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, pois vão muitas almas para o inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas.

Desta vez, o Francisco e a Jacinta colheram dois raminhos da pequena azinheira onde Nossa Senhora pousara os seus pés e, deixando a Lúcia a guardar as ovelhas, regressaram muito contentes a casa. À  porta da casa de Lúcia encontraram  D.Maria Rosa dos Santos, mãe de Lúcia.

Jacinta – Ó tia, vimos outra vez Nossa Senhora!…Nos Valinhos!…

D. Maria Rosa – Ai, Jacinta! Sempre vocês me saíram uns mentirosos! Nem que Nossa Senhora lhes vá aparecer agora em toda a banda por onde vocês andam!…

Jacinta – Mas é que vimos. Olhe, tia, Nossa Senhora prantou um pé neste raminho e outro neste!

D. Maria Rosa – Dá-me cá! Deixa ver! (Cheirando) Mas a que cheira isto? …Não é perfume…não é incenso…nem sabonete…cheiro a rosa também não é…nem nada que se conheça…Mas é um cheiro bom! …(Para todos os presentes): Quereis vós também cheirar?…Fica aqui, sempre se há-de encontrar alguém que saiba dizer a que é que cheira este ramo!

À noite:

D. Maria Rosa – Eh! Lúcia, Maria dos Anjos,… quem tirou daqui o raminho?… Ele estava aqui neste vaso!… Será que agora também há ladrões  nesta casa? Não bastam já os problemas do costume?… Lúcia, foste tu que o escondeste?

Lúcia – Ó mãe, eu nem sabia que estava cá um raminho da azinheira! Mas o raminho não é da Jacinta ou do Francisco?

D. Maria Rosa – Realmente!… Hum!…Eu cá  já desconfio!… Quem rouba o que é seu…fica perdoado!… Mas amanhã já tiro isso a limpo!…

Ti Marto – Eu tinha ido nesse dia, à tarde, dar uma volta por umas fazendicas e , ao sol posto, voltei para casa. Quando ia quase a entrar, encontro um fulano meu amigo, que me diz assim:

Fulano – Ó Ti Manel! O milagre já está mais averiguado!

Ti Marto – Cá por mim não sei de nada!

Fulano – Certo que não sabe de mais nada?

Ti Marto – Eu não! Que havera eu de saber mais?

Fulano – Pois fique sabendo que Nossa Senhora apareceu, há um bocado, nos Valinhos, aos seus filhos e à cachopa do Abóbora. Pois olhe que é certo, Ti Manel, e sempre lhe digo que a sua Jacinta tem uma virtude qualquer. Ela não tinha ido com os outros e veio cá um a chamá-la e, só quando ela lá chegou é que Nossa Senhora apareceu.

Ti Marto – Eu encolhi os ombros sem ter palavra que dissesse, mas entrei no pátio a pensar no caso. A mulher não estava em casa; fui andando para a cozinha e lá me sentei. Nisto entra a Jacinta muito contente com um raminho na mão libertando um perfume um inexplicável e magnífico cheiro que eu nem sabia explicar,  assim dum palmo e a dizer-me:

Jacinta – Olhe,  pai! Nossa Senhora voltou a aparecer outra vez à gente nos Valinhos!

Ti Marto – Que é que trazes aí?

Jacinta – É o raminho onde Nossa Senhora pôs os pés.

Cheirei-o, mas o perfume tinha desaparecido. (1)

 .

(1)    Extraído e adaptado de : Pe João De Marchi – Era uma Senhora mais brilhante que o sol –Missões da Consolata, 8ª Edição, pp.156-159 , Fátima, 1966

Ezequiel Miguel

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Interrogatório dos Pastorinhos em Ourém

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Administrador de Vila Nova de Ourém

. Soldado da Guarda Nacional Republicana (G.N.R)- Secretário do Administrador

. Lúcia, Francisco e Jacinta

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Local da acção:  Gabinete do Administrador, na Câmara Municipal de Ourém. Ele está sentado à secretária, batem à porta e o seu secretário anuncia as três crianças, estando já 3 cadeiras à espera delas mais ou menos a meio do gabinete. Elas entram, e ele, com modos afáveis, convida-as a sentarem-se.

Adm. –  Sois então vós a causa de toda esta trapalhada! Sois então vós que inventastes para aí umas anedotas divertidas sobre uma Senhora que vos aparece lá para os lados da Cova da Iria! E contais bem essa história, pelo que sei, porque muita gente vos acredita. Se calhar, foi o diabo que vos iludiu e agora andais a fazer o jogo dele. Dizei-me uma coisa: Como era ele? Tinha cornos e trazia uma forquilha?

Lúcia – Não era o diabo! Era Nossa Senhora, uma Senhora muito bonita, mais brilhante que o sol, que vem  do Céu e volta para o Céu e pediu-nos para irmos seis vezes à Cova da Iria, para falar connosco.

Adm. – Ah sim? E que vos diz ela? Sim, o que é que Ela já vos disse?

Lúcia – Disse que rezássemos o Terço e fizéssemos sacrifícios para salvar os pecadores, porque vão muitas almas para o inferno, por não se rezar e fazer sacrifícios por elas.

Adm. – O Inferno? Ó meninos, Isso não existe! Isso é uma invenção dos padres e de cabeças tolas. O inferno são os nossos adversários políticos e aqueles que querem destruir a República. Acreditais no que essa Senhora disse? Como é que Ela prova que há inferno? Por acaso,  vós já o vistes?

Aqui, batem à porta…e o Secretário vem avisar o Administrador.

Secretário –  (Falando ao ouvido): Sr. Administrador, está ali uma pessoa que vem de Lisboa e quer falar consigo. Disse que  era do Governo. Parece ser alguém importante.

Adm. – Vou já! Menino e meninas, fiquem aí por uns instantes, enquanto vou ali fora receber uma pessoa.

Ambos saem e ficam as crianças sozinhas. Apercebendo-se do rumo da conversa, Lúcia chama a atenção de Francisco e Jacinta para o segredo. Lúcia combina com eles que, às perguntas sobre o segredo, eles olharão para o chão e não responderão nada.

Lúcia –  Vede lá! Vós já vistes o que ele quer saber! Tu, Jacinta, quando ele te perguntar, não olhes para ele, olha para o chão e fica calada! O Francisco e eu fazemos o mesmo. Se tiveres a tentação de dizer alguma coisa, olha primeiro para mim! Não caias outra vez!

Jacinta  -E se ele nos trata  mal?

Francisco – Oferecemos pelos pecadores!

Jacinta – Ficai descansados! Eu não digo mais nada a ninguém! Fala tu, Lúcia! Nós ficaremos caladinhos que nem ratos!

Lúcia – O Sr. Administrador é esperto e já deu a entender porque é que nos trouxe aqui. Ele quer saber tudo, mas nós não vamos dizer nada! Ele vai ficar muito chateado, mas, depois, manda-nos embora. Atenção, que ele vem aí!…

Adm.  – Ora, então, onde é que nós íamos?…Então, ninguém responde? Ah, já me lembro, íamos no inferno. Volto a perguntar: Já o vistes? Que dizes, Lúcia?

Lúcia – (Silêncio)

Adm. –  E tu, Francisco ?

Francisco – (Silêncio)

Adm. –  E tu, minha pequerrucha, acreditas no inferno?

Jacinta – (Silêncio)

Adm. – Parece-me que um gato vos comeu as línguas ou alguém vos ensaiou para esta entrevista. Bem, vamos saber outras coisas! Afinal, essa Senhora veio lá de tão longe só para vos ver ou também era muda como vós? Dizei-me: O que é que ela disse que interesse a toda a gente? E a propósito, não vos deu nenhum recado para mim? Se calhar, esqueceu-se!

Lúcia – Não, Sr! Só deu o recado a nós!

Adm. – Era eu quem tinha o direito de A receber em primeiro lugar, porque eu é que sou a Autoridade  máxima desta terra. Já não há respeito pela autoridade! Nem sequer lá no Céu!

Lúcia – Mas o senhor quer mesmo saber o que Ela disse e que lhe interessa saber?

Adm. – Ainda me perguntas! Já gastei o saca-rolhas a tentar sacar-vos esse segredo! Eu estou a morrer à fome e ainda me perguntas se quero comer?!

Lúcia  – Ela disse que era preciso fazer penitência, converter-se, arrepender-se, deixar de pecar, fazer sacrifícios pelos pecadores e  rezar o Terço todos os dias. Também disse que a guerra ia acabar e que os soldados voltariam em breve para casa.

Adm. – Ora, aí estão duas boas notícias! Mas isso precisa de ser um segredo? Não acredito que seja! Mas como é que ela sabe isso? Ouvi dizer que vos contou uns segredos! Então, venham eles! Começamos pela Jacinta. Diz lá, menina, o que foi que a Senhora disse assim tão importante que não possa ser dito a todos? A Senhora não vos disse que era preciso respeitar a autoridade desta terra, que sou eu?… Trata-se, acaso,.de outra guerra? Vai haver uma revolta monárquica para trazer o rei de novo?… Tudo isso são manobras da Reacção monárquica e dos padres!

Lúcia – Posso fazer uma pergunta?

Adm. – Diz lá!

Lúcia – Quem é a Reacção? Nós não conhecemos ninguém com esse nome!

Adm – Pois claro que não! Foi uma tirada estúpida da minha parte! Esquecei! Mas voltemos aos segredos! Os segredos só dizem respeito a vós?… Olha lá, Jacinta! Vês ali aquela mesa com brinquedos e outras coisas bonitas? Escolhe dali o que quiseres, se me disseres os segredos!..

Jacinta – (Silêncio e olhos no chão)

Adm. – .Não dizes nada? Bem, vamos ao Francisco! Nós somos homens e entendemo-nos melhor. Estas coisas de segredos,… nós sabemos como é: prometemos guardar segredos, mas, depois, os segredos tornam-se pesados e depressa os despachamos. Espero que a tua língua não esteja ferrugenta como a da Jacinta, que está para ali amuada e com a língua atada. Também ali há coisas de que gostas. Escolhe o que quiseres, por exemplo, aquela bola, aqueles berlindes, aquele pião e  aquele pífaro novo…, mas diz-me os segredos!…

Francisco – (Silêncio e olhos no chão)

Adm. – Não dizes? (Irritado) Mas fostes vós que inventastes os segredos e agora tendes medo de falar? Eu não vos faço mal! Podeis falar à vontade, que eu não direi nada a ninguém! Até podeis dizer que é mentira, que não há segredo nenhum, que inventastes isso para vos divertirdes e meter medo às pessoas!…Também não falas? Combinaste com a tua irmã? Também um gato te comeu a língua!?…Bem, estou a ver que convosco não me safo! Vamos à Lúcia, que já sabe melhor quais são os deveres para com a Autoridade. Diz-me, porque é que eles não falam? Têm medo de ser castigados pelo sr. Prior ou pelos pais? Custa alguma coisa desembuchar algo que todos deveríamos saber? Até porque, se se trata de algum perigo, devíamos saber, para estarmos preparados.

Lúcia – O sr. Administrador tem razão quando diz que todos devíamos saber certas coisas! Então, eu digo algumas coisas que ela disse e que todos devemos saber.  O sr. Administrador quer mesmo saber quais foram essas coisas?

Adm. – Ó rapariga, já estou farto de gastar latim para vos convencer a falar e ainda me perguntas se quero saber? Desembucha de uma vez por todas!

Lúcia – A Senhora disse, além do que já lhe disse, que curaria uns doentes, mas outros não curaria; disse que, no fim de cada mistério do Terço,  rezássemos assim: “Ó meu Jesus, perdoai-nos e livrai-nos do fogo do Inferno! Levai as almas para o Céu, principalmente as que mais precisarem”!

Adm. – O Céu…o inferno…fazer curas milagrosas… curar doentes!…Ó menino e meninas,…são esses os segredos que estavam assim tão bem guardados? Que raio de segredos são esses? Isso já a minha avó sabia!

Lúcia – Mas, sr. Administrador, eu não disse que isso eram os segredos! Isto é o que a Senhora disse para todos e também para si! Quer aprender a rezar o Terço connosco? Nós ensinamos-lhe e também lhe ensinamos a fazer sacrifícios pelos pecadores. Não quer também ir à Cova da Iria num dia 13? Ela pediu que fôssemos seis meses seguidos à Cova da Iria e depois faria um milagre para todos acreditarem que é verdade que Ela nos aparece!

Adm. – Pois! Pois! Sacrifícios, sacrifícios! Isso já eu faço convosco! O terço também já o rezo desde que aqui estou convosco e mistérios também já aqui há que chegue para vários terços. Quanto ao Céu, ao Inferno, às curas milagrosas, à conversão de pecadores…isso não são contas do meu rosário e são tretas dos padres!

Lúcia – Mas a Senhora também se referiu a si!

Adm. –  Ah sim? Finalmente, temos aí alguma coisa que se aproveita! Que disse Ela, então, a meu respeito?

Lúcia – Ela disse que vão muitos pecadores para o inferno. Ora, como o sr. Administrador não crê em Deus, não vai à Missa, não se confessa, não reza o Terço,… fala mal da Religião e dos Padres,…então, é um grande pecador que também vai para o inferno!

Adm. – UI!Ui!Ui! Calma aí! Calma aí! Se o inferno não existe, como é que eu vou para um lugar que não existe?

Lúcia – E como é que o sr Adm. prova que não há inferno?

Adm – Ó miúda, estás-me a queimar os miolos! Vamos cá a descer à terra!

 Mas tu, que és a mais velha,…foste tu que inventaste essas coisas e intrujaste os teus primos, ainda muito novos para saberem resistir a essas patranhas que te ocupam a cabeça? Será que tu não sonhaste e agora remetes-te ao silêncio para não dizeres que mentiste? E, pelo que sei, tens mentido a toda a gente, até aos teus pais e ao Sr. Prior. A tua mãe não te ensinou que é pecado mentir? Afinal, sois uma corja de mentirosos, mas tu és a mais mentirosa e eu estou convencido que tu és a responsável por todas estas patranhas que se passam e contam lá por Fátima. Não queres acabar com isso tudo, dizeres aqui que mentiste e dizer também que inventaste os segredos numa brincadeira? E já agora, esses segredos dizem respeito a vós, a mim, à Igreja Católica,  ao futuro de Portugal, ao mundo, à República, à Maçonaria, à Monarquia, à Religião, a algum Partido político, a alguma guerra, a alguma catástrofe mundial?

Lúcia –( Silêncio e olhos no chão)

Adm. – Já vejo que também recusas revelar esses segredos…que eu acredito não serem segredos nenhuns. Mas, sejam segredos ou não, tens de me dizer… ou então mando-vos prender! Ficais na prisão e só saireis de lá quando falardes! E mais: ninguém virá visitar-vos! E isto é só para começar! Depois, logo veremos! Tendes a noite toda para pensar. Se amanhã não me disserdes os segredos, mando-vos fritar num caldeirão de azeite a ferver. Soldado, leva-os para a prisão!

A cena termina com as crianças saindo do gabinete, conduzidas pelo soldado da GNR.

No dia seguinte –  No gabinete do Administrador

A Jacinta é conduzida à presença do Administrador, para novo interrogatório, baseado nas mesmas perguntas do dia anterior. A Jacinta repete, a todas as perguntas, a mesma atitude de silêncio e olhos no chão, para desespero do Administrador, que vai ficando cada vez mais irritado:

Adm. Ora, então, bom dia a todos. Espero que tenhais dormido bem!

Lúcia, Francisco e Jacinta – Bom dia!

Adm- Ora, espero que tenhais dormido bem e que, com a cabeça fresca e a língua pronta, me digais finalmente o que eu quero saber. É que eu, como ontem vos disse, vou lançar-vos num caldeirão de azeite a ferver, se não me disserdes o segredo ou os segredos. Então, vamos a isso! Qual de vós me diz já esses malditos segredos?…….Ninguém?…Todos com a língua atada e os olhos no chão?…É assim que me respeitais? Bem, vamos a um de cada vez! Fica aqui só a Jacinta!

O Adm. toca uma campainha e entra um GNR

Adm- Soldado, leva a Lúcia e o Francisco para um quarto e fecha-os à chave!. Entretanto, prepara o caldeirão com azeite, para o caso de eles não falarem!

GNR – Sim, sr. Adm.! (Sai)

Adm.- Então, Jacinta!? O que tens a dizer-me?

Jacinta –( Silêncio e olhos no chão).

 Adm. – Continuas na tua teimosia de não obedeceres à minha autoridade? Será que gostas mesmo de ser fritada no caldeirão do azeite ou esperas que a vossa Senhora vos livre? Não tens medo de morrer frita como um torresmo?

Jacinta – Não, senhor, não tenho medo e não digo o segredo.

Adm. – É a tua última palavra?

Jacinta – É!

O Administrador toca a campainha e aparece o GNR

Adm. –  Soldado, o caldeirão de azeite a ferver já está pronto?

Soldado – Sim, sr. Administrador, já está pronto.

Adm. – Então, leva esta e traz-me o Francisco?

O Administrador passeia de um lado para o outro, parando, de vez em quando, para pensar em voz alta. Entretanto, bebe um copo de água, acende um cigarro e fuma-o nervosamente:

Adm. – Que coisa estranha! Em circunstâncias normais, a menina teria desatado a chorar e contado o segredo. Em vez disso, rezava e saiu calmamente para o suplício, sem gritos, sem lamentações, sem choro… Qual era a criança que resistia a esta prova? Há aqui coisas que não compreendo.(Batem à porta) Vejamos como se comportam os outros. Ah! Lá vem o Francisco!

Soldado – Aqui está o Francisco!

Adm – Senta-te, rapaz! Então, espero que soltes a língua, desta vez! A tua irmã não quis soltar a dela, mas agora…acabou-se! Já foi para o caldeirão de azeite a ferver e tu também vais, se não me contares esses segredos.

Francisco limpa as lágrimas pela irmã, mas não abre  a boca nem olha para o Administrador, ficando este perplexo ante a coragem do Francisco, que, finalmente:

Francisco – Se me matarem, vou para o Céu mais cedo, para o pé de Nosso Senhor, Nossa Senhora e da minha irmã e ofereço a minha morte pelos pecadores e para consolar Jesus, que está muito ofendido por causa dos pecados das pessoas.

Adm.- Mas que conversa! Pecadores para a direita, pecadores para a esquerda! Cá está sempre a ladainha dos padres a encher as cabeças destas crianças! Quem te ensinou isso, o sr. Prior ou os teus pais?

Francisco – Foi Nossa Senhora.

Adm. – Pronto, lá vai tudo dar ao mesmo! Vou mandar-te para o Céu, mas, primeiro, mando-te para o caldeirão de azeite a ferver, onde vais a ser frito, como a Jacinta. Pela última vez: Dizes ou não dizes o segredo?…

Francisco – ( Silêncio)

Adm.- Soldado, leva também este e traz-me a outra! Não faço nada com esta garotada que se diverte a inventar coisas estúpidas. Burro sou eu que ando para aqui a tentar o impossível para acalmar os medos de Lisboa! Porque não vêm cá eles e os levam para Lisboa? Pode ser que eles lá consigam o que eu não consigo!

Francisco abandona o gabinete, sem medo, também calmamente, com o seu terço entre os dedos, acompanhado pelo GNR. Segue-se mais um monólogo do sr. Adm., cada vez mais intrigado pelas intrigantes atitudes daquelas crianças.

Adm. – Última tentativa!… Sou uma autoridade neste concelho e a minha influência chega até aos seus confins, mas neste assunto, nem no meu gabinete sou capaz de a exercer e nem sequer com crianças, que fazem de mim um verdadeiro palhaço. Valha-me que elas me levam a sério, de contrário ainda se riam nas minhas barbas, para minha vergonha. Estou a ver que o meu plano se esboroa e que  redunda em nada. Tanta estratégia para conseguir o rapto, tantas noites a magicar na melhor maneira… tantos receios, tantos cuidados, tantas promessas, tantas ameaças, tanto fingimento…e para nada! (Batem à porta) Entre!…Ora cá está a Lúcia, a minha última esperança! Vais, finalmente, estender aqui esses segredos, de contrário, acontece-te como aos teus primos, que se recusaram a falar, mas que já se arrependeram. A estas horas já estão ambos fritos e não lhes aproveitou nada o silêncio, pagando caro a desobediência à minha autoridade de Administrador. Mas tu não vais ser casmurra como eles, porque compreendes melhor o que é respeitar a autoridade. Vá! Desembucha lá o segredo!

Lúcia – (Silêncio e olhos no chão).

Adm. – Com mil diabos! Continuas a não querer falar! Mas que beleza tem o chão deste gabinete para estardes sempre de cabeça baixa a olhar para ele? Diz-me lá quanto queres e eu compro-te esses segredos! Os teus pais ficarão contentes se apareceres lá com dinheiro ganho por ti! Até te vão agradecer, porque eles também gostariam de conhecer esses segredos, se é que não foram eles a meter-vos isso na cabeça! Que filhos sois vós, que não tendes confiança nos vossos pais?…(Silêncio) Bem, não queres mesmo falar? Então também vais a fritar no caldeirão de azeite a ferver. Só já faltas tu. Soldado, leve também esta!

Triste, mas conformada, lá vai Lúcia, conduzida pelo GNR para uma sala onde estão Francisco e Jacinta a rezar por ela. Não é difícil imaginar a alegria, os abraços, os saltos, as acções de graças a Nossa Senhora. Pouco depois, surge o Administrador a dar a notícia:

Adm. –  Ides partir para a vossa terra e para os vossos pais, mas antes ides comer alguma coisa!

A cena termina com a simpática esposa do Administrador a trazer leite, bolos e a fazer-lhes companhia.

Obsv. O segredo dividia-se em três partes:  A visão do inferno;  a Devoção ao Imaculado Coração de Maria e  conversão da Rússia;  a perseguição à Igreja, com o consequente número astronómico de mártires ao longo do século XX, vítimas do Nazismo e  do Comunismo.

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Ezequiel Miguel

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