O Sinédrio e a Ressurreição de Cristo

(Realidade & ficção)

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templo jerusalem“Jesus disse-lhes (às mulheres): Não temais! Ide anunciar aos meus irmãos que partam para a Galileia. Lá me verão.

Enquanto elas iam a caminho, alguns dos guardas foram à cidade participar aos sumos sacerdotes tudo o que tinha acontecido. Eles reuniram-se com os anciãos; e, depois de terem deliberado, deram muito dinheiro aos soldados, recomendando-lhes: “ Dizei isto: “De noite, enquanto dormíamos, os seus discípulos vieram e roubaram-no”. E, se o caso chegar aos ouvidos do  governador, nós o convenceremos e faremos com que vos deixe tranquilos”. Recebendo o dinheiro, eles fizeram como lhes tinha sido ensinado. E esta mentira divulgou-se entre os judeus até ao dia de hoje”( Mt 28, 10-15).

Personagens:  Anás, Caifás, Gamaliel, Sadoc, Doras, Shammai, Alexandre, Jónatas, Elquias

O Sinédrio era um conselho de 72 personagens que geria os assuntos religiosos dos Judeus e também tinha poderes militares e judiciais. Incluía fariseus, saduceus, sacerdotes, anciãos e pessoas ricas e/ou influentes na sociedade daquele tempo. O tráfico de influências e a corrupção, no sentido em que nós hoje os entendemos, não eram excepções.

 A notícia correu rápida. O corpo de Jesus desaparecera do sepulcro, apesar de guardado noite e dia por soldados judeus.. Era o terceiro dia após a sua execução no Calvário, um acontecimento que abalou tudo e todos,  em Jerusalém,  a que ninguém ficara indiferente, embora por motivos diferentes. A faísca incendiária partiu de Maria Madalena, que se deslocara cedo ao sepulcro, certamente movida em seu interior pelo próprio Deus, para ser a 2ª testemunha da Ressurreição, pois a primeira fora a Mãe de Jesus, em cuja alma nunca penetrara a dúvida sobre a Ressurreição do Filho, embora não tivesse ficado imune à tentação contra a Fé, pois, tal como o Filho, também ela se sentiu abandonada pelo Pai naqueles  dias de trevas espirituais.

Também, como era inevitável, a notícia chegou rapidamente àqueles que teceram os acontecimentos daquela sexta feira passada, véspera da solenidade da Páscoa Judaica, mas os soldados  judeus também não tardaram  a contar tudo o que se  passara naquela madrugada, em que um meteoro, investindo  contra a entrada do túmulo de Cristo, provocou um estrondo tal que os soldados não deram por mais nada, estando ainda desmaiados quando Maria Madalena se deslocou ao túmulo e o encontrou vazio e em perfeita ordem. É lícito supor que os soldados, uma vez capazes de abandonar aquele espaço, foram directos a contar o que se passara.

 Finalmente, pensavam as autoridades do Templo  ter acabado de vez com o pesadelo de apanhar, julgar, condenar e executar Aquele que se apresentava como o Messias de Israel e pregava uma doutrina nova, mas que, para eles não passava de um impostor, um agitador e outras coisas. Embora perseguidos por fantasmas, todos os membros do Sinédrio que tinham votado a favor da condenação de Cristo à morte estavam convencidos de que poderiam descansar e continuar a viver as suas vidas de “santos de Israel”, apesar de Jesus os ter desmascarado com os epítetos que constam ainda hoje dos evangelhos: hipócritas, sepulcros caiados, assassinos de profetas, profanadores do Templo, violadores da Lei, arrogantes e blasfemos, que tinham tornado a Lei impossível de se cumprir, pelos muitos e desnecessários acrescentos saídos de suas cabeças. Tudo isto estava ainda fresco na memória deles, facto que lá continuaria até ao fim de suas vidas.

A notícia caiu bombasticamente sobre eles. Que fazer agora? O sumo sacerdote Caifás convocou apressadamente os mesmos da reunião anterior, deixando de fora José de Arimateia, Nicodemos, Eleazar, Menaem, Cusa,… por suspeitas de eles serem discípulos  ou simpatizantes de Jesus. Particularmente intrigado, mas por outros motivos, estava  o sacerdote Gamaliel, que vira concretizado o sinal que pedira a Yahweh sobre o Messias. E a reunião fez-se ainda no dia da Ressurreição, o primeiro dia da semana,  o Domingo.

Caifás – Veneráveis e santos membros deste Conselho, já deveis saber a causa desta convocação urgente do santo Sinédrio. É que o corpo daquele impostor e agitador desapareceu do túmulo. Eu e o meu sogro Anás já lá fomos ver. O sepulcro está vazio e a grande pedra que tapava  a sua entrada foi removida. Como isso aconteceu, nós não sabemos ainda explicar.

Anás – Nós suspeitamos que os discípulos dele foram lá de noite e roubaram o corpo. E quem sabe se não foi mesmo o José de Arimateia, o Nicodemos , o Eleazar, o Cusa, o Menaem,… ou os cinco juntos! Eu julgo-os capazes disso, tanto mais que o sepulcro pertence ao José!

Gamaliel – Más como foi isso possível, se o sepulcro estava guardado noite e dia pelos nossos soldados, a quem não se perdoa nenhum desleixo no cumprimento de missões militares?

 Doras  –  Isso é perfeitamente  possível! Podiam eles estar a dormir ou  terem bebido vinho demais e estarem a curtir a bebedeira com um sono pesado. Então, os seus discípulos poderiam ter aproveitado a situação para roubar o corpo sem ninguém dar por isso. E agora, para esconder o roubo, eles propalam que ele ressuscitou. Isto é o que eu penso!

Gamaliel – Achais isso possível?  Se os Seus discípulos fugiram todos com medo e continuam escondidos, quem teria coragem para aparecer lá em cima, sabendo que o túmulo estava guardado pelos nossos soldados?  Isso seria a vergonha deles e nossa!  Não vos lembrais que Ele garantira que ressuscitaria ao terceiro dia? Não vos lembrais que Ele disse que se destruísseis o Templo, Ele o reconstruiria em três dias? Ora, eu agora vejo qual era esse Templo a que Ele se referia: era o Seu próprio corpo, Templo de Deus, porque Ele é Deus, o Filho de Deus!

Caifás – Tu estás a delirar, ó Gamaliel! Se fosse assim, porque é que ele não foi mais claro? Se ele disse isso  aqui no Templo, devia ter explicado que não se tratava  deste templo de pedra, mas que se referia ao seu próprio corpo.

Gamaliel – Mas vós também deveríeis saber  que Ele profetizou a ruína deste grandioso Templo de pedra, a honra e a glória da nossa nação, dizendo que, quando chegasse o dia, não ficaria dele pedra sobre pedra. Portanto, Ele falou de dois templos: este e o Seu próprio corpo. Vós destruístes o Seu corpo, mas Ele irá destruir este Templo em que nos encontramos. Consta-me que Ele anunciou isso poucos dias antes de ser preso. Só não disse quando seria. E também disse que Deus iria  abandonar este Templo de pedra, por causa das muitas profanações  e baixezas que nele se cometem, e porque, segundo Ele disse, Ele viera para aperfeiçoar a Lei e os Profetas, inaugurando uma nova era no relacionamento com Yahweh.

 Na minha opinião, o rasgão do enorme cortinado do  “Santo dos Santos” significa mesmo que Yahweh já o abandonou, irritado, num gesto semelhante àquele em que tu, ó Caifás, rasgaste as tuas vestes quando o acusaste de blasfemar, por ele dizer que era o Filho de Deus. Tu rasgaste as vestes contra Yahweh, mas Yahweh também rasgou as Suas contra vós todos, querendo com isso dizer que a Aliança entre Ele e Israel caducou, por culpa vossa! A  partir de agora, Yahweh já cá não tem a Sua Morada Santa. Todo este Templo passou a ser um local profano. Agora, eu penso que uma nova era já começou ou vai começar. Assim, no meu entender, aquilo que vós julgáveis ser o fim de um pesadelo acabará por ser o princípio de algo novo, sublime, que suplantará tudo aquilo que possais imaginar. O que é obra de Deus ninguém o pode destruir. Foi isso que eu vos disse antes de O condenardes à morte! Mas vós não me ouvistes!

Anás – Será que tu estás em teu perfeito juízo ? Dormiste mal? Tiveste algum sonho agitado? Estarás bêbado? O estado de embriaguez faz delirar e ter ideias esquisitas! Ou será que passas a ser seu discípulo? Vê lá! Isso pode dar-nos razões para te expulsarmos do Sinédrio e …algo mais!

Caifás – Bem, deixemo-nos de disputas! Nós precisamos de encontrar ideias, soluções  e planos para este novo problema, que pensámos nunca vir a surgir, mas temos de enfrentar a realidade. Alguém tem alguma sugestão,  ideia ou plano sobre o que fazer?

Shammai – Eu tenho uma  sugestão, uma ideia e um plano! Temos de convocar os  soldados  que constituíam o piquete que guardava o túmulo  desse impostor! Se eles puserem obstáculos, quanto a contarem-nos uma  verdade que colida com os nossos interesses, recorremos ao tesouro do Templo para os convencermos. Já fizemos isso, pagando aos habitantes do bairro de Ofel para gritarem pela sua morte em frente de Pilatos.  Não há nada que não se consiga com dinheiro vivo. Eles espalharão a nossa verdade e assim se destruirá qualquer atoarda espalhada pelos seus discípulos. Se, mesmo assim,  eles recusarem a nossa oferta, ameaçá-los-emos com a acusação de falta grave no cumprimento dos seus deveres, o que se traduziria em julgamento , punição ou sentença de morte. Eles, aí, vão ter medo e contarão a nossa verdade. Além disso, seremos nós a julgá-los!

Caifás – Parece um bom plano, ó Shammai, digno da tua inteligente cabeça!  Alguém tem algo a dizer a este respeito?

Gamaliel – Antes que estas medidas sejam discutidas e aprovadas, peço licença para dizer ainda algo que preciso dizer, para que ajamos com prudência e sabedoria. Faço um apelo à memória daqueles de nós que estávamos presentes no exame de maturidade de um Jovem de 12 anos que, há cerca de vinte anos, passou pelo Templo. Deveis lembrar-vos que Ele nos espantou por Sua sabedoria e que nenhum de nós foi capaz de explicar de onde Lhe vinha. Nem sequer o nosso santo  e sábio mestre Hillel! Se bem vos lembrais, Ele mostrou saber, já  com aquela idade,  coisas que nós, após tantos anos de estudo, não conseguíamos saber, sendo inclusivamente capaz de recitar de cor grandes passagens da Torá, fosse de que  rolo fosse. Então, sobre Isaías… um espanto !  Sabia tudo o que ele diz sobre o Messias. Isto não vos diz nada? Eu fiquei perplexo, pensativo,…sobre se não seria Ele mesmo o Messias, pois Ele disse nessa ocasião que o Messias já estava entre nós, porque o tempo da profecia de Daniel a Seu respeito já se tinha cumprido.

Passados 20 anos, aparece por aqui já como adulto e a fazer o que todos nós sabemos e nós a fazer o que também nós todos sabemos. Quando Ele, há três anos, apareceu por aqui, eu reconheci Nele aquele menino de 12 anos e pedi então a Yahweh um sinal de que Ele seria o Messias verdadeiro e anunciado pelos profetas.

Anás – E que sinal foi esse? Já te foi dado? Quando e como?

Gamaliel – Esse sinal,  por mim pedido, era este: Que um dia, comigo ainda vivo, o véu do Templo se rasgasse de alto abaixo sem intervenção de mãos humanas. Sabemos todos que este sinal se cumpriu na hora da sua morte…  Como explicais que o varão que suportava aquele enorme e pesado cortinado tenha ficado em sua posição, sem sofrer danos, e o cortinado  de púrpura se tenha inexplicavelmente rasgado de alto a baixo e  assim continue? A partir de então, as coisas, para mim, mudaram, e oxalá levem mais alguém a mudar… Eu não preciso de mais provas! …Ah! Já me esquecia de um pormenor! Há poucos dias,  o seu discípulo João, trouxe-me um recado!

Anás – Qual foi esse recado?

 Gamaliel –  Foi assim: “ O Mestre manda dizer que dentro de poucos dias terás o sinal que pediste”! Ora, como é que ele sabia que eu tinha pedido aquele sinal, se eu nunca o revelara a ninguém? Agora, sou eu que aguardo a vossa explicação!…E calo-me para vos ouvir!

Sadoc – (Quebrando um longo, perturbante, silêncio e olhares cruzados em todas as direcções) Tudo isso são meras coincidências e, se não forem, são coisas só explicáveis  por meio de Belzebú, de quem ele era um aliado. Até os doentes que ele curava e os mortos que ressuscitava era pelo poder de Belzebú.

Gamaliel – E Elias, que ressuscitou o filho da viúva de Sarepta, também actuava  por obra de Belzebú? Ora, Elias rezou pedindo a Yahweh que ressuscitasse o menino, o que aconteceu. Ora, hoje sei, ou sabemos, que há poucos dias ele ressuscitou Lázaro por sua própria autoridade, dizendo:” Lázaro, eu te ordeno, sai cá para fora!” E os demónios que ele expulsava? Também era por meio de Belzebú, como vós dizíeis? Que eu saiba, os demónios não se expulsam uns aos outros nem dão poder a ninguém para ser usado contra eles! Onde há sabedoria não há opiniões destas!  Além de Lázaro e do filho da viúva de Sarepta, também ressuscitou o filho da viúva de Naím e ainda a filha de Jairo, o sinagogo de Cafarnaúm. Vós achais que Belzebú tem poder para ressuscitar mortos ?

Jónatas – Eu penso que não!

Alexandre – Eu também penso que não!

Gamaliel – Alguém pensa que sim?…..( Silêncio)……Então, ninguém diz nada? Esse silêncio significa que todos pensais que ele não tem esse poder. Agora, respondei-me: Se Belzebú não tem esse poder, como é que ele o vai dar a alguém para que o use contra si?

 Ainda quanto ao plano apresentado por Shammai, tenho duas perguntas a fazer! Quando fordes conversar com os nossos soldados que fizeram o 1º piquete de guarda ao túmulo: 1ª – Quem ficou com as vestes daquele condenado? 2ª – Quem ficou com a túnica?

Aos soldados do último piquete, isto é, os que estiveram lá durante a noite passada, perguntai como explicam eles que o túmulo tenha aparecido aberto, estando eles de vigia? Pelas informações que tenho, Ele ressuscitou após aquele tremor de terra que sentimos esta madrugada, completando assim o ciclo da morte e da ressurreição: terramotos e trevas na morte, terramotos e luz na ressurreição. Quereis mais sinais?

Caifás – Penso que atribuis demasiada importância a esses factos. São puras coincidências!

Gamaliel – Sabeis tão bem como eu o que as Escrituras dizem a respeito do Messias. Peço-vos licença para vos recitar algumas passagens de um salmo (21/22) da Escritura. Vereis como tudo se aplica a Ele. Se me disserdes que são coincidências, digo-vos que são coincidências a mais para serem apenas coincidências. Leio-vos: “…todos os meus ossos se desconjuntaram,…a minha garganta secou-se como barro cozido e a minha língua pegou-se me ao céu da boca; reduziste-me ao pó da sepultura,….trespassaram as minhas mãos e os meus pés; posso contar todos os meus ossos,…olham para mim cheios de espanto. Repartem entre si as minhas vestes e sorteiam a minha túnica”. Ide confirmar, com recta intenção,  se foi assim ou não… e tirai as conclusões!

Anás – Tem paciência, ó Gamaliel! Estás um pouco excitado e nervoso, e, se te deixamos falar, ainda acabas por nos converter a todos e saímos daqui feitos seus discípulos. Por isso, proponho que te seja retirada a palavra até à votação final!

Gamaliel – Então, aqui vai a minha última palavra! Falastes há pouco  na minha possível expulsão do Sinédrio. Vou facilitar-vos a vida, expulsando-me a mim próprio. Abandono de vez este Sinédrio, que insiste em se manter cego contra toda a evidência. As minhas dúvidas acabaram e quem tiver as suas, sirva-se da humildade,  do seu conhecimento das Escrituras, compare-as com a vida, a  morte e ressurreição deste Messias, fale com os Seus discípulos e descobrirá  a Verdade. Quanto ao resto, se  eu pedi um sinal e Yahweh mo concedeu, tenho de ser coerente e honesto! Por isso, o meu lugar já não é aqui e as minhas funções de sacerdote da Velha Aliança  caducaram, pois um novo Sacerdócio  irá surgir numa Nova Aliança. Vou juntar-me a Nicodemos, a José de Arimateia , a Menaem,  a Eleazar,  a Cusa, membros ilustres e rectos deste Sinédrio, que vós deixastes de convocar para que as votações decorram segundo os vossos interesses. Assim, esta será a minha última presença entre vós.

Caifás – Tem calma! Nós respeitamos-te como o maior mestre e doutor da Lei em Israel. Não te precipites, deixa correr algum tempo até ver em que pára tudo isto. Mas nós  temos de agir depressa e bem, para que esta embrulhada não venha a ser pior que a primeira, por isso, proponho que seja  posto  à votação o plano sugerido por Shammai!

Gamaliel – Eu quero estar presente nas entrevistas  com os soldados que guardavam o sepulcro! Eu próprio os quero interrogar na vossa presença!

Caifás – Lamento, mas eu, como sumo sacerdote e autoridade máxima deste santo Sinédrio, é que escolho a delegação que se encarregará desta tarefa! Por isso, aconselho-te a ficar de fora deste assunto! Depois, serás informado, tal como os outros! E pronto! Dou por fim este conselho do santo Sinédrio. Nós, isto é, eu e Anás, tomaremos as necessárias previdências para que se cumpra o que aqui foi aprovado. Pode cada um ir à sua vida! Quando houver dados a transmitir, nós o faremos.

A votação fez-se e o plano de Shammai  foi aprovado,  com o voto contra de Gamaliel,  que  logo ali se despediu de vez do Sinédrio, acabando por se entregar à causa de Cristo, apesar de ser já idoso e ter problemas de visão. Mas, como trabalhador da última hora, teve o mesmo prémio dos da primeira .

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 Ezequiel Miguel

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Também vós quereis ir embora? (Cf. Jo 6 )

(Realidade & ficção)

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Personagens:

. Jesus Cristo

. Apóstolos : Pedro, Tiago, João, Tomé, Mateus, Judas Iscariotes

. Judeus

. Discípulos

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A cena passa-se no Templo de Jerusalém, onde Jesus aparecia de vez em quando para divulgar mensagens importantes e onde nunca faltava um numeroso auditório, pois o Templo era ponto de encontro de multidões.

O que Cristo tinha para dizer desta vez era (e ainda é) algo humanamente inconcebível, a requerer uma aparente loucura de Quem discursava e outra por parte de quem ouvia. Tratava-se do discurso que está relatado em João 6, que aconselho a ler, antes de prosseguir.

Cristo – ….E é assim, como vos digo. Os vossos pais comeram o maná  do deserto, que o Pai lhes enviou, mas esse era um alimento para o corpo, que não evitou que eles morressem. Mas vai chegar o tempo em que o Pai vos dará a comer um alimento que vos dará a Vida Eterna. Esse alimento será a Minha Carne, que acompanhareis com uma bebida, igualmente de Vida Eterna, que será o Meu Sangue. A Minha Carne e o Meu Sangue é que serão o verdadeiro Pão do Céu e quem Me  comer não morrerá, porque Eu sou verdadeira Comida e verdadeira Bebida…

1º Judeu – Eh! Mas o que é que estás para aí a dizer? Será que  bebeste demais?

2º Judeu – Eu penso que há mais alguma coisa além de  estares bêbado! Eu nunca ouvi um bêbado dizer disparates destes. Não estarás  louco?

Cristo – Em certo sentido sou  mesmo louco, tal como o Meu Pai é igualmente louco. Ele e Eu somos loucos de  Amor pelos homens e por eles nós fazemos o possível e o impossível! O Meu Pai e vosso Pai do Céu criou as almas dos homens no momento da concepção dos seus corpos. Estes morrerão, mas as vossas almas nunca morrerão, nem neste mundo nem no outro, quer se salvem, quer se condenem.  Vós alimentais os vossos corpos com o  alimento material que o Pai vos dá, mas Ele também vos quer dar um alimento para as vossas almas, um alimento de Vida eterna junto do Pai, porque Ele, que as criou, quere-as de volta para Si, na eterna felicidade.

3º Judeu –  Queres tu dizer, então, que quem não comer desse alimento para a alma não se salvará? Não há aí um grosseiro exagero? E onde é que haverá desse alimento que chegue para todos os homens comerem, isto é, para aqueles que querem salvar-se?

Cristo – O  nosso Pai ofereceu o maná no deserto durante 40 anos para alimento do corpo, mas o Maná do Céu será inesgotável e à disposição de todos os homens até ao fim dos séculos. Quem comer deste Maná celeste, que Eu vos darei, nunca mais terá fome nem sede.

4º Judeu – Estás a brincar connosco ou fazes de nós todos uns estúpidos que vão acreditar em todas essas balelas? Desde que o mundo é mundo, nunca ninguém falou assim, nem sequer um louco dos mais loucos!

5º Judeu – Mas afinal quem és tu? És um mago, um prestidigitador, um malabarista de ideias, um aliado de Satanás que te ensina truques para ficares famoso? És algum profeta?

Cristo – Se Eu expulso dos vossos possessos todos os demónios, como posso ser Eu um aliado de Satanás? Aliás, tem Satanás interesse em ser expulso? Satanás e Eu estamos sempre em lados opostos; Eu, do lado do Bem dos corpos e das almas, ele, do lado do Mal e contra as almas e os corpos. Quem sou Eu? Sou o Messias que vós esperais há tantos séculos, anunciado pelos profetas. Eu Estou acima dos profetas. Nenhum profeta fez por si só as obras que Eu faço e as obras que eu faço são as obras do Meu e vosso Pai que está nos Céus.

1º Judeu – Já agora, diz-nos quais são essas obras! Nós nunca as vimos!

Cristo – Não chegou aos vossos ouvidos o rumor de ressurreição de mortos, de curas de cegos, coxos, surdos, mudos, paralíticos, expulsão de demónios? Estas são as minhas obras, mas falta ainda a principal, que ainda não foi feita, mas que o será dentro de pouco tempo.

2º Judeu – Quando chegar essa hora, avisa-nos! Queremos ver!

Cristo – Não ireis ver, mas tereis de acreditar, pois chegou o tempo em que a vossa Fé na Lei de Moisés vai ser substituída pela Fé em Mim e no Pai, que Me enviou a vós. A vossa Aliança com Yahweh vai dar lugar a outra, a Nova Aliança, com uma Nova e Única Vítima, um Novo e Único Cordeiro a ser imolado numa nova Páscoa, numa nova passagem para uma Nova Terra Prometida e para um Novo Povo de Israel. Quem acreditar em Mim verá tudo isso e muito mais. Quem não acreditar será excluído da Vida Eterna e Eu não o ressuscitarei no último Dia.

1º Discípulo – Nós, aqui, que te aceitámos como o nosso Messias, nunca pensámos ouvir da tua boca palavras dessas sobre comer a tua carne e beber o teu sangue …e essas coisas todas que já disseste. Isso é linguagem que nós não entendemos. Queres fazer de nós canibais e vampiros? Como é que te vamos comer e beber?  Cru, assado, frito, cozido, ensosso, salgado , com ou sem osso, ou como?  Não estarás porventura a delirar? E quanto ao teu sangue, nós preferimos um bom vinho! ( Risada geral)

Cristo – Não estou a delirar! Vai ser mesmo como Eu digo, mas num plano invisível para vós. Os vossos olhos não estão preparados para penetrar nos mistérios de Deus. Só Ele, Eu , que sou o Seu Filho, e o Espírito Santo sabemos como vai ser. A vós competirá acreditar e fazer como Eu digo, se quereis alcançar a Vida Eterna.

2º Discípulo –  Dizes tu que és o Filho der Deus, o Messias? Cá para mim , és tanto o Messias como eu sou o Moisés. Estamos fartos de messias que aparecem por aí todos os anos, cada um a dizer os seus disparates, a enganar o povo e a tirar proveito da sua ingenuidade. Não serás tu mais um?

Cristo – Nunca houve outro antes de Mim nem haverá depois de Mim.

3º Discípulo – Mas como queres tu fazer discípulos se pregas doutrinas dessas, insuportáveis, intragáveis, misteriosas, incompreensíveis, não próprias para ouvidos humanos?

Cristo – Moisés também exigiu de vós coisas difíceis, que ainda hoje tendes em vigor. A prova de que eram difíceis e insuportáveis foi que vós as modificastes e inventastes outras para as substituir, criando tradições abusivas que nada têm a ver com a essência da Lei que Eu e o Pai vos demos através de Moisés.

1º Judeu – A sério? Foste tu? Mas tu não és filho de um carpinteiro de Nazaré? Até és conhecido por Nazareno!  Cada vez nos deixas mais baralhados. Onde é que tu estavas quando Moisés deu a Lei a nossos pais?

Cristo – Eu estava junto do Meu e vosso Pai. Onde Eu estou está o Pai e onde o Pai está, estou Eu. Eu e o Pai somos Um.

2º Judeu – (para outro Judeu) Este homem dá connosco em doidos. Não estará ele a divertir-se à nossa custa?

3º Judeu – Ou está ele, ou estamos nós, ou estamos nós e ele! Alguma destas tem de ser verdadeira. Qual? É isso que eu ainda não descobri! Mas repara que não somos capazes de o apanhar em falso nem a gaguejar o que quer dizer. Dali, sai tudo como um jacto de água contínuo, sem hesitações. Para mim, isto é tudo muito estranho.

4º Judeu – Parece-me que também é estranho para os que andam com ele. Eu vi alguns fazer caretas quando ele falou dessa coisa de lhe comermos a carne e lhe bebermos o sangue. Ele deve estar a falar de algo misterioso que nós ainda não atingimos. Repara bem! Os mortos que ele ressuscitou e os doentes que curou, dizendo só: “Eu quero! Faça-se!”… Isto tem que se lhe diga. Somente Yahweh pode falar assim e ele diz que ele e Yahweh são um! Há aqui mistério. Tenho de apanhar um daqueles que andam com ele por todo o lado e tirar isto a limpo. Algo de grande deve estar para acontecer. O quê? Não sei, mas os do Templo já andam a espiá-lo por todo o lado e isto quer dizer alguma coisa!

4º Discípulo – Estás a blasfemar contra a nossa santa Lei!

Cristo – A vossa santa lei vai ser modificada, aperfeiçoada e entregue a um povo que se mostrará orgulhoso do seu Deus. Aquilo que vós recusais será aceite pelos pagãos, a começar por aqueles  que vos rodeiam, os quais vão entrar no Reino de Deus, enquanto vós ficareis  de fora.

5º Discípulo – E isso, só porque não queremos comer a tua carne nem beber o teu sangue? Vamos dar-te o benefício da dúvida. Põe lá em miúdos essa linguagem de te comer e te beber! Estás a falar em sentido figurado, simbólico, com palavras que querem dizer outra coisa que nós desconhecemos ou estás a fazer um teste à nossa capacidade de compreender e aceitar coisas e realidades ocultas? Podes explicar-te melhor? Nós não temos grandes estudos nem somos mestres em Israel!

Cristo – As Minhas Palavras não têm nada de simbólico. São as palavras certas para exprimir o que vos transmito. Elas vão realizar aquilo que significam. Elas significam o que significam: comer é mesmo comer, beber é mesmo beber, carne é mesmo carne e sangue é mesmo sangue, sem nada de simbólico, metafórico, figurado. Elas exprimem a realidade nua e crua! Quem tem ouvidos para ouvir e capacidade para acreditar em Mim, ouça, acredite e viva. Daquilo que vos disse, nem uma vírgula ou um til será tirado. E ai daqueles que tirarem!

6º Discípulo – Isto são palavras intragáveis, disparates redondos, loucuras perfeitas nunca vistas nem ouvidas! Vamos embora! Deixai-o sozinho com os loucos que acreditarem na sua loucura. Vigiem-no para não beber tanto vinho! Eu sou discípulo Dele, mas nunca pensei que tudo iria dar nisto: um embuste, um fiasco, uma farsa, uma salada de coisas improváveis e coisas impossíveis. Vamos embora!

Segue-se uma confusão de gritos, insultos, numa algazarra própria de uma orquestra totalmente desafinada, tudo seguido de uma debandada quase geral. Cristo assiste silencioso à deserção de muitos discípulos e duas  lágrimas furtivas  deslizam pelas Suas  Faces. O Seu semblante pinta-se de  uma indizível e profunda tristeza. Eram lágrimas semelhantes àquelas já outras vezes derramadas por causa de Judas Iscariotes, lágrimas impotentes  de Deus omnipotente. No fim, restou um pequeno número, além dos Apóstolos. Cristo, disfarçando a Sua tristeza, quebrou, com voz mortiça, o silêncio:

Cristo – E vós? Também quereis ir embora?

Pedro – A quem iremos nós, Senhor, se só Tu tens palavras de Vida Eterna?

Cristo – Há alguém aqui ainda hesitante? Eu espero até que se decida!…Ficais todos?  Então, segui-Me! Vamos para outro lado!

Chegados  ao Jardim das Oliveiras, Cristo pôs-se à disposição daqueles que O acompanhavam, para esclarecer qualquer dúvida, como sempre fazia após qualquer ensinamento.

João – Mestre, nós vimos que Tu choravas enquanto eles desertavam. Nós temos muita pena de Ti e as Tuas lágrimas fazem também rolar as nossas. Nós ficámos Contigo e ninguém nem nada nos afastará de Ti e acreditamos nas Tuas Palavras de Vida Eterna, embora ainda não sejamos capazes de compreender certas coisas…

Cristo – Eu choro pelas almas que Me rejeitam agora e por aquelas que Me rejeitarão no futuro. A perda de uma alma é para o vosso Deus uma tragédia, um insulto ao Seu Infinito Amor pelos Homens. Choro por aqueles que não aproveitarão nada da Minha vinda à Terra. O vosso Deus enviou o Seu Filho à Terra, que vai fazer por eles algo inconcebível com vista à Vida Eterna, à Salvação,  e vai dar-se Ele mesmo em alimento às almas. Muitos Me irão rejeitar, fazendo do seu Deus um impostor, um mentiroso, um vendedor da banha da cobra, um fabricante de utopias! Choro por estes e por todos os das gerações futuras que se portarem como eles. Ao recusarem o seu Deus, recusam também a Vida Eterna junto Dele. Para eles, as Minhas lágrimas, o meu sofrimento, o meu sangue…de nada lhes servirão. Da Minha doutrina escolherão para si aquilo que não precisar de fé, abrindo uma via larga que não os conduzirá a Deus, porque o caminho que Eu vos abro é estreito, pedregoso, difícil,  e  somente Comigo sereis capazes de o percorrer.

Tiago –  Mestre, nós acreditamos nas tuas palavras, mas…

Cristo – Eu sei! É isso a Fé: acreditar sem ver as realidades para lá do mundo material, acreditar na Palavra de Deus, que se cumprirá a seu tempo. Já falta pouco para presenciar e viver o cumprimento das palavras que ouvistes há pouco e que causou a deserção de alguns dos que andavam connosco. Ultrapassa tudo o que possais imaginar. Ó amor infinito de Deus pelos homens!…A quanto obrigas!…

Pedro – Mestre, apesar do que dizes, parece-me que Te referiste a muitos, ao longo dos séculos, que não vão acreditar, por não acharem possível uma coisa dessas! Que lhes acontecerá, uma vez que não levarão a sério as Tuas Palavras?

Cristo – Vós vivereis e dareis testemunho daquilo que acabei de revelar-vos e que se vai cumprir em breve. Aqueles que, tomando conhecimento delas,  as levarem a sério e comerem o Meu Corpo e beberem o Meu Sangue com a alma revestida de veste branca,…para esses é que Eu serei penhor de Vida Eterna. Aqueles que as ignorarem sem culpa própria,…para esses haverá tolerância. Aqueles que as rejeitarem, as  negarem, as deturparem,  as torcerem, as modificarem, as esvaziarem, as interpretarem a seu gosto e não quiserem distingui-las das palavras dos homens , … Esses…

Mateus – E esses serão muitos?

Cristo – Serão mesmo muitos e cada vez mais numerosos, à medida que os séculos avançarem. Lembrai-vos da profecia de Daniel (Dn 13, 10-13) sobre a abominação da desolação no Templo do Senhor (a Igreja) e a abolição do Sacrifício Perpétuo, (a Missa ), anulado e substituído, no fim dos Tempos, por uma abominável imitação, sem nenhum valor.

Tomé – E nós, Mestre, vamos  todos receber-te com a veste branca e alcançar a Vida Eterna?

Cristo – Não todos! Entre vós há um cuja alma se veste de negro!

Todos – Serei eu,…eu…eu…?

Judas Iscariotes – Serei eu, porventura?

Cristo – Judas, tu sabes muito bem quem é!…

 .

Ezequiel Miguel

 .

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A Ceia da Despedida

(Mc 14, 17-31 ; Mt 26, 20-35; Lc 22, 14-38 ; Jo 13, 1-38)

(Realidade & Ficção)

.

O Cenáculo estava pronto para a última Ceia, após a azáfama dos Apóstolos para adquirirem tudo o que era necessário, a fim de se cumprir o ritual prescrito pela Lei de Moisés, a propósito da comemoração da Páscoa que, por sua vez, comemorava aquela passagem dos Hebreus da escravidão do Egipto à Liberdade de uma terra prometida. O Livro do Êxodo descreve essa passagem e como foi a última ceia em terras do Egipto.

Chegara para Cristo a hora de se despedir, pois iria, ainda naquela 5ª feira, dar início, no Getsémani, à  Sua Paixão e, como um pai de Família, tomou todas as previdências para que tudo corresse como estava previsto na Lei, da qual, Ele,  o Senhor da Lei, não se quis dispensar. E assim, Ele próprio indicou, a cada um dos doze Apóstolos, o seu lugar em volta da mesa, semi-deitados em cadeiras-cama, como era normal naquele tempo. Estamos habituados a ver a figura de Judas numa das pontas da mesa, feio, mal-humorado e com a bolsa à vista…, mas isso não corresponde à verdade, porque Cristo escolheu para ele o lugar à Sua frente, um lugar estratégico, para poder encará-lo olhos nos olhos, na esperança de que ele viesse ainda a reconsiderar quanto ao plano já estabelecido com os inimigos de Jesus. O passar todo o tempo da Ceia a encarar Judas de frente já era para Cristo um tormento que lhe revoltava as entranhas, que lhe tirava o apetite e Lhe cobria o rosto de uma profunda tristeza, o que os outros apóstolos não deixavam de notar, mas cuja causa eles estavam longe de adivinhar. Mas eles próprios, também, estavam dominados por um ar melancólico, apreensivo…, que se acentuava, à medida que o Mestre ia orientando o decorrer da Ceia e ouviam Dele os últimos recados.

Jesus – Judas, tu ficas aqui à minha frente!

Judas – Mestre, Tu manténs-me sempre perto de Ti? Será que me amas mais do que aos outros?

Jesus – Eu amo-te tanto como aos outros, mas os outros não precisam tanto de ver o Meu Amor como tu, nesta hora…E tu até sabes porquê!… Além disso, o facto de nós estarmos aqui hoje deve-se a ti…, mais do que a nenhum outro…

Judas – Obrigado, Mestre, por me enalteceres aqui à frente de todos. Eu bem preciso disso, porque, às vezes, tenho a impressão de que ninguém, a não ser Tu, gosta de mim, o que eu acho profundamente injusto, porque eu nunca lhes fiz mal nenhum…

Jesus – E tens a certeza de que tu não lhes dás motivos para isso?…

Judas fez uma careta, esboçou um sorriso  sardónico e baixou os olhos. Começa a Ceia. Na mesa está um grande cálice, que Jesus enche de vinho e reza sobre ele. Cada apóstolo tem à sua frente um copo  individual, de pé alto. Segue-se o canto de salmos e a recitação das palavras do Ritual apropriadas. Jesus reza sobre o pão, parte-o e distribui-o, juntamente com as ervas amargas banhadas no molho. Chega depois o cordeiro assado, seguindo-se mais cânticos. Jesus parte o cordeiro, dando a cada apóstolo um bom pedaço, de modo a que ninguém fique com fome. Os apóstolos ouvem-No então proclamar:

Jesus –  Tenho ardentemente desejado comer convosco esta Páscoa. Foi sempre o Meu desejo, desde que aceitei a missão de Redentor do género humano.

Simão – Mestre, a propósito da distribuição dos lugares, como é que poderemos saber quem é o maior de entre nós?

Jesus –  Se alguém quer ser o primeiro, seja o último e o servo de todos. O maior seja como o menor; o chefe será como aquele que serve os outros. Eu sou o que presido à mesa e, no entanto, estou a servir-vos. Ficai comigo nas horas que se aproximam e em outras que vos surgirão pela frente. Com isso é que provareis a vossa grandeza aos olhos do Pai. Quem na dor Me acompanhar e for fiel até ao fim, esse é que terá o prémio. Está próxima a hora de Eu vos poder preparar um lugar junto do Pai, no Meu Reino, onde há moradas para todos os que acreditarem em Mim e Me acompanharem na minha Paixão, da qual deixo uma parte para todos passarem por ela.

Pedro – Mestre, nós seremos fiéis até ao fim ?

Jesus –  Pedro, vais passar por uma prova! Eu rezo por ti para que a tua fé não desfaleça e tu, quando te arrependeres, confirma na Fé os teus irmãos!

Pedro – Senhor, eu sou um pecador, mas serei fiel até à morte! Seguir-Te-ei para todo o lado e estou disposto a morrer contigo!

Jesus – Pedro, estás a ser vítima de um ataque de soberba! Dentro de pouco tempo muita coisa vai mudar. Vamos ser todos abandonados  pelo Pai e pelos Anjos e cada um de nós ficará entregue a si próprio, porque esta hora é a hora dos demónios. Até os Anjos vão sofrer e tapar os olhos para não verem aquilo que vão ver. Bem quereriam ajudar, mas…Aquilo que Eu vos disse sobre a Bondade e Providência do Pai, que Ele cuida de vós e dos passarinhos, que os Seus Anjos vos protegem, que calcareis aos pés escorpiões e serpentes, que não sereis tentados acima das vossas forças, que Ele sabe o que vós precisais…Agora, esquecei tudo isso, porque é a hora em que seremos todos abandonados. Em toda a Terra não haverá Anjos nas horas que se seguem, porque o Pai os mandou recolher ao Céu. É a hora de se cumprirem todas as profecias sobre Mim e uma delas diz :“Ele foi contado entre os malfeitores”. E tu, Pedro, ora e vigia, porque Satanás anda à tua volta rugindo como um leão para te devorar.

Pedro – Mestre, eu morrerei Contigo! Ou, se quiseres, em vez de Ti!

Jesus – Ainda esta noite, antes de o galo cantar, três vezes me negarás!

Pedro – Mestre! Essa é demais! Eu tenho acreditado em Ti, em toda a Tua Palavra, mas nessa…desculpa lá, eu não acredito! Eu nunca Te negarei e todos estes vão ser minhas testemunhas!

Jesus – Oxalá que assim seja, meu Pedro, mas Satanás pediu-Me para te joeirar.

E Pedro calou-se, deixando transparecer no rosto uma repentina angústia de incerteza…Se o Mestre tal dizia… Ele que sabia tudo antes de as coisas acontecerem!…

Simão – (Depois de ter ido a um baú buscar duas espadas) Mestre, o Pedro e eu temos espadas e os outros têm cada um o seu punhal curto. Quando for preciso, nós cá estaremos!

Jesus – Pensais que tereis ocasião para as usar? Mas agora vou ensinar-vos algo que tereis de usar. Acabei de vos servir o alimento corporal, mas agora quero prestar-vos um outro tipo de serviço, um alimento de um ritual novo de uma Aliança Nova, ainda não inaugurado por ninguém. Vamos suspender esta refeição.

E levantando-se da mesa, vai a um baú, despe a sua veste vermelha, cinge-se com uma toalha, enche uma bacia com água e coloca-a perto da mesa, tudo isto em silêncio e sob os olhares intrigados e espantados dos Apóstolos.

Jesus – Será que ninguém tem nada a perguntar-Me?

Pedro – Nós não sabemos o que queres fazer. Nós já nos lavámos antes da refeição!

Jesus – A minha purificação destina-se a quem já está puro, para ficar ainda mais puro.

Jesus ajoelha-se, descalça as sandálias a Judas Iscariotes e lava-lhe os pés, beijando-os em seguida. Um por um, faz o mesmo a todos. Judas não se comoveu, mas os outros…uns sentiram vergonha, outros comoveram-se e choraram.  Como era possível uma coisa destas? Mas Pedro:

Pedro – Tu lavares-me os pés? Era o que faltava! Eu não to permito! Tu és Deus e eu sou um pecador, um Zé ninguém, um verme. Tu és Tu e eu sou eu! Eu não deixo que me laves os pés!

Jesus – O que Eu te faço, tu não o compreendes agora, só mais tarde.

Pedro – Como queiras, Mestre, mas lavares-me os pés, nunca! Deixa-me antes lavar os Teus!

Jesus – Olha, Simão de Jonas! Se Eu não te lavar os pés, não irás para o meu Reino. É preciso que te lave os pés, pois eles terão um longo caminho a percorrer e a tua alma precisa de pés fortes…Lembra-te que está escrito: “São belos os pés daqueles que anunciam boas novas.”

Pedro – Ó Senhor! Então lava-me os pés, a cabeça, os braços, as mãos!…

Jesus – Vós já estais puros. Os pés precisam de ser purificados, porque são eles que levam o homem pelos maus caminhos que as más intenções abrem…

E, no meio de um choro convulsivo, Pedro deixa que Jesus lhe lave os pés e lhos beije. Finalmente, Jesus tira a toalha da cintura, lava as mãos, volta a vestir-se e a ocupar o Seu lugar,  olhando para Judas e dizendo:

Jesus – Agora estais puros, mas não todos. Somente aqueles que tiverem a vontade de permanecer puros.

Jesus enche novamente de vinho o grande cálice comum e todos bebem, seguindo-se o canto de vários salmos de louvor (114, 115). Quando algum versículo se aplica a Judas, Jesus fixa nele o Seu olhar, por exemplo :

. ” Todo o homem é mentiroso”;

. “É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos justos”;

. “Eu não morrerei, mas viverei para cantar as obras do Senhor”;

. “Celebrai o Senhor, porque Ele é bom e a sua misericórdia dura para sempre”;

.  “É melhor confiar no Senhor do que no homem”;

.  “Maldito o homem que confia noutro homem”;

. “Eu cambaleava e ia a cair, mas o Senhor me amparou”;

. “A pedra rejeitada pelos construtores tornou-se pedra angular”;

. “Bendito o que vem em nome do Senhor”!

. “Eu me alegro, porque o Senhor ouviu a minha oração, porque volta os seus ouvidos para mim. Eu O invocarei por toda a minha vida, pois me haviam cercado as angústias da morte”;

. “O Senhor é clemente e compassivo, lento para a ira e pronto para o perdão”, etc

 Estas  sentenças dos Salmos atingem Judas profundamente e perturbam-no, ao ponto de se desconcentrar, não acertando nem com a letra nem com a música nem com o tom. Tomé, um dos seus vizinhos do lado, sente a necessidade de lhe chamar a atenção para a desafinação com que canta… Após o canto, Jesus distribui nova dose do cordeiro assado e repesca o tema do lava-pés:

Jesus–  Eu quero que compreendais o meu gesto de vos lavar os pés. Trata-se de um gesto de humildade, um gesto de Deus a lavar os pés às suas criaturas, de o Senhor a lavar os pés ao seus servos, fazendo-se Ele próprio o servo dos servos. Será na humildade e no Amor a Deus e ao próximo que vós sereis grandes no Reino de Deus. Como Eu fiz, fazei vós também! . Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei, pois este é o mandamento novo que vos deixo! É por isto que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros. Aquele que Me ama cumprirá as Minhas palavras. Se alguém Me amar, o Pai o amará e  Nós viremos a ele e faremos nele a Nossa morada. Quem não Me tem amor não guardará as Minhas palavras. Fazendo isto, sereis felizes, mas não sereis todos felizes, porque se cumprirá o que foi escrito a Meu respeito: “Aquele que come comigo à mesa levantou o seu calcanhar contra Mim” (Sl 40, 10)

Após cantarem o longo salmo 118, Jesus senta-se e proclama:

Jesus – O velho rito terminou e vai ser inaugurado um novo. A Velha Aliança chegou ao fim e vai ser substituída pela Nova. A vítima dos sacrifícios cruentos não mais será o vitelo, a pomba, o cordeiro. A Nova Aliança vai ser alicerçada sobre Mim,  a Nova Vítima, a Vítima Eterna, a Vítima sem mácula, o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do Mundo, Aquele que se oferece ao Pai para remissão de todos os pecados dos homens. Será um ritual perpétuo de Amor, um memorial perpétuo a renovar-se a cada hora por toda a Terra. Este será o grande milagre do Amor, que agora vou realizar, não havendo na Terra nada superior a ele nem nada que se lhe compare. Será um milagre de união e comunhão entre Mim e vós e vós entre uns e outros. Eu vou partir, mas não vos deixarei órfãos, porque ficarei convosco até à consumação dos séculos.

Jesus pega num pão inteiro, coloca-o sobre o cálice cheio de vinho, abençoa-os, oferece-os ao Pai, parte o pão em treze bocadinhos, coloca-os na mão esquerda, dá um bocadinho a cada um e diz:

Jesus – “Tomai e comei! Isto é o Meu Corpo, que vai ser entregue por vós. Fazei isto em memória de Mim”!

 Faz o mesmo com o cálice, dizendo:

Jesus –  “Tomai e bebei! Isto é o Meu Sangue, que vai ser derramado por vós, para a remissão dos pecados. Fazei isto em memória de Mim”!

 Pega, também, no último pedacinho e no cálice, sai da sala e vai levar a Comunhão à Mãe. Regressa com o cálice vazio. Toma a palavra:

Jesus – Vistes o que Eu fiz. Dei-Me a Mim próprio. As minhas desculpas, se não posso fazer mais por vós. Agora compreendeis o que Eu queria dizer quando anunciei (Jo, 6) que Eu sou o Pão Vivo descido dos Céus, o Novo Maná, a Minha Carne e o Meu Sangue como alimentos de Vida Eterna. Quem Me come e quem Me bebe não mais terá fome nem sede e quem Me come e bebe terá cada vez mais fome e mais sede de Mim, um mistério que compreendereis mais tarde. Por este milagre de Amor, Eu estarei em vós e vós em Mim, mas ai daquele (olhando para Judas) que se alimentar de Mim sem estar puro…Um de vós aqui não está puro! Um de vós Me vai trair! É por isso que Eu estou de espírito perturbado e numa tristeza de morte. A mão daquele que Me vai trair está comigo sobre esta mesa e nem o Meu amor, nem o Meu Corpo, nem o meu Sangue, nem a minha Palavra foram suficientes para o levar ao arrependimento…Eu lhe concederia o perdão e morreria também por ele, se…(lágrimas nos olhos e voz embargada). Na verdade, Eu vou ser traído, mas ai daquele por quem o Filho do Homem vais ser entregue! Melhor lhe fora não ter nascido! (1)

Os apóstolos entram em pânico e, cada um  por sua vez, perguntam a Cristo:

Todos – Serei eu?…Serei eu?…Serei eu?…

Judas –  (Sorrindo frio e tranquilo) Por acaso serei eu, Mestre?

Jesus – Tu mesmo o disseste! Tu mesmo te acusas, sem que Eu te tenha acusado…A  tua consciência te diz se és tu ou não. Não vale a pena enganá-la…, porque ela não se deixa enganar!

Todos suspeitam de Judas, mas Pedro é o que suspeita mais, pois Judas Iscariotes nunca lhe caiu no goto! João recebe um recado de Pedro para que pergunte directamente a Jesus, sobre Cujo peito apoia a cabeça, conseguindo falar com Jesus sem que ninguém mais ouça o que quer que seja:

João – Quem é, Senhor?

Jesus – Aquele a quem Eu der um bocado de pão (não consagrado) passado neste molho!…. (Cortando um pedaço de um pão inteiro, Jesus  banha-o no molho). Toma, Judas! Tu aprecias muito isto!

Judas – Obrigado, Mestre, pela Tua simpatia para Comigo! Sim, gosto muito!

Enquanto ele come o pão avidamente, João sente-se horrorizado, tapa os olhos e soluça, em contraste com o satânico sorriso de Judas Iscariotes…

Jesus – Judas, agora que Eu já fiz por ti tudo o que podia…vai tu fazer o que ainda tens a fazer lá fora…E o que tens a fazer fá-lo depressa!

Judas – Está bem, Mestre! Eu cumpro as Tuas ordens! Depois, nos encontraremos no Getsémani, porque Tu vais para lá, como sempre, não é verdade?

Jesus – Sim,… vou para lá,… como sempre…

Enquanto Judas se levanta, põe o manto e se prepara para sair:

Pedro – Mas onde é que ele vai sozinho? E a fazer o quê? Um de nós não pode ir com ele?

Judas –  Ouve lá! Eu já não sou criança e sei governar-me sozinho!

Jesus – Pedro, deixa-o! Ele e Eu sabemos o que vai fazer.

Pedro – (Vítima de uma terrível suspeita, sente remorsos…E se julgou mal?…) Está bem, Mestre, mas…

Jesus – (Em segredo a João, apoiado no Seu peito) Não digas nada ao Pedro, por agora! Ele poderia armar aqui um escândalo desnecessário.

Judas – Adeus, Mestre! Adeus, amigos!

Jesus – (Triste) Adeus, Judas!

Judas saiu dali e dirigiu-se directamente ao Templo, para informar os seus amigos sobre a possibilidade de apanharem Jesus no Getsémani, naquela noite, e receber os trinta dinheiros contratados pela traição, a qual se consumou com o tristemente famoso beijo ao seu Mestre, umas horas mais tarde, no Jardim das Oliveiras. Para sempre lá ficou a ecoar o lânguido suspiro do nosso Redentor:

Jesus -“Amigo, com um beijo entregas o Filho do Homem”!

Assim foi!

(1) Esta foi a primeira Comunhão mal feita, o primeiro sacrilégio dos muitos que passaram a ser feitos até aos dias de hoje. S. Paulo diz-nos quais são as consequências de uma Comunhão em pecado mortal: “ Todo aquele que comer o Pão (consagrado) ou beber o cálice (com o Vinho consagrado) do Senhor, será réu do Corpo e do Sangue do Senhor. Portanto, examine-se cada um a si próprio e só então coma deste Pão e beba deste Vinho, pois aquele que O come e bebe, sem distinguir o Corpo e o Sangue do Senhor, come e bebe a sua própria condenação (eterna). Por causa disto, há entre vós doentes e muitos morrem” (1 Cor 11, 27 – 30).

(2) Era a esta trágica realidade que o Anjo de Portugal se referia quando convidou os Pastorinhos a consolar o nosso Deus pelos sacrilégios e ultrajes…com que Ele é ofendido.

Convém saber (ou lembrar) que não deve ir à Comunhão todo o baptizado que estiver em pecado grave, também chamado mortal. O arrependimento sincero, a promessa firme de emenda e a Confissão sacramental anulam o impedimento. Em casos de católicos em situações de adultério, divorciados vivendo com outros que não sejam  os seus cônjuges, uniões de facto, uniões homossexuais, situações de pedofilia, casamentos apenas pelo civil,  negação de verdades da Fé (seitas), actividades espíritas, bruxarias, ocultismo, maçonaria, defesa e propagação de ideologias ou doutrinas  condenadas pela Igreja ou em outras situações de pecado contínuo…a Comunhão está proibida a quem estiver nestas situações e a Confissão também, se a pessoa não estiver disposta a romper radical e definitivamente com a situação de pecado. Os que vivem nestas situações costumam consolar-se acusando a Igreja de ser demasiado severa…mas a Doutrina é de Cristo e tudo isto entronca no cumprimento dos Dez Mandamentos ou no seu desprezo. Na categoria de ultrajes entram os pecados que têm a ver com o desvio de Hóstias consagradas por pessoas que se apresentam à Comunhão e depois…enfiam a Hóstia num lenço ou num bolso e levam-Na para fora, para a vender ou para a utilizar em bruxarias ou em rituais satânicos.

Assunto para pensar!

 .

Ezequiel Miguel

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Jesus ressuscita Lázaro

(Confira: Jo 11, 1-57)

(Realidade e ficção)

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Lazaro30I – Morte e ressurreição de Lázaro

Estava doente um homem chamado Lázaro, de Betânia, terra de Maria e de Marta, sua irmã. Maria,  cujo irmão, Lázaro, tinha caído doente, era aquela que tinha ungido os pés do Senhor com perfume e lhos tinha enxugado com os seus cabelos. Então, as irmãs enviaram a Jesus este recado.

Mensageiro – Senhor, aquele que amas está doente!

Jesus – Esta doença não é de morte, mas sim para a glória de Deus, manifestando-se por ela a glória do Filho de Deus.

Pedro – Mestre, vamos já para Betânia, em socorro dos nossos amigos Lázaro, Marta e Maria?

Jesus – Não, não vamos já! A seu tempo iremos. Já ouvistes que a sua doença não é de morte, por isso, continuaremos a cumprir a nossa missão aqui.  Ficaremos aqui mais dois dias!

Passados dois dias:

Jesus –  Vamos outra vez para a Judeia!

João – Mestre, há pouco os Judeus tentavam apedrejar-Te e Tu agora queres ir outra vez para lá?

Jesus – Não tem o dia doze horas? Se alguém anda de dia, não tropeça, porque tem a luz deste mundo. Mas, se andar de noite, tropeça, porque não tem a luz com ele. O nosso amigo Lázaro está a dormir, mas Eu vou lá acordá-lo.

André – Mestre, se ele dorme, vai curar-se!

Jesus – Lázaro morreu! E Eu, por amor de vós, estou contente por não ter estado lá, para assim poderdes crer. Mas vamos ter com ele!

Tomé – Vamos nós também, para morrermos com Ele!

Em Betânia (a três quilómetros de Jerusalém):

Ao chegar, Jesus encontrou-o sepultado havia quatro dias.

Marta – Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido! Mas, ainda agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Ele to concederá.

Jesus – O teu irmão ressuscitará!

Marta – Eu sei que ele há-de ressuscitar na ressurreição do último dia!

Jesus – Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em Mim, mesmo que tenha morrido, viverá!

E todo aquele que vive e crê em Mim, não morrerá para sempre. Crês nisto?

Marta – Sim, ó Senhor, eu creio que Tu és o Cristo, o Filho de Deus que havia de vir ao mundo.

Jesus – Então, vai chamar a tua irmã!

Ainda antes de entrar na aldeia de Betânia:

Maria – (Ajoelhada aos pés de Jesus)  Senhor, se Tu cá estivesses, o meu irmão não teria morrido!

Jesus (Comovido por ver tantas lágrimas à Sua volta) – Onde o pusestes?

Marta – Senhor, vem e verás!

Então, Jesus começou a chorar.

1º Judeu – Vede como era seu amigo!

2º Judeu – Então, este que deu a vista ao cego não podia também ter feito com que Lázaro não morresse?

Jesus – (Suspirando) Vamos até ao túmulo de Lázaro!….Tirai a pedra!

 Marta – Senhor, já cheira mal, pois já é o quarto dia!

Jesus – Eu não te disse que, se creres, verás a glória de Deus?   (Após a abertura do sepulcro e erguendo os olhos ao céu): Pai, dou-Te graças por Me teres atendido. Eu já sabia que sempre Me atendes, mas Eu disse isto por causa da gente que me rodeia, para que venham a crer que Tu Me enviaste!…(Bradando com voz forte): Lázaro, vem cá para fora!

“O que estava morto saiu de mãos e pés atados com ligaduras e o rosto envolvido num sudário.

Jesus – Desamarrai-o e deixai-o ir!”

II – Alarme no Sinédrio

“ Então, muitos dos Judeus que tinham vindo a casa de Maria, ao verem o que Jesus fez, creram nele. Alguns deles,  porém, foram ter com os fariseus e contaram-lhes o que Jesus tinha feito. Os sumos sacerdotes e os fariseus convocaram então o Conselho (Sinédrio).

Anás– Que havemos nós de fazer, dado que este homem realiza  muitos sinais miraculosos? Se o deixarmos assim, todos irão crer nele e virão os romanos e destruirão o nosso Lugar santo e a nossa nação!

Caifás – Vós não entendeis nada, nem vos dais conta de que vos convém que morra um só homem pelo povo, e não pereça a nação inteira!

E a partir desse dia, resolveram dar-Lhe a morte. Por isso, Jesus já não andava em público, mas retirou-se dali para uma região vizinha do deserto, para um cidade, chamada Efraim, e lá ficou com os discípulos.

Estava próxima a Páscoa dos Judeus…Procuravam então Jesus e perguntavam uns aos outros no Templo: Que vos parece? Ele virá à Festa? Entretanto, os sumos sacerdotes e os fariseus tinham dado ordem de que, se alguém soubesse onde Ele estava, o indicasse, para O prenderem.”

Considerações:

  1. Vem ao caso perguntar: Onde estariam as almas dos Justos antes de Jesus morrer e  ressuscitar? Não estavam certamente no paraíso, uma vez que ele não fora aberto antes da  morte de Jesus. É o que quer dizer o Credo, quando dizemos: ” Desceu aos infernos e subiu ao Céu, onde está sentado à direita de Deus Pai, de onde há-de vir para julgar os vivos e os mortos”. Os infernos é o lugar inferior, o reino dos mortos, o Hades. A Igreja ensinava que os que morriam sem pecado iam para o Limbo. Recentemente, eliminou essa palavra do Catecismo. Cristo dizia que os justos iam para o “Seio de Abraão”. Com a morte e a ressurreição de Cristo os Justos do Limbo subiram ao Paraíso, reaberto por Cristo, o Primogénito dos mortos e dos ressuscitados.
  1. Neste episódio, além da ressurreição de Lázaro, que estaria necessariamente no “Seio de Abraão”, porque era um Justo, confirma-se a Ressurreição Final de todos os humanos falecidos, seguida do Juízo Final, em que, após a sentença definitiva, os corpos ressuscitados irão acompanhar as almas a que estiveram associados. Esta Verdade é Dogma de Fé e consta do Credo, ficando herético quem a negar. S. Paulo diz que os que estiverem vivos nessa ocasião serão transformados e aguardarão a sentença final, tal como os ressuscitados. Assim, voltarão a unir-se: a alma, ao seu único corpo e o corpo, à sua única alma. Se é adepto da crença na reencarnação, deite essa ideia da cabeça para fora e não a divulgue, pois é um disparate monstruoso, divulgado pelo Espiritismo. Além disso, a Igreja, assim como a Bíblia, condena todas as formas de espiritismo e excomunga quem se mete nele, quem o divulga e quem o apoia, seja de que maneira for. Espero que não seja o seu caso!… Se for, enterre essa ideia e fuja quanto antes!
  1. Jesus comoveu-se e chorou. Porquê?

Não é fácil conter as lágrimas quando somos confrontados com a morte de uma pessoa querida, seja ela familiar ou não. No caso de Jesus, também haveria pessoas que choravam e é sabido que o choro provoca choro a outros, devido à empatia natural nestes casos. Aqui, Jesus põe em evidência a Sua natureza humana, tão humana como a nossa, igual a nós como homem, excepto no pecado e nas causas que levam a ele.

Tenhamos em conta que  Lázaro e as suas irmãs Marta e Maria eram íntimos amigos de Jesus, ao Qual dispensaram os maiores serviços no apostolado, disponibilizando bens materiais e sendo a sua casa de Betânia o refúgio onde Jesus retemperava o ânimo nas lutas contra os Seus inimigos do Templo: sacerdotes, anciãos, saduceus, fariseus e outros de influência herodiana.

À pergunta:” se era seu amigo, porque não impediu que ele morresse”? Jesus respondeu que era para que se manifestasse a glória de Deus,  que  consistia exactamente na sua ressurreição, visando, sobretudo, o objectivo de mostrar aos Judeus que Ele era Deus, o Messias, pois não actuava a mando de ninguém para ressuscitar um morto. Fazia-o por Seu próprio poder: “Eu te ordeno! Vem cá para fora!” . Assim como numa alvorada festiva de foguetes, o último foguete é sempre um estoiro isolado, um morteiro, distinto dos outros foguetes, e o que chama a atenção de todos, esta ressurreição de um morto, conhecido por todos  em Jerusalém, era a última prova de que Ele era mesmo o Messias profetizado. Jesus também chorava porque, como Deus, sabia que nem assim os chefes do povo O aceitariam como tal, mas também serviu para mostrar que fez tudo o que podia para evitar a condenação das almas que O recusavam.

E hoje? Quem se converte a partir de um milagre? Tenho conhecimento de uma cancerosa óssea vertendo pus fétido de um joelho, curada repentinamente em Fátima. Quando regressou com o joelho curado, uma das enfermeiras que a tratavam, desabafou: “A natureza tem muito poder”! Para quem não crê, tudo serve para explicar a falta de fé.

Para quem não tem fé, não há milagres que cheguem!

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Ezequiel Miguel

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Agonia de Jesus no Getsémani (Mt 26, 36 – 46)

(Realidade e Ficção)

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Após a Última Ceia, Jesus dirigiu-se com os Seus Apóstolos para o Getsémani, onde iria desenrolar-se uma das mais terríveis cenas da Sua Paixão, aquela que nós  conhecemos por Agonia de Jesus no Horto das Oliveiras. Os evangelistas resumem esse episódio a poucas palavras, mas o que Jesus lá sofreu ultrapassa tudo o que a humana imaginação possa abarcar. Basta dizer que em mais nenhum momento da Sua Paixão Ele solicitou ao Pai que lhe retirasse o Cálice do Sofrimento que estava a beber, apesar de Ele ter abraçado toda a Paixão com alegria, por finalmente se ir consumar a Redenção da Humanidade. Para ultrapassar com êxito esse terrível sofrimento, Ele pedira alguma ajuda aos três Apóstolos que estavam com Ele, mas eles passaram o tempo a dormir…Mas, se eles dormiram profundamente todo o tempo que durou a Agonia, lá estavam muitos outros seres bem despertos, que circundavam todo o espaço em redor do Getsémani. Era Satanás e muitos dos seus anjos, que se divertiam e tentavam lançar sobre Jesus o desespero e a renúncia a tal sofrimento.

Jesus – Eis-nos chegados ao Getsémani. Vós  sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar”. Eu levo comigo Pedro, Tiago e João

João – Mestre, porque vimos só nós para este lugar tão solitário?

Jesus – Porque eu preciso de vós nesta hora. Eu preciso de orar ao Pai e quero que vós reforceis a minha oração. É a ajuda que vos peço. A minha alma está numa tristeza de morte. Eu vou-me afastar um pouco e vós ficai aqui a vigiar e a orar, para não entrardes em tentação, porque estareis rodeados por seres que vos vão tentar.

Jesus afasta-se, ajoelha-se, levanta os olhos e os braços para o Céu e começa a encher-se de pavor e angústia.

Satanás – Cá estou eu de novo para Te oferecer a minha ajuda. Já não te via desde aquele nosso encontro no deserto, onde eu me  propus ajudar-Te…mas tu recusaste. Agora, aqui estou de novo para te propor que sejas razoável e tenhas bom senso. Para quê todo esse sacrifício por que vais passar? Ninguém to vai agradecer e ainda te chamarão tolo, visionário, utópico, por tentares fazer uma coisa que ninguém faria. A tua angústia e o pavor que te assaltam neste momento são só o começo do que te espera. Trouxeste aqueles três ali em baixo, mas…coitados deles e de ti! Não esperes nada deles, porque uma legião dos meus anjos já estão em volta deles para os porem a dormir em sono profundo e eles nem vão dar por nada. Se esperas ajuda deles, não tenhas ilusões. Tu bem os avisaste, mas nós apanhámo-los antes que eles começassem a orar por ti. Olha para eles, encostados aos troncos das oliveiras! Mal se sentaram, caíram logo em sono profundo. Parecem bebés a dormir um sono profundo depois de bem aleitados.

 Mas o pior para Ti está para vir. Aquilo que vai passar por Ti nunca passou nem passará por ninguém, por isso, serás o Único a vivê-lo e nós os únicos a presenciá-lo. Vês aqui à tua volta cinco legiões prontas a proteger-Te? Decide-Te rápido, porque as ondas do Mal já lá vêm para te submergirem. Não há força que as detenha, pois aquelas águas fétidas já vêm dos tempos de Adão e Eva. É uma força de águas negras, profundas, cheias de todo o lixo dos pecados dos homens. Não vale a pena invocares o Teu Pai, porque Ele abandonou-Te à tua sorte, por isso, ninguém te pode valer, a não ser nós! Foge, que vais ficar submerso, sujo, a cheirar mal, com um cheiro que farás fugir toda a corte celeste. Confia em nós, que podemos levantar-Te acima dessa tremenda enxurrada que conspurca toda a Terra. O que sofreste até aqui já chega para redimires aqueles que se vão salvar e os que estão no Limbo. Aliás, nem precisavas de sofrer coisa alguma. Bastaria que intercedesses junto do Teu Pai e Ele nada poderia recusar-Te. Um pedido Teu e…já estava! Todos homens ficariam logo redimidos! Não sofras por causa deles, que a maioria deles não aproveitará nada do teu sangue e do teu sofrimento. Mas a onda já se vê cada vez mais perto. Permite que peguemos em Ti de modo que ela não te toque! Nós levantamos-te, para que nada te toque!…Não?…Não queres?… Não sabes o que perdes!…Vais arrepender-Te! Nós bem Te avisamos!…

Pronto, já está. Aí tens! Pareces um verme saído de uma fossa, Tu, a pureza absoluta, a Luz do Universo, o Sol do Paraíso,…estás irreconhecível. Eu bem te avisei, mas Tu és um tolo que desperdiça a ajuda desinteressada que Te oferecemos. Esta era a onda da luxúria, da homossexualidade, da pedofilia, do nudismo, das modas nojentas e provocantes, dos pensamentos obscenos, da linguagem podre, da pornografia, da animalidade, de todo o uso pecaminoso do sexo…E o cheiro? Vejo que Te revolta as entranhas e Te engasgas com essa tosse que Te sufoca. Até a nós custa a aguentar, quanto mais a Ti!…

Não vale a pena limpares-Te, porque já lá vem outra onda, enorme como um oceano…. Aí está, já perto!…É toda vermelha, da cor do sangue, porque ela é mesmo de sangue, de todo o sangue que correu, corre e correrá, desde o sangue de Abel até ao Juízo final. Aquela massa vermelha contém todos os assassínios, os abortos provocados, os mortos pelas guerras…Não deixes que o Teu Sangue precioso se contamine com esta nojeira!…Vejo que não consegues levantar-Te, tal te deixaram estas avalanches que já passaram. Posso ajudar-Te, visto que estás num estado lastimoso, impotente, fraco, desmaiado, ofegante,…falta-Te o ar!… Tremes de frio, todo molhado…Que injustiça de todo o Céu e sobretudo do Teu Pai, que Te castiga assim! Seria preciso tanto? Não bastaria um pedido Teu, uma vez que um pedido Teu tem a força da omnipotência?

Mas, olha! Lá vem outra onda! À primeira vista é cor de rosa, mas, depois da primeira vaga, segue-se um número incalculável de ondas com duas faces, uma cor de rosa e outra negra. É a avalanche também nojenta da mentira, da hipocrisia, das inverdades, das fraudes, dos enganos, das trapaças, do parecer e não ser, do pregar uma coisa e fazer outra, dos falsos profetas, dos burlões e muitos mais! Não os vês a pregarem doutrinas que não são a tua, a deturparem  uma verdade que não é  a tua Verdade, a fazerem troça da tua Igreja, a passarem por santos quando o não são? Não vês os que se confessarão mal, os que comungarão o Teu Corpo em pecado, os que atraiçoarão a fidelidade conjugal, os que acabarão por imitar os habitantes de Sodoma e Gomorra em seu viver diário? Não vês tudo isso? Achas que vale a pena fazer alguma coisa por eles? Somente uns poucos te agradecerão esse sacrifício. E como vão eles agradecer se nem sabem o que isso vale?

Mas, aí vem mais uma, uma muito especial! Prepara-te para enfrentar avalanches de ferros pontiagudos, de facas, de punhais, de pregos, de vidros cortantes,…tudo instrumentos cortantes usados pelos teus queridos amigos, aqueles que são as meninas dos teus olhos, que irão jurar-te fidelidade, aqueles cujas mãos abençoarás para servir o teu  novo Povo, aqueles que terão escrito na testa “Consagrados ao Senhor”. Olha só o que aí vem de traições e infidelidades ao votos e promessas emitidos! Tu nem queres ver, porque essas ondas vão deixar-te em carne picada. São as traições dos teus amigos, aqueles que tu vais escolher para guias do teu Povo.

Jesus – Paizinho, porque Me abandonaste? Livra-Me deste cálice, se é possível, mas faça-se a Tua vontade e não a minha!

Anjo – Aqui estou, meu Senhor, enviado pelo Pai e a pedido da Tua Santa Mãe, que Te está vendo! Como o Pai, Ela Te consola e pede forças para Ti. Não desanimes, lembra-Te que Te ofereceste ao Pai para esta missão. Trago-Te uma lista daqueles milhões e milhões que aproveitarão o Teu Sangue. Além dos do Limbo, que ansiosamente Te esperam, aí tens todos os nomes daqueles que vivem e viverão de acordo com a doutrina da salvação que pregaste. Em nome deles,  e por causa deles, eu Te trago os agradecimentos do Pai e a coragem necessária. Já falta pouco para se cumprir tudo os que as Escrituras anunciaram a Teu respeito. Eu Te apresento aqui os agradecimentos daqueles que, até ao fim do mundo, irão lavar as suas vestes no Sangue do Cordeiro.

Recompondo-se um pouco, Jesus levantou-se a custo e foi ter com os três discípulos que dormiam profundamente. No Horto soaram as palavras tristes de Jesus: Pedro, Tiago, João, não pudestes vigiar uma hora Comigo? Vigiai e orai, para não cairdes na tentação. O espírito está pronto mas a carne é fraca.

Os discípulos esfregaram os olhos, sentiram o peso da vergonha a fechar-lhes os lábios, de modo que eles nem se abriram para um pedido de desculpas. Mal Jesus virou as costas, o sono voltou a tomar posse deles, enquanto uma alegre e agitada algazarra infernal ecoava em volta do recinto…Jesus voltou para o Seu cantinho, limitado por rochedos e oliveiras, Ele, a Oliveira que produz o óleo santo que irá ungir todos os redimidos, em colaboração com a Outra Oliveira que, não longe dali, se associa a Ele na missão de co-redentora (Zacarias 4 , 1-14).

Novamente de joelhos, braços ao alto e olhar no céu, lá vem novamente a angústia, a ansiedade, a tristeza de morte, em grau e intensidade não imagináveis, a ponto de os seus poros se abrirem para dar saída ao sangue que os capilares já não conseguem reter. Ainda faltam muitas ondas até todo o Mal passar por Ele. Todos os pecados e todos os tipos de pecados devem passar  por Ele. Também  por Ele passaram, durante a Sua Agonia, todos os nossos pecados, que iam engrossando as negras ondas que O submergiram.

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Do Evangelho:

 Entretanto, Jesus, com os seus discípulos, chegou a um lugar chamado Getsémani e disse-lhes: “Sentai-vos aqui, enquanto eu vou além orar.” E, tendo levado consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes então: “ A minha alma está numa tristeza de morte, ficai aqui e vigiai comigo!”

E, adiantando-se um pouco mais, caiu com a face por terra, orando e dizendo: “Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. No entanto, não seja como eu quero, mas como Tu queres!”

Voltando para junto dos discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:” Nem sequer pudeste vigiar uma hora comigo! Vigiai e orai, para não cairdes na tentação. O espírito está pronto, mas a carne é débil.” Afastou-se pela segunda vez e foi orar, dizendo: “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a Tua vontade!” Depois, voltou e encontrou-os novamente a dormir, pois os seus olhos estavam pesados.

Deixou-os e foi orar de novo, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Reunindo-se finalmente aos discípulos, disse-lhes: “Continuai a dormir e a descansar! Já se aproxima a hora e o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Já se aproxima aquele que me vai entregar.”(Mt 26, 36-46)

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 Ezequiel Miguel

Vai lavar-te à piscina de Siloé

(Confira: Jo 9, 1-40)

Personagens: Jesus, discípulos, Cego, vizinhos, fariseus

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Siloe30Ao passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe:
Discípulos– Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?
Jesus – Nem pecou ele nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras Daquele que Me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo.
Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e disse-lhe:
Jesus – Vai lavar-te na piscina de Siloé!
Ele foi, lavou-se e regressou a ver. Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam:
1º vizinho – Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?
2º vizinho – É ele mesmo!
3º vizinho – De modo nenhum! É outro parecido com ele!
Cego – Sou eu mesmo!
4º vizinho – Como foi que os teus olhos se abriram?
Cego – Esse homem que se chama Jesus fez lama, ungiu-me os olhos com ela e disse-me: “Vai à piscina de Siloé e lava-te!” Então, eu fui, lavei-me e comecei a ver!
5º vizinho – Onde está Ele?
Cego – Não sei!
Levaram o cego aos fariseus. O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado:
1º fariseu – Como é que tu começaste a ver?
Cego – Ele pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver!
2º fariseu – Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado!
1º vizinho – Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?
3º fariseu – E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?
Cego –É um profeta!
4º fariseu – Nós não acreditamos que tu tivesses nascido cego e agora vês! Vamos chamar os teus pais e tirar as coisas a limpo….Vós, aí, sois realmente os pais dele? É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então, como é que ele agora vê?
Pais – Nós sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego! Mas não sabemos como é que ele agora vê, nem quem foi que o pôs a ver! Perguntai-lhe a ele! Já tem idade para falar de si!
5º fariseu – Dai glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!
Cego – Se é um pecador, não sei! Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo!
1º fariseu –O que é que ele te fez? Como é que ele te pôs a ver?
Cego – Eu já vo-lo disse! Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?
Fariseus – Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés, mas, quanto a esse, nós não sabemos de onde é!
Cego – Ora, isso é que é de espantar: que vós não saibais de onde ele é e me tenha dado a vista! Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada!
Fariseus – Tu nasceste coberto de pecado e dás-nos lições? Põe-te já fora daqui e vai pregar para outro lado, pois não acreditamos em nada do que dizes! És um farsante, um mentiroso, um intrujão, um ignorante a armar-se em doutor da lei!
E puseram-no fora. Pouco tempo depois:
Jesus – Sei que te expulsaram. Diz-me: Tu crês no Filho do Homem?
Cego – E quem é, Senhor, para que eu creia Nele?
Jesus – Tu já O viste! É Aquele que está a falar contigo!
Cego – (Ajoelhando-se) Eu creio, Senhor!
Jesus – Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.
Fariseus – Porventura nós também somos cegos?
Jesus – Se fosseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.

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Observações–
1 . Como se entende esta última frase de Jesus? No sentido em que Ele fala, quem são os cegos e quem são os que vêem? Dito de outro modo: Quem são os que, vendo, são cegos e os que, não vendo, passam a ver?
Tem que se entender, necessariamente, no plano espiritual e doutrinal. Aqui, fala-se de dois tipos de cegos e dois tipos de não cegos. Partindo da cura de um cego físico, porque os seus olhos corporais não viam, Jesus salta para outro plano, outra realidade, referindo-se àquela em que se moviam os fariseus e a outras autoridades religiosas dos Judeus, dando a entender que a cegueira espiritual deles era voluntária, em oposição à cegueira corporal, involuntária, do cego, que não fizera nada para o ser.
2 . A cegueira voluntária dos fariseus consistia em serem espiritualmente tão cegos que recusavam ver, aceitar, reconhecer as obras de Cristo, nomeadamente os seus estrondosos e públicos milagres, pois, se os aceitassem, teriam de ser coerentes e intelectualmente honestos para verem em Cristo o Messias, o que alteraria por completo as suas vidas de “fariseus hipócritas”, como Cristo os chamou. Mas eles e outros preferiam continuar cegos, buscando para isso os necessários argumentos para se autoconvencerem e continuarem na sua cegueira, mesmo à custa de pecado, ao atribuírem os poderes miraculosos de Cristo aos demónios, nomeadamente a Belzebú, caindo assim num pecado contra o Espírito Santo, que, como Cristo também disse, não teria perdão durante a vida nem depois da morte.
3 . Estas atitudes têm implicações medonhas também no nosso tempo! Todos aqueles que abandonaram a Igreja Católica, ou que se recusam a entrar nela, atiram-se /atiraram-se para a multidão dos cegos a que Cristo se referia, porque, em seu orgulho, pensam que vêem, …e dali não passam, mesmo que a Verdade lhes entre pelos olhos dentro. Consolam-se atirando para o caixote do simbolismo tudo o que lhes custa a crer. Pairam na corda bamba, fingindo não acreditar nos precipício à esquerda e à direita. Vejam-se na Bíblia passagens claras, límpidas, irrefutáveis, imutáveis, eternas,…que a soberba e a cegueira humanas se atrevem a pôr em dúvida, a distorcer ou a negar em absoluto, modificando-as a gosto para se tragarem melhor:
. Esta é a Minha Igreja e as portas do Inferno não levarão a melhor sobre ela! ( Igreja única )
. Aquele sobre quem a minha Igreja cair ficará esmagado (Poder de excomunhão)
. Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja – (Instituição do primado de Pedro e seus sucessores como chefias da igreja Única de Cristo)
.Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja… Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu (a Igreja); o que atares na terra será atado no céu e o que desatares na Terra será desatado no Céu (Mt 16,18-19) – (Dogma da infalibilidade pontifícia em matéria de Fé, sacramentos, costumes, indulgências, culto, devoções, imagens, bênçãos etc.)
. Ide…perdoai os pecados! Aqueles a quem os perdoardes ficarão perdoados; aqueles a quem os não perdoardes não ficarão perdoados (Jo 20, 23) – (Sacramento da Penitência ou Confissão sacramental individual, meio ordinário para o perdão dos pecados).
. Isto é o Meu Corpo… que vai ser entregue por vós. …Isto é o Meu Sangue…que vai ser derramado por vós! Fazei isto em memória de Mim!…(Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio da Nova Aliança). Ver, entre outras passagens bíblicas: 1 Cor 11,23-29.
Se quem lê é destes cegos voluntários, aqui lhe fica o exemplo deste cego (não voluntário) de nascença. Entre ou reentre na Igreja Católica, pois ela é a verdadeira piscina de Siloé para todo o tipo de cegueira doutrinal e espiritual. Peça a Deus a cura da cegueira espiritual e doutrinal e, depois, diga como o cego de que se fala: “Eu creio, Senhor”! E a sua vida mudará, passando a ver o que hoje não vê. Não seja daqueles que busca argumentos falsos, como os fariseus deste episódio bíblico, para não acreditar naquilo que entra pelos olhos dentro!

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Ezequiel Miguel

Aside

Jesus e a Samaritana (Jo 4, 4-38)

(Realidade & Ficção)

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“Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, que se chama Sicar, junto da herdade que Jacob deu a seu filho José. Ora, havia ali um poço, chamado “a fonte de Jacob “. Fatigado do caminho, estava Jesus sentado sobre a borda do poço. Era quase a hora sexta” (Jo 4, 5-6)

Cristo : – Vamos parar aqui. Vós ide à cidade e comprai o que é preciso para o almoço.

João – Vamos todos?

Cristo – Sim, João! É bom andardes em grupo, tal como se fosseis  verdadeiros irmãos de sangue.

João –  (Receoso pela segurança do Mestre…)E Tu ficas aqui sozinho? Vê lá! Eles são Samaritanos, inimigos dos Judeus!

Cristo – Os samaritanos não serão piores que os meus inimigos judeus. Ide, fico aqui a rezar por vós e por eles!

 Os discípulos saem, um tanto contrariados, hesitantes, olhando para trás, para o Mestre, alimentando alguns receios secretos…Cristo tira o manto da cabeça, senta-se junto ao poço, num muro baixo, coloca o manto sobre o regaço, apoia os cotovelos sobre os joelhos, mãos juntas para a frente e cabeça curvada para o chão. Entretanto, surge uma mulher, de nome Dina, de 30-35 anos, que vem ao poço, trazendo uma ânfora vazia, segurando uma asa com mão esquerda. Com a mão direita afasta o véu, num gesto de surpresa, para ver o Homem que ali está sentado. Jesus sorri para ela e saúda-a:

CristoA paz esteja contigo, mulher! Podes dar-me de beber? Caminhei muito, estou cansado e com sede.

Dina – Oh! Tu não és Judeu? E pedes-me de beber a mim, que sou Samaritana? Que terá acontecido? Será que já foram feitas as pazes entre nós? Algo de grande aconteceu, se um Judeu fala educadamente com uma Samaritana. Mas eu devia dizer-Te (arrogante e irritada…):” Não Te dou água, para castigar em Ti todas as patifarias que os Judeus nos têm feito ao longo  dos séculos! E até teria muito prazer em ver-Te aqui morrer à sede! E não só a Ti, mas a todos os Judeus”!

Cristo – Disseste bem! Aconteceu realmente algo de grande, que muitas coisas já mudou e outras vai mudar. Deus ofereceu um grande dom ao mundo. Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz:”Dá-me de beber!”, talvez tu mesma Lhe pedisses de beber e Ele te daria Água Viva. Então, tu própria te tornarias uma fonte de Água Viva a jorrar para a vida eterna.

Dina – A água viva está nos lençóis subterrâneos que alimentam este poço, que é nosso (dito em tom zombeteiro, orgulhoso e levando a palma da mão direita ao peito…)! Mas esta água está funda e Tu nem sequer tens com que a tirar. Como é que Tu me podes dar dessa água de que falas? Será que  vais fazer um milagre para a transformar e fazê-la vir cá acima por si mesma? Este poço foi mandado construir por nosso Pai Jacob e não há por aqui outra água como esta. Como é que Tu me vais dar de outra água? Não compreendo!

Cristo – A água é de Deus! É Ele que a dá a todos os Seus Filhos, assim como lhes dá a vida, os alimentos, as árvores, os frutos, a chuva, o sol, o dia, a noite,…Tudo é de um único Deus, mulher, e todos os homens vêm de um único Deus, tanto os Samaritanos como os Judeus. Este poço é de Jacob, como dizes. E Jacob não é a cabeça dos nossos povos? Portanto, temos uma origem comum, apesar de alguém nos ter levado à separação.

Dina –  (Em tom agressivo e irónico). Queres então dizer que a culpa é nossa, não é? Tinha que ser! Nós, então, é que somos os culpados, claro, e vós, os Judeus, os inocentes, os anjinhos puros!…

Cristo – Mulher, Eu não te ofendo nem ofendo a tua raça. Porque és agressiva para Comigo?

Dina – Tu és o primeiro Judeu que ouço falar assim. Os outros…(faz um gesto de repulsa) só valorizam a nossa água e a nossa fonte de Jacob, de água pura, fresca, cristalina. Parece que é a única coisa boa que encontram em nós!

Cristo – Quanto à vossa água maravilhosa, é mesmo como dizes. Mas quem bebe desta água ficará ainda com sede. Eu, porém, tenho uma água viva que, quem a beber, não sentirá mais sede. Mas é só minha e sou Eu que a dou a quem ma pedir. E em verdade te digo que quem beber da Água que Eu lhe der ficará para sempre coberto de orvalho e não terá mais sede, porque a minha Água se tornará nele nascente certa, permanente, constante,  eterna.

Dina – Que maravilha! Como é isso? Não entendo nada! estás a gozar comigo? És porventura um mago? Como pode um homem transformar-se num poço? O camelo bebe e faz a sua reserva de água no seu ventre. Mas depois, consome-a e não lhe dura a vida inteira. E Tu dizes que a Tua água dura para toda a vida, neste mundo e no outro?

Cristo – Ainda te digo mais: ela jorrará até à vida eterna e dará frutos de vida eterna, porque é uma fonte de salvação eterna.

Dina –Que bom! Se não estás a brincar comigo ou a sonhar, dá-me dessa água, se é verdade que a possuis. Eu canso-me para vir até aqui buscá-la. Se ma deres, não preciso mais de vir aqui, não terei mais sede e não ficarei doente…nem velha…nem morrerei, uma vez que dá vida eterna! Onde a tens e quanto é que eu preciso de pagar por ela?

Cristo – Não pagarás nada por ela, bebas dela a quantidade que beberes!  Mas…diz-me uma coisa: Só de vir aqui a buscar a água é que te cansas? Não andarás também cansada de outras coisas? Só pensas na água para o teu pobre corpo? Existe algo que é mais importante do que o corpo. Tu já viste que canseiras te custam essas pinturas, essas tranças que o teu fino véu deixa ver, esse vestido listrado e multicolor, apertado na cintura, no peito e nas ancas, tudo para realçar a tua sensualidade provocante e pecaminosa? Pecas tu e fazes outros pecar! Já pensaste que serás responsável pelos teus pecados e por todos aqueles que fizeres cometer a outros? Não te preocupa isso? Já tomaste o peso a essa enorme quantidade de anéis, pulseiras, colares, medalhões de várias formas, brincos que agora mesmo brilham à luz do sol? Pareces uma montra ambulante de pesada joalharia e uma feira ambulante de vaidades! Já viste tantos cuidados que dispensas ao teu corpo, que o Pai do Céu te deu tão bem feito,  alto,  moreno, belo,…para com ele O louvares, Lhe agradecer  e pôr ao  serviço da tua alma? É a tua alma, mulher, que tens de tornar bela! Jacob não deu a si mesmo e aos seus somente a água deste poço, mas preocupou-se em dar a si mesmo e aos outros a santidade, que é a Água de Deus.

Dina – ( Deixou de ser petulante e irónica. Apresenta-se submissa, confusa e muda o tom de voz e o assunto da conversa) – Vós dizeis que nós somos pagãos…Se isso for verdade, nós não podemos ser santos…porque só o pecado mora connosco!

Cristo – Um pagão também pode ser virtuoso e Deus, que é justo, o premiará pelo bem que tiver feito. Não será um prémio completo, mas  entre um fiel com culpa grave e um pagão sem culpa, Deus será menos rigoroso para com o pagão. Sabendo vós que sois pagãos, porque não vindes ao Deus verdadeiro? O que vos impede? O Deus verdadeiro e Único está assim tão longe de vós? (Cristo olha-a nos olhos, enquanto  espera por uma resposta, que não vem… ) Como te chamas?

Dina – Dina!

Cristo – Pois bem, responde-me, Dina! Tu sentes não poder aspirar à santidade porque és pagã, porque andas na atmosfera nublada de  um antigo erro, como Eu digo?

Dina – Sim, eu sinto que é mesmo assim como dizes!

Cristo  – Então,… porque não vives como uma pagã virtuosa, honesta, casta…?

Dina – (Confusa, atrapalhada,  olhos no chão, sem palavras para se desculpar…) Senhor!…

Cristo – Não tens nada a dizer?… Vai chamar o teu marido…e volta aqui com ele! Eu esperarei aqui o tempo que for preciso.

Dina  – ( A sua confusão aumenta) Eu não tenho marido!…

Cristo  – Disseste bem! Não tens marido! Tiveste já cinco maridos e agora tens um contigo que não é teu marido. A tua religião também não aconselha isso!… Vós também tendes os Mandamentos (Decálogo) dados por Deus a Moisés! Porque, então, Dina, vives assim, mergulhada no pecado? Não te sentes cansada dessa canseira de seres carne prostituída, envenenada, mal-cheirosa,… para tantos e não a mulher honesta de um só? Não ficas com medo da tua velhice, quando te encontrares sozinha com as lembranças dos teus pecados, as tuas saudades, os teus medos, os teus pesadelos, os teus remorsos, os teus terrores, os teus fantasmas, a incerteza da justiça divina, que tantas vezes tens desafiado? Como sabes se acordarás viva cada manhã, cá na Terra? O pensamento, a eventualidade da tua condenação eterna não te dá ânimo decidido para levares uma vida honesta, segundo os Mandamentos?

Dina – Senhor, vejo que és  um Profeta!

Cristo – Mulher, Eu sou mais que Profeta!… Onde estão os teus filhos?

Dina – (Baixa a cabeça, olha para o chão …) Não tenho filhos!

Cristo – Não tens, mas já tiveste!…Não os tens nesta Terra, mas as suas pequenas almas, que tu impediste de verem a luz do dia, acusam-te… (Pausado, mas incisivo…) Sempre jóias,…belos e provocantes vestidos,…casa rica,…mesa farta,…festas,…brincos,…colares,…cintos de ouro e prata,…pulseiras vistosas,… mas tu és uma desgraçada, uma miserável! Sim, há em ti um enorme vazio, lágrimas e muita miséria interior. És uma desorientada, uma perdida, uma barca à deriva,…apesar do teu falso e enganador ar de felicidade! Somente com um arrependimento sincero, através do perdão de Deus e do perdão dos teus filhos, poderás vir a ser verdadeiramente rica!

Dina –(Sentindo-se incomodada, semblante atingido pela tristeza, lágrimas a aflorar…)Senhor, tens razão! Eu tenho vergonha! É mesmo como dizes!…(tapa o rosto com as mãos para disfarçar um  choro convulsivo…)

Cristo – E do Pai que está nos Céus, tu não tinhas vergonha quando praticavas o mal? Não chores pela vergonha diante do Homem…Vem aqui, Dina, para mais perto de Mim (ela senta-se no muro, perto de Cristo). Eu vou falar-te de Deus, que talvez não conheças bem e, por isso, tens feito tanta asneira…Se tivesses conhecido bem o verdadeiro Deus, não terias descido tão baixo, pois Ele te teria falado, instruído e amparado.

Dina –(Tentando desviar a conversa) Senhor, os nossos pais adoravam Deus neste monte (Garizim). Vós dizeis que só em Jerusalém é que se deve adorar. Mas Tu dizes: Deus é um só. Ajuda-me a ver o que  devo fazer, como e onde!

Cristo – Mulher, crê em Mim! Vai chegar a hora, que já começou, em que nem no monte Garizim, da Samaria, nem no monte Sião, de Jerusalém,  o Pai será adorado. Nós adoramos Aquele que conhecemos, porque a Salvação vem dos Judeus, como vieram também os profetas. Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, não mais com o rito antigo, mas com o novo rito, no qual não haverá sacrifícios e ofertas de animais consumidos pelo fogo, mas Sacrifício eterno da Hóstia Imaculada, queimada pelo Fogo do Amor. Será um culto espiritual do Reino espiritual. Deus é Espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em Espírito e Verdade.

Dina – Tu tens palavras santas, nunca ouvidas por aqui!… Eu sei que está para chegar Aquele que  também é chamado o Cristo. Quando vier, Ele nos ensinará todas as coisas. Também por aqui perto anda aquele que dizem ser o seu Precursor. Muitos vão ouvi-lo, mas ele é tão severo!…Diz coisas terríveis! Só falta que mande cair fogo do céu! …Tu és bondoso,…calmo,…compassivo,…tolerante,…não ameaças, não insultas, não metes medo, dizes palavras que que vão direitas, como setas, ao nosso coração. Penso que o Cristo também será assim, como Tu!. Dão-lhe o nome de Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz …( Is 9,5) Ainda falta muito para  Ele vir?

Cristo – Eu já te disse que o tempo Dele já chegou e que Ele já está entre vós.

Dina – Como é que o sabes? És porventura um dos seus discípulos? O Precursor tem muitos discípulos, que depois vão ser discípulos do Cristo.  Quem me dera vê-LO!

Cristo – O que farias, se O visses e te encontrasses  frente-a-frente com Ele?

Dina – Isso seria sonhar! Há tantos anos que foi profetizado e calhar-me a mim essa bênção…nem quero crer! Acho que me ajoelharia a Seus pés e lhos beijaria! Depois, pedia-lhe que me limpasse a alma e me aceitasse ao Seu serviço como a mais ínfima das suas servas! …Mas isso…é sonhar demasiado alto! Como eu seria feliz,… feliz,… feliz!… (Olhando para o céu com ar sonhador…)

Cristo – E como achas que será o Cristo, o Messias?

Dina – Penso que será um Homem alto, bonito, de cabelos louros até aos ombros, de olhos azuis, com uma barba dividida a meio, com uma testa grande e saliente, com um porte real, majestoso, com um olhar vivo, límpido e perscrutador, capaz de ver através do opaco, meigo, bondoso, manso, atraente, irresistível, de sorriso divinal e fazendo covinhas nas faces quando sorri,…tudo assim como Tu!

Cristo – Dina, olha bem para Mim! … Eu, que estou a falar contigo, sou o Cristo Jesus, o Messias, o Salvador, o Rei espiritual de Israel.

Dina –(Levanta-se de repente, em grande confusão, com gestos descontrolados, com cara de medo… e mostrando sinais de querer fugir…) Tu!?…Oh!…

Cristo – Espera aí, mulher! Porque foges de Mim? Que mal te fiz Eu?

Dina – Porque tenho nojo de ficar perto de Ti. Tu és santo!…E eu…Eu também fujo de mim!

Cristo –Confia em Mim! Eu sou o Salvador, Aquele que tira o pecado do Mundo. Eu Vim até aqui porque sabia que a tua alma andava cansada e errante e tu andas enjoada do teu alimento venenoso …Eu vim para dar-te um alimento novo que te tirará as náuseas e o cansaço…Olha, lá vêm os Meus discípulos de volta, com pão! Mas Eu já estou alimentado por te ter dado as migalhas iniciais para a tua redenção.

Dina – Senhor, Tu não vieste aqui por acaso!…Ajuda-me! Hoje mesmo vou mudar de vida! Não quererás aceitar-me como uma humilde serva ao Teu serviço?

Cristo – A tua hora chegará! Acompanharás outras mulheres na difusão da mensagem que Eu venho trazer ao mundo. Há muitas outras ovelhas como tu que precisam dos nossos cuidados.  Aguarda e, a seu tempo, chegará a tua oportunidade! Por agora, sê apóstola na tua cidade!

 Os discípulos chegam, olham intrigados, de soslaio, meio disfarçadamente, para a mulher, mas nenhum diz nada ou pergunta o que quer que seja ao Mestre. Apenas cochicham entre si e se interrogam mutuamente. Dina afasta-se, deixando no local a ânfora vazia, sem mais pensar na água. Pedro interrompe aquele silêncio embaraçoso:

Pedro – Aqui está, Mestre! Eles (habitantes de Sicar) trataram-nos bem. Eis o queijo, o pão fresco, as azeitonas e as maçãs! Serve-te! Aquela mulher fez bem em deixar a ânfora. Assim guardaremos melhor a água e não precisaremos de pedir mais nada aos Samaritanos… Não comes? Eu quis trazer-te peixe, mas não encontrei. Talvez preferisses o peixe. Mas…tens ares de  cansado e  estás pálido!…

Cristo – Eu tenho um alimento que vós não conheceis. Comerei dele e ficarei bem alimentado.

Os discípulos trocam olhares intrigados e interrogadores, cada um fazendo as suas perguntas mudas e olhando à volta para tentar descobrir algo parecido com alimento… Cristo esclarece:

Cristo – O Meu alimento é fazer a vontade Daquele que Me enviou e levar a bom termo a obra que Me entregou. Eu venho fazer a sementeira do Reino. O semeador sempre se alegra com o fruto da sua sementeira. Assim, Eu me alegrarei com a colheita que vós ides fazer quando ceifardes e, pelo vosso trabalho, Eu vos compensarei com o devido salário no Meu Reino eterno. Vós só ceifareis, porque o trabalho mais duro Eu já o terei feito. Quando todo o trigo que Eu tiver semeado for por vós ceifado, então se cumprirá a vontade de Deus e Eu me sentarei para o banquete na Jerusalém celeste. Mas… vamos almoçar, pois não tarda muito que os Samaritanos de Sicar apareçam por aí com a Dina. Sede simpáticos e caridosos para com eles! São almas que vêm à procura de Deus, ovelhas tresmalhadas à procura do Pastor.

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E. Miguel

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