Agonia de Jesus no Getsémani (Mt 26, 36 – 46)

(Realidade e Ficção)

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Após a Última Ceia, Jesus dirigiu-se com os Seus Apóstolos para o Getsémani, onde iria desenrolar-se uma das mais terríveis cenas da Sua Paixão, aquela que nós  conhecemos por Agonia de Jesus no Horto das Oliveiras. Os evangelistas resumem esse episódio a poucas palavras, mas o que Jesus lá sofreu ultrapassa tudo o que a humana imaginação possa abarcar. Basta dizer que em mais nenhum momento da Sua Paixão Ele solicitou ao Pai que lhe retirasse o Cálice do Sofrimento que estava a beber, apesar de Ele ter abraçado toda a Paixão com alegria, por finalmente se ir consumar a Redenção da Humanidade. Para ultrapassar com êxito esse terrível sofrimento, Ele pedira alguma ajuda aos três Apóstolos que estavam com Ele, mas eles passaram o tempo a dormir…Mas, se eles dormiram profundamente todo o tempo que durou a Agonia, lá estavam muitos outros seres bem despertos, que circundavam todo o espaço em redor do Getsémani. Era Satanás e muitos dos seus anjos, que se divertiam e tentavam lançar sobre Jesus o desespero e a renúncia a tal sofrimento.

Jesus – Eis-nos chegados ao Getsémani. Vós  sentai-vos aqui, enquanto Eu vou além orar”. Eu levo comigo Pedro, Tiago e João

João – Mestre, porque vimos só nós para este lugar tão solitário?

Jesus – Porque eu preciso de vós nesta hora. Eu preciso de orar ao Pai e quero que vós reforceis a minha oração. É a ajuda que vos peço. A minha alma está numa tristeza de morte. Eu vou-me afastar um pouco e vós ficai aqui a vigiar e a orar, para não entrardes em tentação, porque estareis rodeados por seres que vos vão tentar.

Jesus afasta-se, ajoelha-se, levanta os olhos e os braços para o Céu e começa a encher-se de pavor e angústia.

Satanás – Cá estou eu de novo para Te oferecer a minha ajuda. Já não te via desde aquele nosso encontro no deserto, onde eu me  propus ajudar-Te…mas tu recusaste. Agora, aqui estou de novo para te propor que sejas razoável e tenhas bom senso. Para quê todo esse sacrifício por que vais passar? Ninguém to vai agradecer e ainda te chamarão tolo, visionário, utópico, por tentares fazer uma coisa que ninguém faria. A tua angústia e o pavor que te assaltam neste momento são só o começo do que te espera. Trouxeste aqueles três ali em baixo, mas…coitados deles e de ti! Não esperes nada deles, porque uma legião dos meus anjos já estão em volta deles para os porem a dormir em sono profundo e eles nem vão dar por nada. Se esperas ajuda deles, não tenhas ilusões. Tu bem os avisaste, mas nós apanhámo-los antes que eles começassem a orar por ti. Olha para eles, encostados aos troncos das oliveiras! Mal se sentaram, caíram logo em sono profundo. Parecem bebés a dormir um sono profundo depois de bem aleitados.

 Mas o pior para Ti está para vir. Aquilo que vai passar por Ti nunca passou nem passará por ninguém, por isso, serás o Único a vivê-lo e nós os únicos a presenciá-lo. Vês aqui à tua volta cinco legiões prontas a proteger-Te? Decide-Te rápido, porque as ondas do Mal já lá vêm para te submergirem. Não há força que as detenha, pois aquelas águas fétidas já vêm dos tempos de Adão e Eva. É uma força de águas negras, profundas, cheias de todo o lixo dos pecados dos homens. Não vale a pena invocares o Teu Pai, porque Ele abandonou-Te à tua sorte, por isso, ninguém te pode valer, a não ser nós! Foge, que vais ficar submerso, sujo, a cheirar mal, com um cheiro que farás fugir toda a corte celeste. Confia em nós, que podemos levantar-Te acima dessa tremenda enxurrada que conspurca toda a Terra. O que sofreste até aqui já chega para redimires aqueles que se vão salvar e os que estão no Limbo. Aliás, nem precisavas de sofrer coisa alguma. Bastaria que intercedesses junto do Teu Pai e Ele nada poderia recusar-Te. Um pedido Teu e…já estava! Todos homens ficariam logo redimidos! Não sofras por causa deles, que a maioria deles não aproveitará nada do teu sangue e do teu sofrimento. Mas a onda já se vê cada vez mais perto. Permite que peguemos em Ti de modo que ela não te toque! Nós levantamos-te, para que nada te toque!…Não?…Não queres?… Não sabes o que perdes!…Vais arrepender-Te! Nós bem Te avisamos!…

Pronto, já está. Aí tens! Pareces um verme saído de uma fossa, Tu, a pureza absoluta, a Luz do Universo, o Sol do Paraíso,…estás irreconhecível. Eu bem te avisei, mas Tu és um tolo que desperdiça a ajuda desinteressada que Te oferecemos. Esta era a onda da luxúria, da homossexualidade, da pedofilia, do nudismo, das modas nojentas e provocantes, dos pensamentos obscenos, da linguagem podre, da pornografia, da animalidade, de todo o uso pecaminoso do sexo…E o cheiro? Vejo que Te revolta as entranhas e Te engasgas com essa tosse que Te sufoca. Até a nós custa a aguentar, quanto mais a Ti!…

Não vale a pena limpares-Te, porque já lá vem outra onda, enorme como um oceano…. Aí está, já perto!…É toda vermelha, da cor do sangue, porque ela é mesmo de sangue, de todo o sangue que correu, corre e correrá, desde o sangue de Abel até ao Juízo final. Aquela massa vermelha contém todos os assassínios, os abortos provocados, os mortos pelas guerras…Não deixes que o Teu Sangue precioso se contamine com esta nojeira!…Vejo que não consegues levantar-Te, tal te deixaram estas avalanches que já passaram. Posso ajudar-Te, visto que estás num estado lastimoso, impotente, fraco, desmaiado, ofegante,…falta-Te o ar!… Tremes de frio, todo molhado…Que injustiça de todo o Céu e sobretudo do Teu Pai, que Te castiga assim! Seria preciso tanto? Não bastaria um pedido Teu, uma vez que um pedido Teu tem a força da omnipotência?

Mas, olha! Lá vem outra onda! À primeira vista é cor de rosa, mas, depois da primeira vaga, segue-se um número incalculável de ondas com duas faces, uma cor de rosa e outra negra. É a avalanche também nojenta da mentira, da hipocrisia, das inverdades, das fraudes, dos enganos, das trapaças, do parecer e não ser, do pregar uma coisa e fazer outra, dos falsos profetas, dos burlões e muitos mais! Não os vês a pregarem doutrinas que não são a tua, a deturparem  uma verdade que não é  a tua Verdade, a fazerem troça da tua Igreja, a passarem por santos quando o não são? Não vês os que se confessarão mal, os que comungarão o Teu Corpo em pecado, os que atraiçoarão a fidelidade conjugal, os que acabarão por imitar os habitantes de Sodoma e Gomorra em seu viver diário? Não vês tudo isso? Achas que vale a pena fazer alguma coisa por eles? Somente uns poucos te agradecerão esse sacrifício. E como vão eles agradecer se nem sabem o que isso vale?

Mas, aí vem mais uma, uma muito especial! Prepara-te para enfrentar avalanches de ferros pontiagudos, de facas, de punhais, de pregos, de vidros cortantes,…tudo instrumentos cortantes usados pelos teus queridos amigos, aqueles que são as meninas dos teus olhos, que irão jurar-te fidelidade, aqueles cujas mãos abençoarás para servir o teu  novo Povo, aqueles que terão escrito na testa “Consagrados ao Senhor”. Olha só o que aí vem de traições e infidelidades ao votos e promessas emitidos! Tu nem queres ver, porque essas ondas vão deixar-te em carne picada. São as traições dos teus amigos, aqueles que tu vais escolher para guias do teu Povo.

Jesus – Paizinho, porque Me abandonaste? Livra-Me deste cálice, se é possível, mas faça-se a Tua vontade e não a minha!

Anjo – Aqui estou, meu Senhor, enviado pelo Pai e a pedido da Tua Santa Mãe, que Te está vendo! Como o Pai, Ela Te consola e pede forças para Ti. Não desanimes, lembra-Te que Te ofereceste ao Pai para esta missão. Trago-Te uma lista daqueles milhões e milhões que aproveitarão o Teu Sangue. Além dos do Limbo, que ansiosamente Te esperam, aí tens todos os nomes daqueles que vivem e viverão de acordo com a doutrina da salvação que pregaste. Em nome deles,  e por causa deles, eu Te trago os agradecimentos do Pai e a coragem necessária. Já falta pouco para se cumprir tudo os que as Escrituras anunciaram a Teu respeito. Eu Te apresento aqui os agradecimentos daqueles que, até ao fim do mundo, irão lavar as suas vestes no Sangue do Cordeiro.

Recompondo-se um pouco, Jesus levantou-se a custo e foi ter com os três discípulos que dormiam profundamente. No Horto soaram as palavras tristes de Jesus: Pedro, Tiago, João, não pudestes vigiar uma hora Comigo? Vigiai e orai, para não cairdes na tentação. O espírito está pronto mas a carne é fraca.

Os discípulos esfregaram os olhos, sentiram o peso da vergonha a fechar-lhes os lábios, de modo que eles nem se abriram para um pedido de desculpas. Mal Jesus virou as costas, o sono voltou a tomar posse deles, enquanto uma alegre e agitada algazarra infernal ecoava em volta do recinto…Jesus voltou para o Seu cantinho, limitado por rochedos e oliveiras, Ele, a Oliveira que produz o óleo santo que irá ungir todos os redimidos, em colaboração com a Outra Oliveira que, não longe dali, se associa a Ele na missão de co-redentora (Zacarias 4 , 1-14).

Novamente de joelhos, braços ao alto e olhar no céu, lá vem novamente a angústia, a ansiedade, a tristeza de morte, em grau e intensidade não imagináveis, a ponto de os seus poros se abrirem para dar saída ao sangue que os capilares já não conseguem reter. Ainda faltam muitas ondas até todo o Mal passar por Ele. Todos os pecados e todos os tipos de pecados devem passar  por Ele. Também  por Ele passaram, durante a Sua Agonia, todos os nossos pecados, que iam engrossando as negras ondas que O submergiram.

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Do Evangelho:

 Entretanto, Jesus, com os seus discípulos, chegou a um lugar chamado Getsémani e disse-lhes: “Sentai-vos aqui, enquanto eu vou além orar.” E, tendo levado consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes então: “ A minha alma está numa tristeza de morte, ficai aqui e vigiai comigo!”

E, adiantando-se um pouco mais, caiu com a face por terra, orando e dizendo: “Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice. No entanto, não seja como eu quero, mas como Tu queres!”

Voltando para junto dos discípulos, encontrou-os a dormir e disse a Pedro:” Nem sequer pudeste vigiar uma hora comigo! Vigiai e orai, para não cairdes na tentação. O espírito está pronto, mas a carne é débil.” Afastou-se pela segunda vez e foi orar, dizendo: “Meu Pai, se este cálice não pode passar sem que eu o beba, faça-se a Tua vontade!” Depois, voltou e encontrou-os novamente a dormir, pois os seus olhos estavam pesados.

Deixou-os e foi orar de novo, pela terceira vez, repetindo as mesmas palavras. Reunindo-se finalmente aos discípulos, disse-lhes: “Continuai a dormir e a descansar! Já se aproxima a hora e o Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos pecadores. Levantai-vos, vamos! Já se aproxima aquele que me vai entregar.”(Mt 26, 36-46)

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 Ezequiel Miguel

Vai lavar-te à piscina de Siloé

(Confira: Jo 9, 1-40)

Personagens: Jesus, discípulos, Cego, vizinhos, fariseus

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Siloe30Ao passar, Jesus viu um homem, cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe:
Discípulos– Rabi, quem foi que pecou para este homem ter nascido cego? Ele, ou os seus pais?
Jesus – Nem pecou ele nem os seus pais, mas isto aconteceu para nele se manifestarem as obras de Deus. Temos de realizar as obras Daquele que Me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a Luz do mundo.
Dito isto, cuspiu no chão, fez lama com a saliva, ungiu-lhe os olhos com a lama e disse-lhe:
Jesus – Vai lavar-te na piscina de Siloé!
Ele foi, lavou-se e regressou a ver. Então, os vizinhos e os que costumavam vê-lo antes a mendigar perguntavam:
1º vizinho – Não é este o que estava por aí sentado a pedir esmola?
2º vizinho – É ele mesmo!
3º vizinho – De modo nenhum! É outro parecido com ele!
Cego – Sou eu mesmo!
4º vizinho – Como foi que os teus olhos se abriram?
Cego – Esse homem que se chama Jesus fez lama, ungiu-me os olhos com ela e disse-me: “Vai à piscina de Siloé e lava-te!” Então, eu fui, lavei-me e comecei a ver!
5º vizinho – Onde está Ele?
Cego – Não sei!
Levaram o cego aos fariseus. O dia em que Jesus tinha feito lama e lhe abrira os olhos era sábado:
1º fariseu – Como é que tu começaste a ver?
Cego – Ele pôs-me lama nos olhos, lavei-me e fiquei a ver!
2º fariseu – Esse homem não vem de Deus, pois não guarda o sábado!
1º vizinho – Como pode um homem pecador realizar semelhantes sinais miraculosos?
3º fariseu – E tu que dizes dele, por te ter aberto os olhos?
Cego –É um profeta!
4º fariseu – Nós não acreditamos que tu tivesses nascido cego e agora vês! Vamos chamar os teus pais e tirar as coisas a limpo….Vós, aí, sois realmente os pais dele? É este o vosso filho, que vós dizeis ter nascido cego? Então, como é que ele agora vê?
Pais – Nós sabemos que este é o nosso filho e que nasceu cego! Mas não sabemos como é que ele agora vê, nem quem foi que o pôs a ver! Perguntai-lhe a ele! Já tem idade para falar de si!
5º fariseu – Dai glória a Deus! Quanto a nós, o que sabemos é que esse homem é um pecador!
Cego – Se é um pecador, não sei! Só sei uma coisa: que eu era cego e agora vejo!
1º fariseu –O que é que ele te fez? Como é que ele te pôs a ver?
Cego – Eu já vo-lo disse! Porque desejais ouvi-lo outra vez? Será que também quereis fazer-vos seus discípulos?
Fariseus – Discípulo dele és tu! Nós somos discípulos de Moisés, mas, quanto a esse, nós não sabemos de onde é!
Cego – Ora, isso é que é de espantar: que vós não saibais de onde ele é e me tenha dado a vista! Sabemos que Deus não atende os pecadores, mas se alguém honrar a Deus e cumprir a sua vontade, Ele o atende. Jamais se ouviu dizer que alguém tenha dado a vista a um cego de nascença. Se este não viesse de Deus, não teria podido fazer nada!
Fariseus – Tu nasceste coberto de pecado e dás-nos lições? Põe-te já fora daqui e vai pregar para outro lado, pois não acreditamos em nada do que dizes! És um farsante, um mentiroso, um intrujão, um ignorante a armar-se em doutor da lei!
E puseram-no fora. Pouco tempo depois:
Jesus – Sei que te expulsaram. Diz-me: Tu crês no Filho do Homem?
Cego – E quem é, Senhor, para que eu creia Nele?
Jesus – Tu já O viste! É Aquele que está a falar contigo!
Cego – (Ajoelhando-se) Eu creio, Senhor!
Jesus – Eu vim a este mundo para proceder a um juízo: de modo que os que não vêem vejam, e os que vêem fiquem cegos.
Fariseus – Porventura nós também somos cegos?
Jesus – Se fosseis cegos, não estaríeis em pecado; mas, como dizeis que vedes, o vosso pecado permanece.

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Observações–
1 . Como se entende esta última frase de Jesus? No sentido em que Ele fala, quem são os cegos e quem são os que vêem? Dito de outro modo: Quem são os que, vendo, são cegos e os que, não vendo, passam a ver?
Tem que se entender, necessariamente, no plano espiritual e doutrinal. Aqui, fala-se de dois tipos de cegos e dois tipos de não cegos. Partindo da cura de um cego físico, porque os seus olhos corporais não viam, Jesus salta para outro plano, outra realidade, referindo-se àquela em que se moviam os fariseus e a outras autoridades religiosas dos Judeus, dando a entender que a cegueira espiritual deles era voluntária, em oposição à cegueira corporal, involuntária, do cego, que não fizera nada para o ser.
2 . A cegueira voluntária dos fariseus consistia em serem espiritualmente tão cegos que recusavam ver, aceitar, reconhecer as obras de Cristo, nomeadamente os seus estrondosos e públicos milagres, pois, se os aceitassem, teriam de ser coerentes e intelectualmente honestos para verem em Cristo o Messias, o que alteraria por completo as suas vidas de “fariseus hipócritas”, como Cristo os chamou. Mas eles e outros preferiam continuar cegos, buscando para isso os necessários argumentos para se autoconvencerem e continuarem na sua cegueira, mesmo à custa de pecado, ao atribuírem os poderes miraculosos de Cristo aos demónios, nomeadamente a Belzebú, caindo assim num pecado contra o Espírito Santo, que, como Cristo também disse, não teria perdão durante a vida nem depois da morte.
3 . Estas atitudes têm implicações medonhas também no nosso tempo! Todos aqueles que abandonaram a Igreja Católica, ou que se recusam a entrar nela, atiram-se /atiraram-se para a multidão dos cegos a que Cristo se referia, porque, em seu orgulho, pensam que vêem, …e dali não passam, mesmo que a Verdade lhes entre pelos olhos dentro. Consolam-se atirando para o caixote do simbolismo tudo o que lhes custa a crer. Pairam na corda bamba, fingindo não acreditar nos precipício à esquerda e à direita. Vejam-se na Bíblia passagens claras, límpidas, irrefutáveis, imutáveis, eternas,…que a soberba e a cegueira humanas se atrevem a pôr em dúvida, a distorcer ou a negar em absoluto, modificando-as a gosto para se tragarem melhor:
. Esta é a Minha Igreja e as portas do Inferno não levarão a melhor sobre ela! ( Igreja única )
. Aquele sobre quem a minha Igreja cair ficará esmagado (Poder de excomunhão)
. Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a Minha Igreja – (Instituição do primado de Pedro e seus sucessores como chefias da igreja Única de Cristo)
.Tu és Pedro e sobre esta pedra construirei a minha Igreja… Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu (a Igreja); o que atares na terra será atado no céu e o que desatares na Terra será desatado no Céu (Mt 16,18-19) – (Dogma da infalibilidade pontifícia em matéria de Fé, sacramentos, costumes, indulgências, culto, devoções, imagens, bênçãos etc.)
. Ide…perdoai os pecados! Aqueles a quem os perdoardes ficarão perdoados; aqueles a quem os não perdoardes não ficarão perdoados (Jo 20, 23) – (Sacramento da Penitência ou Confissão sacramental individual, meio ordinário para o perdão dos pecados).
. Isto é o Meu Corpo… que vai ser entregue por vós. …Isto é o Meu Sangue…que vai ser derramado por vós! Fazei isto em memória de Mim!…(Instituição da Eucaristia e do Sacerdócio da Nova Aliança). Ver, entre outras passagens bíblicas: 1 Cor 11,23-29.
Se quem lê é destes cegos voluntários, aqui lhe fica o exemplo deste cego (não voluntário) de nascença. Entre ou reentre na Igreja Católica, pois ela é a verdadeira piscina de Siloé para todo o tipo de cegueira doutrinal e espiritual. Peça a Deus a cura da cegueira espiritual e doutrinal e, depois, diga como o cego de que se fala: “Eu creio, Senhor”! E a sua vida mudará, passando a ver o que hoje não vê. Não seja daqueles que busca argumentos falsos, como os fariseus deste episódio bíblico, para não acreditar naquilo que entra pelos olhos dentro!

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Ezequiel Miguel

Nota

Jesus e a Samaritana (Jo 4, 4-38)

(Realidade & Ficção)

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“Chegou, pois, a uma cidade da Samaria, que se chama Sicar, junto da herdade que Jacob deu a seu filho José. Ora, havia ali um poço, chamado “a fonte de Jacob “. Fatigado do caminho, estava Jesus sentado sobre a borda do poço. Era quase a hora sexta” (Jo 4, 5-6)

Cristo : – Vamos parar aqui. Vós ide à cidade e comprai o que é preciso para o almoço.

João – Vamos todos?

Cristo – Sim, João! É bom andardes em grupo, tal como se fosseis  verdadeiros irmãos de sangue.

João –  (Receoso pela segurança do Mestre…)E Tu ficas aqui sozinho? Vê lá! Eles são Samaritanos, inimigos dos Judeus!

Cristo – Os samaritanos não serão piores que os meus inimigos judeus. Ide, fico aqui a rezar por vós e por eles!

 Os discípulos saem, um tanto contrariados, hesitantes, olhando para trás, para o Mestre, alimentando alguns receios secretos…Cristo tira o manto da cabeça, senta-se junto ao poço, num muro baixo, coloca o manto sobre o regaço, apoia os cotovelos sobre os joelhos, mãos juntas para a frente e cabeça curvada para o chão. Entretanto, surge uma mulher, de nome Dina, de 30-35 anos, que vem ao poço, trazendo uma ânfora vazia, segurando uma asa com mão esquerda. Com a mão direita afasta o véu, num gesto de surpresa, para ver o Homem que ali está sentado. Jesus sorri para ela e saúda-a:

CristoA paz esteja contigo, mulher! Podes dar-me de beber? Caminhei muito, estou cansado e com sede.

Dina – Oh! Tu não és Judeu? E pedes-me de beber a mim, que sou Samaritana? Que terá acontecido? Será que já foram feitas as pazes entre nós? Algo de grande aconteceu, se um Judeu fala educadamente com uma Samaritana. Mas eu devia dizer-Te (arrogante e irritada…):” Não Te dou água, para castigar em Ti todas as patifarias que os Judeus nos têm feito ao longo  dos séculos! E até teria muito prazer em ver-Te aqui morrer à sede! E não só a Ti, mas a todos os Judeus”!

Cristo – Disseste bem! Aconteceu realmente algo de grande, que muitas coisas já mudou e outras vai mudar. Deus ofereceu um grande dom ao mundo. Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é Aquele que te diz:”Dá-me de beber!”, talvez tu mesma Lhe pedisses de beber e Ele te daria Água Viva. Então, tu própria te tornarias uma fonte de Água Viva a jorrar para a vida eterna.

Dina – A água viva está nos lençóis subterrâneos que alimentam este poço, que é nosso (dito em tom zombeteiro, orgulhoso e levando a palma da mão direita ao peito…)! Mas esta água está funda e Tu nem sequer tens com que a tirar. Como é que Tu me podes dar dessa água de que falas? Será que  vais fazer um milagre para a transformar e fazê-la vir cá acima por si mesma? Este poço foi mandado construir por nosso Pai Jacob e não há por aqui outra água como esta. Como é que Tu me vais dar de outra água? Não compreendo!

Cristo – A água é de Deus! É Ele que a dá a todos os Seus Filhos, assim como lhes dá a vida, os alimentos, as árvores, os frutos, a chuva, o sol, o dia, a noite,…Tudo é de um único Deus, mulher, e todos os homens vêm de um único Deus, tanto os Samaritanos como os Judeus. Este poço é de Jacob, como dizes. E Jacob não é a cabeça dos nossos povos? Portanto, temos uma origem comum, apesar de alguém nos ter levado à separação.

Dina –  (Em tom agressivo e irónico). Queres então dizer que a culpa é nossa, não é? Tinha que ser! Nós, então, é que somos os culpados, claro, e vós, os Judeus, os inocentes, os anjinhos puros!…

Cristo – Mulher, Eu não te ofendo nem ofendo a tua raça. Porque és agressiva para Comigo?

Dina – Tu és o primeiro Judeu que ouço falar assim. Os outros…(faz um gesto de repulsa) só valorizam a nossa água e a nossa fonte de Jacob, de água pura, fresca, cristalina. Parece que é a única coisa boa que encontram em nós!

Cristo – Quanto à vossa água maravilhosa, é mesmo como dizes. Mas quem bebe desta água ficará ainda com sede. Eu, porém, tenho uma água viva que, quem a beber, não sentirá mais sede. Mas é só minha e sou Eu que a dou a quem ma pedir. E em verdade te digo que quem beber da Água que Eu lhe der ficará para sempre coberto de orvalho e não terá mais sede, porque a minha Água se tornará nele nascente certa, permanente, constante,  eterna.

Dina – Que maravilha! Como é isso? Não entendo nada! estás a gozar comigo? És porventura um mago? Como pode um homem transformar-se num poço? O camelo bebe e faz a sua reserva de água no seu ventre. Mas depois, consome-a e não lhe dura a vida inteira. E Tu dizes que a Tua água dura para toda a vida, neste mundo e no outro?

Cristo – Ainda te digo mais: ela jorrará até à vida eterna e dará frutos de vida eterna, porque é uma fonte de salvação eterna.

Dina –Que bom! Se não estás a brincar comigo ou a sonhar, dá-me dessa água, se é verdade que a possuis. Eu canso-me para vir até aqui buscá-la. Se ma deres, não preciso mais de vir aqui, não terei mais sede e não ficarei doente…nem velha…nem morrerei, uma vez que dá vida eterna! Onde a tens e quanto é que eu preciso de pagar por ela?

Cristo – Não pagarás nada por ela, bebas dela a quantidade que beberes!  Mas…diz-me uma coisa: Só de vir aqui a buscar a água é que te cansas? Não andarás também cansada de outras coisas? Só pensas na água para o teu pobre corpo? Existe algo que é mais importante do que o corpo. Tu já viste que canseiras te custam essas pinturas, essas tranças que o teu fino véu deixa ver, esse vestido listrado e multicolor, apertado na cintura, no peito e nas ancas, tudo para realçar a tua sensualidade provocante e pecaminosa? Pecas tu e fazes outros pecar! Já pensaste que serás responsável pelos teus pecados e por todos aqueles que fizeres cometer a outros? Não te preocupa isso? Já tomaste o peso a essa enorme quantidade de anéis, pulseiras, colares, medalhões de várias formas, brincos que agora mesmo brilham à luz do sol? Pareces uma montra ambulante de pesada joalharia e uma feira ambulante de vaidades! Já viste tantos cuidados que dispensas ao teu corpo, que o Pai do Céu te deu tão bem feito,  alto,  moreno, belo,…para com ele O louvares, Lhe agradecer  e pôr ao  serviço da tua alma? É a tua alma, mulher, que tens de tornar bela! Jacob não deu a si mesmo e aos seus somente a água deste poço, mas preocupou-se em dar a si mesmo e aos outros a santidade, que é a Água de Deus.

Dina – ( Deixou de ser petulante e irónica. Apresenta-se submissa, confusa e muda o tom de voz e o assunto da conversa) – Vós dizeis que nós somos pagãos…Se isso for verdade, nós não podemos ser santos…porque só o pecado mora connosco!

Cristo – Um pagão também pode ser virtuoso e Deus, que é justo, o premiará pelo bem que tiver feito. Não será um prémio completo, mas  entre um fiel com culpa grave e um pagão sem culpa, Deus será menos rigoroso para com o pagão. Sabendo vós que sois pagãos, porque não vindes ao Deus verdadeiro? O que vos impede? O Deus verdadeiro e Único está assim tão longe de vós? (Cristo olha-a nos olhos, enquanto  espera por uma resposta, que não vem… ) Como te chamas?

Dina – Dina!

Cristo – Pois bem, responde-me, Dina! Tu sentes não poder aspirar à santidade porque és pagã, porque andas na atmosfera nublada de  um antigo erro, como Eu digo?

Dina – Sim, eu sinto que é mesmo assim como dizes!

Cristo  – Então,… porque não vives como uma pagã virtuosa, honesta, casta…?

Dina – (Confusa, atrapalhada,  olhos no chão, sem palavras para se desculpar…) Senhor!…

Cristo – Não tens nada a dizer?… Vai chamar o teu marido…e volta aqui com ele! Eu esperarei aqui o tempo que for preciso.

Dina  – ( A sua confusão aumenta) Eu não tenho marido!…

Cristo  – Disseste bem! Não tens marido! Tiveste já cinco maridos e agora tens um contigo que não é teu marido. A tua religião também não aconselha isso!… Vós também tendes os Mandamentos (Decálogo) dados por Deus a Moisés! Porque, então, Dina, vives assim, mergulhada no pecado? Não te sentes cansada dessa canseira de seres carne prostituída, envenenada, mal-cheirosa,… para tantos e não a mulher honesta de um só? Não ficas com medo da tua velhice, quando te encontrares sozinha com as lembranças dos teus pecados, as tuas saudades, os teus medos, os teus pesadelos, os teus remorsos, os teus terrores, os teus fantasmas, a incerteza da justiça divina, que tantas vezes tens desafiado? Como sabes se acordarás viva cada manhã, cá na Terra? O pensamento, a eventualidade da tua condenação eterna não te dá ânimo decidido para levares uma vida honesta, segundo os Mandamentos?

Dina – Senhor, vejo que és  um Profeta!

Cristo – Mulher, Eu sou mais que Profeta!… Onde estão os teus filhos?

Dina – (Baixa a cabeça, olha para o chão …) Não tenho filhos!

Cristo – Não tens, mas já tiveste!…Não os tens nesta Terra, mas as suas pequenas almas, que tu impediste de verem a luz do dia, acusam-te… (Pausado, mas incisivo…) Sempre jóias,…belos e provocantes vestidos,…casa rica,…mesa farta,…festas,…brincos,…colares,…cintos de ouro e prata,…pulseiras vistosas,… mas tu és uma desgraçada, uma miserável! Sim, há em ti um enorme vazio, lágrimas e muita miséria interior. És uma desorientada, uma perdida, uma barca à deriva,…apesar do teu falso e enganador ar de felicidade! Somente com um arrependimento sincero, através do perdão de Deus e do perdão dos teus filhos, poderás vir a ser verdadeiramente rica!

Dina –(Sentindo-se incomodada, semblante atingido pela tristeza, lágrimas a aflorar…)Senhor, tens razão! Eu tenho vergonha! É mesmo como dizes!…(tapa o rosto com as mãos para disfarçar um  choro convulsivo…)

Cristo – E do Pai que está nos Céus, tu não tinhas vergonha quando praticavas o mal? Não chores pela vergonha diante do Homem…Vem aqui, Dina, para mais perto de Mim (ela senta-se no muro, perto de Cristo). Eu vou falar-te de Deus, que talvez não conheças bem e, por isso, tens feito tanta asneira…Se tivesses conhecido bem o verdadeiro Deus, não terias descido tão baixo, pois Ele te teria falado, instruído e amparado.

Dina –(Tentando desviar a conversa) Senhor, os nossos pais adoravam Deus neste monte (Garizim). Vós dizeis que só em Jerusalém é que se deve adorar. Mas Tu dizes: Deus é um só. Ajuda-me a ver o que  devo fazer, como e onde!

Cristo – Mulher, crê em Mim! Vai chegar a hora, que já começou, em que nem no monte Garizim, da Samaria, nem no monte Sião, de Jerusalém,  o Pai será adorado. Nós adoramos Aquele que conhecemos, porque a Salvação vem dos Judeus, como vieram também os profetas. Os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade, não mais com o rito antigo, mas com o novo rito, no qual não haverá sacrifícios e ofertas de animais consumidos pelo fogo, mas Sacrifício eterno da Hóstia Imaculada, queimada pelo Fogo do Amor. Será um culto espiritual do Reino espiritual. Deus é Espírito e aqueles que O adoram devem adorá-Lo em Espírito e Verdade.

Dina – Tu tens palavras santas, nunca ouvidas por aqui!… Eu sei que está para chegar Aquele que  também é chamado o Cristo. Quando vier, Ele nos ensinará todas as coisas. Também por aqui perto anda aquele que dizem ser o seu Precursor. Muitos vão ouvi-lo, mas ele é tão severo!…Diz coisas terríveis! Só falta que mande cair fogo do céu! …Tu és bondoso,…calmo,…compassivo,…tolerante,…não ameaças, não insultas, não metes medo, dizes palavras que que vão direitas, como setas, ao nosso coração. Penso que o Cristo também será assim, como Tu!. Dão-lhe o nome de Conselheiro Admirável, Deus Forte, Príncipe da Paz …( Is 9,5) Ainda falta muito para  Ele vir?

Cristo – Eu já te disse que o tempo Dele já chegou e que Ele já está entre vós.

Dina – Como é que o sabes? És porventura um dos seus discípulos? O Precursor tem muitos discípulos, que depois vão ser discípulos do Cristo.  Quem me dera vê-LO!

Cristo – O que farias, se O visses e te encontrasses  frente-a-frente com Ele?

Dina – Isso seria sonhar! Há tantos anos que foi profetizado e calhar-me a mim essa bênção…nem quero crer! Acho que me ajoelharia a Seus pés e lhos beijaria! Depois, pedia-lhe que me limpasse a alma e me aceitasse ao Seu serviço como a mais ínfima das suas servas! …Mas isso…é sonhar demasiado alto! Como eu seria feliz,… feliz,… feliz!… (Olhando para o céu com ar sonhador…)

Cristo – E como achas que será o Cristo, o Messias?

Dina – Penso que será um Homem alto, bonito, de cabelos louros até aos ombros, de olhos azuis, com uma barba dividida a meio, com uma testa grande e saliente, com um porte real, majestoso, com um olhar vivo, límpido e perscrutador, capaz de ver através do opaco, meigo, bondoso, manso, atraente, irresistível, de sorriso divinal e fazendo covinhas nas faces quando sorri,…tudo assim como Tu!

Cristo – Dina, olha bem para Mim! … Eu, que estou a falar contigo, sou o Cristo Jesus, o Messias, o Salvador, o Rei espiritual de Israel.

Dina –(Levanta-se de repente, em grande confusão, com gestos descontrolados, com cara de medo… e mostrando sinais de querer fugir…) Tu!?…Oh!…

Cristo – Espera aí, mulher! Porque foges de Mim? Que mal te fiz Eu?

Dina – Porque tenho nojo de ficar perto de Ti. Tu és santo!…E eu…Eu também fujo de mim!

Cristo –Confia em Mim! Eu sou o Salvador, Aquele que tira o pecado do Mundo. Eu Vim até aqui porque sabia que a tua alma andava cansada e errante e tu andas enjoada do teu alimento venenoso …Eu vim para dar-te um alimento novo que te tirará as náuseas e o cansaço…Olha, lá vêm os Meus discípulos de volta, com pão! Mas Eu já estou alimentado por te ter dado as migalhas iniciais para a tua redenção.

Dina – Senhor, Tu não vieste aqui por acaso!…Ajuda-me! Hoje mesmo vou mudar de vida! Não quererás aceitar-me como uma humilde serva ao Teu serviço?

Cristo – A tua hora chegará! Acompanharás outras mulheres na difusão da mensagem que Eu venho trazer ao mundo. Há muitas outras ovelhas como tu que precisam dos nossos cuidados.  Aguarda e, a seu tempo, chegará a tua oportunidade! Por agora, sê apóstola na tua cidade!

 Os discípulos chegam, olham intrigados, de soslaio, meio disfarçadamente, para a mulher, mas nenhum diz nada ou pergunta o que quer que seja ao Mestre. Apenas cochicham entre si e se interrogam mutuamente. Dina afasta-se, deixando no local a ânfora vazia, sem mais pensar na água. Pedro interrompe aquele silêncio embaraçoso:

Pedro – Aqui está, Mestre! Eles (habitantes de Sicar) trataram-nos bem. Eis o queijo, o pão fresco, as azeitonas e as maçãs! Serve-te! Aquela mulher fez bem em deixar a ânfora. Assim guardaremos melhor a água e não precisaremos de pedir mais nada aos Samaritanos… Não comes? Eu quis trazer-te peixe, mas não encontrei. Talvez preferisses o peixe. Mas…tens ares de  cansado e  estás pálido!…

Cristo – Eu tenho um alimento que vós não conheceis. Comerei dele e ficarei bem alimentado.

Os discípulos trocam olhares intrigados e interrogadores, cada um fazendo as suas perguntas mudas e olhando à volta para tentar descobrir algo parecido com alimento… Cristo esclarece:

Cristo – O Meu alimento é fazer a vontade Daquele que Me enviou e levar a bom termo a obra que Me entregou. Eu venho fazer a sementeira do Reino. O semeador sempre se alegra com o fruto da sua sementeira. Assim, Eu me alegrarei com a colheita que vós ides fazer quando ceifardes e, pelo vosso trabalho, Eu vos compensarei com o devido salário no Meu Reino eterno. Vós só ceifareis, porque o trabalho mais duro Eu já o terei feito. Quando todo o trigo que Eu tiver semeado for por vós ceifado, então se cumprirá a vontade de Deus e Eu me sentarei para o banquete na Jerusalém celeste. Mas… vamos almoçar, pois não tarda muito que os Samaritanos de Sicar apareçam por aí com a Dina. Sede simpáticos e caridosos para com eles! São almas que vêm à procura de Deus, ovelhas tresmalhadas à procura do Pastor.

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E. Miguel

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O contrato de Judas com o Sinédrio (Mt 26,14-16)

(Realidade e Ficção)

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Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse-lhes: ”Quanto me dareis, se eu vo-Lo entregar”? Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus. (Mt 26, 14-16).

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Aproximava-se o fim da pregação do Reino e Cristo estava quase a consumar a sua missão de evangelizador.

Um dia em que Jesus e os Apóstolos se encontravam todos em Jerusalém, Judas foi abordado por alguém para se apresentar com urgência na casa de campo de Caifás, o sumo sacerdote que presidia ao Sinédrio. Judas tinha contas a dar a respeito da sua actividade de espião e de agente subversivo. Cristo já tentara salvá-lo, mas a última tentativa falhara, talvez por se ter comprometido com o Sinédrio, no sentido de O espiar e criar situações que levassem Cristo a ser apanhado em pecado, uma vez que se precisava urgentemente de uma razão forte e convincente para O condenar. O plano gizado por Judas e pelo Sinédrio falhara e era a hora de chamar Judas a contas, para se explicar e justificar o falhanço.

É noite! Um vulto solitário caminha em direcção a uma casa no alto de uma colina no exterior das muralhas de Jerusalém, numa noite de luar em que a própria sombra parece assustar Judas, que caminha nervoso, parando e olhando de vez em quando para trás, a fim de se assegurar que não é seguido… Finalmente, chega ao portão da casa de Caifás, e, a um sinal de pancadas previamente combinado, ele abre-se e Judas é introduzido num salão já preparado para o receber. Em círculo dispõem-se os personagens que foram convocados para esta audiência a Judas. São membros do Sinédrio, que condenará Jesus à morte, passando por cima de todos os direitos e usando todos os meios desonestos, ilícitos e ilegais.

Judas – Então, já começastes a reunião?

Todos – A paz esteja contigo, Judas!

Judas – A paz esteja convosco, ó membros do santo Sinédrio! Como calculo o motivo que vos levou a convocar-me, quero antecipar-me às vossas perguntas e dizer-vos o que se passa com o Cristo. Tendes que vos despachar naquilo que quereis fazer com Ele, pois Ele já desconfia de mim e dos meus planos para vo-Lo entregar… e eu estou a chegar ao ponto em que nada mais poderei fazer por vós.

Sadoc – Não nos digas que te deixaste descobrir, ó grandecíssimo tolo!

Judas – (irritado e nervoso) Vós é que sois uns tolos, pois, com toda essa pressa em que ferveis, não planeais bem as coisas e fazeis coisas disparatadas. Vós é que não tendes confiança absoluta em mim!

Elquias – Não te lembras que te entregámos um plano há pouco tempo e que tu não concordaste com ele?

Judas – E pensais que é fácil trair o Único amigo que eu tenho, o Único que me ama de verdade sem esperar nada em troca, um Inocente que vai ser vítima de um crime?

Joaquim – Acalma-te, não estejas nervoso! O que tu fazes é uma obra santa pela pátria e toda a nação te agradecerá. O teu nome será honrado pelas gerações, porque tu figurarás entre os heróis de Israel. Tu chegarás ao poder, ditarás leis e fá-las-ás cumprir, porque tu serás o salvador da pátria. Tu serás aquele que fará desaparecer do número dos vivos o novo Holofernes que quer destruir a nossa querida pátria. Para isso, basta que colabores connosco naquilo que puderes, pois tu és imprescindível neste processo, uma vez que O conheces bem e facilmente O identificas, esteja Ele onde estiver!

Doras – Além disso, o Sumo Sacerdote Caifás falou profeticamente quando disse que era bom que morresse um homem pela nação, para que a nação não fosse destruída. Foi o Altíssimo que falou pela sua boca….Estás nervoso! Não nos acreditas? Nós somos teus amigos e queremos o teu bem, por isso, faremos tudo para que sejas um grande de Israel e isso dentro em breve! Aqui à tua volta estão representados as famílias sacerdotais, os Anciãos, os escribas, os fariseus, os rabis, os doutores, as autoridades do Templo, todos eles prontos para aclamar-te e convencer-te a fazer uma coisa santa de que te orgulharás toda a tua vida. Tomaram muitos estar no teu lugar!

Judas – Mas eu não vejo aqui Gamaliel, José de Arimateia, Nicodemos, João, Eleazar…e eles têm o direito de estar aqui, apesar de estarem a seu favor! Porque não foram convocados?

Caifás – Nós não os avisámos para esta reunião secreta, porque eles podiam dar com a língua nos dentes, …e estragar tudo. Tu sabes bem que eles simpatizam com ele. É melhor assim, para pensarmos todos por igual, a bem da nação e da glória de Deus…

Cananias – As tuas palavras são de verdadeira sabedoria, ó Sumo Sacerdote! Aceitando a sugestão de Judas de que devemos andar depressa e com passo firme, sem hesitações, julgo que devemos resolver já de uma vez por todas. Pertence a ti, ó digníssimo Caifás, como Sumo Sacerdote do Deus Altíssimo, fazer-nos a proposta final.

Caifás – Interpretando a vossa vontade e a vontade de Deus neste magno assunto, proponho que entremos em negociações com Judas para ele no-lO entregar sem mais preocupações da nossa parte. Sendo assim, nós propomos a Judas um pagamento de 30 denários e, em troca, ele deverá informar-nos onde O poderemos apanhar de noite, sem que o povo se aperceba disso. Judas, que dizes?

Judas – (agitado) É pouco! Isso é uma miséria para os serviços que vos presto! Esse preço nem seria justo se fosse para vos entregar um vulgar ladrão ou matar e esfolar um coelho! Para vos entregar Quem vós desejais neste caso, tendes que pagar 90 dinheiros, pelo menos.

Caifás – Não pode ser! Está escrito ( Zacarias 11, 12-13) que serão 30 denários e o que está escrito foi escrito pela vontade de Yahweh, por isso temos de respeitar a sagrada vontade de Yahweh, manifestada pelo profeta. É verdade que se trata de um preço simbólico, mas é esse o preço que pagaremos, para não irmos contra as sagradas Escrituras. Em troca, ficarás assinalado como um dos grandes de Israel, que todos louvarão e invejarão! Ele deve morrer e tu abrir-nos-ás o caminho para prendermos e julgar esse falso profeta, esse blasfemo, esse inimigo de Israel e do povo santo de Deus.

Judas – Para já, tudo o que dizes é falso, mentiroso, difamatório, calunioso. Ele não é nada do que dizes. Ele é um profeta e infinitamente mais que um profeta. Todo Ele é divino, todo Ele é puro Amor, compreensão, bondade, perdão. Ele conhece o íntimo dos corações e a estas horas até sabe o que eu e vós estamos a fazer e onde! Fico com a espinha congelada só de pensar que Ele me está a ver. Vós e eu somos uns miseráveis, uns assassinos, uns ladrões, uns montes de corrupção, uns traidores, uns hipócritas,… que vamos cometer o maior dos delitos que se podem cometer, a morte do Messias de Israel. Tenho umas perguntas a fazer-vos, se é que me autorizais!

Anás – Diz!

Judas – Vós acreditais que o profeta se referia ao verdadeiro Messias quando disse que seria vendido por 30 denários?

Anás – Acreditamos!

Judas – Então, vós próprios estais a dizer e a confirmar que Ele é o verdadeiro Messias de Israel, uma vez que dizeis que este preço é o estipulado pelo profeta. Ninguém encomendaria e ninguém aceitaria o assassínio de um homem por esse preço ridículo. Logo, tendes de concluir que vós próprios acreditais no que dizeis, isto é, que Ele é o Messias profetizado!

Caifás – ( Depois de uns momentos de silêncio e de troca de olhares cruzados)…Esse argumento…Temos de pensar! …

Doras – Nós não te entregámos a sua defesa nem te constituímos seu advogado! Pagamos-te por um nobre serviço e é sobre ele que estamos a negociar. Enquanto te decides, quero que nos expliques o que fizeste com o dinheiro que te demos para o apanhares em pecado, pois ainda não nos falaste sobre isso….Estamos à espera que fales!

Caifás – Deixai lá isso, por agora! Quanto à questão que o Judas colocou, parece ter lógica, mas…só parece! O profeta deve ter referido esse preço se o Messias aparecesse naquele tempo. É evidente, nos tempos de hoje, que esse preço é irrisório e inaceitável. Contudo, nós temos de ser fiéis à palavra do profeta ou então… Anás, que te parece?

Anás – As contas são fáceis de fazer! Se aceitamos as palavras do profeta e só pagamos os trinta denários, temos de reconhecer que o nazareno é o Messias e, nesse caso, não estamos aqui a fazer nada!

Joaquim – Só há um meio de resolver isto!… Os trinta denários e o Messias são indissociáveis, por mais voltas que demos. Ou aumentamos o preço e negamos o Messias, ou mantemos o preço e reconhecemos que ele é o Messias. Nenhum de nós viu isto a tempo! Agora já não sei o que dizer! O que eu ia a dizer já não faz sentido.

Elquias – Cá para mim,…Não! …É melhor calar-me! Para mim isto está a ficar muito confuso! O Caifás, que explique!

Caifás – Temos de dar a volta a isto! Judas, diz lá qual seria preço justo pelo teu serviço?

Judas – 144 denários! Acho aceitável!

Caifás – Certo! Então, nós pagaríamos os 144 denários, mas tu devolverias voluntariamente, como oferta ao Templo, o que vai de 30 até 144, isto é   110 denários. O Templo ficava assim compensado pelo dinheiro que te pagou por um serviço não feito. Achamos que será feita justiça!

Judas – ( Limpando o suor) Mas isso não muda nada! Eu…fiz tudo o que podia… e cumpri o que tinha combinado convosco! Paguei a uma meretriz jovem e bonita, aquela que vós me aconselhastes, informei-a sobre o local e a hora em que ela poderia encontrá-Lo, mas ela falhou, como falharam outras, acabando Ele por convertê-la  à Sua Causa. Algumas, depois de terem tentado seduzi-Lo, fugiram como se tivessem visto o Belzebú. Conheceis aquela famosa irmã de Lázaro, a Maria? A essa eu não a convidei, mas Ele converteu-a e fez dela uma adepta incondicional e convicta, que suporta todos os sacrifícios por Ele! A outras,… eu paguei…,mas elas falharam também e ficaram com o dinheiro. Juro que foi assim! Além disso, Ele até desafiou todo o Israel a apanhá-Lo em pecado. Lembro-me de Ele ter dito: “Quem de entre vós será capaz de me apanhar em pecado”? Ora, um homem que faz este desafio tem que forçosamente ser santo e mais que santo. O desafio também foi feito a pensar em mim e em vós, a quem Ele acusa de sermos hipócritas, víboras, sepulcros caiados e outros mimos semelhantes. Ele tem um poder de que vós nem suspeitais! Agora, não me peçais o dinheiro, porque não o tenho.

Pelo pecado, garanto-vos que nunca O apanhareis, por isso, não percais tempo com essas manobra! Ele é diferente de todos os homens. Ele nunca se irrita, nunca humilha ninguém, corrige com amor, delicadeza e mansidão, nunca se vinga, perdoa sempre, cura todos os doentes que acreditam no Seu poder…Ele é mesmo Amor e tudo faz em nome do Amor. Sei que muitas vezes chamou a atenção do Pedro, que não simpatiza comigo…Eu até me lembro de uma vez em que, numa aldeia, nos trataram mal e ninguém nos quis ouvir. Dois de nós pediram-Lhe autorização para mandar vir fogo do céu sobre oshabitantes, para os consumir…Sabeis o que Ele nos respondeu? Disse que Ele tinha vindo ao mundo para dar a vida, e não a morte, e queria que os homens se arrependessem dos seus pecados e tivessem vida longa. Não há no mundo um homem assim, por isso, ide mais directos, de contrário, andais aí a empatar…

E quanto aos milagres, que vós atribuís a Satanás, Ele nunca invocou Satanás para os fazer, mas diz sempre: “Eu quero, fica curado,…Eu quero, levanta-te e anda, vê, ouve, volta à vida. Eu quero,…Eu quero…” e a Satanás Ele diz : “ Sai desse homem!” A outros dizia:” Eu te absolvo dos teus pecados!”. Ele nunca disse:” Em nome de Iahweh…, em nome de Satanás…, em nome de Belzebú”. E quando ressuscitou Lázaro Ele disse: “Lázaro, Eu te ordeno: Vem cá para fora!”. Vós julgais que Ele é um simples homem? Isto, para compreenderdes as dificuldades que enfrento para cumprir os meus compromissos para convosco! Por isso, tendes de ser tolerantes para comigo e também devíeis ser mais justos na paga que me dais! O que me propondes nem dá para matar um gato!

Elquias – Pois é! Ele é bondoso, manso, delicado…, mas a nós chamou-nos hipócritas, sepulcros caiados, filhos de assassinos de profetas e não sei que mais. Ele insultou-nos a todos, a nós que recebemos de Yahweh a nossa santa autoridade. Mas, há mais: Este miserável preço de 30 denários, como tu dizes, que te oferecemos, também tem em conta aquele dinheiro que te demos para o apanhares em pecado, visto teres falhado. Esse dinheiro devia ser-nos devolvido. Como não o devolves, és ladrão. Também és um mentiroso, pois acreditamos que o gastaste em teu próprio proveito. Por tua culpa, ele tem cada vez mais discípulos e se não agirmos depressa…será a nossa ruína e a ruína de Israel.

Judas – Mas, tendo vós tantas oportunidades para O prenderdes quando Ele pregou no Templo, mesmo sob as vossas barbas, porque não O prendestes, se era tão fácil? Porquê recorrer a mim, a meretrizes, ao dinheiro nojento, como nojentos sois todos vós? Eu, agora, é que sou o culpado? E quanto a ladrões, vós é que o sois, por roubardes o tesouro do Templo, para comprar meretrizes e para preparardes um assassínio! É isso a vossa santidade?

Elquias – Sabes muito bem porquê! Porque ele sempre se escapou, por manobras que o Belzebú lhe inspirava. Nós sentíamo-nos bloqueados, paralisados,…quando ele despedia raios dos seus olhos contra nós. Cada um de nós tinha a impressão que estávamos a ser vistos como se estivéssemos nus.

Judas – Pois é! É isso! Ele vê-vos por dentro e por fora e nada do que sois Lhe escapa! Ele vê a vossa vida de aves de rapina, de feras selvagens, de animais de estrumeira a fossar no estrume, víboras sempre à espreita de lançar veneno sobre todos aqueles que estão a par da vossa imundície.

Caifás – Tudo isso és tu, miserável! É assim que pagas a quem quer ajudar-te e que tem ajudado? Nós partimos-te já esses queixos e cortamos-te já essa língua atrevida! Vamos a ele e resolvamos já este assunto! (Levanta-se ameaçadoramente)

Elquias – Calma aí, ó Caifás! Não é assim que resolvemos o assunto! Temos de respeitar o Judas e agradecer-lhe os esforços que tem feito para nos ajudar. Temos de ser tolerantes para com ele, pois, se mais não fez, é porque não pôde!

Joaquim – Bem, agora que estamos mais calmos, ainda vos lembro aquele atrevimento do nazareno, quando desatou às chicotadas sobre as mesas dos que lá vendiam coisas no Templo, pondo tudo de patas para o ar. É esta a mansidão de que fala o Judas? Ele até disse então que nós estávamos a profanar a Casa do Seu Pai. Que atrevimento! Que presunção! Como é que o Templo é a Casa do seu Pai? O Seu pai não é um carpinteiro de Nazaré? O Judas tem de compreender que nós não acreditamos em nada do que diz.

Judas – Há coisas que vós não entendeis. Dessas coisas que Ele disse:…hipócritas, vendilhões, sepulcros caiados, filhos de assassinos… há alguma que não vos assente como uma luva?

Caifás – Judas, vê lá como falas! Estás a insultar o santo Sinédrio! Tu estás aqui para responder às nossas perguntas e não para as fazer! Com todo esse discurso prevejo que ainda voltas atrás e ficas com Ele! Tudo bem! Nós estamos a ser tolerantes, pacientes e compreensivos. É por isso que já te fizemos a proposta final de um pagamento de 30 dinheiros (denários), pois mereces um pagamento pelo teu esforço e dedicação. É justo que assim seja. Quem está contra esta proposta que fizemos ao Judas de Simão? …Vejo que não há votos contra! Assim, Deus nos ajude e ilumine Judas para ver como Yahweh o escolheu para esta grande missão de nos entregar esse falso messias.

Judas – (Contrariado) Tenho de corrigir aí uma coisa. Vós, aqui, não sois o “santo Sinédrio”! Sois um grupo convocado à pressa e ilegalmente, porque não enviastes aviso aos outros que aqui não estão. Além do mais, também não sois santos, como Ele já vos demonstrou. Quanto ao preço, digo que é injusto, mas não me deixais alternativa.

Sadoc – E agora,…diz lá: onde está Jesus de Nazaré?

Judas – Está em Betânia, em casa de Lázaro que, como sabeis, é o seu mais fiel amigo e é protegido pelos Romanos. Não tenteis aí, porque Lázaro tem muitos servos e só dará sarilhos.

Cananias – Nós confiamos em ti, pois tu és sagaz, inteligente e recto de coração. Yahweh estará contigo na hora certa. Aguardamos que essa hora chegue.

Judas – E quanto ao pagamento?

Caifás– Só te pagaremos quando vieres ter connosco e nos disseres: “É agora, vinde comigo”! Só então é que receberás o dinheiro e naquela quantia de que já falámos.

Judas – Então, até à próxima! A paz fique convosco!

Todos – E contigo também. Adeus!

Faz-se silêncio até se ouvirem os portões de ferro a fechar e depois… todos saltam de alegria e se abraçam efusivamente, todos dando os parabéns a todos…

Doras – E agora? Que faremos quando Judas descobrir que também nós o vamos trair? Daquilo que lhe prometemos…só ficarão os miseráveis 30 dinheiros, o preço que se dá a alguém pela morte de um cordeiro. Este idiota…já o temos no papo! Deve estar muito faminto de dinheiro, para aceitar uma recompensa destas! Será que não vai espalhar pelo povo o que fizemos com ele? Isso seria a nossa desgraça. Poderíamos ter de enfrentar uma revolta popular e daí…quem sabe como tudo ficaria? Ele não é de confiar, devido ao seu temperamento inconstante e às artimanhas de que já deu provas. Nele não é fácil saber quando diz a verdade ou quando nos crava a mais descarada mentira. Na minha opinião ele é um comediante.

Caifás – Não há que ter receios! O povo voltar-se-ia contra ele, por se ter posto ao nosso lado e contra o Nazareno. Por agora, ele tratará do Nazareno e depois…nós trataremos dele sem que o Povo se aperceba!… Este assunto já foi ventilado numa outra reunião. Não vos lembrais?

Sadoc – E se ele se arrepender antes de…?

Caifás – Ele não vai ter tempo para isso!…E vós todos tende cuidado! Daqui não pode sair uma única palavra para o Gamaliel, o José de Arimateia, o Nicodemos, o João, o Eliseu, o Eleazar e outros! Eu não confio em nenhum deles. É preciso andar com o olho neles, não vão eles suspeitar de alguma coisa.

Doras – Eu estou muito contente por ver este dia e outros que se aproximam. Vejo finalmente a vingança que o meu pai desejaria executar sobre o nazareno, que, um dia, fulminou o meu pai mesmo ali em frente dele, caindo morto instantaneamente a Seus pés.(1)

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  • Nota – Isso aconteceu após uma cena de agressividade verbal e tentativa de agressão física a Cristo, por Ele ter lançado sobre os seus pomares uma maldição que tornou estéreis todas as suas árvores de fruto. Doras- pai mantinha os seus servos em escravatura cruel. Cristo tentara torná-lo mais humano, mas ele não cedera. Quando viu os pomares secos, quis tirar desforra de Cristo e excedeu-se no palavreado e nos gestos, tentando mesmo apedrejá-Lo. O excesso de cólera causou-lhe um ataque cardíaco fulminante. Doras- filho tem esses acontecimentos ainda bem vivos na memória, tanto mais que os pomares que herdou continuam estéreis e mirrados, queimados pela maldição. Tal como faria com Judas, Cristo tinha feito tudo para que Doras – pai se convertesse e tratasse bem um dos servos gravemente doente. Tudo em vão! Cristo acabou por pagar o resgate do servo doente e providenciou no sentido de estar presente na hora da sua morte.

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Ezequiel Miguel

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O golpe de Judas

(Realidade & Ficção)

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Personagens:

. Jesus Cristo

. Judas Iscariotes

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Judas24Judas frequentava o Templo de Jerusalém e convivia de perto com os sacerdotes, os escribas e os fariseus, tendo muitas amizades entre eles. Possivelmente, seria um estudante de teologia e um candidato a doutor da Lei. A sua figura imponente, esbelta, ricamente vestida, era de molde a chamar a atenção por onde passava. Tinha fama de se insinuar facilmente junto das donzelas de Israel, às quais prometia união de casamento, mas depois…abandonava-as, para ir recomeçar com outra. Em certas aldeias próximas de Jerusalém já tinha a cabeça a prémio.

Ele não desconhecia as profecias sobre o Messias e, como muitos outros, aguardava os sinais do Sua presença próxima. Mas ele, tal como todas as autoridades religiosas do povo judeu, era também uma vítima das circunstâncias políticas que se tinham abatido sobre Israel, após a invasão e ocupação do território pelo exército romano. Assim, o que se precisava era realmente de um Messias que viesse restaurar a Monarquia e a independência de Israel e o ambiente não era nada favorável para se aceitar um Messias conforme as profecias das Escrituras o apresentavam.

Um dia, Cristo entrou no Templo, fez a Sua pregação, apresentou-se como o Messias e confirmou o Seu poder com uma estrondosa cura. Entre os assistentes estava Judas, que mediu Cristo de alto a baixo, as  Suas palavras, os Seus gestos, o Seu poder e autoridade com que falava e agia. Tinha que ser mais que um profeta, para fazer o que fazia e dizer o que dizia e como o dizia!

A cabeça de Judas começou então a girar, a calcular, a especular, a sonhar…Ele não foi daqueles que atribuiu a Cristo poderes conferidos por Satanás. Ele viu mais longe e não demorou muito a tirar todas as conclusões : Ele era o Messias que vinha para restaurar o Reino de Israel, há muito ocupado pelos Romanos. Judas também já sabia que Cristo andava a escolher discípulos para o acompanharem na Sua missão. Na visão de Judas, estes seriam os futuros ministros do Messias, o futuro Rei de Israel unificado. Ele próprio não poderia ser um deles? Se outros podiam!… E não demorou a gizar um plano para se encontrar com Jesus de um modo discreto, para uma conversa a sós. E encontrou-O, após muitos esforços nesse sentido:

Judas – Salve, Mestre! Encontro-Te, finalmente! Estou farto de andar à Tua procura!

 Jesus – Quem és tu, que tão distintamente te apresentas?

Judas – Sou Judas de Simão, natural de Keriot. Estou no Templo e vivo sonhando com o Rei dos Judeus. Da análise que eu já fiz de Ti, esse Rei és Tu. Aceita-me como Teu discípulo! Penso que ainda vou a tempo de me candidatar, pois vejo-Te rodeado de poucos!

Jesus – Aceitar-te, assim sem mais nem menos? Não! Não pode ser assim! Isso exige estudo, tempo, decisões firmes e inabaláveis, recta intenção, coragem, constância, humildade, …e muito mais!

Judas – Não acreditas que Te peço isso com sinceridade? Eu já pensei muito sobre este passo, por isso, não considero que seja leviandade da minha parte.

Jesus – Judas, Eu vejo em ti apenas impulsos momentâneos que se esvaem como o fumo quando o fogo se apaga. Pensa nisso até Me encontrares de novo! Brevemente poderás encontrar-Me. Nessa altura falaremos!

Passado algum tempo, Judas volta a encontrar Jesus num espaço aberto do Getsémani, num ambiente de oliveiras:

Judas – Salve, Mestre! Sou Judas de Keriot, aquele que Te pediu para o aceitares como Teu discípulo. Não Te lembras?

Jesus – (Nada entusiasmado)  Lembro! Vieste ter comigo há pouco tempo!

Judas – Então, aqui estou eu de novo. Segui a Tua sugestão de pensar, meditar, pesar os prós e os contras…e já decidi. Quero mesmo que me aceites no Teu grupo!

Jesus – E quais os motivos que te levam a querer?

Judas – Eu repito o que disse da outra vez:  Eu vejo em Ti o Rei do futuro Reino de Israel. Nada mais natural que eu queira estar a Teu lado nesta missão de restaurar o Reino de Israel!

Jesus – São então esses os motivos?

Judas – São! E acho que são motivos nobres! Ponho-me ao Teu serviço, juntamente com os meus bens, as minhas capacidades, os meus conhecimentos, amizades, trabalhos, etc.

Jesus – Vejo que és um homem ambicioso, um sonhador, um exaltado…Mas Eu não te procurei, não te chamei nem te convidei!

Judas – Mas eu, pelo contrário, procurei-Te por todo o lado e até recorri a espiões para me informarem do Teu paradeiro.

Jesus – Pensas que terá sido algo de bom para ti o teres Me encontrado?

Judas – Claro! Se eu Te procurava, foi bom encontrar-Te!

Jesus – E porque Me procuravas?

Judas – Obrigas-me a dizer outra vez? Vejo que não me compreendes!

Jesus – Eu compreendo-te, mas também quero que Me compreendas, antes de Me seguires por todo o lado. Eu devo esclarecer-te que as tuas ideias sobre Mim, o Messias, estão erradas. Eu não vim ao Mundo para cumprir o plano que tens na cabeça, nem coisa que se pareça!

Judas – Mas não és Tu Aquele que as Escrituras apontam como o Rei dos Judeus, Aquele de que falaram os profetas? Tu manifestas todos os sinais do verdadeiro Messias: Falas e ages como Deus, Deus está em Ti e Tu estás em Deus, operas milagres, conheces o passado, o presente e o futuro, és santo! Ora, onde Deus está e actua  há sucesso garantido! Por isso, não sei o que é que receias. Se as Escrituras profetizam tudo a Teu respeito, como é que podes trair a missão que Te foi confiada de libertar o povo da escravidão, como está escrito? É neste sentido que eu quero fazer algo pelo nosso povo, colocando-me a Teu lado no trabalho e na glória que advirá para o povo de Israel.

Jesus – Judas, tu deliras no teu sonho! Advirto-te que aquilo  que Me está reservado não é um bonito sonho, melhor dizendo, é um bonito sonho, mas pelo meio há um tremendo pesadelo. O meu Reino não é deste mundo. O que Eu trago a Israel não é a glória  mundana nem a luz da ciência mundana. Eu venho instaurar uma nova ordem meramente espiritual, fazer de todos os pecadores novos santos e abrir-lhes as portas da Vida Eterna. Neste novo Reino de Paz e Amor não há lugar para ódios, rancores, vaidades, ambições mundanas, crimes, desonestidades, roubos, divórcios, luxúrias, vinganças, guerras, invejas, acumulação de riquezas, avareza,… A Minha missão é salvar almas, conquistando-as a Satanás, arrancar-lhas através do arrependimento e dos novos meios que Eu venho estabelecer para a Salvação Eterna. Não vim para fundar  ou conquistar reinos mundanos. Que lugar quererás tu no Meu Reino, onde, em vez de glória, prestígio, louvores, recompensas materiais,…te estarão guardadas fome, sede, pobreza, honestidade, santidade, humilhações, perseguições e, no fim, uma injusta sentença de morte por causa do meu Nome? Sendo assim, não tenhas ilusões! Eu não libertarei o Povo do poder de Roma, nem lutarei contra César e se Eu já vim a este mundo sob o domínio de César, também o deixarei sob o seu domínio. Não serei um chefe político e não aceito ninguém imbuído dessas ideias. Por isso, Judas, é melhor ponderar estas coisas, antes de insistires.

Judas – Queres então  dizer  que me rejeitas!

Jesus –  Serei Eu que te rejeito ou serás tu que te rejeitas? É por Amor que te mostro as desvantagens que te circundam, é por Amor que eu digo a alguém que o remédio que vai tomar é veneno mortal, é por Amor que eu digo a um inocente que não tome aquele veneno, que pode destruí-lo, arruinar a sua saúde ou matá-lo.

Judas – Bem! Penso que estás a exagerar! Eu poderei envenenar-me ou arruinar a minha saúde se andar Contigo? Não acredito nessa! Dizes isso para me convenceres a não teimar no pedido que Te faço, porque, está visto, não me queres aceitar. Mas aceitas outros, que já andam Contigo e que são muito inferiores a mim em condição social, cultura, conhecimentos, influência, riqueza. Já contei seis que andam Contigo por todo o lado…Vais buscar pescadores, ladrões, cobradores de impostos, artífices,… todos uns Zés-Ninguém e até um ex-leproso que Tu curaste. Que queres Tu fazer com essa gente? Eu não reunirei melhores créditos do que eles para ser seleccionado? Não sei porque embirras comigo! Nunca Te fiz mal nenhum e só desejo fazer-Te Bem ajudando-Te na Tua missão de Messias de Israel!

Jesus – Judas, desiste do teu pedido! Tu arruinarás não só a saúde, mas até a vida do corpo e da alma. Tu conviverás com o Santo, mas tornar-te-ás Seu inimigo e como tal virás a ser um dos Seus inimigos, um assassino!

Judas – Assassino, eu? Só essa me faria rir! Acaba lá com esses argumentos ocos e admite-me! Se és o Salvador, como confessas que és, não podes rejeitar-me, porque eu também sou pecador e preciso de ser salvo e, se Tu és a Salvação, como podes rejeitar-me? Isso não é próprio de um Messias Salvador! Não vieste Tu para as ovelhas perdidas de Israel, como está escrito e Tu dizes? Então, eu sou uma dessas ovelhas perdidas, logo, não podes rejeitar-me! Eu vou ser-Te fiel até à morte! Não tenhas receios a meu respeito! Não Te desiludirei!

Jesus –(Triste e pensativo) Sim!… Sim!…Até à morte!…Até à morte!…Depois!…

Judas – Em que estás a pensar, Mestre? Não entendo esses silêncios!

Jesus – Judas, insistes?

Judas –Ainda me perguntas? Como não insistir? É isso que eu quero, custe o que custar!

Jesus – (Suspirando, triste e abatido) Assim seja!… Entrego-te à  misericórdia de Deus! Que Ele  esteja contigo e te proteja!

Judas – Obrigado, Mestre. Nunca lamentarás a tua decisão!

Jesus – (Desanimado) Sim, Judas!…

 .

Considerações:

  1. Judas comete aqui vários erros em juízos, afirmações, atitudes, palavras…, mas o seu erro principal e que está na base de todos os outros é a sua falta de recta intenção, ao apresentar-se a Cristo para O seguir. Não se pode tentar servir a Deus a pensar em recompensa material, porque Deus não  dá valor a esse serviço, que visa apenas glória e prestígio pessoais.
  1. Judas não mostra ter a sabedoria própria dos humildes e dos santos, os quais penetram fundo nas mensagens da Bíblia e extraem dela o verdadeiro sumo do que lá está, contrariamente a outros que se ficam pela rama e acabam por denegrir ou deturpar a Verdade que está por baixo ou dentro da palavra escrita. Foi assim que ele acabou por ver no Messias o Rei mundano que Israel precisava para expulsar os Romanos.
  1. Judas, em toda a conversa com Cristo, sempre revela uma flagrante grosseria e falta de delicadeza para com o Mestre, tratando-O de igual para igual, discutindo de igual para igual e tornando-se até agressivo em sua argumentação.
  1. Judas revela uma boa dose de soberba, atrevendo-se até a censurar atitudes de Cristo e a dar-Lhe conselhos quanto ao que devia fazer ou devia evitar.
  1. Judas sempre se mostra um auto-convencido, um arrogante, um homem cheio de sonhos coloridos de grandeza e glória mundanas e nesses sonhos insiste e persiste, apesar de Cristo lhe mostrar que eram sonhos loucos de loucura humana.
  1. A sua soberba fá-lo insistir teimosamente na viabilidade do seu plano, apesar de o Mestre lhe demonstrar que seria a ruína do seu corpo e da sua alma.
  2. Apesar de ver em Cristo o Messias,  Judas menospreza os Seus conselhos, encarando-os como desculpas idiotas e preconceitos engendrados propositadamente para rejeitar a sua candidatura a integrar o colégio apostólico.
  1. Ao recusar os conselhos e a argumentação de Cristo, Judas tenta praticamente colocar-se numa posição superior ao próprio Senhor, invertendo as posições para fazer valer os seus argumentos.
  2.  Judas usa de chantagem ao forçar a sua admissão, acusando Cristo de ser o culpado, caso ele (Judas) venha a condenar-se, se Cristo o recusar, fingindo até ser uma das ovelhas perdidas de Israel que também precisa de ser salva, mas só será salvo se o Messias o admitir. Argumentos engendrados na mentira e na hipocrisia.
  1. Judas actua como um cego a quem se aponta que vai por um caminho que leva à morte, mas que, mesmo assim, confiando em si próprio e nos seus talentos, avança a qualquer custo para um suicídio certo.
  1. Judas mostra não confiar nos prognósticos de Cristo a seu respeito, o que equivale a considerá-Lo um adivinho, um charlatão, uma pessoa pouco ou nada credível em seus diagnósticos e prognósticos.  Mais tarde, já perto da Paixão de Cristo, Judas acusá-Lo-á de ter arruinado a sua vida, por não ter concretizado o seu (de Judas) plano, recusando assumir a mínima culpa dos seus actos.
  2. As lições de Judas são pela negativa, mas também podemos aprender muito com elas, pois, se com Cristo aprendemos o que e como se deve fazer, com Judas aprendemos o que não devemos fazer.
  3. Há quem pense (e até há livros e filmes sobre isso) que Judas foi mais uma vítima do que um criminoso, porque, segundo as teses apresentadas, já estava escrito e profetizado que ele seria o traidor do Messias. É verdade que o Antigo Testamento aponta um traidor, mas não revela o seu nome, logo, não teria necessariamente que ser Judas.  Consta: “Até aquele que comia comigo à mesa …me traiu” (Salmo 41,9).  No Novo Testamento Cristo disse: “ Dos que me deste, nenhum se perdeu, a não ser o filho da perdição” (Jo 17,12); “A esse, que vai trair o Filho do Homem, melhor lhe fora não ter nascido”. (Mt 26,24)
  4. Há quem pergunte: Se Deus sabia quem era o homem que trairia Cristo, porque não o impediu ou porque permitiu que ele nascesse? Ou porque não o converteu? Judas tinha mesmo que trair Cristo, uma vez que estava escrito que ele o trairia?
  5. Convém ter ideias claras sobre questões confusas. A explicação para questões aparentemente inexplicáveis está na liberdade individual e na vontade soberana que Deus concedeu ao ser humano, tanto para o Bem como para o Mal. Deus não interfere nas leis da Natureza, nas leis da Física ou da Química, nas leis genéticas que presidem à individualidade de cada ser humano, embora possa fazê-lo, como no caso da gravidez da Virgem Maria. Deus não impede o nascimento de um futuro criminoso, mesmo de um homem que vai trair o Seu próprio Filho, como foi o caso de Judas. Cristo não precisava de um traidor para ser morto, porque mais cedo ou mais tarde o Sinédrio apanhá-Lo-ia quando Cristo decidisse que estava na hora. Ele próprio disporia as coisas e se entregaria, pois viera para isso.
  6. Convém não esquecer que para Deus tudo é presente e, como omnisciente que é, sabe tudo, conhece tudo aquilo que para nós está contido no passado, no presente e no futuro. Mas, apesar de saber o que cada ser humano vai ser durante a sua vida terrena, em consequência do bom uso ou do mau uso da sua liberdade e da sua vontade, Ele não pode ser culpado de não impedir o curso normal e o percurso natural que os seres humanos seguem em consequência das suas opções tomadas livremente.
  7. Em vista do que fica dito, qual o pecado de Judas, no final de contas? Foi ter arquitectado um plano e tentado sobrepô-lo ao plano de Deus, não olhando aos meios para conseguir desonestamente atingir os seus objectivos. Pelo meio ficaram pecados de soberba, orgulho, mentira, hipocrisia, ambição desonesta, roubo, luxúria, espiritismo, calúnia, cólera, inveja, agressividade verbal, desesperação de salvação e impenitência final (pecados contra o Espírito Santo), falta de respeito a Cristo, conspiração, traição, etc. Mas de Cristo ele não tinha razões válidas para se queixar, porque foi aconselhado e, no fim, também Cristo fez tudo para que ele se convertesse. Tudo em vão!
  8. Como consideração final, pergunta-se: Sabendo Cristo onde Judas iria parar, porque acabou Ele por ceder às suas pressões no sentido de ser admitido? A resposta tem a ver com  esta outra questão: Se Cristo tivesse rejeitado Judas e este, como deu a entender, tivesse entrado nos caminhos do mal, ou por vingança ou por outro motivo qualquer, e se condenasse, não poderia Cristo ser acusado de ter discriminado Judas e ser o causador da sua condenação? Tendo aceitado Judas, Cristo transferiu para ele (Judas) toda a responsabilidade e aguentou o ter de lidar com ele, que, a pouco e pouco, se ia transformando num demónio, até se transformar totalmente e se suicidar. Cristo não chorou somente por Lázaro e pelo futuro de Jerusalém, mas também chorou, e mais do que uma vez, por causa de Judas, ao sentir-se impotente para levá-lo a mudar e converter-se de vez. As lágrimas da Mãe de Jesus também não foram suficientes.

 .

Ezequiel Miguel

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Nasceu-vos hoje o Salvador (Lc 2,11)

(Realidade & Ficção)

Personagens:

Pastores: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaac, Tobias, Jónatas, Daniel, Simeão, João, José, Benjamim.

. Anjos

. S. José

. Virgem Maria

estrela

Na mesma região (Belém) encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. (Lc 2, 8-12)

Nos arredores de Belém, exactamente no lado oposto da cidade onde se situa a gruta, pernoitam os pastores, com seus rebanhos, que não são todos seus, mas pertencem aos seus patrões, uns dali, outros, de localidades vizinhas. Todas as noites eles se revezavam para que um deles ficasse de vigia. Ficava um sempre de sentinela, não  por medo de fuga das ovelhas, mas por temerem os ladrões de gado.

Não é bem verdade dizer que aquela noite era igual a todas as outras noites, porque ela, por ser mais clara que as outras, por ter um luar mais luminoso que as outras, porque a lua naquela noite requisitara ao sol uma dose extra de luz que tornava os campos não só visíveis, mas até com uma claridade estranha. Esta era a noite…a princesa de todas as noites, a rainha de todas as noites, a mãe de todas as noites, a noite das noites. Era a noite única, a noite santa, a noite profetizada séculos antes, esperada durante milénios, a noite em que o Plano de Deus iria dar o passo principal para a Redenção da Humanidade, caída sob as garras de Satanás, após a Queda de Adão e Eva, A esta Queda  também  chamamos o Pecado das origens da Humanidade ou, sinda, pecado original. Era a noite cuja memória perdurará pelo tempo até ao fim do Tempo.

A estranha luminosidade da lua, movendo-se entre as nuvens de um céu estrelado, não deixou de chamar a atenção dos pastore, que, um após outro, saíram do cabanal que os protegia do frio da noite e todos achavam muito estranho não se poder olhar para a lua sem colocar  uma mão à frente dos olhos, tal como se faz para mirar o sol. Uma lua assim nunca se vira. Enquanto todos olhavam a lua, viram aproximar-se algo luminoso, que, ao longe, através dos ares, vinha em sua direcção, até que, finalmente, chegou perto deles:

Anjo“Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias -Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura”(Lc 2, 10-12).

Coro dos Anjos  (Cantando) – “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens por Ele amados” (Lc 2, 14)

Samuel – Nasceu o Messias!

Todos – Louvado seja para sempre o Deus de Israel, que  já  nos enviou o Desejado das Nações!

Jonas – Prestai atenção! Olhai para as ovelhas!

David – Estão todas agitadas e a balir!

Benjamim – E os cães estão a ladrar e às correrias! Parecem doidos!

Simeão – Escutai! A passarada também perdeu o sono e desatou num estrondoso concerto!

Elias – Olhai o céu! Está além uma estrela nova com um brilho fora do vulgar!

Levi – E parece estar do outro lado de Belém, aqui tão perto, quase sobre as nossas cabeças!

Jónatas – É isso! Toda a natureza se alegra com o nascimento do Messias!  Despachemo-nos e ponhamo-nos a caminho!

Simeão – Quem sabe onde é esse local indicado pelo anjo?

Levi – Eu sei onde é e quem é a Mãe do Messias!

Elias – Ah sim? Conta lá!

Levi – Há poucos dias chegou um casal a casa dos meus patrões, a pedir hospedagem, mas os  meus patrões não tinham nenhum espaço disponível para lá ficarem a dormir. A minha patroa  lá arranjou um quartinho para Ela descansar um pouco. Se vós a vísseis! Ela parecia um anjo!

José – Porquê? Já alguma vez viste um anjo?

Levi –  Nunca vi, mas  calculo que seja parecido com ela. Além disso, Ela é ainda muito nova, pouco mais velha que eu, mas estava grávida e não parecia nada ansiosa nem preocupada. Toda Ela respirava paz e no seu rosto brilhava um olhar muito meigo e um sorriso que nunca se esquece. Ela desfazia-se em agradecimentos por qualquer pequeno serviço que se lhe prestasse. Não imaginais como Ela me agradeceu quando eu lhe trouxe uma tigela de leite quente! Lembro-me que o senhor que vinha com ela estava um pouco nervoso e muito preocupado com a falta de condições dignas para o Menino nascer. Ela acalmava-o e dizia-lhe que o Senhor forneceria o necessário e que não seria preciso ninguém para ajudar no parto… e que também não teria dores…

Tobias – O quê? Ela disse isso? Isso é muito estranho! Mas como é que Ela sabia essas coisas? E como é que Ela sabia que era um Menino e que teria um parto sem dores? Sendo assim, não esperemos encontrá-La  de cama! Mas as mulheres, quando nascem os bebés, ficam de cama dois ou três dias e alguém tem de as ajudar nas lides domésticas!

Samuel – Pois! E não está na Torá (Bíblia) que a mulher dará à luz com dores?Então, Ela é diferente das outras mulheres, ou não fosse Ela a Mãe do Messias. Tenho cá para mim que não haverá maior dignidade na Terra do que ser a Mãe do Messias. Superior a Ela, só Deus! E outra coisa: Não está escrito também que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho? Sendo assim, Ela é essa Virgem anunciada ao rei Acaz. Logo, tudo nela é milagroso, pois a Deus nada é impossível.

Daniel – E se nos deixássemos de conversa, ó teólogos da meia-noite !Vamos embora! Conversamos pelo caminho!

Simeão – Calma aí! E aparecemos lá de mãos vazias? O Menino não é um qualquer! Ouvistes bem que Ele é o Messias, o Cristo, o Senhor! Israel anda há 600 anos a falar Dele e os profetas sabiam bem de Quem falavam.

João – O Simeão diz bem. Que podemos levar-Lhe como presentes?

José – Podemos levar queijo…

Benjamim –  Leite…

Daniel –  Pão, fruta, azeitonas…

Samuel –  Figos secos, tâmaras secas…

Jonas – Eu levo uma pele de ovelha, que vale tanto como  o melhor dos cobertores.

Elias – Eu cá levo uma ovelha!

Todos – Uma ovelha?

Elias – Sim, uma ovelha! Imaginai que a Mãe não tem leite! Como é que o Menino vai sobreviver se a Mãe não tem leite?

Samuel – Não tem leite? Todas as mães dão leite!

Elias – Pois, mas eu  já ouvi dizer que há mães que não têm leite quando os filhos nascem! Ou se o têm, demora a vir! Assim, é fácil levar uma tigela e tirar leite quentinho da ovelha. Ela até se sentirá muito honrada com isso. Já vistes que poderá ser a única ovelha a alimentar o Messias? (Ri com gosto ante esta ideia…)

José – Ó rapazinho, isso é uma ideia brilhante! De onde te vem tanta sabedoria, sendo ainda tão jovem?

Jonas – E quem sabe exactamente onde eles estão?

Levi – Eu sei! Aquela estrela deve estar sobre uma gruta que há lá no outro lado da cidade. Eu lembro-me que o senhor (penso que será o seu esposo) disse que iam para uma gruta que ele conhecia bem. Depois, quando pudessem, procurariam uma casa.

Isaac – Eu até já ouvi dizer que essa gruta já existia nos tempos de Abraão.

Tobias – Então, é hora de ir! Estou a ficar impaciente!  Eu levo um cordeirinho branco. Tome cada um o seu presente e vamos! Levemos umas lanternas para o caso de Eles lá não terem luz!

Simeão – Bem pensado!

Todos – Lá vamos a caminho de Belém adorar o Deus-Menino!

Chegados à porta da gruta, surgiu um problema. Como se anunciariam, como entrariam, quem entraria primeiro, quem falaria por todos?

Simeão – Levi, espreita aí, a ver se descobres alguém ou sinais de presença humana.

Levi – (espreitando) Cheira-me a fumo! Deixai-me entrar um pouco, pode ser que… (Arranca umas tossidelas ruidosas…)

Jonas – Vai mais para dentro e vê se descobres alguma luz! Vês alguma coisa ou alguém?

Levi – Espera aí! Há lá dentro muita luz. Parece o sol ao meio dia! E vejo…É Ela!…É Ela!…É Aquela que esteve em casa dos meus patrões!…E também o homem que vinha com ela. São eles! Estão ambos curvados sobre uma manjedoura onde um Menino está deitado, tal e qual como disse o anjo. Estão ambos a contemplar o Menino. Ele parece chorar! Se calhar é com fome e com frio! Ele não está a mamar! A Mãe está-lhe a dizer palavrinhas meigas, como só as mães sabem dizer!

Benjamim – O que está Ela a dizer ao Menino?

Levi – Fazei silêncio, de contrário não posso ouvir!…

Maria – Aqui estás Tu, finalmente, ó Filho de Deus feito Homem! Tanto tempo que esperámos por Ti! Agora…quem diria? O Senhor omnipotente aqui a choramingar com frio e fome! Meu Menino, Meu Filho, Meu Amorzinho, Meu Principezinho, meu Reizinho, Meu Senhor, Meu Criador, meu Deus!… Não encontrámos instalações melhores para nasceres! Tu, o Rei do Universo, aqui tão pobrezinho! Mas tens o amor da Tua Mamã e do Teu adoptivo pai, para Te compensar. É o melhor que podemos dar-Te!

Daniel – Basta de espiar! Chama em voz alta, para que te ouçam …ou nunca mais saímos daqui! Além disso, é feio espiar o que os outros fazem ou dizem. Quem tem cara limpa não se esconde!

Levi – Calai-vos! Se soubésseis o que eu ouvi! Foram as palavras mais doces que um ser humano pode proferir!… Mas eu vou chamar, para ver se aparece alguém!…Quem está aí?… Ó da casa! …Podemos entrar?…

José – (Virando-se, levantando-se e indo até à entrada) Quem sois vós?

Todos – Somos pastores e viemos adorar o Menino. Trazemos também alguns presentes: alimentos e lã.

José – Entrai!

Maria –(Virando-se e sorrindo) Sede bem-vindos! Como soubestes que o Messias já tinha nascido?

Simeão– Foi um anjo que nos disse e nos convidou a vir adorar o Menino. Depois, ouvimos um coro de anjos a cantar: “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na Terra aos homens…”Agora, aqui estamos! E temos presentes para o Menino: pão, queijo, figos secos, tâmaras secas, leite, um cordeirinho, uma pele de ovelha… (Olhando em volta) Falta qualquer coisa! Falta o Elias com a sua ovelha! Ide chamá-lo e que tire já leite quente para dar ao Menino, pois o leite que aí trazeis já está frio!

Maria – Muito obrigado pelos vossos presentes. O Meu Filho vos compensará e um dia Ele voltará aqui para vos agradecer pessoalmente e ainda muito mais, que a seu tempo se revelará.

João – Podemos pedir-vos um grande favor?

José – Dizei!

João – Deixais-nos beijar a veste do Menino?

Maria –(Destapando um pé do Menino) Podeis, mas em vez da veste podeis beijar o Seu pezinho!

E todos, um por um, concretizaram a primeira adoração popular do Menino, que correspondia agitando os pezinhos. Concentração, lágrimas, sensação de felicidade interior, desejo que aqueles momentos se prolongassem indefinidamente … Mas tudo termina! Ali nasceu neles o entusiasmo e o veemente desejo de darem a conhecer ao mundo o nascimento do Messias. Cristo acabara de fazer os Seus primeiros discípulos. Mais tarde, trinta anos depois, Cristo procurá-los-ia para lhes agradecer e confirmá-los em sua fé no Messias. Todos eles, aqueles ainda vivos, engrossariam o número dos Seus discípulos fiéis que estariam dispostos a dar a vida por Ele, após terem presenciado a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Nessa altura compreenderiam qual a sorte final do Cordeiro de Deus e a visão profética da Jovem Virgem Maria.

Elias – Eu vou a Hebron dar a notícia aos meus patrões!

Maria – Olha, conheces lá o sacerdote Zacarias, a sua esposa Isabel e o seu menino João, que deve ter agora 15 ou 16 meses?

Elias – Zacarias é aquele que ficou mudo até o menino nascer?

Maria – (Sorrindo ante  a sentença  de Elias)  Então, fazes-me um favor? Eles são meus parentes.  Diz-lhes que Eu lhes peço para virem até aqui.

Elias – Isso farei com muito gosto! Podes ficar  descansada!

Maria – O Senhor te pague! Sê sempre bonzinho e o Meu Menino te recompensará!

No regresso:

E a visita terminou. Cheios de alegria, os pastores encetaram o caminho do regresso, animados, falando pelos cotovelos, comentando, fazendo cálculos, especulando, falando sobre o que sabiam do Messias referido pelos profetas, interrogando-se sobre muita coisa que nós também ainda hoje nos interrogamos, assim como se interrogarão as gerações futuras: se tinha que ser assim, ali, logo de noite, logo num tempo em que não havia lugar nas estalagens, logo naquela pobreza! Porque não no palácio de Herodes, porque não na casa deles próprios ou dos seus patrões, etc., etc.

Elias – Vistes para que serviu a minha ovelha?

Jonas – E vistes o que a Mãe fez com a pele de ovelha? Agarrou no Menino,  embrulhou-O nela e Ele logo se calou.

Tobias – E vistes para que serviu o meu cordeirinho branco?

Todos – Para que foi? Não vimos nada de especial!

Tobias – Ah não? Não vistes as carícias que a Mãe fez ao meu cordeirinho? Quando lho ofereci, Ela  desatou a fazer-lhe festinhas e ele olhava para Ela de tal modo que até parecia querer dizer qualquer coisa! Ela olhava ora para o Seu Menino ora para o meu cordeirinho! Agradeceu sorrindo e, de repente, ficou muito séria, com olhar fixo em alguma coisa invisível…imóvel, sem pestanejar… como se visse alguma coisa má que eu não via e…imaginai lá: eu vi-a a limpar as lágrimas! (Limpando as suas próprias lágrimas).

Todos – Estás a chorar!?…

Tobias- Estou! Ela chorou, enquanto vós estáveis lá entretidos em volta do Menino na manjedoura. Choro também porque tenho muita pena Dela e não posso esquecer aquelas lágrimas que lhe caíram silenciosas pela face abaixo. Ela tentou disfarçar, mas eu vi! Depois, continuando a fazer festinhas ao meu cordeirinho, Ela dizia: O que tu me fazes lembrar, meu lindo cordeirinho!… Depois, enxugou as lágrimas, tentou sorrir e fingiu que estava feliz.

Samuel – Mas então só tu é que viste isso? Porque é que Ela terá chorado? Alguém é capaz de ter uma ideia? Não foi, de certeza, por nossa causa!

Aqui, cada um foi lançando a sua hipótese, que podia ser rejeitada, semi-aceite ou unanimemente aceite como possível.  Uns diziam que era por causa do frio, outros, por falta de uma casa, outros, porque não tinham alimentos nem roupa suficiente, outros, porque tinha muita pena do Menino, o nosso Messias ali tão pobrezinho, quando não faltam palácios em Jerusalém e em Belém. Falou, por fim, Simeão:

Simeão – Cá para mim, Ela relacionou o teu cordeirinho com o Cordeirinho Dela, quer dizer, o Seu Menino. Por isso, Ela olhava ora para um ora para outro, lembrando-se de qualquer coisa relacionada com cordeiros, porque Ela disse que o Seu Menino também era um Cordeirinho. São ambos puros e Ela deve ter-se lembrado do que acontece aos cordeirinhos brancos por altura da Páscoa… Será que Ela não viu o Seu Cordeirinho a verter o Seu Sangue  pelo nosso Povo e por todos os Povos?

Jónatas  – E um profeta não diz que o Servo do Senhor, que é o Messias,  foi levado ao matadouro e que como uma ovelha não abriu a boca (Is 33,5)? Já me lembro: foi Isaías que disse isso! Ela, ao ver o Menino e o cordeirinho, associou-os à sorte final  de ambos. Ela deve saber mais do que nós pensamos, ou não esteja Ela dentro dos segredos que envolvem a vinda do Messias! É o que eu penso! Ainda digo mais! Ela deve estar dentro de todos os mistérios relacionados com o Messias de Israel, que vai inaugurar novos tempos. O tempo dos profetas acabou e um outro mundo vai nascer. Só não sei qual o preço que o Messias vai pagar, mas Ela deve saber. Ela estava muito pensativa e os seus olhos  navegavam pelo corpinho do Menino, concentrando-se ora na cabeça, ora no peito, ora nas mãos, ora nos pés! Achei isto muito estranho! Será que Ela estava já a ver a morte do Menino?

João – O quê!? O Messias ainda agora nasceu e já estais a falar da Sua morte? Calai-vos lá com isso! Hoje é dia de alegria para todo o mundo!

David – Mas o Messias não vem para libertar o nosso povo da opressão dos Romanos? Não se diz que Ele é o Libertador e o Salvador que vai restaurar o Reino de Israel? Não percebo! Então…e é preciso morrer para cumprir essa missão? Mas Ele morre ou matam-NO? E se O matam, quem O mata e porquê?

Samuel – Eu já ouvi dizer que Ele será traído por um que se fará passar por Seu amigo. Quanto ao porquê, não sei responder! Se alguém sabe, diga! De qualquer modo, como eu gostaria de pertencer ao seu exército!

David – Eu já me contentava com servir no Palácio Real!

Levi – Eu gostaria de ser general do seu exército!

Elias – E eu gostaria de ser o pajem da Sua Mãe, o servo para todo o serviço!

Isaac – Eu não acredito que o Messias tenha vindo para isso! Ele é chamado o Príncipe da Paz, por isso, não pode ser um guerreiro, um general, um conquistador de cidades e reinos.

Tobias – Mas então, se Ele é o Libertador, o Salvador,  de que é que nos liberta e nos salva, afinal?

José – Mas Ele também é chamado Deus Eterno,  Deus Forte, Deus Imortal, Deus Santo, Príncipe Adorável, Conselheiro Admirável, Deus Poderoso, Pai Eterno… (Is 9,6)e outras coisas assim. Ora, se é Deus, só Lhe deve interessar a santidade dos homens e isso tem a ver com o pecado.

Benjamim – A propósito de pecado: Uma vez o Chefe da Sinagoga disse que o Messias viria para abrir as portas do paraíso aos Justos e para estabelecer na Terra um Reino de Paz e  Amor.

David – Se calhar, é isso, porque o profeta Isaías diz que um dia os animais selvagens e os domésticos conviverão sem se comerem e que até uma criança poderá meter a mão na toca da víbora e que os filhotes do leão brincarão com os filhotes das ovelhas e das vaquinhas,…(Is 11, 6-9), mas os animais aqui podem ser os homens. Ora, para os homens se amarem é preciso que eles se sintam todos irmãos e que não se guerreiem uns aos outros. E só num Reino de Amor é que isso é possível. Esse Reino do Amor será o Reino do Messias, pois o profeta Isaías até diz que será mesmo assim, porque as espadas enferrujarão por falta de uso.

Simeão – Eu curvo-me perante tanta sabedoria, ó David! …O David diz que tudo isso tem a ver com o pecado. Eu também assim penso, porque esse profeta, ou outro, também diz que ainda mesmo que os nossos pecados sejam vermelhos como o escarlate, eles ficarão mais brancos do que a neve (Is 1,18)). Sendo assim, Ele vem salvar-nos e libertar-nos das consequências do pecado.

Elias – E depois, já se pode pecar à vontade?

Simeão – Não! Era o que faltava! O pecado é inevitável, porque todos os homens são pecadores, mas o Reino do Messias será espiritual e Ele assumirá sobre Si todos os pecados da Humanidade e pagará o preço pelas ofensas feitas a Yahweh. Só depois de pagar esse preço é que os Justos do Limbo subirão ao paraíso. Só depois disso é que os Justos que morrem no Senhor irão também ao paraíso, que, como sabeis, ficou fechado depois do pecado de Adão e Eva.

Isaac – Mas onde é que tu aprendeste essas coisas?

Simeão – Eu tenho um tio que é sacerdote e ele fala-me muito destas coisas e de outras sobre o Messias.

Daniel – Lá em minha casa fala-se muito naquela passagem da Torá onde é dito ao rei Acaz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho que será chamado Emanuel”( Is 7,14),  que quer dizer,…quer dizer…Já não me lembro!”

Jónatas – Deus- connosco, Deus entre nós!

Daniel – É isso! Então, a tal Virgem é esta donzela! Que sorte nós tivemos em vê-La a Ela e ao Messias, Seu Filho! Isto quer dizer que aquele homem não é o pai do Menino, mas finge ser! Nesse caso, quem é o pai do Menino?

Levi – Não é ninguém!

Todos – O quê!!! Como pode ser isso?

Levi – Se o Menino é o Messias, o Messias é Filho de Deus; se é o Filho de Deus, também é Deus e ninguém pode ser o pai de Deus. Neste caso, o Pai do Filho de Deus é o próprio Deus! Porque ninguém que seja filho de um homem pode ser Deus. Isto quer dizer que o Messias foi gerado pelo próprio Deus no seio daquela Virgem e nesse caso….

Tobias – Ah! Agora percebo porque é que Ela disse que não teria dores de parto e também agora percebo porque é que Ela, após o Menino nascer, não ficou de cama como as outras mulheres e anda por ali como se não tivesse havido parto nenhum! Pois é! Agora percebo! Isto foi e é tudo obra do próprio Yahweh!

 Quer então dizer que o Seu marido,…isto é, o seu esposo, porque Ela tratou-o por “esposo”…Sendo assim,…ainda tem de haver mais! Se Ela é Virgem, o seu esposo também é! Sei lá, devem ter feito ambos voto de virgindade para toda a vida. Assim, têm de ser verdadeiros esposos, porque…senão …Ela era condenada à morte. E o Seu esposo deve ser apenas o guarda do Messias e o Seu pai adoptivo, tudo para não levantar suspeitas. Não pode ser de outra maneira. Quem penetra nos mistérios do Deus Altíssimo?

Samuel – Ó rapaz, pareces um profeta! Em que trapalhadas filosóficas e teológicas nos meteste! Um dia Ele e Sua Mãe vão-nos explicar tudo isso. Por agora, alegremo-nos e louvemos o Senhor! Mas antes, tenho que vos colocar uma questão: Qual foi o profeta que anunciou que o Messias nasceria em Belém de Judá? Aguardo a resposta certa!… Então, ninguém arrisca?…Então, eu digo: Foi o profeta Miqueias.

Simeão – O que é que ele disse exactamente?

Samuel – Disse: “Mas tu, (Belém) Éfrata, embora a menor das cidades de Judá, de ti sairá para mim Aquele que dominará em Israel” (Miq 5, 1)

Levi – Mas eu ainda tenho uma coisa a dizer, uma coisa que se passou comigo quando estava a beijar o pezinho do Menino.

Todos – O que foi? O que foi?

Levi– Não sei se diga! Ides dizer que estou maluco! Posso enganar-me, porque não sei se foi real ou se foi apenas uma impressão estranha. Pareceu-me ter uma visão diferente do Menino. É que, enquanto Ele chorava, eu vi-O sorrir para mim!… Pronto, já disse! Já podeis chamar-me maluco!

Todos (um por um): Olha, comigo aconteceu a mesma coisa!

Jonas – Eu só não falei porque,…mas então aconteceu o mesmo convosco! Que maravilha!

Daniel – Foi isso mesmo! Somos todos malucos! Ele sorriu para nós! Nós somos os seus primeiros amigos! Glória a Deus e ao nosso Messias pelos séculos dos séculos!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

João – Eu tenho ainda uma coisa a perguntar ao Elias. Tu disseste que ias a Hebron dar a notícia àquela  Sua parente, de nome Isabel?

Elias – Disse e vou cumprir o mais rápido possível. Aliás, há aqui qualquer coisa que se me escapa. Parece haver coincidências a mais! Essa Isabel…faz-me cá confusão!

Todos – Conta! Conta!

Elias – É assim! Há lá em Hebron um casal já muito idoso que conseguiu ter um filho, que tem agora uns  quinze ou dezasseis meses…. por aí,  e lá todos comentam que não sabem como é que isso aconteceu, pois naquela idade, a tal Isabel já não podia engravidar. Para mais, ela sempre foi considerada estéril. O marido é o sacerdote Zacarias e também já é muito velho. Mas dizem por lá que um anjo lhes anunciou um filho, e que ele, por ter duvidado do anjo, ficou mudo até o menino nascer. Esse menino chama-se João.

José – É tudo muito estranho! O Messias foi concebido milagrosamente por Yahweh no seio de uma Virgem,  o Joãozinho foi profetizado também e também milagrosamente foi concebido por um casal estéril. Para mais, da mesma família!

Daniel – Será que ambos os nascimentos não estarão intimamente relacionados? E porque é que o Joãozinho nasceu primeiro que o Messias?

Jónatas – Porque tinha de ser!

João – Explica-te!

Jónatas – Eu sei lá explicar isso! Mas um dia ouvi um Chefe de Sinagoga dizer que um mensageiro iria à frente do Messias a preparar o seu caminho (Malaquias 3,1). Só não sei como é que ele explicou o resto. Já não me lembro! Ele disse que isso tinha sido escrito por um profeta, que também já não sei qual foi!

David – Então, se assim é, isso deve demorar para aí uns 20 ou trinta anos! Será que ainda estaremos todos vivos nessa altura? Assim, já sabemos! Quando ouvirmos  o  mensageiro João, saberemos que o Messias vai também entrar em acção! Quem me dera viver até lá!

Jonas–  Egoísta! Diz antes: Quem nos dera a todos viver até lá! A Mãe disse que um dia Ele nos retribuiria a visita!

Todos – Assim o esperamos! Louvado seja o Senhor, Deus de Israel! (1)

Elias – Mas eu ainda tenho uma coisa para dizer! Vós vistes lá alguma candeia ou lanterna a dar luz?

Todos – Não!

Elias – Então, de onde vinha toda aquela luz, se não havia nenhuma fonte de luz?

Todos – Bem visto! Quem sabe, diga!

Simeão – Era a própria Luz do Menino, uma vez que Ele é Deus! E agora pergunto eu: O Levi disse, quando estava lá a espreitar, que cheirava a fumo. Alguém cheirou o fumo lá dentro?

Todos – Não!

Simeão – Então, foram os presentes que o Menino nos ofereceu em troca dos nossos! Glória a Deus nos Céus e paz na Terra aos homens!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

E a conversa continuou animada até ao telheiro onde se protegiam do frio e mantinham vigilância sobre os rebanhos.

“E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito” (Lc 2, 20)

(1) Uma das primeiras preocupações de Jesus, quando começou a sua vida pública, foi mesmo ir até Belém e contactar os pastores ainda vivos. Todos eles viveram na expectativa de voltar a encontrá-Lo, mas para alguns (poucos) isso já não foi possível. Os outros tiveram a felicidade de O reencontrarem e de se tornarem Seus discípulos.

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Ezequiel Miguel

Jesus é convidado para Rei de Israel

(Realidade & ficção)

Personagens: Jesus, Samuel, doutores da Lei, sacerdotes, fariseus, anciãos, cortesãos de Herodes…

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reiSamuel era um dos amigos de Jesus, mas também um que se relacionava com Herodes e seus amigos, pois desempenhava funções na corte de Herodes, sendo lá visto como discípulo ou simpatizante de Cristo.

Por um lado, a sua casa estava à disposição de Jesus em suas andanças apostólicas, por outro, ele desempenhava funções no palácio de Herodes, tentando estabelecer um equilíbrio entre ambas as situações: Não desagradar a Cristo por causa de Herodes e da sua corte e não prejudicar Herodes por causa de Cristo. Mas Samuel, pessoa influente mesmo entre os membros do Sinédrio e das autoridades do Templo, estava incapaz de se decidir radicalmente por uma situação ou por outra, ao contrário de Susana, sua mulher, incondicionalmente discípula de Jesus.

A actividade de Cristo e a Sua pregação não deixavam nenhuma autoridade indiferente. Uns eram criticados por estarem contra Ele, outros eram criticados por não estarem a favor Dele e outros por não se definirem radicalmente a favor Dele.

Certo dia, surgiu na cabeça de alguém influente a ideia de que se deveria convidar Jesus para Rei de Israel, pois já estava provado que Ele era mesmo o Messias prometido e esperado. E, por um motivo ou por outro, era chegado o tempo de tratar do assunto e quanto mais depressa, melhor. Esta ideia começou a girar secretamente, de boca em boca, em volta de personagens bem escolhidos, com aqueles cuidados que um complot exige: reuniões secretas em locais secretos, absoluto sigilo dos conjurados, um cabecilha que coordene e vá fazendo andar o processo e uma vigilância segura. Assim se ia fazendo, não fosse o assunto levado ao conhecimento dos Romanos ou de Herodes e se deitasse tudo a perder, com a inexorável condenação à morte de todos os intervenientes.

Entre os conjurados havia fariseus, membros do Sinédrio, sacerdotes, anciãos, doutores da Lei, cortesãos de Herodes e discípulos de Jesus, públicos, meio- públicos, secretos , conhecidos ou desconhecidos de Jesus, todos unidos por esta ideia: Era tempo de restaurar o Reino de Israel, caído, humilhado e vergado ao chicote do inimigo romano. Para mais, julgando eles interpretar correctamente os Profetas, o Messias era apresentado como o Rei e o Libertador de Israel. Assim, sendo Jesus aceite como Messias, o resto viria por acréscimo. Bastaria oficializar o facto e proceder-se à unção com o óleo e consequente coroação de Jesus. Do apoio de todo o povo ninguém duvidaria, mesmo daqueles espalhados pela diáspora, e que eram muitos.

Assim como o segredo é a alma do negócio, muito mais o é no caso de uma conspiração. E chegou, finalmente, o dia em que Samuel, um dos meio-amigos poderosos de Jesus, O convidou, em nome dos outros conspiradores, para um encontro secreto de pessoas importantes na sua casa de campo, distando de Jerusalém uns quilómetros, em local insuspeito, pessoas que estavam dispostas a ouvir a Sua Palavra de Messias de Israel.

Tudo devidamente preparado, os quarenta conjurados partiram, antecipadamente, em carros puxados por bois, burros ou cavalos , separados por boas distâncias, para não levantar suspeitas, em direcção à casa de campo de Samuel. Finalmente, partiu também aquele que levava Samuel e o Mestre. Quando eles chegaram, já todos os outros os aguardavam serenamente, não tendo revelado nenhum entusiasmo pelos recém- chegados, como é próprio de uma atmosfera de conspiração, em que todos as palavras, gestos , atitudes e passos têm de ser cuidadosamente pesados, contados e medidos.

Samuel, o dono da casa, levou toda a gente para uma sala espaçosa e apresentou a Jesus todos os presentes, um por um, referindo os nomes, categorias e funções que desempenhavam, quer no Templo quer no palácio de Herodes, quer em sinagogas, tudo gente selecta, séria e respeitável a vários títulos. Cristo não precisou de ser apresentado, porque já todos O conheciam e já todos estavam a par do que fazia e do que dizia, assim como os seus conflitos com os Seus inimigos, alguns dos quais estavam ali estranhamente presentes.

Samuel, como hospedeiro de tão ilustre gente, fez o que lhe competia:

Samuel – A todos dou as boas-vindas e todos damos as boas vindas a Jesus de Nazaré, poderoso em palavras e obras, o nosso Messias prometido e profetizado, aqui presente entre nós. Todos nós agradecemos a Sua presença entre os grandes de Israel, pois a Sua sabedoria ultrapassa tudo o que sobre o assunto possamos dizer e nós estamos aqui para O ouvir, mas também para que Ele nos oriente naquilo que nós consideramos importante para Israel.

Seguiu-se a refeição, em que pouco se falou, pois o ambiente era de mútua desconfiança, em que as palavras ficaram contidas dentro de cada um. Os olhares, porém, viajavam, intrigados, de uns para os outros, de todos para Cristo e de Cristo para todos. Quando alguém falava, fazia-o em voz baixa, de modo a que só o vizinho do lado ouvisse e fosse ouvido. E assim decorreu a refeição, em ambiente sério e quase silencioso, como se todos tivessem algo a dizer, mas que não deveria ser dito. Acabada a refeição, chegou mesmo o momento de atacar o problema que tinha congregado aqueles homens. O dono da casa tomou a palavra:

Samuel – Mestre, chegou o momento de Te explicarmos o que nos levou a convidar-Te para esta reunião, assim como os cuidados que tivemos em que ela se mantivesse secreta, de modo a não chegar ao conhecimento de Herodes nem de Pilatos, pois os consideramos inimigos de Israel. Aqui, podemos falar à vontade, sem receio de que alguém, indesejado, nos ouça. Nós convidámos-Te porque Te respeitamos, veneramos, aceitamos como Messias, admiramos a tua sabedoria e o teu poder em fazer obras grandiosas, porque Deus está Contigo.

Não querendo alargar-me muito, digo apenas que, em nome do povo de Israel, oprimido e enxovalhado pelos romanos, Te convidamos para aceitares ser eleito o Rei de Israel, o Príncipe da Paz, o Libertador. Podes contar com as nossas riquezas para Te darmos um palácio real, um reinado que prestigie a nossa nação e um exército que nos restitua a dignidade, expulsando o invasor e deitando abaixo aquele antro de pouca-vergonha que é o palácio de Herodes. …Gostaria de ouvir o que tens a dizer-nos sobre esta proposta, que tem a aprovação de nós todos e de todo o Israel.

Jesus – (Silêncio)

Samuel – Então?…Já vejo que precisas de pensar. Vou dar-Te tempo para isso. Entretanto, dou a palavra a outro.

Cortesão de Herodes – Rabi, todo o Israel sabe o que se passa no palácio de Herodes, sem que ninguém seja capaz de corrigir seja o que for. É certo que temos um rei, mas não é o rei que Israel precisa. Este que temos é um rei fraco e subserviente aos romanos, que são quem realmente manda no país. É para Israel humilhante que este povo tenha chegado ao que chegou. Faltam-nos chefes e condutores da nação que imitem as antigas glórias militares de Israel. Este povo, o povo escolhido por Deus, não vive, mas vegeta como escravo. A maior parte dos cortesãos de Herodes concordam que sejas Tu aquele que merece reinar em Israel como rei soberano e sem concorrência estrangeira. Por isso, em meu nome, e no de todos os que habitamos ou trabalhamos no palácio de Herodes, fazemos-Te o solene convite para aceitares a Tua eleição para Rei de Israel, restaurando assim a antiga realeza, pois reconhecemos em Ti que vieste a este mundo para seres mesmo o Messias esperado, com o glorioso destino de ocupares o trono real em Israel. Poderás dizer-nos o que pensas sobre o assunto?

Jesus –( Silêncio)

Cortesão de Herodes – Pelo que vejo, ainda não pensaste bem no problema.

Jesus – Direi o que penso quando não houver mais ninguém para falar.

Cortesão de Herodes – Então, cedo a palavra a outro.

Ancião do povo – Na minha já avançada idade não queria despedir-me desta vida sem a minha última consolação: ver-Te instalado num palácio real digno de ti. És justo, sábio, tolerante, compassivo, tens poderes extraordinários que Deus Te deu e sabemos todos que os tens posto ao serviço do nosso povo. Tens uma sabedoria que ultrapassa a de Salomão, e Israel, dirigido por um rei a sério, seria compensado por estes anos em que gemeu sob o poder arbitrário das autoridades civis que nos têm governado, isto é, desgovernado. Eu falo em nome de todos os Anciãos de Israel, que pensam como eu e aprovam que Te convide também para assumires o trono real, mesmo que para isso tenhamos de construir um palácio real novo, de onde governarias o novo Israel, porque este parece ter sido abandonado por Yahweh. Aceita a nossa proposta e todo o Israel exultará de alegria e cantará salmos de louvor ao nosso Deus! … (Silêncio)…Então? Que respondes ao nosso convite?

Jesus –( Silêncio )

Sacerdote – Eu ouvi atentamente o que os outros disseram e concordo em absoluto com eles. Embora não sejas originário da tribo de Levi, nós te consagraremos ao sacerdócio, te nomearemos Doutor da Lei e te ungiremos com o óleo da realeza, ficando sacerdote e rei de Israel para sempre. Acho, e todos lá no Templo achamos que, em Israel, só tu és digno de ser ungido e coroado Rei de Israel. Todos nós vemos em ti o Messias Libertador que os profetas anunciam, incluíndo Anás e Caifás, os sumos sacerdotes. Eles te pedem desculpas por uma certa animosidade para contigo, talvez por informações erróneas, mas agora pensam como nós e dizem que Tu serias a honra e a glória do nosso Templo e do nosso Povo, cansado de tanto sofrimento imposto pelos profanadores das nossas coisas santas. Nós também estamos a par das Tuas obras de bem em favor dos doentes, dos pobres e dos oprimidos pelas dificuldades da vida. Já imaginaste o bem que seria termos um Rei santo, justo, poderoso, sábio, com poderes para resolver tantos problemas que afectam o nosso Povo? À semelhança dos anteriores intervenientes neste convite, aqui vai também o meu, que tem a aprovação de todos os que vivem ou trabalham no Templo….

Jesus – ( Após uns momentos de silêncio, pondo-se de pé e girando o olhar por todos os presentes) A minha resposta ao vosso convite é: Nãaooo!!! Eu sabia qual a finalidade deste nosso encontro aqui, mas vim porque já tinha prometido que vinha e também para vos mostrar que Eu não tenho medo de ninguém nas minhas actividades apostólicas. Há aqui dois tipos de pessoas: umas dizem ser meus discípulos, mas ainda compreenderam pouco sobre a minha missão em Israel; outras, como tu, ó sacerdote, tu, ó cortesão de Herodes, tu, ó Ancião do Povo,…. pura e simplesmente, mentis! Os vossos discursos e a vossa presença aqui são de mentira!

Doutor da Lei – O quê?! Acusas-nos de mentira? Vê lá como falas? Nós somos os santos de Israel. Que provas tens tu contra nós?

Jesus – Repito: Mentis!…Tanto a vossa presença como a vossa linguagem é de mentira! Nem no Templo, nem na corte de Herodes, nem os fariseus, nem os saduceus, nem os doutores da Lei, nem os sacerdotes Me aceitam como Messias! E, muito menos, Anás e Caifás! Se Me aceitassem, já teriam dados provas disso. E o que fazem? Espiam-Me, armam-Me ciladas para Me apanharem em pecado, acusam-Me de ser um agitador, um amigo de Belzebú, um comilão que come com publicanos, um que aceita conversar com meretrizes, um profanador da Lei,…e muito mais! Vós viestes aqui para me armardes mais uma cilada, preparada cuidadosamente e servindo-vos de má fé para convencer aqueles que estão do Meu lado. Eu não posso aceitar o vosso convite, porque Eu já sou Rei, mas das almas de Israel, porque o Meu reino é espiritual. Eu nunca serei ungido nem coroado Rei temporal de Israel, porque Eu já fui ungido e coroado Rei das almas, e só elas Me interessam em absoluto. Só por causa delas é que Eu vim ao mundo, disposto a pagar o preço que elas custam. Eu sou Aquele, como dizia João Baptista, que tira o pecado do mundo e também tirarei os vossos, se aceitardes a Minha Pessoa, a Minha doutrina da Boa Nova e vos arrependerdes.

Se Eu aceitasse, aqui e agora, a unção e a coroação como Rei de Israel, amanhã iríeis a correr ao Sinédrio, ao palácio de Pilatos e ao de Herodes, contando-lhes as coisas à vossa maneira, seguindo-se depois uma perseguição com efeitos para vós imprevisíveis. A Mim nada aconteceria, pois a Mim ninguém Me tirará a vida. Eu sou o Senhor da vida, da minha e da vossa, e a Minha sou Eu que a dou, quando chegar a hora, para remir a humanidade, estabelecendo neste mundo o Reino de Deus, do qual sou mesmo o Rei.

Além do mais, que seria de vós quando os romanos vos caíssem em cima e vos massacrassem como traidores a César e traidores a Herodes? Onde vos meteríeis para escapar ao massacre? Resumindo e reiterando a Minha resposta ao vosso convite, que não passa de uma armadilha: NÃAOO!… Aos meus amigos e discípulos aqui presentes censuro o facto de ainda não terem compreendido cabalmente a Minha missão e a deles, mas têm a seu favor o facto de terem sido enganados e instrumentalizados por pessoas sem escrúpulos e a mando do Sinédrio. Aos outros, só tenho de perdoar, porque não sabem o que fazem! Termino com uma pergunta final? Porque não estão aqui aqueles do Sinédrio que Me aceitam ou que não Me combatem, tais como Gamaliel, Nicodemos, José de Arimateia, Eleazar e outros? Porque esses são rectos de coração,… a sabedoria divina está com eles, tornando-os capazes de discernir o que está bem e o que está mal, o que devem ou não devem fazer, e que vêem ao perto e ao longe!…

E Jesus sai imediatamente da sala e da casa, enfia-se no meio de um canavial e abandona o local, caminhando ao longo da costa até encontrar a barca em que alguns discípulos pescam.

Entretanto, arma-se uma confusão na sala, cada grupo chamando traidores aos outros e atribuindo-se mutuamente as culpas pelo falhanço. Enquanto uns sugerem que se vá atrás de Jesus para O prenderem, outros aconselham que se Lhe peça desculpas, outros ainda sugerem que se apanhe e se feche na casa até Ele aceitar a realeza. No final, todos responsabilizam todos pelo falhanço, mas em Jesus ninguém mais põe o olho, porque, em poucos segundos, deixa os perseguidores confundidos, sem encontrarem uma explicação para aquele desaparecimento quase instantâneo.

Quando Jesus se julgou seguro, sentou-se, descansou e acalmou. Era já noite. E Jesus chorou!

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Ezequiel Miguel

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