O contrato de Judas com o Sinédrio (Mt 26,14-16)

(Realidade e Ficção)

.

Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse-lhes: ”Quanto me dareis, se eu vo-Lo entregar”? Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus. (Mt 26, 14-16).

.

Aproximava-se o fim da pregação do Reino e Cristo estava quase a consumar a sua missão de evangelizador.

Um dia em que Jesus e os Apóstolos se encontravam todos em Jerusalém, Judas foi abordado por alguém para se apresentar com urgência na casa de campo de Caifás, o sumo sacerdote que presidia ao Sinédrio. Judas tinha contas a dar a respeito da sua actividade de espião e de agente subversivo. Cristo já tentara salvá-lo, mas a última tentativa falhara, talvez por se ter comprometido com o Sinédrio, no sentido de O espiar e criar situações que levassem Cristo a ser apanhado em pecado, uma vez que se precisava urgentemente de uma razão forte e convincente para O condenar. O plano gizado por Judas e pelo Sinédrio falhara e era a hora de chamar Judas a contas, para se explicar e justificar o falhanço.

É noite! Um vulto solitário caminha em direcção a uma casa no alto de uma colina no exterior das muralhas de Jerusalém, numa noite de luar em que a própria sombra parece assustar Judas, que caminha nervoso, parando e olhando de vez em quando para trás, a fim de se assegurar que não é seguido… Finalmente, chega ao portão da casa de Caifás, e, a um sinal de pancadas previamente combinado, ele abre-se e Judas é introduzido num salão já preparado para o receber. Em círculo dispõem-se os personagens que foram convocados para esta audiência a Judas. São membros do Sinédrio, que condenará Jesus à morte, passando por cima de todos os direitos e usando todos os meios desonestos, ilícitos e ilegais.

Judas – Então, já começastes a reunião?

Todos – A paz esteja contigo, Judas!

Judas – A paz esteja convosco, ó membros do santo Sinédrio! Como calculo o motivo que vos levou a convocar-me, quero antecipar-me às vossas perguntas e dizer-vos o que se passa com o Cristo. Tendes que vos despachar naquilo que quereis fazer com Ele, pois Ele já desconfia de mim e dos meus planos para vo-Lo entregar… e eu estou a chegar ao ponto em que nada mais poderei fazer por vós.

Sadoc – Não nos digas que te deixaste descobrir, ó grandecíssimo tolo!

Judas – (irritado e nervoso) Vós é que sois uns tolos, pois, com toda essa pressa em que ferveis, não planeais bem as coisas e fazeis coisas disparatadas. Vós é que não tendes confiança absoluta em mim!

Elquias – Não te lembras que te entregámos um plano há pouco tempo e que tu não concordaste com ele?

Judas – E pensais que é fácil trair o Único amigo que eu tenho, o Único que me ama de verdade sem esperar nada em troca, um Inocente que vai ser vítima de um crime?

Joaquim – Acalma-te, não estejas nervoso! O que tu fazes é uma obra santa pela pátria e toda a nação te agradecerá. O teu nome será honrado pelas gerações, porque tu figurarás entre os heróis de Israel. Tu chegarás ao poder, ditarás leis e fá-las-ás cumprir, porque tu serás o salvador da pátria. Tu serás aquele que fará desaparecer do número dos vivos o novo Holofernes que quer destruir a nossa querida pátria. Para isso, basta que colabores connosco naquilo que puderes, pois tu és imprescindível neste processo, uma vez que O conheces bem e facilmente O identificas, esteja Ele onde estiver!

Doras – Além disso, o Sumo Sacerdote Caifás falou profeticamente quando disse que era bom que morresse um homem pela nação, para que a nação não fosse destruída. Foi o Altíssimo que falou pela sua boca….Estás nervoso! Não nos acreditas? Nós somos teus amigos e queremos o teu bem, por isso, faremos tudo para que sejas um grande de Israel e isso dentro em breve! Aqui à tua volta estão representados as famílias sacerdotais, os Anciãos, os escribas, os fariseus, os rabis, os doutores, as autoridades do Templo, todos eles prontos para aclamar-te e convencer-te a fazer uma coisa santa de que te orgulharás toda a tua vida. Tomaram muitos estar no teu lugar!

Judas – Mas eu não vejo aqui Gamaliel, José de Arimateia, Nicodemos, João, Eleazar…e eles têm o direito de estar aqui, apesar de estarem a seu favor! Porque não foram convocados?

Caifás – Nós não os avisámos para esta reunião secreta, porque eles podiam dar com a língua nos dentes, …e estragar tudo. Tu sabes bem que eles simpatizam com ele. É melhor assim, para pensarmos todos por igual, a bem da nação e da glória de Deus…

Cananias – As tuas palavras são de verdadeira sabedoria, ó Sumo Sacerdote! Aceitando a sugestão de Judas de que devemos andar depressa e com passo firme, sem hesitações, julgo que devemos resolver já de uma vez por todas. Pertence a ti, ó digníssimo Caifás, como Sumo Sacerdote do Deus Altíssimo, fazer-nos a proposta final.

Caifás – Interpretando a vossa vontade e a vontade de Deus neste magno assunto, proponho que entremos em negociações com Judas para ele no-lO entregar sem mais preocupações da nossa parte. Sendo assim, nós propomos a Judas um pagamento de 30 denários e, em troca, ele deverá informar-nos onde O poderemos apanhar de noite, sem que o povo se aperceba disso. Judas, que dizes?

Judas – (agitado) É pouco! Isso é uma miséria para os serviços que vos presto! Esse preço nem seria justo se fosse para vos entregar um vulgar ladrão ou matar e esfolar um coelho! Para vos entregar Quem vós desejais neste caso, tendes que pagar 90 dinheiros, pelo menos.

Caifás – Não pode ser! Está escrito ( Zacarias 11, 12-13) que serão 30 denários e o que está escrito foi escrito pela vontade de Yahweh, por isso temos de respeitar a sagrada vontade de Yahweh, manifestada pelo profeta. É verdade que se trata de um preço simbólico, mas é esse o preço que pagaremos, para não irmos contra as sagradas Escrituras. Em troca, ficarás assinalado como um dos grandes de Israel, que todos louvarão e invejarão! Ele deve morrer e tu abrir-nos-ás o caminho para prendermos e julgar esse falso profeta, esse blasfemo, esse inimigo de Israel e do povo santo de Deus.

Judas – Para já, tudo o que dizes é falso, mentiroso, difamatório, calunioso. Ele não é nada do que dizes. Ele é um profeta e infinitamente mais que um profeta. Todo Ele é divino, todo Ele é puro Amor, compreensão, bondade, perdão. Ele conhece o íntimo dos corações e a estas horas até sabe o que eu e vós estamos a fazer e onde! Fico com a espinha congelada só de pensar que Ele me está a ver. Vós e eu somos uns miseráveis, uns assassinos, uns ladrões, uns montes de corrupção, uns traidores, uns hipócritas,… que vamos cometer o maior dos delitos que se podem cometer, a morte do Messias de Israel. Tenho umas perguntas a fazer-vos, se é que me autorizais!

Anás – Diz!

Judas – Vós acreditais que o profeta se referia ao verdadeiro Messias quando disse que seria vendido por 30 denários?

Anás – Acreditamos!

Judas – Então, vós próprios estais a dizer e a confirmar que Ele é o verdadeiro Messias de Israel, uma vez que dizeis que este preço é o estipulado pelo profeta. Ninguém encomendaria e ninguém aceitaria o assassínio de um homem por esse preço ridículo. Logo, tendes de concluir que vós próprios acreditais no que dizeis, isto é, que Ele é o Messias profetizado!

Caifás – ( Depois de uns momentos de silêncio e de troca de olhares cruzados)…Esse argumento…Temos de pensar! …

Doras – Nós não te entregámos a sua defesa nem te constituímos seu advogado! Pagamos-te por um nobre serviço e é sobre ele que estamos a negociar. Enquanto te decides, quero que nos expliques o que fizeste com o dinheiro que te demos para o apanhares em pecado, pois ainda não nos falaste sobre isso….Estamos à espera que fales!

Caifás – Deixai lá isso, por agora! Quanto à questão que o Judas colocou, parece ter lógica, mas…só parece! O profeta deve ter referido esse preço se o Messias aparecesse naquele tempo. É evidente, nos tempos de hoje, que esse preço é irrisório e inaceitável. Contudo, nós temos de ser fiéis à palavra do profeta ou então… Anás, que te parece?

Anás – As contas são fáceis de fazer! Se aceitamos as palavras do profeta e só pagamos os trinta denários, temos de reconhecer que o nazareno é o Messias e, nesse caso, não estamos aqui a fazer nada!

Joaquim – Só há um meio de resolver isto!… Os trinta denários e o Messias são indissociáveis, por mais voltas que demos. Ou aumentamos o preço e negamos o Messias, ou mantemos o preço e reconhecemos que ele é o Messias. Nenhum de nós viu isto a tempo! Agora já não sei o que dizer! O que eu ia a dizer já não faz sentido.

Elquias – Cá para mim,…Não! …É melhor calar-me! Para mim isto está a ficar muito confuso! O Caifás, que explique!

Caifás – Temos de dar a volta a isto! Judas, diz lá qual seria preço justo pelo teu serviço?

Judas – 144 denários! Acho aceitável!

Caifás – Certo! Então, nós pagaríamos os 144 denários, mas tu devolverias voluntariamente, como oferta ao Templo, o que vai de 30 até 144, isto é   110 denários. O Templo ficava assim compensado pelo dinheiro que te pagou por um serviço não feito. Achamos que será feita justiça!

Judas – ( Limpando o suor) Mas isso não muda nada! Eu…fiz tudo o que podia… e cumpri o que tinha combinado convosco! Paguei a uma meretriz jovem e bonita, aquela que vós me aconselhastes, informei-a sobre o local e a hora em que ela poderia encontrá-Lo, mas ela falhou, como falharam outras, acabando Ele por convertê-la  à Sua Causa. Algumas, depois de terem tentado seduzi-Lo, fugiram como se tivessem visto o Belzebú. Conheceis aquela famosa irmã de Lázaro, a Maria? A essa eu não a convidei, mas Ele converteu-a e fez dela uma adepta incondicional e convicta, que suporta todos os sacrifícios por Ele! A outras,… eu paguei…,mas elas falharam também e ficaram com o dinheiro. Juro que foi assim! Além disso, Ele até desafiou todo o Israel a apanhá-Lo em pecado. Lembro-me de Ele ter dito: “Quem de entre vós será capaz de me apanhar em pecado”? Ora, um homem que faz este desafio tem que forçosamente ser santo e mais que santo. O desafio também foi feito a pensar em mim e em vós, a quem Ele acusa de sermos hipócritas, víboras, sepulcros caiados e outros mimos semelhantes. Ele tem um poder de que vós nem suspeitais! Agora, não me peçais o dinheiro, porque não o tenho.

Pelo pecado, garanto-vos que nunca O apanhareis, por isso, não percais tempo com essas manobra! Ele é diferente de todos os homens. Ele nunca se irrita, nunca humilha ninguém, corrige com amor, delicadeza e mansidão, nunca se vinga, perdoa sempre, cura todos os doentes que acreditam no Seu poder…Ele é mesmo Amor e tudo faz em nome do Amor. Sei que muitas vezes chamou a atenção do Pedro, que não simpatiza comigo…Eu até me lembro de uma vez em que, numa aldeia, nos trataram mal e ninguém nos quis ouvir. Dois de nós pediram-Lhe autorização para mandar vir fogo do céu sobre oshabitantes, para os consumir…Sabeis o que Ele nos respondeu? Disse que Ele tinha vindo ao mundo para dar a vida, e não a morte, e queria que os homens se arrependessem dos seus pecados e tivessem vida longa. Não há no mundo um homem assim, por isso, ide mais directos, de contrário, andais aí a empatar…

E quanto aos milagres, que vós atribuís a Satanás, Ele nunca invocou Satanás para os fazer, mas diz sempre: “Eu quero, fica curado,…Eu quero, levanta-te e anda, vê, ouve, volta à vida. Eu quero,…Eu quero…” e a Satanás Ele diz : “ Sai desse homem!” A outros dizia:” Eu te absolvo dos teus pecados!”. Ele nunca disse:” Em nome de Iahweh…, em nome de Satanás…, em nome de Belzebú”. E quando ressuscitou Lázaro Ele disse: “Lázaro, Eu te ordeno: Vem cá para fora!”. Vós julgais que Ele é um simples homem? Isto, para compreenderdes as dificuldades que enfrento para cumprir os meus compromissos para convosco! Por isso, tendes de ser tolerantes para comigo e também devíeis ser mais justos na paga que me dais! O que me propondes nem dá para matar um gato!

Elquias – Pois é! Ele é bondoso, manso, delicado…, mas a nós chamou-nos hipócritas, sepulcros caiados, filhos de assassinos de profetas e não sei que mais. Ele insultou-nos a todos, a nós que recebemos de Yahweh a nossa santa autoridade. Mas, há mais: Este miserável preço de 30 denários, como tu dizes, que te oferecemos, também tem em conta aquele dinheiro que te demos para o apanhares em pecado, visto teres falhado. Esse dinheiro devia ser-nos devolvido. Como não o devolves, és ladrão. Também és um mentiroso, pois acreditamos que o gastaste em teu próprio proveito. Por tua culpa, ele tem cada vez mais discípulos e se não agirmos depressa…será a nossa ruína e a ruína de Israel.

Judas – Mas, tendo vós tantas oportunidades para O prenderdes quando Ele pregou no Templo, mesmo sob as vossas barbas, porque não O prendestes, se era tão fácil? Porquê recorrer a mim, a meretrizes, ao dinheiro nojento, como nojentos sois todos vós? Eu, agora, é que sou o culpado? E quanto a ladrões, vós é que o sois, por roubardes o tesouro do Templo, para comprar meretrizes e para preparardes um assassínio! É isso a vossa santidade?

Elquias – Sabes muito bem porquê! Porque ele sempre se escapou, por manobras que o Belzebú lhe inspirava. Nós sentíamo-nos bloqueados, paralisados,…quando ele despedia raios dos seus olhos contra nós. Cada um de nós tinha a impressão que estávamos a ser vistos como se estivéssemos nus.

Judas – Pois é! É isso! Ele vê-vos por dentro e por fora e nada do que sois Lhe escapa! Ele vê a vossa vida de aves de rapina, de feras selvagens, de animais de estrumeira a fossar no estrume, víboras sempre à espreita de lançar veneno sobre todos aqueles que estão a par da vossa imundície.

Caifás – Tudo isso és tu, miserável! É assim que pagas a quem quer ajudar-te e que tem ajudado? Nós partimos-te já esses queixos e cortamos-te já essa língua atrevida! Vamos a ele e resolvamos já este assunto! (Levanta-se ameaçadoramente)

Elquias – Calma aí, ó Caifás! Não é assim que resolvemos o assunto! Temos de respeitar o Judas e agradecer-lhe os esforços que tem feito para nos ajudar. Temos de ser tolerantes para com ele, pois, se mais não fez, é porque não pôde!

Joaquim – Bem, agora que estamos mais calmos, ainda vos lembro aquele atrevimento do nazareno, quando desatou às chicotadas sobre as mesas dos que lá vendiam coisas no Templo, pondo tudo de patas para o ar. É esta a mansidão de que fala o Judas? Ele até disse então que nós estávamos a profanar a Casa do Seu Pai. Que atrevimento! Que presunção! Como é que o Templo é a Casa do seu Pai? O Seu pai não é um carpinteiro de Nazaré? O Judas tem de compreender que nós não acreditamos em nada do que diz.

Judas – Há coisas que vós não entendeis. Dessas coisas que Ele disse:…hipócritas, vendilhões, sepulcros caiados, filhos de assassinos… há alguma que não vos assente como uma luva?

Caifás – Judas, vê lá como falas! Estás a insultar o santo Sinédrio! Tu estás aqui para responder às nossas perguntas e não para as fazer! Com todo esse discurso prevejo que ainda voltas atrás e ficas com Ele! Tudo bem! Nós estamos a ser tolerantes, pacientes e compreensivos. É por isso que já te fizemos a proposta final de um pagamento de 30 dinheiros (denários), pois mereces um pagamento pelo teu esforço e dedicação. É justo que assim seja. Quem está contra esta proposta que fizemos ao Judas de Simão? …Vejo que não há votos contra! Assim, Deus nos ajude e ilumine Judas para ver como Yahweh o escolheu para esta grande missão de nos entregar esse falso messias.

Judas – (Contrariado) Tenho de corrigir aí uma coisa. Vós, aqui, não sois o “santo Sinédrio”! Sois um grupo convocado à pressa e ilegalmente, porque não enviastes aviso aos outros que aqui não estão. Além do mais, também não sois santos, como Ele já vos demonstrou. Quanto ao preço, digo que é injusto, mas não me deixais alternativa.

Sadoc – E agora,…diz lá: onde está Jesus de Nazaré?

Judas – Está em Betânia, em casa de Lázaro que, como sabeis, é o seu mais fiel amigo e é protegido pelos Romanos. Não tenteis aí, porque Lázaro tem muitos servos e só dará sarilhos.

Cananias – Nós confiamos em ti, pois tu és sagaz, inteligente e recto de coração. Yahweh estará contigo na hora certa. Aguardamos que essa hora chegue.

Judas – E quanto ao pagamento?

Caifás– Só te pagaremos quando vieres ter connosco e nos disseres: “É agora, vinde comigo”! Só então é que receberás o dinheiro e naquela quantia de que já falámos.

Judas – Então, até à próxima! A paz fique convosco!

Todos – E contigo também. Adeus!

Faz-se silêncio até se ouvirem os portões de ferro a fechar e depois… todos saltam de alegria e se abraçam efusivamente, todos dando os parabéns a todos…

Doras – E agora? Que faremos quando Judas descobrir que também nós o vamos trair? Daquilo que lhe prometemos…só ficarão os miseráveis 30 dinheiros, o preço que se dá a alguém pela morte de um cordeiro. Este idiota…já o temos no papo! Deve estar muito faminto de dinheiro, para aceitar uma recompensa destas! Será que não vai espalhar pelo povo o que fizemos com ele? Isso seria a nossa desgraça. Poderíamos ter de enfrentar uma revolta popular e daí…quem sabe como tudo ficaria? Ele não é de confiar, devido ao seu temperamento inconstante e às artimanhas de que já deu provas. Nele não é fácil saber quando diz a verdade ou quando nos crava a mais descarada mentira. Na minha opinião ele é um comediante.

Caifás – Não há que ter receios! O povo voltar-se-ia contra ele, por se ter posto ao nosso lado e contra o Nazareno. Por agora, ele tratará do Nazareno e depois…nós trataremos dele sem que o Povo se aperceba!… Este assunto já foi ventilado numa outra reunião. Não vos lembrais?

Sadoc – E se ele se arrepender antes de…?

Caifás – Ele não vai ter tempo para isso!…E vós todos tende cuidado! Daqui não pode sair uma única palavra para o Gamaliel, o José de Arimateia, o Nicodemos, o João, o Eliseu, o Eleazar e outros! Eu não confio em nenhum deles. É preciso andar com o olho neles, não vão eles suspeitar de alguma coisa.

Doras – Eu estou muito contente por ver este dia e outros que se aproximam. Vejo finalmente a vingança que o meu pai desejaria executar sobre o nazareno, que, um dia, fulminou o meu pai mesmo ali em frente dele, caindo morto instantaneamente a Seus pés.(1)

………………………………………………………………………………………..

  • Nota – Isso aconteceu após uma cena de agressividade verbal e tentativa de agressão física a Cristo, por Ele ter lançado sobre os seus pomares uma maldição que tornou estéreis todas as suas árvores de fruto. Doras- pai mantinha os seus servos em escravatura cruel. Cristo tentara torná-lo mais humano, mas ele não cedera. Quando viu os pomares secos, quis tirar desforra de Cristo e excedeu-se no palavreado e nos gestos, tentando mesmo apedrejá-Lo. O excesso de cólera causou-lhe um ataque cardíaco fulminante. Doras- filho tem esses acontecimentos ainda bem vivos na memória, tanto mais que os pomares que herdou continuam estéreis e mirrados, queimados pela maldição. Tal como faria com Judas, Cristo tinha feito tudo para que Doras – pai se convertesse e tratasse bem um dos servos gravemente doente. Tudo em vão! Cristo acabou por pagar o resgate do servo doente e providenciou no sentido de estar presente na hora da sua morte.

.

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados:

. E Judas foi enforcar-se

. Última tentativa de Jesus para salvar Judas

. Manhas e artimanhas de Judas

. O golpe de Judas

. Jesus é preso

. A Ceia da despedida

. Jesus é alvo de tentativa de rapto

O golpe de Judas

(Realidade & Ficção)

 .

Personagens:

. Jesus Cristo

. Judas Iscariotes

 .

Judas24Judas frequentava o Templo de Jerusalém e convivia de perto com os sacerdotes, os escribas e os fariseus, tendo muitas amizades entre eles. Possivelmente, seria um estudante de teologia e um candidato a doutor da Lei. A sua figura imponente, esbelta, ricamente vestida, era de molde a chamar a atenção por onde passava. Tinha fama de se insinuar facilmente junto das donzelas de Israel, às quais prometia união de casamento, mas depois…abandonava-as, para ir recomeçar com outra. Em certas aldeias próximas de Jerusalém já tinha a cabeça a prémio.

Ele não desconhecia as profecias sobre o Messias e, como muitos outros, aguardava os sinais do Sua presença próxima. Mas ele, tal como todas as autoridades religiosas do povo judeu, era também uma vítima das circunstâncias políticas que se tinham abatido sobre Israel, após a invasão e ocupação do território pelo exército romano. Assim, o que se precisava era realmente de um Messias que viesse restaurar a Monarquia e a independência de Israel e o ambiente não era nada favorável para se aceitar um Messias conforme as profecias das Escrituras o apresentavam.

Um dia, Cristo entrou no Templo, fez a Sua pregação, apresentou-se como o Messias e confirmou o Seu poder com uma estrondosa cura. Entre os assistentes estava Judas, que mediu Cristo de alto a baixo, as  Suas palavras, os Seus gestos, o Seu poder e autoridade com que falava e agia. Tinha que ser mais que um profeta, para fazer o que fazia e dizer o que dizia e como o dizia!

A cabeça de Judas começou então a girar, a calcular, a especular, a sonhar…Ele não foi daqueles que atribuiu a Cristo poderes conferidos por Satanás. Ele viu mais longe e não demorou muito a tirar todas as conclusões : Ele era o Messias que vinha para restaurar o Reino de Israel, há muito ocupado pelos Romanos. Judas também já sabia que Cristo andava a escolher discípulos para o acompanharem na Sua missão. Na visão de Judas, estes seriam os futuros ministros do Messias, o futuro Rei de Israel unificado. Ele próprio não poderia ser um deles? Se outros podiam!… E não demorou a gizar um plano para se encontrar com Jesus de um modo discreto, para uma conversa a sós. E encontrou-O, após muitos esforços nesse sentido:

Judas – Salve, Mestre! Encontro-Te, finalmente! Estou farto de andar à Tua procura!

 Jesus – Quem és tu, que tão distintamente te apresentas?

Judas – Sou Judas de Simão, natural de Keriot. Estou no Templo e vivo sonhando com o Rei dos Judeus. Da análise que eu já fiz de Ti, esse Rei és Tu. Aceita-me como Teu discípulo! Penso que ainda vou a tempo de me candidatar, pois vejo-Te rodeado de poucos!

Jesus – Aceitar-te, assim sem mais nem menos? Não! Não pode ser assim! Isso exige estudo, tempo, decisões firmes e inabaláveis, recta intenção, coragem, constância, humildade, …e muito mais!

Judas – Não acreditas que Te peço isso com sinceridade? Eu já pensei muito sobre este passo, por isso, não considero que seja leviandade da minha parte.

Jesus – Judas, Eu vejo em ti apenas impulsos momentâneos que se esvaem como o fumo quando o fogo se apaga. Pensa nisso até Me encontrares de novo! Brevemente poderás encontrar-Me. Nessa altura falaremos!

Passado algum tempo, Judas volta a encontrar Jesus num espaço aberto do Getsémani, num ambiente de oliveiras:

Judas – Salve, Mestre! Sou Judas de Keriot, aquele que Te pediu para o aceitares como Teu discípulo. Não Te lembras?

Jesus – (Nada entusiasmado)  Lembro! Vieste ter comigo há pouco tempo!

Judas – Então, aqui estou eu de novo. Segui a Tua sugestão de pensar, meditar, pesar os prós e os contras…e já decidi. Quero mesmo que me aceites no Teu grupo!

Jesus – E quais os motivos que te levam a querer?

Judas – Eu repito o que disse da outra vez:  Eu vejo em Ti o Rei do futuro Reino de Israel. Nada mais natural que eu queira estar a Teu lado nesta missão de restaurar o Reino de Israel!

Jesus – São então esses os motivos?

Judas – São! E acho que são motivos nobres! Ponho-me ao Teu serviço, juntamente com os meus bens, as minhas capacidades, os meus conhecimentos, amizades, trabalhos, etc.

Jesus – Vejo que és um homem ambicioso, um sonhador, um exaltado…Mas Eu não te procurei, não te chamei nem te convidei!

Judas – Mas eu, pelo contrário, procurei-Te por todo o lado e até recorri a espiões para me informarem do Teu paradeiro.

Jesus – Pensas que terá sido algo de bom para ti o teres Me encontrado?

Judas – Claro! Se eu Te procurava, foi bom encontrar-Te!

Jesus – E porque Me procuravas?

Judas – Obrigas-me a dizer outra vez? Vejo que não me compreendes!

Jesus – Eu compreendo-te, mas também quero que Me compreendas, antes de Me seguires por todo o lado. Eu devo esclarecer-te que as tuas ideias sobre Mim, o Messias, estão erradas. Eu não vim ao Mundo para cumprir o plano que tens na cabeça, nem coisa que se pareça!

Judas – Mas não és Tu Aquele que as Escrituras apontam como o Rei dos Judeus, Aquele de que falaram os profetas? Tu manifestas todos os sinais do verdadeiro Messias: Falas e ages como Deus, Deus está em Ti e Tu estás em Deus, operas milagres, conheces o passado, o presente e o futuro, és santo! Ora, onde Deus está e actua  há sucesso garantido! Por isso, não sei o que é que receias. Se as Escrituras profetizam tudo a Teu respeito, como é que podes trair a missão que Te foi confiada de libertar o povo da escravidão, como está escrito? É neste sentido que eu quero fazer algo pelo nosso povo, colocando-me a Teu lado no trabalho e na glória que advirá para o povo de Israel.

Jesus – Judas, tu deliras no teu sonho! Advirto-te que aquilo  que Me está reservado não é um bonito sonho, melhor dizendo, é um bonito sonho, mas pelo meio há um tremendo pesadelo. O meu Reino não é deste mundo. O que Eu trago a Israel não é a glória  mundana nem a luz da ciência mundana. Eu venho instaurar uma nova ordem meramente espiritual, fazer de todos os pecadores novos santos e abrir-lhes as portas da Vida Eterna. Neste novo Reino de Paz e Amor não há lugar para ódios, rancores, vaidades, ambições mundanas, crimes, desonestidades, roubos, divórcios, luxúrias, vinganças, guerras, invejas, acumulação de riquezas, avareza,… A Minha missão é salvar almas, conquistando-as a Satanás, arrancar-lhas através do arrependimento e dos novos meios que Eu venho estabelecer para a Salvação Eterna. Não vim para fundar  ou conquistar reinos mundanos. Que lugar quererás tu no Meu Reino, onde, em vez de glória, prestígio, louvores, recompensas materiais,…te estarão guardadas fome, sede, pobreza, honestidade, santidade, humilhações, perseguições e, no fim, uma injusta sentença de morte por causa do meu Nome? Sendo assim, não tenhas ilusões! Eu não libertarei o Povo do poder de Roma, nem lutarei contra César e se Eu já vim a este mundo sob o domínio de César, também o deixarei sob o seu domínio. Não serei um chefe político e não aceito ninguém imbuído dessas ideias. Por isso, Judas, é melhor ponderar estas coisas, antes de insistires.

Judas – Queres então  dizer  que me rejeitas!

Jesus –  Serei Eu que te rejeito ou serás tu que te rejeitas? É por Amor que te mostro as desvantagens que te circundam, é por Amor que eu digo a alguém que o remédio que vai tomar é veneno mortal, é por Amor que eu digo a um inocente que não tome aquele veneno, que pode destruí-lo, arruinar a sua saúde ou matá-lo.

Judas – Bem! Penso que estás a exagerar! Eu poderei envenenar-me ou arruinar a minha saúde se andar Contigo? Não acredito nessa! Dizes isso para me convenceres a não teimar no pedido que Te faço, porque, está visto, não me queres aceitar. Mas aceitas outros, que já andam Contigo e que são muito inferiores a mim em condição social, cultura, conhecimentos, influência, riqueza. Já contei seis que andam Contigo por todo o lado…Vais buscar pescadores, ladrões, cobradores de impostos, artífices,… todos uns Zés-Ninguém e até um ex-leproso que Tu curaste. Que queres Tu fazer com essa gente? Eu não reunirei melhores créditos do que eles para ser seleccionado? Não sei porque embirras comigo! Nunca Te fiz mal nenhum e só desejo fazer-Te Bem ajudando-Te na Tua missão de Messias de Israel!

Jesus – Judas, desiste do teu pedido! Tu arruinarás não só a saúde, mas até a vida do corpo e da alma. Tu conviverás com o Santo, mas tornar-te-ás Seu inimigo e como tal virás a ser um dos Seus inimigos, um assassino!

Judas – Assassino, eu? Só essa me faria rir! Acaba lá com esses argumentos ocos e admite-me! Se és o Salvador, como confessas que és, não podes rejeitar-me, porque eu também sou pecador e preciso de ser salvo e, se Tu és a Salvação, como podes rejeitar-me? Isso não é próprio de um Messias Salvador! Não vieste Tu para as ovelhas perdidas de Israel, como está escrito e Tu dizes? Então, eu sou uma dessas ovelhas perdidas, logo, não podes rejeitar-me! Eu vou ser-Te fiel até à morte! Não tenhas receios a meu respeito! Não Te desiludirei!

Jesus –(Triste e pensativo) Sim!… Sim!…Até à morte!…Até à morte!…Depois!…

Judas – Em que estás a pensar, Mestre? Não entendo esses silêncios!

Jesus – Judas, insistes?

Judas –Ainda me perguntas? Como não insistir? É isso que eu quero, custe o que custar!

Jesus – (Suspirando, triste e abatido) Assim seja!… Entrego-te à  misericórdia de Deus! Que Ele  esteja contigo e te proteja!

Judas – Obrigado, Mestre. Nunca lamentarás a tua decisão!

Jesus – (Desanimado) Sim, Judas!…

 .

Considerações:

  1. Judas comete aqui vários erros em juízos, afirmações, atitudes, palavras…, mas o seu erro principal e que está na base de todos os outros é a sua falta de recta intenção, ao apresentar-se a Cristo para O seguir. Não se pode tentar servir a Deus a pensar em recompensa material, porque Deus não  dá valor a esse serviço, que visa apenas glória e prestígio pessoais.
  1. Judas não mostra ter a sabedoria própria dos humildes e dos santos, os quais penetram fundo nas mensagens da Bíblia e extraem dela o verdadeiro sumo do que lá está, contrariamente a outros que se ficam pela rama e acabam por denegrir ou deturpar a Verdade que está por baixo ou dentro da palavra escrita. Foi assim que ele acabou por ver no Messias o Rei mundano que Israel precisava para expulsar os Romanos.
  1. Judas, em toda a conversa com Cristo, sempre revela uma flagrante grosseria e falta de delicadeza para com o Mestre, tratando-O de igual para igual, discutindo de igual para igual e tornando-se até agressivo em sua argumentação.
  1. Judas revela uma boa dose de soberba, atrevendo-se até a censurar atitudes de Cristo e a dar-Lhe conselhos quanto ao que devia fazer ou devia evitar.
  1. Judas sempre se mostra um auto-convencido, um arrogante, um homem cheio de sonhos coloridos de grandeza e glória mundanas e nesses sonhos insiste e persiste, apesar de Cristo lhe mostrar que eram sonhos loucos de loucura humana.
  1. A sua soberba fá-lo insistir teimosamente na viabilidade do seu plano, apesar de o Mestre lhe demonstrar que seria a ruína do seu corpo e da sua alma.
  2. Apesar de ver em Cristo o Messias,  Judas menospreza os Seus conselhos, encarando-os como desculpas idiotas e preconceitos engendrados propositadamente para rejeitar a sua candidatura a integrar o colégio apostólico.
  1. Ao recusar os conselhos e a argumentação de Cristo, Judas tenta praticamente colocar-se numa posição superior ao próprio Senhor, invertendo as posições para fazer valer os seus argumentos.
  2.  Judas usa de chantagem ao forçar a sua admissão, acusando Cristo de ser o culpado, caso ele (Judas) venha a condenar-se, se Cristo o recusar, fingindo até ser uma das ovelhas perdidas de Israel que também precisa de ser salva, mas só será salvo se o Messias o admitir. Argumentos engendrados na mentira e na hipocrisia.
  1. Judas actua como um cego a quem se aponta que vai por um caminho que leva à morte, mas que, mesmo assim, confiando em si próprio e nos seus talentos, avança a qualquer custo para um suicídio certo.
  1. Judas mostra não confiar nos prognósticos de Cristo a seu respeito, o que equivale a considerá-Lo um adivinho, um charlatão, uma pessoa pouco ou nada credível em seus diagnósticos e prognósticos.  Mais tarde, já perto da Paixão de Cristo, Judas acusá-Lo-á de ter arruinado a sua vida, por não ter concretizado o seu (de Judas) plano, recusando assumir a mínima culpa dos seus actos.
  2. As lições de Judas são pela negativa, mas também podemos aprender muito com elas, pois, se com Cristo aprendemos o que e como se deve fazer, com Judas aprendemos o que não devemos fazer.
  3. Há quem pense (e até há livros e filmes sobre isso) que Judas foi mais uma vítima do que um criminoso, porque, segundo as teses apresentadas, já estava escrito e profetizado que ele seria o traidor do Messias. É verdade que o Antigo Testamento aponta um traidor, mas não revela o seu nome, logo, não teria necessariamente que ser Judas.  Consta: “Até aquele que comia comigo à mesa …me traiu” (Salmo 41,9).  No Novo Testamento Cristo disse: “ Dos que me deste, nenhum se perdeu, a não ser o filho da perdição” (Jo 17,12); “A esse, que vai trair o Filho do Homem, melhor lhe fora não ter nascido”. (Mt 26,24)
  4. Há quem pergunte: Se Deus sabia quem era o homem que trairia Cristo, porque não o impediu ou porque permitiu que ele nascesse? Ou porque não o converteu? Judas tinha mesmo que trair Cristo, uma vez que estava escrito que ele o trairia?
  5. Convém ter ideias claras sobre questões confusas. A explicação para questões aparentemente inexplicáveis está na liberdade individual e na vontade soberana que Deus concedeu ao ser humano, tanto para o Bem como para o Mal. Deus não interfere nas leis da Natureza, nas leis da Física ou da Química, nas leis genéticas que presidem à individualidade de cada ser humano, embora possa fazê-lo, como no caso da gravidez da Virgem Maria. Deus não impede o nascimento de um futuro criminoso, mesmo de um homem que vai trair o Seu próprio Filho, como foi o caso de Judas. Cristo não precisava de um traidor para ser morto, porque mais cedo ou mais tarde o Sinédrio apanhá-Lo-ia quando Cristo decidisse que estava na hora. Ele próprio disporia as coisas e se entregaria, pois viera para isso.
  6. Convém não esquecer que para Deus tudo é presente e, como omnisciente que é, sabe tudo, conhece tudo aquilo que para nós está contido no passado, no presente e no futuro. Mas, apesar de saber o que cada ser humano vai ser durante a sua vida terrena, em consequência do bom uso ou do mau uso da sua liberdade e da sua vontade, Ele não pode ser culpado de não impedir o curso normal e o percurso natural que os seres humanos seguem em consequência das suas opções tomadas livremente.
  7. Em vista do que fica dito, qual o pecado de Judas, no final de contas? Foi ter arquitectado um plano e tentado sobrepô-lo ao plano de Deus, não olhando aos meios para conseguir desonestamente atingir os seus objectivos. Pelo meio ficaram pecados de soberba, orgulho, mentira, hipocrisia, ambição desonesta, roubo, luxúria, espiritismo, calúnia, cólera, inveja, agressividade verbal, desesperação de salvação e impenitência final (pecados contra o Espírito Santo), falta de respeito a Cristo, conspiração, traição, etc. Mas de Cristo ele não tinha razões válidas para se queixar, porque foi aconselhado e, no fim, também Cristo fez tudo para que ele se convertesse. Tudo em vão!
  8. Como consideração final, pergunta-se: Sabendo Cristo onde Judas iria parar, porque acabou Ele por ceder às suas pressões no sentido de ser admitido? A resposta tem a ver com  esta outra questão: Se Cristo tivesse rejeitado Judas e este, como deu a entender, tivesse entrado nos caminhos do mal, ou por vingança ou por outro motivo qualquer, e se condenasse, não poderia Cristo ser acusado de ter discriminado Judas e ser o causador da sua condenação? Tendo aceitado Judas, Cristo transferiu para ele (Judas) toda a responsabilidade e aguentou o ter de lidar com ele, que, a pouco e pouco, se ia transformando num demónio, até se transformar totalmente e se suicidar. Cristo não chorou somente por Lázaro e pelo futuro de Jerusalém, mas também chorou, e mais do que uma vez, por causa de Judas, ao sentir-se impotente para levá-lo a mudar e converter-se de vez. As lágrimas da Mãe de Jesus também não foram suficientes.

 .

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados:

. Última tentativa de Cristo para salvar Judas.

. O contrato de Judas com o Sinédrio

. E Judas foi enforcar-se

. A Ceia da despedida

. Manhas e artimanhas de Judas Iscariotes.

Nasceu-vos hoje o Salvador (Lc 2,11)

(Realidade & Ficção)

Personagens:

Pastores: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaac, Tobias, Jónatas, Daniel, Simeão, João, José, Benjamim.

. Anjos

. S. José

. Virgem Maria

estrela

Na mesma região (Belém) encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. (Lc 2, 8-12)

Nos arredores de Belém, exactamente no lado oposto da cidade onde se situa a gruta, pernoitam os pastores, com seus rebanhos, que não são todos seus, mas pertencem aos seus patrões, uns dali, outros, de localidades vizinhas. Todas as noites eles se revezavam para que um deles ficasse de vigia. Ficava um sempre de sentinela, não  por medo de fuga das ovelhas, mas por temerem os ladrões de gado.

Não é bem verdade dizer que aquela noite era igual a todas as outras noites, porque ela, por ser mais clara que as outras, por ter um luar mais luminoso que as outras, porque a lua naquela noite requisitara ao sol uma dose extra de luz que tornava os campos não só visíveis, mas até com uma claridade estranha. Esta era a noite…a princesa de todas as noites, a rainha de todas as noites, a mãe de todas as noites, a noite das noites. Era a noite única, a noite santa, a noite profetizada séculos antes, esperada durante milénios, a noite em que o Plano de Deus iria dar o passo principal para a Redenção da Humanidade, caída sob as garras de Satanás, após a Queda de Adão e Eva, A esta Queda  também  chamamos o Pecado das origens da Humanidade ou, sinda, pecado original. Era a noite cuja memória perdurará pelo tempo até ao fim do Tempo.

A estranha luminosidade da lua, movendo-se entre as nuvens de um céu estrelado, não deixou de chamar a atenção dos pastore, que, um após outro, saíram do cabanal que os protegia do frio da noite e todos achavam muito estranho não se poder olhar para a lua sem colocar  uma mão à frente dos olhos, tal como se faz para mirar o sol. Uma lua assim nunca se vira. Enquanto todos olhavam a lua, viram aproximar-se algo luminoso, que, ao longe, através dos ares, vinha em sua direcção, até que, finalmente, chegou perto deles:

Anjo“Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias -Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura”(Lc 2, 10-12).

Coro dos Anjos  (Cantando) – “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens por Ele amados” (Lc 2, 14)

Samuel – Nasceu o Messias!

Todos – Louvado seja para sempre o Deus de Israel, que  já  nos enviou o Desejado das Nações!

Jonas – Prestai atenção! Olhai para as ovelhas!

David – Estão todas agitadas e a balir!

Benjamim – E os cães estão a ladrar e às correrias! Parecem doidos!

Simeão – Escutai! A passarada também perdeu o sono e desatou num estrondoso concerto!

Elias – Olhai o céu! Está além uma estrela nova com um brilho fora do vulgar!

Levi – E parece estar do outro lado de Belém, aqui tão perto, quase sobre as nossas cabeças!

Jónatas – É isso! Toda a natureza se alegra com o nascimento do Messias!  Despachemo-nos e ponhamo-nos a caminho!

Simeão – Quem sabe onde é esse local indicado pelo anjo?

Levi – Eu sei onde é e quem é a Mãe do Messias!

Elias – Ah sim? Conta lá!

Levi – Há poucos dias chegou um casal a casa dos meus patrões, a pedir hospedagem, mas os  meus patrões não tinham nenhum espaço disponível para lá ficarem a dormir. A minha patroa  lá arranjou um quartinho para Ela descansar um pouco. Se vós a vísseis! Ela parecia um anjo!

José – Porquê? Já alguma vez viste um anjo?

Levi –  Nunca vi, mas  calculo que seja parecido com ela. Além disso, Ela é ainda muito nova, pouco mais velha que eu, mas estava grávida e não parecia nada ansiosa nem preocupada. Toda Ela respirava paz e no seu rosto brilhava um olhar muito meigo e um sorriso que nunca se esquece. Ela desfazia-se em agradecimentos por qualquer pequeno serviço que se lhe prestasse. Não imaginais como Ela me agradeceu quando eu lhe trouxe uma tigela de leite quente! Lembro-me que o senhor que vinha com ela estava um pouco nervoso e muito preocupado com a falta de condições dignas para o Menino nascer. Ela acalmava-o e dizia-lhe que o Senhor forneceria o necessário e que não seria preciso ninguém para ajudar no parto… e que também não teria dores…

Tobias – O quê? Ela disse isso? Isso é muito estranho! Mas como é que Ela sabia essas coisas? E como é que Ela sabia que era um Menino e que teria um parto sem dores? Sendo assim, não esperemos encontrá-La  de cama! Mas as mulheres, quando nascem os bebés, ficam de cama dois ou três dias e alguém tem de as ajudar nas lides domésticas!

Samuel – Pois! E não está na Torá (Bíblia) que a mulher dará à luz com dores?Então, Ela é diferente das outras mulheres, ou não fosse Ela a Mãe do Messias. Tenho cá para mim que não haverá maior dignidade na Terra do que ser a Mãe do Messias. Superior a Ela, só Deus! E outra coisa: Não está escrito também que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho? Sendo assim, Ela é essa Virgem anunciada ao rei Acaz. Logo, tudo nela é milagroso, pois a Deus nada é impossível.

Daniel – E se nos deixássemos de conversa, ó teólogos da meia-noite !Vamos embora! Conversamos pelo caminho!

Simeão – Calma aí! E aparecemos lá de mãos vazias? O Menino não é um qualquer! Ouvistes bem que Ele é o Messias, o Cristo, o Senhor! Israel anda há 600 anos a falar Dele e os profetas sabiam bem de Quem falavam.

João – O Simeão diz bem. Que podemos levar-Lhe como presentes?

José – Podemos levar queijo…

Benjamim –  Leite…

Daniel –  Pão, fruta, azeitonas…

Samuel –  Figos secos, tâmaras secas…

Jonas – Eu levo uma pele de ovelha, que vale tanto como  o melhor dos cobertores.

Elias – Eu cá levo uma ovelha!

Todos – Uma ovelha?

Elias – Sim, uma ovelha! Imaginai que a Mãe não tem leite! Como é que o Menino vai sobreviver se a Mãe não tem leite?

Samuel – Não tem leite? Todas as mães dão leite!

Elias – Pois, mas eu  já ouvi dizer que há mães que não têm leite quando os filhos nascem! Ou se o têm, demora a vir! Assim, é fácil levar uma tigela e tirar leite quentinho da ovelha. Ela até se sentirá muito honrada com isso. Já vistes que poderá ser a única ovelha a alimentar o Messias? (Ri com gosto ante esta ideia…)

José – Ó rapazinho, isso é uma ideia brilhante! De onde te vem tanta sabedoria, sendo ainda tão jovem?

Jonas – E quem sabe exactamente onde eles estão?

Levi – Eu sei! Aquela estrela deve estar sobre uma gruta que há lá no outro lado da cidade. Eu lembro-me que o senhor (penso que será o seu esposo) disse que iam para uma gruta que ele conhecia bem. Depois, quando pudessem, procurariam uma casa.

Isaac – Eu até já ouvi dizer que essa gruta já existia nos tempos de Abraão.

Tobias – Então, é hora de ir! Estou a ficar impaciente!  Eu levo um cordeirinho branco. Tome cada um o seu presente e vamos! Levemos umas lanternas para o caso de Eles lá não terem luz!

Simeão – Bem pensado!

Todos – Lá vamos a caminho de Belém adorar o Deus-Menino!

Chegados à porta da gruta, surgiu um problema. Como se anunciariam, como entrariam, quem entraria primeiro, quem falaria por todos?

Simeão – Levi, espreita aí, a ver se descobres alguém ou sinais de presença humana.

Levi – (espreitando) Cheira-me a fumo! Deixai-me entrar um pouco, pode ser que… (Arranca umas tossidelas ruidosas…)

Jonas – Vai mais para dentro e vê se descobres alguma luz! Vês alguma coisa ou alguém?

Levi – Espera aí! Há lá dentro muita luz. Parece o sol ao meio dia! E vejo…É Ela!…É Ela!…É Aquela que esteve em casa dos meus patrões!…E também o homem que vinha com ela. São eles! Estão ambos curvados sobre uma manjedoura onde um Menino está deitado, tal e qual como disse o anjo. Estão ambos a contemplar o Menino. Ele parece chorar! Se calhar é com fome e com frio! Ele não está a mamar! A Mãe está-lhe a dizer palavrinhas meigas, como só as mães sabem dizer!

Benjamim – O que está Ela a dizer ao Menino?

Levi – Fazei silêncio, de contrário não posso ouvir!…

Maria – Aqui estás Tu, finalmente, ó Filho de Deus feito Homem! Tanto tempo que esperámos por Ti! Agora…quem diria? O Senhor omnipotente aqui a choramingar com frio e fome! Meu Menino, Meu Filho, Meu Amorzinho, Meu Principezinho, meu Reizinho, Meu Senhor, Meu Criador, meu Deus!… Não encontrámos instalações melhores para nasceres! Tu, o Rei do Universo, aqui tão pobrezinho! Mas tens o amor da Tua Mamã e do Teu adoptivo pai, para Te compensar. É o melhor que podemos dar-Te!

Daniel – Basta de espiar! Chama em voz alta, para que te ouçam …ou nunca mais saímos daqui! Além disso, é feio espiar o que os outros fazem ou dizem. Quem tem cara limpa não se esconde!

Levi – Calai-vos! Se soubésseis o que eu ouvi! Foram as palavras mais doces que um ser humano pode proferir!… Mas eu vou chamar, para ver se aparece alguém!…Quem está aí?… Ó da casa! …Podemos entrar?…

José – (Virando-se, levantando-se e indo até à entrada) Quem sois vós?

Todos – Somos pastores e viemos adorar o Menino. Trazemos também alguns presentes: alimentos e lã.

José – Entrai!

Maria –(Virando-se e sorrindo) Sede bem-vindos! Como soubestes que o Messias já tinha nascido?

Simeão– Foi um anjo que nos disse e nos convidou a vir adorar o Menino. Depois, ouvimos um coro de anjos a cantar: “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na Terra aos homens…”Agora, aqui estamos! E temos presentes para o Menino: pão, queijo, figos secos, tâmaras secas, leite, um cordeirinho, uma pele de ovelha… (Olhando em volta) Falta qualquer coisa! Falta o Elias com a sua ovelha! Ide chamá-lo e que tire já leite quente para dar ao Menino, pois o leite que aí trazeis já está frio!

Maria – Muito obrigado pelos vossos presentes. O Meu Filho vos compensará e um dia Ele voltará aqui para vos agradecer pessoalmente e ainda muito mais, que a seu tempo se revelará.

João – Podemos pedir-vos um grande favor?

José – Dizei!

João – Deixais-nos beijar a veste do Menino?

Maria –(Destapando um pé do Menino) Podeis, mas em vez da veste podeis beijar o Seu pezinho!

E todos, um por um, concretizaram a primeira adoração popular do Menino, que correspondia agitando os pezinhos. Concentração, lágrimas, sensação de felicidade interior, desejo que aqueles momentos se prolongassem indefinidamente … Mas tudo termina! Ali nasceu neles o entusiasmo e o veemente desejo de darem a conhecer ao mundo o nascimento do Messias. Cristo acabara de fazer os Seus primeiros discípulos. Mais tarde, trinta anos depois, Cristo procurá-los-ia para lhes agradecer e confirmá-los em sua fé no Messias. Todos eles, aqueles ainda vivos, engrossariam o número dos Seus discípulos fiéis que estariam dispostos a dar a vida por Ele, após terem presenciado a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Nessa altura compreenderiam qual a sorte final do Cordeiro de Deus e a visão profética da Jovem Virgem Maria.

Elias – Eu vou a Hebron dar a notícia aos meus patrões!

Maria – Olha, conheces lá o sacerdote Zacarias, a sua esposa Isabel e o seu menino João, que deve ter agora 15 ou 16 meses?

Elias – Zacarias é aquele que ficou mudo até o menino nascer?

Maria – (Sorrindo ante  a sentença  de Elias)  Então, fazes-me um favor? Eles são meus parentes.  Diz-lhes que Eu lhes peço para virem até aqui.

Elias – Isso farei com muito gosto! Podes ficar  descansada!

Maria – O Senhor te pague! Sê sempre bonzinho e o Meu Menino te recompensará!

No regresso:

E a visita terminou. Cheios de alegria, os pastores encetaram o caminho do regresso, animados, falando pelos cotovelos, comentando, fazendo cálculos, especulando, falando sobre o que sabiam do Messias referido pelos profetas, interrogando-se sobre muita coisa que nós também ainda hoje nos interrogamos, assim como se interrogarão as gerações futuras: se tinha que ser assim, ali, logo de noite, logo num tempo em que não havia lugar nas estalagens, logo naquela pobreza! Porque não no palácio de Herodes, porque não na casa deles próprios ou dos seus patrões, etc., etc.

Elias – Vistes para que serviu a minha ovelha?

Jonas – E vistes o que a Mãe fez com a pele de ovelha? Agarrou no Menino,  embrulhou-O nela e Ele logo se calou.

Tobias – E vistes para que serviu o meu cordeirinho branco?

Todos – Para que foi? Não vimos nada de especial!

Tobias – Ah não? Não vistes as carícias que a Mãe fez ao meu cordeirinho? Quando lho ofereci, Ela  desatou a fazer-lhe festinhas e ele olhava para Ela de tal modo que até parecia querer dizer qualquer coisa! Ela olhava ora para o Seu Menino ora para o meu cordeirinho! Agradeceu sorrindo e, de repente, ficou muito séria, com olhar fixo em alguma coisa invisível…imóvel, sem pestanejar… como se visse alguma coisa má que eu não via e…imaginai lá: eu vi-a a limpar as lágrimas! (Limpando as suas próprias lágrimas).

Todos – Estás a chorar!?…

Tobias- Estou! Ela chorou, enquanto vós estáveis lá entretidos em volta do Menino na manjedoura. Choro também porque tenho muita pena Dela e não posso esquecer aquelas lágrimas que lhe caíram silenciosas pela face abaixo. Ela tentou disfarçar, mas eu vi! Depois, continuando a fazer festinhas ao meu cordeirinho, Ela dizia: O que tu me fazes lembrar, meu lindo cordeirinho!… Depois, enxugou as lágrimas, tentou sorrir e fingiu que estava feliz.

Samuel – Mas então só tu é que viste isso? Porque é que Ela terá chorado? Alguém é capaz de ter uma ideia? Não foi, de certeza, por nossa causa!

Aqui, cada um foi lançando a sua hipótese, que podia ser rejeitada, semi-aceite ou unanimemente aceite como possível.  Uns diziam que era por causa do frio, outros, por falta de uma casa, outros, porque não tinham alimentos nem roupa suficiente, outros, porque tinha muita pena do Menino, o nosso Messias ali tão pobrezinho, quando não faltam palácios em Jerusalém e em Belém. Falou, por fim, Simeão:

Simeão – Cá para mim, Ela relacionou o teu cordeirinho com o Cordeirinho Dela, quer dizer, o Seu Menino. Por isso, Ela olhava ora para um ora para outro, lembrando-se de qualquer coisa relacionada com cordeiros, porque Ela disse que o Seu Menino também era um Cordeirinho. São ambos puros e Ela deve ter-se lembrado do que acontece aos cordeirinhos brancos por altura da Páscoa… Será que Ela não viu o Seu Cordeirinho a verter o Seu Sangue  pelo nosso Povo e por todos os Povos?

Jónatas  – E um profeta não diz que o Servo do Senhor, que é o Messias,  foi levado ao matadouro e que como uma ovelha não abriu a boca (Is 33,5)? Já me lembro: foi Isaías que disse isso! Ela, ao ver o Menino e o cordeirinho, associou-os à sorte final  de ambos. Ela deve saber mais do que nós pensamos, ou não esteja Ela dentro dos segredos que envolvem a vinda do Messias! É o que eu penso! Ainda digo mais! Ela deve estar dentro de todos os mistérios relacionados com o Messias de Israel, que vai inaugurar novos tempos. O tempo dos profetas acabou e um outro mundo vai nascer. Só não sei qual o preço que o Messias vai pagar, mas Ela deve saber. Ela estava muito pensativa e os seus olhos  navegavam pelo corpinho do Menino, concentrando-se ora na cabeça, ora no peito, ora nas mãos, ora nos pés! Achei isto muito estranho! Será que Ela estava já a ver a morte do Menino?

João – O quê!? O Messias ainda agora nasceu e já estais a falar da Sua morte? Calai-vos lá com isso! Hoje é dia de alegria para todo o mundo!

David – Mas o Messias não vem para libertar o nosso povo da opressão dos Romanos? Não se diz que Ele é o Libertador e o Salvador que vai restaurar o Reino de Israel? Não percebo! Então…e é preciso morrer para cumprir essa missão? Mas Ele morre ou matam-NO? E se O matam, quem O mata e porquê?

Samuel – Eu já ouvi dizer que Ele será traído por um que se fará passar por Seu amigo. Quanto ao porquê, não sei responder! Se alguém sabe, diga! De qualquer modo, como eu gostaria de pertencer ao seu exército!

David – Eu já me contentava com servir no Palácio Real!

Levi – Eu gostaria de ser general do seu exército!

Elias – E eu gostaria de ser o pajem da Sua Mãe, o servo para todo o serviço!

Isaac – Eu não acredito que o Messias tenha vindo para isso! Ele é chamado o Príncipe da Paz, por isso, não pode ser um guerreiro, um general, um conquistador de cidades e reinos.

Tobias – Mas então, se Ele é o Libertador, o Salvador,  de que é que nos liberta e nos salva, afinal?

José – Mas Ele também é chamado Deus Eterno,  Deus Forte, Deus Imortal, Deus Santo, Príncipe Adorável, Conselheiro Admirável, Deus Poderoso, Pai Eterno… (Is 9,6)e outras coisas assim. Ora, se é Deus, só Lhe deve interessar a santidade dos homens e isso tem a ver com o pecado.

Benjamim – A propósito de pecado: Uma vez o Chefe da Sinagoga disse que o Messias viria para abrir as portas do paraíso aos Justos e para estabelecer na Terra um Reino de Paz e  Amor.

David – Se calhar, é isso, porque o profeta Isaías diz que um dia os animais selvagens e os domésticos conviverão sem se comerem e que até uma criança poderá meter a mão na toca da víbora e que os filhotes do leão brincarão com os filhotes das ovelhas e das vaquinhas,…(Is 11, 6-9), mas os animais aqui podem ser os homens. Ora, para os homens se amarem é preciso que eles se sintam todos irmãos e que não se guerreiem uns aos outros. E só num Reino de Amor é que isso é possível. Esse Reino do Amor será o Reino do Messias, pois o profeta Isaías até diz que será mesmo assim, porque as espadas enferrujarão por falta de uso.

Simeão – Eu curvo-me perante tanta sabedoria, ó David! …O David diz que tudo isso tem a ver com o pecado. Eu também assim penso, porque esse profeta, ou outro, também diz que ainda mesmo que os nossos pecados sejam vermelhos como o escarlate, eles ficarão mais brancos do que a neve (Is 1,18)). Sendo assim, Ele vem salvar-nos e libertar-nos das consequências do pecado.

Elias – E depois, já se pode pecar à vontade?

Simeão – Não! Era o que faltava! O pecado é inevitável, porque todos os homens são pecadores, mas o Reino do Messias será espiritual e Ele assumirá sobre Si todos os pecados da Humanidade e pagará o preço pelas ofensas feitas a Yahweh. Só depois de pagar esse preço é que os Justos do Limbo subirão ao paraíso. Só depois disso é que os Justos que morrem no Senhor irão também ao paraíso, que, como sabeis, ficou fechado depois do pecado de Adão e Eva.

Isaac – Mas onde é que tu aprendeste essas coisas?

Simeão – Eu tenho um tio que é sacerdote e ele fala-me muito destas coisas e de outras sobre o Messias.

Daniel – Lá em minha casa fala-se muito naquela passagem da Torá onde é dito ao rei Acaz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho que será chamado Emanuel”( Is 7,14),  que quer dizer,…quer dizer…Já não me lembro!”

Jónatas – Deus- connosco, Deus entre nós!

Daniel – É isso! Então, a tal Virgem é esta donzela! Que sorte nós tivemos em vê-La a Ela e ao Messias, Seu Filho! Isto quer dizer que aquele homem não é o pai do Menino, mas finge ser! Nesse caso, quem é o pai do Menino?

Levi – Não é ninguém!

Todos – O quê!!! Como pode ser isso?

Levi – Se o Menino é o Messias, o Messias é Filho de Deus; se é o Filho de Deus, também é Deus e ninguém pode ser o pai de Deus. Neste caso, o Pai do Filho de Deus é o próprio Deus! Porque ninguém que seja filho de um homem pode ser Deus. Isto quer dizer que o Messias foi gerado pelo próprio Deus no seio daquela Virgem e nesse caso….

Tobias – Ah! Agora percebo porque é que Ela disse que não teria dores de parto e também agora percebo porque é que Ela, após o Menino nascer, não ficou de cama como as outras mulheres e anda por ali como se não tivesse havido parto nenhum! Pois é! Agora percebo! Isto foi e é tudo obra do próprio Yahweh!

 Quer então dizer que o Seu marido,…isto é, o seu esposo, porque Ela tratou-o por “esposo”…Sendo assim,…ainda tem de haver mais! Se Ela é Virgem, o seu esposo também é! Sei lá, devem ter feito ambos voto de virgindade para toda a vida. Assim, têm de ser verdadeiros esposos, porque…senão …Ela era condenada à morte. E o Seu esposo deve ser apenas o guarda do Messias e o Seu pai adoptivo, tudo para não levantar suspeitas. Não pode ser de outra maneira. Quem penetra nos mistérios do Deus Altíssimo?

Samuel – Ó rapaz, pareces um profeta! Em que trapalhadas filosóficas e teológicas nos meteste! Um dia Ele e Sua Mãe vão-nos explicar tudo isso. Por agora, alegremo-nos e louvemos o Senhor! Mas antes, tenho que vos colocar uma questão: Qual foi o profeta que anunciou que o Messias nasceria em Belém de Judá? Aguardo a resposta certa!… Então, ninguém arrisca?…Então, eu digo: Foi o profeta Miqueias.

Simeão – O que é que ele disse exactamente?

Samuel – Disse: “Mas tu, (Belém) Éfrata, embora a menor das cidades de Judá, de ti sairá para mim Aquele que dominará em Israel” (Miq 5, 1)

Levi – Mas eu ainda tenho uma coisa a dizer, uma coisa que se passou comigo quando estava a beijar o pezinho do Menino.

Todos – O que foi? O que foi?

Levi– Não sei se diga! Ides dizer que estou maluco! Posso enganar-me, porque não sei se foi real ou se foi apenas uma impressão estranha. Pareceu-me ter uma visão diferente do Menino. É que, enquanto Ele chorava, eu vi-O sorrir para mim!… Pronto, já disse! Já podeis chamar-me maluco!

Todos (um por um): Olha, comigo aconteceu a mesma coisa!

Jonas – Eu só não falei porque,…mas então aconteceu o mesmo convosco! Que maravilha!

Daniel – Foi isso mesmo! Somos todos malucos! Ele sorriu para nós! Nós somos os seus primeiros amigos! Glória a Deus e ao nosso Messias pelos séculos dos séculos!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

João – Eu tenho ainda uma coisa a perguntar ao Elias. Tu disseste que ias a Hebron dar a notícia àquela  Sua parente, de nome Isabel?

Elias – Disse e vou cumprir o mais rápido possível. Aliás, há aqui qualquer coisa que se me escapa. Parece haver coincidências a mais! Essa Isabel…faz-me cá confusão!

Todos – Conta! Conta!

Elias – É assim! Há lá em Hebron um casal já muito idoso que conseguiu ter um filho, que tem agora uns  quinze ou dezasseis meses…. por aí,  e lá todos comentam que não sabem como é que isso aconteceu, pois naquela idade, a tal Isabel já não podia engravidar. Para mais, ela sempre foi considerada estéril. O marido é o sacerdote Zacarias e também já é muito velho. Mas dizem por lá que um anjo lhes anunciou um filho, e que ele, por ter duvidado do anjo, ficou mudo até o menino nascer. Esse menino chama-se João.

José – É tudo muito estranho! O Messias foi concebido milagrosamente por Yahweh no seio de uma Virgem,  o Joãozinho foi profetizado também e também milagrosamente foi concebido por um casal estéril. Para mais, da mesma família!

Daniel – Será que ambos os nascimentos não estarão intimamente relacionados? E porque é que o Joãozinho nasceu primeiro que o Messias?

Jónatas – Porque tinha de ser!

João – Explica-te!

Jónatas – Eu sei lá explicar isso! Mas um dia ouvi um Chefe de Sinagoga dizer que um mensageiro iria à frente do Messias a preparar o seu caminho (Malaquias 3,1). Só não sei como é que ele explicou o resto. Já não me lembro! Ele disse que isso tinha sido escrito por um profeta, que também já não sei qual foi!

David – Então, se assim é, isso deve demorar para aí uns 20 ou trinta anos! Será que ainda estaremos todos vivos nessa altura? Assim, já sabemos! Quando ouvirmos  o  mensageiro João, saberemos que o Messias vai também entrar em acção! Quem me dera viver até lá!

Jonas–  Egoísta! Diz antes: Quem nos dera a todos viver até lá! A Mãe disse que um dia Ele nos retribuiria a visita!

Todos – Assim o esperamos! Louvado seja o Senhor, Deus de Israel! (1)

Elias – Mas eu ainda tenho uma coisa para dizer! Vós vistes lá alguma candeia ou lanterna a dar luz?

Todos – Não!

Elias – Então, de onde vinha toda aquela luz, se não havia nenhuma fonte de luz?

Todos – Bem visto! Quem sabe, diga!

Simeão – Era a própria Luz do Menino, uma vez que Ele é Deus! E agora pergunto eu: O Levi disse, quando estava lá a espreitar, que cheirava a fumo. Alguém cheirou o fumo lá dentro?

Todos – Não!

Simeão – Então, foram os presentes que o Menino nos ofereceu em troca dos nossos! Glória a Deus nos Céus e paz na Terra aos homens!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

E a conversa continuou animada até ao telheiro onde se protegiam do frio e mantinham vigilância sobre os rebanhos.

“E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito” (Lc 2, 20)

(1) Uma das primeiras preocupações de Jesus, quando começou a sua vida pública, foi mesmo ir até Belém e contactar os pastores ainda vivos. Todos eles viveram na expectativa de voltar a encontrá-Lo, mas para alguns (poucos) isso já não foi possível. Os outros tiveram a felicidade de O reencontrarem e de se tornarem Seus discípulos.

.

Ezequiel Miguel

Jesus é convidado para Rei de Israel

(Realidade & ficção)

Personagens: Jesus, Samuel, doutores da Lei, sacerdotes, fariseus, anciãos, cortesãos de Herodes…

 .

reiSamuel era um dos amigos de Jesus, mas também um que se relacionava com Herodes e seus amigos, pois desempenhava funções na corte de Herodes, sendo lá visto como discípulo ou simpatizante de Cristo.

Por um lado, a sua casa estava à disposição de Jesus em suas andanças apostólicas, por outro, ele desempenhava funções no palácio de Herodes, tentando estabelecer um equilíbrio entre ambas as situações: Não desagradar a Cristo por causa de Herodes e da sua corte e não prejudicar Herodes por causa de Cristo. Mas Samuel, pessoa influente mesmo entre os membros do Sinédrio e das autoridades do Templo, estava incapaz de se decidir radicalmente por uma situação ou por outra, ao contrário de Susana, sua mulher, incondicionalmente discípula de Jesus.

A actividade de Cristo e a Sua pregação não deixavam nenhuma autoridade indiferente. Uns eram criticados por estarem contra Ele, outros eram criticados por não estarem a favor Dele e outros por não se definirem radicalmente a favor Dele.

Certo dia, surgiu na cabeça de alguém influente a ideia de que se deveria convidar Jesus para Rei de Israel, pois já estava provado que Ele era mesmo o Messias prometido e esperado. E, por um motivo ou por outro, era chegado o tempo de tratar do assunto e quanto mais depressa, melhor. Esta ideia começou a girar secretamente, de boca em boca, em volta de personagens bem escolhidos, com aqueles cuidados que um complot exige: reuniões secretas em locais secretos, absoluto sigilo dos conjurados, um cabecilha que coordene e vá fazendo andar o processo e uma vigilância segura. Assim se ia fazendo, não fosse o assunto levado ao conhecimento dos Romanos ou de Herodes e se deitasse tudo a perder, com a inexorável condenação à morte de todos os intervenientes.

Entre os conjurados havia fariseus, membros do Sinédrio, sacerdotes, anciãos, doutores da Lei, cortesãos de Herodes e discípulos de Jesus, públicos, meio- públicos, secretos , conhecidos ou desconhecidos de Jesus, todos unidos por esta ideia: Era tempo de restaurar o Reino de Israel, caído, humilhado e vergado ao chicote do inimigo romano. Para mais, julgando eles interpretar correctamente os Profetas, o Messias era apresentado como o Rei e o Libertador de Israel. Assim, sendo Jesus aceite como Messias, o resto viria por acréscimo. Bastaria oficializar o facto e proceder-se à unção com o óleo e consequente coroação de Jesus. Do apoio de todo o povo ninguém duvidaria, mesmo daqueles espalhados pela diáspora, e que eram muitos.

Assim como o segredo é a alma do negócio, muito mais o é no caso de uma conspiração. E chegou, finalmente, o dia em que Samuel, um dos meio-amigos poderosos de Jesus, O convidou, em nome dos outros conspiradores, para um encontro secreto de pessoas importantes na sua casa de campo, distando de Jerusalém uns quilómetros, em local insuspeito, pessoas que estavam dispostas a ouvir a Sua Palavra de Messias de Israel.

Tudo devidamente preparado, os quarenta conjurados partiram, antecipadamente, em carros puxados por bois, burros ou cavalos , separados por boas distâncias, para não levantar suspeitas, em direcção à casa de campo de Samuel. Finalmente, partiu também aquele que levava Samuel e o Mestre. Quando eles chegaram, já todos os outros os aguardavam serenamente, não tendo revelado nenhum entusiasmo pelos recém- chegados, como é próprio de uma atmosfera de conspiração, em que todos as palavras, gestos , atitudes e passos têm de ser cuidadosamente pesados, contados e medidos.

Samuel, o dono da casa, levou toda a gente para uma sala espaçosa e apresentou a Jesus todos os presentes, um por um, referindo os nomes, categorias e funções que desempenhavam, quer no Templo quer no palácio de Herodes, quer em sinagogas, tudo gente selecta, séria e respeitável a vários títulos. Cristo não precisou de ser apresentado, porque já todos O conheciam e já todos estavam a par do que fazia e do que dizia, assim como os seus conflitos com os Seus inimigos, alguns dos quais estavam ali estranhamente presentes.

Samuel, como hospedeiro de tão ilustre gente, fez o que lhe competia:

Samuel – A todos dou as boas-vindas e todos damos as boas vindas a Jesus de Nazaré, poderoso em palavras e obras, o nosso Messias prometido e profetizado, aqui presente entre nós. Todos nós agradecemos a Sua presença entre os grandes de Israel, pois a Sua sabedoria ultrapassa tudo o que sobre o assunto possamos dizer e nós estamos aqui para O ouvir, mas também para que Ele nos oriente naquilo que nós consideramos importante para Israel.

Seguiu-se a refeição, em que pouco se falou, pois o ambiente era de mútua desconfiança, em que as palavras ficaram contidas dentro de cada um. Os olhares, porém, viajavam, intrigados, de uns para os outros, de todos para Cristo e de Cristo para todos. Quando alguém falava, fazia-o em voz baixa, de modo a que só o vizinho do lado ouvisse e fosse ouvido. E assim decorreu a refeição, em ambiente sério e quase silencioso, como se todos tivessem algo a dizer, mas que não deveria ser dito. Acabada a refeição, chegou mesmo o momento de atacar o problema que tinha congregado aqueles homens. O dono da casa tomou a palavra:

Samuel – Mestre, chegou o momento de Te explicarmos o que nos levou a convidar-Te para esta reunião, assim como os cuidados que tivemos em que ela se mantivesse secreta, de modo a não chegar ao conhecimento de Herodes nem de Pilatos, pois os consideramos inimigos de Israel. Aqui, podemos falar à vontade, sem receio de que alguém, indesejado, nos ouça. Nós convidámos-Te porque Te respeitamos, veneramos, aceitamos como Messias, admiramos a tua sabedoria e o teu poder em fazer obras grandiosas, porque Deus está Contigo.

Não querendo alargar-me muito, digo apenas que, em nome do povo de Israel, oprimido e enxovalhado pelos romanos, Te convidamos para aceitares ser eleito o Rei de Israel, o Príncipe da Paz, o Libertador. Podes contar com as nossas riquezas para Te darmos um palácio real, um reinado que prestigie a nossa nação e um exército que nos restitua a dignidade, expulsando o invasor e deitando abaixo aquele antro de pouca-vergonha que é o palácio de Herodes. …Gostaria de ouvir o que tens a dizer-nos sobre esta proposta, que tem a aprovação de nós todos e de todo o Israel.

Jesus – (Silêncio)

Samuel – Então?…Já vejo que precisas de pensar. Vou dar-Te tempo para isso. Entretanto, dou a palavra a outro.

Cortesão de Herodes – Rabi, todo o Israel sabe o que se passa no palácio de Herodes, sem que ninguém seja capaz de corrigir seja o que for. É certo que temos um rei, mas não é o rei que Israel precisa. Este que temos é um rei fraco e subserviente aos romanos, que são quem realmente manda no país. É para Israel humilhante que este povo tenha chegado ao que chegou. Faltam-nos chefes e condutores da nação que imitem as antigas glórias militares de Israel. Este povo, o povo escolhido por Deus, não vive, mas vegeta como escravo. A maior parte dos cortesãos de Herodes concordam que sejas Tu aquele que merece reinar em Israel como rei soberano e sem concorrência estrangeira. Por isso, em meu nome, e no de todos os que habitamos ou trabalhamos no palácio de Herodes, fazemos-Te o solene convite para aceitares a Tua eleição para Rei de Israel, restaurando assim a antiga realeza, pois reconhecemos em Ti que vieste a este mundo para seres mesmo o Messias esperado, com o glorioso destino de ocupares o trono real em Israel. Poderás dizer-nos o que pensas sobre o assunto?

Jesus –( Silêncio)

Cortesão de Herodes – Pelo que vejo, ainda não pensaste bem no problema.

Jesus – Direi o que penso quando não houver mais ninguém para falar.

Cortesão de Herodes – Então, cedo a palavra a outro.

Ancião do povo – Na minha já avançada idade não queria despedir-me desta vida sem a minha última consolação: ver-Te instalado num palácio real digno de ti. És justo, sábio, tolerante, compassivo, tens poderes extraordinários que Deus Te deu e sabemos todos que os tens posto ao serviço do nosso povo. Tens uma sabedoria que ultrapassa a de Salomão, e Israel, dirigido por um rei a sério, seria compensado por estes anos em que gemeu sob o poder arbitrário das autoridades civis que nos têm governado, isto é, desgovernado. Eu falo em nome de todos os Anciãos de Israel, que pensam como eu e aprovam que Te convide também para assumires o trono real, mesmo que para isso tenhamos de construir um palácio real novo, de onde governarias o novo Israel, porque este parece ter sido abandonado por Yahweh. Aceita a nossa proposta e todo o Israel exultará de alegria e cantará salmos de louvor ao nosso Deus! … (Silêncio)…Então? Que respondes ao nosso convite?

Jesus –( Silêncio )

Sacerdote – Eu ouvi atentamente o que os outros disseram e concordo em absoluto com eles. Embora não sejas originário da tribo de Levi, nós te consagraremos ao sacerdócio, te nomearemos Doutor da Lei e te ungiremos com o óleo da realeza, ficando sacerdote e rei de Israel para sempre. Acho, e todos lá no Templo achamos que, em Israel, só tu és digno de ser ungido e coroado Rei de Israel. Todos nós vemos em ti o Messias Libertador que os profetas anunciam, incluíndo Anás e Caifás, os sumos sacerdotes. Eles te pedem desculpas por uma certa animosidade para contigo, talvez por informações erróneas, mas agora pensam como nós e dizem que Tu serias a honra e a glória do nosso Templo e do nosso Povo, cansado de tanto sofrimento imposto pelos profanadores das nossas coisas santas. Nós também estamos a par das Tuas obras de bem em favor dos doentes, dos pobres e dos oprimidos pelas dificuldades da vida. Já imaginaste o bem que seria termos um Rei santo, justo, poderoso, sábio, com poderes para resolver tantos problemas que afectam o nosso Povo? À semelhança dos anteriores intervenientes neste convite, aqui vai também o meu, que tem a aprovação de todos os que vivem ou trabalham no Templo….

Jesus – ( Após uns momentos de silêncio, pondo-se de pé e girando o olhar por todos os presentes) A minha resposta ao vosso convite é: Nãaooo!!! Eu sabia qual a finalidade deste nosso encontro aqui, mas vim porque já tinha prometido que vinha e também para vos mostrar que Eu não tenho medo de ninguém nas minhas actividades apostólicas. Há aqui dois tipos de pessoas: umas dizem ser meus discípulos, mas ainda compreenderam pouco sobre a minha missão em Israel; outras, como tu, ó sacerdote, tu, ó cortesão de Herodes, tu, ó Ancião do Povo,…. pura e simplesmente, mentis! Os vossos discursos e a vossa presença aqui são de mentira!

Doutor da Lei – O quê?! Acusas-nos de mentira? Vê lá como falas? Nós somos os santos de Israel. Que provas tens tu contra nós?

Jesus – Repito: Mentis!…Tanto a vossa presença como a vossa linguagem é de mentira! Nem no Templo, nem na corte de Herodes, nem os fariseus, nem os saduceus, nem os doutores da Lei, nem os sacerdotes Me aceitam como Messias! E, muito menos, Anás e Caifás! Se Me aceitassem, já teriam dados provas disso. E o que fazem? Espiam-Me, armam-Me ciladas para Me apanharem em pecado, acusam-Me de ser um agitador, um amigo de Belzebú, um comilão que come com publicanos, um que aceita conversar com meretrizes, um profanador da Lei,…e muito mais! Vós viestes aqui para me armardes mais uma cilada, preparada cuidadosamente e servindo-vos de má fé para convencer aqueles que estão do Meu lado. Eu não posso aceitar o vosso convite, porque Eu já sou Rei, mas das almas de Israel, porque o Meu reino é espiritual. Eu nunca serei ungido nem coroado Rei temporal de Israel, porque Eu já fui ungido e coroado Rei das almas, e só elas Me interessam em absoluto. Só por causa delas é que Eu vim ao mundo, disposto a pagar o preço que elas custam. Eu sou Aquele, como dizia João Baptista, que tira o pecado do mundo e também tirarei os vossos, se aceitardes a Minha Pessoa, a Minha doutrina da Boa Nova e vos arrependerdes.

Se Eu aceitasse, aqui e agora, a unção e a coroação como Rei de Israel, amanhã iríeis a correr ao Sinédrio, ao palácio de Pilatos e ao de Herodes, contando-lhes as coisas à vossa maneira, seguindo-se depois uma perseguição com efeitos para vós imprevisíveis. A Mim nada aconteceria, pois a Mim ninguém Me tirará a vida. Eu sou o Senhor da vida, da minha e da vossa, e a Minha sou Eu que a dou, quando chegar a hora, para remir a humanidade, estabelecendo neste mundo o Reino de Deus, do qual sou mesmo o Rei.

Além do mais, que seria de vós quando os romanos vos caíssem em cima e vos massacrassem como traidores a César e traidores a Herodes? Onde vos meteríeis para escapar ao massacre? Resumindo e reiterando a Minha resposta ao vosso convite, que não passa de uma armadilha: NÃAOO!… Aos meus amigos e discípulos aqui presentes censuro o facto de ainda não terem compreendido cabalmente a Minha missão e a deles, mas têm a seu favor o facto de terem sido enganados e instrumentalizados por pessoas sem escrúpulos e a mando do Sinédrio. Aos outros, só tenho de perdoar, porque não sabem o que fazem! Termino com uma pergunta final? Porque não estão aqui aqueles do Sinédrio que Me aceitam ou que não Me combatem, tais como Gamaliel, Nicodemos, José de Arimateia, Eleazar e outros? Porque esses são rectos de coração,… a sabedoria divina está com eles, tornando-os capazes de discernir o que está bem e o que está mal, o que devem ou não devem fazer, e que vêem ao perto e ao longe!…

E Jesus sai imediatamente da sala e da casa, enfia-se no meio de um canavial e abandona o local, caminhando ao longo da costa até encontrar a barca em que alguns discípulos pescam.

Entretanto, arma-se uma confusão na sala, cada grupo chamando traidores aos outros e atribuindo-se mutuamente as culpas pelo falhanço. Enquanto uns sugerem que se vá atrás de Jesus para O prenderem, outros aconselham que se Lhe peça desculpas, outros ainda sugerem que se apanhe e se feche na casa até Ele aceitar a realeza. No final, todos responsabilizam todos pelo falhanço, mas em Jesus ninguém mais põe o olho, porque, em poucos segundos, deixa os perseguidores confundidos, sem encontrarem uma explicação para aquele desaparecimento quase instantâneo.

Quando Jesus se julgou seguro, sentou-se, descansou e acalmou. Era já noite. E Jesus chorou!

.

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados

. Jesus na sinagoga de Nazaré

. Mulher, ninguém te condenou?

. O contrato de Judas com o Sinédrio

Jesus em casa de Zaqueu

(Realidade e ficção)

( Cf. Lc 19, 1-10)

.

zaqueu1

Do evangelho:

“Tendo entrado em Jericó, Jesus atravessava a cidade. Vivia ali um homem rico, chamado Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos. Procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de baixa estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómero para o ver, porque devia passar por ali. Quando chegou àquele local, Jesus levantou os olhos e disse-lhe: “ Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa!”. Ele desceu imediatamente e acolheu Jesus, cheio de alegria. Ao verem aquilo, murmuravam todos entre si, dizendo que tinha ido hospedar-se em casa de um pecador.

Zaqueu, de pé, disse ao Senhor: “ Senhor, vou dar metade dos meus bens  aos pobres e,  se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais”! Jesus disse-lhe:  “Hoje veio a salvação a esta casa, por este ser também filho de Abraão, pois o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido”! ( Lc 19, 1-10)

Zaqueu,  publicano (= chefe de cobradores de impostos), contratado  e pago pelos romanos, era odiado, como todos os publicanos e cobradores de impostos, os quais tinham de comum o facto de se aproveitarem  abusivamente de uma parte  dos impostos para proveito pessoal. Assim, na língua do dia a dia, eram tidos por ladrões, sem que alguém visse o meio de modificar as coisas, uma vez que a força e a autoridade dos romanos eram inquestionáveis. Eram considerados pecadores públicos e Cristo refere-se a eles com alguma frequência. Uma das acusações que os fariseus faziam a Cristo era o de comer com prostitutas e publicanos, que eles consideravam a ralé do povo judeu. Tal como o apóstolo Mateus, ex-cobrador de impostos,  também  Zaqueu vivia em desassossego com a sua vida, pois os fantasmas da desonestidade e da riqueza, adquirida pela extorsão  de impostos, não lhe davam o sono dos justos, apesar de o seu nome  significar “ justo”, “puro”.

Zaqueu tinha consciência de que não era nem uma coisa nem outra, antes se sentia ladrão e muito mais. Já ouvira falar de Jesus, que curava todo o tipo de doenças,  desde cegos a paralíticos e leprosos, expulsava demónios, pregava uma doutrina nova, convertia, perdoava, ressuscitava. Mas ele não só ouvira falar Dele, mas também já O vira de longe, pois esteve presente em uma das pregações do chamado Sermão da Montanha, onde Jesus falara  das riquezas, bem ou mal adquiridas, e verberou todos aqueles que se deixavam dominar por elas, ao ponto de não se importarem com os pobres, doentes e miseráveis que viviam ao lado. Nunca mais esquecera as Palavras de Jesus. “Bem aventurados serão os pobres  em espírito, porque deles é o reino dos Céus”.

Estas palavras não lhe saíam da cabeça, davam-lhe insónias, faziam-no rebolar na cama, perdera boa dose do apetite, do sono, da alegria e da paz de espirito e já se convencera que a sua riqueza mal adquirida seria a palha que alimentaria as chamas do fogo da geena (inferno). A consciência começara acusá-lo e ele desejava ardentemente encontrar-se cara  a cara com Jesus, mas  não sabia como. Também já ouvira dizer que Ele tinha convidado um colega publicano e cobrador de impostos para o grupo de discípulos que O acompanhava por todo o lado. Ocorreu-lhe a ideia: E se  Jesus também o convidasse, tal como  convidara Mateus?

Certo dia, estando Zaqueu na sua banca de cobrança de impostos, um ex-leproso, recentemente curado por Jesus, meteu conversa com ele.

Malaquias – Olá, Zaqueu! Já te conheci mais alegre do que estás hoje! Até parece que o mundo vai acabar por tua causa! Porque estás tão macambúzio?

Zaqueu – Olha, estou chateado, mas não é por causa de ninguém!

Malaquias – Será que a tua fortuna está a ir abaixo?

Zaqueu – Não! Não está a ir, por enquanto, mas irá!…

Malaquias – Estás doente ?

Zaqueu – Sim e não!

Malaquias – Dormiste mal?

Zaqueu – Dormi! Durmo mal todas as noites!

Malaquias – Bem! Não faço mais perguntas, mas parece-me que algo se passa contigo!

Zaqueu – E tu, que fazes por aqui? Tu não eras leproso, assim como a tua mulher e os teus filhos?

Malaquias – Sim, é verdade, mas morreram todos e só fiquei eu! Eu estava já mais morto do que vivo, mas  Jesus  de Nazaré curou-me e deu-me nova vida! Bendito seja Ele!

Zaqueu –  Jesus de Nazaré? Como é que isso aconteceu?

Malaquias – Foi assim: Eu sabia que um dia Ele passaria no caminho perto do túmulo onde eu vivia, isto é, onde eu definhava, lá perto de Jerusalém. Certo dia, vi uma multidão no caminho, com um homem alto à frente, que sobressaía dos outros, e disse para mim: ” É Ele”! Então, aproximei-me do caminho e comecei a gritar com toda a força.” Jesus,  filho de David, tem piedade de mim !” – Sabes o que Ele fez? Ele desviou-se do caminho, foi até junto de mim,  sorriu para mim, olhou-me olhos nos olhos e perguntou-me: “O que queres de Mim?“. Eu respondi: “ Senhor, cura-me, pois sou um desgraçado”! Então, Ele perguntou-me: “ E tu acreditas que Eu posso curar-te”? Eu respondi que sim, que acreditava. Então, Ele disse-me: “Eu quero! Fica curado! Vai mostrar-te ao sacerdote”! Naquele momento, senti um calor a percorrer-me o corpo e, pronto! Desapareceram todas as minhas chagas e fiquei como novo.

Zaqueu – Tu, que O viste de perto, diz-me: Como é Ele? Eu já uma vez O vi, mas foi de longe. Conta-me! Como é Ele?

Malaquias  – Ó Zaqueu, eu nunca vi ninguém assim! Ainda me parece um sonho! Passei do inferno ao paraíso, graças a Ele! Ó Zaqueu, nem sonhas como Ele é, visto de perto como eu O vi! É alto, de porte majestoso, loiro, de olhos azuis muito doces, de um sorriso divino que ilumina a alma, com uma voz suave, melodiosa, meiga,…e até me pareceu que vi uma auréola de luz em volta da Sua cabeça e  toda a Sua face irradiando luz. Nunca vi ninguém assim! Quem me dera voltar a encontrá-Lo! Se voltar a vê-Lo, peço-Lhe que me admita como Seu discípulo, para andar sempre com Ele. Então, a minha felicidade seria completa. Mas olha! Dou-te uma alegre notícia: Está previsto que Ele venha hoje a Jericó e é por causa disso que eu vim até aqui. Penso que uma grande multidão já O espera às portas da cidade.

Zaqueu – O quê? Não me digas que Ele vem cá hoje! Tenho umas ânsias de me encontrar também com Ele! Eu tenho muito interesse em vê-Lo e aproximar-me Dele, mas eu sou de pequena estatura e como é que eu posso chegar até  Ele, se anda sempre rodeado e acompanhado de imensa gente?  Outra coisa: Tu nunca te revoltaste com as tuas desgraças? Como estás de ânimo?

Malaquias – Oh, agora estou calmo, feliz, …já esqueci tudo o que passei e agradeço todos os dias a Yahweh e ao Seu Messias. Digo-te uma coisa: Se tu tens muita necessidade de te encontrar com Ele, Ele virá de certeza ao teu encontro, porque Ele disse uma vez que quem O procura, encontra-O. Isso aconteceu comigo e vai acontecer contigo. Ele é o Messias, o Filho de Deus, e sabe quem O procura e onde está! Por onde passa, Ele cura todos os doentes que acreditam Nele! Espera e verás!

Zaqueu – Sê bendito pelas notícias e pela esperança que me dás. Bem aventurados os pés do mensageiro que trás boas notícias. É o que diz o profeta Isaías… ou outro qualquer!

Malaquias – Escuta! Ouço gritos de hossana! Queres tu ver que Ele vem aí? Olha, lá ao fundo da rua! É Ele, com muita gente  com ramos de palmeira e oliveira. Prepara-te!

Zaqueu, ( arrumando a bancada apressadamente e olhando para todo o lado) Se vem muita gente….Já sei! Vou subir rapidamente a uma árvore!  Vem comigo e ajuda-me a subir àquela, além, que é a mais baixa! De lá, poderei vê-Lo e acenar-Lhe. Oxalá Ele olhe para mim!

Malaquias – Ele vai olhar para ti! É garantido!

 Jesus –  (Ao passar) Zaqueu, desce daí depressa, porque hoje quero ficar em tua casa!

E Zaqueu deixou-se escorregar pela árvore abaixo, acompanhou Jesus, lado a lado, até chegar a sua casa, mais propriamente à enorme vivenda  e ao enorme jardim que a não menos enorme riqueza lhe permitiu construir.

Zaqueu – Chegámos! É esta a minha casa, para a qual Te convido, assim como aos Teus discípulos. Cabemos lá todos e há comida e dormida para todos.

Jesus – Bonita construção, Zaqueu!…O Senhor ajudou-te!…Ele foi magnânimo para contigo!

Zaqueu – Bem, isso tem muito que se lhe diga!… Tu, que conheces a vida de cada um, sabes como a consegui construir… Eu passei a vida dominado pela ganância, roubei sempre que me foi possível, nunca respeitei os pobres e…muito mais! Além de ser ladrão, desonesto,…ainda tenho outros vícios, contando com a Tua ajuda para me ver livre deles. Mas chegou a hora de me redimir e endireitar os meus  caminhos, que são tudo menos planos e rectos.” Senhor, vou dar metade dos meus bens aos pobres e, se defraudei alguém em qualquer coisa, vou restituir-lhe quatro vezes mais”! A Ti vou dar em dinheiro o equivalente a metade da minha riqueza e aos outros… facilmente os encontro, pois sei quem são e o que lhes tirei indevidamente.

Eu vivia inquieto e queria encontrar-me Contigo, para me curares desta minha doença da alma  e de outras que também me incomodam…e que me fazem viver com medo. Como eu Te agradeço, Senhor! Sei que Tu disseste um dia: “Quem Me procura, encontra-Me”! Eu já Te procuro desde aquele dia em que estive entre os Teus ouvintes, quando pregavas as bem-aventuranças. O que disseste sobre os pobres em espirito, sobre as riquezas bem ou mal adquiridas e também sobre os puros de coração, porque verão a Deus…deixou-me inquieto. Aquilo atingiu-me  em cheio e deixou-me meio atordoado, tal como se tivesse sido atingido por pedras lançadas por uma catapulta. Cada uma das Tuas palavras atingia-me no peito com estrondo. A partir daí,  tornou-se para mim urgente  encontrar-me Contigo. Isso caiu-me hoje em sorte e quero tirar o máximo proveito.

Jesus – Eu sei disso tudo, Zaqueu! Eu vi-te lá no monte! Eu sou o Caminho, a Verdade, a Vida e a Luz do mundo. Eu vim ao mundo  para que todos se arrependam e endireitem os caminhos tortuosos de suas vidas. Era isso que o João (Baptista) pregava: “Endireitai os caminhos do Senhor, enchei os vales e arrasai os montes…”! E ele também disse: “ Eis o Cordeiro de Deus, Aquele que tira o pecado do mundo”! Pergunto-te, Zaqueu: “A quem se referia o João Baptista”?

Zaqueu –  Referia-se a Ti, Senhor! Mestre, a partir de hoje quero começar uma nova vida! O velho Zaqueu vai morrer e  ressuscitar, com a Tua ajuda!

Jesus – Hoje veio a salvação a esta casa, pois tu também és filho de Abraão e o Filho do Homem veio a ti para te salvar, porque, como tu reconheces, estavas perdido. Que a paz fique contigo e com os que moram na tua casa!  Agora, Zaqueu, enquanto procedeis à preparação da refeição, permite-me que Eu vá ao encontro de outros que vieram também até aqui, com cânticos e  gritos de hossana ao Messias de Israel. Eles esperam por Mim lá fora. Depois, dar-te-ei a alegria de te sentares à mesa a meu lado.

Zaqueu –  Sim, Mestre, mas para a minha alegria ser completa, exponho-Te já um desejo, pois posso não ter outra ocasião para To expor. É este: Admites-me no grupo dos teus discípulos?

Jesus – Admito! Depois de convertido e teres feito o que prometeste, continua na tua profissão, mas agora como um verdadeiro discípulo Meu: honesto, justo, fiel, sincero, puro em tua vida particular e pública,…e dá testemunho de Mim nesta cidade de  Jericó, levando os habitantes a perguntarem-se como é que Zaqueu está diferente. Fala de Mim como Meu verdadeiro discípulo! Depois, voltaremos a encontrar-nos.

“É mais fácil a uma corda passar pelo buraco da agulha do que um rico  entrar no Reino dos Céus…mas a Deus tudo é possível e  nada é impossível” Mt 19,24-26)

Comentário sobre as lições de Zaqueu

  1. Zaqueu é o exemplo daqueles que, sendo ricos, se poderão salvar. É um daqueles casos em que o camelo (=corda) passou pelo buraco da agulha.
  1. Felizes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a cumprem.

 A Palavra de Deus tem força, mas não é automaticamente que produz efeito nas almas. Tal como a chuva, ela molha, mas é preciso que a pessoa se deixe molhar, não se servindo de tapa-chuvas, guarda-chuvas e outras protecções contra…, nomeadamente preconceitos, opiniões e pontos de vista antecipadamente arreigados na alma e qua actuam como carapaças imunes à Palavra de Deus. Neste assunto, a pessoa tem de se despir de palavreado como este: “ A mim esta passagem diz-me que…Eu penso que… A minha opinião sobre isso é que…” etc.  A Palavra de Deus diz o mesmo para todos, sendo abusivo e blasfemo engendrar manobras para torcer, distorcer, diminuir, cortar, acrescentar, desvirtuar, etc, de modo a que tudo coincida com aquilo que nós queremos ou que se coadune com uma vida em desarmonia com os ditames e as exigências que a Palavra de Deus implica. Aproveito para lembrar, àqueles que são baptizados e militam fora da Igreja Católica, que devem  orientar as suas vidas por uma Bíblia Católica e pelo Catecismo da Igreja Católica, onde encontram tudo o que é necessário para a salvação.

3.Exemplo de decisão radical e corajosa.

 Uma decisão como a de Zaqueu, de subir a uma árvore para ver Jesus,é mesmo de coragem, não se importando com o ridículo da situação nem no presente nem no futuro. Também não se importou com as inimizades que viriam depois nem com as possíveis perseguições por parte das autoridades do Templo. Toda a conversão traz (pode trazer) custos, pois leva necessariamente a mudanças radicais que podem ser difíceis, dolorosas, lentas.

  1. Indemnizar pelos prejuízos causados/ devolução de bens roubados

É de elementar justiça devolver o que é roubado, acrescentando os juros e a paga pelos prejuízos morais. Se neste mundo, aquele que roubou  não  restitui nem indemniza, no outro mundo terá, minimamente, longos anos de purgatório, se não vier a ser condenado por infracção grave do 7º Mandamento:” Não roubarás!”

  1. Exemplo de humildade e reconhecimento dos defeitos/pecados/limitações.

É necessária humildade  e autoconhecimento para reconhecer os próprios defeitos, vícios, pecados, limitações, o que não é nada fácil. Para um médico tratar um doente, é preciso que este se aceite como tal. O mesmo se passa com Deus em relação a nós, que também gosta de ouvir, confessado com sinceridade e humildade: “Tende piedade de mim, que sou pecador”! Cristo contou aquela parábola do fariseu que rezava(?) de pé, orgulhoso, santo, perfeito, caridoso, cumpridor perfeito da Lei, em contraste com o publicano, ajoelhado lá ao fundo do Templo, suplicando humildemente, batendo no peito:” Perdoa-me, ó Deus, que sou pecador”! Cristo também disse: “Todo aquele que se humilhar será exaltado e todo aquele que se exaltar será humilhado”.  E: “ Aquele que quiser ser o maior faça-se o mais pequeno”! Daqui se infere que há grandeza na humildade, ingrediente essencial de toda a santidade.

  1. Exemplo de se virar para Deus na busca intensa de ajuda

Zaqueu reconheceu a sua incapacidade para  vencer, por si só, as suas fraquezas. É o que todos nós temos de fazer, mas, primeiro, temos fazer uma introspecção séria, honesta, sincera, profunda, se possível com a ajuda de um psicólogo, de um sacerdote, em direcção espiritual, ou com a ajuda daqueles que vivem mais próximo de nós, pois eles, podem ignorar os seus próprios defeitos, mas conhecem os nossos… e nós, os deles! É a realidade de vermos o argueiro no olho do outro e não vermos a trave/ o barrote no nosso.

  1. Exemplo do poder da Palavra divina

A Palavra de Cristo deixou Zaqueu a fermentar, a incomodar, a causar reacções que depois levaram a massa a levedar, até finalmente sair um produto acabado – a conversão. Em seu íntimo, as decisões de mudar de vida já tinham sido trabalhadas e acabadas, mesmo antes do seu encontro com Cristo, que se limitou a confirmá-lo e a dar-lhe a força necessária para se firmar no novo caminho que iria percorrer até à sua morte. Zaqueu terá sido, a princípio, uma boa terra onde caiu boa semente, mas, com o tempo e com  as teorias e práticas dos fariseus, acabou por se deixar apanhar por silvas e ervas selvagens, de que Cristo veio libertá-lo.

  1. Exemplo de arrependimento e propósito firme de emenda

É evidente que o reconhecimento dos erros, dos vícios, da desonestidade, etc., leva ao arrependimento, absolutamente necessário para a conversão, da qual também não se pode excluir um propósito firme de emenda, o que não quer dizer que o pecador fique com a certeza de que não volta a cair /pecar. Mas, todas as vezes que cair em pecado, terá de repetir o arrependimento, o propósito firme de não repetir e…apresentar-se à Confissão Sacramental, se for baptizado. Uma conversão séria não pode excluir a prática da oração e dos Sacramentos deixados por Cristo, em particular a Confissão e a Missa com Comunhão Eucarística.

  1. Modelo para aqueles que vivem em pecado

 Zaqueu, habituado a fazer contas, não precisou de as fazer na sua conversão. Modelo para quem vive em pecado privado ou público, em que se requere uma decisão radical, sem considerar os prós e os contras.

 Em decisões radicais  importantes, como foi a de Zaqueu, ele não se importou com o que diriam os outros ao converter-se e tornar-se discípulo de Cristo, disposto a dar testemunho público, tal como  Cristo exige a todos nós: “Quem se envergonhar de Mim, também Eu me envergonharei dele”! Só que dar testemunho de Cristo significa cumprir os Mandamentos, aceitar toda a Sua doutrina, sem excepção, e viver segundo as suas exigências. É evidente que nenhuma confissão protestante ou espírita aceita toda a doutrina de Cristo, fazendo eles a selecção daquilo em que querem acreditar. Que testemunho de Cristo poderá dar um protestante  ou um espírita, se não aceitam a única Igreja fundada pelo próprio Cristo: “Esta é a Minha Igreja…”?!  Algo difícil ou impossível de compreender!

  1. Agarrar a ocasião em que Deus passa

Zaqueu tomou a iniciativa  de aproveitar o momento, a ocasião, em que Cristo passava por ele. Também Cristo passa muitas vezes por nós, num retiro, numa leitura, numa conversa, num encontro casual com alguém, numa liturgia, numa homilia da Missa, na leitura da vida de um santo, numas  revelações de Cristo ou da Virgem Maria, numa peregrinação a um santuário Mariano, na presença de um milagre, etc.

Dou alguns exemplos destes:

  1. Agostinho converteu-se ao ouvir um sermão de Santo Ambrósio, Bispo de Milão; S. João de Deus (João Cidade) converteu-se depois de ouvir um sermão de S. João de Ávila; Santa Edith Stein, professora de Filosofia na Universidade de Berlim, no tempo de Hitler, converteu-se do judaísmo ao Cristianismo, ao terminar a leitura das Obras Completas de Santa Teresa de Ávila; Alexis Carrel, médico francês ateu, converteu-se depois de ver uma sua doente curada de um cancro em Lourdes; numerosos são também os casos de verdadeiras conversões em peregrinações a santuários marianos; Lurdes, Fátima,  Medjugorje são notáveis por isso, na Europa; em peregrinações da imagem de N.S. de Fátima pelo mundo há conversões e milagres em  abundância.  Se lhe surgir a ocasião, veja o filme “Fátima no mundo”, promovido pelo Santuário de Fátima. É Deus/ Cristo/ a Virgem/ que passam e deixam rastos de graças que levam à conversão.

.

Ezequiel Miguel

 .

Artigos relacionados:

. Jesus em casa de Pedro

. Jesus em casa da viúva de Naím

. Jesus nas bodas de Caná

. Jesus em casa do fariseu Simão

O bezerro de ouro no deserto

(Cf.Êxodo 32 // Deut. 9)

(Realidade & ficção)

.

Personagens :

. YAHWEH = EU SOU AQUELE QUE SOU

. Moisés

. Aarão

. Josué

. Israelitas

 .

bezerro-de-ouroTendo Moisés sido chamado ao Monte Sinai (da cordilheira do Horeb), no deserto, após a travessia do Mar Vermelho,  o povo ficou acampado cá em baixo, na base do monte, com expressa proibição de alguém tentar subir lá acima, sob pena de morte. E Moisés por lá ficou durante 40 dias e 40 noites, sem comer nem beber, de onde regressou com a Lei (Os Dez Mandamentos) que Deus escrevera a fogo nas duas tábuas de pedra.

Entretanto, na ausência prolongada de Moisés,  alguém começou a semear a dúvida sobre o seu destino, destino esse que ninguém poderia investigar subindo ao monte, porque tal atrevimento implicava a morte para quem se atrevesse.  Havia  mesmo um espaço delimitado em volta do Monte, para que ninguém o ultrapassasse, uma vez que todo ele estava entregue à presença e à Glória de Yahweh.

Enquanto Moisés vai a custo subindo,  uma sensação estranha o vai invadindo naquele silêncio não interrompido por nada nem ninguém. A certa altura:

Moisés – O que é aquilo? Um silvado a crepitar por fogo, mas sem cheiro, sem fumo, sem labaredas, sem faíscas…Estranho! Vou aproximar-me mais e ver de perto o fenómeno! Nunca vi uma coisa assim! É fogo, mas não queima, não provoca cinzas, não destrói!

Yahweh – Moisés, Moisés! Tira as sandálias, porque o lugar que pisas é santo!

Moisés – Mas…quem sois vós, Senhor?

YahwehEU SOU AQUELE QUE SOU! Eu sou o Senhor,  vosso  Deus,  que vos tirou do Egipto, da casa da escravidão. Vou fazer com o Meu Povo uma Nova Aliança, como fiz com Abraão, Isaac e Jacob. Vou gravar na pedra o essencial da Minha Lei, que lhe transmitirás, dizendo que não são leis humanas, mas divinas, não inventadas por ninguém. Logo que lhas transmitas, ficarão de imediato promulgadas e em vigor para sempre…..

Entretanto, no acampamento:

1º Israelita –  EH! Amigos!  Quem sabe por onde andas esse Moisés?  Há tanto tempo que subiu ao monte!…Que será feito dele?

2º Israelita –  Já deve ter sido comido por alguma fera e dele  também nem os ossos encontraremos, uma vez que estamos proibidos de ir em busca dele!

3º Israelita –  Se não foi morto por uma fera, já deve ter morrido à fome ou à sede, porque não levou nada para sobreviver!

4º Israelita – Eu cá não acredito naquilo que ele disse. Ele disse que ia lá acima para falar com o Senhor, mas, se Yahweh tivesse alguma coisa para lhe dizer, porque haveria Ele de o chamar para ir lá acima? Podia revelar-se a ele na sua tenda ou  junto da Arca da Aliança.

5º Israelita – Bem vistas as coisas, também não precisamos dele!  Vamos fabricar um deus do Egipto e festejar o fim da história de Moisés, agora que já nos livrámos dele.

6º Israelita – Boa ideia! E como faremos para fabricarmos o deus?

7º Israelita – Vamos de tenda em tenda e pedimos ouro às mulheres: braceletes, brincos, anéis, argolas, medalhões e outras coisas em ouro. Penso que conseguiremos juntar o suficiente.

8º Israelita – E quem nos autorizará, uma vez que  de Moisés não há rasto?

9º Israelita – É fácil! Vamos ter com Aarão, o irmão do Moisés!

10º Israelita – E acreditais que ele fará isso? Isso será uma traição a Moisés!

11º Israelita – Ameaçamo-lo, se  ele não assumir a responsabilidade. Se o Moisés aparecer, terá que se entender com ele e ele com Moisés. Assim, ficamos nós livres de qualquer punição, porque,…nunca se sabe o que poderá acontecer…Vamos então até ele!…

12º Israelita – Aarão,  na ausência do teu irmão, és tu que nos orientas. Vimos aqui para nos ajudares num projecto! Pedimos-te que dês instruções ao povo no sentido de entregar peças de ouro para fundirmos um bezerro. Queremos fazer uma festa para esquecer estas agruras e estas ansiedades em que vivemos. Tu sabes como temos saudades do Egipto e estamos cansados desta vida de nómadas no deserto! Vê lá! Tens  de colaborar connosco e estamos dispostos a tudo se não colaborares!

13º Israelita – “Vamos! Façamos para nós um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos persuadiu a sair do Egipto, não sabemos o que terá acontecido”(Ex 32,1)

Aarão “ Tirai as argolas de ouro das orelhas das vossas mulheres, dos vossos filhos e das vossas filhas e trazei-mas!”

“Eles tiraram as argolas que tinham nas orelhas e levaram-nas a Aarão. Recebeu-as nas mãos deles, deitou-as num molde e fez um bezerro de metal fundido. Então, exclamaram: “ Israel, aqui tens o teu deus, aquele que te fez sair do Egipto.” Vendo isto, Aarão construiu um altar diante do ídolo e disse em voz alta:

Arão –  ”Amanhã haverá festa em honra do Senhor”.

 No dia seguinte, de manhã, ofereceram holocaustos e sacrifícios de comunhão. O povo sentou-se para comer e beber e depois levantou-se para se divertir” ( Ex 32, 3-6)

Então, o Senhor disse a Moisés:

Yahweh –“ Vai, desce depressa, porque o teu povo, que tiraste do Egipto, corrompeu-se. Bem depressa se afastaram do caminho que Eu lhes prescrevera, fabricaram um bezerro de metal fundido e adoraram-no, ofereceram-lhe sacrifícios e disseram: “Este, ó Israel, é o teu deus que te tirou da terra do Egipto. Eu observei este povo e eis que é um povo de dura cerviz. Deixa que se acenda a Minha ira contra eles e os consuma; de ti, porém, farei uma grande nação! “( Ex 31 ,7-11).

Moisés – Mas, Senhor,  ides destruir todo o meu povo quando só alguns fizeram o que acabas de dizer? Perdoa-lhes, Senhor, e castiga-me a mim, mas salva o Teu povo, que , em sua maioria,  Te aceita como  seu Deus e Senhor! “Por que, Senhor, se acenderia o vosso furor contra o meu povo, que tirastes da terra do Egipto com mão forte e braço poderoso? Não convém que se possa dizer no Egipto: Foi com má intenção que Ele os fez sair  para os matar nas montanhas e suprimi-los da face da Terra! Não te deixes dominar pela cólera e abandona a decisão de fazer mal a este povo. Recorda-Te de Abraão, de Isaac e de Israel (Jacob), teus servos, aos quais juraste por Ti mesmo: tornarei a vossa descendência tão numerosa como as estrelas do céu e concederei à vossa posteridade esta terra de que falei, e eles hão-de recebê-la como herança eterna”. (Ex 32, 11-14)

Moisés – (Descendo  do monte com as duas tábuas da Lei e ouvindo o ruído…) –   O que ouço eu? Parece uma festa…Que motivos terão eles para festejar? Também ouço  música e tambores!

Josué Há no acampamento alaridos de batalha!

Moisés Não são gritos de vitória nem gritos de derrota. O que oiço  são vozes de gente a cantar.

“Ao chegar junto do acampamento, Moisés viu o bezerro e as danças. Acendeu-se a sua cólera, atirou com as tábuas e partiu-as ao pé do monte. Depois, agarrando no bezerro que tinham feito, queimou-o e reduziu-o a pó fino, que espalhou na água. E deu-o a beber aos filhos de Israel” ( Ex 32 19-20)

MoisésAarão, que te fez este povo para o deixares cometer um tão grande pecado?

Aarão“ Que o meu senhor não se irrite! Tu próprio sabes como este povo é inclinado para o mal. Eles disseram-me: Faz-nos um deus que caminhe à nossa frente, pois a Moisés, esse homem que nos fez sair do Egipto, não sabemos o que lhe terá acontecido. Eu disse-lhes: quem tem ouro? Despojaram-se dele e entregaram-mo; lancei-o ao fogo e saiu este bezerro .(Ex 32,22-24)

Moisés – Acompanha-me até à entrada do acampamento!...Filhos de Israel, quem é pelo Senhor, junte-se a mim!

Aarão – Estou a ver!  Aí tens todos os filhos de Levi, os da nossa tribo!

Moisés –“ Filhos de Levi, o Senhor, o Deus de Israel, diz o seguinte: Cinja cada um de vós a espada sobre a coxa. Passai e tornai a passar através do acampamento, de uma ponta à outra, e cada um de vós mate o irmão, o amigo e o vizinho!” ( Ex 32 ,27)

“Os filhos de Levi fizeram o que Moisés lhes ordenara, e cerca de três mil homens morreram nesse dia, entre o povo. Moisés disse:

Moisés –  Consagrai-vos desde hoje ao Senhor porque, sacrificando o vosso filho e o vosso irmão, atraístes hoje sobre vós uma bênção”. (Ex 32, 29)

Oração de Moisés:

 No dia seguinte, Moisés disse ao povo:

Moisés: ” Cometestes um enorme pecado. No entanto, vou subir para junto do Senhor. Talvez alcance o perdão para o vosso pecado. “

 Moisés voltou para junto do Senhor e disse:

Moisés – Ah, este povo cometeu um grande pecado. Fizeram para si um deus de ouro. Apesar disso, perdoa-lhes este pecado, ou então apaga-me do livro que escreveste!

“O Senhor disse a Moisés:

Yahweh – ” Apagarei do meu livro aquele que pecou contra mim. Vai agora e conduz o povo para onde Eu te disser. O meu anjo caminhará diante de ti, mas no dia da prestação de contas, puni-los-ei pelo seu pecado”.

O Senhor castigou o povo, por ter instigado Aarão a fazer o bezerro. ((Ex 31,30-35)

Comentário:

  1. O povo de Israel era a concretização da promessa feita a Abraão de que ele seria o pai de uma numerosa descendência, à qual seria dada uma terra de prosperidade e bem estar. Mas Deus serve-se dos homens, daqueles que Ele escolhe, para realizar na Terra os Seus planos, os quais se vão realizando condicionados pela aceitação ou rejeição por parte daqueles que ficam envolvidos neles.

Moisés e seu irmão Aarão, da tribo de Levi, foram os escolhidos para conduzir o seu povo a partir do Egipto, pondo fim a uma escravidão de quatro séculos. Este povo pôde admirar como Deus os libertara do faraó: com inúmeros milagres, como lhe abriu passagem através do Mar Vermelho, como o protegeu e livrou do exército do faraó, como o conduzia de noite por uma nuvem luminosa e de dia por uma nuvem que lhes servia de guia e de local de paragem para montarem o acampamento, como transformara em água potável um poço de águas sujas, etc.

 No entanto, se a maioria tinha olhos para ver, fé para crer e esperança  em melhores dias, outros entraram pela via da murmuração, da rebelião,  da perda da fé  em Deus, caindo na aberrante ideia de pedir (exigir?) a Aarão um deus de metal fundido. Não se compreende como o homem, dotado de razão e inteligência, pode cair tão baixo, ao ponto de  prestar culto de adoração a um ídolo e proclamar: “Este, ó Israel, é que é o teu Deus, que te fez sair do Egipto!”

  1. Será para admirar? Sim e não! O ateu, o que esquece ou não conhece o Deus verdadeiro, está sujeito a tudo, até a ver deus num bezerro de metal ou em outras criaturas, pessoas, animais ou coisas. Convém não esquecer que este povo, enquanto esteve no Egipto, vivia num ambiente de idolatria generalizada, não lhe sendo fácil manter-se afastado das práticas pagãs dos cidadãos do Egipto. Daí, a constante advertência de Deus e de Moisés contra as tentações de ver, fabricar ou adorar divindades concretas, esquecendo o Deus invisível que apenas se manifestava através de Moisés e dos milagres que ia fazendo diariamente.

É o problema da Fé, ontem, hoje e sempre, num Deus que continua e continuará tão invisível como antes. A Fé é a capacidade de ver para lá do visível, requerendo a adesão voluntária da inteligência e das práticas correctas e obrigatórias  que a alimentam. O homem que não tem Fé caminha pela vida às cegas, não descobrindo o que ele próprio é, de onde vem e para onde vai! Quando o descobrir, logo após a morte, é tarde demais!

  1. Após os pecados em que o povo incorria, Moisés não se poupava a interceder por ele, tentando e conseguindo acalmar a ira de Deus, oferecendo-se mesmo para entregar a sua vida em troca do perdão que implorava para o seu povo. Pode ver-se aqui quanto vale a oração de um santo, de um amigo de Deus, de alguém que aceita uma “missão impossível”. É certo que Deus perdoou ao povo, mas não perdoou àqueles que promoviam a revolta, a murmuração, a idolatria, as saudades do Egipto e que tentavam abater a fé daqueles que se mantinham fiéis aos desígnios de Deus, transmitidos por Moisés. Fossem poucos ou fossem milhares, Deus ia varrendo toda a fruta podre no seu povo, para que o resto não apodrecesse também, numa pedagogia que se podia resumir a “ exterminar uns quantos para salvar o maior número possível”. Será caso para acusar Deus de violento, injusto, cruel, etc.? Qualquer general ou oficial faria o mesmo numa batalha, se visse que essa era a solução menos drástica, com menor número de baixas.

E a morte de inocentes, como as mulheres, as crianças, os animais,.. daqueles que foram de imediato executados em punição pelo seus pecados?  Terão sido inocentes, mas o pecado de um chefe, de um governante, de uma autoridade,…arrasta consequências funestas, não só para aqueles que os cometem, mas para  os familiares e a sociedade em geral, tal como numa guerra, em que morrem muitos que não têm culpa, aparente ou real.

  1. A murmuração – É um dos pecados da língua. Murmurar está na raiz da palavra murmúrio, tendo a ver com comentar em surdina, baixinho, ao ouvido, sussurrar, falar em segredo…,sobre a vida ou episódios da vida de alguém, emitindo normalmente juízos e opiniões desfavoráveis, entrando assim na difamação ou na calúnia, quando se espalham falsidades que o murmurador toma por verdades. É triste, mas não deixa de ser verdade: Normalmente, temos a tendência para denegrir a vida alheia e raramente somos capazes de admirar ou referir as suas qualidades e bons serviços, porque caímos na crónica hipocrisia de ver no olho dos outros um argueiro e não vermos no nosso um barrote, uma trave, um milhão de vezes maior…Faz parte da nossa psicologia: afundarmos os outros para  tentarmos elevar-nos a nós próprios. Não esqueçamos que a murmuração acaba por ser também um pecado contra a caridade, porque prejudicamos o próximo. Parafraseando Cristo: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça,  e quem tem sabedoria para entender, entenda!

 

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados:

. A rebelião de Coré

. Shemá (Escuta), Israel! – I

. Shemá (Escuta),Israel ! – II

. Maledicência, murmuração e duplicidade

. Insultos, injúrias, ofensas…por palavras

. Salmo 94(95) – Hoje se escutásseis a voz do Senhor

. Salmo 77(78) – Deus na história de Israel

As razões do filho pródigo – I

(Confira: Lucas 15,11-32)

 .

 ( Realidade & ficção)

 .

“Como é infame aquele que abandona o seu pai e como é amaldiçoado por Deus o que irrita a sua mãe” (Eclesiástico 3, 18)

Personagens: Pai e filho mais novo

paiefilho“Um homem tinha dois filhos. O mais novo disse ao pai: “Pai, dá-me a parte dos bens que me corresponde”.  E o pai repartiu entre os dois os seus bens…Poucos dias depois, o filho mais novo, juntando tudo, partiu para uma terra longínqua …” (Lc 15, 11-13)

Não lhe faltava nada, tudo lhe corria bem. Tinha um pai rico, bondoso, compreensivo, tolerante, e um irmão trabalhador e honesto que não lhe causava qualquer complicação. Tinha tudo para uma vida calma numa casa e numa família sem problemas.

Mas há sempre um mas. Um dia,  surgiram, neste ambiente monotonamente feliz, umas  ideias que começaram a engrossar na cabeça deste filho pródigo e tanto engrossaram que, qual árvore já com raízes bem fixadas na terra, começaram a lançar ramagens e frutos, enquanto cresciam, cresciam…Finalmente, o filho mais novo deste pai, chamando-o de parte ,  expôs-lhe o que precisava de lhe  expor:

Filho  – Pai, tenho uma coisa a propor-te! Há já muito tempo que tenho na cabeça uma ideia que sempre receei expor-te, porque não vais, certamente, gostar dela. Não sei bem como começar! Não queria magoar-te, mas…

Pai – Filho, eu sempre vos estimulei a serdes francos, leais e sinceros para comigo e sempre estive disposto a ajudar-vos a resolver qualquer problema que vos afecte, pois os vossos problemas são os meus problemas e a vossa felicidade é também a minha felicidade. Por isso,…aguardo que me contes o motivo das tuas preocupações.

Filho – Custa-me dizer, mas tem que ser! Desde já peço perdão para o meu atrevimento. É que…não sei bem por onde começar! Eu… não é que me sinta mal na tua casa, mas eu queria experimentar uma nova maneira de viver, menos monótona, menos rotineira, mais independente, mais livre,  mais adulta, mais capaz de me fazer crescer como jovem e como homem,  gerindo a minha liberdade mais responsavelmente…

Pai – Mas, filho, tu sentes-te um escravo na minha casa? Eu nunca te obriguei a nada! Apenas vos tenho dito que a vida, em qualquer circunstância, está sujeita a regras que o bom senso e a educação dos filhos exigem. Eu só  quero preparar-vos para a vida e ensinar-vos aquilo que deveis aprender para serdes homens justos, trabalhadores, respeitadores, conscientes, responsáveis… Vê como o teu irmão trabalha! Eu não preciso de lhe dar ordens para ele fazer o que deve fazer. Apenas  me limito a dar-lhe conselhos quando ele mos pede!

Filho  – Pois é, pai, mas eu sempre tenho de te pedir dinheiro para satisfazer algum capricho ou comprar aquilo de que preciso. Além disso, também preciso de me divertir com os meus amigos e amigas e eu já me envergonho de te pedir dinheiro tantas vezes!

Pai – Filho, mas eu alguma vez de neguei o dinheiro que me vais pedindo? Até é a maneira de irmos conversando um com o outro e permutar confidências entre nós, pois filhos e pais precisam de conversar, para quebrar a possível frieza que se vai instalando e alimentar o amor filial e paternal.

Filho  – Pois é!…Mas , se  eu tivesse dinheiro suficiente, eu não andava sempre a pedir-te cada vez que preciso dele.

Pai – Diz-me, filho, quanto achas que precisas por mês? Eu posso conceder-te uma mesada fixa para os teus gastos, mesada essa que tu poderás gerir a teu gosto e assim já não terás que te humilhar a pedir-me, se essa é a causa do teu problema. A minha riqueza é suficientemente grande para eu não precisar de andar a fazer contas contigo. Diz só: Quanto queres mensalmente?

Filho  – Pois!…Mas, assim, criava-se outro problema. Se me desses uma mesada a mim, terias de dar outra mesada ao meu irmão, para seres justo!

Pai – Para mim isso não é problema. Vai ter com o teu irmão e discute com ele esse assunto!

Filho  – Para quê? Para que é que ele precisa de dinheiro?  Ele nem o sabe gastar!  Ele só quer trabalho, não se diverte, não reivindica nada, é um paz de alma enervante!…Nem sequer  consegue enervar-se quando eu discordo dele e ele discorda de mim! Para ele está tudo sempre bem! Ele não tem ambições e, quando morrer, vai morrer podre de rico. Eu sou diferente, tenho sangue na guelra e preciso de mudar de ambientes. Esta pacatez  enjoa-me! Por isso, tenho uma ideia a propor-te:  Dá-me a parte da herança que me pertence e eu sei o que fazer com ela!

Pai – Estás a falar a sério, filho? Nunca pensei ouvir isto de um filho meu, ao qual eu tenho dispensado, com alegria e entusiasmo, tudo o que ele precisa! Quanto ao teu irmão, a experiência mostra-me que ele é sério, trabalhador, amoroso, obediente…embora o seu feitio calmo não seja de molde a preocupar-se  com muitas coisas. Sois diferentes, mas, bem vistas as coisas, todos os homens são diferentes uns dos outros.

Filho – Sim, pai!… É isso mesmo que eu te peço! Vende a parte da minha herança e entrega-ma em dinheiro vivo! Se me amas de verdade, não poderás recusar o que te peço!

Pai – E depois, o que farás com esse dinheiro? Ficas por cá, continuas a viver na minha casa ou…?

Filho – Logo que me dês o dinheiro, partirei para longe! Quero viver a vida e satisfazer a minha ambição de liberdade e felicidade. Trabalhar já não será comigo, pois esse dinheiro será suficiente para viver desafogado sem a humilhação de pedir aquilo a que tenho direito…

Pai (limpando as lágrimas) – Ó filho, filho, o que vais fazer! Tu magoas-me, ofendes-me, entristeces-me…porque prevejo que vais ser um infeliz, um pedinte, um miserável, um órfão, um rejeitado pela sociedade, um…Pensas que é humilhante pedir-me o que precisas, mas vais ter que te humilhar para esmolar o teu sustento diário a outros, que to negarão. Passarás fome e miséria quando na casa de teu pai até os servos têm tudo em abundância…

Filho – Não será bem assim! Eu já tenho idade para gerir a minha vida como me apetecer, sem que ninguém exerça qualquer autoridade sobre mim. Os tempos agora são outros! Os pais são como os outros progenitores. Cumprem a sua missão e depois  chega o tempo de os filhos saírem do ninho e voarem  livremente no espaço infindo da vida. É esse o meu caso!

Pai – Se não posso demover-te de um passo errado, respeitarei a tua liberdade e o modo como vais servir-te dela.  Aguarda que eu possa satisfazer as tuas pretensões. Preciso de fazer contas e vender a tua herança. Depois, …recebê-la-ás em dinheiro! De qualquer modo, se  entretanto mudares de ideias, comunica-me!

Avaliada a herança, contas feitas, dinheiro no bolso, o pai chamou o filho mais novo:

Pai – Aqui está o dinheiro correspondente à tua herança!  Continuas firme na tua decisão de abandonar a casa do teu pai?

Filho – Sim, pai! Já decidi e está decidido. Não volto atrás!

Pai – Então, aqui tens esta bolsa com o dinheiro que te pertence!  Aproveito para te perguntar: E depois, quando o dinheiro acabar?

Filho – Eu sei geri-lo de modo a nunca acabar. Vou comprar e vender, aumentando assim o meu capital. Não quero mais saber desta estúpida vida  de vigiar os servos, transmitir-lhes os teus recados,  transmitir-te os deles, …e nem sequer tenho um salário para gastar a meu gosto!…Vais ver que ainda me vou tornar mais rico e tu não te envergonharás de mim!

Pai – Oxalá seja assim!…Então, filho,  não te vou dizer que espero que sejas feliz, porque… não vais ser! Em qualquer dos casos, se a vida te correr mal,…eu ficarei à tua espera todos os dias e, se decidires voltar para casa, eu cá estarei para te receber com o mesmo amor de sempre e até com mais, porque tu irás precisar de uma dose maior. Um pai é sempre pai e um filho é sempre filho!  Despede-te do teu irmão e depois…vem despedir-te de mim!

Filho – Despedir-me do meu irmão? Para quê? Ele nunca simpatizou comigo!

Pai – Filho, tu também sempre foste agressivo para com ele e também nunca apreciaste as suas qualidades. Sabes que o mal que se faz aos outros recai sobre quem o pratica. Mas agora, pelo que vejo, ficas contente por te veres livre dele!… E dos meus fiéis servos, não te despedes?

Filho – Não! Não vão eles tentar demover-me dos meus propósitos e desatar para ali a choramingar como se me vissem partir num caixão! Assim, quando o souberem, já estarei longe. Despeço-me de ti  e lamento magoar-te, mas o que tem de ser tem de ser! Adeus, pai!

Pai – Adeus, filho!

A partida foi selada pelo pai  com um efusivo ósculo e um apertado e lacrimoso abraço…

E o filho lá se foi, garbosamente montado no seu fogoso cavalo, enquanto o pai subia ao ponto mais alto da sua casa para o seguir com o olhar. Ele o foi seguindo, seguindo… até que uma curva do caminho o escondeu a seus olhos. O coração apertado pelo alicate da mágoa e da angústia era o memorial de uma tragédia não merecida, por parte de um filho a quem só prodigalizara favores e puro amor paternal. Uma planta ficara plantada no âmago do seu coração: a planta da saudade, que iria crescer até não se sabia quando…

.

(Continua)

.

Ezequiel Miguel

.

Artigos  relacionados:

. As razões do filho pródigo – II

. As razões do filho pródigo – III

. O Filho pródigo (Cf. Lc 15,11-24)

Previous Older Entries Next Newer Entries