Vai e não peques mais!

(Realidade & ficção)

.

Jesus19Jesus e os seus Apóstolos hospedaram-se em casa de uns familiares, a fim de lá festejarem um acontecimento relevante, um dos dias festivos de Israel.

Todos se preparavam para, após o jantar e o serão, se acomodarem o melhor que pudessem. Como não estava previsto que alguém saísse de casa naquela noite, o portão de acesso à casa já tinha sido fechado, assim como a porta da casa. Mas, de repente, soaram pancadas insistentes e aflitivas no portão, que deixaram intrigados todos os habitantes da casa. Dizendo todos não digo bem, porque Jesus não mostrou qualquer receio, pois sabia do que se tratava. Manteve-se calmo e tentou acalmar os apóstolos, que já imaginavam um destacamento de fariseus prontos a assaltar a casa para os prenderem a todos.

Jesus – Judas (Iscariotes) , podes ir abrir e ver quem é e o que quer?

Judas Iscariotes – Eu? Ui! Nem penses! Eu já estou a tremer de medo! Não me obrigues a isso! É melhor pedires a outro! Imagina que alguém me ataca para se vingar de mim! Eu não tenho armas para me defender e, além disso, está uma escuridão de cortar à faca!

Jesus – Judas, Eu sempre soube que tu não tens armas para te defenderes daquele que já te prendeu!… Vai lá, até porque tu sabes quem é e o que quer. Não precisas de punhal nem de espada, porque não serás atacado. Eu tenho interesse em que sejas tu a atender essa pessoa.

Judas – Não! Isso não! Eu vou mas é a esconder-me num canto qualquer, de modo que ninguém me veja. Tu tens muitos inimigos e eu…sei lá o que poderá acontecer-me se souberem que estou aqui contigo. Seja quem for e o que for, eu não tenho nada a ver com isso!

Jesus – Judas, olha bem para Mim! Olhos nos olhos! Não tens mesmo nada a ver com isso?…

Judas – Pronto, está bem! Mas não quero saber disso! Há aqui muitos que tu possas escolher para ir abrir! Eu recuso!

João – Mestre, queres que eu vá?

Jesus – Não! Convido antes Simão de Jonas (=Pedro). Podes ir tu ver quem é?

Entretanto, as pancadas do lado de fora continuavam e, abrindo-se a porta da casa, foi possível ouvir, vindo do lado de lá do portão:

Mulher – Abri! Sou uma infeliz, cheia de fome e de frio, e preciso da ajuda de Jesus de Nazaré. Estou muito doente e quero pedir-lhe que me cure! Abri, por favor!

Simão de Jonas – Mestre, queres ainda que eu vá abrir? Mas, pode ser uma cilada, pois atrás dela podem estar fariseus ou soldados de Herodes. Deixa-nos preparar! Nós todos chegaremos para os conter, se tentarem assaltar-nos.

Jesus – Não é preciso! Arranjai-Me uma luz e Eu próprio vou abrir. Vós ficai todos sossegados, porque a Minha hora ainda não chegou. E quando chegar, serei Eu que Me entrego voluntariamente. Quando Eu abrir, vós recolhei-vos lá dentro e não interfirais em nada! Eu atenderei a pessoa lá fora. Que ninguém se deixe ver! A mulher que está lá fora é mais uma das prostitutas enviadas para Me apanharem em pecado. Aqui bem perto estão espiões já preparados para a verem sair desta casa e concluírem aquilo que desejam concluir, para depois transmitirem ao Sinédrio. Eu não a mandarei franquear o portão e conversarei com ela lá fora, na rua.

Pedro – Mestre, nós ficaremos atrás do portão, preparados para Te defender, caso seja preciso. Nunca se sabe!…

Jesus – Sim, mas mantende-vos em absoluto silêncio! (Depois de abrir o portão) Olá, mulher! Por aqui a estas horas? Que pretendes de Mim? Fala!

Mulher – (Silêncio)

Jesus – Então?

Mulher – (Atrapalhada) Senhor, eu…eu… eu…

Jesus – Tem coragem, fala! Não disseste que precisavas da Minha ajuda? Eu estou aqui para isso. Se não falas…terei de falar Eu!

Mulher – Mestre, eu não sei como começar!…

Jesus – Tens razão, mulher! És mesmo uma miserável, uma pobre, uma desgraçada, uma leprosa, não do corpo, que tu enfeitas, besuntas com óleos e perfumes, exibes provocantemente para atraíres os homens. O teu modo de vestir não engana ninguém a respeito da tua actividade pecaminosa. Tu nem sonhas o grau de miséria moral a que chegaste e a desgraça que pode atingir-te, se morreres sem te converteres. As chamas do inferno já esperam por ti há muito tempo e continuarão à espera até ao dia em que te arrependas e deixes essa vida que levas. Não precisas de contar muita coisa a respeito de ti, porque Eu conheço toda a tua vida ao pormenor. O Senhor deu-te um corpo bem feito e um rosto bonito, mas não foi para andares nessa vida de pecado, em permanente ingratidão ao teu Criador, que esperava de ti, e ainda espera, uma alma bela e pura num corpo que, além de belo, também devia ser puro. Mas tu usa-lo para pintares a tua alma de negro. Que garantia tens tu de que não morrerás amanhã, ou ainda hoje, ficando a arder no inferno por toda a eternidade, sem que ninguém nem nada te possa valer? Liberta-te, desde agora, daqueles que te escravizam, daqueles que de ti só querem o teu corpo, mas que, no fundo, te odeiam e te acham nojenta. Aproveita a tua vinda até Mim, para bem da tua alma! À tua frente está Aquele que pode salvar-te, modificar-te, santificar-te,…se assim o desejares com todas as forças da tua alma. Outras como tu já se converteram e andam no caminho da santidade. Não saias daqui sem te decidires, pois esta é a hora em que o teu Deus marcou encontro contigo! Não O deixes passar em vão!

Mulher – Sim, Senhor, mas eu…

Jesus – Tu não estás doente do corpo, como quiseste fazer crer. Mentiste, quando clamaste seres doente e miserável, a precisar de cura. Não tens fome nem frio nem és uma sem-abrigo! Essas bugigangas metálicas que trazes aí penduradas o demonstram. Tu precisas realmente de cura, mas não é do corpo. Digo-te mais, mulher! Tu vieste aqui a mando do Sinédrio, para tentares levar-Me ao pecado, algo que ninguém conseguirá, por muito que o tente, pois a concupiscência da carne não exerce domínio algum sobre Mim. Além de Homem, eu sou o Filho de Deus, o Messias, e vim também para pessoas como tu, ovelhas perdidas de Israel, a precisar de Mim como Pastor.

Mulher – É verdade, Senhor! Eu sou mesmo o que tu dizes e já vejo que conheces as pessoas e a miséria que vai nelas. Eu sou realmente como dizes e vim mesmo para te tentar, contratada por um dos teus discípulos, por sua vez contratado pelo Sinédrio. Eles precisam urgentemente de te apanhar em pecado e eu prestei-me vergonhosamente a isso. Já vejo, Senhor! Eu estou mesmo doente da alma e podes curar-me! Eu quero curar-me! Ajuda-me! Peço-te perdão pelo meu acto tresloucado e afasta de mim esse teu discípulo, que está aí contigo! Também não quero voltar a encontrar-me com aqueles do Sinédrio, que te odeiam e que não acreditam em Ti!

Jesus – Diz-me: Que mal já te fiz eu, para te prestares a esse serviço de Satanás?

Mulher – Aqueles teus inimigos de Jerusalém pagaram-me bem para eu lhes provar que tu não és mais que um simples homem, pois eles não vêem em ti o Messias prometido. Eles prometeram-me fazer-me viver como uma rainha, se conseguisse levar-te a viver comigo ou, pelo menos, nos vissem entrar juntos em minha casa. Também prometeram que, fazendo isso, eles não te fariam nenhum mal, porque…teriam a prova daquilo que querem.

Jesus – Então, agora aproveito Eu para te dizer quem realmente sou. Eu sou mais do que Jesus de Nazaré, que tu vês e conheces apenas como Homem, porque já Me viste anteriormente. Eu sou o Messias de Israel, o Filho de Deus feito Homem, o Salvador, o Redentor, Deus e Homem, Aquele que veio para tirar o pecado do mundo. Eu amo os homens com amor infinito, para salvar as suas almas, porque todas as almas são propriedade de Deus, incluindo a tua. Em nome desse Amor, Eu perdoo o teu atrevimento. Tu acordas cada dia com um peso na consciência, a relembrar-te, por contraste, a tua alegre inocência infantil e juvenil, a tal ponto que tu própria tens hoje nojo de ti, apesar dos disfarces que usas para te tonares desejada. Mesmo usando unguentos e perfumes, tu cheiras mal a ti própria. Os pesadelos interrompem o teu sono e tu acordas cansada das tuas lutas interiores. Deitas-te inquieta, porque sabes que a ira de Deus pode desabar sobre ti a qualquer momento, visto que O desafias, adiando a tua conversão. Esse teu medo de morrer diz-te que tens de mudar quanto antes. E como será a tua morte, se não te converteres a tempo? Estás preparada para enfrentar os angustiantes terrores dessa hora? Eu estou aqui para te ajudar, como pediste. Eu sou a Bondade, o Perdão, a Misericórdia, o Amor, o Bom Pastor das ovelhas perdidas.

Mulher – ( De joelhos e chorando ) Senhor!…É tudo como dizes! Perdoa-me! Prometo largar esta vida e esconder-me daqueles que me procuram.

Jesus – Está bem, mulher! Vejo em ti arrependimento sincero. Quem te enviou é mais culpado do que tu. Mas Deus sabe tirar o Bem, mesmo de coisas más em si. Irás enfileirar, se te converteres, no número de outras que já foram como tu, mas que, agora, são Minhas discípulas.

Mulher – O que devo fazer a partir de agora?

Jesus – Abandona os lugares de pecado e afasta de ti todos os que te tentarem ao pecado. Muda de roupas e anda vestida discretamente, decentemente, de modo a não chamares a atenção. Desfaz-te das jóias, braceletes, cordões, anéis, broches, ornamentos da cabeça, vende o que tiver valor e dá o dinheiro aos pobres!

Mulher – É isso mesmo que vou fazer! E já! Tiro já estes malditos enfeites e tudo o que aqueles malditos me ofereceram em troca do pecado. Eu os piso, os escavaco e os trato como lixo maldito (Pisa-os com furor e violência). Também rasgo estas roupas imundas que serviram de chamariz para o pecado, para escravos da carne como eu (Rasga o vestido semitransparente, passando a cobrir-se com o manto). E também, com esta pedra e as unhas, rasgo o meu rosto, de modo a que a minha beleza não leve mais ninguém ao pecado ( Esfrega o rosto com a pedra e com as unhas, deixando-o em sangue. Caída de bruços aos pés de Jesus): Perdoa-me, perdoa-me, perdoa-me, meu Senhor!

Jesus – As tuas lágrimas sentidas e o teu arrependimento são garantia de firmeza nos teus propósitos e já te puseram no caminho certo. Eu te perdoo! Começa uma nova vida e conta Comigo para uma recuperação completa. Sempre que puderes, aparece nas minhas pregações. Vai em paz e não peques mais!

Mulher – Mas, Senhor, tenho um problema!…

Jesus – Diz! Eles estão, aqui perto, à minha espera! E não sei o que me acontecerá se me apanham neste estado e concluírem que falhei…Eles ameaçaram-me, se falhasse!…

Jesus – Então, espera aqui e não te deixes ver! Eu vou falar com a dona da casa e ela, que é da minha confiança, te dará outras roupas, te esconderá e te protegerá até chegar a manhã. Tem confiança em Mim, que nada te acontecerá!

.

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados:

. O contrato de Judas com o Sinédrio

. A samaritana de Sicar

. Jesus e a Samaritana

. O pecado do rei Davi.

. O pecado do rei Saúl

. O rei David e Betsabé I

. O rei David e Betsabé II

. O pecado do rei Acazias

Jesus chora sobre Jerusalém

 

(Realidade e Ficção)

.

Jesus e os Seus apóstolos encontram-se no Monte das Oliveiras, que fica sobranceiro a Jerusalém. Conversam animadamente, mas o rosto de Jesus deixa transparecer uma sombra de tristeza. Sentados à sombra de uma árvore, descansam das fadigas da caminhada. Sem que os Apóstolos se apercebam disso, Jesus afasta-se do grupo para um ponto mais alto e ali fica de pé a contemplar a cidade, que se aninha lá no fundo, a curta distância.

Tiago – Olhai para o Mestre! Passa-se qualquer coisa com Ele. Saiu daqui, afastou-se, não nos disse nada e parece estranho. É melhor irmos lá a ver!

João – Não! Deixemo-lO em paz. Deve estar a rezar, como já tem feito outras vezes. Ele afasta-se sempre que precisa de orar ao Pai.

Pedro – (Depois de olhar bem…) Não! Há qualquer coisa. Vamos lá!…Será que Ele está magoado com algum de nós ou com alguém da multidão? Mas nós não detectámos nenhum dos Seus inimigos! É melhor irmos até lá!…

João – Mestre, Tu estás a chorar! Que se passa?

Pedro – Mestre, quem de nós Te magoou? Foi o…? Diz-nos quem te faz chorar!

Tiago – Mestre, nós Te amamos…e sofremos com as Tuas lágrimas!

Jesus – Não sois vós que Me fazeis sofrer nem é por vossa causa que Me saem estas lágrimas. Vós sois meus amigos e espero que sempre o sejais, sobretudo na hora que se aproxima, em que a torrente do Mal vai cair sobre Mim. (Estendendo a mão na direcção de Jerusalém) Vedes esta cidade? É lá que jorra a corrupção, a maldade, o crime, a desonestidade, a hipocrisia, o desígnio de retirar o Messias do número dos vivos. Esta deveria ser a Cidade Santa, a Cidade de Deus, a Morada do Altíssimo entre o Seu Povo, porque a Santidade morava nela e veio até ela para a santificar. A ela foi concedida a honra de ser a esposa santa de um Santo Esposo, mas ela virou prostituta…e não mais se redimirá. Os rios de santidade de que fala o profeta (Ez 47, 7) deixarão de correr do Templo vivo, porque os seus habitantes O destruirão. Por ela Eu nada mais posso fazer, porque ela está corrompida até aos alicerces. O Messias veio para ela, mas ela irá ficar viúva. O seu lugar irá ser ocupado pelos pagãos, que entrarão no reino de Deus, enquanto ela ficará fora, por rejeitar o seu Messias, há tantos séculos anunciado pelos profetas.

Judas – Mestre, nós não seremos incluídos naqueles que Te vão rejeitar. Nós cremos em Ti e morreremos por Ti, se for necessário!

Todos – Sim, morreremos contigo!

Jesus – Oxalá sejais meus amigos até esse ponto! Mas vigiai e orai, pois Satanás está muito activo e nervoso, porque já falta pouco para ser derrotado e ele anda à volta de todos nós a rugir. A Mim quer impedir-Me de cumprir a vontade do Pai e a vós quer desviar-vos, para se vingar de Mim.(Olhando para Judas) Ai daquele que se deixar cair nas suas garras! Esse será para sempre maldito. (Virando-se para Jerusalém)  “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis ajuntar os teus filhos como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das suas asas e tu não quiseste. Eis que a vossa casa ficará abandonada…(Mt 23, 37-38)” E também acabarás  por matar Aquele que veio a ti para te dar a Vida!  Eu continuo orando pela tua redenção. Dentro de pouco tempo deixarás de Me ver, mas espera até ao dia em que o exército estrangeiro  te cercará e rios de sangue correrão dentro de ti.  O grandioso Templo de pedra que é a tua glória…verá a ruína total, porque recusaste a salvação que te foi oferecida. Se tu nesta hora conhecesses a mensagem de paz ! Agora, porém, isso está escondido a teus olhos. Pois dias virão sobre ti e os teus inimigos te cercarão com trincheiras, te rodearão e te apertarão por todos os lados. Deitar-te-ão por terra a ti e aos teus filhos no meio de ti e não deixarão de ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada(Lc 19 , 41- 44).

Pedro – Mestre, Tu dizes coisas terríveis sobre Jerusalém. Isso acontecerá mesmo? A cidade e o Templo serão destruídos?

Jesus – Tudo isso acontecerá ainda na vida desta geração e nos dias da ira até as mães comerão os seus filhos para não morrerem à fome. O ódio que esta cidade Me dedica cairá sobre ela, porque o ódio atrai ódio e ela beberá o cálice amargo do ódio até à última gota e ninguém terá piedade dela, porque recusou o Amor que lhe foi enviado.

João – Mestre,  o que acontecerá aos habitantes de Jerusalém?

Jesus – Uns morrerão pela espada e pela fome e outros serão levados como prisioneiros e humilhados. Nesses dias pedirão misericórdia, mas ninguém os ouvirá, porque essa hora será a hora da justiça divina ofendida. Eu choro pela Minha cidade, pela Minha Pátria e por aqueles que morrerão e se condenarão por terem atraído, com os seus pecados, tão grande tragédia.

André – Mestre, estamos assustados! Vai ser mesmo assim? Não se poderá evitar?

Jesus – Eles ainda estão a tempo, mas pensais vós que ainda seja possível?

Judas Iscariotes – Mestre, eu não conheço ninguém que queira matar-te. Não poderás retirar essa profecia horrível?

Jesus – Que contributo podes tu dar para que isso não aconteça…?

Judas corou ao ver que todos os olhares caíram sobre ele, mas ficou em silêncio.

Tiago – (Em pânico, porque Jesus já lhe tinha dito que ele seria o 1º bispo de Jerusalém). Mestre, e a nós, o que nos acontecerá?

Jesus – O Pai do Céu velará por vós, mesmo caindo mil à vossa esquerda e dez mil à vossa direita (Sl 90).

Tomé – Mas, Mestre, dás a entender que o pecado atrai punições para as pessoas, para as cidades, para os povos e para as nações.

Jesus – E dizes bem, Tomé. É mesmo assim.

Judas Iscariotes – Mas então as pessoas não poderão acusar Deus de ser vingativo? Ora, Tu ensinas que Deus é misericordioso, tolerante e compassivo (Sl 102)!

Jesus – Deus não se vinga. Deus compadece-se do homem e de todo o sofrimento que cai sobre ele desde a queda de Adão e Eva até ao fim do mundo. É o homem que provoca todas as desgraças de que é vitima, pela infracção das leis divinas, cuja gravidade arrasta a desarmonia e o caos na Natureza física e na natureza humana, pondo os homens em conflito entre si e a Natureza contra eles. Tudo isto porque o pecado vai enfraquecer os diques do Mal, seguros pela mão poderosa de Deus. Quando Deus se sente muito ofendido pelo pecado generalizado, afrouxa as amarras do Mal e este, que tem vida própria, liberta as suas forças, dando origem a guerras, pestes, pandemias, vulcões, terramotos, secas, inundações…Por isso, quando os homens virem sobre eles estas desgraças, deverão concluir que algo de errado se passa com eles, em vez de atribuírem a causa ao seu Deus. Deus não é o Autor do Mal, mas é o homem que o provoca, pois todo o pecado, e sobretudo certos tipos de pecado, clamam vingança aos Céus, tal como o sangue de Abel clamava vingança sobre Caim. Tem sido sempre assim, é assim e continuará a ser assim. A própria história de Israel o demonstra. Se evocardes o Êxodo, as derrotas de Israel, as invasões de exércitos estrangeiros, os exílios da Babilónia…tereis a confirmação de que é assim. Este Povo e as suas autoridades nunca ligaram importância aos avisos que o Senhor lhes enviava pelos profetas, desprezando também a bondade do Pai, que acabou por lhes enviar o Seu próprio Filho. É neste contexto que, ao contemplar esta cidade, o Meu coração verte lágrimas, por não poder impedir a maldição que ela já gerou, de que não posso dissociar a horrível profanação do Templo, a Casa de Meu Pai, por parte daqueles que foram lá postos para serem santos e exercerem um ministério santo.

João – Mestre, e depois da destruição do Templo? Voltará a ser reconstruído uma vez mais?

Jesus – Não! Ficarão dele uns restos para lembrar a Israel…como memorial de uma tragédia.(1) E agora, vamos!

.

As mais recentes tragédias surgidas um pouco por todo o lado, ainda frescas na memória, levam-nos a perguntar sobre quantas cidades Jesus já chorou e continuará a chorar…

.

Recomendado: visite e divulgue   www.apelosurgentes.com.br

.

(1)   – Cumprida no ano 70, sob o comando do general Tito, comandante do exército romano.

.

Ezequiel Miguel

Jesus é convidado para Rei de Israel

(Realidade & ficção)

Personagens: Jesus, Samuel, doutores da Lei, sacerdotes, fariseus, anciãos, cortesãos de Herodes…

 .

reiSamuel era um dos amigos de Jesus, mas também um que se relacionava com Herodes e seus amigos, pois desempenhava funções na corte de Herodes, sendo lá visto como discípulo ou simpatizante de Cristo.

Por um lado, a sua casa estava à disposição de Jesus em suas andanças apostólicas, por outro, ele desempenhava funções no palácio de Herodes, tentando estabelecer um equilíbrio entre ambas as situações: Não desagradar a Cristo por causa de Herodes e da sua corte e não prejudicar Herodes por causa de Cristo. Mas Samuel, pessoa influente mesmo entre os membros do Sinédrio e das autoridades do Templo, estava incapaz de se decidir radicalmente por uma situação ou por outra, ao contrário de Susana, sua mulher, incondicionalmente discípula de Jesus.

A actividade de Cristo e a Sua pregação não deixavam nenhuma autoridade indiferente. Uns eram criticados por estarem contra Ele, outros eram criticados por não estarem a favor Dele e outros por não se definirem radicalmente a favor Dele.

Certo dia, surgiu na cabeça de alguém influente a ideia de que se deveria convidar Jesus para Rei de Israel, pois já estava provado que Ele era mesmo o Messias prometido e esperado. E, por um motivo ou por outro, era chegado o tempo de tratar do assunto e quanto mais depressa, melhor. Esta ideia começou a girar secretamente, de boca em boca, em volta de personagens bem escolhidos, com aqueles cuidados que um complot exige: reuniões secretas em locais secretos, absoluto sigilo dos conjurados, um cabecilha que coordene e vá fazendo andar o processo e uma vigilância segura. Assim se ia fazendo, não fosse o assunto levado ao conhecimento dos Romanos ou de Herodes e se deitasse tudo a perder, com a inexorável condenação à morte de todos os intervenientes.

Entre os conjurados havia fariseus, membros do Sinédrio, sacerdotes, anciãos, doutores da Lei, cortesãos de Herodes e discípulos de Jesus, públicos, meio- públicos, secretos , conhecidos ou desconhecidos de Jesus, todos unidos por esta ideia: Era tempo de restaurar o Reino de Israel, caído, humilhado e vergado ao chicote do inimigo romano. Para mais, julgando eles interpretar correctamente os Profetas, o Messias era apresentado como o Rei e o Libertador de Israel. Assim, sendo Jesus aceite como Messias, o resto viria por acréscimo. Bastaria oficializar o facto e proceder-se à unção com o óleo e consequente coroação de Jesus. Do apoio de todo o povo ninguém duvidaria, mesmo daqueles espalhados pela diáspora, e que eram muitos.

Assim como o segredo é a alma do negócio, muito mais o é no caso de uma conspiração. E chegou, finalmente, o dia em que Samuel, um dos meio-amigos poderosos de Jesus, O convidou, em nome dos outros conspiradores, para um encontro secreto de pessoas importantes na sua casa de campo, distando de Jerusalém uns quilómetros, em local insuspeito, pessoas que estavam dispostas a ouvir a Sua Palavra de Messias de Israel.

Tudo devidamente preparado, os quarenta conjurados partiram, antecipadamente, em carros puxados por bois, burros ou cavalos , separados por boas distâncias, para não levantar suspeitas, em direcção à casa de campo de Samuel. Finalmente, partiu também aquele que levava Samuel e o Mestre. Quando eles chegaram, já todos os outros os aguardavam serenamente, não tendo revelado nenhum entusiasmo pelos recém- chegados, como é próprio de uma atmosfera de conspiração, em que todos as palavras, gestos , atitudes e passos têm de ser cuidadosamente pesados, contados e medidos.

Samuel, o dono da casa, levou toda a gente para uma sala espaçosa e apresentou a Jesus todos os presentes, um por um, referindo os nomes, categorias e funções que desempenhavam, quer no Templo quer no palácio de Herodes, quer em sinagogas, tudo gente selecta, séria e respeitável a vários títulos. Cristo não precisou de ser apresentado, porque já todos O conheciam e já todos estavam a par do que fazia e do que dizia, assim como os seus conflitos com os Seus inimigos, alguns dos quais estavam ali estranhamente presentes.

Samuel, como hospedeiro de tão ilustre gente, fez o que lhe competia:

Samuel – A todos dou as boas-vindas e todos damos as boas vindas a Jesus de Nazaré, poderoso em palavras e obras, o nosso Messias prometido e profetizado, aqui presente entre nós. Todos nós agradecemos a Sua presença entre os grandes de Israel, pois a Sua sabedoria ultrapassa tudo o que sobre o assunto possamos dizer e nós estamos aqui para O ouvir, mas também para que Ele nos oriente naquilo que nós consideramos importante para Israel.

Seguiu-se a refeição, em que pouco se falou, pois o ambiente era de mútua desconfiança, em que as palavras ficaram contidas dentro de cada um. Os olhares, porém, viajavam, intrigados, de uns para os outros, de todos para Cristo e de Cristo para todos. Quando alguém falava, fazia-o em voz baixa, de modo a que só o vizinho do lado ouvisse e fosse ouvido. E assim decorreu a refeição, em ambiente sério e quase silencioso, como se todos tivessem algo a dizer, mas que não deveria ser dito. Acabada a refeição, chegou mesmo o momento de atacar o problema que tinha congregado aqueles homens. O dono da casa tomou a palavra:

Samuel – Mestre, chegou o momento de Te explicarmos o que nos levou a convidar-Te para esta reunião, assim como os cuidados que tivemos em que ela se mantivesse secreta, de modo a não chegar ao conhecimento de Herodes nem de Pilatos, pois os consideramos inimigos de Israel. Aqui, podemos falar à vontade, sem receio de que alguém, indesejado, nos ouça. Nós convidámos-Te porque Te respeitamos, veneramos, aceitamos como Messias, admiramos a tua sabedoria e o teu poder em fazer obras grandiosas, porque Deus está Contigo.

Não querendo alargar-me muito, digo apenas que, em nome do povo de Israel, oprimido e enxovalhado pelos romanos, Te convidamos para aceitares ser eleito o Rei de Israel, o Príncipe da Paz, o Libertador. Podes contar com as nossas riquezas para Te darmos um palácio real, um reinado que prestigie a nossa nação e um exército que nos restitua a dignidade, expulsando o invasor e deitando abaixo aquele antro de pouca-vergonha que é o palácio de Herodes. …Gostaria de ouvir o que tens a dizer-nos sobre esta proposta, que tem a aprovação de nós todos e de todo o Israel.

Jesus – (Silêncio)

Samuel – Então?…Já vejo que precisas de pensar. Vou dar-Te tempo para isso. Entretanto, dou a palavra a outro.

Cortesão de Herodes – Rabi, todo o Israel sabe o que se passa no palácio de Herodes, sem que ninguém seja capaz de corrigir seja o que for. É certo que temos um rei, mas não é o rei que Israel precisa. Este que temos é um rei fraco e subserviente aos romanos, que são quem realmente manda no país. É para Israel humilhante que este povo tenha chegado ao que chegou. Faltam-nos chefes e condutores da nação que imitem as antigas glórias militares de Israel. Este povo, o povo escolhido por Deus, não vive, mas vegeta como escravo. A maior parte dos cortesãos de Herodes concordam que sejas Tu aquele que merece reinar em Israel como rei soberano e sem concorrência estrangeira. Por isso, em meu nome, e no de todos os que habitamos ou trabalhamos no palácio de Herodes, fazemos-Te o solene convite para aceitares a Tua eleição para Rei de Israel, restaurando assim a antiga realeza, pois reconhecemos em Ti que vieste a este mundo para seres mesmo o Messias esperado, com o glorioso destino de ocupares o trono real em Israel. Poderás dizer-nos o que pensas sobre o assunto?

Jesus –( Silêncio)

Cortesão de Herodes – Pelo que vejo, ainda não pensaste bem no problema.

Jesus – Direi o que penso quando não houver mais ninguém para falar.

Cortesão de Herodes – Então, cedo a palavra a outro.

Ancião do povo – Na minha já avançada idade não queria despedir-me desta vida sem a minha última consolação: ver-Te instalado num palácio real digno de ti. És justo, sábio, tolerante, compassivo, tens poderes extraordinários que Deus Te deu e sabemos todos que os tens posto ao serviço do nosso povo. Tens uma sabedoria que ultrapassa a de Salomão, e Israel, dirigido por um rei a sério, seria compensado por estes anos em que gemeu sob o poder arbitrário das autoridades civis que nos têm governado, isto é, desgovernado. Eu falo em nome de todos os Anciãos de Israel, que pensam como eu e aprovam que Te convide também para assumires o trono real, mesmo que para isso tenhamos de construir um palácio real novo, de onde governarias o novo Israel, porque este parece ter sido abandonado por Yahweh. Aceita a nossa proposta e todo o Israel exultará de alegria e cantará salmos de louvor ao nosso Deus! … (Silêncio)…Então? Que respondes ao nosso convite?

Jesus –( Silêncio )

Sacerdote – Eu ouvi atentamente o que os outros disseram e concordo em absoluto com eles. Embora não sejas originário da tribo de Levi, nós te consagraremos ao sacerdócio, te nomearemos Doutor da Lei e te ungiremos com o óleo da realeza, ficando sacerdote e rei de Israel para sempre. Acho, e todos lá no Templo achamos que, em Israel, só tu és digno de ser ungido e coroado Rei de Israel. Todos nós vemos em ti o Messias Libertador que os profetas anunciam, incluíndo Anás e Caifás, os sumos sacerdotes. Eles te pedem desculpas por uma certa animosidade para contigo, talvez por informações erróneas, mas agora pensam como nós e dizem que Tu serias a honra e a glória do nosso Templo e do nosso Povo, cansado de tanto sofrimento imposto pelos profanadores das nossas coisas santas. Nós também estamos a par das Tuas obras de bem em favor dos doentes, dos pobres e dos oprimidos pelas dificuldades da vida. Já imaginaste o bem que seria termos um Rei santo, justo, poderoso, sábio, com poderes para resolver tantos problemas que afectam o nosso Povo? À semelhança dos anteriores intervenientes neste convite, aqui vai também o meu, que tem a aprovação de todos os que vivem ou trabalham no Templo….

Jesus – ( Após uns momentos de silêncio, pondo-se de pé e girando o olhar por todos os presentes) A minha resposta ao vosso convite é: Nãaooo!!! Eu sabia qual a finalidade deste nosso encontro aqui, mas vim porque já tinha prometido que vinha e também para vos mostrar que Eu não tenho medo de ninguém nas minhas actividades apostólicas. Há aqui dois tipos de pessoas: umas dizem ser meus discípulos, mas ainda compreenderam pouco sobre a minha missão em Israel; outras, como tu, ó sacerdote, tu, ó cortesão de Herodes, tu, ó Ancião do Povo,…. pura e simplesmente, mentis! Os vossos discursos e a vossa presença aqui são de mentira!

Doutor da Lei – O quê?! Acusas-nos de mentira? Vê lá como falas? Nós somos os santos de Israel. Que provas tens tu contra nós?

Jesus – Repito: Mentis!…Tanto a vossa presença como a vossa linguagem é de mentira! Nem no Templo, nem na corte de Herodes, nem os fariseus, nem os saduceus, nem os doutores da Lei, nem os sacerdotes Me aceitam como Messias! E, muito menos, Anás e Caifás! Se Me aceitassem, já teriam dados provas disso. E o que fazem? Espiam-Me, armam-Me ciladas para Me apanharem em pecado, acusam-Me de ser um agitador, um amigo de Belzebú, um comilão que come com publicanos, um que aceita conversar com meretrizes, um profanador da Lei,…e muito mais! Vós viestes aqui para me armardes mais uma cilada, preparada cuidadosamente e servindo-vos de má fé para convencer aqueles que estão do Meu lado. Eu não posso aceitar o vosso convite, porque Eu já sou Rei, mas das almas de Israel, porque o Meu reino é espiritual. Eu nunca serei ungido nem coroado Rei temporal de Israel, porque Eu já fui ungido e coroado Rei das almas, e só elas Me interessam em absoluto. Só por causa delas é que Eu vim ao mundo, disposto a pagar o preço que elas custam. Eu sou Aquele, como dizia João Baptista, que tira o pecado do mundo e também tirarei os vossos, se aceitardes a Minha Pessoa, a Minha doutrina da Boa Nova e vos arrependerdes.

Se Eu aceitasse, aqui e agora, a unção e a coroação como Rei de Israel, amanhã iríeis a correr ao Sinédrio, ao palácio de Pilatos e ao de Herodes, contando-lhes as coisas à vossa maneira, seguindo-se depois uma perseguição com efeitos para vós imprevisíveis. A Mim nada aconteceria, pois a Mim ninguém Me tirará a vida. Eu sou o Senhor da vida, da minha e da vossa, e a Minha sou Eu que a dou, quando chegar a hora, para remir a humanidade, estabelecendo neste mundo o Reino de Deus, do qual sou mesmo o Rei.

Além do mais, que seria de vós quando os romanos vos caíssem em cima e vos massacrassem como traidores a César e traidores a Herodes? Onde vos meteríeis para escapar ao massacre? Resumindo e reiterando a Minha resposta ao vosso convite, que não passa de uma armadilha: NÃAOO!… Aos meus amigos e discípulos aqui presentes censuro o facto de ainda não terem compreendido cabalmente a Minha missão e a deles, mas têm a seu favor o facto de terem sido enganados e instrumentalizados por pessoas sem escrúpulos e a mando do Sinédrio. Aos outros, só tenho de perdoar, porque não sabem o que fazem! Termino com uma pergunta final? Porque não estão aqui aqueles do Sinédrio que Me aceitam ou que não Me combatem, tais como Gamaliel, Nicodemos, José de Arimateia, Eleazar e outros? Porque esses são rectos de coração,… a sabedoria divina está com eles, tornando-os capazes de discernir o que está bem e o que está mal, o que devem ou não devem fazer, e que vêem ao perto e ao longe!…

E Jesus sai imediatamente da sala e da casa, enfia-se no meio de um canavial e abandona o local, caminhando ao longo da costa até encontrar a barca em que alguns discípulos pescam.

Entretanto, arma-se uma confusão na sala, cada grupo chamando traidores aos outros e atribuindo-se mutuamente as culpas pelo falhanço. Enquanto uns sugerem que se vá atrás de Jesus para O prenderem, outros aconselham que se Lhe peça desculpas, outros ainda sugerem que se apanhe e se feche na casa até Ele aceitar a realeza. No final, todos responsabilizam todos pelo falhanço, mas em Jesus ninguém mais põe o olho, porque, em poucos segundos, deixa os perseguidores confundidos, sem encontrarem uma explicação para aquele desaparecimento quase instantâneo.

Quando Jesus se julgou seguro, sentou-se, descansou e acalmou. Era já noite. E Jesus chorou!

.

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados

. Jesus na sinagoga de Nazaré

. Mulher, ninguém te condenou?

. O contrato de Judas com o Sinédrio

 

 

Jesus em casa de Pedro

(Realidade & Ficção)

 .

Personagens:

. Jesus

. Simão Pedro (= Pedro = Simão de Jonas)

Jesus encontra-se em casa de Simão Pedro. A suprema honra para os seus discípulos era conseguir que Jesus se dignasse pisar o soalho de madeira ou o piso térreo de suas casa.

Os preparativos para uma digna hospedagem do Mestre em Casa de Pedro não davam descanso a ninguém e muito menos à esposa e à sogra de Pedro, que pouco podia fazer, por motivo de doença. A doença, no entanto, não a impedia de uma permanente rabugice contra a filha e contra Pedro, de cujos motivos nenhum dos evangelistas levanta a mais leve suspeita. Se nos é permitido alvitrar algum motivo, poderemos tentar adivinhar que ela rabujava contra ele por se ausentar frequente e demoradamente de casa, por deixar a mulher tanto tempo sozinha, por deixar a barca de pesca ancorada à espera que os peixes decidissem saltar para dentro…ou ainda outro qualquer motivo, se é que precisaria de mais algum. Naquele dia, podia acusar Pedro de nada fazer na cozinha, limitando-se a comportar-se como Maria em casa de Lázaro. Neste caso, Pedro seria a Maria, a sogra e a esposa de Pedro seriam as Martas a trabalhar e a protestar. O caso também não seria para menos, pois o ilustre Hóspede não vinha ali todos os dias, embora soubesse que a casa e a barca de Pedro estavam sempre à disposição.

A engrossar o número das especulações estava o facto de a casa estar quase a ser afogada pela multidão que reivindicava ver o Mestre e cuja barulheira de vozes infectava o até agora pacato ambiente da pequena casa de Pedro em Cafarnaum. Atrevo-me a dizer que a sogra de Pedro não lhe poupava críticas azedas. Sim, porque elas vinham sempre azedas, por não mandar calar aquela multidão que as incomodava a elas e, em seu entender, também o seu Ilustre Hóspede. Foi então que Pedro, na falta de um microfone ou de um megafone ainda não existentes, tentou pacificar a multidão, pedindo e repetindo que deixassem o Mestre em paz e que respeitassem também todos os da sua casa, pois um acontecimento daqueles poderia não se repetir. Eles teriam mais ocasiões para ouvir o Mestre, por isso, exigia que se fossem embora, indicando-lhes uma certa hora para voltarem e ouvirem o Mestre. Além disso, ficaria mal a ele, Pedro, deixar o Mestre ser importunado na sua própria casa! Como de nada valeria correr aquela multidão à vassourada, Pedro queixou-se a Jesus, pedindo-lhe desculpa pelo atrevimento, falta de educação e de civismo da multidão.

Jesus – Pedro, deixa a multidão em paz. Eles têm sede e não se pode mandá-los embora sem beberem!

Pedro – Mestre, mas onde é que eu tenho bebida para toda esta gente? Não me dirás?

Jesus – Eles não querem da água em que tu estás a pensar. Eles têm sede da minha Palavra, por isso, não te preocupes com eles! Quem tiver sede de Mim poderá saciar-se!

Pedro – Logo vi, Mestre! Tu dás-me sempre a volta, ensinas, ensinas,…eu fixo tudo o que Tu dizes, mas no dia seguinte já não tenho cá nada. Sou uma cabeça de abóbora, pelada por fora, oca por dentro e ainda com dois buracos, um por onde as Tuas Palavras entram e outro por onde Elas saem.

Jesus – Não sejas tão crítico a teu respeito! Com os outros também acontece isso?

Pedro – Eu tenho falado com eles e eles dizem que também lhes acontece o mesmo. Quando tu falas às multidões, eu, pelo menos, não percebo nada; depois, quando tu nos explicas as coisas em particular, entra-me cá tudo e compreendo, mas no dia seguinte varreu-se-me tudo! Só João é que é capaz de repetir um discurso Teu de fio a pavio, às vezes até com as mesmas palavras que Tu disseste! Quem me dera ser como ele! Eu sou uma nulidade, excepto em pescar e lidar com a barca e com as redes.

Jesus – Virão melhores dias! Um dia falarás tão bem como o João e terás uma memória jovem que arquivará toda a minha doutrina, para a poderes proclamar e defender. Tu serás aquele que orientará os outros e eles deixar-se-ão orientar por ti, porque tu me substituirás e ficarás à frente do Reino de Deus na Terra!

Pedro – Eu? Nem penses! Eu seria a ruína do Teu Reino. Eu não sou capaz de dizer três palavras seguidas e tu queres fazer de mim um pregador que te substitua! A sério, por favor, isso não! Tem pena de mim! O João é aquele que é mais capaz para essa missão. Eu sou um zero à esquerda!

Jesus – Pois é, Pedro! Mas um dia serás muitos zeros à direita. Confia! Se Eu te escolhi, é porque serás capaz de cumprir aquilo que te for pedido! Eu não sou cego e vejo muito para lá do que os homens vêem. Lembra-te que os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens. Quando Eu já não estiver convosco, Roma espera por ti, pois será lá que ficará a cabeça do meu Reino. Tu e Eu, Eu e tu seremos um na direcção do meu Reino.

Pedro – Em Roma? Eu? Deus me livre! O que seria de mim a dar com a cabeça em cada esquina de Roma, por não dar com o caminho para casa! E depois,… é lá que está o Imperador! E se o Imperador me chamar lá para falar de Ti? Dá-me logo um desmaio e fico para ali como um tronco de árvore abatida! E depois,… imagina que me pedem para incensar o Júpiter!…Nem quero pensar nisso! E nem penses que eu sou capaz de converter o César! É capaz de ser mais fácil que ele…Ui! Que ideia me veio à cabeça!

Jesus – Diz lá!

Pedro – É uma ideia sinistra, aterradora… (Pedro chora…)

Jesus – Não tenhas medo! Eu estarei sempre contigo e se tu ou algum de vós for levado a tribunal, Eu vos inspirarei o que devereis dizer! Eu dar-vos-ei a força e a sabedoria necessárias em todas as situações. Quanto a ti, Eu dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus. O que ligares na Terra será ligado nos Céus e o que desligares na Terra será desligado nos Céus! Serás o Chefe da Minha Igreja, que será perseguida, difamada, caluniada, atacada por fora e também por dentro, mas as portas do inferno não levarão a melhor sobre ela, porque ela será o meu Corpo e Eu serei a sua Cabeça. Queres mais garantias, meu Pedro? Enviarei sobre vós o meu Espírito Santo, que anulará todos os vossos medos, toda a vossa ignorância, todos os receios,…e até ficareis muito felizes quando tiverdes ocasião de sofrer algo por Mim ou pela minha Doutrina. Os vossos nomes já estão inscritos no Reino dos Céus. Que mais queres, Simão de Jonas?

Pedro – Mestre, desculpa a minha fraqueza! Eu só sou forte de palavreado e de goela, sou ignorante em tudo, mas se Tu prometes tudo isso, é porque o cumprirás. Sendo assim, estou mais confiante e menos apreensivo!

Jesus – Pedro, tu, amas-me ao ponto de dares a tua vida por Mim? Ninguém me tem mais amor do que aquele que é capaz de dar a sua vida por Mim. E quem perder a vida por causa de Mim, ganhá-la-á depois, porque Eu é que sou a Verdade, o Caminho e a Vida!

Pedro – Mestre, se Tu estás comigo, de quê ou de quem hei-de ter medo?

Jesus –Vós e os vossos sucessores ireis pelo mundo a dar testemunho de Mim e Eu estarei convosco até ao fim dos séculos. Em Meu nome curareis as doenças, expulsareis os demónios, pregareis, baptizareis e convencereis o mundo pagão da Verdade que vamos instaurar por todo o lado.

Pedro – Mestre, serei indiscreto se perguntar qual a missão que destinas a cada um dos outros, incluindo o Judas?

Jesus – Estás mesmo a ser indiscreto, Simão Pedro! A seu tempo saberás!…Tu, por agora, cinges-te à tua vontade e vais para onde queres, mas um dia irás para onde não queres, outros te cingirão e estenderás as mãos…Todos dareis Glória a Deus, mas cada um à sua maneira… Mas agora, Simão, vamos contentar a multidão que está lá fora gritando por Mim. Não é necessário que os censures por Me quererem ver e ouvir. Tu estás sempre Comigo e Eu contigo, mas eles terão raras oportunidades… Diz-lhes que se concentrem na praia, pois nós vamos para a barca e é de lá, a alguma distância, que lhes falarei.

Pedro – Mestre, posso contradizer-te sem ofensa?

Jesus – Sim! Sê franco!

Pedro – Essa de Tu estares sempre comigo e eu Contigo… Eu acho que estou muito pouco tempo a sós Contigo, pois quando chegamos a algum lado Tu deixas de ser meu e dos outros, porque todos não chegamos para ordenar as multidões, dar instruções, afastar os atrevidos que não Te deixam passar, levantar aqueles que se ajoelham a Teus pés, impedir que cada um leve uma lembrança da Tua roupa, etc, etc. Por isso, hoje que estás em minha casa… A propósito, Mestre, curas a minha sogra ?

Jesus – Curo!

Pedro – E também a curas daquela rabugice crónica que põe em água a minha cabeça e a da minha mulher?

Jesus – (Sorrindo) Pedro, há nesta casa alguém que queira ser meu discípulo?

Pedro – Há! A minha mulher e eu!

Jesus – Então, quem quiser vir após Mim tome a sua cruz e siga-me!

Pedro – Mas ela frita a paciência, sobretudo à minha mulher. Se pede leite quente, depois diz que está morno. Se pede leite morno, depois diz que está frio ou quente; se pede leite frio, diz que está morno. Passa a vida a dar sentenças e nada está bem para ela. Quando vou à pesca, os peixes que pesco… ou são demasiado pequenos ou demasiado grandes; se são estes peixes deveria ter pescado outros, etc.

Jesus – E o que diz ela a teu respeito?

Pedro – Critica-me por ter casado com a filha dela e por estar muito tempo fora de casa e andar na companhia de…

Jesus – Na companhia de….?

Pedro – É melhor eu não dizer, porque é uma falta de respeito para Contigo!…Mesmo assim, queres que eu diga?

Jesus – Diz!

Pedro– Então, lá vai! Ela diz: “Andas para aí na companhia desse Galileu que ninguém sabe quem é nem de onde vem, em vez de andares na pesca e ajudares a tua mulher em casa e no campo!

Jesus – (Sorrindo) – Não será próprio da sua doença falar assim? Queres que a tua mulher te acompanhe no Reino dos Céus? Então, ela tem de levar a sua cruz. Com essa cruz ela salva-se pela paciência, pelo sacrifício, pelo silêncio, pelo perdão, pela caridade em circunstâncias difíceis,… Um dia tu escreverás isto mesmo: “Pela paciência salvareis as vossas almas!” ( Lc, 5-19).

Pedro – Não me digas que tu aceitaste o Judas para ele fazer connosco o que ela faz com a minha mulher e comigo? São os maiores resmungões que eu conheço! Tudo está mal para eles e conseguem pintar de mal as acções, as intenções e os pensamentos dos outros. Tu sabes isso muito bem, porque lês no íntimo dos corações. A minha cabeça anda sempre atravessada por pensamentos negros por causa deles. Senhor, como é que eu evito os pensamentos contra aqueles vulcões rabugentos?

Jesus – (Sorrindo) – Pedro, para onde deixas fugir o pensamento!… Não julgues, para não seres também julgado! Quanto à tua sogra, tens de esperar até que ela reconheça o seu defeito e faça um esforço sério para se corrigir. Ela não é doente da cabeça, por isso, tudo depende da sua própria vontade. É assim com ela e com todos. Eu ajudo quem se quer ajudar a si próprio e solicita a necessária ajuda. Quanto aos maus pensamentos contra o próximo, temos de ser pacientes, tentar desculpá-los, usar de alguma simpatia para com eles, sermos atenciosos, não nos irritarmos contra eles, manter o silêncio quando são agressivos para connosco, levá-los às boas,…Temos de reconhecer as ocasiões em que Satanás nos tenta para faltar à caridade para com o outro. O amor ao próximo exige tolerância e compreensão perante as suas fraquezas, embora não concordemos com elas quando elas são pecaminosas. Quanto a ti, Simão de Jonas, em certas coisas até pareces ter uma boa memória!… Ainda te lembras das palavras que Eu vos dirigi quando te chamei a ti e ao teu irmão André?

Pedro – Lembro! Disseste: “Vinde comigo e Eu farei de vós pescadores de homens” (Mt 4, 19)

Jesus – E lembras-te do ” Pai-Nosso”?

Pedro – Lembro, porque o recitamos todos os dias.

Jesus – Lembras-te daquilo que Eu vos ensinei a propósito de julgar ou não julgar os outros?

Pedro – Penso que sou capaz de encarreirar esse Teu discurso. Fixei-o, porque…Tu sabes porquê! Como podemos não julgar quando nos fazem a vida negra? Isso é muito difícil de cumprir, porque nós nem sempre somos capazes de segurar o pensamento. Então, aí vai o Teu discurso: “Não julgueis para não serdes julgados, pois conforme o juízo com que julgardes, assim sereis julgados e com a medida com que medirdes assim sereis medidos. Porque reparas no argueiro que está na vista do teu irmão e não vês a trave que está na tua vista? Como ousas dizer ao teu irmão: Deixa-me tirar o argueiro do teu olho, tendo tu uma trave no teu? Hipócrita, tira primeiro a trave da tua vista e então verás melhor para tirar o argueiro da vista do teu irmão”(Mt 7, 1-5).

Jesus – Muito bem, Pedro! Não estás assim tão falho de memória como dizes!

Pedro – Oh! Foi porque Tu deste uma ajudinha! Amanhã eu já não encarreiro duas linhas!

Jesus – Não te aflijas, Pedro! A aprendizagem precisa de ser lenta para ser bem mastigada e digerida. Pouco a pouco, chega-se onde é preciso chegar! Vamos curar a tua sogra e, depois, vamos pregar à multidão, a partir da tua barca!

.

Ezequiel Miguel

A rebelião de Coré (Cf. Números 16)

(Realidade e Ficção)

.

Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –  Meribá (= Disputa) e Massá (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan), Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” (Salmo 94/95)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida, onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel, ocupada entretanto por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números, do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico e registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido e meditado sob diversos ângulos por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento dele nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente no filme “Os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra prometida (Canãa) , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura, era, e ainda é, o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo. Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei, como parece ter sido o caso.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem, Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá (disputa)e Massá (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”:

Coré – Olha lá, Moisés! Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yahweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés – “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para vos honrar perante a comunidade, entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio . Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh fará conhecer quem é dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante de Yahweh. Aquele que ele escolher, esse é o homem que lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora, chamo aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

AbiramEu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne, sem vinho, sem uvas, com água potável só de vez em quando! De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste com um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos idiotas, tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui! Se tu, lá no Egipto foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teus truques, de morrermos à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram – Temos saudades das refrescantes cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados! Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda) da Reunião com Moisés e Aarão”.

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

.

Comentários sobre as lições a tirar:

  1. A História de um povo faz-se com Deus ou contra Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar, com tantos pormenores e milagres, a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem pertenceriam, por direito, esses territórios, onde a paz é árvore que não deita raízes.

Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe muitas vezes à prova a nossa fé Nele, com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, a fim de nos levar a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos, com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.(…)

  1. Moisés foi escolhido para Chefe directamente por Deus, sem perguntar a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Ele bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que lhe era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e ele lá foi, baseado na promessa da protecção de Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos, apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”! Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!
  1. Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas que exercem autoridade sobre nós, quer definitivamente quer temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.
  1. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube, no quartel, na paróquia, no Movimento da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos seminários, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver murmuradores,…afaste-se deles, recuse alimentar-lhes a corda do fogo destruidor que sai das suas bocas e o veneno que sai das suas línguas.
  1. Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz, para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”.Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!
  1. Quem despreza um profeta de Deus despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive, outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo, quase todos, perseguições, maus trato, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de quem tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição de mensagens proféticas teve enormes custos para Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo o mundo.
  1. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo!”. Também está escrito (na Bíblia) que Deus pode punir nações e povos através de maus governantes, que actuam como chicotes de Deus para povos rebeldes. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

.

Ezequiel Miguel

.

Artigos relacionados:

. Salmo 77/78

. Maledicência, murmuração e duplicidade

. Salmo 94/95

. Insultos, injúrias, ofensas…por palavras

. Enigmas bíblicos III – Moisés e a água do rochedo

. Resposta a Enigmas bíblicos III

 

 

Nasceu-vos hoje o Salvador (Lc 2,11)

(Realidade & Ficção)

Personagens:

. Pastores: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaac, Tobias, Jónatas, Daniel, Simeão, João, José, Benjamim.

 . Anjos

. S. José

. Virgem Maria

estrelaNa mesma região (Belém) encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. (Lc 2, 8-12)

Nos arredores de Belém, exactamente no lado oposto da cidade onde se situa a gruta, pernoitam os pastores, com seus rebanhos, que não são todos seus, mas pertencem aos seus patrões, uns dali, outros, de localidades vizinhas. Todas as noites eles se revezavam para que um deles ficasse de vigia. Ficava um sempre de sentinela, não  por medo de fuga das ovelhas, mas por temerem os ladrões de gado.

Não é bem verdade dizer que aquela noite era igual a todas as outras noites, porque ela, por ser mais clara que as outras, por ter um luar mais luminoso que as outras, porque a lua naquela noite requisitara ao sol uma dose extra de luz que tornava os campos não só visíveis, mas até com uma claridade estranha. Esta era a noite…a princesa de todas as noites, a rainha de todas as noites, a mãe de todas as noites, a noite das noites…a noite única, a noite santa, a noite profetizada séculos antes, esperada durante milénios, a noite em que o Plano de Deus iria dar o passo principal para a Redenção da Humanidade caída sob as garras de Satanás. Era a noite cuja memória perdurará pelo tempo até ao fim do Tempo.

A estranha luminosidade da lua, movendo-se entre as nuvens de um céu estrelado, não deixou de chamar a atenção dos pastores que, um após outro, saíram do cabanal que os protegia do frio da noite e todos achavam muito estranho não se poder olhar para a lua sem colocar  uma mão à frente dos olhos, tal como se faz para mirar o sol. Uma lua assim nunca se vira. Enquanto todos olhavam a lua, viram aproximar-se algo luminoso que, ao longe, através dos ares, vinha em sua direcção, até que finalmente chegou perto deles:

Anjo“Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias -Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura”(Lc 2, 10-12).

Coro dos Anjos  (Cantando) – “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens por Ele amados” (Lc 2, 14)

Samuel – Nasceu o Messias!

Todos – Louvado seja para sempre o Deus de Israel, que  já  nos enviou o Desejado das Nações!

Jonas – Prestai atenção! Olhai para as ovelhas!

David – Estão todas agitadas e a balir!

Benjamim – E os cães estão a ladrar e às correrias! Parecem doidos!

Simeão – Escutai! A passarada também perdeu o sono e desatou num estrondoso concerto!

Elias – Olhai o céu! Está além uma estrela nova com um brilho fora do vulgar!

Levi – E parece estar do outro lado de Belém, aqui tão perto, quase sobre as nossas cabeças!

Jónatas – É isso! Toda a natureza se alegra com o nascimento do Messias!  Despachemo-nos e ponhamo-nos a caminho!

Simeão – Quem sabe onde é esse local indicado pelo anjo?

Levi – Eu sei onde é e quem é a Mãe do Messias!

Elias – Ah sim? Conta lá!

Levi – Há poucos dias chegou um casal a casa dos meus patrões a pedir hospedagem, mas os  meus patrões não tinham nenhum espaço disponível para lá ficarem a dormir. A minha patroa  lá arranjou um quartinho para Ela descansar um pouco. Se vós a vísseis! Ela parecia um anjo!

José – Porquê?

Levi –  Porque Ela é ainda muito nova, pouco mais velha que eu, mas estava grávida e não parecia nada preocupada. Toda Ela respirava paz e no seu rosto não havia sinais de ansiedade ou angústia alguma. Ela parecia uma princesa, é muito bonita, de olhar muito meigo, com um sorriso que nunca se esquece e desfazia-se em agradecimentos por qualquer pequeno serviço que se lhe prestasse. Não imaginais como Ela me agradeceu quando eu lhe trouxe uma tigela de leite quente! Lembro-me que o senhor que vinha com ela estava um pouco nervoso e muito preocupado com a falta de condições dignas para o Menino nascer. Ela acalmava-o e dizia-lhe que o Senhor forneceria o necessário e que não seria preciso ninguém para ajudar no parto e que também não teria dores.

Tobias – O quê? Ela disse isso? Mas como é que Ela sabia essas coisas? E como é que Ela sabia que era um Menino e que teria um parto sem dores? Sendo assim, não esperemos encontrá-la  de cama! Mas as mulheres, quando nascem os bebés, ficam de cama dois ou três dias e alguém tem de as ajudar nas lides domésticas!

Samuel – Então, Ela é diferente das outras mulheres, ou não fosse Ela a Mãe do Messias. Tenho cá para mim que não haverá maior dignidade na Terra do que ser a Mãe do Messias. Superior a Ela, só Deus!

Daniel – E se nos deixássemos de conversa, ó teólogos da meia-noite !Vamos embora! Conversamos pelo caminho!

Simeão – Calma aí! E aparecemos lá de mãos vazias? O Menino não é um qualquer! Ouvistes bem que Ele é o Messias, o Cristo, o Senhor! Israel anda há 600 anos a falar Dele e os profetas sabiam bem de Quem falavam.

João – O Simeão diz bem. Que podemos levar-Lhe como presentes?

José – Podemos levar queijo…

Benjamim –  Leite…

Daniel –  Pão, fruta, azeitonas…

Samuel –  Figos secos, tâmaras secas…

Jonas – Eu levo uma pele de ovelha, que vale tanto como  o melhor dos cobertores.

Elias – Eu cá levo uma ovelha!

Todos – Uma ovelha?

Elias – Sim, uma ovelha! Imaginai que a Mãe não tem leite! Como é que o Menino vai sobreviver se a Mãe não tem leite?

Samuel – Não tem leite? Todas as mães dão leite!

Elias – Pois, mas eu  já ouvi dizer que há mães que não têm leite quando os filhos nascem! Ou se o têm, demora a vir! Assim, é fácil levar uma tigela e tirar leite da ovelha. Ela até se sentirá muito honrada com isso. Já vistes que poderá ser a única ovelha a alimentar o Messias? (Ri com gosto ante esta ideia…)

José – Ó rapazinho, isso é uma ideia brilhante! De onde te vem tanta sabedoria, sendo ainda tão jovem?

Jonas – E quem sabe exactamente onde eles estão?

Levi – Eu sei! Aquela estrela deve estar sobre uma gruta que há lá no outro lado da cidade. Eu lembro-me que o senhor (penso que será o seu esposo) disse que iam para uma gruta que ele conhecia bem. Depois, quando pudessem, procurariam uma casa.

Isaac – Eu até já ouvi dizer que essa gruta já existia nos tempos de Abraão.

Tobias – Então, é hora de ir! Estou a ficar impaciente!  Eu levo um cordeirinho branco. Tome cada um o seu presente e vamos! Levemos umas lanternas para o caso de Eles lá não terem luz!

Simeão – Bem pensado!

Todos – Lá vamos a caminho de Belém adorar o Deus-Menino!

Chegados à porta da gruta, surgiu um problema. Como se anunciariam, como entrariam, quem entraria primeiro, quem falaria por todos?

Simeão – Levi, espreita aí, a ver se descobres alguém ou sinais de presença humana.

Levi – (espreitando) Cheira-me a fumo! Deixai-me entrar um pouco, pode ser que… (Arranca umas tossidelas ruidosas…)

Jonas – Vai mais para dentro e vê se descobres alguma luz! Vês alguma coisa ou alguém?

Levi – Espera aí! Há lá dentro muita luz. Parece o sol ao meio dia! E vejo…É Ela!…É Ela!…É Aquela que esteve em casa dos meus patrões…E também o homem que vinha com ela. São eles! Estão ambos curvados sobre uma manjedoura onde um Menino está deitado, tal e qual como disse o anjo. Estão ambos a contemplar o Menino. Ele parece chorar! Se calhar é com fome e com frio! Ele não está a mamar! A Mãe está-lhe a dizer palavrinhas meigas, como só as mães sabem dizer!

Benjamim – O que está Ela a dizer ao Menino?

Levi – Fazei silêncio, de contrário não posso ouvir!…

Maria – Aqui estás Tu, finalmente, ó Filho de Deus feito Homem! Tanto tempo que esperámos por Ti! Agora…quem diria? O Senhor omnipotente aqui a choramingar com frio e fome! Meu Menino, Meu Filho, Meu Amorzinho, Meu Principezinho, meu Reizinho, Meu Senhor, Meu Criador, meu Deus!… Não encontrámos instalações melhores para nasceres! Tu, o Rei do Universo, aqui tão pobrezinho! Mas tens o amor da Tua Mamã e do Teu adoptivo pai para Te compensar. É o melhor que podemos dar-Te!

Daniel – Basta de espiar! Chama em voz alta para que te ouçam ou nunca mais saímos daqui! Além disso, é feio espiar o que os outros fazem ou dizem. Quem tem cara limpa não se esconde!

Levi – Calai-vos! Se soubésseis o que ouvi! Foram as palavras mais doces que um ser humano pode proferir!… Mas eu vou chamar, para ver se aparece alguém!…Quem está aí?… Ó da casa! …Podemos entrar?…

S. José  – (Virando-se, levantando-se e indo até à entrada)  Quem sois vós?

Todos – Somos pastores e viemos adorar o Menino. Trazemos também alguns presentes: alimentos e lã.

S. José – Entrai!

Maria –(Virando-se e sorrindo) Sede bem-vindos! Como soubestes que o Messias já tinha nascido?

Simeão– Foi um anjo que nos disse e nos convidou a vir adorar o Menino. Depois, ouvimos um coro de anjos a cantar: “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na Terra aos homens…”Agora, aqui estamos! E temos presentes para o Menino: pão, queijo, figos secos, tâmaras secas, leite, um cordeirinho, uma pele de ovelha… (Olhando em volta) Falta qualquer coisa! Falta o Elias com a sua ovelha! Ide chamá-lo e que tire já leite quente para dar ao Menino, pois o leite que aí trazeis já está frio!

Maria – Muito obrigado pelos vossos presentes. O Meu Filho vos compensará e um dia Ele voltará aqui para vos agradecer pessoalmente e ainda muito mais, que a seu tempo se revelará.

João – Podemos pedir-vos um grande favor?

S. José – Dizei!

João – Deixais-nos beijar a veste do Menino?

Maria –(Destapando um pé do Menino) Podeis, mas em vez da veste podeis beijar o Seu pèzinho!

E todos, um por um, concretizaram a primeira adoração popular do Menino, que correspondia agitando os pèzinhos. Concentração, lágrimas, sensação de felicidade interior, desejo que aqueles momentos se prolongassem indefinidamente, … Mas tudo termina! Ali nasceu neles o entusiasmo e o veemente desejo de darem a conhecer ao mundo o nascimento do Messias. Cristo acabara de fazer os Seus primeiros discípulos. Mais tarde, trinta anos depois, Cristo procurá-los-ia para lhes agradecer e confirmá-los em sua fé no Messias. Todos eles, aqueles ainda vivos, engrossariam o número dos Seus discípulos fiéis que estariam dispostos a dar a vida por Ele, após terem presenciado a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Nessa altura compreenderiam qual a sorte final do Cordeiro de Deus e a visão profética da Jovem Virgem Maria.

Elias – Eu vou a Hebron dar a notícia aos meus patrões!

Maria – Olha, conheces lá o sacerdote Zacarias, a sua esposa Isabel e o seu menino João?

Elias – Zacarias é aquele que ficou mudo até o menino nascer?

Maria – (Sorrindo ante  a sentença  de Elias)  Então fazes-me um favor? Eles são meus parentes!  Diz-lhes que eu lhes peço para virem até aqui.

Elias – Isso farei com muito gosto! Podes ficar  descansada!

Maria – O Senhor te pague! Sê sempre bonzinho e o Meu Menino te recompensará!

No regresso:

E a visita terminou. Cheios de alegria, encetaram o caminho do regresso, animados, falando pelos cotovelos, comentando, fazendo cálculos, especulando, falando sobre o que sabiam do Messias referido pelos profetas, interrogando-se sobre muita coisa que nós também ainda hoje nos interrogamos, assim como se interrogarão as gerações futuras: se tinha que ser assim, ali, logo de noite, logo num tempo em que não havia lugar nas estalagens, logo naquela pobreza, porque não no palácio de Herodes, porque não na casa deles próprios ou dos seus patrões, etc., etc.

Elias – Vistes para que serviu a minha ovelha?

Jonas – E vistes o que a Mãe fez com a pele de ovelha? Agarrou no Menino,  embrulhou-O nela e Ele logo se calou.

Tobias – E vistes para que serviu o meu cordeirinho branco?

Todos – Para que foi? Não vimos nada de especial!

Tobias – Ah não? Não vistes as carícias que a Mãe fez ao meu cordeirinho? Quando lho ofereci, Ela  desatou a fazer-lhe festinhas e ele olhava para Ela de tal modo que até parecia querer dizer qualquer coisa! Ela olhava ora para o Seu Menino ora para o meu cordeirinho! Agradeceu sorrindo, e, de repente, ficou muito séria, com olhar fixo em alguma coisa invisível…imóvel, sem pestanejar… como se visse alguma coisa má que eu não via e…imaginai lá: eu vi-a a limpar as lágrimas!(Limpando as suas próprias lágrimas)

Todos – Estás a chorar!?…

Tobias- Estou! Ela chorou, enquanto vós estáveis lá entretidos em volta do Menino na manjedoura. Choro também porque tenho muita pena Dela e não posso esquecer aquelas lágrimas que lhe caíram silenciosas pela face abaixo. Ela tentou disfarçar, mas eu vi! Depois, continuando a fazer festinhas ao meu cordeirinho, Ela dizia: O que tu me fazes lembrar, meu lindo cordeirinho!… Depois, enxugou as lágrimas, tentou sorrir e fingiu que estava feliz.

Samuel – Mas então só tu é que viste isso? Porque é que Ela terá chorado? Alguém é capaz de ter uma ideia? Não foi, de certeza, por nossa causa!

Aqui, cada um foi lançando a sua hipótese, que podia ser rejeitada, semi-aceite ou unanimemente aceite como possível.  Uns diziam que era por causa do frio, outros, por falta de uma casa, outros, porque não tinham alimentos nem roupa suficiente, outros, porque tinha muita pena do Menino, o nosso Messias ali tão pobrezinho, quando não faltam palácios em Jerusalém e em Belém. Falou, por fim, Simeão:

Simeão – Cá para mim, Ela relacionou o teu cordeirinho com o Cordeirinho Dela, quer dizer, o Seu Menino. Por isso, Ela olhava ora para um ora para outro, lembrando-se de qualquer coisa relacionada com cordeiros, porque Ela disse que o Seu Menino também era um Cordeirinho. São ambos puros e Ela deve ter-se lembrado do que acontece aos cordeirinhos brancos por altura da Páscoa… Será que Ela não viu o Seu Cordeirinho a verter o Seu Sangue  pelo nosso Povo e por todos os Povos?

Jónatas  – E um profeta não diz que o Servo do Senhor, que é o Messias,  foi levado ao matadouro e que como uma ovelha não abriu a boca (Is 33,5)? Já me lembro: foi Isaías que disse isso! Ela, ao ver a ovelha e o cordeirinho, associou-os à sorte final do Menino. Ela deve saber mais do que nós pensamos, ou não esteja Ela dentro dos segredos que envolvem a vinda do Messias! É o que eu penso!

João – O quê! O Messias ainda agora nasceu e já estais a falar da Sua morte? Calai-vos lá com isso! Hoje é dia de alegria para todo o mundo!

David – Mas o Messias não vem para libertar o nosso povo da pata dos Romanos? Não se diz que Ele é o Libertador e o Salvador que vai restaurar o Reino de Israel? Não percebo! Então…e é preciso morrer para cumprir essa missão? Mas Ele morre ou matam-nO? E se O matam, quem o mata e porquê?

Samuel – Eu já ouvi dizer que Ele será traído por um que se fará passar por Seu amigo. Quanto ao porquê, não sei responder! Se alguém sabe, diga! De qualquer modo, como eu gostaria de pertencer ao seu exército!

David – Eu já me contentava com servir no Palácio Real!

Levi – Eu gostaria de ser general do seu exército!

Elias – E eu gostaria de ser o pajem da Sua Mãe, o servo para todo o serviço!

Isaac – Eu não acredito que o Messias tenha vindo para isso! Ele é chamado o Príncipe da Paz, por isso não pode ser um guerreiro, um general, um conquistador de cidades e reinos.

Tobias – Mas então, se Ele é o Libertador, o Salvador,  de que é que nos liberta e nos salva, afinal?

José – Mas Ele também é chamado Deus Eterno,  Deus Forte, Deus Imortal, Deus Santo, Príncipe Adorável, Conselheiro Admirável, Deus Poderoso, Pai Eterno… (Is 9,6)e outras coisas assim. Ora, se é Deus, só Lhe deve interessar a santidade dos homens e isso tem a ver com o pecado.

Benjamim – A propósito de pecado: Uma vez o Chefe da Sinagoga disse que o Messias viria para abrir as portas do paraíso aos Justos e para estabelecer na Terra um Reino de Paz e  Amor.

David – Se calhar, é isso, porque o profeta Isaías diz que um dia os animais selvagens e os domésticos conviverão sem se comerem e que até uma criança poderá meter a mão na toca da víbora e que os filhotes do leão brincarão com os filhotes das ovelhas e das vaquinhas,…(Is 11, 6-9), mas os animais aqui podem ser os homens. Ora, para os homens se amarem é preciso que eles se sintam todos irmãos e que não se guerreiem uns aos outros. E só num Reino de Amor é que isso é possível. Esse Reino do Amor será o Reino do Messias, pois o profeta Isaías até diz que será mesmo assim, porque as espadas enferrujarão por falta de uso.

Simeão – Eu curvo-me perante tanta sabedoria, ó David! …O David diz que tudo isso tem a ver com o pecado. Eu também assim penso, porque esse profeta, ou outro, também diz que ainda que os nossos pecados sejam vermelhos como o escarlate, eles ficarão mais brancos do que a neve (Is 1,18)). Sendo assim, Ele vem salvar-nos e libertar-nos das consequências do pecado.

Elias – E depois, já se pode pecar à vontade?

Simeão – Não! Era o que faltava! O pecado é inevitável, porque todos os homens são pecadores, mas o Reino do Messias será espiritual e Ele assumirá sobre si todos os pecados da Humanidade e pagará o preço pelas ofensas feitas a Yahweh. Só depois de pagar esse preço é que os Justos do Limbo subirão ao paraíso. Só depois disso os Justos que morrem no Senhor irão também ao paraíso, que, como sabeis, ficou fechado depois do pecado de Adão e Eva.

Isaac – Mas onde é que tu aprendeste essas coisas?

Simeão – Eu tenho um tio que é sacerdote e ele fala-me muito destas coisas e de outras sobre o Messias.

Daniel – Lá em minha casa fala-se muito naquela passagem da Torá onde é dito ao rei Acaz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho que será chamado Emanuel”( Is 7,14),  que quer dizer,…quer dizer…Já não me lembro!”

Jónatas – Deus- connosco, Deus- entre-nós!

Daniel – É isso! Então a tal Virgem é esta donzela! Que sorte nós tivemos em vê-la a Ela e ao Messias, seu Filho! Isto quer dizer que aquele homem não é o pai do Menino, mas finge ser! Nesse caso, quem é o pai do Menino?

Levi – Não é ninguém!

Todos – O quê!!! Como pode ser isso?

Levi – Se o Menino é o Messias, o Messias é Filho de Deus; se é o Filho de Deus, também é Deus e ninguém pode ser o pai de Deus. Neste caso, o Pai do Filho de Deus é o próprio Deus! Porque ninguém que seja filho de um homem pode ser Deus. Isto quer dizer que o Messias foi gerado pelo próprio Deus no seio daquela Virgem e nesse caso….

Tobias – Ah! Agora percebo porque é que Ela disse que não teria dores de parto e também agora percebo porque é que Ela, após o Menino nascer, não ficou de cama como as outras mulheres e anda por ali como se não tivesse havido parto nenhum! Pois é! Agora percebo! Isto foi e é tudo obra do próprio Yahweh!

 Quer então dizer que o Seu marido,…isto é, o seu esposo, porque Ela tratou-o por “esposo”…Sendo assim,…ainda tem de haver mais! Se Ela é Virgem, o seu esposo também é! Sei lá, devem ter feito ambos voto de virgindade para toda a vida. Assim, têm de ser verdadeiros esposos, porque…senão …Ela era condenada à morte. E o Seu esposo deve ser apenas o guarda do Messias e o Seu pai adoptivo, tudo para não levantar suspeitas. Não pode ser de outra maneira. Quem penetra nos mistérios do Deus Altíssimo?

Samuel – Ó rapaz, pareces um profeta! Em que trapalhadas filosóficas e teológicas nos meteste! Um dia Ele e Sua Mãe vão-nos explicar tudo isso. Por agora, alegremo-nos e louvemos o Senhor! Mas antes, tenho que vos colocar uma questão: Qual foi o profeta que anunciou que o Messias nasceria em Belém de Judá? Aguardo a resposta certa!… Então, ninguém arrisca?…Então eu digo: Foi o profeta Miqueias.

Simeão – O que é que ele disse exactamente?

Samuel – Disse: “Mas tu, (Belém) Éfrata, embora a menor das cidades de Judá, de ti sairá para mim Aquele que dominará em Israel” (Miq 5, 1)

Levi – Mas eu ainda tenho uma coisa a dizer, uma coisa que se passou comigo quando estava a beijar o pèzinho do Menino.

Todos – O que foi? O que foi?

Levi– Não sei se diga! Ides dizer que estou maluco! Posso enganar-me, porque não sei se foi real ou se foi apenas uma impressão estranha. Pareceu-me ter uma visão diferente do Menino. É que, enquanto Ele chorava, eu vi-O sorrir para mim!… Pronto, já disse! Já podeis chamar-me maluco!

Todos (um por um): Olha, comigo aconteceu a mesma coisa!

Jonas – Eu só não falei porque,…mas então aconteceu o mesmo convosco! Que maravilha!

Daniel – Foi isso mesmo! Somos todos malucos! Ele sorriu para nós! Nós somos os seus primeiros amigos! Glória a Deus e ao nosso Messias pelos séculos dos séculos!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

João – Eu tenho ainda uma coisa a perguntar ao Elias. Tu disseste que ias a Hebron dar a notícia àquela  Sua parente, de nome Isabel?

Elias – Disse e vou cumprir o mais rápido possível. Aliás, há aqui qualquer coisa que se me escapa. Parece haver coincidências a mais! Essa Isabel…faz-me cá confusão!

Todos – Conta! Conta!

Elias – É assim! Há lá em Hebron um casal já muito idoso que conseguiu ter um filho, que tem agora uns quinze meses, por aí,  e lá todos comentam que não sabem como é que isso aconteceu, pois naquela idade, a tal Isabel já não podia engravidar. Para mais, ela sempre foi considerada estéril. O marido é o sacerdote Zacarias e também já é muito velho. Mas dizem por lá que um anjo lhes anunciou um filho, e que ele, por ter duvidado do anjo, ficou mudo até o menino nascer. Esse menino chama-se João.

José – É tudo muito estranho! O Messias foi concebido milagrosamente por Yahweh no seio de uma Virgem,  o Joãozinho foi profetizado também e também milagrosamente foi concebido por um casal estéril. Para mais, da mesma família!

Daniel – Será que ambos os nascimentos não estarão intimamente relacionados? E porque é que o Joãozinho nasceu primeiro que o Messias?

Jónatas – Porque tinha de ser!

João – Explica-te!

Jónatas – Eu sei lá explicar isso! Mas um dia ouvi um Chefe de Sinagoga dizer que um mensageiro iria à frente do Messias a preparar o seu caminho (Malaquias 3,1). Só não sei como é que ele explicou o resto. Já não me lembro! Ele disse que isso tinha sido escrito por um profeta, que também já não sei qual foi!

David – Então, se assim é, isso deve demorar para aí uns 20 ou trinta anos! Será que ainda estaremos todos vivos nessa altura? Assim, já sabemos! Quando ouvirmos  o  mensageiro João, saberemos que o Messias vai também entrar em acção! Quem me dera viver até lá!

Jonas–  Egoísta! Diz antes: Quem nos dera a todos viver até lá! A Mãe disse que um dia Ele nos retribuiria a visita!

Todos – Assim o esperamos! Louvado seja o Senhor, Deus de Israel! (1)

Elias – Mas eu ainda tenho uma coisa para dizer! Vós vistes lá alguma candeia ou lanterna a dar luz?

Todos – Não!

Elias – Então, de onde vinha toda aquela luz, se não havia nenhuma fonte de luz?

Todos – Bem visto! Quem sabe, diga!

Simeão – Era a própria Luz do Menino, uma vez que Ele é Deus! E agora pergunto eu: O Levi disse, quando estava lá a espreitar, que cheirava a fumo. Alguém cheirou o fumo lá dentro?

Todos – Não!

Simeão – Então, foram os presentes que o Menino nos ofereceu em troca dos nossos! Glória a Deus nos Céus e paz na Terra aos homens!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

E a conversa continuou animada até ao telheiro onde se protegiam do frio e mantinham vigilância sobre os rebanhos.

“E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito” (Lc 2, 20)

(1) Uma das primeiras preocupações de Jesus, quando começou a sua vida pública, foi mesmo ir até Belém e contactar os pastores ainda vivos. Todos eles viveram na expectativa de voltar a encontrá-Lo, mas para alguns (poucos)isso já não foi possível. Os outros tiveram a felicidade de O reencontrar e de se tornarem Seus discípulos.

 .

Ezequiel Miguel

A moeda na boca do peixe

(Realidade e ficção)

 .

Personagens: Jesus, Simão Pedro, Judas Iscariotes, fariseus

moedaOs fariseus procuravam sempre saber por onde Cristo e os seus apóstolos andavam, quer para o contestarem, quer para o provocarem com ciladas ou perguntas capciosas, pintadas de inocência e boa fé. Em mais uma dessas ocasiões, eles abeiraram-se de Pedro, que acabara de sair de uma barca, juntamente com outros apóstolos, incluindo Judas Iscariotes.

Fariseu – O vosso Mestre não paga o tributo ao Templo?

Pedro – Então não há-de pagar? Claro que paga!

Fariseu – Mas ele não pode pagar agora? É que como anda sempre de um lado para o outro, nós temos dificuldade em o encontrar!

Pedro – A sério? Então, vós andais sempre a espiá-Lo e não sabeis por onde Ele anda? Sois uns mentirosos!

Fariseu – Ele anda sempre fugido de nós, como se nós tivéssemos alguma doença que se pegue!

Pedro – E será que Ele não tem razões para fugir de vós? O que quereis que Ele faça, se vós O espiais, Lhe fazeis perguntas manhosas e tentais a todo o custo montar-lhe armadilhas para o apanhardes em pecado? Qualquer passarinho inocente foge das aves de rapina! Mas vós esperai aqui, que eu já vou falar-Lhe no assunto!

Judas Iscariotes – Pois é! E como é que Ele vai pagar o tributo se não temos uma única moeda? Ao alugardes as duas barcas gastastes todo o dinheiro que havia. E agora, como é que vamos comer? Agora, não passamos de uns pelintras que são obrigados a mendigar para sobreviver. Em nós ninguém pensa.

Pedro – Cala-te para aí, ó resmungão! Eu não me preocupo com isso! Alguma vez te faltou comida na hora certa? O Mestre, se multiplicou os pães e os peixes para aquela gente toda, não será capaz de multiplicar pães e peixes para nós, se for preciso? Ainda não aprendeste nada desde que andas com Ele! Acaso haverá alguma coisa que Ele não possa fazer? E também sabe, neste momento, que tu estás para aí a rabujar!

Judas – Pois é, mas tu, quando é hora de comer, comes que te fartas!

Pedro – E o que querias que eu fizesse? Se é hora de comer, como mesmo! É uma actividade em que não me apetece fingir ! Apetite e fome são coisas que nunca me faltaram, graças a Deus, mas não ando para aí a lamuriar-me de cada vez que as coisas não correm como eu gostaria. Tenho absoluta confiança no Mestre, que providencia às nossas necessidades sem precisar dos nossos queixumes. Além disso, Ele também providencia que não cometamos pecados da gula!

Judas – Mas já não é só pão e peixe! Também o nosso calçado já está gasto e qualquer dia …teremos de andar descalços! Penso que deveríamos ter calçado mais digno, para aparecermos com mais dignidade nos locais onde evangelizamos. Nós não devíamos ser olhados como uns pelintras que não têm onde cair mortos . Mas, enfim! É sempre esta miséria em tudo! Eu até penso que, quando vamos às aldeias a pregar, eles nos apedrejam por não verem em nós a dignidade que eles esperavam. Quem é que está disposto a ouvir um grupo de maltrapilhos de sandálias rotas ou gastas e roupas cheias de pó?

Pedro – Há uma vantagem na questão da comida! Nunca nenhum de nós apanhou uma indigestão por ter comido demasiado! Vê-se que o Mestre sabe cuidar da nossa saúde! E Ele já disse que há certos demónios que só se vencem com o jejum!…Além disso, Ele já nos ensinou o Pai-Nosso, onde nos aconselha a pedir apenas o pão de cada dia. Tu, como andas muito fugido de nós, não rezas o Pai-Nosso, por isso, sentes muito a falta de pão… A nós nunca faltou, embora às vezes venha um tanto atrasado e duro, visto não termos nenhuma padaria sempre com pão fresquinho!

Judas Iscariotes – Pois! Mas eu tenho saudades de certas comidas! Sempre só pão e pouco mais!

Pedro – Oh! Coitado! Será que esperavas que o Mestre te convidasse todos os dias para um banquete? Eu vejo-te saudável, sinal de que ainda não morreste à fome nem estás doente!

Judas – Não me fales em morrer! Não quero morrer à fome nem de maneira nenhuma! Quero ver o Mestre restaurar o Reino de Israel e, quanto a morrer, só quero morrer de velho! A morte mete-me medo!

Pedro – É a morte que te mete medo ou será o julgamento de Deus, as contas que todos nós temos de pagar, se não estiverem já pagas cá na terra? A propósito, o Mestre já te disse de que morte irás morrer? A mim já me disse, mas não entendi muito bem o que Ele queria dizer… E achei melhor não perguntar! Assim, não terei o trabalho e a preocupação de escolher…

Judas Iscariotes –A mim ainda não me disse nem quero que me diga! Não quero lembrar-me de coisas tristes! Já que tenho de morrer, que morra tão velho como o Matusalém , que viveu 969 anos. Mas a ti o que disse Ele?

Pedro – Disse: “Agora vais para onde queres. Mas depois…outro te levará para onde não queres, estenderás os braços e outro te cingirá…É assim que darás glória a Deus”! Mais ou menos assim! Mas eu nem quero saber o que isto significa. Quando acontecer, logo se verá, pois o que tem de ser será! É como Ele quiser! Sei que, nessa hora, Ele estará a meu lado e ao lado de todos os outros. Foi isso que Ele já prometeu. Sendo assim, nada a temer!

Judas – Eu não quero morrer sem ver restabelecido o Reino de Israel. Eu quero que o novo Rei me escolha para a sua corte, pois estou preparado para isso. O resto…

Pedro – Já agora, que ninguém nos ouve, eu queria esclarecer contigo umas coisas que me intrigam. Tu, de vez em quando, desapareces, andas por lá uns dias, depois voltas, com cara de caso. Já observei mais de uma vez que o Mestre fica triste quando voltas, tem uma conversa contigo e depois…chora! No meu fraco entendimento, ele sente-se ofendido com o teu comportamento, dá-te bons conselhos, mas tu…fazes sempre igual. Também há coincidências estranhas. Quando tu desapareces, ou quando voltas, aparecem sempre fariseus a provocar o Mestre e a armarem-lhe ciladas para o apanharem em pecado. Outras vezes…não sei se diga!…

Judas – Outras vezes,… o quê?

Pedro – Outras vezes, o Sinédrio envia prostitutas ao Mestre, para O tentarem e levá-Lo ao pecado. E agora vem a pergunta que há muito tempo eu ando para te fazer: Tu tens a ver com isto, não tens? Como é que os fariseus e as prostitutas sabem por onde nós e o Mestre andamos? Serás tu que informas o Sinédrio e eles encarregam-se do resto ou és tu mesmo que recebes dinheiro deles para tu próprio pagares às prostitutas?

Judas – Estás a ofender-me! Tu julgas-me capaz disso? Quando vos deixo é porque preciso mesmo de ir dar uma volta, para acalmar os meus nervos e o cansaço.

Pedro – Não acredito! O Mestre já te propôs que abandones a nossa companhia, porque tu não aproveitas nada e Ele verte muitas lágrimas por tua causa, sinal de que as coisas andam mal contigo. Não vás julgar que o Mestre nos conta a tua vida, mas nós…observamos, pensamos, suspeitamos e…concluímos, pois o Mestre fica com uma tristeza de morte quando tem de lidar contigo, o que é mau sinal para ti!

Judas – Deixa-me em paz! Não quero mais conversa! Tu não gostas de mim…e os outros também não! O Mestre desculpa-me tudo, mas eu não sou capaz de mudar. Sou como sou e não há nada a fazer!

Pedro – Terminamos. Vamos ter com o Mestre e dar-lhe o recado dos fariseus. É aquela questão do imposto a pagar ao Templo.

Judas – Eu afasto-me! Tu dás o recado!

Pedro – Mestre, estão ali uns fariseus a perguntar se não pagas o imposto ao Templo.

Jesus – Simão Pedro, faço-te uma pergunta: Quem deveria pagar esse imposto? Os israelitas ou os estrangeiros?

Pedro – Os estrangeiros!

Jesus – Assim deveria ser! O Templo é a Casa de Meu Pai, por isso, Eu estou isento de pagar esse tributo. E vós, como membros do Povo do Senhor, também deveríeis ficar isentos. Mas vamos pagá-lo, tu e Eu, para evitar que as pessoas julguem mal, critiquem, murmurem, difamem, caluniem…e ofendam a Deus. Sobe para a barca, afasta-te um pouco da costa e lança o anzol. Quando sentires uma força a puxá-lo, puxa tu com mais força, pois será um grande peixe que terá mordido no anzol. Depois, quando ele deixar de estrebuchar, abre-lhe a boca e retira a moeda que ele lá tem. É um denário de prata, que vale quatro dracmas. Pagarás duas dracmas por ti e outras duas por Mim. Assim evitaremos que alguém peque por nossa causa. Não seremos causa de escândalo para ninguém!

E assim aconteceu.

.

Ezequiel Miguel

Previous Older Entries Next Newer Entries

Seguir

Get every new post delivered to your Inbox.