O contrato de Judas com o Sinédrio (Mt 26,14-16)

(Realidade e Ficção)

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Então, um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi ter com os sumos sacerdotes e disse-lhes: ”Quanto me dareis, se eu vo-Lo entregar”? Eles garantiram-lhe trinta moedas de prata. E a partir de então, Judas procurava uma oportunidade para entregar Jesus. (Mt 26, 14-16).

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Aproximava-se o fim da pregação do Reino e Cristo estava quase a consumar a sua missão de evangelizador.

Um dia em que Jesus e os Apóstolos se encontravam todos em Jerusalém, Judas foi abordado por alguém para se apresentar com urgência na casa de campo de Caifás, o sumo sacerdote que presidia ao Sinédrio. Judas tinha contas a dar a respeito da sua actividade de espião e de agente subversivo. Cristo já tentara salvá-lo, mas a última tentativa falhara, talvez por se ter comprometido com o Sinédrio, no sentido de O espiar e criar situações que levassem Cristo a ser apanhado em pecado, uma vez que se precisava urgentemente de uma razão forte e convincente para O condenar. O plano gizado por Judas e pelo Sinédrio falhara e era a hora de chamar Judas a contas, para se explicar e justificar o falhanço.

É noite! Um vulto solitário caminha em direcção a uma casa no alto de uma colina no exterior das muralhas de Jerusalém, numa noite de luar em que a própria sombra parece assustar Judas, que caminha nervoso, parando e olhando de vez em quando para trás, a fim de se assegurar que não é seguido… Finalmente, chega ao portão da casa de Caifás, e, a um sinal de pancadas previamente combinado, ele abre-se e Judas é introduzido num salão já preparado para o receber. Em círculo dispõem-se os personagens que foram convocados para esta audiência a Judas. São membros do Sinédrio, que condenará Jesus à morte, passando por cima de todos os direitos e usando todos os meios desonestos, ilícitos e ilegais.

Judas – Então, já começastes a reunião?

Todos – A paz esteja contigo, Judas!

Judas – A paz esteja convosco, ó membros do santo Sinédrio! Como calculo o motivo que vos levou a convocar-me, quero antecipar-me às vossas perguntas e dizer-vos o que se passa com o Cristo. Tendes que vos despachar naquilo que quereis fazer com Ele, pois Ele já desconfia de mim e dos meus planos para vo-Lo entregar… e eu estou a chegar ao ponto em que nada mais poderei fazer por vós.

Sadoc – Não nos digas que te deixaste descobrir, ó grandecíssimo tolo!

Judas – (irritado e nervoso) Vós é que sois uns tolos, pois, com toda essa pressa em que ferveis, não planeais bem as coisas e fazeis coisas disparatadas. Vós é que não tendes confiança absoluta em mim!

Elquias – Não te lembras que te entregámos um plano há pouco tempo e que tu não concordaste com ele?

Judas – E pensais que é fácil trair o Único amigo que eu tenho, o Único que me ama de verdade sem esperar nada em troca, um Inocente que vai ser vítima de um crime?

Joaquim – Acalma-te, não estejas nervoso! O que tu fazes é uma obra santa pela pátria e toda a nação te agradecerá. O teu nome será honrado pelas gerações, porque tu figurarás entre os heróis de Israel. Tu chegarás ao poder, ditarás leis e fá-las-ás cumprir, porque tu serás o salvador da pátria. Tu serás aquele que fará desaparecer do número dos vivos o novo Holofernes que quer destruir a nossa querida pátria. Para isso, basta que colabores connosco naquilo que puderes, pois tu és imprescindível neste processo, uma vez que O conheces bem e facilmente O identificas, esteja Ele onde estiver!

Doras – Além disso, o Sumo Sacerdote Caifás falou profeticamente quando disse que era bom que morresse um homem pela nação, para que a nação não fosse destruída. Foi o Altíssimo que falou pela sua boca….Estás nervoso! Não nos acreditas? Nós somos teus amigos e queremos o teu bem, por isso, faremos tudo para que sejas um grande de Israel e isso dentro em breve! Aqui à tua volta estão representados as famílias sacerdotais, os Anciãos, os escribas, os fariseus, os rabis, os doutores, as autoridades do Templo, todos eles prontos para aclamar-te e convencer-te a fazer uma coisa santa de que te orgulharás toda a tua vida. Tomaram muitos estar no teu lugar!

Judas – Mas eu não vejo aqui Gamaliel, José de Arimateia, Nicodemos, João, Eleazar…e eles têm o direito de estar aqui, apesar de estarem a seu favor! Porque não foram convocados?

Caifás – Nós não os avisámos para esta reunião secreta, porque eles podiam dar com a língua nos dentes, …e estragar tudo. Tu sabes bem que eles simpatizam com ele. É melhor assim, para pensarmos todos por igual, a bem da nação e da glória de Deus…

Cananias – As tuas palavras são de verdadeira sabedoria, ó Sumo Sacerdote! Aceitando a sugestão de Judas de que devemos andar depressa e com passo firme, sem hesitações, julgo que devemos resolver já de uma vez por todas. Pertence a ti, ó digníssimo Caifás, como Sumo Sacerdote do Deus Altíssimo, fazer-nos a proposta final.

Caifás – Interpretando a vossa vontade e a vontade de Deus neste magno assunto, proponho que entremos em negociações com Judas para ele no-lO entregar sem mais preocupações da nossa parte. Sendo assim, nós propomos a Judas um pagamento de 30 denários e, em troca, ele deverá informar-nos onde O poderemos apanhar de noite, sem que o povo se aperceba disso. Judas, que dizes?

Judas – (agitado) É pouco! Isso é uma miséria para os serviços que vos presto! Esse preço nem seria justo se fosse para vos entregar um vulgar ladrão ou matar e esfolar um coelho! Para vos entregar Quem vós desejais neste caso, tendes que pagar 90 dinheiros, pelo menos.

Caifás – Não pode ser! Está escrito ( Zacarias 11, 12-13) que serão 30 denários e o que está escrito foi escrito pela vontade de Yahweh, por isso temos de respeitar a sagrada vontade de Yahweh, manifestada pelo profeta. É verdade que se trata de um preço simbólico, mas é esse o preço que pagaremos, para não irmos contra as sagradas Escrituras. Em troca, ficarás assinalado como um dos grandes de Israel, que todos louvarão e invejarão! Ele deve morrer e tu abrir-nos-ás o caminho para prendermos e julgar esse falso profeta, esse blasfemo, esse inimigo de Israel e do povo santo de Deus.

Judas – Para já, tudo o que dizes é falso, mentiroso, difamatório, calunioso. Ele não é nada do que dizes. Ele é um profeta e infinitamente mais que um profeta. Todo Ele é divino, todo Ele é puro Amor, compreensão, bondade, perdão. Ele conhece o íntimo dos corações e a estas horas até sabe o que eu e vós estamos a fazer e onde! Fico com a espinha congelada só de pensar que Ele me está a ver. Vós e eu somos uns miseráveis, uns assassinos, uns ladrões, uns montes de corrupção, uns traidores, uns hipócritas,… que vamos cometer o maior dos delitos que se podem cometer, a morte do Messias de Israel. Tenho umas perguntas a fazer-vos, se é que me autorizais!

Anás – Diz!

Judas – Vós acreditais que o profeta se referia ao verdadeiro Messias quando disse que seria vendido por 30 denários?

Anás – Acreditamos!

Judas – Então, vós próprios estais a dizer e a confirmar que Ele é o verdadeiro Messias de Israel, uma vez que dizeis que este preço é o estipulado pelo profeta. Ninguém encomendaria e ninguém aceitaria o assassínio de um homem por esse preço ridículo. Logo, tendes de concluir que vós próprios acreditais no que dizeis, isto é, que Ele é o Messias profetizado!

Caifás – ( Depois de uns momentos de silêncio e de troca de olhares cruzados)…Esse argumento…Temos de pensar! …

Doras – Nós não te entregámos a sua defesa nem te constituímos seu advogado! Pagamos-te por um nobre serviço e é sobre ele que estamos a negociar. Enquanto te decides, quero que nos expliques o que fizeste com o dinheiro que te demos para o apanhares em pecado, pois ainda não nos falaste sobre isso….Estamos à espera que fales!

Caifás – Deixai lá isso, por agora! Quanto à questão que o Judas colocou, parece ter lógica, mas…só parece! O profeta deve ter referido esse preço se o Messias aparecesse naquele tempo. É evidente, nos tempos de hoje, que esse preço é irrisório e inaceitável. Contudo, nós temos de ser fiéis à palavra do profeta ou então… Anás, que te parece?

Anás – As contas são fáceis de fazer! Se aceitamos as palavras do profeta e só pagamos os trinta denários, temos de reconhecer que o nazareno é o Messias e, nesse caso, não estamos aqui a fazer nada!

Joaquim – Só há um meio de resolver isto!… Os trinta denários e o Messias são indissociáveis, por mais voltas que demos. Ou aumentamos o preço e negamos o Messias, ou mantemos o preço e reconhecemos que ele é o Messias. Nenhum de nós viu isto a tempo! Agora já não sei o que dizer! O que eu ia a dizer já não faz sentido.

Elquias – Cá para mim,…Não! …É melhor calar-me! Para mim isto está a ficar muito confuso! O Caifás, que explique!

Caifás – Temos de dar a volta a isto! Judas, diz lá qual seria preço justo pelo teu serviço?

Judas – 144 denários! Acho aceitável!

Caifás – Certo! Então, nós pagaríamos os 144 denários, mas tu devolverias voluntariamente, como oferta ao Templo, o que vai de 30 até 144, isto é   110 denários. O Templo ficava assim compensado pelo dinheiro que te pagou por um serviço não feito. Achamos que será feita justiça!

Judas – ( Limpando o suor) Mas isso não muda nada! Eu…fiz tudo o que podia… e cumpri o que tinha combinado convosco! Paguei a uma meretriz jovem e bonita, aquela que vós me aconselhastes, informei-a sobre o local e a hora em que ela poderia encontrá-Lo, mas ela falhou, como falharam outras, acabando Ele por convertê-la `Sua Causa. Algumas, depois de terem tentado seduzi-Lo, fugiram como se tivessem visto o Belzebú. Conheceis aquela famosa irmã de Lázaro, a Maria? A essa eu não a convidei, mas Ele converteu-a e fez dela uma adepta incondicional e convicta, que suporta todos os sacrifícios por Ele! A outras,… eu paguei…,mas elas falharam também e ficaram com o dinheiro. Juro que foi assim! Além disso, Ele até desafiou todo o Israel a apanhá-Lo em pecado. Lembro-me de Ele ter dito: “Quem de entre vós será capaz de me apanhar em pecado”? Ora, um homem que faz este desafio tem que forçosamente ser santo e mais que santo. O desafio também foi feito a pensar em mim e em vós, a quem Ele acusa de sermos hipócritas, víboras, sepulcros caiados e outros mimos semelhantes. Ele tem um poder de que vós nem suspeitais! Agora, não me peçais o dinheiro, porque não o tenho.

Pelo pecado, garanto-vos que nunca O apanhareis, por isso, não percais tempo com essas manobra! Ele é diferente de todos os homens. Ele nunca se irrita, nunca humilha ninguém, corrige com amor, delicadeza e mansidão, nunca se vinga, perdoa sempre, cura todos os doentes que acreditam no Seu poder…Ele é mesmo Amor e tudo faz em nome do Amor. Sei que muitas vezes chamou a atenção do Pedro, que não simpatiza comigo…Eu até me lembro de uma vez em que, numa aldeia, nos trataram mal e ninguém nos quis ouvir. Dois de nós pediram-Lhe autorização para mandar vir fogo do céu sobre oshabitantes, para os consumir…Sabeis o que Ele nos respondeu? Disse que Ele tinha vindo ao mundo para dar a vida, e não a morte, e queria que os homens se arrependessem dos seus pecados e tivessem vida longa. Não há no mundo um homem assim, por isso, ide mais directos, de contrário, andais aí a empatar…

E quanto aos milagres, que vós atribuís a Satanás, Ele nunca invocou Satanás para os fazer, mas diz sempre: “Eu quero, fica curado,…Eu quero, levanta-te e anda, vê, ouve, volta à vida. Eu quero,…Eu quero…” e a Satanás Ele diz : “ Sai desse homem!” A outros dizia:” Eu te absolvo dos teus pecados!”. Ele nunca disse:” Em nome de Iahweh…, em nome de Satanás…, em nome de Belzebú”. E quando ressuscitou Lázaro Ele disse: “Lázaro, Eu te ordeno: Vem cá para fora!”. Vós julgais que Ele é um simples homem? Isto, para compreenderdes as dificuldades que enfrento para cumprir os meus compromissos para convosco! Por isso, tendes de ser tolerantes para comigo e também devíeis ser mais justos na paga que me dais! O que me propondes nem dá para matar um gato!

Elquias – Pois é! Ele é bondoso, manso, delicado…, mas a nós chamou-nos hipócritas, sepulcros caiados, filhos de assassinos de profetas e não sei que mais. Ele insultou-nos a todos, a nós que recebemos de Yahweh a nossa santa autoridade. Mas, há mais: Este miserável preço de 30 denários, como tu dizes, que te oferecemos, também tem em conta aquele dinheiro que te demos para o apanhares em pecado, visto teres falhado. Esse dinheiro devia ser-nos devolvido. Como não o devolves, és ladrão. Também és um mentiroso, pois acreditamos que o gastaste em teu próprio proveito. Por tua culpa, ele tem cada vez mais discípulos e se não agirmos depressa…será a nossa ruína e a ruína de Israel.

Judas – Mas, tendo vós tantas oportunidades para O prenderdes quando Ele pregou no Templo, mesmo sob as vossas barbas, porque não O prendestes, se era tão fácil? Porquê recorrer a mim, a meretrizes, ao dinheiro nojento, como nojentos sois todos vós? Eu, agora, é que sou o culpado? E quanto a ladrões, vós é que o sois, por roubardes o tesouro do Templo, para comprar meretrizes e para preparardes um assassínio! É isso a vossa santidade?

Elquias – Sabes muito bem porquê! Porque ele sempre se escapou, por manobras que o Belzebú lhe inspirava. Nós sentíamo-nos bloqueados, paralisados,…quando ele despedia raios dos seus olhos contra nós. Cada um de nós tinha a impressão que estávamos a ser vistos como se estivéssemos nus.

Judas – Pois é! É isso! Ele vê-vos por dentro e por fora e nada do que sois Lhe escapa! Ele vê a vossa vida de aves de rapina, de feras selvagens, de animais de estrumeira a fossar no estrume, víboras sempre à espreita de lançar veneno sobre todos aqueles que estão a par da vossa imundície.

Caifás – Tudo isso és tu, miserável! É assim que pagas a quem quer ajudar-te e que tem ajudado? Nós partimos-te já esses queixos e cortamos-te já essa língua atrevida! Vamos a ele e resolvamos já este assunto! (Levanta-se ameaçadoramente)

Elquias – Calma aí, ó Caifás! Não é assim que resolvemos o assunto! Temos de respeitar o Judas e agradecer-lhe os esforços que tem feito para nos ajudar. Temos de ser tolerantes para com ele, pois, se mais não fez, é porque não pôde!

Joaquim – Bem, agora que estamos mais calmos, ainda vos lembro aquele atrevimento do nazareno, quando desatou às chicotadas sobre as mesas dos que lá vendiam coisas no Templo, pondo tudo de patas para o ar. É esta a mansidão de que fala o Judas? Ele até disse então que nós estávamos a profanar a Casa do Seu Pai. Que atrevimento! Que presunção! Como é que o Templo é a Casa do seu Pai? O Seu pai não é um carpinteiro de Nazaré? O Judas tem de compreender que nós não acreditamos em nada do que diz.

Judas – Há coisas que vós não entendeis. Dessas coisas que Ele disse:…hipócritas, vendilhões, sepulcros caiados, filhos de assassinos… há alguma que não vos assente como uma luva?

Caifás – Judas, vê lá como falas! Estás a insultar o santo Sinédrio! Tu estás aqui para responder às nossas perguntas e não para as fazer! Com todo esse discurso prevejo que ainda voltas atrás e ficas com Ele! Tudo bem! Nós estamos a ser tolerantes, pacientes e compreensivos. É por isso que já te fizemos a proposta final de um pagamento de 30 dinheiros (denários), pois mereces um pagamento pelo teu esforço e dedicação. É justo que assim seja. Quem está contra esta proposta que fizemos ao Judas de Simão? …Vejo que não há votos contra! Assim, Deus nos ajude e ilumine Judas para ver como Yahweh o escolheu para esta grande missão de nos entregar esse falso messias.

Judas – (Contrariado) Tenho de corrigir aí uma coisa. Vós, aqui, não sois o “santo Sinédrio”! Sois um grupo convocado à pressa e ilegalmente, porque não enviastes aviso aos outros que aqui não estão. Além do mais, também não sois santos, como Ele já vos demonstrou. Quanto ao preço, digo que é injusto, mas não me deixais alternativa.

Sadoc – E agora,…diz lá: onde está Jesus de Nazaré?

Judas – Está em Betânia, em casa de Lázaro que, como sabeis, é o seu mais fiel amigo e é protegido pelos Romanos. Não tenteis aí, porque Lázaro tem muitos servos e só dará sarilhos.

Cananias – Nós confiamos em ti, pois tu és sagaz, inteligente e recto de coração. Yahweh estará contigo na hora certa. Aguardamos que essa hora chegue.

Judas – E quanto ao pagamento?

Caifás– Só te pagaremos quando vieres ter connosco e nos disseres: “É agora, vinde comigo”! Só então é que receberás o dinheiro e naquela quantia de que já falámos.

Judas – Então, até à próxima! A paz fique convosco!

Todos – E contigo também. Adeus!

Faz-se silêncio até se ouvirem os portões de ferro a fechar e depois… todos saltam de alegria e se abraçam efusivamente, todos dando os parabéns a todos…

Doras – E agora? Que faremos quando Judas descobrir que também nós o vamos trair? Daquilo que lhe prometemos…só ficarão os miseráveis 30 dinheiros, o preço que se dá a alguém pela morte de um cordeiro. Este idiota…já o temos no papo! Deve estar muito faminto de dinheiro, para aceitar uma recompensa destas! Será que não vai espalhar pelo povo o que fizemos com ele? Isso seria a nossa desgraça. Poderíamos ter de enfrentar uma revolta popular e daí…quem sabe como tudo ficaria? Ele não é de confiar, devido ao seu temperamento inconstante e às artimanhas de que já deu provas. Nele não é fácil saber quando diz a verdade ou quando nos crava a mais descarada mentira. Na minha opinião ele é um comediante.

Caifás – Não há que ter receios! O povo voltar-se-ia contra ele, por se ter posto ao nosso lado e contra o Nazareno. Por agora, ele tratará do Nazareno e depois…nós trataremos dele sem que o Povo se aperceba!… Este assunto já foi ventilado numa outra reunião. Não vos lembrais?

Sadoc – E se ele se arrepender antes de…?

Caifás – Ele não vai ter tempo para isso!…E vós todos tende cuidado! Daqui não pode sair uma única palavra para o Gamaliel, o José de Arimateia, o Nicodemos, o João, o Eliseu, o Eleazar e outros! Eu não confio em nenhum deles. É preciso andar com o olho neles, não vão eles suspeitar de alguma coisa.

Doras – Eu estou muito contente por ver este dia e outros que se aproximam. Vejo finalmente a vingança que o meu pai desejaria executar sobre o nazareno, que, um dia, fulminou o meu pai mesmo ali em frente dele, caindo morto instantaneamente a Seus pés.(1)

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  • Nota – Isso aconteceu após uma cena de agressividade verbal e tentativa de agressão física a Cristo, por Ele ter lançado sobre os seus pomares uma maldição que tornou estéreis todas as suas árvores de fruto. Doras- pai mantinha os seus servos em escravatura cruel. Cristo tentara torná-lo mais humano, mas ele não cedera. Quando viu os pomares secos, quis tirar desforra de Cristo e excedeu-se no palavreado e nos gestos, tentando mesmo apedrejá-Lo. O excesso de cólera causou-lhe um ataque cardíaco fulminante. Doras- filho tem esses acontecimentos ainda bem vivos na memória, tanto mais que os pomares que herdou continuam estéreis e mirrados, queimados pela maldição. Tal como faria com Judas, Cristo tinha feito tudo para que Doras – pai se convertesse e tratasse bem um dos servos gravemente doente. Tudo em vão! Cristo acabou por pagar o resgate do servo doente e providenciou no sentido de estar presente na hora da sua morte.

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Ezequiel Miguel

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A rebelião de Coré (Cf. Números 16)

(Realidade e Ficção)

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Personagens:

.YAHWEH = EU SOU (AQUELE QUE É)

. Moisés – Condutor do povo hebreu

. “Localização” –  Meribá (= Disputa) e Massá (= Tentação), no Deserto

. Coré, Datã (=Datan), Abiram – Instigadores da rebelião contra Moisés

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Oxalá ouvísseis hoje a minha voz! Não endureçais os vossos corações, como em Meriba (disputa), como no dia de Massá (Tentação) no deserto, quando os vossos pais me provocaram e tentaram, mesmo vendo as Minhas obras. Quarenta anos esta geração me desgostou e Eu disse: Sempre os corações errantes, que não conhecem os Meus caminhos…Então Eu jurei na Minha ira: jamais entrarão no Meu repouso” (Salmo 94/95)

O povo Hebreu viveu no Egipto cerca de 4oo anos, como povo escravo dos faraós. Chegou, porém, o dia em que Deus interveio para pôr fim a essa situação humilhante, escolhendo Moisés para conduzir a libertação em direcção a uma terra prometida, onde, segundo a Bíblia, corria o leite e o mel, ocupada, entretanto, por sete nações. Podemos ler na Bíblia, nos livros do Êxodo, do Levítico, dos Números, do Deuteronómio, de Josué,…como tudo isso aconteceu.

Foi algo de grandioso, histórico, registado na Bíblia para ser lido, observado, compreendido e meditado sob diversos ângulos por aqueles que viveram esses acontecimentos e por aqueles que viessem a ter conhecimento dele nas gerações futuras. Algumas das cenas mais imponentes já estão registadas no cinema, nomeadamente no filme “Os Dez Mandamentos”.

A passagem entre o Egipto e a terra prometida (Canãa) , a mais cómoda, mais directa, mais rápida, mais curta e mais segura, era, e ainda é, o que agora chamamos de Faixa de Gaza, com 41 Km de comprimento e 10 Km de largura, à beira do Mediterrâneo. Apesar de ser uma distância tão curta, os Hebreus erraram no deserto durante 40 anos, quando poderiam ter alcançado a Terra prometida em poucos dias.. Porquê 40 anos? Tudo tem a ver com a Fé ou com a falta dela e/ou com os desígnios insondáveis de Deus, que tudo faz para Sua Glória e para bem dos Seus filhos e do Seu Povo, ou para os punir pelo desrespeito pela Sua Lei, como parece ter sido o caso.

A travessia do deserto não foi fácil, mas foi nas dificuldades inultrapassáveis que Deus agiu à Sua maneira, garantindo a todos as condições de sobrevivência, de acampamento e de marcha, não faltando o alimento, a água, a luz, a protecção contra os inimigos,…exigindo apenas em troca que os hebreus O reconhecessem, Lhe agradecessem, O adorassem, O louvassem, Lhe prestassem o culto a que tem direito como Senhor de tudo e de todos e que depositassem Nele uma fé e uma confiança absolutas, tal como continua a exigir às gerações de hoje.

Mas esta fé e esta confiança são por vezes postas à prova e é nessas alturas de dificuldades que surgem sempre as línguas detractoras, os ânimos revoltados, a murmuração, a rebelião, a saudade dos tempos em que tudo parecia correr melhor. O salmo 77/78 dá conta dos altos e baixos desta aventura no deserto, assim como o salmo 94/95, com referência aos episódios em Meribá (disputa)e Massá (tentação), que ficaram a assinalar os locais   onde estas cenas se desenrolaram.

Coré,…Datã,…Abiram,…e On encheram-se de orgulho, levantaram-se contra Moisés, juntamente com 250 filhos de Israel, príncipes da comunidade, respeitados nas solenidades, homens de renome. Ajuntara-se, pois, contra Moisés e Aarão, dizendo-lhes”:

Coré – Olha lá, Moisés! Nós estamos fartos da tua pretensa autoridade sobre nós! Nós não temos provas de que Yahweh te tenha constituído nosso Chefe. Tu dizes que foste consagrado por Yahweh, mas, se virmos bem, toda a comunidade e todos os seus membros são consagrados e Yahweh está no meio deles. Porque, então, vos exaltais, tu e teu irmão Aarão, acima da assembleia de Yahweh? Essa coisa de Yahweh para aqui, Yahweh para ali, não nos agrada e não acreditamos na tua autoridade. Ninguém nos consultou sobre o assunto.

Moisés – “Ouvi, filhos de Levi! O Senhor escolheu-vos, de entre todo o Israel, para vos honrar perante a comunidade, entregando-vos o Seu serviço como Seus Ministros. Não foi pouco o que Ele fez por vós. Vós e todos os levitas estais destinados ao sacerdócio . Mas vós conspirastes contra o Senhor, tu , Coré, e a tua comunidade. Amanhã cedo, Yahweh fará conhecer quem é Dele e qual é o homem consagrado que Ele permitirá aproximar-se Dele. Aquele que Ele fizer aproximar-se Dele, esse é o que Ele escolheu. Fazei, pois, isto: tomai os incensórios de Coré e de toda a sua comunidade, ponde neles fogo e, amanhã, deitai incenso sobre o fogo, diante de Yahweh. Aquele que Ele escolher, esse é o homem que Lhe é consagrado. Isto vos é suficiente, filhos de Levi!”

E agora, chamo aqui Datã e Abiram!

Datã – Eu não vou!

AbiramEu também não vou! Se quiseres, vem tu aqui!   Não é por acaso bastante que nos fizeste deixar uma terra onde corre o leite e o mel, para nos fazeres morrer neste deserto e queres ainda fazer-te príncipe sobre nós? Na verdade não é uma terra onde corre o leite e o mel a terra para a qual nos conduziste e não nos deste por herança campos e vinhas! Pensas em tornar cego este povo? De modo algum iremos!

Datã – Nós já estamos fartos deste mar de areia, estamos fartos de vegetar em tendas, fartos destas estúpidas caminhadas de dia ou de noite, sem vermos um rio, um lago, o mar, …de comer sempre este miserável maná dia após dia, sem peixe, sem carne, sem vinho, sem uvas, com água potável só de vez em quando! De vez em quando encontramos um minúsculo oásis, mas o que é isso para todos podermos nele acampar? Quem nos dera voltar às terras abundantes do Egipto, que, por tua culpa, abandonámos para morrermos todos neste areal interminável, sob um calor sufocante de dia e um gélido frio de noite.

Coré – E há mais! Atiraste um ramo de árvore para dentro de um poço de água suja e depois tentaste convencer-nos que o Senhor transformara aquilo em água potável! Estamos fartos de embustes! Tu fazes de nós todos uns ingénuos, uns idiotas! Tudo, como tu dizes, em nome de Yahweh! Tantas já fizeste, que agora não nos iludes mais! Basta!

Datã – E não fica por aqui! Se tu, lá no Egipto, foste salvo de te afogares nas águas do Nilo, salva-nos agora, com os teus truques, de morrermos à sede como frangos assados neste deserto. Isso de passarmos o Mar Vermelho a pé enxuto não passou de uma magia tua, só possível com a ajuda do teu amigo Satanás! Mostra agora o teu poder e faz nascer aqui um lago onde nos possamos refrescar deste inferno!

Abiram – Temos saudades das refrescantes cebolas do Egipto. Bastavam elas e pão com fartura, cozido no forno…Aquilo, sim! E lá só tínhamos a autoridade do Faraó, uma autoridade legítima. É certo que trabalhávamos duro, mas tínhamos comida com fartura! Aqui é esta miséria todos os dias, sempre a mesma coisa, esse maná que temos de apanhar do chão misturado com areia! Já estamos enjoados! Dá-nos peixe e perdizes ou codornizes!

Moisés – (irritado)” Senhor, não olhes para a oferenda que eles Te fazem. Eu não tomei deles sequer um asno e não fiz mal a nenhum deles!…Coré, tu e todos os do teu grupo, apresentai-vos amanhã diante do Senhor, tu, eles e Aarão. Cada um de vós tome o seu turíbulo e deite nele incenso e apresente-o diante do Senhor, cada um com o seu, duzentos e cinquenta turíbulos, tu e Aarão, cada um com o seu”.

No dia seguinte:

“Cada um tomou o seu turíbulo, deitou-lhe fogo, cobrindo-o de incenso, e colocou-o à entrada do Tabernáculo (Tenda) da Reunião com Moisés e Aarão”.

Coré – Aqui estão todos os duzentos e cinquenta turíbulos, como pediste! Vais ver onde está a tua autoridade, tu, usurpador, oportunista!…

YAHWEH –“ Moisés, tu e teu irmão Aarão afastai-vos dessa Assembleia, pois vou exterminá-los num instante!”

Moisés e Aarão (caídos por terra) –“ Ó Deus, Deus dos espíritos de toda a humanidade! Só um homem pecou e Tu irás enfurecer-Te contra toda a assembleia”?

YAHWEH Fala à assembleia, dizendo: “ Afastai-vos da beira das tendas de Coré, de Datan e de Abiram”!

Moisés –“ Dirijo-me agora a toda a Assembleia! Afastai-vos das tendas de Coré, de Datan, de Abiram, que são homens maus e não toqueis em nada que lhes pertença, para não perecerdes por causa de todos os seus pecados. Eles podem ficar à entrada das suas tendas com sua mulheres e filhos. Agora sabereis que foi o Senhor Quem me enviou para fazer todas estas coisas e não foi por mim mesmo. Se estes aqui morrerem como morre toda a gente; se o destino de toda a gente for também o destino deles, então não foi o Senhor que me enviou. Mas, se o Senhor, em verdade, realizar um prodígio, se a terra se abrir para os engolir com tudo o que lhes pertence e eles descerem vivos ao mundo dos mortos, então sabereis que estes homens desprezaram o Senhor”.

“Ora, aconteceu que, mal ele acabou de dizer todas estas coisas, o chão abriu-se debaixo deles e a terra, abrindo a sua boca, engoliu-os com todas as suas famílias e todos os homens de Coré com todos os seus bens. Assim desceram vivos ao mundo dos mortos, eles e tudo que lhes pertencia. A terra cobriu-os e desapareceram do meio da comunidade. Todo o Israel que estava em volta deles fugiu com o grito que eles soltaram quando a terra os engoliu. Entretanto, da parte do Senhor, surgiu um fogo que devorou os duzentos e cinquenta homens que tinham apresentado o incenso” (Números, 16, 31-35)

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Comentários sobre as lições a tirar:

  1. A História de um povo faz-se com Deus, contra Deus ou sem Deus e também com altos e baixos. O livro do Êxodo é considerado o livro central da Bíblia, por relatar, com tantos pormenores e milagres, a acção directa de Deus na condução, libertação e educação do Seu Povo escolhido, em cumprimento da promessa feita a Abraão de ter uma descendência tão numerosa como as estrelas do Céu e as areias do mar e de lhe dar uma terra de prosperidade. Essa terra corresponde hoje à Palestina e a Israel, por isso, quando se recua no tempo, ficam desfeitas algumas dúvidas sobre a quem pertenceriam, por direito, esses territórios, onde a paz é árvore que não deita raízes. Tal como no Êxodo é descrito, Deus põe muitas vezes à prova a nossa fé Nele, com problemas diários, por vezes com aparência de insuperáveis, exactamente para que depositemos Nele toda a confiança, sem revoltas, sem recriminações, sem murmurações, sem acusações, sem desespero… mas aceitando tudo como parte de um desígnio que Deus tem para nós, a fim de nos levar a algo positivo ou nos desviar para outros caminhos, com vista a uma missão que só mais tarde descobriremos. S. Pedro tem para nós a receita: “Pela paciência salvareis a vossas almas”.
  1. Moisés foi escolhido, para Chefe, directamente por Deus, que não perguntou a ninguém se ele era o melhor, o mais indicado para a missão que lhe confiava. Moisés bem apresentou argumentos próprios de alguém que se sentia incapaz da tarefa que lhe era confiada, mas, tal como aconteceu com o profeta Jonas, Deus recusou os seus argumentos e ele lá foi, baseado na promessa da protecção de Deus. Deus, na maioria dos casos, não age directamente, mas serve-se de nós para atingir os fins que tem em vista, acabando nós por sermos, apena e só, Seus Instrumentos a realizar a Suas obras, exigindo que ninguém se atribua méritos que só a Deus pertencem. Por isso, quem se gabar, se vangloriar, se exibir vaidosamente, se encher de orgulho,…já não receberá a recompensa pelo bem que fizer, porque o atribui aos seus méritos e dotes pessoais. Nestes casos, Cristo diz-nos: “Já recebeste a tua recompensa”! Os carismas que Deus nos conceder são para os pormos ao Seu serviço e não para a nossa glória. Quem se esquecer disto estraga tudo!
  1. Os rebeldes de Meribá rejeitavam a autoridade de Moisés, o qual a recebera do próprio Deus, em nome do Qual ele agia. “Todo o poder vem do Alto”, conforme Jesus respondeu a Pilatos. Por isso, Deus exige de nós o respeito pelas pessoas que exercem autoridade sobre nós, quer definitivamente quer temporariamente. Apenas nos casos em que elas nos querem obrigar a pecar é que ficamos libertos dessa obrigação. Aí, vigora o exemplo de S. Pedro, quando as autoridades judaicas o proibiram de anunciar Jesus Cristo: “É melhor obedecer a Deus do que aos homens”, atitude que pode custar o martírio, assim como custou aos Apóstolos, incluindo S. Pedro e S. Paulo. Para modelos de obediência temos Jesus Cristo, a Virgem Maria, S. José e todos aqueles que se santificaram na vida sacerdotal ou na vida conventual . Nestes casos, é o voto de obediência que os obriga a obedecer e a respeitar a autoridade. E isso faz-se evitando a murmuração, a rebeldia, a busca de apoios contra as autoridades a que estão submissos por vontade própria e pela natureza e especificidade do voto de obediência.
  1. O murmurador é uma fonte de veneno sempre a jorrar, seja na família, no local de trabalho, no clube, no quartel, na paróquia, no Movimento da Igreja, no grupo coral, no grupo de catequistas, no clero da diocese, nos seminários, nos conventos,… Os perigos da murmuração, da má-língua, da difamação, da calúnia, da mentira, do desrespeito pela autoridade, levam a infinitos males para o próprio e para os outros que se deixam salpicar por esse veneno. Onde houver murmuradores,…afaste-se deles, recuse alimentar-lhes a corda do fogo destruidor que sai das suas bocas e o veneno que sai das suas línguas.
  1. Castigo demasiado grande para os murmuradores deste episódio Bíblico? Sem dúvida! Nada mais nada menos que uma condenação à morte com execução imediata, arrancando o mal pela raíz, para evitar que ele se propagasse por todo o acampamento e levasse muitos outros a sofrer o mesmo castigo, condenando assim seus corpos e almas. Lá ficou na Bíblia para todas as gerações futuras tirarem as devidas lições. Nem sempre sabemos como termina a vida dos murmuradores profissionais, mas os pecados pela língua são mais graves do que se pensa, pelas inúmeras e graves consequências que acarretam para os murmuradores e para quem lhes dá atenção, iniciando uma cadeia que só Deus sabe por onde passa e onde termina. O bom nome, a honra, o respeito pelo próximo, são direitos sagrados e tudo aquilo que os beliscar reverterá em prejuízo para os autores do falatório, do mexerico, do diz-se, do consta que…, do “ouvi dizer que…”. Impressiona ainda o facto de, juntamente com os rebeldes e seus sequazes, terem sido incluídas as suas famílias e os seus bens. Tudo isto para que não ficasse deles qualquer resto contaminador e para que servisse de lição a eles e a todos, incluindo nós!
  1. Quem despreza um profeta de Deus despreza o próprio Deus. Sempre houve profetas entre o Povo de Deus, seja no Antigo Testamento seja no Novo. Todo o profeta fala em nome de Deus e só diz aquilo que Deus lhe transmite. Todos eles foram vítimas de perseguição e alguns chegaram a queixar-se a Deus da missão que Ele lhes confiara. Jonas até fugiu, pensando que evitaria ir pregar a Nínive, outros desejaram morrer, porque não aguentavam mais. Nos tempos actuais estão activos vários profetas, homens, mulheres, Jovens, crianças, sacerdotes, Religiosos…sofrendo, quase todos, perseguições, maus trato, difamações, expulsões de templos, recusa da Comunhão, etc. As mensagens que lhes cabe transmitir são rejeitadas liminarmente, sem um estudo prévio e cuidadoso por parte de quem tem a obrigação de “aproveitar delas o que é bom”, como diz S. Paulo. Este evento bíblico mostra como é perigoso rejeitar as mensagens transmitidas por mensageiros de Deus. A Bíblia mostra como a rejeição de mensagens proféticas teve enormes custos para Israel. A História de Israel continua a ser fonte de lições para todo o mundo.
  1. Não pense que Deus foi vingativo! É da própria natureza do pecado trazer consequências ao nível individual, familiar, social, colectivo, nacional, local, mundial. Os pecados de um só governante podem ter consequências trágicas para todo o seu povo, para a sua nação. Lembre-se do pecado de Adão e Eva, que trouxe tragédia para toda a humanidade. “ Em Adão todos pecámos”, diz S. Paulo. Por isso, ninguém diga: ” Eu não sou culpado de nada”! Ou: “Ninguém tem nada que pagar pelos meus pecados, pelas minhas asneiras. Se sou eu que os faço, o assunto é comigo!”. Também está escrito (na Bíblia) que Deus pode punir nações e povos através de maus governantes, que actuam como chicotes de Deus para povos rebeldes. Nos casos de acções ou frequência de bruxarias, espiritismo, práticas de paganismo, de satanismo, de ocultismo e outros, um ou mais membros da família podem ser atingido por males inexplicáveis, cuja causa e tratamentos ninguém desvenda .

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Ezequiel Miguel

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Jesus chora sobre Jerusalém

(Realidade e Ficção)

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Jesus e os Seus apóstolos encontram-se no Monte das Oliveiras, que fica sobranceiro a Jerusalém.

Todos conversam animadamente, mas o rosto de Jesus deixa transparecer uma sombra de tristeza. Sentados à sombra de uma árvore, descansam das fadigas da caminhada. Sem que os Apóstolos se apercebam disso, Jesus afasta-se do grupo para um ponto mais alto e ali fica de pé a contemplar a cidade de Jerusalém, que se aninha lá no fundo, a curta distância.

Tiago – Olhai para o Mestre! Passa-se qualquer coisa com Ele. Saiu daqui, afastou-se, não nos disse nada e parece estranho. É melhor irmos lá a ver!

João – Não! Vamos deixá-Lo em paz! Deve estar a rezar, como já tem feito outras vezes. Ele afasta-se sempre que precisa de orar ao Pai.

Pedro – (Depois de olhar bem…) Não! Há qualquer coisa! Vamos lá!…Será que Ele está magoado com algum de nós ou com alguém da multidão? Mas nós não detectámos nenhum dos Seus inimigos! É melhor irmos até lá!…

João – Mestre, Tu estás a chorar! Que se passa?

Pedro – Mestre, quem de nós Te magoou? Foi o…? Diz-nos quem te faz chorar!

Tiago – Mestre, nós Te amamos…e sofremos com as Tuas lágrimas!

Jesus – Não sois vós que Me fazeis sofrer nem é por vossa causa que Me saem estas lágrimas. Vós sois meus amigos e espero que sempre o sejais, sobretudo na hora que se aproxima, em que a torrente do Mal vai cair sobre Mim. (Estendendo a mão na direcção de Jerusalém) Vedes esta cidade? É lá que jorra a corrupção, a maldade, o crime, a desonestidade, a hipocrisia, o desígnio de retirar o Messias do número dos vivos. Esta deveria ser a Cidade Santa, a Cidade de Deus, a Morada do Altíssimo entre o Seu Povo, porque a Santidade morava nela e veio até ela para a santificar. A ela foi concedida a honra de ser a esposa santa de um Santo Esposo, mas ela virou prostituta…e não mais se redimirá. Os rios de santidade de que fala o profeta (Ez 47, 7) deixarão de correr do Templo vivo, porque os seus habitantes O destruirão. Por ela, Eu nada mais posso fazer, porque ela está corrompida até aos alicerces. O Messias veio para ela, mas ela irá ficar viúva. O seu lugar irá ser ocupado pelos pagãos, que entrarão no reino de Deus, enquanto ela ficará fora, por rejeitar o seu Messias, há tantos séculos anunciado pelos profetas.

Judas – Mestre, nós não seremos incluídos naqueles que Te vão rejeitar! Nós cremos em Ti e morreremos por Ti, se for necessário!

Todos – Sim, morreremos contigo!

Jesus – Oxalá sejais meus amigos até esse ponto! Mas vigiai e orai, pois Satanás está muito activo e nervoso, porque já falta pouco para ser derrotado e ele anda à volta de todos nós a rugir. A Mim quer impedir-Me de cumprir a vontade do Pai e a vós quer desviar-vos, para se vingar de Mim.(Olhando para Judas) Ai daquele que se deixar cair nas suas garras! Esse será para sempre maldito. (Virando-se para Jerusalém) “Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes Eu quis ajuntar os teus filhos como a galinha recolhe os seus pintainhos debaixo das suas asas e tu não quiseste! Eis que a vossa casa ficará abandonada…(Mt 23, 37-38)” . E também acabarás por matar Aquele que veio a ti para te dar a Vida! Eu continuo orando pela tua redenção. Dentro de pouco tempo deixarás de Me ver, mas espera até ao dia em que o exército estrangeiro te cercará e rios de sangue correrão dentro de ti! O grandioso Templo de pedra, que é a tua glória.…verá a ruína total, porque recusaste a salvação que te foi oferecida. Se tu nesta hora conhecesses a mensagem de paz ! Agora, porém, isso está escondido a teus olhos. Pois dias virão sobre ti e os teus inimigos te cercarão com trincheiras, te rodearão e te apertarão por todos os lados. Deitar-te-ão por terra, a ti e aos teus filhos no meio de ti, e não deixarão de ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que foste visitada” (Lc 19 , 41- 44).

Pedro – Mestre, Tu dizes coisas terríveis sobre Jerusalém! Isso acontecerá mesmo? A cidade e o Templo serão destruídos? Mas isso é horrível!

Jesus – Será mesmo horrível! Tudo isso acontecerá ainda na vida desta geração e, nos dias da ira, até as mães comerão os seus filhos para não morrerem à fome. O ódio que esta cidade Me dedica cairá sobre ela, porque o ódio atrai ódio e ela beberá o cálice amargo do ódio até à última gota e ninguém terá piedade dela, porque recusou o Amor que lhe foi enviado.

João – Mestre, o que acontecerá aos habitantes de Jerusalém?

Jesus – Uns morrerão pela espada e pela fome e outros serão levados como prisioneiros e humilhados. Nesses dias, pedirão misericórdia, mas ninguém os ouvirá, porque essa hora será a hora da justiça divina ofendida. Eu choro pela Minha cidade, pela Minha Pátria e por aqueles que morrerão e se condenarão, por terem atraído, com os seus pecados, tão grande tragédia.

André – Mestre, estamos assustados! Vai ser mesmo assim? Não se poderá evitar?

Jesus – Eles ainda estão a tempo, mas pensais vós que ainda seja possível?

Judas Iscariotes – Mestre, eu não conheço ninguém que queira matar-te! Não poderás retirar essa profecia horrível?

Jesus – Que contributo podes tu dar para que isso não aconteça…?

Judas corou ao ver que todos os olhares caíram sobre ele, mas ficou em silêncio.

Tiago – (Em pânico, porque Jesus já lhe tinha dito que ele seria o 1º bispo de Jerusalém). Mestre, e a nós, o que nos acontecerá?

Jesus – O Pai do Céu velará por vós, mesmo caindo mil à vossa esquerda e dez mil à vossa direita (Sl 90).

Tomé – Mas, Mestre, dás a entender que o pecado atrai punições para as pessoas, para as cidades, para os povos e para as nações.

Jesus – E dizes bem, Tomé! É mesmo assim!

Judas Iscariotes – Mas, então, as pessoas não poderão acusar Deus de ser vingativo? Ora, Tu ensinas que Deus é misericordioso, tolerante e compassivo (Sl 102)!

Jesus – Deus não se vinga. Deus compadece-se do homem e de todo o sofrimento que cai sobre ele, desde a queda de Adão e Eva até ao fim do mundo. É o homem que provoca todas as desgraças de que é vítima, pela infracção das leis divinas, cuja gravidade arrasta a desarmonia e o caos na Natureza física e na natureza humana, pondo os homens em conflito entre si e a Natureza contra eles. Tudo isto, porque o pecado vai enfraquecer os diques do Mal, seguros pela mão poderosa de Deus. Quando Deus se sente muito ofendido pelo pecado generalizado, afrouxa as amarras do Mal e este, que tem vida própria, liberta as suas forças, dando origem a guerras, pestes, pandemias, vulcões, terramotos, secas, inundações…

Por isso, quando os homens virem sobre eles estas desgraças, deverão concluir que algo de errado se passa com eles, em vez de atribuírem a causa ao seu Deus. Deus não é o Autor do Mal, mas é o homem que o provoca, pois todo o pecado, e sobretudo certos tipos de pecado, clamam vingança aos Céus, tal como o sangue de Abel clamava vingança sobre Caim. Tem sido sempre assim, é assim e continuará a ser assim. A própria história de Israel o demonstra. Se evocardes o Êxodo, as derrotas de Israel, as invasões de exércitos estrangeiros, os exílios da Babilónia,…tereis a confirmação de que é assim. Este Povo e as suas autoridades nunca ligaram importância aos avisos que o Senhor lhes enviava pelos profetas, desprezando também a bondade do Pai, que acabou por lhes enviar o Seu próprio Filho. É neste contexto que, ao contemplar esta cidade, o Meu coração verte lágrimas, por não poder impedir a maldição que ela já gerou, de que não posso dissociar a horrível profanação do Templo, a Casa de Meu Pai, por parte daqueles que foram lá postos para serem santos e exercerem um ministério santo.

João – Mestre, e depois da destruição do Templo? Voltará a ser reconstruído uma vez mais?

Jesus – Não! Ficarão dele uns restos para lembrar a Israel…como memorial de uma tragédia.(1) E agora… vamos!

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As mais recentes tragédias surgidas um pouco por todo o lado, ainda frescas na memória, levam-nos a perguntar sobre quantas cidades Jesus já chorou e continuará a chorar!

  • – Profecia cumprida no ano 70 ( D.C.) sob o comando do general Tito, comandante do exército romano.

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Ezequiel Miguel

Jesus na sinagoga de Nazaré

(Confira: Lucas 4, 16-30)

(Realidade & ficção)

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Sinagoga21É um sábado, o dia de os Nazarenos acorrerem à sinagoga de Nazaré, para o habitual encontro catequético, presidido e orientado pelo rabino Chefe da Sinagoga.

O grande salão está a abarrotar de gente, disposta a ouvir as leituras da Torá (Lei), dos Profetas e dos Salmos. Entre a multidão, perdido nela como qualquer um dos ouvintes, tal como alguns dos Seus discípulos, está Jesus, ouvindo atentamente o que as leituras proclamam sobre o Messias. Após as leituras e os comentários do rabi, é costume este perguntar se alguém quer ler e/ou comentar algum texto. Jesus não perde a ocasião e apresenta-se para o efeito. É-lhe entregue o rolo do profeta Isaías, que Ele vai desenrolando até surgir a passagem escolhida do profeta Isaías, que Ele lê pausadamente, majestosamente, com autoridade:

“ O Espírito do Senhor Deus está sobre mim, porque o Senhor me consagrou. Ele enviou-me para levar a Boa-Nova aos que sofrem, para curar os desesperados, para anunciar a libertação aos exilados e a liberdade aos prisioneiros; para proclamar o ano da graça do Senhor, o dia em que o nosso Deus fará justiça; para consolar os tristes, para coroar os filhos de Sião; para mudar a sua cinza em coroa, o seu semblante triste em perfume de festa, e o seu abatimento em cânticos de alegria”( Is 61,1-3).

Jesus enrola novamente o livro, entrega-o ao Chefe da Sinagoga, faz silêncio, percorre, com o olhar, a assembleia e senta-se:

Jesus – Cumpriu-se hoje mesmo esta passagem do profeta Isaías, pois é a Mim que ela se refere.

Segue-se um burburinho, surgindo comentários de protesto em vários pontos do salão.

Sinagogo – O que é que estás para aí a dizer? Mas quem é que tu te julgas? Bebeste demais ou estás sob o efeito de um ataque de loucura? Se tu és o Messias, eu sou o imperador romano! Acaso, não te conhecemos desde que vieste para Nazaré há uns 26 anos? Não conhecemos também os teus pais e o resto da tua família? Não te vimos brincar com os meninos de Nazaré? E agora viras profeta ou, pior ainda, elevas-te a Messias, mais um dos muitos que têm surgido por todo o lado! Acautela-te, para que não tenhas a mesma sorte dos outros! Antes de dizeres que és o Messias, tens de demonstrá-lo!

Jesus – Agora que já puseste em público as tuas dúvidas e as tuas certezas, vou explicar-vos o que sou, quem sou, o que faço e aquilo que vos proponho. Não me julgueis nem me condeneis antes de me ouvir, o princípio básico de justiça. É certo que me conheceis desde criança, mas deveis saber que Eu nasci em Belém de Judá, como anunciado pelo profeta Miqueias, e o meu nascimento foi manifestado ao mundo por uma estrela nova que surgiu sobre Belém. À vossa frente está o Messias, Aquele que o Povo espera há tantos séculos. Eu demonstrarei que sou o Messias profetizado, se acreditardes em Mim.

Sinagogo – Mas, espera aí! Se nasceste em Belém, porque vieste parar a Nazaré? Como é que escapaste à espada de Herodes, que mandou matar todos os meninos até à idade de dois anos?

Jesus – Não lestes o profeta, que diz: “ Uma voz se ouviu em Ramá. É Raquel, que chora e não quer ser consolada, porque os seus filhos já não existem” (Jer 31, 15)? Como escapei a Herodes? O Meu verdadeiro Pai, que também é o vosso Pai do Céu, enviou o Anjo Gabriel a José com a ordem de fugir com o Menino e Sua mãe para o Egipto e por lá ficarem até que Herodes morresse. Quando ele morreu, o Anjo ordenou a José que regressasse e viesse viver em Nazaré. A partir daí, já conheceis a Minha história passada, como Menino e Homem adulto, mas há uma parte da Minha História que só agora começa a ser revelada, porque chegou a hora que o Pai do Céu Me marcou para Eu a iniciar. E ela já começou. Sois todos convidados a fazer Comigo essa Nova História, que será a História de um novo Israel.

Sinagogo – Mas então, se tu és o Messias e dizes que Yahweh é o teu verdadeiro pai, qual é o papel de José, o esposo de Maria, tua mãe?

Jesus – O Messias é o Filho de Deus feito Homem, sem deixar de ser Deus, por isso, ele não poderia ter um homem por pai. Eu sou o Messias, Deus e Homem, pois a Deus nada é impossível. José foi o verdadeiro esposo de Maria, mas não foi meu pai segundo a carne. Ele cumpriu a sua missão de guarda, de protector de Minha Mãe e de Mim, para que Eu, segundo a Lei, tivesse legalmente um pai e Minha Mãe tivesse legalmente um esposo.

Secretário – Queres então dizer que és mais que um profeta, pois todos eles foram simplesmente homens, filhos de um homem e de uma mulher!

Jesus – Dizes bem! Sou mais que um profeta e fui Eu que vos enviei todos os santos profetas de que ouvistes falar.

1º Nazareno – Então, o João Baptista é aquele que vai à tua frente a preparar os teus caminhos, como diz o profeta Isaías! É isso?

Jesus – É isso mesmo! Ele vai à Minha frente para dar testemunho de Mim e ele é o último profeta da Velha Aliança. Eu venho convidar o Meu povo para estabelecer Comigo uma Nova Aliança, que será eterna.

2º Nazareno – E o que se passará com as vítimas? Continuaremos a sacrificar cordeiros e outros animais? Da Velha Aliança, que é a nossa, não se aproveitará nada?

Jesus – Os sacrifícios com animais vítimas serão abolidos, pois já não farão sentido, porque haverá uma única Vítima que tornará inúteis todas as outras vítimas. A Lei e os profetas não serão abolidos, mas serão aperfeiçoados, para que um novo povo nasça e dê glória a Deus. Quem quiser entrar neste Novo Povo terá de ser Meu discípulo, discípulo do Messias, o Cristo profetizado e agora já entre vós.

3º Nazareno –E quem será essa única vítima?

Jesus – Serei Eu! E só posso ser Eu, porque somente Eu, verdadeiro Homem e verdadeiro Deus, poderei remir a Humanidade e abrir as portas do Céu aos Justos que esperam no Seio de Abraão e a vós, quando chegar a vossa hora.

Sinagogo – Isso que dizes é blasfémia! Tu deves estar a delirar ou estar possesso de Belzebú!

Jesus –Não estou a delirar e nem Belzebú nem qualquer outro demónio tem poder sobre Mim. Eu domino nos Céus, na Terra e nos Infernos, por isso, todos os poderes Me estão submetidos. Eu vim a este mundo para destruir as obras de Satanás, que é o rei deste mundo. Ele, o príncipe do Mal, reina sobre as almas em pecado e Eu vim para as libertar dessa escravidão. É a esta realeza e a esta libertação que os profetas se referem quando falam de Mim. Eu sou o Libertador, o Salvador, que veio ao mundo para que todos os homens se libertem das garras de Satanás e alcancem a Vida Eterna em Deus.

Secretário – Mas os profetas dizem que o Messias será Rei de Israel! Queres então dizer que não vais restaurar a Monarquia e expulsar os Romanos?

Jesus – Eu vim à Terra para instaurar o Reino de Deus, um Reino Espiritual, um Reino das Almas, por isso, esses assuntos são políticos e compete aos homens lidar com eles. A Deus somente interessam as almas, porque foi Dele que elas vieram e é para Ele que elas devem voltar. É isso que se chama a salvação.

3º Nazareno – Então… e o que tencionas fazer da Lei de Moisés? Vais destruí-la, pô-la de lado, modificá-la?

Jesus – Moisés recebeu a Lei e deu-a a conhecer, vigorando até hoje. Fui Eu que a dei a Moisés, logo, essa lei é de Yahweh. As vossas autoridades cometeram abusos, introduzindo nela prescrições que a tornaram um tremendo fardo. A Nova Lei vai ser mais simples, mais eficaz e mais fácil de cumprir. Quem a aceitar e a cumprir ficará filho adoptivo de Deus, com direito à Sua Herança, a Vida Eterna no paraíso.

4º Nazareno – Como caracterizas a Nova Aliança, que dizes querer fundar?

Jesus – A Nova Aliança será fundada no Meu Corpo e no Meu Sangue, pois Eu sou a Única Vítima que agrada a Yahweh. O Meu Corpo será sacrificado e o Meu Sangue será derramado, em expiação pelos pecados dos homens: os do passado, os do presente e os do futuro. O Decálogo continuará, os Profetas também e a Lei será depurada do que for inútil e purificada. O Decálogo será resumido a “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. A lei do Amor exigirá que ameis os vossos inimigos. A vossa lei de Talião (olho por olho, dente por dente) será abolida e perdoareis as ofensas que vos fizerem, sem nenhum tipo de vingança. Perdoareis sempre! Não haverá distinção entre homens e mulheres, entre escravos e livres, entre patrões e servos, entre súbditos e reis,…isto é, para Deus serão todos iguais e serão tratados do mesmo modo. Isto já é uma parte da Boa Nova que ando a divulgar e que vos convido a aceitar.

Segue-se um movimento de aplauso da multidão, pois todos acham que será um novo mundo que está a ser anunciado:

5º Nazareno – Bravo! Nunca no mundo se ouviu quem falasse assim, tão certo, seguro e convincente. Acredito que és mesmo o Messias de Deus!

Sinagogo – Parece tudo muito bonito, mas a tua imaginação é um poço sem fundo. Talvez seja melhor ires pregar as tuas teorias entre os romanos ou entre os outros povos pagãos, mas nós continuaremos com a Lei de Moisés, como até aqui! Nós não acreditamos em nada do que dizes, porque te conhecemos bem desde criança e nunca deste sinais de ser o que agora dizes ser. Mas estamos dispostos a dar-te o benefício da dúvida. Já nos chegou aos ouvidos que em Cafarnaum fizeste por lá umas magias e convenceste alguns, que acreditaram em teus falsos milagres. Faz isso também aqui! Combina connosco um dia e uma hora e farás uso dos teus poderes divinos, curando todos os doentes, paralíticos, leprosos, surdos, mudos, doentes mentais e físicos que te apresentarmos. Cura-os todos e nós acreditaremos em ti. Temos de ver para crer!

Jesus – Se vós não acreditais que Eu posso fazer o que dizes, não poderei fazer nada por vós! O Reino dos Céus chegou até vós, mas ficareis à porta, porque não entrareis nele. Aquilo que vós recusais será oferecido aos pagãos; a vinha que o Senhor vos entregou será oferecida a outros povos, que darão fruto. O Messias, o Cristo de Deus, passou por vós, mas vós O rechaçais como embusteiro, visionário, mágico, mentiroso,…Morrereis no vosso pecado, porque a Graça, que sou Eu, foi pisada como se fosse erva daninha e venenosa. É bem certo que nenhum profeta é bem recebido na sua terra. Eu quisera deixar-vos uma lembrança da Minha passagem entre vós, curando todos os doentes do corpo e da alma, mas falta-vos algo importante: fé em Mim e boa vontade. Sem isto, não Me dais condições para vos mostrar o Meu poder. Acontecerá convosco o que aconteceu com os profetas Elias e Eliseu, os quais realizaram milagres fora de Israel. Elias, no tempo de uma tremenda fome em Israel, foi enviado a uma viúva de Sarepta para lhe multiplicar o alimento. Eliseu curou apenas a lepra do sírio Naaman, excluindo todos os leprosos de Israel.

Sinagogo – Ouvistes tudo isto? Nós não queremos nada com Ele! Vamos expulsá-lo de Nazaré e deitá-lo abaixo do monte. Vamos cercá-lo, para que não se escape. Teremos o prazer de o fazer voar do monte abaixo, pois, se tem tantos poderes, se é o Messias, o Filho de Yahweh, irá voar como os passarinhos e aterrar suavemente lá em baixo. Até porque está escrito: “Yahweh enviará os seus anjos para que te protejam e não te magoes nas pedras do caminho” (Salmo 90). Vamos a ele! Os que puderem deitem-lhe a mão e segurem-no bem! Vamos ver em que dão os seus poderes!

E Jesus, cercado logo por um grupo de nazarenos corpulentos, foi expulso da sinagoga. A multidão acompanhou-O até ao alto do monte, sem que Maria e alguns apóstolos pudessem fazer fosse o que fosse em favor de Jesus. Quando chegaram ao ponto mais alto, Jesus deixou-se aproximar do precipício, ficou a mirar a paisagem por uns momentos, virou-se para a multidão, olhou-a de um lado ao outro em sua pose imponente, séria, majestática, e, de repente, encetou o caminho do regresso, passando pelo meio deles sem que alguém levantasse uma mão contra Ele. Ficaram todos paralisados! Tudo, porque ainda não tinha chegado a Sua hora, a hora que o Pai Lhe marcara.

Do Evangelho: “Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-NO fora da cidade e levaram-NO ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas Jesus, passando pelo meio deles, seguiu o seu caminho” (Lc 4,30).

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Ezequiel Miguel

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Jesus nas bodas de Caná

bodas-de-cana“Dali a três dias celebravam-se umas núpcias em Caná da Galileia, e estava ali a mãe de Jesus. Para as bodas fora também convidado Jesus e, com Ele, os seus discípulos (Jo,2,1-2)

Era dia festivo em Caná da Galileia. Era o dia marcado para dois noivos, Susana e Nataniel, se unirem para sempre pelo casamento, cerimónia que decorreu na sinagoga.

Antes do banquete procedeu-se à distribuição das prendas e entre elas estavam dois lotes de flores e frutos que calharam aos noivos, sendo-lhes entregues por Jesus, depois de os (flores e frutos) abençoar. Jesus aproveitou então para falar da dignidade do casamento, da virgindade, da castidade e dos seus frutos. Ao receberem os lotes de flores e frutos, cada um dos noivos evidenciou reacções estranhas, de que nem todos se aperceberam.

Como parentes que eram, lá estavam Jesus e Sua Mãe, além de alguns discípulos de Jesus, considerado o mais importante de todos os convidados, ao qual competia o fornecimento de uma boa dose de alimentos , tarefa de que se incumbiu Lázaro e suas irmãs Marta e Maria, também presentes.

A festa ia animada, os pratos iam sendo servidos , mas do vinho, símbolo da alegria, ninguém suspeitava que ele estava para se acabar ou já tinha mesmo acabado, deixando todos os serventes em sobressalto, nervosos, cochichando entre si e sem saberem o que fazer. Alguém tinha feito mal os cálculos ou então, tinha-se bebido mais do que se pensava.

A Mãe de Jesus, qual avezinha esvoaçando de um lado para o outro, sem preocupação de dar nas vistas, depressa se apercebeu do fiasco prestes a acontecer. Já não havia vinho e o banquete estava longe de terminar. Sorrateiramente, aproximou-se de Jesus e segredou-lhe ao ouvido: “Eles não têm vinho!”

“Mulher, que mais temos nós a ver com isso? Ainda não chegou a Minha hora”! – foi a resposta de Cristo, aparentemente algo desconcertante e desrespeitosa para com Sua Mãe. Mas, só aparentemente, pois é preciso situar o contexto em tal situação e espremer bem as palavras, para se extrair delas o seu verdadeiro significado. Apesar desta desconsideração aparente, Maria não teve dúvidas sobre a resolução do problema e daí dizer aos serventes: “Fazei tudo o que Ele vos disser”. Porque achou Ela necessário pôr os serventes de sobreaviso? É que Cristo ainda não tinha revelado a Sua Divindade através de milagres e, sendo assim, podia não ser levado a sério e ser ainda vítima de troça ou ser considerado bruxo, charlatão ou outra coisa qualquer.

Do evangelho: “Ora, estavam ali seis talhas de pedra, postas para servirem nas purificações dos judeus; em cada uma delas cabiam duas ou três medidas. Jesus disse-lhes. Enchei de água essas talhas! E encheram-nas até acima. Então disse-lhes Jesus: Tirai agora e levai ao Mestre-sala. E eles levaram-lha. Mas, assim que o Mestre-sala provou a água feita vinho, como não sabia donde era, ainda que o soubessem os serventes, que haviam tirado a água, o mestre-sala chamou o esposo e disse-lhes: Todo o homem serve primeiro o bom vinho e depois que têm bebido bem, então apresenta o que é inferior; tu, porém, tiveste o bom vinho guardado até agora.”(Jo 1,6-10)

Perante o assombro deste milagre, toda a gente ficou silenciosa e todos os olhares se cravaram em Jesus, que aproveitou para uma catequese sobre o futuro milagre da Eucaristia, vincando que um dia faria um milagre maior: o de transformar o vinho no Seu próprio Sangue, para que os homens O pudessem beber e alimentar-se Dele. Também aproveitou para instruir, mais uma vez, sobre os deveres dos esposos, realçando o amor que deve uni-los.

Terminados os dias da festa, Jesus pôs-se, como de costume, à disposição dos Apóstolos para esclarecer dúvidas e aclarar o sentido das Suas palavras. O mais atento foi o Apóstolo João, que não perdeu a ocasião:

João – Mestre, explicas-nos aquelas palavras que disseste à Tua Mãe e que parecem pouco simpáticas?

Jesus – Explico mesmo! Eu tratei-A por Mulher, para lhe lembrar que Eu já não contava para Ela como um filho obediente e dependente. A Sua autoridade sobre Mim terminara e agora Eu sou o Filho do Eterno Pai, a Quem obedeço fielmente. Se Eu a tratasse por Mãe, eu estaria a indicar aos ouvintes a minha condição simplesmente humana, filho de uma mulher como são todos os homens. Mostrei assim que ali Eu era e sou o Filho de Deus em acção e não só o filho de Maria. A partir de agora, Eu actuarei como Deus, e é nessa qualidade que farei muitos outros milagres, para provar que sou o enviado do Pai, para remir a Humanidade. Assim, toda a Minha doutrina terá mais crédito junto dos homens, porque não Me comportarei como um simples homem ou um simples profeta, mas anuncio-Me ao mundo como sendo o Filho de Deus, logo, também Deus.

João – Entendido! Posso fazer outra pergunta?

Jesus – Diz!

João – Quando Tu entregaste os ramalhetes de flores e frutos aos noivos, eu vi uma sombra humana que se elevou no corpo deles, subindo desde os pés e acabando por sair pela cabeça. Enquanto saía, eles sentiram-se mal, ficaram pálidos, meios tontos, abatidos e depois,… ficaram muito contentes, sorridentes, com cores mais vivas e ar de felicidade. Aconteceu com ambos. Não sei se outros também viram, mas eu não compreendi nada daquilo! O que queria aquilo dizer? (1)

Jesus – Vistes que Eu abençoei as flores e os frutos, que depois lhes entreguei. Com essa bênção, as flores e os frutos retomaram aquelas características das flores e dos frutos do Jardim terrestre de Adão e Eva. Os frutos e as flores e toda a Natureza estavam santificados e alimentavam a santidade e a pureza original com que Deus dotara o primeiro casal. Essa sombra que vistes sair deles foi o conjunto das tendências negras da maldade e, sobretudo, da concupiscência da carne ( desejo ávido de sexo por pensamento, palavras, desejo, acção ), deixando-os puros e firmes como os anjos ou como Adão e Eva antes da Queda! Não fora essa Queda deles (Adão e Eva), todos os homens e mulheres seriam como Susana e Nataniel passaram a ser.

Pedro– Mas então,   e os filhos?…No casamento não é obrigatório fazer o possível por gerar filhos? Não está escrito: “Crescei e multiplicai-vos”? (Genesis…)

Jesus – Esse é um direito que foi dado a todos os seres humanos, mas não é uma obrigação. Como tal, qualquer um pode prescindir de algum dos seus direitos por uma causa ou um bem maiores. E não há causa ou bem maior do que fazê-lo pelo Reino dos Céus. Eles não irão gerar filhos, porque ambos fizeram voto de castidade e de virgindade, tal como fizeram o Justo José, o Meu pai adoptivo, e Maria, a Minha santa Mãe!… Eles são esposos verdadeiros e legais, mas viverão como irmãos, como eunucos, tudo por amor do Reino dos Céus! Quem puder entender, entenda! No futuro, muitos e muitas renunciarão ao casamento, à paternidade e à maternidade físicas, ao uso do sexo, para se transformarem em puros anjos, que brilharão na Terra como estrelas no céu. Depois, receberão o prémio que lhes está destinado. Todos os que casam podem fazer como este casal de que falamos, desde que ambos concordem, depois de medirem as suas forças e requisitarem a Minha ajuda e protecção. Também aqui, sem Mim nada poderão. (2)

João – Compreendo! É belo, sublime!… O Reino dos Céus merece todos os sacrifícios!

André – Então, e se todos os homens e mulheres seguissem esse caminho?

Jesus – Nunca acontecerá! E quando acontecer é porque Deus os escolheu a dedo, tal como escolherá os sacerdotes da Nova Aliança… e ninguém pergunte porquê! Estais agora esclarecidos ou há mais alguma coisa de que preciseis explicação?

Tomé – A transformação da água em vinho estava prevista ou foi mero fruto das circunstâncias e de um pedido velado da Tua Mãe?

Jesus – Não estava previsto nenhum milagre nestas bodas. A Minha Mãe não me pediu nada, apenas Me deu uma informação oportuna sobre a falta de vinho, mas Eu entendi o que Ela queria e quis dar-lhe uma grande alegria, pois Ela estava preocupada com o desfecho humilhante da festa, cujas consequências cairiam sobre os noivos , familiares e convidados. Deixar acabar o vinho seria encarado pelos convidados como uma tristeza, vergonha, um fiasco, objecto de comentários jocosos e pejorativos, algo que se saberia por toda a região e assunto de conversas por muito tempo. A intervenção da Minha solícita Mãe, à qual Eu não recuso nada, salvou a situação, antecipando o Meu primeiro milagre.

(1) Confira: Ana Catarina Emmerich, Vida pública de Jesus, Edições … volume I, pag.

(2) Referência aos Sacerdotes católicos e aos Religiosos, conventuais ou não, com hábito ou sem ele, os quais fazem votos de pobreza, obediência, celibato e castidade, entre outros possíveis

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Jesus entre os Doutores

(Realidade &  ficção)

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Personagens:

. Jesus Cristo, adolescente

. Hillel – Sacerdote e doutor da Lei

. Gamaliel – Sacerdote e doutor da Lei

. Shammai – Sacerdote e doutor da Lei

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Jesus12“…Passados três dias, encontraram o Menino no Templo, sentado no meio dos doutores, a ouvi-los e a fazer-lhes perguntas. Todos aqueles que O ouviam estavam surpreendidos com a sua inteligência e as suas respostas….” (Lc 2,46-47)

Jesus é agora um adolescente com alguns traços fisionómicos que revelam não ter ainda chegado a adulto, apesar da sua elevada estatura para a idade. É o episódio relatado no evangelho que se refere à perda e encontro de Jesus no Templo.

Enquanto Maria e José O procuravam entre os parentes que moravam em Jerusalém, Jesus, com a idade de doze anos, encontra-se no Templo, perdido no meio da multidão que presencia um debate entre Doutores sobre a vinda do Messias. Em confronto estão os sacerdotes Gamaliel, apoiado pelo sacerdote Hilel, já idoso, e o sacerdote Shamai, atirando cada um os seus argumentos com certezas baseada na Bíblia, na palavra dos profetas e em episódios da História de Israel e em interpretações pessoais. Ambos argumentam, não só para vencerem a discussão, mas também para impressionar os muitos ouvintes com a sua erudição. A discussão parece querer continuar sem que se chegue a algo convincente, porque cada um desfaz os argumentos do outro com passagens e factos de todos conhecidos.

Gamaliel, rodeado pelos seus discípulos, fala da vinda do Messias, apoiado na profecia do profeta Daniel, a qual permite concluir sobre o Messias:

Gamaliel – Segundo a profecia das setenta semanas, do profeta Daniel (Dn  9, 24 -27), o Messias já deve ter nascido, pois as setenta semanas já se cumpriram há dez anos, porque já se passaram dez anos após o decreto da reconstrução do Templo. Portanto, o Messias já deve estar entre nós, algures, ignorado, mas preparando-se para aparecer em público.

Shammai – Não pode ser! É verdade que o Templo foi mandado reedificar, mas também é verdade que a escravidão de Israel aumentou e a paz prometida com o Messias não se vê e esse “Príncipe da Paz”, prometido por Isaías e referido pelos outros profetas, ainda está muito longe de existir no mundo  e muito menos em Jerusalém, ocupada pelos Romanos, por pagãos que até o nosso Templo profanam e vigiam com uma guarnição militar na Torre Antónia.

Segue-se um movimento de aprovação por parte de uns e desaprovação por parte de outros. No meio da multidão ouve-se de repente a voz de um jovem:

Jesus – Gamaliel tem razão! A sua interpretação é que está certa!

Todos se viram e procuram descobrir quem falou, não sendo porém necessário procurar muito, porque Jesus atravessa a multidão e apresenta-se em frente dos rabinos.

Shammai – Quem és tu?

Jesus – Sou um filho de Israel que veio a Jerusalém para cumprir o que ordena a Lei.

Esta resposta firme, corajosa, franca, …originou sorrisos de aprovação, por vir de um jovem.

Shammai – Como te chamas?

Jesus – Jesus de Nazaré.

Hillel – Em que se baseia a tua segurança ao afirmares que a profecia de Daniel já se cumpriu e que o Messias já nasceu?

Jesus – Baseia-se na profecia, que não pode errar, quanto à época e aos sinais que a acompanham. É verdade que César domina Israel, mas o mundo estava em paz quando ele decretou o recenseamento obrigatório, de contrário não o teria feito, por falta de condições de segurança e eficácia. Agora cumpre-se a outra parte da profecia das sessenta e duas semanas mais uma, até o Messias ser ungido. Não vos lembrais da estrela vista pelos sábios do Oriente e que parou sobre o céu de Belém de Judá? Não é Belém o lugar indicado desde Jacob para o nascimento do Messias? Não lestes o profeta Miqueias, que refere Belém – Efrata como o local do nascimento do Messias (Miqueias 5, 1) . Os olhos puros dos Sábios do Oriente viram a estrela e descobriram que o seu nome era “Messias”.

Shammai – ( Irritado) Tu dizes que o Messias nasceu no tempo da estrela, em Belém-Efrata?

Jesus – Digo e confirmo que foi assim!

Shammai –  Pois é! Então ele já não existe! Não sabes, rapazinho, que o Herodes mandou matar todos os meninos com idade até dois anos, em Belém e arredores? Não sabes que foram mais de setecentos os meninos assassinados? Tu, que és tão sábio na Escritura, devias saber o que lá  diz, a este propósito, o profeta Jeremias:“ Em Ramá se ouve uma voz, uma lamentação, um choro amargo; é Raquel, que  chora, mas não quer ser consolada, porque os seus filhos já não existem” ( Jer 31, 15). Está claro que o Messias também foi morto, pois não tinha possibilidades de escapar aos soldados de Herodes!

Jesus – Estás redondamente enganado. O pranto de Raquel deu lugar a cânticos de hossana, porque uma nova Raquel deu ao mundo o Filho do Pai celeste, Aquele que reunirá o Povo de Deus e o livrará da escravidão.

Shammai – E como, se ele foi morto pelos soldados de Herodes?

Jesus – Não leste a respeito de Elias, que ele foi arrebatado  num carro de fogo ( 2 Reis 2, 11)? E o Senhor Deus não poderia ter salvo o  Messias do Seu Povo das garras de Herodes? Ele, que abriu o Mar diante de Moisés, não poderia ter enviado os seus anjos para salvar o Seu Cristo? Pois Eu vos digo:”O Cristo está vivo e está entre vós. Quando chegar  a Sua hora Ele se manifestará em Seu poder  e todos poderão ir ao encontro Dele, falar com Ele, ouvi-Lo frente a frente, pois Ele não rejeitará ninguém. Felizes aqueles que ouvirem a Sua palavra e entrarem no Seu Reino!

Hillel –  Ouve lá, rapazinho, quem te ensinou essas coisas? Quem é o teu Mestre?

Jesus – O Espírito de Deus é o meu Mestre. Eu não tenho nenhum mestre humano. Eu sou a Palavra do Senhor, porque Ele fala através dos meus lábios.

Hillel – Vem cá! Aproxima-te de nós, para te vermos de perto, pois quero reavivar a minha esperança em contacto com a tua fé e iluminar a minha alma em contacto com a tua. Já que apareceste por aqui, vamos tirar proveito da tua Sabedoria, pois dizes coisas que parece nunca terem sido ditas  nem aceites por ninguém. Tens aqui três rolos. Pega neste e lê em voz alta!

 Jesus  – “Consola-te, ó meu Povo! Falai ao coração de Jerusalém, consolai-a, porque a sua escravidão acabou…Voz do que grita no deserto: preparai os caminhos do Senhor…Então aparecerá a glória do Senhor…”

Shammai – Ora, aí está, ó nazareno! Aí se fala de escravidão que se acaba. Nunca fomos tão escravos como o somos agora. Aqui se fala de um precursor. E onde está ele? Se o Messias traz a paz e a liberdade, então, ainda nem uma nem outra nós vemos. Este povo de Deus continua abandonado à sua sorte, humilhado por inimigos e privado da sua independência. Até quando? Tu deliras, rapaz, ou então queres fazer de nós uns ingénuos, uns tolos!

Jesus – Eu digo-te que a ti, mais do que aos outros, está feito o convite do Precursor: “Arrepende-te, endireita os caminhos do Senhor, faz penitência e converte-te”, de contrário não compreenderás a Palavra do Senhor, porque as tuas baixezas, as soberbas, as duplicidades, a hipocrisia, a cegueira…serão para ti um obstáculo para veres, ouvires e compreenderes!

Shammai – É assim que falas a um mestre de Israel, a um santo de Israel?

Jesus – É mesmo assim que falo e falarei até à morte, porque assim o exige o interesse do Senhor e o amor à Verdade, da qual sou Filho. Para teu esclarecimento, ó rabi, digo-te que essa escravidão de que falam os profetas e da qual Eu falo, não é essa que pensas e a realeza também não é a que pensas. A escravidão de que falo é a escravidão do Mal, do pecado, que separa o homem do seu Deus e que vai ser destruída pelos méritos do Messias, fazendo dos homens súbditos espirituais de um Reino Eterno, espiritual, perante cujo Rei todos os povos e nações se curvarão. No Céu e na Terra todos dobrarão o joelho e louvarão o Ungido de Deus, o Príncipe da Paz, o Chefe, o Messias, Aquele que se dará a Si mesmo para alimento das almas e que fará delas o Seu santuário. Também Ele é o Santuário de Deus, Santuário que nunca será destruído.

Shammai – O que tu estás para aí a dizer!… Tudo isso são blasfémias! Lembra-te do que diz o profeta Daniel. Ele diz que após a morte do Cristo, o Templo e a Cidade serão destruídos por um povo e por um chefe que virá.(1) E tu dizes que o Santuário de Deus não será derrubado? Vê lá o que dizes! Tem algum respeito pelos profetas, que falaram em nome de Deus! As suas profecias não podem ser alteradas, sob pena de blasfémia! E tu estás para aí um troca-tintas que misturas e confundes tudo, fazendo das profecias uma caldeirada indecifrável.

Jesus – Digo-te que aqui está Aquele que é maior que os profetas, mas tu não O conheces nem virás a conhecer, porque te falta a vontade para isso. Tudo o que Eu te disse é verdade. O verdadeiro Santuário de Deus não morrerá, mas ressurgirá para a Vida Eterna e no fim do Mundo viverá no paraíso.

Shammai – Vê-se que estás louco! Mas então as pedras do Templo serão transpostas para o paraíso? Que loucura é essa?

Hillel – Escuta, jovenzinho! O profeta Ageu (Ageu 2, 4-9) diz: “Virá o Desejado dos povos. Grande será então a glória desta Casa, maior do que aquela que coube à primeira”. Refere-se ele ao Santuário de que tu falas?

Jesus – Sim, mestre! É isso mesmo! A tua rectidão leva-te para a Luz e faz-te atingir aquilo que para outros não está ao seu alcance. Quando a morte do Cristo ocorrer, terás a Paz, porque és um israelita sem malícia, puro de coração e recto de intenção.

Gamaliel – Diz-me, Jesus! A paz de que falam os profetas…como poderemos esperá-la, se este povo vai ser destruído pela guerra?(1) Esclarece-me a mim também!

Jesus – Não te lembras, mestre, que os anjos cantaram na noite em que nasceu o Messias: “Paz aos homens de boa vontade?” Mas este povo não tem boa vontade, por isso, não merece a paz, e como não a merece, não a terá! Ele não aceitará o seu Messias, o Rei, o Justo, o Salvador, o Redentor, porque está à espera de um rei de poderes humanos, de um general, de um guerreiro, para libertar Israel do jugo dos Romanos, enquanto Ele é o Rei do espírito e nesse equívoco também vós, os mestres, caístes e nele permaneceis, como cegos a guiar outros cegos. Este povo não  amará o seu Messias, porque o Cristo irá pregar o que não lhe agrada. O Cristo não derrotará os seus inimigos com exércitos, carros, cavalos e cavaleiros, mas derrotará os inimigos da alma, os inimigos infernais que dominam as almas e o coração dos homens, criados pelo Senhor. Esta, porém, não é a vitória que Israel espera e da qual se tem alimentado erradamente. Não diz o profeta:”O teu Rei, Jerusalém, virá a ti montando uma jumenta e um jumentinho, ou seja: os justos de Israel e os gentios? Digo-vos que o jumentinho (os gentios) será mais fiel a Ele, crescerá no caminho da Verdade e da Vida e irá à frente da jumenta (Israel). Israel, por sua má vontade, não alcançará a paz e através dos séculos sofrerá em si aquilo que fizer sofrer ao seu Rei, depois de o ter reduzido a “Rei das dores”, como diz o profeta Isaías (Is 53, 3-4).

Shammai – Cala essa boca, ó nazareno! Tu ainda cheiras a leite e já vomitas a blasfémia! Responde-me: E onde é que anda o Precursor? Quando é que ele aparece, para termos a certeza da proximidade do Messias?

Jesus – Ele já cá está! Diz o profeta Malaquias ( Ml 3, 1-4) “Eis que eu mando o meu anjo à tua frente para preparar o caminho e logo virá ao Seu Templo o Dominador e o Anjo do Testamento por vós desejado”. Garanto-vos que tanto o Precursor como o Messias já cá estão. Quando virdes o Precursor, podereis dizer que o Messias começou a Sua missão. Uma coisa te digo: O Messias abrirá muitos olhos, muitos ouvidos, muitos corações, quando Ele andar pelos caminhos, mas não abrirá os teus nem os daqueles iguais a ti, que ficareis fechados, cegos e lhe dareis a morte, em troca da Vida que Ele vos oferecerá. Mas quando ele estiver na sua Glória, acima dos Querubins, no Seu Trono eterno, sairá das Suas múltiplas feridas Vida  abundante para os gentios, para os justos de Israel e para todos aqueles que souberem e quiserem regenerar o seu espírito, tal como Jonas, que renasceu noutras praias, as praias de Deus,…mas das Suas feridas também  sairão maldições para os Seus assassinos  e para aqueles que não quiserem aproveitar da sua vinda à Terra.

Shammai  – Já ouvistes o que ele deita da boca para fora? Como é que ele faz previsões sobre o seu futuro. Será que não consultou a vidente de En-Dor? Ou não será ele o Satanás disfarçado?

Hillel – Não, não é! Este jovem é Profeta de Deus. Fica comigo, Menino! A minha velhice  põe ao Teu serviço todo o seu saber  e curva-se perante a Tua Sabedoria. Tu serás Mestre do Povo de Deus.

Jesus – Em verdade te digo que, se houvesse muitos como tu, viria para Israel a salvação. A Minha hora ainda não chegou. Quando ela chegar, com o meu sangue e com os meus lábios, falarei a Jerusalém, e a minha sorte será a dos profetas que foram apedrejados e mortos por esta cidade. Mas  acima de Mim está o Senhor Deus, ao Qual Eu me submeto, como servo fiel, pois Eu vim para fazer a Sua vontade. Esperai-me na Minha hora. Estas pedras que agora nos ouvem ouvirão de novo a minha voz e tremerão à minha última palavra. Felizes serão aqueles que então a ouvirem! A estes o Cristo dará aquele Reino que o vosso egoísmo não aceita, porque vós fabricastes um reino humano, um rei humano, um messias humano e neles insistis em acreditar, para vossa própria satisfação e ruína. Mas o Reino do Messias é celeste e durará eternamente.

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Observações:

(1)   -Profecia cumprida no ano 70 (D.C.) pelo exército romano, sob o comando do general Tito, filho do imperador Vespasiano, sucessor de Nero. Jerusalém, em consequência de revoltas dos Judeus, foi cercada por 24.000 soldados romanos, acabando por ser incendiada e destruída e do grandioso Templo de Jerusalém resta hoje o muro das Lamentações. Cristo havia dito no ano 33 : “Vedes tudo isto (a grandiosidade do Templo)? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja demolida (Mt 24, 1-2) . Outra passagem :  “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei que está próxima a sua devastação…Serão dias de punição, nos quais se deverá cumprir tudo o que foi escrito….Com efeito, haverá uma grande angústia na terra e cólera contra este povo. Eles cairão ao fio da espada,  serão levados cativos para todas as nações e Jerusalém será pisada por nações até que se cumpram os tempos das nações” ( Lc 21, 20-24) .  Uma fúria inexplicável atacou os soldados  romanos, que só pararam de matar quando já não havia ninguém para matar. O que resta do Templo salvou-se porque o imperador Vespasiano mandou parar a destruição. No final, 1.1000.000 mortos, pela fome, pela espada e pelo fogo,  incluindo muitos Judeus que tinham vindo de todo o país para as festas em Jerusalém. O Arco de Tito, em Roma, comemora estes acontecimentos.

2. Quando Jesus iniciou a Sua vida pública, vinte anos depois deste episódio, Hillel já tinha morrido. Gamaliel, porém, ainda era vivo e por mais de uma vez esteve frente a frente com Jesus, tornando-se incapaz de se decidir a Seu favor, visto oscilar entre o sim, o não e o talvez… Mas decidiu-se de vez por Jesus após a Sua Ressurreição.

3. Realço o contraste entre Hillel e Gamaliel, por um lado, e Shammai, por outro. Aqueles eram rectos de coração e de intenções, temente a Deus e buscando a verdade e a sabedoria na interpretação das Escrituras. O dom do Entendimento estava com eles e Deus iluminava-os. Ao contrário, a vida pecaminosa de Shammai levava-o a interpretações ocas e vazias, porque lhe faltava a sabedoria divina para a correcta interpretação. Isto tem aplicação, hoje, naqueles que  se servem da Bíblia e a citam de baixo para cima, de cima para baixo, para a direita e para a esquerda, a sublinham a lápis, a tinta ou a cores variadas,…e, no entanto, a Verdade fica-lhes fora do ângulo de visão, sendo caso para dizer como um prestidigitador: “Olhem bem para mim, porque quanto mais olharem, menos vêem)!

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Ezequiel Miguel

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. Cristo e o Seu exame de maturidade

Nasceu-vos hoje o Salvador (Lc 2,11)

(Realidade & Ficção)

Personagens:

Pastores: Elias, Levi, Samuel, Jonas, Isaac, Tobias, Jónatas, Daniel, Simeão, João, José, Benjamim.

. Anjos

. S. José

. Virgem Maria

estrelaNa mesma região (Belém) encontravam-se uns pastores que pernoitavam nos campos, guardando os seus rebanhos durante a noite. Um anjo do Senhor apareceu-lhes e a glória do Senhor refulgiu em volta deles; e tiveram muito medo. O anjo disse-lhes: Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo. Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. (Lc 2, 8-12)

Nos arredores de Belém, exactamente no lado oposto da cidade onde se situa a gruta, pernoitam os pastores, com seus rebanhos, que não são todos seus, mas pertencem aos seus patrões, uns dali, outros, de localidades vizinhas. Todas as noites eles se revezavam para que um deles ficasse de vigia. Ficava um sempre de sentinela, não por medo de fuga das ovelhas, mas por temerem os ladrões de gado.

Não é bem verdade dizer que aquela noite era igual a todas as outras noites, porque ela, por ser mais clara que as outras, por ter um luar mais luminoso que as outras, porque a lua naquela noite requisitara ao sol uma dose extra de luz que tornava os campos não só visíveis, mas até com uma claridade estranha. Esta era a noite…a princesa de todas as noites, a rainha de todas as noites, a mãe de todas as noites, a noite das noites…a noite única, a noite santa, a noite profetizada séculos antes, esperada durante milénios, a noite em que o Plano de Deus iria dar o passo principal para a Redenção da Humanidade, caída sob as garras de Satanás. Era a noite cuja memória perdurará pelo tempo até ao fim do Tempo.

A estranha luminosidade da lua, movendo-se entre as nuvens de um céu estrelado, não deixou de chamar a atenção dos pastores que, um após outro, saíram do cabanal que os protegia do frio da noite e todos achavam muito estranho não se poder olhar para a lua sem colocar uma mão à frente dos olhos, tal como se faz para mirar o sol. Uma lua assim nunca se vira. Enquanto todos olhavam a lua, viram aproximar-se algo luminoso que, ao longe, através dos ares, vinha em sua direcção, até que finalmente chegou perto deles:

Anjo“Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias -Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um Menino envolto em faixas e deitado numa manjedoura”(Lc 2, 10-12).

Coro dos Anjos (Cantando) – “Glória a Deus no mais alto dos Céus e paz na Terra aos homens por Ele amados” (Lc 2, 14)

Samuel – Nasceu o Messias!

Todos – Louvado seja para sempre o Deus de Israel, que já nos enviou o Desejado das Nações!

Jonas – Prestai atenção! Olhai para as ovelhas!

David – Estão todas agitadas e a balir!

Benjamim – E os cães estão a ladrar e às correrias! Parecem doidos!

Simeão – Escutai! A passarada também perdeu o sono e desatou num estrondoso concerto!

Elias – Olhai o céu! Está além uma estrela nova com um brilho fora do vulgar!

Levi – E parece estar do outro lado de Belém, aqui tão perto, quase sobre as nossas cabeças!

Jónatas – É isso! Toda a natureza se alegra com o nascimento do Messias! Despachemo-nos e ponhamo-nos a caminho!

Simeão – Quem sabe onde é esse local indicado pelo anjo?

Levi – Eu sei onde é e quem é a Mãe do Messias!

Elias – Ah sim? Conta lá!

Levi – Há poucos dias chegou um casal a casa dos meus patrões a pedir hospedagem, mas os meus patrões não tinham nenhum espaço disponível para lá ficarem a dormir. A minha patroa lá arranjou um quartinho para Ela descansar um pouco. Se vós a vísseis! Ela parecia um anjo!

José – Porquê?

Levi – Porque Ela é ainda muito nova, pouco mais velha que eu, mas estava grávida e não parecia nada preocupada. Toda Ela respirava paz e no seu rosto não havia sinais de ansiedade ou angústia alguma. Ela parecia uma princesa, é muito bonita, de olhar muito meigo, com um sorriso que nunca se esquece e desfazia-se em agradecimentos por qualquer pequeno serviço que se lhe prestasse. Não imaginais como Ela me agradeceu quando eu lhe trouxe uma tigela de leite quente! Lembro-me que o senhor que vinha com ela estava um pouco nervoso e muito preocupado com a falta de condições dignas para o Menino nascer. Ela acalmava-o e dizia-lhe que o Senhor forneceria o necessário e que não seria preciso ninguém para ajudar no parto e que também não teria dores.

Tobias – O quê? Ela disse isso? Mas como é que Ela sabia essas coisas? E como é que Ela sabia que era um Menino e que teria um parto sem dores? Sendo assim, não esperemos encontrá-la de cama! Mas as mulheres, quando nascem os bebé, ficam de cama dois ou três dias e alguém tem de as ajudar nas lides domésticas!

Samuel – Então, Ela é diferente das outras mulheres, ou não fosse Ela a Mãe do Messias. Tenho cá para mim que não haverá maior dignidade na Terra do que ser a Mãe do Messias. Superior a Ela, só Deus!

Daniel – E se nos deixássemos de conversa, ó teólogos da meia-noite !Vamos embora! Conversamos pelo caminho!

Simeão – Calma aí! E aparecemos lá de mãos vazias? O Menino não é um qualquer! Ouvistes bem que Ele é o Messias, o Cristo, o Senhor! Israel anda há 600 anos a falar Dele e os profetas sabiam bem de Quem falavam.

João – O Simeão diz bem. Que podemos levar-Lhe como presentes?

José – Podemos levar queijo…

Benjamim – Leite…

Daniel – Pão, fruta, azeitonas…

Samuel – Figos secos, tâmaras secas…

Jonas – Eu levo uma pele de ovelha, que vale tanto como o melhor dos cobertores.

Elias – Eu cá levo uma ovelha!

Todos – Uma ovelha?

Elias – Sim, uma ovelha! Imaginai que a Mãe não tem leite! Como é que o Menino vai sobreviver se a Mãe não tem leite?

Samuel – Não tem leite? Todas as mães dão leite!

Elias – Pois, mas eu já ouvi dizer que há mães que não têm leite quando os filhos nascem! Ou se o têm, demora a vir! Assim, é fácil levar uma tigela e tirar leite da ovelha. Ela até se sentirá muito honrada com isso. Já vistes que poderá ser a única ovelha a alimentar o Messias? (Ri com gosto ante esta ideia…)

José – Ó rapazinho, isso é uma ideia brilhante! De onde te vem tanta sabedoria, sendo ainda tão jovem?

Jonas – E quem sabe exactamente onde eles estão?

Levi – Eu sei! Aquela estrela deve estar sobre uma gruta que há lá no outro lado da cidade. Eu lembro-me que o senhor (penso que será o seu esposo) disse que iam para uma gruta que ele conhecia bem. Depois, quando pudessem, procurariam uma casa.

Isaac – Eu até já ouvi dizer que essa gruta já existia nos tempos de Abraão.

Tobias – Então, é hora de ir! Estou a ficar impaciente! Eu levo um cordeirinho branco. Tome cada um o seu presente e vamos! Levemos umas lanternas para o caso de Eles lá não terem luz!

Simeão – Bem pensado!

Todos – Lá vamos a caminho de Belém adorar o Deus-Menino!

Chegados à porta da gruta, surgiu um problema. Como se anunciariam, como entrariam, quem entraria primeiro, quem falaria por todos?

Simeão – Levi, espreita aí, a ver se descobres alguém ou sinais de presença humana.

Levi – (espreitando) Cheira-me a fumo! Deixai-me entrar um pouco, pode ser que… (Arranca umas tossidelas ruidosas…)

Jonas – Vai mais para dentro e vê se descobres alguma luz! Vês alguma coisa ou alguém?

Levi – Espera aí! Há lá dentro muita luz. Parece o sol ao meio dia! E vejo…É Ela!…É Ela!…É Aquela que esteve em casa dos meus patrões…E também o homem que vinha com ela. São eles! Estão ambos curvados sobre uma manjedoura onde um Menino está deitado, tal e qual como disse o anjo. Estão ambos a contemplar o Menino. Ele parece chorar! Se calhar é com fome e com frio! Ele não está a mamar! A Mãe está-lhe a dizer palavrinhas meigas, como só as mães sabem dizer!

Benjamim – O que está Ela a dizer ao Menino?

Levi – Fazei silêncio, de contrário não posso ouvir!…

Maria – Aqui estás Tu, finalmente, ó Filho de Deus feito Homem! Tanto tempo que esperámos por Ti! Agora…quem diria? O Senhor omnipotente aqui a choramingar com frio e fome! Meu Menino, Meu Filho, Meu Amorzinho, Meu Principezinho, meu Reizinho, Meu Senhor, Meu Criador, meu Deus!… Não encontrámos instalações melhores para nasceres! Tu, o Rei do Universo, aqui tão pobrezinho! Mas tens o amor da Tua Mamã e do Teu adoptivo pai para Te compensar. É o melhor que podemos dar-Te!

Daniel – Basta de espiar! Chama em voz alta, para que te ouçam ou nunca mais saímos daqui! Além disso, é feio espiar o que os outros fazem ou dizem. Quem tem cara limpa não se esconde!

Levi – Calai-vos! Se soubésseis o que eu ouvi! Foram as palavras mais doces que um ser humano pode proferir!… Mas eu vou chamar, para ver se aparece alguém!…Quem está aí?… Ó da casa! …Podemos entrar?…

José – (Virando-se, levantando-se e indo até à entrada) Quem sois vós?

Todos – Somos pastores e viemos adorar o Menino. Trazemos também alguns presentes: alimentos e lã.

José – Entrai!

Maria –(Virando-se e sorrindo) Sede bem-vindos! Como soubestes que o Messias já tinha nascido?

Simeão– Foi um anjo que nos disse e nos convidou a vir adorar o Menino. Depois, ouvimos um coro de anjos a cantar: “Glória a Deus no alto dos Céus e paz na Terra aos homens…”Agora, aqui estamos! E temos presentes para o Menino: pão, queijo, figos secos, tâmaras secas, leite, um cordeirinho, uma pele de ovelha… (Olhando em volta) Falta qualquer coisa! Falta o Elias com a sua ovelha! Ide chamá-lo e que tire já leite quente para dar ao Menino, pois o leite que aí trazeis já está frio!

Maria – Muito obrigado pelos vossos presentes. O Meu Filho vos compensará e um dia Ele voltará aqui para vos agradecer pessoalmente e ainda muito mais, que a seu tempo se revelará.

João – Podemos pedir-vos um grande favor?

José – Dizei!

João – Deixais-nos beijar a veste do Menino?

Maria –(Destapando um pé do Menino) Podeis, mas em vez da veste podeis beijar o Seu pezinho!

E todos, um por um, concretizaram a primeira adoração popular do Menino, que correspondia agitando os pezinhos. Concentração, lágrimas, sensação de felicidade interior, desejo que aqueles momentos se prolongassem indefinidamente … Mas tudo termina! Ali, nasceu neles o entusiasmo e o veemente desejo de darem a conhecer ao mundo o nascimento do Messias. Cristo acabara de fazer os Seus primeiros discípulos. Mais tarde, trinta anos depois, Cristo procurá-los-ia para lhes agradecer e confirmá-los em sua fé no Messias. Todos eles, aqueles ainda vivos, engrossariam o número dos Seus discípulos fiéis que estariam dispostos a dar a vida por Ele, após terem presenciado a Sua Paixão, Morte e Ressurreição. Nessa altura compreenderiam qual a sorte final do Cordeiro de Deus e a visão profética da Jovem Virgem Maria.

Elias – Eu vou a Hebron dar a notícia aos meus patrões!

Maria – Olha, conheces lá o sacerdote Zacarias, a sua esposa Isabel e o seu menino João?

Elias – Zacarias é aquele que ficou mudo até o menino nascer?

Maria – (Sorrindo ante a sentença de Elias) Então fazes-me um favor? Eles são meus parentes! Diz-lhes que eu lhes peço para virem até aqui.

Elias – Isso farei com muito gosto! Podes ficar descansada!

Maria – O Senhor te pague! Sê sempre bonzinho e o Meu Menino te recompensará!

No regresso:

E a visita terminou. Cheios de alegria ,os pastores encetaram o caminho do regresso, animados, falando pelos cotovelos, comentando, fazendo cálculos, especulando, falando sobre o que sabiam do Messias referido pelos profetas, interrogando-se sobre muita coisa que nós também ainda hoje nos interrogamos, assim como se interrogarão as gerações futuras: se tinha que ser assim, ali, logo de noite, logo num tempo em que não havia lugar nas estalagens, logo naquela pobreza, porque não no palácio de Herodes, porque não na casa deles próprios ou dos seus patrões, etc., etc.

Elias – Vistes para que serviu a minha ovelha?

Jonas – E vistes o que a Mãe fez com a pele de ovelha? Agarrou no Menino, embrulhou-O nela e Ele logo se calou.

Tobias – E vistes para que serviu o meu cordeirinho branco?

Todos – Para que foi? Não vimos nada de especial!

Tobias – Ah não? Não vistes as carícias que a Mãe fez ao meu cordeirinho? Quando lho ofereci, Ela desatou a fazer-lhe festinhas e ele olhava para Ela de tal modo que até parecia querer dizer qualquer coisa! Ela olhava ora para o Seu Menino ora para o meu cordeirinho! Agradeceu sorrindo, e, de repente, ficou muito séria, com olhar fixo em alguma coisa invisível…imóvel, sem pestanejar… como se visse alguma coisa má que eu não via e…imaginai lá: eu vi-a a limpar as lágrimas!(Limpando as suas próprias lágrimas)

Todos – Estás a chorar!?…

Tobias- Estou! Ela chorou, enquanto vós estáveis lá entretidos em volta do Menino na manjedoura. Choro também porque tenho muita pena Dela e não posso esquecer aquelas lágrimas que lhe caíram silenciosas pela face abaixo. Ela tentou disfarçar, mas eu vi! Depois, continuando a fazer festinhas ao meu cordeirinho, Ela dizia: O que tu me fazes lembrar, meu lindo cordeirinho!… Depois, enxugou as lágrimas, tentou sorrir e fingiu que estava feliz.

Samuel – Mas então só tu é que viste isso? Porque é que Ela terá chorado? Alguém é capaz de ter uma ideia? Não foi, de certeza, por nossa causa!

Aqui, cada um foi lançando a sua hipótese, que podia ser rejeitada, semi-aceite ou unanimemente aceite como possível. Uns diziam que era por causa do frio, outros, por falta de uma casa, outros, porque não tinham alimentos nem roupa suficiente, outros, porque tinha muita pena do Menino, o nosso Messias ali tão pobrezinho, quando não faltam palácios em Jerusalém e em Belém. Falou, por fim, Simeão:

Simeão – Cá para mim, Ela relacionou o teu cordeirinho com o Cordeirinho Dela, quer dizer, o Seu Menino. Por isso, Ela olhava ora para um ora para outro, lembrando-se de qualquer coisa relacionada com cordeiros, porque Ela disse que o Seu Menino também era um Cordeirinho. São ambos puros e Ela deve ter-se lembrado do que acontece aos cordeirinhos brancos por altura da Páscoa… Será que Ela não viu o Seu Cordeirinho a verter o Seu Sangue pelo nosso Povo e por todos os Povos?

Jónatas – E um profeta não diz que o Servo do Senhor, que é o Messias, foi levado ao matadouro e que como uma ovelha não abriu a boca (Is 33,5)? Já me lembro: foi Isaías que disse isso! Ela, ao ver a ovelha e o cordeirinho, associou-os à sorte final do Menino. Ela deve saber mais do que nós pensamos, ou não esteja Ela dentro dos segredos que envolvem a vinda do Messias! É o que eu penso! Ainda digo mais! Ela deve estar dentro de todos os mistérios relacionados com o Messias de Israel, que vai inaugurar novos tempos. O tempo dos profetas acabou e um outro mundo vai nascer. Só não sei qual o preço que o Messias vai pagar, mas Ela deve saber. Ela estava muito pensativa e os seus olhos navegavam pelo corpinho do Menino, concentrando-se ora na cabeça, ora no peito, ora nas mãos, ora nos pés! Achei isto muito estranho! Será que Ela estava já a ver a morte do Menino?

João – O quê! O Messias ainda agora nasceu e já estais a falar da Sua morte? Calai-vos lá com isso! Hoje é dia de alegria para todo o mundo!

David – Mas o Messias não vem para libertar o nosso povo da pata dos Romanos? Não se diz que Ele é o Libertador e o Salvador que vai restaurar o Reino de Israel? Não percebo! Então…e é preciso morrer para cumprir essa missão? Mas Ele morre ou matam-NO? E se O matam, quem O mata e porquê?

Samuel – Eu já ouvi dizer que Ele será traído por um que se fará passar por Seu amigo. Quanto ao porquê, não sei responder! Se alguém sabe, diga! De qualquer modo, como eu gostaria de pertencer ao seu exército!

David – Eu já me contentava com servir no Palácio Real!

Levi – Eu gostaria de ser general do seu exército!

Elias – E eu gostaria de ser o pajem da Sua Mãe, o servo para todo o serviço!

Isaac – Eu não acredito que o Messias tenha vindo para isso! Ele é chamado o Príncipe da Paz, por isso, não pode ser um guerreiro, um general, um conquistador de cidades e reinos.

Tobias – Mas então, se Ele é o Libertador, o Salvador, de que é que nos liberta e nos salva, afinal?

José – Mas Ele também é chamado Deus Eterno, Deus Forte, Deus Imortal, Deus Santo, Príncipe Adorável, Conselheiro Admirável, Deus Poderoso, Pai Eterno… (Is 9,6)e outras coisas assim. Ora, se é Deus, só Lhe deve interessar a santidade dos homens e isso tem a ver com o pecado.

Benjamim – A propósito de pecado: Uma vez o Chefe da Sinagoga disse que o Messias viria para abrir as portas do paraíso aos Justos e para estabelecer na Terra um Reino de Paz e Amor.

David – Se calhar, é isso, porque o profeta Isaías diz que um dia os animais selvagens e os domésticos conviverão sem se comerem e que até uma criança poderá meter a mão na toca da víbora e que os filhotes do leão brincarão com os filhotes das ovelhas e das vaquinhas,…(Is 11, 6-9), mas os animais aqui podem ser os homens. Ora, para os homens se amarem é preciso que eles se sintam todos irmãos e que não se guerreiem uns aos outros. E só num Reino de Amor é que isso é possível. Esse Reino do Amor será o Reino do Messias, pois o profeta Isaías até diz que será mesmo assim, porque as espadas enferrujarão por falta de uso.

Simeão – Eu curvo-me perante tanta sabedoria, ó David! …O David diz que tudo isso tem a ver com o pecado. Eu também assim penso, porque esse profeta, ou outro, também diz que ainda mesmo que os nossos pecados sejam vermelhos como o escarlate, eles ficarão mais brancos do que a neve (Is 1,18)). Sendo assim, Ele vem salvar-nos e libertar-nos das consequências do pecado.

Elias – E depois, já se pode pecar à vontade?

Simeão – Não! Era o que faltava! O pecado é inevitável, porque todos os homens são pecadores, mas o Reino do Messias será espiritual e Ele assumirá sobre si todos os pecados da Humanidade e pagará o preço pelas ofensas feitas a Yahweh. Só depois de pagar esse preço é que os Justos do Limbo subirão ao paraíso. Só depois disso os Justos que morrem no Senhor irão também ao paraíso, que, como sabeis, ficou fechado depois do pecado de Adão e Eva.

Isaac – Mas onde é que tu aprendeste essas coisas?

Simeão – Eu tenho um tio que é sacerdote e ele fala-me muito destas coisas e de outras sobre o Messias.

Daniel – Lá em minha casa fala-se muito naquela passagem da Torá onde é dito ao rei Acaz: “Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um Filho que será chamado Emanuel”( Is 7,14), que quer dizer,…quer dizer…Já não me lembro!”

Jónatas – Deus- connosco, Deus entre nós!

Daniel – É isso! Então a tal Virgem é esta donzela! Que sorte nós tivemos em vê-la a Ela e ao Messias, seu Filho! Isto quer dizer que aquele homem não é o pai do Menino, mas finge ser! Nesse caso, quem é o pai do Menino?

Levi – Não é ninguém!

Todos – O quê!!! Como pode ser isso?

Levi – Se o Menino é o Messias, o Messias é Filho de Deus; se é o Filho de Deus, também é Deus e ninguém pode ser o pai de Deus. Neste caso, o Pai do Filho de Deus é o próprio Deus! Porque ninguém que seja filho de um homem pode ser Deus. Isto quer dizer que o Messias foi gerado pelo próprio Deus no seio daquela Virgem e nesse caso….

Tobias – Ah! Agora percebo porque é que Ela disse que não teria dores de parto e também agora percebo porque é que Ela, após o Menino nascer, não ficou de cama como as outras mulheres e anda por ali como se não tivesse havido parto nenhum! Pois é! Agora percebo! Isto foi e é tudo obra do próprio Yahweh!

Quer então dizer que o Seu marido,…isto é, o seu esposo, porque Ela tratou-o por “esposo”…Sendo assim,…ainda tem de haver mais! Se Ela é Virgem, o seu esposo também é! Sei lá, devem ter feito ambos voto de virgindade para toda a vida. Assim, têm de ser verdadeiros esposos, porque…senão …Ela era condenada à morte. E o Seu esposo deve ser apenas o guarda do Messias e o Seu pai adoptivo, tudo para não levantar suspeitas. Não pode ser de outra maneira. Quem penetra nos mistérios do Deus Altíssimo?

Samuel – Ó rapaz, pareces um profeta! Em que trapalhadas filosóficas e teológicas nos meteste! Um dia Ele e Sua Mãe vão-nos explicar tudo isso. Por agora, alegremo-nos e louvemos o Senhor! Mas antes, tenho que vos colocar uma questão: Qual foi o profeta que anunciou que o Messias nasceria em Belém de Judá? Aguardo a resposta certa!… Então, ninguém arrisca?…Então eu digo: Foi o profeta Miqueias.

Simeão – O que é que ele disse exactamente?

Samuel – Disse: “Mas tu, (Belém) Éfrata, embora a menor das cidades de Judá, de ti sairá para mim Aquele que dominará em Israel” (Miq 5, 1)

Levi – Mas eu ainda tenho uma coisa a dizer, uma coisa que se passou comigo quando estava a beijar o pezinho do Menino.

Todos – O que foi? O que foi?

Levi– Não sei se diga! Ides dizer que estou maluco! Posso enganar-me, porque não sei se foi real ou se foi apenas uma impressão estranha. Pareceu-me ter uma visão diferente do Menino. É que, enquanto Ele chorava, eu vi-O sorrir para mim!… Pronto, já disse! Já podeis chamar-me maluco!

Todos (um por um): Olha, comigo aconteceu a mesma coisa!

Jonas – Eu só não falei porque,…mas então aconteceu o mesmo convosco! Que maravilha!

Daniel – Foi isso mesmo! Somos todos malucos! Ele sorriu para nós! Nós somos os seus primeiros amigos! Glória a Deus e ao nosso Messias pelos séculos dos séculos!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

João – Eu tenho ainda uma coisa a perguntar ao Elias. Tu disseste que ias a Hebron dar a notícia àquela Sua parente, de nome Isabel?

Elias – Disse e vou cumprir o mais rápido possível. Aliás, há aqui qualquer coisa que se me escapa. Parece haver coincidências a mais! Essa Isabel…faz-me cá confusão!

Todos – Conta! Conta!

Elias – É assim! Há lá em Hebron um casal já muito idoso que conseguiu ter um filho, que tem agora uns quinze meses, por aí, e lá todos comentam que não sabem como é que isso aconteceu, pois naquela idade, a tal Isabel já não podia engravidar. Para mais, ela sempre foi considerada estéril. O marido é o sacerdote Zacarias e também já é muito velho. Mas dizem por lá que um anjo lhes anunciou um filho, e que ele, por ter duvidado do anjo, ficou mudo até o menino nascer. Esse menino chama-se João.

José – É tudo muito estranho! O Messias foi concebido milagrosamente por Yahweh no seio de uma Virgem, o Joãozinho foi profetizado também e também milagrosamente foi concebido por um casal estéril. Para mais, da mesma família!

Daniel – Será que ambos os nascimentos não estarão intimamente relacionados? E porque é que o Joãozinho nasceu primeiro que o Messias?

Jónatas – Porque tinha de ser!

João – Explica-te!

Jónatas – Eu sei lá explicar isso! Mas um dia ouvi um Chefe de Sinagoga dizer que um mensageiro iria à frente do Messias a preparar o seu caminho (Malaquias 3,1). Só não sei como é que ele explicou o resto. Já não me lembro! Ele disse que isso tinha sido escrito por um profeta, que também já não sei qual foi!

David – Então, se assim é, isso deve demorar para aí uns 20 ou trinta anos! Será que ainda estaremos todos vivos nessa altura? Assim, já sabemos! Quando ouvirmos o mensageiro João, saberemos que o Messias vai também entrar em acção! Quem me dera viver até lá!

Jonas– Egoísta! Diz antes: Quem nos dera a todos viver até lá! A Mãe disse que um dia Ele nos retribuiria a visita!

Todos – Assim o esperamos! Louvado seja o Senhor, Deus de Israel! (1)

Elias – Mas eu ainda tenho uma coisa para dizer! Vós vistes lá alguma candeia ou lanterna a dar luz?

Todos – Não!

Elias – Então, de onde vinha toda aquela luz, se não havia nenhuma fonte de luz?

Todos – Bem visto! Quem sabe, diga!

Simeão – Era a própria Luz do Menino, uma vez que Ele é Deus! E agora pergunto eu: O Levi disse, quando estava lá a espreitar, que cheirava a fumo. Alguém cheirou o fumo lá dentro?

Todos – Não!

Simeão – Então, foram os presentes que o Menino nos ofereceu em troca dos nossos! Glória a Deus nos Céus e paz na Terra aos homens!

Todos – Aleluia! Aleluia! Aleluia!

E a conversa continuou animada até ao telheiro onde se protegiam do frio e mantinham vigilância sobre os rebanhos.

“E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora dito” (Lc 2, 20)

(1) Uma das primeiras preocupações de Jesus, quando começou a sua vida pública, foi mesmo ir até Belém e contactar os pastores ainda vivos. Todos eles viveram na expectativa de voltar a encontrá-Lo, mas para alguns (poucos)isso já não foi possível. Os outros tiveram a felicidade de O reencontrar e de se tornarem Seus discípulos.

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Ezequiel Miguel

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