Resposta a “Enigmas bíblicos IV”: As virgens loucas

parabola das virgensTrata-se de mais uma parábola, uma figura de estilo muito usada por Cristo para transmitir lições catequéticas e verdades de um modo muito simples e claro, tão simples e claro que toda a gente compreenderia, desde o mais analfabeto até ao mais letrado.

Normalmente, Cristo baseou-se em factos reais ou verosímeis da vida real, aos quais aplicava depois o ensinamento que queria transmitir.

Neste caso, temos as virgens prudentes e as virgens loucas. As prudentes esperavam o esposo devida e cuidadosamente preparadas para o grande momento da sua chegada, que nenhuma delas sabia exactamente quando seria. Elas apenas sabiam e acreditavam cegamente que ele chegaria, por isso, esperavam-no em alegre expectativa, não se descuidando, não se pondo a dormir ou a dormitar e munindo-se do combustível necessário (azeite) para alimentar as respectivas candeias.

As outras virgens, porém, apelidadas de loucas, imprudentes, descuidadas, desleixadas, de entusiasmo morno, não se prepararam para o encontro com o noivo, acabando por ver as suas candeias a ficarem cada vez mais macambúzias, tristonhas, reflectindo também elas o estado de espírito das suas donas, que se aperceberam tardiamente de que elas iriam apagar-se, deixando-as às escuras, numa situação em que nem elas veriam o noivo nem o noivo as veria a elas, acabando por não serem convidadas para o banquete. Era a tragédia! Só havia uma solução: pedir azeite emprestado às virgens prudentes:

– Virgens Loucas (V.L.) – Vede! O nosso azeite está a acabar-se! Não poderíeis emprestar-nos algum azeite do vosso?

Virgens Prudentes (V.P.) – Porque não trouxestes as vossas candeias cheias no máximo?

V.L. – Porque não esperávamos que o noivo demorasse tanto tempo a chegar!

V.P. – E por acaso sabíeis quando ele chegaria?

V. L. – Não! Apenas confiámos nos nossos palpites! Arriscámos demasiado, pegando nas candeias sem verificar se estavam cheias ou não.

V.P. – Lamentamos, mas não podemos emprestar-vos nem dar-vos do nosso azeite, pois pode acontecer que também não chegue para nós. Por isso, é melhor irdes a comprar mais azeite.

E elas foram. Entretanto, chegou o noivo e com ele entraram as virgens prudentes para o banquete. Quando as virgens loucas chegaram, a porta não se abriu para o banquete.

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As lições da parábola:

1.O Esposo é Cristo.

2. As noivas do Esposo são as almas, masculinas ou femininas.

3. O momento em que o Esposo (Cristo) chega é a morte .

4. O banquete com o Noivo é a salvação eterna, a vida em Deus por toda a eternidade.

5. As virgens loucas, isto é, as almas descuidadas, desleixadas, ficaram fora, em consequência de uma vida espiritualmente desleixada, num cristianismo morno, pouco convicto, apagado e apanhados pela morte em pecado. Também pode aplicar-se àqueles que, baptizados na Igreja Católica, perderam a Fé ou desertaram para confissões protestantes ou práticas condenadas pela Igreja. Todos estes esperam o Noivo com candeias emitindo luz fraca ou nenhuma luz, devido ao combustível poluente que gastam ou à falta de qualquer combustível. O Noivo recusou as virgens loucas, isto é, não entraram no paraíso, condenando-se assim ao inferno.

6. A luz das candeias acesas esperando o noivo é a Graça de Deus, a vida sem pecado, a prática consciente e luminosa dos Sacramentos da Fé católica,…tudo a emitir luz pura nas almas preparadas para receber o Noivo (Cristo) no momento da morte.

Finalmente, a minha resposta ao ” Enigma bíblico IV” é:

As virgens prudentes não faltaram à caridade, porque estava em jogo a salvação individual de cada uma. Se dessem ou emprestassem azeite, arriscavam ter a candeia ( a Fé) apagada quando viesse o Noivo. Ninguém pode/deve arriscar condenar-se na convicção de que a sua condenação levará alguém à salvação.

É um caso curioso, em que Cristo nitidamente louva um aparente egoísmo e uma aparente falta de caridade. A salvação é um negócio individual, por isso, é preciso fazer tudo para a conseguir. Ninguém pode desleixar-se e esperar que alguém faça por ele o que ele não quer fazer. A Igreja ensina que quem salvar uma alma também salvará a sua e quem levar uma alma a condenar-se também arrisca condenar a sua.

Como acontece isso? A santidade daqueles que se salvarão ajudará outros a salvarem-se, em virtude dos seus sofrimentos, boas obras, sacrifícios, orações, Missas, Comunhões, esmolas,…que essas almas oferecem por certos pecadores ou por pecadores indiscriminados. Os que se condenarem, vivendo e morrendo na prática do mal, são os que esperaram o Noivo com as candeias apagadas, não tendo feito nada por si nem pelos outros, em termos de salvação eterna.

Fica a conclusão final que Cristo deixou: “Vigiai, estai preparados, porque não sabeis o dia nem a hora” em que virá o Esposo! Isto quer dizer que devemos, à semelhança das virgens prudentes, estar preparados para, a qualquer momento enfrentar a morte, que chega, em grande número de casos, sem nenhum aviso prévio.

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Ezequiel Miguel

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Pílulas de sabedoria – I

             Humildade – Vaidade – Soberba

. O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir (Mt 20,28).
.Aquele de vós que quiser ser o maior, seja o mais pequeno (Mc 9,35).
. Lavei-vos os pés,…eu, o Senhor. Fazei o mesmo uns aos outros. (Jo 13, 14).
. Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade, excepto amar e servir a Deus. (Eclesiastes, 1,2).
.Quem se exaltar a si mesmo será humilhado e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado (Lc 14,11).
. Se não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. (Mt 18, 3).

Dos escritos de S. Isidoro de Sevilha:

Humildade -“ Sê humilde, apoia-te sempre na virtude da humildade, procura ficar no último e derradeiro lugar, torna-te, pela humildade, o menor, não te ponhas à frente de ninguém, não te julgues superior aos outros nem tão pouco tenhas o gosto de o ser.
Supõe, antes pelo contrário, que os outros valem mais do que tu, tem-te como o menor de todos e  julga-te inferior a todos. Embora sejas o maior e estejas em maior destaque, cultiva a humildade e, se  a tiveres, serás glorioso. A altura do teu valor e glória será igual à altura da tua humildade.”

Vaidade -“ Foge da gabarolice, acautela-te da atracção da vaidade. Evita gostar dessa vaidade oca e balofa. Não te faças grande nem mais do que és, não te gabes, não chateies com as tuas pretensões, não abras as asas da tua pretensiosa soberba, não levantes, como faz o pavão, as penas do teu orgulho, não te julgues mais do que és diante de Deus, não te faças dono do bem e da virtude, não te inches de importância ao pretenderes passar por uma pessoa toda justa, não faças propaganda nem reclames das coisas boas que fizeste, não te glories das tuas boas acções.
Mas o que deves fazer é procurar descer em humildade para assim poderes crescer na virtude e humilhar-te para poderes ter  a exaltação de Deus. Não te glorifiques a ti mesmo, para não vires a ser humilhado depois. Quem se exalta, será humilhado. O que pretende passar por cima dos outros, acaba por cair em desgraça. Quem se eleva, cairá prostrado. Quem incha de orgulho e vaidade, cairá despedaçado. Quem ao mais alto sobe, ao mais baixo vem cair. A corrupção do óptimo é péssima. O pecado, seja ele qual for, começa sempre pelo orgulho.”

Soberba (Orgulho)– “O pecado também fez cair anjos, ao transformá-los em demónios. A mania da grandeza levou nações à ruína, o orgulho lançou pessoas notáveis na decadência. A arrogância e manias pretensiosas acabaram por derrubar pessoas sublimes. Mas a humildade é que nunca conheceu tal desgraça, nunca se viu caída nem arruinada. A humildade desconheceu sempre a menor escorregadela.
Lembra-te, ó homem, que Deus, ao vir ao mundo, veio vestido de humildade, humilhado na forma de servo e obediente até à morte (Fil. 2.8). Faz por andar assim na vida como andou Jesus. Imita o exemplo de Cristo e segue-lhe os passos. Vive como se fosses uma pessoa sem valor, indigna de ser apreciada e louvada e considerando-te insatisfeito e desgostoso por não seres ainda como devias.”

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Fonte : Santo Isidoro de Sevilha, Infelicidade e Esperança, Editorial Missões ,Cucujães, ps. 86-88
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Ezequiel Miguel

O Purgatório

purgatorio.jpgAcreditar que o Purgatório existe e tem uma função é dogma de fé, isto é, é de crença obrigatória para os que são  cristãos.

Há confissões religiosas que negam a existência do Purgatório, porque, dizem eles, não há  na Bíblia nenhuma referência ao Purgatório. A explicação é simples: Não há lá, porque eles eliminaram o 2º Livro dos Macabeus, onde consta essa referência, embora sem referir a palavra. Judas Macabeu mandou fazer orações e sacrifícios pelos mortos numa batalha, a fim de interceder por eles junto de Deus,    para que Deus lhes perdoasse o pecado que os levou à morte. (Confira: 2 Mac 12,46 )

Relembro que é o baptismo que faz de uma pessoa um membro da Igreja Católica. O Baptismo é válido, mesmo que a pessoa baptizada enverede posteriormente por outra confissão religiosa e se deixe baptizar nela. Este  pretenso segundo baptismo não tem efeito nenhum e não anula o primeiro baptismo.

A palavra purgatório tem a ver com o local ou o estado em que as almas se purgam, se purificam  das faltas ou pecados veniais em que tenham morrido, mesmo após uma Confissão bem feita. Para os que morrerem em pecado grave, mortal, não é o purgatório que os espera, mas o inferno, onde o pecado mortal tem validade eterna, sem possibilidade de qualquer perdão. Por isso, ninguém, cá na Terra, nem mesmo a Igreja Católica, reza pelas almas dos condenados. A sua tragédia é definitiva, não havendo palavras para a descrever.

Vem a perguntar: Então, uma alma vai para o purgatório, mesmo morrendo com todos os pecados perdoados? É mesmo assim, para a maioria dos cristãos, sendo poucas as almas que vão direitinhas ao paraíso sem serem chamuscadas no Purgatório. São esta almas: os mártires da fé, as crianças baptizadas e falecidas antes do uso da razão, os que morreram sob a influência da uma  Indulgência Plenária, os baptizados que nasceram e morreram com total demência mental, incapazes de distinguir o Bem do Mal,…e ainda aqueles que expiaram na vida terrena a totalidade da pena temporária devida no Purgatório, através de sofrimento, boas obras, missas, rosários, esmolas, sacrifícios, orações, frequência dos sacramentos, sobretudo Confissão e  Comunhão eucarística…Enfim, morreram santos e já  totalmente purificados na vida terrena.

A maioria, porém,  dos  cristãos que se salvam passa pelo Purgatório. Aqui, já ninguém pode fazer nada por si próprio. A redução  ou eliminação da pena temporária    depende exclusivamente do tempo que vai passando,  dos vivos e, sobretudo, das Missas que se celebrarem por suas almas. Deus  pode não aplicar o valor das Missas àquelas almas que  tinham a missa em pouca  ou nenhuma conta ou não estavam lá com as devidas disposições. Poderiam estar  sem respeito, distraídas, largamente decotadas,  vestidas de modo a chamar a atenção, de calções, de vestidos sem mangas, comungando em pecado grave, comungando, mas sem dar graças após a Comunhão, etc. Outras almas aproveitarão pouco ou nada das Missas que os seus familiares mandam celebrar por elas, porque faltavam à missa dominical sem motivo ou a encaravam uma seca, uma chatice,…Para estas, se tiverem a sorte de irem parar ao Purgatório, poderão sofrer lá por muitos anos, uma vez que os sufrágios não lhes são (poderão não ser) aplicados.

Uma pergunta intrigante: Como é que funciona isso de as almas que morreram após uma boa Confissão, com todos os pecados graves perdoados, irem parar ao Purgatório e lá ficarem, eventualmente, durante muitos anos?

Funciona assim:  Imagine um Muro pintado com o branco mais branco que há, representando aqui a Pureza Absoluta de Deus. Cada falta leve ou grave, pecado venial ou pecado mortal…tudo isto são pregos cravados no Muro, isto é, cravados na Infinita Majestade e Pureza de Deus, uns, maiores, outros, mais pequenos, pois há faltas e pecados para todos os tamanhos. A Confissão bem feita apaga os pecados, isto é, arranca os pregos. Depois de todos arrancados,…ficam lá os buracos, que são ferimentos no Muro (Deus). Estes buracos (ferimentos) não são apagados pela Confissão. São apagados como? Então, é exactamente por causa desses buracos (ferimentos) que existe o Purgatório, onde se expia uma pena (punição, castigo) temporária, através do sofrimento do fogo e da sensação de ainda não estar na visão de Deus, no paraíso. O fogo do Purgatório é ecológico, isto é, não tem fumo, não cheira, não é negro, não mancha, pois serve apenas para queimar as impurezas que a alma levou para lá. É semelhante ao fogo que purifica o ouro, contrariamente ao do Inferno. Quando esta pena temporária for expiada, as almas sobem ao paraíso, onde serão felizes para sempre. Os sufrágios dos vivos e da Igreja podem aliviar ou encurtar a estadia no Purgatório. Quando isso acontecer, o branco Muro ( Deus) já terá sido reparado, não havendo mais nenhum sinal, por mínimo que seja, dos estragos causados. A isto chama-se a REPARAÇÃO dos danos feitos a Deus pelos pecados graves cometidos e perdoados e também pelos pecados  e faltas leves. Nós, cá na Terra, dizemos  que é a indemnização por danos morais.

Quanto aos ainda vivos,  eles têm a possibilidade de, na Terra, expiar, reparar, reduzir ou anular a pena a que estariam sujeitos no Purgatório. Para isso, uma vida espiritual, o mais possível santa, com a oferta a Deus de todas as situações de sofrimento, com a esmola,  com a prática dos sacramentos,  o rosário, etc. é o que a Igreja ensina e sugere que se faça. Fique com a certeza: O que não se paga cá, paga-se lá! E lá, tudo se paga, como disse Cristo, até ao último centil. É que no Céu só entra “ouro absolutamente puro”.

Do Catecismo da Igreja Católica:

Nº 1030 – Os que morrem na graça e amizade de Deus, mas não de todo purificados, embora seguros da salvação eterna, sofrem depois da morte uma purificação, a fim de obterem a santidade necessária para entrar na alegria do Céu.

Nº 1031 – A Igreja chama PURGATÓRIO a esta purificação final dos eleitos, que é absolutamente distinta do castigo dos condenados. A Igreja formulou a doutrina da fé relativamente ao Purgatório sobretudo nos concílios de Florença e de Trento. A Tradição da Igreja, com referência a certos textos da Escritura  ( 1 Cor, 15; 1Pe 1, 7 ) fala de um fogo purificador:

“Pelo que  diz respeito a certas faltas leves, deve crer-se que existe, antes do julgamento, um fogo purificador, conforme afirma Aquele que é a Verdade, quando diz que, se alguém proferir uma blasfémia contra o Espírito Santo, isso não lhe será perdoado nem neste século nem no século futuro  (Mt 12,31) Desta afirmação podemos deduzir que certas faltas podem ser perdoadas neste mundo e outras no mundo que há-de vir. (S. Gregório Magno ( Diál.4,39)

Nº 1032 – Esta doutrina apoia-se também na prática da oração pelos defuntos, de que fala a Sagrada Escritura: “ Por isso, (Judas Macabeu) pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres das suas faltas” (2 Mac 12, 46). Desde os primeiros tempos, a Igreja honrou a memória dos defuntos, oferecendo sufrágios em seu favor, particularmente o sacrifício eucarístico ( Missa), para que, purificados, pudessem chegar à visão beatífica de Deus. A Igreja recomenda também a esmola, as indulgências e as obras de penitência a favor dos defuntos:

Socorramo-los e façamos comemoração deles. Se os filhos de Job foram purificados pelo sacrifício de seu pai, por que duvidar de que as nossas oferendas pelos defuntos lhes levam alguma consolação? Não hesitemos em socorrer os que partiram e em oferecer por eles as nossas orações (S. João Crisóstomo, Hom. in 1 Cor 41,5 )

Observação final – A Igreja Católica tem o poder de decretar indulgências, entre as quais figura a INDULGÊNCIA PLENÁRIA, que é o perdão total, pleno, da Pena Temporal que a alma teria de sofrer  no Purgatório. Não se deixe enganar por aqueles que dizem que isso é uma compra e venda, ideia protestante que está na base da revolta de Martinho Lutero, e que até muitos católicos defendem. A Igreja serve-se da autoridade que Jesus Cristo lhe deixou, quando disse a Pedro: “..Aquilo que ligares na Terra será ligado no Céu e aquilo que desligares na Terra será desligado no Céu”. Mas tenha em atenção que esta Indulgência não é oferecida de mão-beijada. Tem condições e exigências que é preciso cumprir e satisfazer: Confissão bem feita, Comunhão bem feita, ausência total  de pecado mortal, cumprimento  das regras ditadas para a sua promulgação pela Igreja Católica, em certos períodos, eventos ou circunstâncias.  A mais recente Indulgência Plenária ocorreu durante o Centenário das Aparições de Fátima ( Maio 2017).

Ezequiel Miguel

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Quem são os Justos?

“Estes, que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e donde vieram?…Estes são os que vêm da grande tribulação, que lavaram as suas túnicas e as branquearam no Sangue do Cordeiro. Por isso, estão diante do Trono de Deus e servem-No noite e dia, no Seu santuário e o que está sentado no trono abrigá-los-á na Sua Tenda. Nunca mais passarão fome nem sede; nem o sol nem o calor ardente cairão sobre eles, porque o Cordeiro que está no meio do Trono os apascentará e conduzirá às fontes da Água Viva; e Deus enxugará todas as lágrimas de seus olhos”(Ap7,13-17).

Os Salmos, o Livro dos Provérbios, o Livro da Sabedoria, o Eclesiastes, o Eclesiástico (Ben-Sirá), referem-se muitas vezes aos Justos e aos pecadores, colocando-os em contraste no que respeita ao cumprimento da Lei de Deus e à sorte final após a morte, depois de realçar a vida positiva de uns e a negativa de outros. Como se trata de sabedoria divina, o que lá está escrito continua em vigor, por isso, vale a pena lançar um olhar sobre a situação que a todos tem afectado, afecta e continuará a afectar, não ficando ninguém livre de ser encaixado nos Justos ou nos Pecadores.

O tema dos justos e dos pecadores é algo constante ao longo de toda a Bíblia, aparecendo ambas as categorias nomeadas e referidas sob várias expressões, conforme as traduções para as diversas línguas, mas acabando por exprimirem todas a mesma realidade e a mesma dualidade de santidade oposta a pecado e de justo oposto a pecador. Este conjunto disjunto surge já no princípio da Bíblia, no Génesis, onde se relata o episódio entre Caim, o pecador, e Abel, o justo, ficando aí demonstrado que os justos irão ser perseguidos e maltratados pelos pecadores, ideia muito repetida ao longo dos salmos e que só terminará quando, no fim da Bíblia nos é apresentada a Nova Jerusalém, numa era de Novos Céus, Nova Terra, conforme o descrito no capítulo 21 e 22 do Apocalipse, em que todos passarão a ser justos. Numa outra visão, podemos dizer que a Bíblia começa com os justos Adão e Eva (antes do pecado) e termina com a inauguração de um novo Éden e com uma nova geração de homens, todos Justos, assim se fechando o ciclo, unindo o princípio e o fim, através do poder renovador de Deus: “Eu renovo todas as coisas”( Ap 21, 5)

Os Justos são referidos na Bíblia pelas seguintes expressões, entre outras: os Justos, os rectos de coração, os sábios, os que praticam a justiça, os amigos de Deus (os seus fiéis), os que andam nas vias, sendas ou veredas da Justiça, os que seguem os caminhos do Senhor, os puros de coração, os que praticam os preceitos do Senhor, os tementes a Deus, os que guardam a Sua aliança ou os Seus Preceitos, os Seus Juízos, os que procedem com rectidão, com equidade, com Justiça (santidade), os que seguem por caminhos rectos, aquele em cujo espírito não há engano, mentira, iniquidade, os que andam na lei de Deus…Enfim, os Santos! Já S. Paulo se referia aos cristãos chamando-os “0s Santos” (Ef 4, 12) porque, uma vez recebido o Baptismo, todos ficavam santos, por mais pecadores que tivessem sido, o que ainda hoje acontece quando se é baptizado.

Quem são hoje os Justos ? São Justos todos os que estão no paraíso, canonizados ou não, os que estão no Purgatório à espera de subirem ao paraíso, os vivos baptizados que não estejam em pecado mortal. Mas santos e justos significa mais ou menos a mesma coisa. Os Justos são os que praticam a Justiça e os Santos são os que vivem ou viveram em santidade. Nos planos de Deus não há espaço para recusar atingir a santidade, viver na Justiça, uma vez que Jesus Cristo instituiu os Sacramentos como meios necessários e suficientes para se ser santo, justo, pois Deus sabe de que matéria somos feitos, depois do pecado de Adão e Eva. Nem o santo nem o justo, enquanto vivos, estão livres de pecar, porque toda a carne é fraca, mas têm sempre à mão o arrependimento e o Sacramento da Penitência (Confissão) para repor a situação de justiça ou de santidade que já tinham alcançado ou para (re)começar a subida…

O Justo não permanece confortável em eventuais quedas, mas procura levantar-se o mais rapidamente possível e as vezes que forem necessárias, para reentrar na amizade de Deus. Diz a Bíblia que “o Justo cai sete vezes ao dia, mas sete vezes se levanta”(Prov 24, 16), isto para dizer que há na vida normal do homem, no dia a dia, muitas ocasiões de quedas, incluindo faltas leves, graves, pecados veniais ou pecados mortais, pois se pode pecar por pensamentos, palavras, actos e omissões. Os caminhos do homem estão cheios de teias de aranha, isto é, teias diabólicas, onde se tropeça com facilidade, umas vezes porque nos falta a Sabedoria para vê-las, outras, porque nos convém mais não as ver e outras ainda porque um tipo de teias é o próprio homem que as tece, sem esquecer aquelas com que já nasce. Agora veja-se: Se o Justo cai sete vezes ao dia, quantas vezes cairá aquele que não for justo?

As vantagens do Justo – Na Bíblia, os sofrimentos do Justo surgem na maioria das vezes em consequência da perseguição, traição, armadilhas, calúnias, mentiras, vinganças, má língua, por parte dos pecadores, que não olham a meios para prejudicar o Justo, obrigando este a um recurso permanente a Deus, para suplicar a Sua protecção, pois somente Ele é o seu refúgio e o rochedo da sua salvação. O Justo nunca se revolta contra Deus, confia sempre Nele, na abundância e na pobreza, na saúde e na doença, no sofrimento e na esperança de melhores dias, no alívio permanente ou temporário da sua situação penosa, nunca se esquecendo de O louvar em todas as circunstâncias. O Justo tem sempre presente as faltas, as quedas a que a sua condição humana o submete, por isso, manifesta frequentemente o seu arrependimento, exaltando ao mesmo tempo os tesouros da misericórdia divina para com os corações rectos e arrependidos, que Deus nunca despreza. Também, por vezes, o Justo se queixa a Deus por Ele demorar a atender o seu clamor em situações que parecem desesperadas, mas confiando sempre na Sua bondade e no Seu ouvido atento.

Quanto à Lei de Deus, por causa da qual ele é perseguido pelos inimigos, o Justo canta, exalta, louva, admira a sua excelência, arrebata-se perante tamanha obra de arte, tamanho dom aos homens, tamanha perfeição, tamanha beleza, tamanha medicina para o coração, para a alma, para os olhos, para a sabedoria, para a inteligência, para o conhecimento…(Reler o Salmo 18 B). O Justo não dá o seu tempo e os seus sofrimentos por perdidos, porque vive na certeza da felicidade final, cantando frequentemente a morte que o unirá para sempre a Deus: “Quando poderei contemplar a Face de Deus” ( Sl. 41, 2). O Justo deixará na Terra um rasto de luz, de sabedoria, de inteligência, de conhecimento,… que perdurará, através da sua descendência, por muitas gerações,

Recompensa dos Justos na Terra – Materialmente falando, o Justo já é muitas vezes recompensado na Terra pela sua virtude, pelas suas esmolas, pelo seu amor a Deus e ao próximo, nada lhe faltando: nem bens, nem filhos numerosos, nem uma santa, sábia e prudente esposa para alegrar a sua casa. As riquezas materiais são, no entanto, um meio de santificação, de prática da Justiça ao serviço dos pobres e desvalidos, do órfão, da viúva, do escravo, do estrangeiro, do peregrino, nunca aparecendo um Justo avarento…porque, sendo avarento, deixaria de ser Justo.

O Justo canta, louva, exalta a Sabedoria de Deus, a grandeza das suas obras, a sua fidelidade às promessas da Aliança, o Seu Amor pelos rectos de coração, por aqueles que O temem, pelas maravilhas que operou em favor do Seu Povo, pelos milagres descritos no Êxodo, pela ajuda nas batalhas contra os inimigos, pelo Seu Poder omnipotente e omnisciente, pela libertação dos exílios e do poder dos inimigos, pelo firmamento, pelas estrelas e planetas do firmamento, pelas fontes, rios e mares, pelos animais que povoam os ares, a Terra e os mares, pelas plantas e árvores da Terra, pelos alimentos e erva verde dos campos, pelos ventos, chuva, neve, granizo, relâmpagos e trovões, fogo, água, pelas alturas e pelas profundezas, nada escapando daquilo que há de bom e belo no Universo, numa sinfonia de vozes humanas, de cítaras, harpas, címbalos sonoros e retumbantes, trombetas, tambores, instrumentos de corda e flautas…(Sl 150). O Senhor ainda é louvado porque exalta os humildes, abate os pecadores soberbos, dá pão e ajuda aos peregrinos, aos que têm fome, perdoa as ofensas e usa de misericórdia para com os que O temem, aguarda a conversão dos pecadores, levanta do pó da terra os abatidos, tristes, perseguidos, humilhados e nunca abandona os que Nele confiam e se comprazem em cumprir os Seus preceitos, só aguardando que a morte chegue para os conduzir às delícias ternas.

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Ezequiel Miguel

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Os preceitos do Senhor na Bíblia

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  1. A Lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma, dá sabedoria aos simples. (Salmo 18 /19)
  2. Os preceitos do Senhor são rectos, claros, alegram o coração e iluminam os olhos.
  3. Os preceitos do Senhor são firmes, verdadeiros, mais preciosos que o ouro mais fino, mais doces que o puro mel dos favos. ( Sl. 18 B)
  4. Feliz o homem que se compraz na Lei do Senhor e nela medita dia e noite. É como árvore plantada à beira das águas: dá fruto a seu tempo e a sua folhagem não murcha. Tudo quanto fizer será bem sucedido ( Sl 1)
  5. O caminho de Deus é perfeito, a palavra do Senhor é provada. –(l 17/18)
  6. O temor do Senhor é puro, permanece eternamente. – (Sl  18 B)
  7. O Senhor é bom e recto, ensina o caminho aos pecadores, orienta os humildes na justiça. (Sl 24 /25)
  8. Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e fidelidade para os que guardam a sua aliança e os seus preceitos.
  9. Quem é o homem que teme o Senhor? O Senhor lhe ensinará o caminho que deve seguir. Ele viverá na felicidade e a sua descendência possuirá a terra.
  10. Salvai-me, Senhor, e tende piedade de mim, porque eu procedo com rectidão e os meus pés seguem por caminhos rectos. – (Sl 25 /26)
  11. Feliz o homem a quem o Senhor não acusa de iniquidade e em cujo espírito não há engano. (Sl 31 /32).
  12. Alegrai-vos, justos, e regozijai no Senhor. Exultai vós todos os que sois rectos de coração
  13. Justos, aclamai o Senhor, os corações rectos devem louvá-lo – (Sl 32/33)
  14. A palavra do Senhor é recta, da fidelidade nascem as suas obras. Ele ama a justiça e a rectidão.
  15. Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus e feliz o povo que Ele escolheu para sua herança.
  1. Temei o Senhor, vós os seus fiéis, porque nada falta aos que O temem. 33(34).
  2. Confia no Senhor e pratica o Bem; possuirás a Terra e viverás tranquilo.  36 (37)
  3. Foge da ira e evita a cólera, não te impacientes, que isso pode levar-te ao Mal
  4. Os mansos possuirão a terra e gozarão de imensa paz.
  5. A Lei de Deus está no coração do justo, a sua boca profere a sabedoria e ele não vacila nos seus passos.
  6. Estarei atento ao meu proceder para não pecar com a língua; porei um freio na minha boca.  38(39)
  7. Como falas tanto na minha Lei,… tu, que detestas os Meus Mandamentos e desprezas  as Minhas palavras? (49/50)
  8. Honra-Me quem me oferece um sacrifício de louvor; darei a salvação de Deus a quem segue o caminho recto.
  9. Guarda no coração os meus preceitos, porque te trarão longos dias e anos, vida e prosperidade. Prov 3, 1-2.
  10. Se aceitares as minhas palavras e conservares os meus preceitos…então entenderás o temor do Senhor e encontrarás o conhecimento de Deus. Prov 2, 1-6
  11. É o Senhor quem dá a sabedoria; Ele guarda para os rectos a sensatez, é escudo para os que andam na rectidão e felicidade para os que andam em Seus caminhos, porque os encherá de sabedoria e conhecimento. Prov.2,6-10
  12. Conserva minhas palavras no teu coração, guarda os meus preceitos e viverás- Prov. 4,4
  13. Adquire a sabedoria, adquire a inteligência, não te esqueças delas nem te afastes das minhas palavras. Prov 4,5
  14. Está atento às minhas palavras, dá ouvidos às minhas sentenças, não se afastem dos teus olhos, guarda-as dentro do teu coração, pois são vida para quem as encontra e saúde para a sua carne. Prov 4,20-22
  15. Não te desvies nem para a direita nem para a esquerda; afasta os teus passos do mal. Prov. 4, 27
  16. Presta atenção à minha sabedoria, dá ouvidos ao meu entendimento; assim conservarás a reflexão e os teus lábios guardarão o conhecimento. Prov. 5,1-2
  17. Escutai…ficai atentos para conhecerdes a inteligência: eu vos dou uma boa doutrina, não abandoneis a minha instrução. Prov. 4,1-2
  18. Guarda as minhas sentenças, conserva os meus preceitos e viverás, a minha instrução seja a menina dos teus olhos. Ata-a aos dedos, escreve-a na tábua do teu coração. Prov . 7, 1-3
  19.  O caminho de Deus é perfeito, a palavra do Senhor é provada, Ele protege os que Nele confiam ( Sl  17, 31)
  20.  O Senhor é bom e recto: ensina o caminho aos pecadores, orienta os humildes na justiça e dá-lhes a conhecer os seus caminhos. Todos os caminhos do Senhor são misericórdia e fidelidade para os que guardam a sua aliança e os seus preceitos (Sl 24, 8-10).

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Ezequiel Miguel

Aparições da Virgem Maria em Fátima – VI

13 de Outubro de 1917, na Cova da Iria

Chegara o dia do tira-teimas. Deste dia dependeria o sucesso das Aparições ou o ferrete do fracasso, do embuste, da mentira, da farsa, da encenação, do ridículo, do fiasco, da vergonha…

Como em tudo o que sai fora do vulgar, do comum,  havia uns(poucos) que não duvidavam , outros, que sofriam o angustiante martírio da dúvida e ainda outros que acreditavam, sim, mas numa gigantesca fraude. Assim, duvidavam os pais de Francisco e Jacinta, juntamente com os outros filhos, não acreditavam a mãe de Lúcia e os seus outros filhos e também o Prior de Fátima se contava entre os expectantes e os partidários do “ver para crer”. Entre estes se contava certamente o Administrador de Vila Nova de Ourém, o mais esperançado  em que tudo acabasse naquele dia, pois as suas tentativas de bloquear o andamento dos fenómenos de Fátima tinham redundado em completo fracasso. Entre os entusiastas do primeiro momento das Aparições estavam os Pastorinhos e a D. Maria Carreira das Neves, também chamada a Maria da Capelinha, pelo seu cuidado em cuidar da capelinha das Aparições.

Aproximava-se a hora de partir para a Cova da Iria e, tanto em casa do Francisco e da Jacinta como em casa dos pais de Lúcia, o ambiente era  quase de cortar à faca. A D. Maria Rosa julgou chegado o último dia da vida de Lúcia, por isso, os seus olhos não se afastavam daquela filha que, julgava ela, veria pela última vez com vida…E talvez lhe viessem à cabeça os remorsos  o desprezo, a frieza e os maus tratos que dera à Lúcia durante aqueles seis meses, mas, num rasgo de coragem, contrariou os seus próprios sentimentos e lançou o seu grito de guerra: “Se minha filha vai morrer, eu quero morrer a seu lado!” Convidou os pais de Francisco e Jacinta a fazerem o mesmo, desse no que desse. E foi assim que aumentou em Aljustrel o potencial número dos potenciais mártires da Cova da Iria…

Demos a gora a voz ao Ti Marto, pai do Francisco e da Jacinta:

“ Os curiosos e os devotos enchiam-nos a casa a mais não poder ser. Fora chovia muito. Aquilo estava mesmo um barreiro; era tudo um lamaçal. A minha mulher afligia-se com aquilo tudo. Era gente por cima das arcas, era gente por cima das camas, a sujarem tudo…Eu então dizia-lhe:

– Deixa lá, mulher! Em estando cheia, não leva mais ninguém!…

À hora justa eu dispunha-me a sair atrás dos pequenos, quando um meu vizinho tomou-me para uma banda e disse-me baixinho:

-Ó Ti Marto, é melhor não ir!…Porque poderia calhar ser maltratado…Os pequenos, eles não… (eles) são crianças, ninguém lhes vai fazer mal!…Mas você é que está em risco de ser enxovalhado!

– Pois eu vou na boa fé- respondi-lhe. Não tenho medo nenhum!… Pelo bom andamento das coisas não tenho receio.

A minha Olímpia, sim, essa tinha muito medo,…estava sempre com confusões… Recomendava-se a Nossa Senhora. Futurava aquilo de outra maneira, porque os Padres e mais a gente futuravam aquilo mau. Os pequenos também estavam sossegados da sua vida. A Jacinta e mais o Francisco não tinham perturbação nenhuma.

– Olha, se nos fizerem mal – dizia a Jacinta –  vamos para o Céu, mas os que nos fizerem mal, coitadinhos deles! Vão para o inferno!…

– Abalámos de casa que chovia se Deus a dava. O caminho era uma lama pegada. Mas tudo isso não impedia que houvesse mulheres, e até senhoras, que se ajoelhavam diante das crianças.

– Deixem-se lá dessas coisas, mulheres! – dizia eu. Aquela gente cuidava que os cachopos tivessem um poder que só os Santos têm. Ao cabo de muitos trabalhos e muitas intervenções, lá chegámos à Cova da Iria. O povo era tão cerrado que não se podia furar. Foi então que um chofer levantou a minha Jacinta nos braços e aos empurrões abriu caminho até às varas que tinham as lanterninhas, gritando:

– Deixem passar os meninos que viram Nossa Senhora!

Eu meti-me atrás deles; e a Jacinta, aflita, por me ver no meio de tanta gente, pôs-se a gritar:

-Não me apertem o meu pai, não me apertem o meu pai!…

O tal poisou-a por fim no chão junto da azinheira, mas ali também o aperto era grande e a pequena chorava. Foi então que a Lúcia e o Francisco a meteram no meio deles. A minha Olímpia ficava lá para outra banda, não sei para onde; mas a comadre Maria Rosa chegou mesmo ali ao pé. Eu fiquei um poucochinho desviado e dei então por um mal encarado a carregar-me com um pau no ombro e pensei comigo: – Isto é o princípio da desordem! O povo fazia onda para trás e para diante, até que, quando chegou aquele momento, tudo ficou calado e quieto.”(1)

Das Memórias da Ir Lúcia:

“Saímos de casa bastante cedo, contando com as demoras do caminho. O povo era em massa. A Chuva torrencial. Minha Mãe, temendo que fosse aquele o último dia da minha vida, com o coração retalhado pela incerteza do que iria acontecer, quis acompanhar-me. Pelo caminho, as cenas do mês passado, mais numerosas e comovedoras. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na atitude mais humilde e suplicante. Chegados à Cova da Iria, junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ai povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, em seguida, Nossa senhora sobre a carrasqueira.

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

Virgem Maria (VM) – Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para as suas casas.

Lúcia – Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se convertia uns pecadores, etc.

V.M .– Uns,  sim, outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados. …Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido!

E abrindo as mãos, fê-las reflectir no sol. E enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projectar-se no sol…..Desaparecida Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. S. José com o Menino pareciam abençoar o Mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor parecia abençoar o Mundo da mesma forma que S. José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo”. (2)

Seguem- se três testemunhos do milagre prometido, conhecido por  “o milagre do sol”.

   Conta  o Ti Marto:

1.“  A  gente olhava perfeitamente para o sol e ele não estorvava. Parecia que se fechasse e alumiasse, uma vez dum jeito e outra doutro. Atirava feixes de luz para um lado e para o outro e pintava tudo de diferentes cores – as árvores e a gente, o chão e o ar. Mas a grande prova é que o sol não fazia perturbações à vista. Estava tudo quedo, tudo sossegado; todos os olhos nos astros. A certa altura, o sol parou e depois começou a dançar, a bailar; parou outra vez e outra vez começou a dançar, até que por fim pareceu que se soltasse do Céu e viesse para cima da gente. Foi um momento terrível”…(1)

Conta a Srª Maria da Capelinha:

2. “O sol fazia diferentes cores, amarelo, azul, branco, e tremia, tremia tanto; parecia uma roda de fogo que vinha a cair sobre o povo. A gente gritava: – Ai Jesus, que que aqui morremos todos! Ai Jesus, que aqui morremos todos!… Outros bradavam: Nossa Senhora nos valha! E rezavam o acto de contrição. Houve até uma senhora que fez confissão geral e dizia em altas vozes: – Eu fiz isto, aquilo e aqueloutro!…Por fim o sol parou e todos deram um suspiro de alívio. Estávamos vivos e houvera o milagre que as crianças tinham anunciado”.(1)

Do jornal “O Dia” (de Lisboa)  de 19 de Outubro de 1917:

3. “À uma hora da tarde, hora do sol, parou a chuva. O Céu tinha um tom acinzentado de pérola e uma claridade estranha que iluminava a vastidão árida e trágica da paisagem triste, cada vez mais triste.

O sol tinha como um véu de gaze transparente para que os olhos o pudessem olhar. O tom acinzentado de madrepérola transformava-se como numa chapa de prata luzidia que se ia rompendo até que as nuvens se rasgaram e o sol prateado, envolvido na mesma leveza cinzenta de gaze, viu-se rodar e girar em volta do círculo das nuvens afastadas! Foi um grito só em todas as bocas; caíram de joelhos na terra encharcada os milhares de criaturas de Deus que a fé levantava até ao Céu!

A luz azulava-se num azul esquisito, como se viesse,  através dos vitrais de uma catedral imensa, espalhar-se naquela nave gigantesca ogivada pelas mãos que se erguiam no ar… O azul extinguiu-se lentamente para  a luz parecer coada por vitrais amarelos.

Manchas amareladas caíam agora sobre os lenços brancos, sobre as saias escuras e pobres das estamenhas. Eram manchas que se repetiam indefinidamente sobre as azinheiras rasteiras, sobre as pedras, sobre a terra. Tudo chorava, tudo rezava de chapéu na mão, na impressão grandiosa do Milagre esperado! Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vividos foram”. (1)

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(1)    P. João M. de Marchi (I.M.C.), Era uma Senhora mais brilhante que o sol, 8ªedição, Edição Missões da Consolata, Fátima, págs.  197-202

(2)    Memórias da Ir. Lúcia, Fátima

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Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – V

13 de Setembro de 1917

O número de crentes nas Aparições aumentara substancialmente, pelo que, na manhã do dia 13 de Setembro, as casas dos Pastorinhos foram literalmente invadidas por peregrinos que queriam ver as crianças, falar com elas e apresentar os seus pedidos, no sentido de alcançarem curas ou solução para outros problemas, esperando que chegasse a hora de acompanhá-las à Cova da Iria.

Os caminhos que conduziam à Cova da Iria estavam apinhados de gente que queria simplesmente estar lá para conhecer as crianças e para, possivelmente, se aperceberem de qualquer sinal visível da presença da Mãe de Deus. Naquelas mentes e naqueles corações iria também a manifestação pública da fé, a devoção filial e a oportunidade de estarem mais perto daquela que é a Consoladora dos Aflitos, o Refúgio dos Pecadores, a Intercessora para todos os problemas… Desta vez já não eram somente as pessoas das aldeias próximas, mas já lá havia gente de Lisboa, jornalistas, seminaristas, sacerdotes…, uns, já crentes nas Aparições, outros, ainda desconfiados e aventando ainda a hipótese de se tratar tudo de um embuste demoníaco, o que os levava a um comportamento cauteloso e expectante, preferindo não se aproximarem muito do centro do fenómeno, não fosse advir daí alguma coisa infernal…

Mas estes acalmaram suas dúvidas quando viram, “claramente visto”, como diria Camões, um globo de luz, vindo de Nascente para Poente, e percorrendo, lenta e majestosamente, o espaço aéreo na direcção da Cova da Iria, pousando de seguida sobre a pequena azinheira, o que levou os peregrinos a ajoelharem silenciosamente, enquanto a Conversa com a Senhora durou. Fala-se ainda de um súbito refrescar da atmosfera, do sol que empalideceu, de estrelas que se viam na semi-escuridão, de uma chuva de algo parecido com pétalas, que se desvaneciam ao tocar o solo, fenómenos não vistos por todos, mas apenas por alguns, que não escondiam a sua tristeza pelo facto.

Das Memórias da Ir. Lúcia:

“Ao aproximar-se a hora, lá fui, com a Jacinta e o Francisco, entre numerosas pessoas que a custo nos deixavam andar. As estradas estavam apinhadas de gente. Todos nos queriam ver e falar. Ali não havia respeito humano. Numerosas pessoas, e até senhoras e cavalheiros, conseguindo romper por entre e multidão que à nossa volta se apinhava, vinham prostrar-se de joelhos, diante de nós, pedindo que apresentássemos a Nossa Senhora as suas necessidades. Outros, não conseguindo chegar junto de nós, chamavam de longe:

– Pelo amor de Deus, peçam a Nossa Senhora que me cure o meu filho, que é aleijadinho!

Outro:

-Que me cure o meu, que é cego!

Outro:

– O meu, que é surdo!

– Que me traga o meu marido!…

-…meu filho, que anda na guerra!

– Que me converta um pecador!

– Que me dê saúde, que estou tuberculoso!

Etc., etc.

Ali apareciam todas (as) misérias da pobre humanidade. E alguns gritavam até do cimo das árvores, para onde subiam, com o fim de nos verem passar. Dizendo a uns que sim, dando a mão a outros para os ajudar a levantar do pó da terra, lá fomos andando, graças a alguns cavalheiros que nos iam abrindo passagem por entre a multidão. Quando agora leio no Novo Testamento essas cenas tão encantadoras da passagem de Nosso Senhor pela Palestina, recordo estas que tão criança ainda Nosso Senhor me fez presenciar nesses pobres caminhos e estradas de Aljustrel a Fátima e à Cova da Iria e dou graças a Deus, oferecendo-Lhe a fé do nosso bom povo português, e penso se esta gente se abate assim diante de três pobres crianças, só porque a elas é concedida misericordiosamente a graça de falar com a Mãe de Deus, que não faria se visse diante de si o próprio Jesus Cristo?…Chegámos, por fim, à Cova da Iria, junto da carrasqueira, e começámos a rezar o Terço com o povo. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, a seguir, Nossa Senhora sobre a azinheira.” (1)

Aparição

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

Virgem Maria (V.M.) – Continuem a rezar o Terço, para alcançarem o fim da guerra! Em Outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo e S. José, com o Menino Jesus, para abençoarem o mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda; trazei-a só durante o dia!

Lúcia – Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas: Esta pequena é surda-muda. Não a quer curar?

V.M. – Durante o ano experimentará algumas melhoras.

Lúcia – Tenho muitos pedidos de conversões e de curas…

V.M. – Sim, alguns, curarei; outros, não, porque Nosso Senhor não se fia neles.

Lúcia – O povo gostava muito de ter aqui uma Capela!

V.M. – Empreguem metade do dinheiro, que até aqui têm recebido, nos andores, e sobre eles ponham Nossa Senhora do Rosário; a outra parte será destinada a ajudar a construção duma Capela.

Lúcia – Há muitos que dizem que eu sou uma intrujona, que merecia ser enforcada ou queimada. Faça um milagre para que todos creiam!

V.M. – Sim, em Outubro farei um milagre para que todos acreditem.

Lúcia – Umas pessoas deram-me duas cartas para Vossemecê e um frasco de água de Colónia.

V.M. – Isso de nada serve para o Céu!

E, começando a elevar-se, desapareceu, como de costume.”

Depois destas palavras, a branca Visão despede-se e eleva-se no ar…A Lúcia grita então para o povo:

Lúcia – Se querem vê-La, olhem para ali! – e indica o Nascente… (2)

(1)– Memórias da Ir. Lúcia

(2) P. João M. de Marchi – Era uma Senhora mais brilhante que o sol – 8ª Edição, pgs.165-171

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Ezequiel Miguel

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