Aparições da Virgem Maria em Fátima – VI

13 de Outubro de 1917, na Cova da Iria

Chegara o dia do tira-teimas. Deste dia dependeria o sucesso das Aparições ou o ferrete do fracasso, do embuste, da mentira, da farsa, da encenação, do ridículo, do fiasco, da vergonha…

Como em tudo o que sai fora do vulgar, do comum,  havia uns(poucos) que não duvidavam , outros, que sofriam o angustiante martírio da dúvida e ainda outros que acreditavam, sim, mas numa gigantesca fraude. Assim, duvidavam os pais de Francisco e Jacinta, juntamente com os outros filhos, não acreditavam a mãe de Lúcia e os seus outros filhos e também o Prior de Fátima se contava entre os expectantes e os partidários do “ver para crer”. Entre estes se contava certamente o Administrador de Vila Nova de Ourém, o mais esperançado  em que tudo acabasse naquele dia, pois as suas tentativas de bloquear o andamento dos fenómenos de Fátima tinham redundado em completo fracasso. Entre os entusiastas do primeiro momento das Aparições estavam os Pastorinhos e a D. Maria Carreira das Neves, também chamada a Maria da Capelinha, pelo seu cuidado em cuidar da capelinha das Aparições.

Aproximava-se a hora de partir para a Cova da Iria e, tanto em casa do Francisco e da Jacinta como em casa dos pais de Lúcia, o ambiente era  quase de cortar à faca. A D. Maria Rosa julgou chegado o último dia da vida de Lúcia, por isso, os seus olhos não se afastavam daquela filha que, julgava ela, veria pela última vez com vida…E talvez lhe viessem à cabeça os remorsos  o desprezo, a frieza e os maus tratos que dera à Lúcia durante aqueles seis meses, mas, num rasgo de coragem, contrariou os seus próprios sentimentos e lançou o seu grito de guerra: “Se minha filha vai morrer, eu quero morrer a seu lado!” Convidou os pais de Francisco e Jacinta a fazerem o mesmo, desse no que desse. E foi assim que aumentou em Aljustrel o potencial número dos potenciais mártires da Cova da Iria…

Demos a gora a voz ao Ti Marto, pai do Francisco e da Jacinta:

“ Os curiosos e os devotos enchiam-nos a casa a mais não poder ser. Fora chovia muito. Aquilo estava mesmo um barreiro; era tudo um lamaçal. A minha mulher afligia-se com aquilo tudo. Era gente por cima das arcas, era gente por cima das camas, a sujarem tudo…Eu então dizia-lhe:

– Deixa lá, mulher! Em estando cheia, não leva mais ninguém!…

À hora justa eu dispunha-me a sair atrás dos pequenos, quando um meu vizinho tomou-me para uma banda e disse-me baixinho:

-Ó Ti Marto, é melhor não ir!…Porque poderia calhar ser maltratado…Os pequenos, eles não… (eles) são crianças, ninguém lhes vai fazer mal!…Mas você é que está em risco de ser enxovalhado!

– Pois eu vou na boa fé- respondi-lhe. Não tenho medo nenhum!… Pelo bom andamento das coisas não tenho receio.

A minha Olímpia, sim, essa tinha muito medo,…estava sempre com confusões… Recomendava-se a Nossa Senhora. Futurava aquilo de outra maneira, porque os Padres e mais a gente futuravam aquilo mau. Os pequenos também estavam sossegados da sua vida. A Jacinta e mais o Francisco não tinham perturbação nenhuma.

– Olha, se nos fizerem mal – dizia a Jacinta –  vamos para o Céu, mas os que nos fizerem mal, coitadinhos deles! Vão para o inferno!…

– Abalámos de casa que chovia se Deus a dava. O caminho era uma lama pegada. Mas tudo isso não impedia que houvesse mulheres, e até senhoras, que se ajoelhavam diante das crianças.

– Deixem-se lá dessas coisas, mulheres! – dizia eu. Aquela gente cuidava que os cachopos tivessem um poder que só os Santos têm. Ao cabo de muitos trabalhos e muitas intervenções, lá chegámos à Cova da Iria. O povo era tão cerrado que não se podia furar. Foi então que um chofer levantou a minha Jacinta nos braços e aos empurrões abriu caminho até às varas que tinham as lanterninhas, gritando:

– Deixem passar os meninos que viram Nossa Senhora!

Eu meti-me atrás deles; e a Jacinta, aflita, por me ver no meio de tanta gente, pôs-se a gritar:

-Não me apertem o meu pai, não me apertem o meu pai!…

O tal poisou-a por fim no chão junto da azinheira, mas ali também o aperto era grande e a pequena chorava. Foi então que a Lúcia e o Francisco a meteram no meio deles. A minha Olímpia ficava lá para outra banda, não sei para onde; mas a comadre Maria Rosa chegou mesmo ali ao pé. Eu fiquei um poucochinho desviado e dei então por um mal encarado a carregar-me com um pau no ombro e pensei comigo: – Isto é o princípio da desordem! O povo fazia onda para trás e para diante, até que, quando chegou aquele momento, tudo ficou calado e quieto.”(1)

Das Memórias da Ir Lúcia:

“Saímos de casa bastante cedo, contando com as demoras do caminho. O povo era em massa. A Chuva torrencial. Minha Mãe, temendo que fosse aquele o último dia da minha vida, com o coração retalhado pela incerteza do que iria acontecer, quis acompanhar-me. Pelo caminho, as cenas do mês passado, mais numerosas e comovedoras. Nem a lamaceira dos caminhos impedia essa gente de se ajoelhar na atitude mais humilde e suplicante. Chegados à Cova da Iria, junto da carrasqueira, levada por um movimento interior, pedi ai povo que fechasse os guarda-chuvas para rezarmos o terço. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, em seguida, Nossa senhora sobre a carrasqueira.

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

Virgem Maria (VM) – Quero dizer-te que façam aqui uma capela em minha honra, que sou a Senhora do Rosário, que continuem a rezar o terço todos os dias. A guerra vai acabar e os militares voltarão em breve para as suas casas.

Lúcia – Eu tinha muitas coisas para Lhe pedir: se curava uns doentes e se convertia uns pecadores, etc.

V.M .– Uns,  sim, outros, não. É preciso que se emendem, que peçam perdão dos seus pecados. …Não ofendam mais a Deus Nosso Senhor, que já está muito ofendido!

E abrindo as mãos, fê-las reflectir no sol. E enquanto se elevava, continuava o reflexo da sua própria luz a projectar-se no sol…..Desaparecida Nossa Senhora, na imensa distância do firmamento, vimos, ao lado do sol, S. José com o Menino e Nossa Senhora vestida de branco, com um manto azul. S. José com o Menino pareciam abençoar o Mundo com uns gestos que faziam com a mão em forma de cruz. Pouco depois, desvanecida esta aparição, vi Nosso Senhor e Nossa Senhora que me dava a ideia de ser Nossa Senhora das Dores. Nosso Senhor parecia abençoar o Mundo da mesma forma que S. José. Desvaneceu-se esta aparição e pareceu-me ver ainda Nossa Senhora em forma semelhante a Nossa Senhora do Carmo”. (2)

Seguem- se três testemunhos do milagre prometido, conhecido por  “o milagre do sol”.

   Conta  o Ti Marto:

1.“  A  gente olhava perfeitamente para o sol e ele não estorvava. Parecia que se fechasse e alumiasse, uma vez dum jeito e outra doutro. Atirava feixes de luz para um lado e para o outro e pintava tudo de diferentes cores – as árvores e a gente, o chão e o ar. Mas a grande prova é que o sol não fazia perturbações à vista. Estava tudo quedo, tudo sossegado; todos os olhos nos astros. A certa altura, o sol parou e depois começou a dançar, a bailar; parou outra vez e outra vez começou a dançar, até que por fim pareceu que se soltasse do Céu e viesse para cima da gente. Foi um momento terrível”…(1)

Conta a Srª Maria da Capelinha:

2. “O sol fazia diferentes cores, amarelo, azul, branco, e tremia, tremia tanto; parecia uma roda de fogo que vinha a cair sobre o povo. A gente gritava: – Ai Jesus, que que aqui morremos todos! Ai Jesus, que aqui morremos todos!… Outros bradavam: Nossa Senhora nos valha! E rezavam o acto de contrição. Houve até uma senhora que fez confissão geral e dizia em altas vozes: – Eu fiz isto, aquilo e aqueloutro!…Por fim o sol parou e todos deram um suspiro de alívio. Estávamos vivos e houvera o milagre que as crianças tinham anunciado”.(1)

Do jornal “O Dia” (de Lisboa)  de 19 de Outubro de 1917:

3. “À uma hora da tarde, hora do sol, parou a chuva. O Céu tinha um tom acinzentado de pérola e uma claridade estranha que iluminava a vastidão árida e trágica da paisagem triste, cada vez mais triste.

O sol tinha como um véu de gaze transparente para que os olhos o pudessem olhar. O tom acinzentado de madrepérola transformava-se como numa chapa de prata luzidia que se ia rompendo até que as nuvens se rasgaram e o sol prateado, envolvido na mesma leveza cinzenta de gaze, viu-se rodar e girar em volta do círculo das nuvens afastadas! Foi um grito só em todas as bocas; caíram de joelhos na terra encharcada os milhares de criaturas de Deus que a fé levantava até ao Céu!

A luz azulava-se num azul esquisito, como se viesse,  através dos vitrais de uma catedral imensa, espalhar-se naquela nave gigantesca ogivada pelas mãos que se erguiam no ar… O azul extinguiu-se lentamente para  a luz parecer coada por vitrais amarelos.

Manchas amareladas caíam agora sobre os lenços brancos, sobre as saias escuras e pobres das estamenhas. Eram manchas que se repetiam indefinidamente sobre as azinheiras rasteiras, sobre as pedras, sobre a terra. Tudo chorava, tudo rezava de chapéu na mão, na impressão grandiosa do Milagre esperado! Foram segundos, foram instantes que pareceram horas, tão vividos foram”. (1)

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(1)    P. João M. de Marchi (I.M.C.), Era uma Senhora mais brilhante que o sol, 8ªedição, Edição Missões da Consolata, Fátima, págs.  197-202

(2)    Memórias da Ir. Lúcia, Fátima

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Ezequiel Miguel

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – V

13 de Setembro de 1917

O número de crentes nas Aparições aumentara substancialmente, pelo que, na manhã do dia 13 de Setembro, as casas dos Pastorinhos foram literalmente invadidas por peregrinos que queriam ver as crianças, falar com elas e apresentar os seus pedidos, no sentido de alcançarem curas ou solução para outros problemas, esperando que chegasse a hora de acompanhá-las à Cova da Iria.

Os caminhos que conduziam à Cova da Iria estavam apinhados de gente que queria simplesmente estar lá para conhecer as crianças e para, possivelmente, se aperceberem de qualquer sinal visível da presença da Mãe de Deus. Naquelas mentes e naqueles corações iria também a manifestação pública da fé, a devoção filial e a oportunidade de estarem mais perto daquela que é a Consoladora dos Aflitos, o Refúgio dos Pecadores, a Intercessora para todos os problemas… Desta vez já não eram somente as pessoas das aldeias próximas, mas já lá havia gente de Lisboa, jornalistas, seminaristas, sacerdotes…, uns, já crentes nas Aparições, outros, ainda desconfiados e aventando ainda a hipótese de se tratar tudo de um embuste demoníaco, o que os levava a um comportamento cauteloso e expectante, preferindo não se aproximarem muito do centro do fenómeno, não fosse advir daí alguma coisa infernal…

Mas estes acalmaram suas dúvidas quando viram, “claramente visto”, como diria Camões, um globo de luz, vindo de Nascente para Poente, e percorrendo, lenta e majestosamente, o espaço aéreo na direcção da Cova da Iria, pousando de seguida sobre a pequena azinheira, o que levou os peregrinos a ajoelharem silenciosamente, enquanto a Conversa com a Senhora durou. Fala-se ainda de um súbito refrescar da atmosfera, do sol que empalideceu, de estrelas que se viam na semi-escuridão, de uma chuva de algo parecido com pétalas, que se desvaneciam ao tocar o solo, fenómenos não vistos por todos, mas apenas por alguns, que não escondiam a sua tristeza pelo facto.

Das Memórias da Ir. Lúcia:

“Ao aproximar-se a hora, lá fui, com a Jacinta e o Francisco, entre numerosas pessoas que a custo nos deixavam andar. As estradas estavam apinhadas de gente. Todos nos queriam ver e falar. Ali não havia respeito humano. Numerosas pessoas, e até senhoras e cavalheiros, conseguindo romper por entre e multidão que à nossa volta se apinhava, vinham prostrar-se de joelhos, diante de nós, pedindo que apresentássemos a Nossa Senhora as suas necessidades. Outros, não conseguindo chegar junto de nós, chamavam de longe:

– Pelo amor de Deus, peçam a Nossa Senhora que me cure o meu filho, que é aleijadinho!

Outro:

-Que me cure o meu, que é cego!

Outro:

– O meu, que é surdo!

– Que me traga o meu marido!…

-…meu filho, que anda na guerra!

– Que me converta um pecador!

– Que me dê saúde, que estou tuberculoso!

Etc., etc.

Ali apareciam todas (as) misérias da pobre humanidade. E alguns gritavam até do cimo das árvores, para onde subiam, com o fim de nos verem passar. Dizendo a uns que sim, dando a mão a outros para os ajudar a levantar do pó da terra, lá fomos andando, graças a alguns cavalheiros que nos iam abrindo passagem por entre a multidão. Quando agora leio no Novo Testamento essas cenas tão encantadoras da passagem de Nosso Senhor pela Palestina, recordo estas que tão criança ainda Nosso Senhor me fez presenciar nesses pobres caminhos e estradas de Aljustrel a Fátima e à Cova da Iria e dou graças a Deus, oferecendo-Lhe a fé do nosso bom povo português, e penso se esta gente se abate assim diante de três pobres crianças, só porque a elas é concedida misericordiosamente a graça de falar com a Mãe de Deus, que não faria se visse diante de si o próprio Jesus Cristo?…Chegámos, por fim, à Cova da Iria, junto da carrasqueira, e começámos a rezar o Terço com o povo. Pouco depois, vimos o reflexo da luz e, a seguir, Nossa Senhora sobre a azinheira.” (1)

Aparição

Lúcia – Que é que Vossemecê me quer?

Virgem Maria (V.M.) – Continuem a rezar o Terço, para alcançarem o fim da guerra! Em Outubro virá também Nosso Senhor, Nossa Senhora das Dores e do Carmo e S. José, com o Menino Jesus, para abençoarem o mundo. Deus está contente com os vossos sacrifícios, mas não quer que durmais com a corda; trazei-a só durante o dia!

Lúcia – Têm-me pedido para Lhe pedir muitas coisas: Esta pequena é surda-muda. Não a quer curar?

V.M. – Durante o ano experimentará algumas melhoras.

Lúcia – Tenho muitos pedidos de conversões e de curas…

V.M. – Sim, alguns, curarei; outros, não, porque Nosso Senhor não se fia neles.

Lúcia – O povo gostava muito de ter aqui uma Capela!

V.M. – Empreguem metade do dinheiro, que até aqui têm recebido, nos andores, e sobre eles ponham Nossa Senhora do Rosário; a outra parte será destinada a ajudar a construção duma Capela.

Lúcia – Há muitos que dizem que eu sou uma intrujona, que merecia ser enforcada ou queimada. Faça um milagre para que todos creiam!

V.M. – Sim, em Outubro farei um milagre para que todos acreditem.

Lúcia – Umas pessoas deram-me duas cartas para Vossemecê e um frasco de água de Colónia.

V.M. – Isso de nada serve para o Céu!

E, começando a elevar-se, desapareceu, como de costume.”

Depois destas palavras, a branca Visão despede-se e eleva-se no ar…A Lúcia grita então para o povo:

Lúcia – Se querem vê-La, olhem para ali! – e indica o Nascente… (2)

(1)– Memórias da Ir. Lúcia

(2) P. João M. de Marchi – Era uma Senhora mais brilhante que o sol – 8ª Edição, pgs.165-171

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Ezequiel Miguel

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CRUZ…e cruzes…

(Realidade & ficção)

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. “Se alguém quiser vir após Mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mc 8, 34)

.  “Aquele que põe a mão ao arado e olha para trás não é apto para o Reino dos Céus” (Lc 9, 62)

. “Quereis oferecer-vos a Deus  para suportar todos os sofrimentos que Ele quiser enviar-vos, em acto de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido e de súplica pela conversão dos pecadores?…  Ides pois ter muito que sofrer, mas a graça de Deus será o vosso conforto” (Memórias da Ir. Lúcia : 1ª Aparição)

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cruz25Todos sabemos isso: Cristo redimiu o mundo pela sua Santa Cruz. É isso que proclamamos quando fazemos a devoção da Via-Sacra.

É frequente ouvir-se dizer ou ler que Deus nos criou para sermos felizes, já neste mundo… Isto, dito ou escrito assim, até nos leva a pensar que Deus não estará a cumprir esse Seu desígnio e que não estará a ser fiel aos seus propósitos a respeito do homem. A ter em conta esta opinião ou maneira de ver as coisas, é caso para perguntar: Tenho mesmo o direito de ser feliz já neste mundo e depois continuar essa felicidade no outro? Não será exigir demais? Como conciliar esta visão com o convite que Cristo nos faz de tomar a cruz e segui-Lo? Como se pode ser feliz levando uma vida de sofrimento e contrariedades ? Mas, será mesmo assim, depois do pecado original e até mesmo depois da Morte e Ressurreição do Senhor? A verdade é que esta coisa da felicidade a que julgamos ter direito ( pelo menos na cabeça de alguns), precisa de ser explicada, desmontada, analisada, vista à lupa,…para se poder alcançar uma visão perfeita, completa,…sem margem para equívocos e teorias românticas.

Em primeiro lugar é preciso definir que felicidade é essa que Deus nos reservou já nesta vida. Quem mais teria o direito a essa felicidade do que o próprio Jesus Cristo, a Virgem Maria e S. José? No entanto, a pobreza, a angústia, a perseguição, a incompreensão, a injustiça, a difamação, a calúnia, as ofensas, o sofrimento físico, moral e psicológico,… foram o pão quotidiano que tiveram de comer. Foram felizes, segundo os critérios que estamos habituados a proclamar? É evidente que não, pois já tiveram a sua cruz em vida, acabando Jesus Cristo por morrer na Cruz real de madeira, para dar o exemplo àqueles que quiserem segui-Lo com determinação e amor. A felicidade, segundo o mundo, é a ausência de problemas, doenças, preocupações, angústias, incertezas, receios, medos, insegurança, pobreza, sofrimento, meios de subsistência,… Quem poderá dizer que não tem nada disto? Até aqueles que amontoam milhões têm problemas, uns semelhantes aos dos pobres, outros, típicos da riqueza avarenta. Como explicar também que grandes almas sofredoras tenham dito que não trocavam o seu sofrimento por nada deste mundo. Foi exactamente isto que disse a Beata Alexandrina de Balasar. Porque o terá dito? Porque somente em íntima união com Deus se poderá ser feliz no sofrimento, o que não está ao alcance da maioria. Conclui-se que a Beata Alexandrina era paradoxalmente feliz, apesar do seu sofrimento contínuo. Aí está a única maneira de ser feliz neste mundo: com Deus, por Deus, em Deus, unido à Paixão e Morte de Jesus Cristo, em expiação e reparação pelos próprios pecados e pelos dos outros. Fora deste esquema, a felicidade neste mundo é uma mentira, uma utopia, algo que acontece…em lugar nenhum!

Mas é um facto que a maioria dos homens não se sente feliz no sofrimento e faz tudo para o abolir ou para o reduzir, o que frequentemente não se consegue, levando por vezes ao desejo de alterar as coisas e a invejar a sorte de outros, sem cruz ou com cruz menos pesada.

Baseadas nesta aparente injustiça de Deus, que nos quer felizes, mas não à nossa maneira, chegaram ao Céu imensas reclamações contra o peso da cruz que a grande maioria dos amigos de Deus tinha que carregar. Uns queixavam-se do peso, outros, do tamanho, outros, da falta de postos de apoio, outros, da ignorância dos médicos, outros, da ineficácia dos medicamento e do número de comprimidos e pílulas que tinham de tomar diariamente, outros, da despesa que mensalmente os oprimia, por falta de dinheiro e da vida cara, outros, da dificuldade em conseguir consultas nos hospitais e Centros de Saúde, etc…enfim, um extensíssimo rol a encher muitos milhões de Livros de Reclamações, acabando todos os queixosos por pedir a Deus uma cruz mais leve, mais polida, mais curta, mais adaptada a cada um, mais…,menos…, no caso de terem mesmo de transportar uma.

Uma extensa lista de reclamações mereceu uma análise cuidada, tendo-se chegado a medidas concretas, entre as quais a instituição de uma feira de troca de cruzes. Deus convocou então todos os anjos da Guarda dos reclamantes e deu-lhes instruções precisas sobre o que fazer para pôr de pé essa feira de oportunidades, para o que, cada Anjo informaria o seu protegido sobre o dia e o local feirante. Para que ninguém tivesse razões de queixa e tivesse uma informação completa, foi dado a cada reclamante um extensa lista das cruzes dos outros reclamantes, para que cada um pudesse escolher e propor à aprovação divina. Assim, cada um teria tempo suficiente para ler, reler, pensar, comparar com a sua actual cruz,  ponderar, propor emendas, cortes, acrescentos, remendos, alterações,… depois de, evidentemente, ler o manual de instruções de cada uma.

Munidos de todos os conhecimentos sobre as cruzes dos outros, cada reclamante lá foi à feira. A escolha não foi nada fácil, pois todas pareciam ter algo que as tornavam ainda piores que aquela que lhe tinha cabido em sorte, apesar de, depois de feitas todas as contas, revelarem alguns aspectos um tanto atraentes, quando comparadas com as próprias. E cada um acabou por lá deixar a sua cruz e escolher uma outra, já que  mais não fosse, para variar e quebrar um pouco a rotina monótona de anos a ser triturado pelo mesmo tipo de sofrimento ou de problemas.

Chegados cada um a sua casa, tiveram logo a primeira surpresa desagradável: os familiares mais directos, aqueles que faziam o possível por ajudar a levar, além da sua cruz, a cruz do pai, da mãe, da avó, do avô, etc, e já sabiam como fazer em todas as circunstâncias, começaram a ficar baralhados e a protestar, pois nem sequer tinham sido consultados…Os casos de protestos mais graves vinham dos cônjuges e dos filhos, uma vez que já estavam adaptados quanto à prestação de cuidados e agora não sabiam como fazer. Por outro lado, alguns dos portadores de cruzes em segunda mão tinham máquinas de tratamentos em casa, o que lhes aliviava os sofrimentos provenientes das crises, como eram os casos de traumáticos, asmáticos, reumáticos, ciáticos, doentes da coluna, etc. Agora, essas máquinas  ficavam arrumadas e sem proveito para ninguém. Os cônjuges, então, despejavam mau humor, criticas vinagrentas e azedume sem fim, porque ninguém tinha nada que trocar a cruz sem serem consultados. A cruz antiga também era deles…A pouco e pouco, as dificuldades de adaptação tornaram-se tão sérias que se começou a pensar em reivindicar a cruz antiga.

Mas havia outros problemas. Os que tinham trocado as suas cruzes mal podiam sair à rua, porque desatavam todos a fazer perguntas indiscretas, como: “ Então tu eras cego e agora passaste a ser coxo? O que é que aconteceu?”; “Então tu eras diabético e agora passaste a ser asmático? Que raio de coisa aconteceu aí?”; “Então tu sofrias de dores no braço esquerdo e agora as dores passaram-te para o pé direito?”; “ Então tu andavas sempre com dores de cabeça e agora passaram-te para um joelho?”;  “Tu tinhas diabetes e trocaste pelo colesterol! Como foi isso”? E assim por diante. Estes encontros e estas perguntas importunas e inoportunas tornavam-se num massacre, com a agravante de ninguém estar interessado em revelar o segredo.

Mas as coisas não ficavam por aqui. Ninguém previra que os comprimidos das doenças antigas não serviam para as novas, por isso, era preciso ir aos Centro de Saúde requisitar medicação totalmente diferente, o que deixava os médicos perplexos e sem encontrar uma explicação. A antiga doença desaparecera e surgira outra em seu lugar, o que, em alguns casos,  se podia confirmar logo ali. Se fosse só um caso, mas eram cada vez mais. Os médicos, apesar de convencidos daquela nova realidade, não deixavam de lançar cerrados questionários aos doentes sobre o surgimento das novas doenças e a cura das antigas. Passaram então a requerer novos exames, análises, radiografias, T.A.Cs., ecografias, juntas médicas, internamentos compulsivos em hospitais,…tudo para se diagnosticar a intrigante causa deste fenómeno. As doenças deixaram de bater certo com os ficheiros dos computadores, assim se gerando um caos nos registos e nas estatísticas, para já não falar na ruptura de stocks de certos medicamentos. Os médicos também se acusavam mutuamente de terem feito imensos diagnósticos errados, tendo até o assunto chegado à Ordem dos Médicos e aos Ministérios da Saúde.

Quanto aos internamentos compulsivos, os pacientes viram-se de um dia para o outro em camas de hospitais, rodeados todos os dias por exércitos de Professores, Doutores, Enfermeiros, Estagiários, Estudantes de medicina e de enfermagem, médicos especialistas disto e daquilo, todos querendo saber onde lhes doía antes e depois, se tudo aconteceu gradualmente ou de um momento para o outro, que sintomas tinham notado antes, durante e depois, como se sentiam antes, durante e depois, se preferiam a situação de antes ou depois, se sentiam que eram eles mesmos ou outras pessoas, se sentiam que os  seus psíquicos  tinham sido afectados, como era a nova situação lá em casa, se tinham ganho alguma coisa com a nova situação, se tinham ido à bruxa ou se tinham feito um pacto com o diabo, se tinham ou não feito uma novena a algum santo para lhes trocar a doença, se tinham pago alguma coisa a alguém ou consultado poderes ocultos, etc, etc.  Estas questões e outras, que não são para ser referidas aqui, obtinham como única resposta um “Não!”. Entre os constantes grupos de interessados em volta dos doentes havia também Psiquiatras, Físicos, Matemáticos, Astrólgos, Astrónomos, Sociólogos, Virólgos, Metereólogos, Fisiólogos, Cirurgiões de todas as áreas do corpo humano, todos disparando perguntas que provocavam ataques de riso nos doentes. Foi assim que os Psiquiatras concluíram que todos os doentes afectados e em estudo sofriam de um sintoma intrigante que levaria a pensar numa doença do foro psiquiátrico. Este e outros sintomas, aliados ao facto de todos responderem “Não” a todas as perguntas, levaram-nos a concluir que se tratava do” Sindroma Negativo das Doenças Trocadas”.

Não tardou muito que o alarme surgisse nas rádios, nas televisões, nos jornais, entrando tudo em pânico, por se suspeitar de epidemias, pandemias, fenómenos diabólicos, mutação de vírus, fenómenos misteriosos no interior dos corpos, sinais de proximidade do fim do mundo…Os governos e  os Ministérios da Saúde não sabiam o que fazer, pois não havia dados científicos que explicassem tais fenómenos. Todos os dias surgiam notícias pavorosas e alarmantes, provenientes ora de um país ora de outro, sem que ninguém desse um palpite sobre o fenómeno. Começaram a surgir convocações para jornadas, mesas-redondas, debates televisivos e radiofónicos, congressos nacionais e internacionais, simpósios, conferências e videoconferências…Alvitrou-se que a causa poderia estar no lançamento para a atmosfera de gases venenosos e tóxicos que poderiam produzir efeitos contraditórios desconhecidos ou que tudo fosse obra de organizações terroristas a que ninguém ficaria imune. Simultaneamente, os utentes das novas doenças começaram a ser convocados para relatar tudo o que tinham comido, bebido, feito nos meses anteriores, por onde tinham andado, que curandeiros, bruxos, médiuns, tinham consultado, que tipo de medicinas tinham adoptado, se tinham feito algum pacto com o diabo, se tinham contactado com algum E.T. (Extra-Terrestre). Também perguntavam se tinham passado por tratamentos alopáticos, psiquiátricos, homeopáticos, naturopáticos, holísticos, osteopáticos, quiropráticos, yoguísticos, massagísticos, hipnóticos,……. Igualmente queriam saber se tinham andado envolvidos em rituais satânicos, em filosofias ou práticas de Budismo, Confucionismo, Hinduísmo, Vudismo, Xamantismo, Animismo, Xintoísmo, Taoismo, Janismo, Sikhismo, Mahayanismo, Quimbanda, Umbanda, Candomblé, etc. ou se tinham sido vítimas de maus olhados, inveja de vizinhos ou de alguma alma do outro mundo. Também lhes perguntavam o que eles pensavam do fenómeno e se achavam que aquilo vinha de Deus ou do diabo.

Os governos uniram-se para debater este assunto e decidiram instituir um prémio para quem aventasse uma explicação razoável, credível, aceitável, confiável,…só que o prémio não foi ganho por ninguém, uma vez que os afectados mantiveram o silêncio, pois as consequências poderiam ser catastróficas para eles, mais do que já eram. Embora o prémio monetário fosse chorudo, o receio das multas,  dos tribunais, das indemnizações, das prisões,…actuou como um ferrolho para a língua.

Em breve se chegou ao ponto de cada um se esconder para não ser obrigado a sujeitar-se ao massacre dos infindos interrogatórios, exames e internamentos compulsivos…  É de salientar que nenhum dos doentes revelou o que quer que fosse sobre a origem daquilo que já era considerado um problema mundial. Neste assunto não tocavam, dando até a impressão de terem feito um pacto de silêncio assinado com o próprio sangue. Também é verdade que temiam que as coisas ainda se complicassem mais e que acabassem por ser todos enjaulados nos manicómios, o que seria pior a emenda que o soneto, como se diz popularmente, receio que não era sem fundamento, dado o clima de caça às bruxas que se tinha instalado. Temiam que se chegasse aos métodos usados por Hitler para caçar os Judeus.

Com a sobrecarga de exames, análises, radiografias, etc. e medonhas listas de espera, pois queriam analisá-los da cabeça aos pés, os utentes de novas doenças também desesperavam e começavam a desanimar, uns desmaiando com fome nas listas de espera, enquanto aguardavam as picas para tirar sangue em jejum, outros sentavam-se no chão por não haver cadeiras para todos, outros já dormiam nos corredores enquanto não eram chamados. A tal ponto chegou tudo que deram por eles a matutar em requerer a doença antiga, pois já estava a ser demais, dando a impressão (que não era só impressão) de que as novas cruzes traziam qualquer coisa escondida, de que ninguém se tinha apercebido. Daí começarem todos a examiná-las de perto, milímetro a milímetro, em busca de algo suspeito. Foi com surpresa que finalmente cada um foi descobrindo a explicação para os inesperados aborrecimentos e contrariedades por que já tinham passado e estavam ainda a passar Lá bem disfarçado num recanto, estava escrito: “Pouco usada, em bom estado e com oferta extra”…Aí estava a explicação de muita coisa! Só havia uma solução: requisitar urgentemente a antiga cruz e acabar de vez com este caos a que se tinha chegado, tanto mais que havia indícios de algo que ainda estaria para vir! Tinham começado a aparecer teses de medicina com títulos como: “Alterações estruturais do cérebro humano na génese das doenças mutantes”, às quais se acrescentavam subtítulos do género:” Hipóteses”, “Novas Hipóteses”, “Novos dados”, “Novas descobertas”, “Novo contributo”, “Novos dados científicos”, “Novos estudos”, “Novas suspeitas”, etc. Mas algo mais alarmante surgiu. Uma das teses avançava que a única maneira de se descobrir a explicação científica para o fenómeno consistia em organizar uma lista exaustiva de pessoas afectadas e, à medida que fossem morrendo, sacar-lhes o cérebro para estudo…A notícia divulgou-se depressa e deixou os afectados em pânico, pois nenhum gostaria de ver a sua cabeça aberta e o seu cérebro espalmado como uma panqueca numa bandeja, fosse para o que fosse, nem vivo nem morto!

Entretanto, os laboratórios afadigavam-se na tentativa de descobrir uma vacina para estes fenómenos intrigantes, pois a miragem de lucros astronómicos já dançava nos ares. Mas havia um problema: os cientistas e os médicos não lhes forneciam a mínima pista para eles começarem a trabalhar nas vacinas.

Estas notícias alarmantes deram lugar a horríveis pesadelos, angústias, medos secretos, depressões, insónias e sei lá que mais. Em breve começaram a chover no Céu os pedidos de devolução urgente da primeira cruz. Quando todos os portadores de cruzes em segunda mão já tinham enviado o requerimento,  Deus convocou-os a todos, através dos seus Anjos da Guarda, para uma nova feira de trocas, a que não faltou ninguém, pois todas as segundas cruzes tinham perdido o seu brilho aparente e tinham revelado facetas escondidas, tendo-se transformado em fardos mais pesados que as anteriores, as quais, agora se reconhecia,   se ajustavam perfeitamente a cada um como um fato feito por medida. Estas eram as razões invocadas nos requerimentos que pediam a devolução das cruzes primitivas. Avançava-se ainda uma outra vantagem: é que agora, após a experiência negativa com as segundas cruzes, já todos estavam em condições de apreciar a sabedoria divina que, tendo de fazer tantos milhões de cruzes, sabe fazer um modelo único para cada um dos seus amigos, de modo a que ninguém inveje a cruz de outro, pois, tal como um fato feito para outro, só serviria de estorvo quando usado por quem tem medidas diferentes. Para melhor convencerem Deus, acrescentavam ainda que prometiam nunca mais se queixarem, prometiam aceitá-la de volta com novo entusiasmo, prometiam abraçá-la, beijá-la e desejá-la como companheira inseparável até à morte, tal e qual como Jesus Cristo e os milhões de santos tinham feito em suas vidas. Não deixavam ainda de pedir perdão a Deus pela insensatez que tinham revelado ao pôr em causa o Seu amor, a Sua bondade e sabedoria em dar a cada um a cruz que cada um precisava e não mais do que isso. Pediam ainda perdão pela falta de paciência, falta de aceitação da vontade de Deus, falta de espírito de sacrifício, falta de entusiasmo pela conversão de pecadores e pela salvação de almas no caminho da perdição e ainda por não quererem desagravar, através da sua própria cruz, os Corações de Jesus e de Maria, ofendidos por todo o tipo de pecados.

Na corte celeste todos estes argumentos foram tidos em conta. Os anjos foram então convocados para anunciarem essa segunda feira de trocas que, bem vistas as coisas, seria de destrocas. Cada um dos requerentes foi informado do dia, hora e local e todos lá apareceram para recuperarem aquilo que sempre fora seu, feito à sua medida, com registo de propriedade inalienável. Cada um se apressou a abraçar a sua querida cruz, agora envernizada e com cara de nova, da qual já tinham imensas saudades, devolvendo com prontidão algo que não lhes assentava bem, por não ter sido planeado, desenhado, alinhavado, tecido, cosido e provado para eles, tendo todos chegado à conclusão que Deus era o Construtor perfeito que tinha feito as cruzes à medida de cada um. Louvor a Ele! Todas as cruzes traziam impressa uma mensagem: “In hoc signo vinces!” Após consulta a entendidos, ficou a saber-se que significa :”Com (por) este sinal vencerás!”. Podiam ouvir-se frases como esta: “ Anda cá, ó minha cruz querida! Que saudades eu tinha de ti! Foste feita para mim e eu para ti! Agora já nada nos poderá separar, a não ser a morte! Deus fez-te para mim e serás tu que me transportarás até ao Céu! É contigo que eu quero seguir o meu Senhor e cumprir em mim o que falta à Sua Paixão!” (Col 1, 24)

Quando cada um regressou a casa já com a sua própria cruz, pondo-se a examiná-la bem, descobriu na base o seu próprio nome, com uma dedicatória de Jesus que dizia:”Ao meu / à minha  querido/a servo/a  N…, com o infinito Amor do teu Senhor”. Num recanto descobriram também um artístico, dourado e atraente Manual de Instruções, do qual constava, entre outras coisas, o seguinte:

. A Cruz, embora tenha um telecomando, (que ficou Comigo) está programada para funcionar automaticamente, por isso, não será de estranhar que o seu peso não seja sempre o mesmo, não valendo a pena interrogar-se sobre os porquês, os quandos, os ses, os comos, etc. ou questionar-se sobre a sua afinação, pois está afinada para sempre, haja o que houver, funcione da maneira que funcionar, às vezes até parecendo mesmo que está avariada ou que tem o peso do universo.

. A Cruz deve ser usada todos os dias, a fim de evitar que  se enferruje ou comece a funcionar irregularmente.

. A Cruz está munida de sensores que detectam se quem a usa o faz por amor ou porque não tem meios de a destruir. Ela pode avariar se os seus sensores detectarem sinais de revolta no seu transporte, tornando-se, neste caso, absolutamente insuportável.

. A Cruz ficará menos pesada se for levada com entusiasmo, por amor a Mim, vosso Mestre.

. A Cruz é uma peça única no mundo, apesar de haver muitas parecidas, por isso, leva o nome de cada um e um registo de propriedade com o vosso nome.

. A Cruz tem garantia vitalícia de fabrico, por isso, durará durante toda a vida de quem a usar.

. A  Cruz está feita à medida de cada um, por isso, não tente vendê-la, dá-la, emprestá-la, alugá-la, acrescentá-la, atirá-la fora, diminuí-la, reduzi-la no peso ou no tamanho.

. A quem a usar devidamente, também funcionará como chave para abrir as portas do paraíso, por isso, não a perca e leve-a consigo para todo o lado, mesmo que pareça que não vai precisar dela.

Perante estas garantias, todos abraçaram a sua Cruz, fizeram uma aliança com ela e…foram felizes para sempre!

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Ezequiel Miguel

Testemunho de Gloria Polo XVI – O Livro da Vida

Tópicos – Compaixão pelo próximo / falsas boas obras/ caridade interesseira / O deus dinheiro/ O Livro da Vida/ sofrimento da mãe e infidelidade do pai/ a criação das almas

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infidelidade“Eu nunca tive amor nem compaixão pelo Próximo, pelos meus irmãos de fora. Eu nunca pensei sequer nos doentes, na sua solidão, nas crianças que não têm mãe, nos órfãos, tantas crianças a sofrer, tanto sofrimento…Eu poderia dizer: “Senhor, concede-me a graça de ir lá acompanhá-los na sua dor”,…mas não!

Nada! Jamais o meu coração de pedra se lembrou do sofrimento dos outros. O mais terrível era que eu jamais fiz algo por amor ao próximo!…Por exemplo, eu paguei as contas no supermercado a muita gente quando não podiam pagar, pessoas necessitadas, mas não dava por amor! Eu tinha dinheiro e não me custava nada. Eu dava porque era muito agradável que toda a gente visse o meu gesto e que dissessem que eu era boa, que eu era uma santa! E como me sabia bem manipular as pessoas em necessidade! Eu não dava nada grátis! Então, eu dizia-lhes: “Eu dou-lhe isto, mas, em troca, faça-me um favor e vá substituir-me no colégio dos meus filhos, nas reuniões, porque eu não tenho tempo, ou leve-me estas compras ao carro, ou faça-me isto ou aquilo…E assim, eu a todos manipulava para pedir algum favor em troca…Além disso, adorava que andasse um monte de pessoas atrás de mim, a falar da boa e generosa, e até santa…que eu era, porque havia pessoas que até diziam isso e sabia-me bem!…

Jesus fez-me esse exame dos 10 Mandamentos e eu vi como da cobiça saíam todos os meus males. Esse desejo eu o tinha, porque pensava que seria feliz se tivesse muito dinheiro. Fiquei obcecada pelo dinheiro, muito dinheiro! Pena foi que, quando tive muito dinheiro, sentia-me só, vazia, amargurada, frustrada. Essa cobiça, essa ganância do dinheiro foi o caminho que me levou, pela mão do maligno, a extraviar-me e a soltar-me da mão do Senhor, que me disse: “É que tu tinhas um deus e esse deus era o dinheiro e por ele te condenaste! Por ele, afundaste-te no abismo e afastaste-te do teu Senhor”!

Quando me diz “deus dinheiro”…Nós, sim, tínhamos chegado a ter muito dinheiro, mas agora estávamos quebrados, muitíssimo endividados e tinha-se acabado o dinheiro. Eu grito: “Mas qual dinheiro?! O que eu deixei na Terra foram muitas dívidas!…E assim, no meu exame dos 10 Mandamentos eu não passei em nada! Foi terrível!!! Que espanto! Vivi um verdadeiro caos! Mas como?! Eu?! Eu nunca tinha assassinado ninguém! Não fazia mal a ninguém! Isso era o que eu pensava, mas, na verdade, eu tinha morto tanta gente!

Até aqui falei dos 10 Mandamentos, porque se me abriu o “LIVRO DA VIDA”. Ai!… Que beleza!…Lá, vemos a nossa vida desde o momento em que fomos concebidos.”

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O Livro da Vida

Depois dos 10 Mandamentos, o Senhor mostrou-me o Livro da Vida. Eu gostaria de ter palavras para descrevê-lo. Que beleza! Vemos toda a nossa vida, os nossos actos, as consequências desses actos, bons ou maus, em nós e nos outros. Os nossos sentimentos e pensamentos nos outros. Tudo como num filme. Começa no momento da fecundação, vemos a nossa vida desde esse momento e, desde aí, vamos, pela mão de Deus, ver a nossa vida. No momento da nossa fecundação houve uma faísca de luz divina, uma explosão belíssima, e formou-se uma alma, que é branca, mas não como o branco que conhecemos. Digo branco, porque é o que mais se parece, mas é tão lindo que é impossível de descrever, com palavras, a beleza, o brilho,…cheia de luz, formosa, radiante e cheia do Amor de Deus. Um Amor de Deus impressionante! Não sei se já repararam nos bebés, que, muitas vezes, riem-se sós e emitindo aqueles sons e balbucios….Eles estão falando com Deus. Sim, porque eles estão submergidos no Espírito Santo. Nós também estamos, a diferença é que eles, na sua inocência, sabem desfrutar de Deus e da Sua presença.

Vocês não imaginam que coisa linda foi ver o momento em que Deus me criou, no ventre da minha mãe. A minha alma, levada pela mão de Deus Pai! Encontro um Deus Pai tão formoso, tão maravilhoso, tão terno, tão meigo e tão carinhoso que cuida de mim 24 horas por dia. Ele amou-me, protegeu-me e sempre me procurou quando me afastava e com infinita paciência e eu que só via castigo!… Ele era mais que somente Amor, porque Ele olha, não a carne, mas sim a alma e olhava como eu me ia afastando da salvação.

.…A minha mãe tinha 7 anos de casada e ainda não tinha filhos. Mas nesse momento estava ela muito perturbada, pela vida de infidelidade do meu pai. Quando viu que estava grávida (de mim), ficou muito preocupada e muito angustiada. Chorava, muito aflita. Isso gerou em mim uma angústia tal, que me marcou interiormente de tal forma, que eu, pela vida fora, nunca me senti amada pela minha mãe. Mas ela sempre foi muito carinhosa e muito bondosa para comigo, …mas eu dizia e insistia que ela não me amava e vivi sempre com esse complexo. Para isso, só os sacramentos são graças de Deus que nos curam. Quando me baptizaram, vocês devem ver a festa que houve no Céu! É um bebezinho marcado na fronte (um dia vocês verão), é a marca dos folhos (adoptivos) de Deus. É um fogo! É o fogo da pertença a Jesus Cristo. Mas vejo, no Livro da Vida, como, desde pequenina comecei a encher-me das consequências do pecado do meu pai, no matrimónio, dos pecados que comecei a conhecer; como as mentiras dele, as bebedeiras, a infidelidade e o sofrimento da minha mãe. Tudo isso me marcou e gerou em mim mau comportamento, mãos padrões de conduta e padrões emocionais que iriam marcar-me e expressar-se ao longo de toda a minha vida”.

FONTE: Gloria Polo, Estuvo en las puertas del cielo y del infierno”, tradução de Maria José Moniz e Padre Macedo SCJ (Da ilusão à verdade), edição da Cidade do Imaculado Coração de Maria, Apt 86, 2496-908, Fátima

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Comentário, por Ezequiel Miguel:

1 . Infidelidades conjugais – Glória Polo refere-se, com frequência, às infidelidades conjugais por parte do seu pai e aos sofrimentos que ele causou à sua mãe, que, poderemos supor, andaria sempre triste e amargurada, mas oferecendo os seus sofrimentos a Deus pela conversão do seu marido, o que, no final, conseguiu, 7 anos antes de ele morrer. Gloria Polo acaba por dizer que viu o seu pai no Purgatório e que chorava… É que no Purgatório sofre-se para além do que possamos imaginar, embora seja um sofrimento purificador, à semelhança do oiro, que tem de ser derretido no fogo até ficar puro…

Foi Deus quem instituiu o casamento entre o primeiro homem e a primeira mulher, para ser sempre assim, em moldes definitivos, definindo-lhes o principal dever como casal abençoado por Deus: “Crescei e multiplica-vos”, o que significa que Deus entregou a criação de novos seres humanos a esta instituição, que Cristo elevou à dignidade de Sacramento, com o nome de Matrimónio (em língua portuguesa). Os casais que casem só pelo Civil estão sujeitos às mesmas obrigações impostas pelo Matrimónio: Um homem e uma mulher unidos por promessa de vínculo permanente e de absoluta fidelidade conjugal. Como Sacramento, é algo sagrado, com um vínculo também permanente, indissolúvel, até um dos cônjuges morrer. Pode, no entanto, haver alguma cláusula que, após investigação, torne esse Matrimónio inválido, nulo, sem efeito, após declaração, nesse sentido, por parte de um tribunal eclesiástico da Igreja Católica. Essas cláusulas estão registadas no Código de Direito Canónico.

Concluindo: Qualquer união sexual que não esteja legalizada por um contrato nupcial entre um homem e uma mulher (religioso ou não), com vínculo permanente e indissolúvel, é pecaminoso, trazendo graves consequências para a salvação das almas. Por isso, casamentos homossexuais são actos contra a natureza, catalogados, pelo Catecismo da Igreja Católica, nos “pecados que bradam aos Céus”, isto é, pecados de sodomia, que apelam à ira divina por destino trágico, tal como aquele que foi dado a Sodoma, Gomorra e outras três cidades, no tempo de Abraão e Lot. Por isso, nenhum católico pode/deve celebrar, defender, apoiar ou assistir, como convidado, a semelhantes uniões, mesmo que sejam de familiares.

2 . A criação das almas – Pelo que Gloria Polo conta, a alma é a partícula de Deus, a faísca luminosa que se desprende de Deus e voa até entrar no embrião no exacto momento em que a célula masculina se une à feminina. É algo repentino, não fruto de um processo, mas um acto puro da vontade divina, em Cujo pensamento a alma já teria o seu destino marcado: desprender-se de Deus e unir-se a um determinado corpo, vivendo nele durante esta vida, separando-se após a morte e voltando a unir-se a ele na Ressurreição da Carne, no Juízo Final, para um destino eterno no Paraíso ou no Inferno. São dogmas de Fé, por isso, é obrigatório, para os católicos, acreditar que é assim, sem dúvidas, sem contestação, sem distorção, sem branqueamentos. Sendo assim, a alma já é recebida no ventre materno e somente se separará do corpo após a morte, para ser julgada e receber a sorte que merece pelas obras que tiver praticado através do corpo.

Por altura dos plebiscitos sobre o aborto ou sobre as leias abortivas, é comum ouvir dizer, a quem não acredita nestas coisas, incluindo médicos, cientistas, biólogos, mulheres,…: “Aquilo não é nada”! O facto, porém, é que Aquilo, nos planos de Deus, já é tudo! Cada um de nós já foi tudo no exacto momento da fecundação, acredite-se ou não! É por isso que a Igreja considera todo o aborto um crime horrendo, um assassínio a sangue frio, de um inocente, o maior dos crimes, segundo Teresa de Calcutá, e que traz graves consequências para o mundo.

Com ter sempre presentes estas realidades só teremos a ganhar! Se as ignorarmos, combatermos, negarmos, distorcermos, branquearmos, mascararmos,…pode ser-nos fatal. Cristo fundou a Sua Igreja (A Igreja Católica) para deixar os meios necessários à salvação das almas, pois elas, tendo vindo de Deus, Deus quere-as de volta, tão brancas como no momento inicial da sua criação ou ainda mais, se tivermos em conta que foi baptizada, com o pecado original apagado.

3 . O LIVRO DA VIDA –

Do Apocalipse:

  1. Vi também todos os mortos, grandes e pequenos. Estavam diante do trono; e foram abertos uns livros. Foi aberto também um outro livro, que é o livro dos vivos. Os mortos foram julgados segundo aquilo que estava escrito nos livros, segundo as suas obras. …E todos os que não foram encontrados escritos no livro dos vivos foram lançados no lago de fogo” ( Ap 20, 12-15).

2 . …E adoraram-na ( a Besta) todos os habitantes da Terra, aqueles cujos nomes não estão escritos no Livro da Vida do Cordeiro, que foi imolado” (Ap 13, 7-8).

3 . …E vão espantar-se os habitantes da Terra, aqueles cujos nomes não estão escritos no Livro da Vida…( Ap 17, 8).

4 . No entanto, tens em Sardes algumas pessoas que não mancharam as suas vestes; esses caminharão comigo, vestidos de branco, pois são dignos disso. Assim, o que vencer andará vestido com vestes brancas e não apagarei o seu nome do Livro da Vida, mas o darei a conhecer diante de meu Pai e dos seus anjos( Ap 3, 4-5).

5 . Exorto Evódia e exorto Síntique a terem o mesmo pensamento no Senhor. Sim, e a ti, fiel Sízido, peço-te que as acolhas; são pessoas que, em conjunto, lutaram comigo pelo Evangelho, juntamente com Clemente e os meus restantes colaboradores, cujos nomes estão no Livro da Vida ( Filipenses 4, 2-3).

Sabemos que a nossa vida é um exercício de economia, em que o Livro tem colunas para o Deve e para o Haver, para o Saldo positivo e para o Saldo negativo. As nossa obras são postas nos pratos da balança em que pode acontecer igualdade no peso, ir abaixo com as boas obras ( mais pesadas) e subir com as más, sem peso para a salvação. Ficámos a saber que cada um de nós tem um “Livro da Vida”, onde tudo é escrito: boas obras, más obras, intenções, pensamentos, pecados, palavras, virtudes, defeitos, paixões, etc.

Já tenho ouvido dizer que não devemos preocupar-nos com as actualizações do nosso Livro da Vida! É que a escrita é demasiado complicada para nos preocuparmos com ela, bastando saber que Deus se encarrega disso e que no fim saberemos qual a diferença entre o Deve e o Haver, sem falhas, sem batotas,…mas com verdade incontestável. Seria bom que Deus nos desse a conhecer o estado diário da nossa economia, mas, felizmente ou infelizmente, só no fim é que somos informados, quando já nada podemos fazer para remediar o que for de remediar.

Quanto a remediar, temos de entender como funciona o Haver e o Deve, pois somos nós que vamos fornecendo os dados ao nosso divino Contabilista, que Ele lança no nosso Livro de modo imediato e automático. Funciona assim:

Os dados não têm todos o mesmo peso e o mesmo valor e isto aplica-se tanto aos positivos como aos negativos. Um princípio em que tudo se baseia é este: Se a pessoa está na graça de Deus (=sem pecado grave), tudo ou quase tudo tem valor positivo, contribuindo para a soma do Haver. Se a alma está em pecado grave (pecado mortal), os dados são lançados no Deve, ficando o saldo em totalmente Negativo (= Zero), mesmo que faça obras boas, pois vive fora do Amor a Deus, longe, como o Filho pródigo, da Casa Paterna, e nada lhe corre bem.

Para quem está na graça de Deus, portanto, sem pecado grave, as faltas leves e os pecados veniais vão sendo abatidos ao DEVE com boas obras: esmola, oração, sacrifícios, obras de caridade, Confissões, Missas, Comunhões, oferta do sofrimento em penitência e expiação.

Havendo pecado grave (= mortal), é preciso fazer uma boa Confissão, em que tudo o que for confessado será apagado, deixando a alma limpa e reconquistando-se o que se tinha perdido no somatório do HAVER. A alma em pecado grave tem o DEVE no máximo, deixando o HAVER no zero. Recuperando a graça, por uma boa Confissão, recupera-se todo o HAVER perdido. Mas, neste sobe e desce da balança, só Deus sabe exactamente como sobe e como desce. Para efeitos de condenação, é indiferente que se tenham muitos pecados mortais ou somente um, mesmo que seja de pensamento, de intenção. Foi este o tipo de pecado dos anjos que viraram demónios. Também é assim em alguns códigos penais terrenos, em que se apanha o máximo de 25 anos de prisão por um assassínio ou por mais, em cúmulo jurídico.

Dos textos do Apocalipse, acima referidos, parece deduzir-se que o “Livro da Vida do Cordeiro” contém os nomes daqueles que se salvarão. Mas cada alma tem também o seu “ Livro da Vida”, onde constam todas as suas obras. Lembro que Jesus dizia aos Apóstolos que os seus nomes já estavam escritos nos Céus, isto é, no Livro da Vida do Cordeiro.

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Aparições da Virgem Maria em Fátima – III

13 de Julho de 1917

O Prior de Fátima, após a 2ª Aparição (Junho), tentara demover a Lúcia de continuar a frequentar a Cova da Iria nos dias 13, porque, não tendo ainda dados que lhe permitissem concluir em definitivo sobre  o que realmente se passava com as ditas Aparições da Virgem Maria, rematou as suas opiniões e conselhos com  a sentença que apontava para uma interferência demoníaca naqueles fenómenos. Ele sabia, e hoje também ainda se sabe, que o demónio é o mestre do engano, do embuste,  da confusão, da mentira, do parecer, do fingir, etc. Os seus métodos e processos ainda não mudaram nem nunca mudarão, porque, embora tenha sido criado direito, a certa altura entortou e não mais se voltará a endireitar.

Em numerosas Aparições verdadeiras, privadas ou públicas, os videntes costumam, em primeiro lugar, dar conta dos fenómenos em que se vêem envolvidos aos seus confessores e directores espirituais, os quais estudam para aprender a discernir quando se trata de algo ou Alguém vindo do Céu ou de algum agente satânico vindo do Inferno. Por norma e por motivos de segurança, a Igreja, através dos sacerdotes e bispos, costuma ser lenta e resistente aos fenómenos de índole sobrenatural, até porque a falta de dados concretos e precisos assim o recomenda. Não é isto motivo para se censurar ou condenar a autoridade eclesiástica que tem a seu cargo ajuizar da veracidade de uma qualquer Aparição. O receio de se cair precipitadamente num juízo errado recomenda muita prudência, e prudência  é o que não falta em casos semelhantes. Além disso, ninguém é obrigado a acreditar em revelações e Aparições particulares, porque isso não faz parte do conjunto das Verdades da Fé. Normalmente, só passados muitos anos, após provas e mais provas é que a Igreja define como verdadeiras algumas, muito poucas, Aparições e revelações particulares. Aqueles que acusam Fátima, por exemplo, de  alguém ter inventado, para fins comerciais, os fenómenos que lá se desenrolaram e desenrolam, não sabem o que dizem e limitam-se pura e simplesmente a caluniar e a despejar ódio sobre Fátima e a Virgem Maria. A Igreja até nem declara santo alguém apenas por ter recebido mensagens do Céu. Isso até nem conta para os processos de beatificação e canonização. O que se passou com Santa Faustina, que foi beatificada e canonizada pela sua santidade e não pelas revelações e mensagens que recebeu de Jesus Cristo, ilustra bem tal procedimento.

Voltemos ao Prior de Fátima e ao seu encontro com a Lúcia. Esta ficara muito desanimada com a sentença final do Sr. Prior:  “ Não me parece que seja Nossa Senhora. Estou mais em crer que será o demónio, por isso, aconselho-te a não voltares à Cova da Iria nesses dias 13”.  Lúcia decidiu então que não voltaria lá, satisfazendo assim o conselho do Sr. Prior, que também encontrava eco na sua própria mãe.

Chegado o dia 13 de Julho, a Lúcia ainda estava renitente, mas à medida que a hora se aproximava, o coração batia mais fortemente e uma força interior quebrou todas as resistências. Dirigiu-se a casa do Francisco e da Jacinta e lá os  encontrou ajoelhados a rezar pela Lúcia.

Lúcia – Então, vocês não vão?

Jacinta – Sem ti nós não nos atrevemos a ir! Anda, vem!

Lúcia – Já cá vou!

Abraços, beijos e saltos de alegria selaram a decisão de Lúcia. E lá foram.

Preocupadas ficaram a D. Olímpia, o Ti Marto e a D. Maria Rosa, que resolveram avançar também um tanto secretamente, para o caso de ser alguma coisa ruim  que pusesse em perigo os seus filhos. Enquanto as mães se esconderam  numa  moita, o Ti Marto atreveu-se a ir até perto da azinheira e ficar mesmo ao lado da sua Jacintica. Assim ele o conta:

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(Do livro: ERA UMA SENHORA  MAIS BRILHANTE QUE O SOL, págs.  113-114)

 Ti Marto (Pai de Francisco e Jacinta) – “Abalei de casa resolvido, desta vez, a ver o que se passava. Quantas vezes tinha eu já dito à comadre Maria Rosa:

– Se o povo diz que estas coisas são invenções dos pais e dos padres, ninguém sabe melhor do que eu e a comadre que isso não é assim. A gente não os puxa e o Sr. Prior…olhem lá…o Sr. Prior então!… Pois ele até está na sua que podem ser coisas do demónio…E  tabulando assim, meti-me à estrada. O que já lá ia de povo!… Eu nem avistei os pequenos, mas pelo jeito que via, de vez em quando, um magote a parar no caminho, futurava que eles iam lá à frente.

Num sentido, mais me convinha vir cá atrás, mas quando cheguei lá abaixo, não me pude ter; o que eu queria era ficar pertinho deles. Mas como? Nem se podia romper. Era o poder do mundo!… A certa altura, dois fulanos, um da Ramila e o outro aqui da terra…fizeram uma roda à volta das crianças, para elas estarem mais à vontade e, ao darem ali comigo, puxam-me por um braço e dizem: “Este é o pai! Entre cá para dentro!” Fiquei mesmo rente com a minha Jacintica. A Lúcia, ajoelhada um pouco mais à frente, passava as contas e todos respondiam em voz alta. Acabado o Terço, levanta-se tão rápida que aquilo não era a força dela. Olha assim para o Nascente e grita: “Fechem os chapéus, fechem os chapéus, que já aí vem Nossa Senhora!”

Eu, por mais que olhasse, nada via. Começando então a afirmar-me, vi assim a modo uma nuvenzinha acinzentada que pairava sobre a azinheira. O sol enturviscou-se e começou a correr uma aragem tão fresquinha que consolava. Nem parecia estarmos no pino do Verão. O povo estava mudo que até metia impressão. E então comecei a ouvir um rumor, uma zoada, assim a modo como um moscardo dentro de um cântaro vazio. Mas de palavras, nada! Julgo que há-de ser assim uma coisa como quando a gente fala ao telefónio…Que eu nunca falei! Mas que é isto? – dizia cá para mim. Isto é longe ou é aqui perto?! Tudo isto, para mim, foi uma grande aprovação do milagre”.

 .

Das Memórias da Ir. Lúcia:

“Momentos depois de termos chegado à Cova da Iria, junto da carrasqueira, entre numerosa multidão de povo, estando a rezar o terço, vimos o reflexo da costumada luz e, em seguida, Nossa Senhora sobre a carrasqueira.

Lúcia – Vossemecê que me quer?

V. MariaQuero que venham aqui no dia 13 do mês que vem, que continuem a rezar o terço todos os dias, em honra de Nossa Senhora do Rosário, para obter a paz do mundo e o fim da guerra, porque só Ela lhes poderá  valer.

Lúcia – Queria pedir-Lhe para nos dizer Quem é, para fazer um milagre com que todos acreditem que Vossemecê nos aparece.

V. Maria Continuem a vir aqui todos os meses. Em Outubro direi  Quem sou, o  que quero e farei um milagre que todos hão-de ver, para acreditar.

Aqui, fiz alguns pedidos que não recordo bem quais foram. O que me lembro é que Nossa Senhora disse que era preciso rezarem o terço para alcançarem as graças durante o ano. …

V. MariaSacrificai-vos pelos pecadores e dizei muitas vezes, em especial sempre que fizerdes algum sacrifício: Ó Jesus, é por Vosso amor, pela conversão dos pecadores e em reparação pelos pecados cometidos contra o Imaculado Coração de Maria.

Ao dizer estas últimas palavras, abriu de novo as mãos, como nos dois meses passados.

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Visão do Inferno

O reflexo pareceu penetrar a terra e vimos como que um mar de fogo. Mergulhados em esse fogo, os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras ou bronzeadas, com forma humana, que flutuavam no incêndio, levadas pelas chamas que delas mesmas saíam juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em grandes incêndios, sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor…Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes como negros carvões em brasa. Assustados e como que a pedir socorro, levantámos a vista para Nossa Senhora, que nos disse com bondade e tristeza:

V. Maria – Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores; para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção ao Meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas, se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia ao Meu Imaculado Coração e a Comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a Meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz; se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja.. Os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido  ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal se conservará sempre o dogma da Fé, etc. Isto não o digais a ninguém. Ao Francisco, sim, podeis dizê-lo. Quando rezais o terço, dizei, depois de cada mistério: Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do inferno; levai as alminhas todas para o Céu, principalmente aquelas que mais precisarem.

Lúcia –  Vossemecê não me quer mais nada?

V. Maria – Não! Hoje não te quero mais nada.

E, como de costume, começou a elevar-se em direcção ao nascente até desaparecer na imensa distância do firmamento”. (Memória IV)

 .

Ezequiel Miguel

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Leituras aconselhadas:

. Memórias da Ir Lúcia – Vice-Postulação, Fátima, Portugal

. Pe João M. De Marchi (I.M.C.) – Era um Senhora mais brilhante que o sol – Edição “ Missões da Consolata”,  Fátima.

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Creio no dom do Baptismo

baptismo2Creio no dom do Baptismo:

  1. Que Jesus instituiu e deixou na Igreja como sacramento que nos faz filhos de Deus, em que o Pai nos diz:” És meu filho, em ti ponho todo o meu amor”, em que entramos na Família Divina.
  2. Em que somos ungidos e consagrados pelo Espírito Santo, ficamos criaturas novas, sacrários do divino, homens e mulheres ressuscitados em Cristo.
  3. Que nos faz entrar na Igreja, pertencer ao Corpo Místico de Cristo, ser membros vivos da Igreja Mãe, pedras vivas do Templo do Senhor, dotados da graça de ser evangelizadores.

4 . Que nos faz receber o sacerdócio comum dos fiéis e nos dá a alegria da missão de sermos profetas, santificadores e pastores, participando do sacerdócio de Jesus Cristo, vivendo Nele o dom da graça e da vida divina.

  1. Que age em nós perdoando-nos o pecado original, fazendo-nos novas criaturas, ungidos pelo óleo dos catecúmenos, sendo nascente de vida nova, fazendo-nos “cristos vivos”.
  2. Em que nos é dada a fé, simbolizada na vela acesa no Círio Pascal, onde descobrimos Jesus, Luz do mundo, Verdade Suprema, origem, fundamento e fonte da fé que nos é concedida.

7 . Em que, pela investidura da veste branca, símbolo da graça, da santidade, da pureza de vida, duma existência revestida da veste de Cristo, nos quer impulsionar a viver sempre a vida da graça e o caminho da santidade.

8 . Que, pela unção crismal, nos faz ser ungidos para a missão, para o testemunho da vida cristã, actualizando em nós, sem cessar, a graça de ser apóstolos ungidos e consagrados, em permanente estado de missão.

9 . Que faz de cada baptizado testemunha evangélica do Rabi de Nazaré; que faz ser fermento no meio do mundo, sal que transforma a sociedade e dá o sabor do divino, transformando a vida e as estruturas humanas.

10 . Pelo qual a semente da vida divina, da comunhão trinitária, da união mística, é lançada em nós, nas nossas vidas, querendo desenvolver em nós a plena transformação em Deus e com Deus.

11 . Que nos faz príncipes e princesas, irmãos e irmãs de Jesus, Rei dos reis, Senhor da Vida e do Amor, Rei e Senhor Universal, Verbo do Pai, encarnado no seio da Virgem Maria.

Dário Pedroso, s.j.

Fonte: “Correio de Coimbra” de 26 de Setembro de 2013

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Você sabe o que é a Missa ? – III

Correspondência entre a Missa e as fases da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo

Já se disse, em artigos semelhantes, que a Missa é um mistério que, como todos os mistérios que envolvem Deus, não está ao alcance da total compreensão da inteligência humana, podendo dizer-se a mesma coisa a respeito dos Santos, dos Anjos e dos demónios. Apesar disso,  temos sempre algo a aprender para melhor viver a Missa.

Na definição da Missa consta: “É o Memorial da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo,” entendendo-se por Paixão todo o sofrimento por que  passou Jesus na Agonia do Getsémani, na prisão, nos julgamentos, na flagelação e coroação de espinhos, nos insultos, cuspidelas, agressões, caminho para o Calvário, Crucifixão  e Morte. Um memorial é algo que se faz para perpetuar a memória de um acontecimento relevante ou de uma pessoa. Assim é também com o Memorial de que falamos. Mas este Memorial é mais do que isso. É também uma repetição viva da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, em que tudo acontece de novo, de uma forma mística, não cruenta, em que de novo Ele se oferece ao Pai pelas almas dos homens, derivando daí o nome de “Santo Sacrifício” que se atribui à Missa, porque Jesus se imola como a Vítima agradável ao Pai. Mesmo o Sacerdote celebrante está longe de compreender, entender cabalmente o Acto que se realiza através dele, embora não seja ele o protagonista principal, mas o próprio Cristo, Sacerdote e Vítima ao mesmo tempo e em simultâneo.

O Padre Pio de Pietralcina, frade Capuchinho italiano (25/05/1887 – 23/09/ 1968), já canonizado, foi talvez aquele a quem foi dado chegar mais fundo, mais alto e mais longe na compreensão deste  mistério da Missa e quem melhor a viveu e explicou. Assim, seguem-se as explicações contendo alguns elementos por ele fornecidos sobre os momentos da Missa que correspondem à Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo:

  1. Do sinal da cruz inicial até ao Ofertório – Com  a oração inicial, a Confissão, o Kyrie, o Glória, as leituras, o Salmo responsorial, a Homilia, o Credo, a Oração dos Fiéis, decorre a fase correspondente à estadia de Jesus no Getsémani, onde sofreu a terrível Agonia, da qual constaram a angústia, os tremores, o suor de sangue, a visão das avassaladoras ondas dos pecados humanos passados, presentes e futuros. É nesta fase da Missa que imaginamos Cristo em sua Agonia a sofrer pelos nossos pecados…Acompanhamo-Lo pela Confissão, pelo arrependimento, dizendo a todos que somos pecadores e pedindo perdão uns aos outros, a Deus, aos Anjos e aos Santos. Nas leituras, salmo, homilia, ouvimos o que Deus nos diz directamente sobre o que devemos fazer, como devemos pensar, louvar, agradecer, viver,…tudo em união com Cristo, que está lá no Getsémani intercedendo por nós. É nesta fase da Liturgia da Palavra que podemos inserir o conselho/mandamento que o Pai nos dá: “ Este é o Meu Filho muito amado. Escutai-O!”
  2. O Ofertório –  Corresponde ao oferecimento que Jesus fez de Si mesmo ao Pai (Faça-se a Tua Vontade). É a hora de confirmar o seu “Quero  continuar e seguir com isto até ao fim”! É nesta fase que se espera que façamos, à semelhança de Cristo, a oferta da nossa vida, com tudo o que ela tem de bom e de mau, oferecendo também a submissão da nossa vontade à Vontade do Pai, na disposição de fazer o que Ele manda e de aceitar tudo o que Ele permitir que nos aconteça, numa oferta total como aquela que Cristo fez ao Pai. É o momento de manifestar a Deus a nossa disposição de continuar (ou de começar) a aceitar tudo o que possa incluir-se naquele conjunto de problemas a que chamamos a cruz de cada um, nada nos impedindo, porém, de solicitar a Deus que a torne um pouco menos pesada…mas acrescentando: “Não se faça minha vontade, mas a Vossa”! É o momento de nos despojarmos de tudo o que nos afasta de Deus e do cumprimento da Sua Vontade soberana a nosso respeito. Nesta oferta vai tudo o que somos, tudo o que temos, tudo o que fazemos, as nossas intenções, as nossas fraquezas, os nossos anseios, as nossas frustrações, os nossos desejos de melhorar…, de evitar o pecado, de viver mais santamente,…e até os nossos pecados, para que sobre eles venha um sincero arrependimento que os dilua na misericórdia divina. Mas não esqueça: arrependimento sem Confissão sacramental nada garante!
  3. O Prefácio ( fase que termina no Sanctus) é o canto de louvor e agradecimento que Jesus dirige ao Pai por Lhe ter permitido chegar a esta etapa, o princípio do fim da Sua obra redentora a favor dos homens. Nesta fase da Missa unimo-nos a Cristo no Seu canto de louvor e agradecimento ao Pai por tudo o que sejam favores, auxílios, graças materiais e espirituais, provações, dificuldades, sofrimentos…enfim, tudo o que até nós chegou de bom e de mau na nossa vida. Não é costume louvarmos e agradecermos pelas horas más, mas esta é uma oportunidade de nos unirmos a Cristo, que louva e agradece pelas fases dolorosas por que passa  na Redenção dos homens.
  4. Da Oração Eucarística ( após o Sanctus) até à Consagração – é a prisão, os insultos, o julgamento, a flagelação, a coroação de espinhos, a condenação à morte, o caminho da cruz. Imagine-se um daqueles que percorrem esse caminho e veja Cristo carregando a pesada cruz na subida para o Gólgota. Imagine e tenha a certeza que Ele vai ali expiando os seus pecados e os de todos nós. A imaginação permite-nos saltar da igreja para os locais da Paixão, Morte e Ressurreição e vice-versa, sem que ninguém se aperceba disso.  Inclui-se aqui o momento de lembrar os vivos e os defuntos pelos quais o Celebrante intercede :“Lembrai-vos daqueles que… e lembrai-Vos também …” É também o momento de nós nos lembrarmos dos nossos vivos e dos nossos defuntos e de rezarmos por eles, familiares, amigos, estranhos ou inimigos que estejam ainda no Purgatório. Nada como a Missa pode aliviar e encurtar o seu terrível sofrimento pelo qual eles nada podem fazer. Tal como aos condenados ao inferno, a vontade própria (livre arbítrio) foi-lhes retirada, ficando totalmente dependentes dos meios espirituais da Igreja e seus membros que por eles intercedem. Em todas as Missas é dever nosso lembrar os nossos familiares ( e outros) do Purgatório. Um dia, eles agradecerão e intercederão em nosso favor. Sem os sufrágios da Igreja, muitas almas do Purgatório estariam lá até ao fim do mundo, tal como Nossa Senhora revelou em Fátima, na primeira Aparição, a propósito da recém falecida Amélia.
  5. A Consagração – É a própria Crucifixão, em que Jesus entrega aos homens o Seu Corpo e  o Seu Sangue, alimento vivo para as almas. Quando o Celebrante proclama: “Mistério da Fé”, a Igreja põe nas nossas bocas: “Anunciamos, Senhor, a Vossa Morte, proclamamos a Vossa e Ressurreição… !”
  6. A Elevação da Hóstia – O gesto da Elevação da Hóstia pode corresponder ao momento em que a cruz, já com Jesus crucificado, é levantada e todos O podem ver : “Eu, quando for erguido da terra, atrairei todos a Mim” (Jo  12, 32) e “Olharão para Aquele que trespassaram” (Jo 20, 37).
  7. Oração litúrgica após a Consagração – Corresponde ao tempo em que Jesus  esteve suspenso na  Cruz. Podemos vê-LO  e ouvi-LO a oferecer-nos a Sua Mãe (Filho, eis aí a tua Mãe), a entregar-nos à Sua própria Mãe ( Mãe, eis aí o Teu filho), a pedir perdão para os algozes e todos aqueles que contribuíram para aquela situação (Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem), a prometer a Dimas o paraíso (Hoje mesmo estarás Comigo no Paraíso), a  revelar a Sua sede de almas (Tenho sede), a revelar quanto Lhe custou o abandono do Pai (Pai, porque Me abandonaste?), a alegrar-se por a grande obra da Redenção ter chegado ao fim (Tudo está consumado).
  8. Por Cristo, com Cristo e em Cristo… – Corresponde ao grito de Jesus anunciando a sua morte – “ Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito”.  É o momento do Pai-Nosso, em que os homens são convidados a sentirem-se unidos como irmãos em Cristo e filhos do mesmo Pai, após o  Seu sacrifício consumado. O espírito de Cristo é oferecido ao Pai e o Seu Corpo e Sangue são oferecidos aos homens para que eles se sintam unidos entre si e reunidos ao Pai em Cristo.
  1. Quando o sacerdote parte a Hóstia – É o momento da Morte de Jesus, o momento em que o Corpo e o Sangue de Jesus se separam de vez. O Seu grito “Pai, nas Tuas mãos entrego o meu espírito” marca o momento exacto da morte. O Sangue verte-se para a terra e o Corpo é também entregue à terra. É o corte completo com a vida, a fractura, a separação do Corpo e do Sangue. É isso a Morte.
  2. Quando o sacerdote deixa cair no Cálice uma partícula da Hóstia – É o momento da Ressurreição, momento em que o Corpo e o Sangue de Cristo estão de novo reunidos no Corpo total, vivo, que vai ser comungado.
  3. Comunhão – É Cristo vivo, na Sua Alma, no seu Corpo, no seu Sangue, na sua Humanidade, na sua Divindade, a entregar-se  como alimento num banquete divino, algo que somente na Terra se oferece àqueles que se apresentam com veste branca nupcial. Recorde-se a Comunhão dada pelo Anjo de Portugal aos Pastorinhos, na Loca do Cabeço, em que da Hóstia caíam gotas de Sangue para dentro do Cálice. É o Cristo ressuscitado, vivo, inteiro, a oferecer-se como alimento das almas, Penhor de Vida Eterna para aqueles que O comem e bebem dignamente e garantia de condenação para aqueles que O comem e bebem indignamente, isto é, em pecado grave: “Quem come e bebe o Corpo do Senhor indignamente come e bebe a própria condenação, não discernindo o Corpo do Senhor” (1 Cor. 29).
  4. A Acção de Graças – É o encontro pessoal de cada um com Cristo vivo, semelhante àquele em que os Apóstolos O viram e dialogaram com Ele após a Ressurreição. É o momento de Lhe dar as boas-vindas, de louvar, pedir, agradecer, oferecer, dialogar com o próprio Deus vivo presente na alma humana.
  5. A bênção final (despedida) –  O Celebrante abençoa os fiéis com o Sinal da Cruz, porque este Sinal é um distintivo indelével que também actua como escudo protector contra a acção de Satanás. É o convite de Cristo transmitido à Madalena: “Vai e diz aos Meus irmãos que se ponham a caminho da Galileia. É lá que os espero para darem testemunho da Minha Ressurreição:…Ide…pregai, …expulsai os demónios … baptizai…em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo.” É o convite que se nos faz de viver a Missa fora da igreja e dar o testemunho que se espera de todo o fiel discípulo de Cristo.

Posto isto, quando estiver na Missa, sirva-se da imaginação e acompanhe Cristo na Sua Paixão, Morte e Ressurreição, pois ela realiza-se de novo em cada Missa, não sendo apenas uma comemoração. Se assim fizer, terá poucos motivos para se distrair e ficar à espera que a Missa acabe quanto antes… Também não se lembrará de olhar para o relógio ou de pensar no que vai cozinhar para o almoço… Mistérios são mistérios, algo que não se discute, mas se aceita ou se rejeita. É uma questão de crer ou não crer, uma questão de fé católica ou de falta dela. Viva a Missa de forma diferente e passará a apreciá-la melhor, pois nela se realiza o acto mais importante em que o Homem pode participar.

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Ezequiel Miguel

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